UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO CARLOS CENTRO DE CIÊNCIAS EXATAS E DE TECNOLOGIA PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ENSINO DE CIÊNCIAS EXATAS Murilo Augusto Rodrigues EDUCAÇÃO FINANCEIRA: UMA PROPOSTA DE ENSINO COM ALUNOS DO ENSINO MÉDIO. Sorocaba - SP 2024 UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO CARLOS PRÓ-REITORIA DE PÓS-GRADUAÇÃO CENTRO DE CIÊNCIAS EXATAS E TECNOLOGIA Murilo Augusto Rodrigues EDUCAÇÃO FINANCEIRA: UMA PROPOSTA DE ENSINO COM ALUNOS DO ENSINO MÉDIO. Dissertação apresentada ao Programa de Pós- Graduação em Ensino de Ciências Exatas para obtenção do título de Mestre em Ensino de Ciências Exatas. Orientador: Prof. Dr. Rogério Fernando Pires Sorocaba - SP 2024 À minha adorada esposa, Fabiana, pela força, compreensão e amor inabaláveis que sustentaram minha jornada acadêmica. Seu apoio constante e sua fé em mim foram o combustível que me impulsionou a seguir em frente, mesmo nos momentos mais desafiadores. Ao meu querido filho, Arthur, cuja presença é uma fonte constante de alegria e motivação. Que este trabalho sirva como um testemunho do valor do esforço e da perseverança na busca de nossos sonhos e objetivos. Aos meus pais, Inácio e Leonice, pelo carinho e educação excepcionais. Sua crença inabalável em meu potencial e os sacrifícios que fizeram por mim foram fundamentais para alcançar este marco. Agradeço profundamente pelos valores que me transmitiram e pelo apoio incondicional. Ao meu orientador, Prof. Dr. Rogério, pela orientação meticulosa e pela sabedoria compartilhada ao longo desta jornada. Sua dedicação e empenho foram essenciais para a realização deste trabalho, e sou extremamente grato pelos conselhos e suporte que me ofereceu. AGRADECIMENTOS Gostaria de expressar minha profunda gratidão à minha família, cuja presença e apoio constante foram pilares fundamentais durante toda a minha trajetória acadêmica. Sem o incentivo e o amor deles, não teria conseguido superar os desafios desta jornada. Aos amigos que acompanharam e sustentaram minha vida estudantil e acadêmica, oferecendo sempre palavras de encorajamento e momentos de descontração. Um agradecimento especial aos colegas dos cursos de pós-graduação PPGECE e PROFMAT, com quem compartilhei uma experiência rica e transformadora. Aos professores que moldaram minha formação ao longo dos anos, desde a Educação Básica até o mestrado. Sua dedicação e inspiração foram cruciais para meu crescimento intelectual e pessoal. Um agradecimento particular aos docentes do mestrado, por sua paciência e pelos ensinamentos que enriqueceram minha experiência acadêmica. Por último, gostaria de reconhecer o apoio do diretor da escola onde atuo, que foi fundamental para a concretização deste mestrado, especialmente na aplicação da sequência de ensino desenvolvida. Seu suporte foi decisivo para a realização deste trabalho e para o sucesso da minha pesquisa. A aprendizagem é mais significativa quando motivamos os alunos intimamente, quando eles acham sentido nas atividades que propomos, quando consultamos suas motivações profundas, quando se engajam em projetos para os quais trazem contribuições, quando há diálogo sobre as atividades e a forma de realizá-las. (Bacich; Moran, 2018, p. 43). RESUMO RODRIGUES, Murilo Augusto. Educação Financeira: Uma proposta de ensino com alunos do Ensino Médio. 2024. Dissertação (Mestrado em Ensino de Ciências Exatas) – Universidade Federal de São Carlos, campus Sorocaba, Sorocaba-SP, 2024. Este estudo teve como objetivo analisar as contribuições de uma sequência de ensino sobre educação financeira, pautada na realidade do mercado, aplicada a alunos do Ensino Médio nas aulas de eletivas. A proposta consistiu em implementar a educação financeira, integrada a experiências práticas e metodologias ativas, visando o desenvolvimento de competências financeiras significativas nos alunos, preparando-os para tomar decisões financeiras informadas e conscientes. O estudo foi realizado em uma Escola Estadual do Programa de Ensino Integral, localizada em São Miguel Arcanjo, no interior de São Paulo, com uma turma de 25 alunos, dos quais 17 participaram da pesquisa. Baseando-se nas teorias de Freire, Ausubel, Vygotsky e Kolb, que defendem a educação como um processo de emancipação, reflexão crítica e contextualização, a pesquisa integrou a educação financeira ao currículo como uma disciplina