UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO CARLOS CENTRO DE EDUCAÇÃO E CIÊNCIAS HUMANAS - CECH PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM CIÊNCIA POLÍTICA LILLIAN LAGES LINO POLÍTICAS DE SEGURANÇA PÚBLICA NO BRASIL: UMA ANÁLISE DAS LEIS APROVADAS ENTRE 1995 E 2022 SÃO CARLOS - SP 2025 LILLIAN LAGES LINO POLÍTICAS DE SEGURANÇA PÚBLICA NO BRASIL: UMA ANÁLISE DAS LEIS APROVADAS ENTRE 1995 E 2022 Tese apresentada ao Programa de Pós- Graduação em Ciência Política da Universidade Federal de São Carlos, para obtenção do título de doutora em Ciência Política. Orientadora: Profª. Drª. Vera Alves Cepêda São Carlos - SP 2025 FICHA CATALOGRÁFICA Lino, Lillian Lages Políticas De Segurança Pública No Brasil: uma análise das leis aprovadas entre 1995 e 2022. São Paulo, 2025. 379 f. Tese (Doutorado em Ciência Política) – Universidade Federal de São Carlos, Programa de Pós- Graduação em Ciência Política, 2025. Orientador: Vera Alves Cepêda Título em inglês:Public Security Policies in Brazil: A legislative analysis of laws enacted between 1995 and 2022 Políticas Públicas. Segurança Pública. Mudanças em Políticas Públicas. Leis Ordinárias. Punitivismo. Conservadorismo. UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO CARLOS Departamento de Ciência Política Programa de Pós-Graduação em Ciência Política Folha de aprovação Assinatura dos membros da comissão examinadora que avaliou e aprovou a Defesa de Doutorado da candidata Lillian Lages Lino, realizada em __/__/2025. ___________________________________________________________________ Profª. Drª. Vera Alves Cêpeda Universidade Federal de São Carlos ___________________________________________________________________ Prof. Dr. Paulo Carlos Du Pin Calmon Universidade de Brasília ___________________________________________________________________ Prof. Dr. Moacir de Freitas Júnior Universidade Federal de Uberlândia ___________________________________________________________________ Profª. Drª. Jacqueline Sinhoretto Universidade Federal de São Carlos ___________________________________________________________________ Prof. Dr. Thales Haddad Novaes de Andrade Universidade Federal de São Carlos DEDICATÓRIA Dedico esta tese aos meus familiares e amigos, que compartilharam comigo os desafios, as alegrias e as incertezas de cursar um doutorado. Cada gesto de apoio, cada palavra de incentivo e cada presençaforam fundamentais para que eu pudesse concluir esta etapa. Dedico ao Luiz, à Aline e ao Marcus, cujo apoio constante tornou essa caminhada mais leve, mais firme e plenamente possível. Cada palavra de incentivo, cada gesto de escuta e cada presença foram fundamentais para que eu mantivesse o foco e a coragem ao longo deste percurso. A confiança que depositaram em mim — mesmo nos momentos mais desafiadores — ampliou minha força e reforçou minha convicção de que ninguém atravessa uma jornada acadêmica tão intensa sozinho. Ao Luciano, expresso minha gratidão profunda pela paciência, compreensão e suporte incondicional — uma presença firme que sustentou meus dias mais difíceis e celebrou comigo cada pequena conquista. Dedicoà Silvana e ao Luciano pai, pelo apoio generoso nos momentos em que precisei me ausentar para estudar e escrever, especialmente nos cuidados atentos à Alice, permitindo que eu me mantivesse concentrada na construção desta tese. Dedico, em especial, aos grandes amores da minha vida. À minha mãe, Iara, que não pôde ver este trabalho concluído, mas cuja força, carinho e incentivo permanecem vivos em mim e ecoam em cada etapa desta trajetória. Seu exemplo moldou não apenas minha formação, mas a pessoa e a pesquisadora que me tornei. E à Alice, minha filha, dedico estas páginas com a esperança de que, um dia, ela encontre nelas o testemunho da importância da dedicação, da curiosidade intelectual e do compromisso com a pesquisa — valores que sustentam não apenas a produção acadêmica, mas o próprio exercício da ciência como prática transformadora. Que ela saiba que cada palavra aqui escrita carrega também o desejo profundo de inspirar, pelo exemplo, o apreço pelo conhecimento e pela construção coletiva do saber. AGRADECIMENTOS Agradeço à professora Vera Cêpeda pela orientação generosa e comprometida ao longo desta trajetória. Cada encontro foi uma verdadeira aula, marcada por reflexões densas, contribuições instigantes e uma escuta sensível e qualificada. Sua capacidade de articular rigor teórico e sensibilidade analítica foi essencial para o amadurecimento deste trabalho. Seu acolhimento e dedicação foram fundamentais, ampliando não apenas minha compreensão sobre políticas públicas, mas também sobre as dinâmicas de poder, os processos de institucionalização e os conflitos que estruturam a vida política e moldam as relações entre Estado, sociedade e burocracia. Mais do que orientadora, foi interlocutora atenta e inspiração intelectual. Registro meu profundo agradecimento ao professor Paulo Calmon e à professora Jacqueline Sinhoretto, que compuseram a banca de qualificação. Suas observações rigorosas, questionamentos provocadores e sugestões substanciais foram fundamentais para o redirecionamento e o fortalecimento desta pesquisa. Suas leituras atentas me permitiram enxergar novos caminhos analíticos, e busquei incorporar ao texto, com o devido cuidado, as críticas e recomendações oferecidas. Agradeço também aos professores Moacir de Freitas Junior e Thales Haddad Novaes de Andrade por gentilmente aceitarem o convite para compor a banca de defesa. É uma honra poder contar com seus olhares experientes e distintos percursos de pesquisa. Tenho plena convicção de que suas contribuições enriquecerão sobremaneira este percurso e abrirão novas possibilidades de aprofundamento para os desdobramentos futuros deste trabalho. Este trabalho foi amadurecido ao longo de sua trajetória em diversos espaços de discussão acadêmica. Partes desta pesquisa foram apresentadas e debatidas em importantes fóruns da área, como a ANPOCS, o Encontro da Associação Brasileira de Ciência Política e o Fórum Brasileiro de Ciência Política, entre outros. Cada comentário recebido, cada parecer anônimo e cada debate travado nesses espaços contribuiu de forma decisiva para o aprimoramento das ideias aqui desenvolvidas. Sou profundamente grata a todas as pesquisadoras e pesquisadores que, direta ou indiretamente, ajudaram a fortalecer este estudo. Agradeço também às professoras e aos professores do Programa de Pós- Graduação em Ciência Política da Universidade Federal de São Carlos. Cada disciplina cursada, cada orientação metodológica e cada diálogo fora da sala de aula ampliaram meu repertório intelectual e foram fundamentais para a construção desta tese. Levo comigo não apenas o conhecimento, mas a generosidade acadêmica que encontrei ao longo do percurso. Estendo meus agradecimentos às colegas e aos colegas de trabalho da UNIFESP, cujo apoio cotidiano, incentivo constante e compreensão nos momentos de maior exigência foram essenciais para que eu pudesse seguir adiante. Por fim, reconheço que uma tese nunca é escrita de forma solitária. Ela é sustentada por muitas mãos, vozes, gestos e afetos que, ao longo dos anos, nos acompanham, nos acolhem e nos fortalecem. A todas as pessoas que fizeram parte dessa jornada — de maneira direta ou indireta — deixo registrado meu sincero e profundo agradecimento. RESUMO Desde a redemocratização, as políticas de segurança pública no Brasil passaram por sucessivas reformas legais e institucionais, impulsionadas por crises recorrentes e pela pressão social por respostas mais eficazes à criminalidade e à violência. Essas transformações refletem não apenas reações conjunturais, mas também disputas ideológicas sobre os papéis atribuídos ao Estado, à punição e à proteção na implementação de políticas públicas. Com base nesse cenário, o estudo parte do reconhecimento de que o período pós-1988 foi marcado por distintas orientações político-ideológicas, sendo delimitado para a pesquisa o recorte temporal entre 1995 e 2022. Esse intervalo abrange uma fase de relativa estabilidade democrática e três blocos de mudanças institucionais: o padrão liberal dos governos Fernando Henrique Cardoso, o padrão neodesenvolvimentista das gestões Lula e Dilma Rousseff, e o padrão de regressão democrática observado nos governos de Michel Temer e Jair Bolsonaro.Diante disso, esta pesquisa propõe investigar, a partir da tensão entre os paradigmas da punição e da proteção, como e em que direção as políticas de segurança pública foram modificadas ao longo desse período.A análise articula a tipologia dos modelos estatais de controle do crime formulada por David Garland (2001), sua aplicação ao contexto brasileiro por Azevedo e Cifali (2015) e o arcabouço das mudanças institucionais graduais desenvolvido por Streeck e Thelen (2005), sistematizado por Mahoney e Thelen (2010). Essa abordagem combinada permite não apenas identificar e classificar alterações normativas – do endurecimento penal à aprovação de políticas de prevenção e garantia de direitos –, mas também compreender como ajustes incrementais deslocam, ao longo do tempo, o eixo das políticas públicas entre racionalidades punitivas e protetivas. A pesquisa combinou dois movimentos complementares – um teórico-histórico e outro empírico –, utilizando um banco de dados com 60 leis aprovadas, que foram inicialmente analisadas quantitativamente e, posteriormente, submetidas a uma análise qualitativa de conteúdo, focando em 9 leis identificadas como políticas substantivas do campo.Emerge a tese do desalinhamento, segundo a qual a relação entre o perfil ideológico dos governos e o tipo de política adotada não é linear, o que evidencia a complexidade dos arranjos institucionais e das disputas normativas que moldam o campo da segurança pública. Não obstante, aponta que as políticas de segurança pública se alteram prioritariamente por meio de camadas. A análise procura revelar os vetores ideológicos subjacentes a essas transformações e, ao demonstrar como decisões normativas pontuais acumulam efeitos ao longo do tempo, contribui para a Ciência Política ao oferecer uma compreensão aprofundada sobre a reconfiguração do papel do Estado diante da criminalidade e da gestão da insegurança no Brasil contemporâneo. Palavras-chave: Políticas Públicas; Segurança Pública; Mudanças em Políticas Públicas; Leis Ordinárias; Punitivismo. ABSTRACT Since the redemocratization, public security policies in Brazil have undergone successive legal and institutional reforms, driven by recurring crises and social pressure for more effective responses to crime and violence. These transformations reflect not only conjunctural reactions but also ideological disputes regarding the roles assigned to the State, punishment, and protection in the implementation of public policies. Based on this context, the study recognizes that the post-1988 period was marked by distinct political-ideological orientations, delimiting the research timeframe between 1995 and 2022. This interval encompasses a phase of relative democratic stability and three blocks of institutional change: the liberal pattern during the governments of Fernando Henrique Cardoso, the neo-developmentalist pattern under Lula and Dilma Rousseff‘s administrations, and the pattern of democratic regression observed during the governments of Michel Temer and Jair Bolsonaro. In this light, this research proposes to investigate, from the tension between the paradigms of punishment and protection, how and in which direction public security policies were modified throughout this period. The analysis combines David Garland‘s (2001) typology of state models of crime control, its application to the Brazilian context by Azevedo and Cifali (2015), and the framework of gradual institutional change developed by Streeck and Thelen (2005) and systematized by Mahoney and Thelen (2010). This combined approach allows not only for identifying and classifying normative changes – from penal toughening to the approval of prevention policies and rights guarantees – but also for understanding how incremental adjustments gradually shift the axis of public policies between punitive and protective rationalities. The research integrates two complementary movements – one theoretical-historical and the other empirical – using a database of 60 approved laws, which were initially analyzed quantitatively and later subjected to qualitative content analysis, focusing on 9 laws identified as substantive policies in the field. The thesis of misalignment emerges, according to which the relationship between the ideological profile of governments and the type of policy adopted is not linear, highlighting the complexity of institutional arrangements and normative disputes shaping the public security field. Nonetheless, the study points out that public security policies primarily change through layering. The analysis seeks to reveal the ideological vectors underlying these transformations and, by demonstrating how specific normative decisions accumulate effects over time, contributes to Political Science by offering a deep understanding of the reconfiguration of the State‘s role in addressing crime and insecurity management in contemporary Brazil. Keywords: Public Policy; Public Security; Policy Change; Ordinary Legislation; Punitive Approach. LISTA DE FIGURAS Figura 1 - Atuação das políticas públicas com foco em Segurança Cidadã ... 110 Figura 2 - Índice de importância de macropolíticas na agenda decisória legislativa segundo o partido político do presidente (1985-2014) .................... 208 Figura 3 - Índice de importância das políticas setoriais para as agendas decisórias por partido político (15 maiores) entre 1984-2014 ........................... 209 Figura 4 - Classificação dos partidos políticos brasileiros em policy, office ou vote-seeking, em 2018 .......................................................................................... 211 Figura 5 - Eixos estruturantes da Política Nacional de Enfrentamento à Violência contra as Mulheres .............................................................................. 300 LISTA DE GRÁFICOS Gráfico 1 - Quantidade de estabelecimentos de Segurança Privada, no Brasil (2015 a 2022) ........................................................................................................... 70 Gráfico 2 - Quantitativo de tráfico, posse e uso de entorpecentes, no Brasil (2008 a 2022) ........................................................................................................... 75 Gráfico 3 - Situação das Propostas de Emenda à Constituição sobre segurança pública (1990 a 2015) ............................................................................................ 166 Gráfico 4 - Propostas de Emenda à Constituição submetidas na agenda do Congresso Nacional (1988 a 2015) ...................................................................... 168 Gráfico 5 - Proposições de segurança pública apresentadas por partidos políticos no Congresso Nacional (2003 a 2007) ................................................. 177 Gráfico 6 - Quantitativo de proposições legislativas, por tipo, de acordo com os indexadores (1995 a 2022) ................................................................................... 181 Gráfico 7 - Leis ordinárias aprovadas por indexador (1995-2022) ................... 182 Gráfico 8 - Número de leis de segurança pública aprovadas anualmente, conforme a soma dos indexadores (1995-2022) ................................................ 183 Gráfico 9 - Quantitativo de leis classificadas pelo indexador "Crime" (1995- 2022)....................................................................................................................... 184 Gráfico 10 - Quantitativo de leis classificadas pelo indexador "Código Penal" (1995-2022) ............................................................................................................ 185 Gráfico 11 - Quantitativo de leis classificadas pelo indexador "Polícia" (1995- 2022)....................................................................................................................... 186 Gráfico 12 - Quantitativo de leis classificadas pelo indexador "segurança pública" (1995-2022) ............................................................................................. 187 Gráfico 13 - Proposições de acordo com a autoria por Poder (Executivo/Legislativo), de 1995 a 2022 .............................................................. 202 Gráfico 14 - Número de leis propostas por tipo de poder (Senado, Câmara dos Deputados e Executivo), 1995 a 2022 ................................................................. 203 Gráfico 15 - Proposições realizadas de acordo com os partidos políticos, considerando os poderes Executivo e Legislativo (1995-2022) ....................... 206 Gráfico 16 - Origem da proposta de acordo com o instrumento legislativo (1995-2022) ............................................................................................................ 212 Gráfico 17 - Instrumentos Legislativos utilizados pelo Executivo para realizar proposições na área de Segurança Pública (1995-2022) .................................. 213 Gráfico 18 - Proposições realizadas pelo Executivo federal direcionadas aos Estados (1995-2022) ............................................................................................. 220 Gráfico 19 - Temas mobilizados na agenda das políticas de segurança pública (1995-2022) ............................................................................................................ 226 Gráfico 20 - Temas mobilizados na agenda da segurança pública distribuídos por ano (1995 a 2002) ........................................................................................... 228 Gráfico 21 - Leis de segurança pública de acordo com o Regime de Tramitação na Câmara dos Deputados ao longo dos anos (1995-2022) .............................. 240 Gráfico 22 - Quantidade de operações da Força Nacional, no Brasil (2016 a 2022)....................................................................................................................... 244 Gráfico 23 - Leis de segurança pública de acordo com o tempo de tramitação, em anos (1995-2022) ............................................................................................. 245 Gráfico 24 - Leis de segurança pública de acordo com a quantidade de legislaturas para aprovação (1995-2022) ............................................................ 247 Gráfico 25 - Leis aprovadas de segurança pública distribuídas por legislatura (1995-2022) ............................................................................................................ 248 Gráfico 26 - Despesas Realizadas com a Função Segurança Pública, em valores totais, no Brasil (2006 a 2022) ................................................................ 250 Gráfico 27 - Classificação das leis de segurança pública de acordo com o aspecto temporal no decorrer dos anos (1995-2022) ........................................ 254 Gráfico 28 - Números referentes à letalidade policial, no Brasil (2008-2022) .. 276 Gráfico 29 - Número de Policiais civis e militares mortos em serviço ou fora de serviço, no Brasil (2008-2022) ............................................................................. 277 Gráfico 30 - Quantitativo de porte ilegal de armas de fogo, no Brasil (2006 a 2022)....................................................................................................................... 279 Gráfico 31 - Quantitativo de registros de Injúria Racial, no Brasil (2017 a 2022) ................................................................................................................................ 294 Gráfico 32 - Quantitativo de registros de lesão corporal dolosa – violência doméstica, no Brasil (2016 a 2022) ..................................................................... 299 Gráfico 33 - Classificação das leis de acordo com o tipo de mudança institucional, por governo de aprovação (1995-2022) ....................................... 317 Gráfico 34 - Mudança institucional de acordo com os partidos políticos dos agentes propositores ........................................................................................... 318 Gráfico 35 - Classificação das leis de acordo com o tipo de mudança institucional, por governo de aprovação (1995-2022) ....................................... 321 LISTA DE QUADROS Quadro 1 - Tipos de Mudança Gradual ............................................................... 144 Quadro 2 - Tipos de mudanças institucionais e tipos de agentes ................... 145 Quadro 3 - Unidade de Análise ............................................................................ 197 Quadro 4 - Disposição dos Partidos Políticos propositores na área da Segurança Pública de acordo com o espectro ideológico ............................... 211 Quadro 5 - Mapa Analítico das Leis de Segurança Pública (1995–2022) ......... 268 LISTA DE TABELAS Tabela 1 - Legislação aprovada em Segurança Pública e Justiça Criminal .... 173 Tabela 2 - Legislação Aprovada em Segurança Pública e Justiça Criminal por Partido proponente da lei ..................................................................................... 174 Tabela 3 - Tipos de Punição ................................................................................. 174 Tabela 4 - Atenção média presidencial segundo partidos e tipos de macropolíticas entre 1985 e 2014 ........................................................................ 207 Tabela 5 - MPs editadas e MPs convertidas em lei, com suas respectivas médias mensais (1995-2020) ................................................................................ 215 LISTA DE SIGLAS E ABREVIAÇÕES ACF - Advocacy Coalition Framework ANC - Assembleia Nacional Constituinte CCJ - Comissão de Constituição, Justiça e de Cidadania CEDAW - Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra a Mulher CF/88 - Constituição Federal, de 1988 CICC - Centro Integrado de Comando e Controle CNV - Comissão Nacional da Verdade Covid-19 - Corona Virus Disease 2019 DEM - Democratas FHC - Fernando Henrique Cardoso FNSP - Fundo Nacional de Segurança Pública FPE - Frente Parlamentar Evangélica IRB - Instituto de Resseguros do Brasil LexML Brasil: Rede de Informação Legislativa e Jurídica LGBTQIAPN+ - Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transexuais, Travestis, Queer, Intersexo, Assexuais, Pansexuais e Não-binários e outras identidades não especificadas LSN - Lei de Segurança Nacional MARE - Ministério da Administração e Reforma do Estado MPV - Medida Provisória MST - Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra PCB - Partido Comunista Brasileiro PCC - Primeiro Comando da Capital PCdoB - Partido Comunista do Brasil PDT - Partido Democrático Trabalhista PEC - Proposta de Emenda à Constituição PFL - Partido da Frente Liberal PL - Partido Liberal PLC - Projetos de Lei Complementar PLN - Projeto de Lei do Congresso Nacional PLS - Projeto de Lei do Senado Federal PLV - Projeto de Lei de Conversão PMDB - Partido do Movimento Democrático Brasileiro PNDH - Plano Nacional de Direitos Humanos PNPM - Plano Nacional de Políticas para as Mulheres PNSP - Plano Nacional de Segurança Pública PNSPDS - Política Nacional de Segurança Pública e Defesa Social PODE - Podemos PP - Partido Progressista PPB - Partido Progressista Brasileiro PPS - Partido Popular Socialista PR - Partido da República PRB - Partido Republicano Brasileiro Proer - Programa de Estímulo à Reestruturação e ao Fortalecimento do Sistema Financeiro Nacional Programa Habite Seguro - Programa Nacional de Apoio à Aquisição de Habitação para Profissionais da Segurança Pública PRONASCI - Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania Prouni - Programa Universidade para Todos PRTB - Partido Renovador Trabalhista Brasileiro PSB - Partido Socialista Brasileiro PSDB - Partido da Social Democracia Brasileira PSL - Partido Social Liberal PSOL - Partido Socialismo e Liberdade PT - Partido dos Trabalhadores PTB - Partido Trabalhista Brasileiro PV - Partido Verde RDC - Regime Diferenciado de Contratações Públicas Rede - Rede Sustentabilidade RENAESP - Rede Nacional de Altos Estudos em Segurança Pública Reuni - Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais RICD - Regimento Interno da Câmara dos Deputados SENASP - Secretaria Nacional de Segurança SINESP - Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública SINESPJC - Sistema Nacional de Estatísticas de Segurança Pública e Justiça Criminal STF - Supremo Tribunal Federal SUSP - Sistema Único de Segurança Pública UERJ - Universidade do Estado do Rio de Janeiro SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................... 