eletiva. Foram utilizadas metodologias ativas, como sala de aula invertida, gamificação e simulações, para promover um aprendizado engajado e significativo. Essas estratégias permitiram que os alunos aplicassem os conhecimentos teóricos em situações práticas, como a simulação de uma agência bancária, o que resultou em um aumento no engajamento e na compreensão dos conceitos financeiros. A coleta de dados ocorreu ao longo de 12 encontros, com 90 minutos cada, registrados por meio de diários de bordo, onde os alunos expressaram suas percepções e interações com as atividades. A análise dos dados, realizada por meio de categorização, revelou temas recorrentes, como a importância de uma abordagem personalizada na educação financeira, ajustada ao perfil socioeconômico dos alunos. A sequência de ensino foi dividida em duas etapas: na primeira, de sondagem, foram analisados os conhecimentos anteriores dos estudantes para identificar suas percepções iniciais e pontos de partida, assegurando que o ensino estivesse alinhado às suas realidades. A segunda etapa tinha como objetivo expandir os horizontes dos alunos por meio de uma educação conscientizadora nas atividades propostas, capacitando-os a utilizar a educação como um meio para alcançar ascensão social. Os resultados indicaram que a combinação de metodologias ativas e reflexivas, aliadas a uma abordagem freiriana, promoveu o desenvolvimento de competências financeiras e o pensamento crítico nos alunos. Atividades práticas, como visitas de campo e simulações financeiras, foram altamente valorizadas pelos estudantes. A integração da comunidade escolar nas atividades, como a simulação de atendimento bancário, reforçou a importância prática do conhecimento financeiro e contribuiu para um aprendizado significativo. Em conclusão, o estudo demonstrou que a educação financeira deve ser considerada um componente essencial do currículo escolar, desempenhando um papel fundamental na formação integral dos alunos. A inserção desse conteúdo vai além da capacitação técnica, contribuindo para o desenvolvimento de competências socioemocionais e preparando os jovens para enfrentar desafios financeiros de maneira informada e responsável. A eletiva "A Construção do Seu Sonho Começa Aqui!" provou ser eficaz ao capacitar os alunos, oferecendo-lhes ferramentas para se tornarem agentes de mudança em suas comunidades e contribuírem para uma sociedade mais justa. Palavras-chave: Educação Financeira. Metodologias Ativas. Integração Curricular. Atividades Práticas. Competências Socioemocionais. Paulo Freire. Conscientização Crítica. Abordagem Pedagógica. ABSTRACT RODRIGUES, Murilo Augusto. Financial Education: A Teaching Proposal for High School Students. 2024. Dissertation (Master’s Degree in Teaching of Exact Sciences) – Federal University of São Carlos, Sorocaba campus, Sorocaba-SP, 2024. This study aimed to analyze the contributions of a sequence of financial education instruction, grounded in market realities, applied to high school students in elective courses. The approach involved implementing financial education integrated with practical experiences and active methodologies, with the goal of developing meaningful financial competencies in students, thereby preparing them to make informed and conscious financial decisions. The study was conducted at a State School of the Integral Education Program, located in São Miguel Arcanjo, São Paulo, with a class of 25 students, 17 of whom participated in the research. Based on the theories of Freire, Ausubel, Vygotsky, and Kolb, which advocate for education as a process of emancipation, critical reflection, and contextualization, the research integrated financial education into the curriculum as an elective subject. Active methodologies such as flipped classroom, gamification, and simulations were used to promote engaged and meaningful learning. These strategies allowed students to apply theoretical knowledge in practical situations, such as simulating a bank agency, resulting in increased engagement and understanding of financial concepts. Data collection occurred over 11 sessions, each lasting 90 minutes, recorded through logbooks where students expressed their perceptions and interactions with the activities. Data analysis, through categorization, revealed recurring themes such as the importance of a personalized approach to financial education, adjusted to the