15 2 O QUE É SEGURANÇA PÚBLICA? ..................................................................... 36 2.1 SEGURANÇA: MONOPÓLIO ESTATAL E O DIREITO À VIDA COMO BASE DO PACTO POLÍTICO MODERNO ...................................................................... 37 2.2 A SEGURANÇA PÚBLICA NA TEORIA SOCIAL ............................................ 49 2.3 A TRAJETÓRIA DO TEMA DA SEGURANÇA PÚBLICA NOS TEXTOS CONSTITUCIONAIS BRASILEIROS ..................................................................... 80 2.4 A RECEPÇÃO DA SEGURANÇA PÚBLICA APÓS A CONSTITUIÇÃO DE 1988 .................................................................................................................... 106 3 O DEBATE NO CAMPO DAS POLÍTICAS PÚBLICAS ...................................... 117 3.1. PARADIGMAS DA CIÊNCIA POLÍTICA ....................................................... 117 3.2 DELIMITANDO CONCEITOS: PODER DE AGENDA E FORMAÇÃO DE AGENDA GOVERNAMENTAL ............................................................................ 121 3.3 MUDANÇA INSTITUCIONAL NOS ESTUDOS SOBRE FORMAÇÃO DE AGENDA GOVERNAMENTAL ............................................................................ 133 4 MATERIAL E MÉTODOS .................................................................................... 148 4.1 RECORTE TEMPORAL ................................................................................ 148 4.2 SOBRE OS INSTRUMENTOS LEGISLATIVOS ............................................ 163 4.2.1 Proposta de Emenda à Constituição ....................................................... 164 4.2.2 Medida Provisória .................................................................................... 168 4.2.3 Projeto de Lei Ordinária .......................................................................... 170 4.2.4 Projeto de Lei do Congresso Nacional .................................................... 179 4.3 SELEÇÃO DOS INDEXADORES DE BUSCA ............................................... 180 4.4 METODOLOGIA ............................................................................................ 187 5 RESULTADOS .................................................................................................... 200 5.1 ANÁLISE DESCRITIVA ................................................................................. 201 5.1.1 Identificação do poder autor da proposta (executivo ou legislativo) ........ 202 5.1.2 Identificação nominal e vínculo partidário do autor da proposta ............. 204 5.1.3 Origem da proposta (MPV/Projeto de Lei) .............................................. 211 5.1.4 A relação entre proposta e unidade da Federação ................................. 216 5.2 PERFIS DAS PROPOSTAS .......................................................................... 223 5.2.1 Temas mobilizados na agenda de segurança pública ............................. 224 5.2.2 Enfoque ................................................................................................... 231 5.2.3 Impacto ................................................................................................... 233 5.2.4 Fluxo e aspecto temporal ........................................................................ 237 5.3 ENQUADRAMENTO TIPOLÓGICO DAS POLÍTICAS DE SEGURANÇA PÚBLICA ............................................................................................................. 255 5.3.1 Políticas Substantivas de Segurança Pública: Recortes e Exclusões ..... 256 5.3.2 Mudanças institucionais e políticas substantivas em Segurança Pública: Garantismo vs punitivismo ............................................................................... 267 6 CONCLUSÃO ...................................................................................................... 325 REFERÊNCIAS ...................................................................................................... 337 APÊNDICE 1 .......................................................................................................... 376 APÊNDICE 2 .......................................................................................................... 378 15 1 INTRODUÇÃO Desde a redemocratização, a segurança pública no Brasil tem passado por profundas transformações legislativas, que refletem as complexas demandas sociais e políticas de um país marcado por desafios persistentes nessa área. Em um contexto de crises recorrentes e crescente pressão por respostas estatais eficazes, torna-se crucial analisar não apenas as mudanças normativas em si, mas também compreender como essas transformações se configuram institucionalmente e quais orientações ideológicas as fundamentam. Diante desse cenário, esta pesquisa propõe investigar, sob a perspectiva da tensão entre os paradigmas da punição e da proteção, de que forma e em que direção as políticas de segurança pública foram modificadas ao longo do tempo. Além disso, busca-se aprofundar o entendimento sobre os processos de mudança institucional que acompanharam tais transformações, identificando os fatores que influenciaram a configuração e a reconfiguração das políticas no período estudado. A base teórica que sustenta esta pesquisa organiza-se em duas frentes complementares. A primeira apoia-se nas contribuições de David Garland (2001), cujos estudos sobre o campo do controle do crime e os tipos de resposta estatal à criminalidade são fundamentais para compreender as orientações que estruturam as políticas de segurança pública. O autor identifica distintos modelos de resposta que expressam diferentes posicionamentos ideológicos e institucionais, revelando como os Estados reformulam suas estratégias diante das dinâmicas da criminalidade e da insegurança. Complementando essa perspectiva, destaca-se o arcabouço teórico desenvolvido por Azevedo e Cifali (2015), que mobilizam essas questões no contexto brasileiro. Na obra A Cultura do Controle, David Garland (2001) analisa as profundas transformações nos sistemas penais das sociedades americana e britânica, identificando um movimento de ruptura com o modelo de bem-estar social, conhecido como welfarismo penal. Esse modelo, vigente principalmente nas décadas do pós-guerra, priorizava abordagens reabilitadoras, preventivas e voltadas à integração social dos indivíduos, entendendo o crime como um fenômeno associado a desigualdades estruturais. A partir da década de 1970, contudo, observa-se um deslocamento significativo nas práticas e discursos penais, 16 caracterizado pela ascensão de políticas mais punitivas, orientadas pela lógica do controle, da responsabilização individual e da gestão do risco. Garland busca compreender as causas e implicações dessa mudança paradigmática, articulando-a ao contexto sociopolítico da chamada pós- modernidade, em que o declínio das estruturas tradicionais de solidariedade social, o aumento da sensação de insegurança e a emergência de novas racionalidades governamentais passam a moldar as formas de controle do crime. Para o autor, trata-se de um momento de inflexão, no qual a cultura penal se transforma profundamente, refletindo a adoção de estratégias mais repressivas e simbólicas por parte do Estado, que passa a utilizar o sistema de justiça criminal como mecanismo de reafirmação da ordem frente a ansiedades sociais difusas. Segundo Garland: O estudo se inicia com a apresentação do contraste das nossas políticas e práticas atuais com aquelas em voga até a década de 1970, e se encerra demonstrando a análise de como a dinâmica atual do controle do crime reproduz um certo tipo de ordem social nas sociedades pós-modernas. (Garland, 2001, p. 36). Com o objetivo de analisar as mudanças nessas sociedades, rompimento do estado de bem-estar e avanço para a pós-modernidade, Garland (2001) argumenta que foram geradas respostas de dois tipos: adaptativos e reativos. As adaptativas se referem a respostas administrativas que visam aumentar a capacidade de absorção do sistema ou de tornar a atuação de seus agentes mais seletiva, buscando, inclusive, os mesmos padrões de uma gestão de iniciativa privada. Na adaptação também está o compartilhamento da tarefa do controle do crime com a sociedade civil. As reativas são medidas que têm como foco o encarceramento e que se constroem com base na criminologia do outro. Nessa criminologia, há o entendimento do criminoso como algo a ser extirpado socialmente, é a máxima expressão do poder punitivo, que dramatiza os medos populares e que se constrói com base no controle, seja por meio das câmeras que estão dispostas pelas ruas, pelas cercas elétricas, seja pelo controle demográfico e urbano que segrega a população. No contexto brasileiro, além das categorias de respostas adaptativas e reativas, é necessário incluir uma terceira tipologia: as respostas garantistas. Essa classificação é desenvolvida por Azevedo e Cifali (2015), que propõem uma 17 abordagem sensível às especificidades institucionais e políticas do país. Pereira (2021) sistematiza essa linha de análise: (i) ―Respostas do tipo Reativa‖ - a partir do diagnóstico de que a saída apresentada para o problema da criminalidade não está surtindo o efeito desejado, insiste-se em mais endurecimento penal (com aumento legal das penas para certos delitos e redução de possibilidades de livramento durante o processo penal); (ii) ―Respostas Adaptativas‖ - busca inovar no sentido de gerenciamento do risco, em que o administrativismo e mecanismos tecnológicos voltado para prevenção do crime ganham espaço frente ao sistema penal; e, por fim (ii) ―Respostas Garantistas‖ - muito associado aos movimentos de direitos humanos, liberais e garantistas no contexto da América do Sul - que buscavam, justamente, a ampliação de uma agenda de direitos e garantias para o conjunto da população, muitas vezes, excluídas do processo de democratização de seus país marcados pela não efetivação de um welfarismo penal. (Pereira, 2021, p.17) Com o objetivo de compreender as tensões ideológicas mobilizadas no campo da segurança pública entre 1995 e 2022, adotamos as categorias de respostas reativas e garantistas como chave analítica para a classificação da legislação aprovada no período. Essa tipologia permite organizar e interpretar as proposições legislativas com base em suas orientações normativas e políticas, funcionando, em certa medida, como um indicador aproximado – ou proxy – das disputas entre perspectivas mais associadas à direita (caracterizadas pelo endurecimento penal) e à esquerda (associadas à ampliação de direitos e ao fortalecimento de mecanismos de controle democrático). No entanto, é importante destacar que, no recorte temporal delimitado por esta pesquisa, não é possível realizar uma classificação rigorosa das leis com base em uma dicotomia direita–esquerda. Isso porque essa polarização ideológica, tal como se consolidou no debate público nacional, adquire centralidade a partir das manifestações de 2013, quando novas clivagens políticas passam a estruturar de forma mais visível o campo legislativo e partidário. Os projetos políticos em disputa no campo da segurança pública encontraram, ao longo do período analisado, diferentes governos e conjunturas, sendo possível abordá-los a partir de distintas esferas institucionais – como o Executivo, o Legislativo, o Judiciário – ou ainda por meio da opinião pública, movimentos sociais e outras arenas. Embora não desconsideremos a relevância dessas demais instâncias, optamos, nesta pesquisa, por concentrar a análise nas esferas do Legislativo e do Executivo, por entendermos que nelas se expressam, de 18 forma estruturada e institucionalizada, os embates centrais em torno das políticas de segurança pública. O Legislativo constitui o lócus onde as demandas da sociedade civil são formalizadas e convertidas em proposições normativas, refletindo a pluralidade de representações políticas presentes na arena democrática. Trata-se de um espaço institucional em que diferentes projetos de segurança pública se confrontam, se articulam ou se neutralizam, fruto de disputas inter e intrapartidárias, bem como da atuação de coalizões e frentes parlamentares. Assim, o Legislativo permite observar como agendas sociais dispersas são internalizadas pelo Estado e transformadas em normas com potencial de reconfigurar práticas institucionais. Já a escolha pela análise do Executivo se justifica pelo seu protagonismo na formulação e implementação das políticas públicas, inclusive no campo da segurança. Em regimes presidencialistas como o brasileiro, o Executivo detém amplos recursos institucionais e políticos para propor, articular e direcionar a agenda legislativa, especialmente em áreas sensíveis como a segurança pública. Através de mensagens presidenciais, projetos de lei, medidas provisórias e estratégias de governo, o Executivo influencia diretamente a configuração das respostas estatais à criminalidade e à violência, sendo, portanto, um ator-chave na definição das diretrizes normativas e ideológicas do setor. Importa destacar que, diferentemente de parte da literatura que privilegia exclusivamente a atuação do Poder Executivo – dada sua visibilidade e influência em agendas públicas, como apontado por diversos estudos de políticas públicas e estudos legislativos –, esta pesquisa optou por não aplicar filtros quanto ao ator propositor. O objetivo foi capturar também o papel ativo do Legislativo na construção da agenda, papel este que, como observa Freitas (2013), tem ganhado relevância crescente nas proposições e no direcionamento das políticas públicas. Articulando-se à perspectiva analítica proposta por Garland (2001), esta pesquisa também se apoia nas teorias da mudança institucional gradual desenvolvidas por Streeck e Thelen (2005) e posteriormente sistematizadas por Mahoney e Thelen (2010). Essas abordagens têm sido amplamente utilizadas para compreender as transformações institucionais que ocorrem de forma incremental, em contextos marcados por estabilidade formal, mas permeados por disputas e reconfigurações internas. Ao adotar essa lente teórica, a pesquisa busca interpretar 19 as alterações nas políticas de segurança pública não como rupturas abruptas, mas como processos graduais, cumulativos e muitas vezes ambíguos. A análise das mudanças institucionais, tal como conduzida neste trabalho, insere-se no campo dos estudos de políticas públicas – área que se consolida a partir das contribuições de Harold Lasswell (1951), nos Estados Unidos, com o objetivo de investigar os processos de formulação, implementação e avaliação de políticas governamentais. Como sintetiza Dye (1984), trata-se de compreender aquilo que o governo decide fazer ou deixar de fazer. A denominada Policy Science – ou ciência das políticas públicas – foi concebida como um campo multidisciplinar voltado para o estudo do Estado em ação, reunindo aportes da ciência política, sociologia, economia, direito e administração pública (Marques; Faria, 2013; Souza, 2006). Dentro desse campo, um dos enfoques mais consolidados diz respeito ao estudo do processo das políticas públicas (policy process), amplamente desenvolvido por meio da heurística do ciclo de políticas públicas (policy cycle), que compreende as etapas de formação da agenda, formulação, tomada de decisão, implementação e avaliação (Souza, 2006). A partir da perspectiva do ciclo de políticas públicas, é possível identificar dois encaminhamentos analíticos predominantes. O primeiro concentra-se no estudo aprofundado de cada uma das etapas que compõem o fluxo tradicional do ciclo – formação da agenda, formulação, tomada de decisão, implementação e avaliação. Esse enfoque deu origem a subcampos especializados, dedicados, por exemplo, à análise da construção da policy agenda, à seleção de alternativas e à formulação de propostas, ao processo decisório, à implementação e aos mecanismos de avaliação das políticas públicas. O segundo encaminhamento, por sua vez, desloca o foco das etapas isoladas e passa a se dedicar ao estudo do processo de mudança nas políticas públicas. Essa abordagem não necessariamente compartimentaliza o ciclo em fases estanques, mas propõe uma análise mais integrativa, voltada à compreensão das dinâmicas que reconfiguram as políticas ao longo do tempo, considerando fatores institucionais, ideológicos, políticos e contextuais. Dada a natureza multidisciplinar dos estudos em políticas públicas, diferentes tradições teóricas são mobilizadas para analisar os mecanismos que explicam a mudança nesse campo. Para compreender os fatores causais que impulsionam 20 transformações nas políticas públicas, esta pesquisa dialoga com duas abordagens principais: uma centrada nas ideias e outra nas instituições. A perspectiva ideacional parte do pressuposto de que mudanças ocorrem quando há alterações nas crenças e interpretações que moldam a definição dos problemas públicos – entendidos como construções sociais resultantes de disputas discursivas e processos argumentativos. Na literatura de políticas públicas, especialmente na abordagem do ciclo, o poder de agenda é compreendido como uma forma de enquadramento que determina quais temas recebem atenção governamental e quais permanecem excluídos do debate institucional. Essa perspectiva, desenvolvida a partir das contribuições clássicas de Schattschneider (1960) e Bachrach e Baratz (2011), busca compreender os mecanismos pelos quais determinadas questões se transformam em problemas públicos e passam a demandar ação estatal, enquanto outras permanecem à margem da atenção institucional. Também se dedica a examinar o processo de construção das alternativas consideradas politicamente viáveis, investigando por que certas soluções ganham destaque no debate político e institucional, enquanto outras são descartadas. Trata-se, portanto, de entender como as escolhas temáticas e programáticas são moldadas por disputas de poder, interesses organizados e estruturas institucionais que condicionam o acesso das demandas sociais à agenda governamental. Nesse sentido, a análise da agenda governamental não se restringe às proposições que foram formalmente aprovadas, embora estas constituam um indicativo central das decisões políticas consolidadas e das correlações de força no interior do processo legislativo. O conteúdo das leis efetivamente aprovadas permite captar, com maior nitidez, as orientações normativas que lograram êxito institucional, revelando quais ideias e propostas conseguiram atravessar o ciclo decisório e transformar-se em política pública. A etapa de formação da agenda governamental, portanto, é compreendida como uma fase pré-decisória, anterior à constituição de quóruns e à efetiva votação, na qual se delineiam as disputas simbólicas e políticas em torno das definições de problemas e soluções possíveis. De maneira mais específica, a análise da agenda governamental concentra- se na atenção que diferentes atores conferem a certos temas e conteúdos de políticas públicas. Essa abordagem conecta-se ao debate contemporâneo sobre a dinâmica da atenção nos estudos de agenda, que investiga como os atores priorizam determinadas questões com base em informações oriundas de múltiplas 21 fontes e como essas prioridades moldam sua percepção do que constitui um problema – ou seja, uma questão que exige resposta institucional (Kingdon, 2003; Baumgartner; Jones, 2005). A compreensão dos processos de mudança em políticas públicas também se apoia nas chamadas abordagens sintéticas, conceito desenvolvido por John (2013), que identifica três modelos analíticos baseados na centralidade das ideias: o modelo dos múltiplos fluxos (Multiple Streams Model), formulado por John Kingdon (2003); a teoria do equilíbrio pontuado (Punctuated Equilibrium Theory), proposta por Frank Baumgartner e Bryan Jones (1993); e o modelo das coalizões de defesa o Advocacy Coalition Framework (ACF), desenvolvido por Paul Sabatier e Hank Jenkins-Smith (1993). Cada uma dessas abordagens constrói conceitos próprios e mecanismos causais para explicar como ocorrem as mudanças, concebendo a ideia – ou imagem política – como elemento central no processo de transformação. Ainda que esta pesquisa não se proponha a aplicar integralmente esses modelos, ela se apropria de conceitos-chave, como a noção de ―imagem política‖, que se refere à construção discursiva sobre determinado tema, e a ideia de ―rompimento de monopólio‖, que aponta para a entrada de novas ideias no debate público e institucional, permitindo que outras questões ingressem na agenda governamental. Não obstante, na aplicação e análise do modelo dos Múltiplos Fluxos no campo das políticas de saúde, Gottems et al. (2013, p.518) destacam os limites de sua utilização de forma isolada, sugerindo a articulação com outros "constructos teóricos que possibilitam abordar o peso das instituições, do tempo e da historicidade das mudanças políticas‖. Baumgartner e Jones (1993) e Kingdon (2003) são reconhecidos como autores de primeira geração no estudo da formação de agendas, com foco nas mudanças incrementais e nos choques exógenos que geram rupturas. A Teoria do Equilíbrio Pontuado, de Baumgartner e Jones, em especial, examina como a atenção governamental alterna entre longos períodos de estabilidade e breves momentos de mudança disruptiva – as chamadas ―pontuações‖ – provocadas por alterações externas significativas ou por reconfigurações internas nos padrões de atenção e mobilização política. A perspectiva institucional, presente em estudos mais recentes classificados como de segunda geração, como os de Streeck e Thelen (2005) e Mahoney e Thelen (2010), critica a abordagem anterior por seu foco predominante nas 22 permanências institucionais em detrimento das mudanças e transformações. Esses autores propõem que as mudanças institucionais ocorrem de forma gradual, por meio de atualizações, adaptações ou inovações incrementais que permitem distinguir continuidade e descontinuidade. Nessa vertente, o esforço analítico concentra-se em compreender como os agentes podem promover mudanças em políticas públicas por meio de estratégias que atuam dentro das limitações impostas pelas regras institucionais. Assim, as políticas públicas são vistas como instituições, pois normas e regras definem o que e como o Estado deve agir. Essa perspectiva, portanto, direciona o olhar para o conjunto de regras que moldam interações específicas e condicionam os resultados políticos. Para explicar as mudanças graduais, Streeck e Thelen (2005) e Mahoney e Thelen (2010) elaboraram uma tipologia que inclui os seguintes tipos: deslocamento (displacement), estratificação (layering), deriva (drift) e conversão (conversion). O deslocamento (displacement) se refere às mudanças no balanço de poder, na medida em que arranjos tradicionais perdem força ou são colocados de lado em favor de novas instituições e lógicas comportamentais. A mudança por camadas (layering) se refere à adição de novos elementos institucionais às instituições existentes, assim como emendas e revisões. A mudança por deriva (drift) pode parecer, em um primeiro momento, que se refere a uma estabilidade institucional automática, que estaria mais próxima do incrementalismo. A mudança por conversão (conversion) se refere a novos direcionamentos para funções, propósitos ou ideias. As perspectivas ideacional e institucional representam paradigmas distintos que oferecem diferentes abordagens para a análise das mudanças institucionais. Nesta pesquisa, adota-se uma apropriação seletiva de conceitos da perspectiva ideacional, reconhecendo seu valor para compreender os valores e crenças mobilizados em torno das políticas públicas. Contudo, privilegia-se a classificação de mudanças institucionais proposta por Streeck e Thelen (2005), por apresentar maior alinhamento com o objeto de estudo – as políticas de segurança pública –, as quais se caracterizam por poucos momentos de ruptura significativa e por alterações graduais advindas do incrementalismo, identificáveis no período analisado (1995- 2022). Ademais, entende-se que essas perspectivas não se configuram como antagônicas, podendo sua integração contribuir para uma compreensão mais abrangente dos processos de constituição e transformação das políticas públicas. 