socioeconomic profile of students. The research was divided into two stages: the first, exploratory, analyzed students' prior knowledge to identify their initial perceptions and starting points, ensuring that teaching was aligned with their realities. The second stage aimed to broaden students' horizons through awareness-raising education in the proposed activities, empowering them to use education as a means to achieve social advancement. The results indicated that the combination of active and reflective methodologies, coupled with a Freirean approach, promoted the development of financial competencies and critical thinking in students. Practical activities, such as field trips and financial simulations, were highly valued by the students. The integration of the school community in activities, such as simulating bank service, reinforced the practical importance of financial knowledge and contributed to meaningful learning. In conclusion, the study demonstrated that financial education should be considered an essential component of the school curriculum, playing a fundamental role in the comprehensive development of students. The inclusion of this content goes beyond technical training, contributing to the development of socio-emotional competencies and preparing young people to face financial challenges in an informed and responsible manner. The elective "The Building of Your Dream Starts Here!" proved to be effective in empowering students, providing them with tools to become agents of change in their communities and contribute to a fairer society. Keywords: Financial Education. Active Methodologies. Curricular Integration. Practical Activities. Socioemotional Competencies. Paulo Freire. Critical Awareness. Pedagogical Approach. LISTA DE FIGURAS Figura 4.1 – Registro retirado do diário de bordo do estudante Bravo, sobre a primeira atividade..............................................................................................................................43 Figura 4.2 – Capa do Glossário de “Economiquês” elaborado pelos estudantes................45 Figura 4.3 – Print da primeira nuvem de palavras produzida pelos estudantes..................46 Figura 4.4 – Registro retirado do diário de bordo do estudante Charlie, sobre a atividade “Conhecendo o aluno”.........................................................................................................51 Figura 4.5 – Registro retirado do diário de bordo do estudante Delta, sobre a atividade realizada no terceiro encontro.............................................................................................55 Figura 4.6 – Modelo do controle de gastos mensal, entregue aos estudantes.....................56 Figura 4.7 – Modelo da atividade intitulada “Desejo ou Necessidade”, entregue aos estudantes............................................................................................................................58 Figura 4.8 – Registro retirado do diário de bordo da estudante Hotel, sobre a atividade “Desejo ou Necessidade”....................................................................................................60 Figura 4.9 – Registro retirado do diário de bordo do estudante Bravo contento suas impressões sobre a atividade “Desejo ou Necessidade”.....................................................61 Figura 4.10 – Registro retirado do diário de bordo do estudante Foxtrot contento suas impressões sobre a atividade “Desejo ou Necessidade”.....................................................62 Figura 4.11 – Capa e tópicos da apresentação do grupo I...................................................69 Figura 4.12 – Capa e tópicos da apresentação do grupo II.................................................70 Figura 4.13 – Capa e tópicos da apresentação do grupo III................................................71 Figura 4.14 – Capa e tópicos da apresentação do grupo IV................................................72 Figura 4.15 – Capa e tópicos da apresentação do grupo V.................................................73 LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS ABNT – Associação Brasileira de Normas Técnicas BNCC – Base Nacional Comum Curricular CDB – Certificado de Depósito Bancário CVM – Comissão de Valores Mobiliários ENEF – Estratégia Nacional de Educação Financeira et al. – e outros FEBRABAN – Fеdеração Brasilеira dе Bancos