23 No que se refere ao recorte temporal, a análise teórica deste trabalho abrangeu desde o século XIX até o século XXI, compreendendo as constituições aprovadas no período. A parte empírica, por sua vez, contemplou o período de 1995 a 2022, situando-se no contexto histórico-político brasileiro que se delineou na nova república, no período após o estabelecimento da Constituição Federal, de 1988 (CF/88). Desde a promulgação da Constituição, de 1824, quando se iniciou a conformação do Estado Nacional, até 1891, o processo de consolidação do Estado Moderno no Brasil permaneceu incipiente, marcado por fragilidades na divisão dos poderes, na representatividade e nos mecanismos eleitorais. O período republicano, de 1891 a 1930, enfrentou o desafio da não consolidação de uma sociedade de classes estável e de um sistema de direitos firmemente estabelecido. A partir de 1930, com a ascensão de Getúlio Vargas, que permaneceu no poder por quinze anos, inaugurou-se uma nova etapa histórica, caracterizada por transformações significativas. Posteriormente, o golpe militar de 1964 instaurou uma ditadura que redefiniu a estrutura das políticas de segurança no país. A modernização da organização social brasileira, pautada pela disputa em torno do modelo de direitos, sofreu uma mutação fundamental com a entrada de novos atores políticos ao final dos anos 1970, culminando com a transição democrática a partir de 1984. O período entre 1984 e 1989 configura-se como a fase de construção da modernidade refletida no estabelecimento do regime democrático no Brasil. Essa etapa foi marcada pela transição política que consolidou a redemocratização e por intensos debates no Congresso Nacional sobre os rumos institucionais do país. A promulgação da CF/88 inaugurou uma dinâmica institucional e social inédita, ao firmar o país como uma democracia constitucional, introduzindo a estratégia da democracia participativa ao lado da representação eleitoral e colocando o enfrentamento da desigualdade (em suas variadas formas) como tarefa de Estado. Tal marco ressignificou a construção das políticas públicas, incluindo o campo da segurança pública, deslocando o paradigma da segurança nacional para um enfoque que reconhece a complexidade das relações internas da sociedade brasileira. A segurança passou a ser compreendida não apenas nas fronteiras, mas também no âmbito das relações sociais internas, permeadas por desigualdades e conflitos, os quais o Estado deve regular para garantir a estabilidade social. 24 As primeiras eleições após a redemocratização, em 1989, foram caracterizadas por uma acirrada polarização política. As normas infraconstitucionais oriundas da CF/88 passaram a se concretizar no período subsequente, especialmente após as eleições de 1994, com a ascensão de Fernando Henrique Cardoso (FHC) à Presidência da República, momento em que se consolidou a estabilidade econômica possibilitada pelo Plano Real e se institucionalizaram as regras do jogo democrático. A partir de 1994, o processo de redemocratização alcançou um grau de maturidade, momento em que as instituições e as dinâmicas políticas foram redesenhadas, dando lugar à rotina democrática e a um novo padrão de conflito político. Esse novo padrão, embora represente avanços institucionais significativos, não implica o abandono das heranças autoritárias ainda latentes no sistema político, conforme discutido nesta pesquisa, mas sim a emergência de um estágio distinto na fluidez dessas relações. O intervalo posterior a 1994 é caracterizado como um período de ―calma democrática‖, marcado por reformas estatais (vide propostas do Ministério da Administração Federal e Reforma do Estado [MARE] quanto à Reforma do Estado), novas modalidades de formulação de políticas públicas – inclusive participativas – e pela consolidação de um novo padrão de articulação dos controles político-sociais. Simultaneamente, esse período revela a constituição de um novo pêndulo político- ideológico, que se desdobra em três fases principais: o padrão liberal, muitas vezes indigitado como neoliberal, associado ao governo de Fernando Henrique Cardoso (1994–2003); o padrão neodesenvolvimentista dos governos do Partido dos Trabalhadores (PT), liderados por Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff (2003– 2016); e, por fim, o período recente de regressão democrática, marcado pelos governos de Michel Temer (2016–2018) e Jair Bolsonaro (2018–2022). Neste período, iniciou-se um ciclo de relativa estabilidade política que se estendeu até 2016, quando o impeachment de Dilma Rousseff marcou a volta do Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB) à Presidência, com Michel Temer. Em seguida, o cenário político evoluiu para a ascensão de Jair Bolsonaro, que fortaleceu a extrema direita no país. A estabilidade mencionada diz respeito à alternância de poder entre PT e o Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), que se manteve desde a redemocratização e foi rompida com o impeachment da ex- presidente Dilma Rousseff. Após o breve interregno do governo Temer, esse ciclo foi 25 definitivamente quebrado com a vitória de um candidato oriundo das Forças Armadas, com trajetória parlamentar discreta, apoiado por uma coalizão de partidos conservadores de menor expressão, como o Partido Social Liberal (PSL) e o Partido Renovador Trabalhista Brasileiro (PRTB) (Amaral, 2020). A 55ª Legislatura do Congresso Federal (2015–2019) foi considerada uma das mais conservadoras desde a redemocratização (DIAP, 2014), com o fortalecimento das bancadas evangélica e da ―bala‖, as quais ampliaram sua influência no debate público sobre segurança pública. Dessa forma, a escolha por dedicar atenção ao período entre 1995 e 2022 justifica-se pela diversidade dos perfis governamentais que marcaram essas décadas e pelas distintas orientações na formulação de políticas públicas, especialmente no campo da segurança pública. Trata-se de um intervalo temporal que abrange diferentes projetos político-ideológicos, refletidos nas decisões institucionais e na produção legislativa voltada ao setor. Nesse contexto, a segurança pública se tornou um dos principais vetores de disputa ideológica, expressando tanto agendas pautadas pelo fortalecimento de direitos e mecanismos democráticos (de orientação garantista), quanto propostas de viés punitivista, centradas no endurecimento penal e na ampliação do aparato repressivo do Estado. A análise desse recorte permite compreender não apenas a alternância de poder entre diferentes partidos e coalizões, mas também as continuidades e inflexões na maneira como o Estado brasileiro define e operacionaliza suas respostas diante da criminalidade e da violência. Ressalta-se que a análise foi delimitada até o ano de 2022, tendo em vista que, a partir desse período, a agenda da segurança pública passou a apresentar inflexões significativas, cujo aprofundamento exigiria um novo recorte temporal e metodológico. Conforme aponta o Anuário Brasileiro de Segurança Pública (2024), houve uma intensificação do debate público e institucional em torno do tema, acompanhado por mudanças expressivas nas dinâmicas de atuação estatal. A centralidade da segurança pública se reafirma não apenas nos dados mais recentes, mas também na movimentação legislativa, como evidencia a tramitação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança Pública atualmente em curso (Macedo, 2025). Esses elementos indicam a necessidade de investigações futuras que possam capturar os desdobramentos mais recentes e suas implicações políticas e institucionais. 26 Em síntese, a presente tese busca contribuir para o campo da Ciência Política por meio da análise das transformações nas políticas públicas de segurança no Brasil, entre 1995 e 2022. Parte-se da consideração da tensão estrutural entre os eixos da punição e da proteção para investigar como, diante de deslocamentos ideológicos significativos ao longo desse período, essas políticas se modificaram, em que direção caminharam e com quais implicações normativas e institucionais. O estudo propõe examinar as orientações assumidas pelas políticas de segurança – se marcadas por avanços garantistas ou por reforços reativos – e os sentidos políticos e ideológicos que tais mudanças expressam. Cumpre salientar que a segurança pública constitui um elemento fundamental em um Estado Democrático de Direito, cujas bases repousam em princípios jusnaturalistas, contratualistas e na centralidade da lei (sub lege). Conforme ressaltam Fontoura, Rivero e Rodrigues (2009, p. 135), é a partir da questão pública da segurança – e dos instrumentos estatais destinados à sua regulação, enfrentamento ou pacificação – que ―se pode estruturar um diagnóstico a respeito de alguns aspectos políticos, institucionais e sociais centrais‖. Nesse sentido, a segurança pública configura-se como um campo estratégico para a compreensão dos limites, contradições e possibilidades da democracia brasileira, diretamente ligada à agenda dos direitos humanos fundamentais. Apesar da ampliação significativa das pesquisas dedicadas à violência, criminalidade e atuação das forças policiais nas últimas décadas, permanece um déficit na análise das políticas públicas que moldam essas respostas. Sapori (2007, p. 110) destaca esse descompasso, observando que: identifica-se uma crescente produção acadêmica sobre a evolução da dinâmica da violência e da criminalidade no país, bem como sobre o histórico da atuação das forças policiais. No entanto, observa-se uma produção comparativamente reduzida sobre a dinâmica histórica das políticas de segurança no país. (SAPORI, 2007, p. 110) Essa lacuna evidencia a necessidade de investigações que se concentrem na estruturação institucional e na transformação normativa das políticas de segurança pública, considerando suas dimensões legais, ideológicas e operacionais. Lima, Misse e Miranda (2000, p. 55) indicam que, na virada do século, o tema começou a ser ampliado da ótica jurídica para as Ciências Sociais, ―pois é provavelmente a única esfera de atuação do Estado acerca da qual há algum 27 consenso quanto à legitimidade do monopólio, já que é uma atividade revestida de dinâmicas próprias e orientada na perspectiva da garantia da ordem‖. Desde então, as áreas de Sociologia e Antropologia têm dedicado importantes contribuições à compreensão da dimensão social, sociogeográfica e cultural da segurança pública, investigando as práticas, os grupos sociais afetados e a lógica punitivista (e suas instituições) de combate à violência em níveis macro e micro. Pesquisa realizada por Lima, Misse e Miranda (2000) indica que, entre 1995 e 2000, a maior parte dos pesquisadores voltados para ―segurança pública e criminalidade‖ estava concentrada nas Humanidades, com destaque para a Sociologia, que apresentava 35 linhas de pesquisa, seguida pela Antropologia com 16 e, por último, a Ciência Política com 14 linhas. Esta pesquisa visa compreender o objeto sob a ótica da Ciência Política, especialmente porque, para além das dimensões sociais e culturais mencionadas, as estratégias de segurança pública – suas normas, regulações legais e recursos institucionais – têm origem nos espaços estatais, atravessando os três poderes (Legislativo, Executivo e Judiciário), constituindo-se como decisões políticas e estratégias de política pública. Sobre as políticas públicas na área, Lima, Misse e Miranda (2000) dialogam com a literatura e oferecem o seguinte diagnóstico: O debate acerca das políticas públicas de segurança ainda não se distanciou muito das veementes discussões sobre como ‗exterminar‘ a violência, continuando sob a forte pressão das percepções sociais de insegurança e medo, bem como das taxas, muitas vezes crescentes, de criminalidade urbana. Trata-se, então, de considerar a temática das políticas públicas como um objeto de estudo através do qual se pode enfrentar a questão da segurança, entendida como um fenômeno complexo, que envolve grupos sociais distintos, visando o controle negociado das várias violências, às quais os diferentes grupos são submetidos, inclusive as praticadas pelo próprio Estado. (Lima, Misse; Miranda, 2000, p. 55). Paixão (1987) argumenta que as políticas públicas de segurança se dividem entre repressivas ou preventivas. Nesse sentido, Lima, Misse e Miranda (2000) observam que [...] como nem sempre estão vinculadas a políticas sociais, acaba-se por confundir, no nível do discurso, as políticas orientadas pelos direitos humanos com políticas de direitos sociais. Esta confusão explicaria a dificuldade de criação de uma cultura de direitos humanos no Brasil. (Lima; Misse; Miranda, 2000, p. 55). 28 Nesse contexto, a segurança pública desponta como um campo em expansão nas Ciências Sociais e, em especial, na Ciência Política. Como apontam Lima, Ratton e Azevedo (2021, p. 14): ―novas fronteiras estão bem delimitadas, como aquelas dedicadas pioneiramente ao estudo das prisões, e outras estão ainda em formação, como é o caso dos estudos sobre políticas de segurança pública e políticas sobre drogas‖. Trata-se, portanto, de um terreno analítico promissor para averiguar se as políticas públicas brasileiras seguem na direção da consolidação de estratégias garantistas – fundamentadas na ampliação de direitos, racionalidade institucional e prevenção – ou se permanecem inseridas em um paradigma reativo, marcado pelo punitivismo, encarceramento e repressão estatal. Do ponto de vista metodológico, esta tese apoia-se nos avanços recentes do neo-institucionalismo, em particular na vertente voltada à análise das mudanças institucionais, adotando uma abordagem mista que combina técnicas qualitativas e quantitativas (Streeck; Thelen; 2005). A pesquisa foi organizada em duas etapas complementares e que dialogam entre si. A primeira, de natureza teórica e qualitativa, baseou-se na mobilização de fontes bibliográficas, documentais e históricas. Essa etapa constituiu um esforço de sistematização teórico-analítica das áreas consideradas fundamentais para o exame da parte empírica. Parte-se do pressuposto de que uma análise empírica consistente requer ancoragem em um arcabouço teórico e histórico capaz de contextualizar e conferir densidade interpretativa aos dados. Nesse sentido, o leitor é convidado a compreender a escolha por um percurso inicial mais voltado à discussão teórica que compreendeu diferentes campos analíticos, fundamentais para a análise empírica. Essa fase teve como objetivo a construção de um referencial teórico e histórico sobre o conceito de segurança pública e sua centralidade na constituição do pacto político moderno, ancorado no monopólio estatal da força e da justiça. De forma breve foram analisadas as Constituições Brasileiras, de 1824 a 1988, bem como os principais marcos infraconstitucionais que, ao longo do tempo, moldaram os paradigmas de segurança pública no país. Nesse escopo, a segurança pública também foi abordada a partir da teoria social, com a incorporação de contribuições fundamentais para a compreensão das orientações ideológicas que informam as políticas de controle e punição. Optou-se por adotar como base teórica os trabalhos de David Garland, especialmente sua 29 obra A Cultura do Controle (2001), por sua capacidade de articular transformações sociais, políticas e institucionais no campo penal. A escolha por Garland justifica-se pelo potencial analítico de sua abordagem, que permite compreender a segurança pública como uma expressão de tensões mais amplas entre proteção e punição, bem como de disputas sobre os sentidos da ordem social em contextos democráticos. Não obstante, a pesquisa também adentra ao debate das políticas públicas, abordando de forma aprofundada os paradigmas teóricos da Ciência Política que fundamentam a análise dessas políticas. Nesse sentido, delimita-se claramente os conceitos centrais relacionados à formação da agenda governamental, bem como os processos de mudança institucional. Esses elementos estão condensados na primeira parte do trabalho, mas se articulam e se aprofundam ao longo das análises empíricas subsequentes. Não obstante, à medida que o exame do problema avança, novos elementos de natureza metodológica e teórica podem ser retomados e reanalisados, de forma a aprofundar ou ajustar a compreensão desenvolvida ao longo da pesquisa. Na segunda etapa, de natureza empírica, foram selecionadas leis ordinárias, aprovadas entre 1995 e 2022, extraídas da base da Rede de Informação Legislativa e Jurídica (LexML Brasil), utilizando o indexador ―Segurança Pública‖. A partir dessa seleção, constituiu-se um corpus com as 60 leis aprovadas que passaram por um processo detalhado de análise verticalizada. No decorrer do desenvolvimento da seção empírica, recorre-se continuamente à fundamentação teórica para interpretar os achados da pesquisa, bem como para esclarecer eventuais limitações ou lacunas nas respostas observadas. Inicialmente, realizou-se uma análise descritiva que contemplou diversos aspectos: (i) identificação do poder autor da proposta – Executivo ou Legislativo –, nomeação nominal e vínculo partidário do autor, origem da proposta – MPV ou Projeto de Lei –, bem como sua relação com a unidade da Federação; (ii) perfil da proposta, que envolveu a classificação dos temas mobilizados na agenda de segurança pública, tais como políticas substantivas, enfrentamento da criminalidade, direitos dos povos indígenas, burocracia, instituições, forças policiais, sistema prisional, questões corporativas e logísticas; além do enfoque adotado a) universal ou focal , b) impacto esperado: distributivo, redistributivo, constitutivo ou regulador, c) fluxo legislativo: incluindo o regime de tramitação [urgência ou ordinário], o tempo 30 decorrido para aprovação e a caracterização temporal da proposta (emergencial ou contínua). Na sequência, procedeu-se à análise do enquadramento tipológico das leis, considerando os tipos de mudanças institucionais propostas e os agentes de mudança envolvidos. Essa etapa permitiu identificar padrões e dinâmicas presentes nas transformações legislativas relativas à segurança pública. Por fim, em consonância com o objetivo empírico da pesquisa, foram selecionadas nove leis consideradas representativas do debate ideológico predominante no período. Essas leis, classificadas como políticas substantivas, foram analisadas profundamente para compreender as respostas institucionais assumidas, permitindo uma reflexão crítica sobre os sentidos políticos e ideológicos das mudanças ocorridas nas políticas públicas de segurança. A partir dessa abordagem metodológica, torna-se possível compreender a dinâmica da agenda governamental na área de segurança pública, observando não apenas o conteúdo das leis aprovadas, mas também os padrões institucionais e ideológicos que estruturam essas escolhas. Por meio dessa articulação entre teoria e empiria, o trabalho busca contribuir de maneira original para o campo da Ciência Política, evidenciando a segurança pública como uma arena privilegiada de disputa e construção de sentidos políticos na sociedade brasileira contemporânea. Diante desse cenário, a presente pesquisa buscou responder à seguinte pergunta central: em que medida e em qual direção as políticas de segurança pública foram modificadas no Brasil entre 1995 e 2022, à luz da tensão entre os paradigmas da punição e da proteção? Para tanto, tomou-se como objetivo geral analisar os processos de mudança institucional nesse campo, considerando a orientação ideológica das proposições legislativas. Entre os objetivos específicos, tiveram destaque a análise teórico-histórica da temática assim como o mapeamento e a classificação das leis de segurança pública aprovadas no período, a identificação dos agentes propositores e seus vínculos partidários, o enquadramento tipológico das mudanças institucionais e dos tipos de resposta formulados, bem como a avaliação dos padrões ideológicos presentes nas proposições. Questiona-se se há um alinhamento significativo entre o perfil ideológico do governo – seja ele de direita ou de esquerda – e o direcionamento das políticas públicas de segurança adotadas durante seu mandato e de que forma esse processo foi mobilizado. Essa relação problematiza em que medida as orientações 31 políticas predominantes influenciam diretamente as prioridades, estratégias e formatos das políticas implementadas, refletindo valores e concepções distintas sobre a segurança pública. Governos de esquerda, por exemplo, tendem a enfatizar políticas com enfoque garantista, pautadas na ampliação de direitos, na prevenção da violência, na promoção da justiça social e no fortalecimento dos mecanismos institucionais de controle e participação democrática. Já governos de direita frequentemente priorizam abordagens reativas, com ênfase na repressão, no endurecimento penal, no aumento do aparato policial e no encarceramento, refletindo uma visão mais punitivista e securitária. Assim, a hipótese explora como essas diferenças ideológicas se traduzem em transformações institucionais concretas, manifestas nas leis aprovadas e nas práticas normativas que conformam o campo da segurança pública. Investiga-se, portanto, em que medida as mudanças nas políticas acompanham os ciclos políticos, e como o perfil ideológico do Executivo e do Legislativo influencia o conteúdo e a orientação das políticas de segurança, indicando a existência de padrões ou rupturas no processo de formulação e implementação dessas políticas ao longo do período analisado (1995-2022). Essa análise contribui para compreender a dinâmica político-institucional da segurança pública no Brasil, revelando as tensões e disputas que permeiam a construção das respostas estatais à violência e à criminalidade. A tese está organizada em seis capítulos, começando por essa Introdução e finalizando com o último, a Conclusão. O Capítulo 2 é dedicado à construção do referencial teórico e histórico que sustenta a investigação. Nele, são apresentados os principais conceitos e definições relativos à segurança pública, discutindo-se sua centralidade como função estatal e sua condição de política pública estruturante no interior do Estado Democrático de Direito. A abordagem adota uma perspectiva multidimensional, reconhecendo a segurança pública como um campo complexo, atravessado por disputas normativas, institucionais e ideológicas. O capítulo se inicia com a discussão conceitual da segurança pública e de suas funções no pacto político moderno, articulando a literatura das Ciências Sociais com aportes da Filosofia Política e do Direito. A segurança é analisada não apenas como aparato de contenção da violência, mas como categoria política vinculada à cidadania, aos direitos fundamentais e à forma de organização do poder estatal. A 32 partir disso, são abordados os principais marcos da conformação das políticas de segurança pública no Brasil, enfatizando a passagem de um modelo autoritário para um modelo democrático, ainda permeado por tensões entre controle social e garantia de direitos. Na sequência, realiza-se um resgate histórico da maneira como a segurança pública foi institucionalizada nas constituições brasileiras, do período imperial à redemocratização. A análise abrange as Cartas de 1824, 1891, 1934, 1937, 1946, 1967 e 1988, com especial atenção