GEDUC – Gestão Educacional JICA – Agência de cooperação Internacional do Japão LCA – Letra de Crédito do Agronegócio LCI – Letra de Crédito Imobiliário LDB – Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional OCDE – Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico PCNEM – Parâmetros Curriculares Nacionais do Ensino Médio PISA – Programa Internacional de Avaliação de Estudantes PPGECE – Programa de Pós-Graduação em Ensino de Ciências Exatas PPP – Projeto Político Pedagógico PROFMAT –Mestrado Profissional em Matemática UFSCar – Universidade Federal de São Carlos UNESCO – Organização das Nações Unidas para Educação, a Ciência e a Cultura SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO............................................................................................................... 13 2 REFERENCIAL TEÓRICO.......................................................................................... 17 2.1 EDUCAÇÃO FINANCEIRA........................................................................................ 19 2.2 EDUCAÇÃO FINANCEIRA NA BNCC...................................................................... 21 2.3 EDUCAÇÃO FINANCEIRA NO PROGRAMA INOVA............................................ 23 2.4 AS METODOLOGIAS ATIVAS NO ENSINO............................................................ 25 2.5 EDUCAÇÃO FINANCEIRA: UMA DISCUSSÃO A PARTIR DAS IDEIAS DE PAULO FREIRE.................................................................................................................. 27 3 METODOLOGIA........................................................................................................... 31 3.1 DESENHO DO ESTUDO............................................................................................. 33 3.2 INSTRUMENTOS DE COLETA DE DADOS............................................................. 36 3.3 PROCEDIMENTOS PARA ANÁLISE DE DADOS................................................... 38 4 RESULTADOS................................................................................................................ 40 4.1 CONHECIMENTOS ANTERIORES: CONSIDERÁ-LOS OU DESPREZÁ-LOS .... 42 4.2 DESPERTANDO CONSCIÊNCIAS: ILUMINANDO MENTES PARA UMA VIDA FINANCEIRA PLENA............................................................................................. 53 4.3 RUMO À REFLEXÃO: EXPLORANDO NOVOS HORIZONTES............................ 64 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS......................................................................................... REFERÊNCIAS................................................................................................................. APÊNDICE A – Potencialidades turísticas do município de São Miguel Arcanjo-SP APÊNDICE B – Modelo do Diário de Bordo entregue aos estudantes......................... APÊNDICE C – Glossário de “Economiquês” na íntegra............................................ 77 85 89 92 99 13 1 INTRODUÇÃO Debates sobre a educação financeira tornaram-se um assunto recorrente e de crescente relevância, não apenas no ambiente escolar, mas também em diversas plataformas midiáticas, como jornais, revistas, programas de rádio e televisão. Esses debates frequentemente abordam temas relacionados ao uso consciente do dinheiro e ao endividamento das pessoas, refletindo uma preocupação generalizada com a falta de preparo financeiro da população. O crescimento desse tipo de discussão reflete a importância da educação financeira na vida das pessoas, demonstrando que ela não pode ser negligenciada e deve ser introduzida desde a tenra idade. A escola, por sua natureza formadora, foi identificada como o ambiente ideal para iniciar e desenvolver esses diálogos, já que as crianças e adolescentes de hoje serão os adultos que, em breve, influenciarão diretamente a economia do país. A motivação para este estudo emergiu da necessidade imposta pela nova política educacional estabelecida pela Base Nacional Comum Curricular (BNCC). A BNCC, implementada a partir de 2017, determinou que todas as escolas deveriam incluir a educação financeira em suas grades curriculares. Essa inclusão não exigia necessariamente a criação de uma disciplina específica; ao contrário, a educação financeira poderia ser abordada de maneira transversal, integrada a outros componentes curriculares, como Geografia e Matemática. No entanto, apesar