ao modo como o tema foi tratado juridicamente e aos arranjos institucionais que foram sendo desenhados ao longo do tempo. Tal recorte permite identificar continuidades – como o papel central das forças policiais – e rupturas significativas, sobretudo no que diz respeito à relação entre segurança e direitos fundamentais. Com base nesse levantamento, o capítulo se estende à análise da legislação infraconstitucional produzida no período democrático (1988-2022), discutindo as orientações normativas e programáticas que passaram a estruturar o campo da segurança pública no Brasil recente. Trata-se de compreender de que forma as normas ordinárias e os programas governamentais refletem disputas políticas, reposicionamentos institucionais e influências ideológicas. Outro eixo relevante deste capítulo diz respeito à relação entre os Poderes Executivo e Legislativo na produção das políticas de segurança pública. Com base no debate sobre presidencialismo de coalizão, examina-se o papel desses atores no processo legislativo, suas dinâmicas de cooperação e conflito e os modos pelos quais ambos influenciam a formulação e aprovação de leis. Por fim, o capítulo apresenta a inserção da segurança pública no campo da teoria social, abordando diferentes tradições analíticas que tratam do tema. Nesse percurso, destaca-se a opção teórica pela obra de David Garland como eixo interpretativo. Seu trabalho fornece instrumentos analíticos robustos para compreender os rearranjos contemporâneos das políticas de controle e punição, a partir da articulação entre Estado, sociedade e cultura penal. A escolha de Garland se justifica pela sua capacidade de interpretar a segurança pública como fenômeno multifacetado, situado na confluência entre estruturas estatais, transformações culturais, práticas institucionais e expectativas sociais. O Capítulo 3 está centrado na articulação entre o campo das políticas públicas e os fundamentos da Ciência Política, com o objetivo de construir o 33 arcabouço analítico necessário para a compreensão das transformações institucionais na área da segurança pública. Neste capítulo, são discutidos os principais paradigmas que orientam a produção de conhecimento em Ciência Política – com destaque para o neoinstitucionalismo, em suas diferentes vertentes –, além da delimitação conceitual de categorias fundamentais como poder de agenda, mudança institucional e mecanismos de produção legislativa. Inicialmente, o capítulo aborda a trajetória dos estudos em políticas públicas, destacando o amadurecimento do campo e sua consolidação como subárea autônoma dentro da Ciência Política. São revisitados os modelos clássicos – como o modelo sequencial (ciclo das políticas públicas), os enfoques racionalistas e incrementalistas. A seguir, dedica-se atenção à noção de poder de agenda, entendida como a capacidade de determinados atores ou instituições influenciarem quais temas entram ou permanecem na pauta decisória. São mobilizadas as contribuições de autores como Kingdon (2003), que destaca os fluxos de problemas, soluções e política como condicionantes da abertura de ―janelas de oportunidade‖, bem como de Bachrach e Baratz (2011), ao discutirem o poder de não decisão. O capítulo também explora o conceito de agenda governamental e a disputa de sentidos em torno das escolhas que moldam a ação pública, o que se mostra particularmente relevante em temas sensíveis como segurança pública. Outro eixo central do capítulo é a discussão sobre mudança institucional, a partir do diálogo com a literatura neo-institucionalista. São mobilizadas as contribuições de autores como Mahoney e Thelen (2010) e Streeck e Thelen (2005), que problematizam a ideia de ruptura abrupta, propondo modelos de mudança incremental, gradual e ambígua. A tipologia de mecanismos como deslocamento (displacement), conversão (conversion), deriva (drift) e estratificação (layering) oferece uma base teórica robusta para compreender as transformações normativas na legislação de segurança pública ao longo do tempo, captando tanto os momentos de inflexão quanto os de continuidade disfarçada. No quarto capítulo são discutidos os materiais e métodos mobilizados. A abordagem adotada combina métodos qualitativos e quantitativos, com base na análise de 60 leis ordinárias aprovadas entre 1995 e 2022. A análise contempla tanto os aspectos descritivos da produção legislativa (atores propositores, tramitação, partidos, temas, tempo de aprovação) quanto o enquadramento 34 tipológico das leis segundo a lógica das respostas legislativas – garantistas ou reativas – e das formas de mudança institucional. Assim, o capítulo não apenas sustenta o desenho da pesquisa, como também delimita os parâmetros analíticos que orientam a interpretação empírica no capítulo seguinte. Ele cumpre o papel de estruturar o elo entre teoria e prática, fundamentando as escolhas metodológicas e justificando as categorias analíticas mobilizadas ao longo da análise das políticas públicas de segurança. Nesse escopo, o capítulo define o recorte temporal adotado, justificando sua pertinência com base nos diferentes ciclos políticos e nas inflexões ideológicas que marcam o período. Além disso, o capítulo discute os instrumentos legislativos utilizados nas proposições analisadas, com foco nas leis ordinárias, por serem o principal mecanismo de regulamentação e implementação das políticas públicas no Brasil. A escolha metodológica dos indexadores de busca utilizados para a seleção das leis também é detalhada. As proposições legislativas foram extraídas da base da LexML Brasil, utilizando-se o termos ―Segurança Pública" como indexador principal. Essa escolha visa garantir a maior abrangência possível na identificação de leis diretamente vinculadas ao tema, ao mesmo tempo em que estabelece um critério técnico replicável e sistemático. Por fim, o capítulo descreve em detalhe o movimento metodológico realizado, que combina diferentes técnicas de análise qualitativa e quantitativa, articuladas de forma complementar para possibilitar uma abordagem abrangente e rigorosa do objeto de estudo. Essa estratégia metodológica mista foi fundamental para lidar com a complexidade inerente ao campo da segurança pública e às transformações institucionais que o atravessam. No plano quantitativo-descritivo, foram analisadas 60 leis ordinárias aprovadas entre 1995 e 2022, com base em variáveis como o ator propositor (Executivo ou Legislativo), o tipo de instrumento legislativo utilizado (projeto de lei, MPV, etc.), o vínculo partidário do autor, a origem federativa da proposição, o regime de tramitação, o tempo de aprovação, o enfoque (universal ou focalizado) e o tipo de impacto (distributivo, redistributivo, regulador ou constitutivo). Essa etapa visou mapear o perfil e a dinâmica da produção legislativa na área de segurança pública. No plano qualitativo, foram aplicadas técnicas de análise de conteúdo para examinar o corpus empírico de forma mais aprofundada, delimitado a nove políticas 35 substantivas. A partir de categorias previamente definidas – como temas mobilizados (políticas substantivas, enfrentamento da criminalidade, sistema prisional, forças policiais, questões corporativas etc.) e tipo de resposta (garantista ou reativa) –, foi possível interpretar os sentidos ideológicos e normativos das proposições legislativas. Além disso, foram empregadas as categorias analíticas da literatura neo-institucionalista para classificar os mecanismos de mudança institucional presentes nas proposições. Com base nas tipologias desenvolvidas por Streeck e Thelen (2005) e Mahoney e Thelen (2010). Essa análise permitiu compreender não apenas o conteúdo das políticas, mas também a forma como as mudanças foram institucionalmente processadas ao longo do tempo. O quinto capítulo compreende os resultados e discussões, articulados com a parte teórica. Inicialmente, realiza-se uma abordagem descritiva e classificatória das proposições legislativas, considerando variáveis como autor, origem, enfoque, impacto e fluxo legislativo, visando compreender os perfis mobilizados. Em seguida, por meio do enquadramento tipológico, foram aplicadas as categorias de mudança institucional propostas pela literatura neo-institucionalista, identificando os tipos de mudança presentes no corpus empírico. Por fim, as leis foram submetidas a uma análise tipológica, com base em duas categorias principais de resposta institucional: garantista e reativa. Por fim, a conclusão. 36 2 O QUE É SEGURANÇA PÚBLICA? Para analisar as mudanças institucionais nas políticas de segurança pública ao longo do tempo, é essencial esclarecer alguns pontos: (i) a definição de segurança pública; (ii) seus principais desenhos institucionais; e (iii) a interpretação da teoria social sobre o tema. Argumentamos que, além de uma dimensão prática, presente na CF/88, em que são elencadas as instituições que garantem a ordem, a segurança pública tem base teórica, constituindo a base do Estado Democrático de Direito. É nesse sentido que, inicialmente, procuramos entender a questão da segurança como um monopólio estatal, de um lado, e a prerrogativa do direito à vida como elemento central do pacto político de criação do Estado, (jusnaturalismo e contratualismo), nucleadas no processo de fundação do Estado Moderno. Para o pensamento político moderno, nas reflexões de autores como Hobbes, Locke, Rousseau e outros, surge a concepção de que o Estado é um instrumento para controle, minoração ou extirpação do conflito social, que não pode ignorar os chamados ―direitos naturais‖, cuja vida individual é seu epicentro. Surge uma espécie de obrigação, foco nuclear, na vida pública que exige como contrapartida da legitimidade estatal que se promova a segurança privada de seus cidadãos. É longa, complexa e tensa a evolução e adaptações históricas dessa relação – monopólio estatal da justiça e da violência versus direitos individuais e diminuição de conflitos sociais (na esfera privada ou na ordem coletiva) – com respostas diferentes dados os momentos históricos, o perfil das sociedades nacionais, a mudança de concepções político-ideológicas e os valores e interesses em disputa em cada arranjo nacional. No item seguinte problematizamos o que configura uma política de segurança pública, expondo suas diferentes caracterizações na trajetória política brasileira, desde a Constituição de 1824 até a de 1988. Nessa análise, o contexto constitucional 1824-1946 é abordado brevemente, sendo a atenção dirigida para o período posterior a 1964 – momento que abre o ciclo político recente: ditadura civil- militar, redemocratização, estabilidade e regressão democrática. Entendemos que, com a ditadura civil-militar, houve uma modificação sobre a ideia de segurança pública e sua resolução, modelo que foi contestado e substituído durante a redemocratização. Em especial, com a CF/88, e, em situação de rotinização, 37 modificado parcialmente sob o influxo das mudanças governamentais, o impacto dos Planos Nacionais de Direitos Humanos e a ação das bancadas legislativas. Assim, expomos um panorama de como a política de segurança pública é constituída, mapeando seu sistema, instituições, agenda e atores. No terceiro item, sustentamos que compreender as bases estruturais das políticas de segurança pública e a organização do Estado democrático de direito exige uma análise aprofundada da relação entre os poderes Executivo e Legislativo. Essa interação institucional é fundamental, pois define os rumos da governança e da formulação de políticas voltadas à segurança pública. O exame dessas instituições e de seus principais atores se justifica pelo papel central que desempenham na construção do arcabouço legal e na definição das diretrizes políticas. Por fim, no último item, recorremos à literatura da teoria social sobre segurança pública para examinar como diferentes autores abordam essa questão. Esse levantamento bibliográfico permite uma análise comparativa das diversas perspectivas teóricas e metodológicas, fornecendo um panorama crítico sobre os principais debates acadêmicos no campo. A partir dessa base, justificamos a escolha das categorias propostas por David Garland (2001) como referência para a construção da nossa argumentação e para a formulação da resposta à questão de pesquisa, evidenciando sua relevância na compreensão dos fenômenos e políticas de segurança pública. 2.1 SEGURANÇA: MONOPÓLIO ESTATAL E O DIREITO À VIDA COMO BASE DO PACTO POLÍTICO MODERNO A literatura aponta dificuldades para a definição do conceito de segurança pública, considerando a temática com vertente mais prática, destacando o papel que as instituições ganharam na CF/88. Esse trabalho não pretende descaracterizar essa concepção institucional e prática presente na legislação brasileira, mas objetiva adentrar o conceito de Segurança Pública, considerando sua gênese atrelada ao nascimento do Estado Moderno. É nesse sentido que mobilizamos alguns argumentos na filosofia política que discutem a criação do Estado Moderno, seu monopólio do uso legítimo da violência e o próprio objetivo dessa criação, qual seja a superação do conflito e o direito à vida como princípios jusnaturalistas e base contratualista. De acordo com Herb (2013): 38 No mundo dos conceitos, o poder tem, desde o início, um concorrente: a violência. Violência (Gewalt) é derivada do verbo walten (reinar) e significa algo como ter força, dispor sobre alguma coisa ou reger. Desde então, poder e violência encontram-se em uma luta acerca da supremacia conceitual – com alguma vantagem do lado do poder. Todavia, muitas vezes eles são usados indistintamente e ocupam o mesmo campo semântico. (Herb, 2013, p. 268) Neste sentido, em uma visão conservadora da vida social, a negação da violência pode ser vista como o ideal de ordem (Luçan, 1998) ou, em uma visão progressista, a violência pode ser analisada como forma de expressar o descontentamento frente à realidade, não tendo, necessariamente, uma visão negativa (Pereira, 2000). Dois autores chamam a atenção ao colocar o conflito como parte fundante do problema político e sua superação como uma das diretrizes da ação do poder estatal: a filosofia do florentino Nicolau Maquiavel (1469-1527) e do inglês Thomas Hobbes (1588-1679). A ideia do conflito, entre homens ou entre estados (na altura e na linguagem desse texto – principados), como elemento central da instabilidade e estabilidade política, a ser controlada (e por vezes utilizada) pelo soberano aparece na famosa obra O Príncipe, escrita em 1513. Kritsch (2001) argumenta que, além da finalidade prática, O Príncipe ―é uma obra que pretende ser um pequeno tratado sobre as condições de aquisição e manutenção do poder num principado‖ (Kritsch, 2001, p. 182). A autora também aponta que, apesar das lições se dirigirem para os principados, elas podem ser estendidas para outras formas de poder e de Estados. Retomando a leitura que Althusser faz de Maquiavel, Martuscelli (2008) esclarece que: Maquiavel não pode ser classificado, de acordo com Althusser, como pertencente à tradição do direito natural, visto que sua obra não trata de um Estado já formado, mas de uma tarefa a ser cumprida: a unidade da nação italiana. Nesse sentido, ao buscar o conhecimento da prática política, Maquiavel traz-nos uma contribuição inovadora para o estudo da política, não podendo ser igualada à tradição teórica anterior aos seus escritos – a qual tratava das leis de governo; uma tradição moralizante, religiosa e idealista do pensamento político –, nem à tradição teórica posterior aos seus escritos – a qual iria tratar dos problemas de direito de um Estado nacional já constituído, ou melhor, a tradição da nova filosofia do direito natural. (Martuscelli, 2008, p. 35). 39 Coelho e Menezes (2013) esclarecem que o problema da guerra é uma preocupação constante de Maquiavel na medida em que o autor atravessa da monarquia para a república e da república para a monarquia, ―sendo a guerra uma situação limite em qualquer uma das formas de governo‖ (Coelho; Menezes, 2013, p. 130). As autoras pontuam que as guerras constituem fenômenos sociais complexos que perpassaram os séculos XX e XXI com revoluções, violências e conflitos e que Maquiavel a enxerga não como uma fatalidade histórica, mas como um fenômeno político, uma forma de conquista do Estado, não sendo possível afirmar que Maquiavel aprecia a violência em si. É necessário olhar a narrativa de Maquiavel de acordo com as circunstâncias da época, cujo fim era a construção do Estado, entendendo que a violência pode ser o instrumento para atingir esse objetivo, mas não a glória. Na obra Cadernos do Cárcere, Gramsci (1999) pontua justamente a existência de um problema político identificado por Maquiavel em que a constituição do Estado era a forma para a superação das ameaças de invasão externa na Itália, bem como a limitar conflitos internos. Essa organização do Estado constitui-se, então, com a finalidade de estabilizar os conflitos gerados pela natureza humana, que na compreensão de Maquiavel, tem a perspectiva cíclica da história em que a natureza humana se estrutura de maneira imutável e rígida (Martuscelli, 2008). Rompendo com filósofos da antiguidade e teólogos da idade média, Maquiavel expressa o desencantamento com o mundo externo e com a natureza humana, olhando o ser humano de forma profana e carregado de ambições (Herb, 2013). Diferente da realidade atual, Maquiavel escreve em outro cenário, tratando-se da monarquia, com conselhos para o príncipe e outra organização de Estado. Apesar desse deslocamento temporal, em Maquiavel já estava presente esse debate sobre a preservação do Estado com base na segurança, referida pelo autor na figura dos bons exércitos1: ―existem dois modos de combater: um, com leis; o outro, com a força. O primeiro modo é o próprio do homem; o segundo, dos animais. Porém, como o primeiro muitas vezes mostra-se insuficiente, impõe-se um recurso ao segundo‖ (Maquiavel, 2008 [1513], p. 84). A ideia geral da obra e que nos interessa é que o príncipe possui o monopólio da violência e está livre para agir (incluindo o uso da força ou de outras estratégias 1 Maquiavel (2008, p. 67) também discute sobre a constituição de outras forças como Ordens Reais da cavalaria e da infantaria, criadas por Carlos VII, pai do Rei Luís XI. 40 fora e acima da ética) para manutenção da paz pública e da manutenção do Estado, dispondo sobre o monopólio legítimo da violência. A defesa da liberdade da ação estatal, incluindo a diferenciação entre violência justa (do Estado) e injusta (privada, social ou geopolítica) vai consolidar uma percepção de segurança pública como tarefa do Estado, pautada na garantia do interesse público acima dos interesses individuais. Entendemos que, dessa obra de Maquiavel, podemos visualizar o nascimento de uma ideia-chave para o pensamento político moderno e para a teoria política moderna que remete ao seguinte: O Estado pode muito desde que regule o conflito social. Maquiavel (2008 [1513]) orienta que os príncipes prudentes devem não apenas cuidar das desordens presentes, mas também precaver-se de futuras. Ainda que haja esse cuidado, o exercício de poder, segundo Maquiavel, é sempre conflituoso (Kritsch, 2001). Não obstante, destaca as dificuldades na constituição de uma nova ordem, por carregar inimigos antigos e aqueles que faziam usufruto de privilégios: Aqueles que, como os que mencionei, fazem-se príncipes mercê das suas virtudes conquistam com dificuldade os seus principados, mas com facilidade os podem conservar. As dificuldades que enfrentam para firmar- se nascem, em parte, dos novos ordenamentos e sistemas de governo que vêem-se forçados a introduzir e que alicerçam os seus Estados e a sua segurança. Deve-se ainda considerar que não há coisa mais difícil a tratar, nem mais incerta a alcançar, nem mais arriscada a gerir que a efetiva introdução de uma nova ordem, porquanto aquele que a introduz terá por inimigos todos os que da velha ordem extraíam privilégios e por tímidos defensores todos os que das vantagens da nova poderiam usufruir. (Maquiavel, 2008 [1513], p. 26). Esse é um ponto importante para pensarmos os períodos políticos brasileiros e as transições que ocorreram, responsáveis pela criação de novas ordens institucionais. No período mais recente, tanto a redemocratização quanto a CF/88, avançaram em diversas pautas sociais, incluindo a questão da redução das desigualdades como uma tarefa do Estado, o reconhecimento de direitos diferenciais, direitos difusos e coletivos, ampliação do cânone democrático (democracia representativa somada à democracia participativa), o aumento do controle da sociedade civil sobre o Estado, e em franca sintonia com o período, o tratamento proeminente dado aos direitos humanos. No entanto, o texto constitucional final também apresentou resistências ou incompletudes, talvez em 41 decorrência do próprio contexto de incertezas que cercaram o momento histórico da Assembleia Nacional Constituinte (ANC), realizada antes do fim da transição. Voltando a Maquiavel, no quadro de estabelecimento de uma nova ordem, o autor discute como organizar, centralizar e gerir o monopólio estatal da violência sob o risco de depender das ―próprias forças‖ (nacionais, sob controle direto do soberano) ou da opção de recorrer a terceiros. A ausência de exércitos ―nacionais‖ e força conduziriam o Estado ao risco de instabilidade já que ―nada no mundo é tão instável e frágil quanto a fama de um poder que não firma-se em suas próprias forças‖. (Maquiavel, 2008 [1513], p. 68). É nesse sentido que Maquiavel sustenta que a violência bem utilizada gera ordem e segurança, entendendo que ―O oposto da ordem, raciocina Maquiavel, é a violência indiscriminada.‖ (Kritsch, 2001, p. 184) A administração civil, segundo Maquiavel, poderia ser realizada pelos magistrados pelo príncipe escolhidos, enquanto o próprio príncipe deveria se encarregar de questões de guerra, pois ―[...] os príncipes que se ocuparam mais dos deleites do que das armas perderam os seus Estados‖. (Maquiavel, 2008, p. 69). Martuscelli (2008) se refere ao entendimento de Gramsci sobre Maquiavel em que essa pauta técnico-militar não pode ser compreendida de maneira isolada, constituindo-se a base da construção política. É interessante atentar que Maquiavel não se preocupa apenas com a questão da segurança externa, e relações com a guerra, como também com a segurança interna: ―[...] um príncipe deve considerar ambas as ameaças: a interna, com origem nos súditos, e a externa, com origem nos potentados estrangeiros.‖ (Maquiavel, 2008 [1513], p. 89). Devemos ressaltar que a preocupação com a manutenção da ordem se refere à manutenção do Estado e, no caso, do próprio príncipe. Ainda assim, ao entender que a segurança é importante para a manutenção do príncipe, Maquiavel aponta a importância da ordem entre os súditos, cabendo ao príncipe garantir a sua segurança. É nesse sentido que Maquiavel defende que os fins do Estado são supremos, podendo demandar força e astúcia para sua manutenção. Kritsch (2001) assinala que, de acordo com Maquiavel: É impossível garantir a ordem pública e evitar a anarquia no corpo político sem uma autoridade estatal forte capaz de impor aos súditos seus comandos de forma irresistível. Por isso a conduta violenta dos ‗fundadores de Estado‘, reivindicada por Maquiavel, se justifica objetivamente: a criação de uma autoridade estatal forte é condição indispensável para que o Estado possa exercer sua função ordenadora e civilizadora. Essa condição 42 indispensável ao Estado, a força, seria substituída na sociedade moderna pelo direito. (Kritsch, 2001, p. 187). É latente a preocupação com os instrumentos de comando que asseguram a estabilidade do poder: as boas leis e as boas armas. O autor entende que as boas armas devem anteceder as boas leis, pois as ―armas são condição primeira de qualquer lei, pois lhe garante eficácia‖. (Kritsch, 2001, p. 183). Nas palavras do autor: [...] trata-se de saber se o Estado regido pelo príncipe é grande o bastante para poder, em caso de necessidade, defender-se com as suas próprias forças, ou se efetivamente carec