da obrigatoriedade, observou-se que as mudanças práticas relacionadas a essa temática ainda são incipientes e pouco perceptíveis no contexto educacional atual. A inclusão de novos temas transversais, como a educação financeira, responde à necessidade de adequar a educação às demandas contemporâneas da sociedade, promovendo um espaço escolar que não apenas prepare os alunos para o mercado de trabalho, mas que também forme cidadãos conscientes, críticos e responsáveis. A escola, portanto, precisa ser um espaço de cidadania, comprometido com a construção de uma sociedade mais justa e equitativa. Para isso, é necessário que a prática educacional seja orientada para a compreensão profunda da realidade social e dos direitos e responsabilidades que cada indivíduo carrega em relação à vida pessoal, coletiva e ambiental e as relações entre o ensino e a aprendizagem digital deverão prever técnicas, ferramentas e recursos digitais que fortaleçam os papéis de docência e aprendizagem do professor e do aluno, criando espaços coletivos de mútuo desenvolvimento. (BRASIL, 1996, p. 15). A minha experiência profissional anterior desempenhou um papel crucial na compreensão da relevância da educação financeira. Entre 2008 e 2018, trabalhei como 14 bancário na Caixa Econômica Federal no interior de São Paulo, onde presenciei inúmeros casos de clientes que poderiam ser classificados como analfabetos financeiros. Esses indivíduos, apesar de terem acesso a serviços bancários, demonstravam uma profunda falta de conhecimento em relação a conceitos básicos de finanças, o que frequentemente resultava em endividamento excessivo e em más decisões financeiras. Como observado por Rochman (2009, p. 16), “... o grau de desconhecimento não se restringe ao mercado de capitais, mas também a conceitos básicos de matemática financeira. Para citar um exemplo, muitas pessoas acreditam que varejistas de eletrodomésticos financiam seus produtos a juros zero”. Esse desconhecimento reflete-se na incapacidade de realizar operações bancárias simples sem ajuda, como diferenciar empréstimos de financiamentos, analisar opções de investimentos ou entender termos financeiros fundamentais, como inflação, déficit e taxas de administração. Pesquisas realizadas por Potrich, Vieira e Kirch (2014) revelaram que a educação financeira está intimamente ligada ao desenvolvimento de habilidades que permitem tomadas de decisões mais acertadas em relação às finanças pessoais. Por outro lado, a alfabetização financeira refere-se à capacidade do indivíduo de aplicar os conhecimentos adquiridos em situações práticas do dia a dia. Silva Neto (2015) complementa essa visão, destacando que, embora os termos “alfabetização financeira” e “educação financeira” sejam frequentemente usados como sinônimos, eles possuem significados distintos. A educação financeira, nesse contexto, está contida dentro da alfabetização financeira, que pode ser apresentada em diferentes níveis de profundidade e complexidade. O total desconhecimento e a inabilidade em questões financeiras, como o gerenciamento de um orçamento doméstico, a administração de dívidas ou a avaliação de produtos de crédito e investimento, caracterizam o que se denomina analfabetismo financeiro. No cenário educacional, a escola é reconhecida como o espaço privilegiado para a formação integral do cidadão, aquele que transformará o meio em que vive e contribuirá para o desenvolvimento de uma sociedade mais equilibrada e consciente. Nesse sentido, é relevante mencionar a iniciativa do governo de São Paulo, que em 2019 lançou o programa Inova Educação, com a intenção de conectar as escolas à realidade dos estudantes a partir de 2020. Esse programa inovador introduziu disciplinas como projeto de vida, tecnologia e eletivas, permitindo aos estudantes uma maior liberdade na escolha de suas áreas de interesse, além de diversificar e enriquecer as experiências escolares. As eletivas, por serem disciplinas de livre escolha e de caráter semestral, permitem uma maior flexibilidade curricular, alinhando-se aos projetos de vida dos estudantes e ao Projeto Político Pedagógico (PPP) das 15 escolas, ao mesmo tempo em que incentivam a autonomia e a capacidade de decisão dos alunos. Nosso trabalho segue a linha construtivista de Freire, que vê a educação como um processo contínuo de formação de cidadãos críticos e pensantes. Freire defende que a educação deveria respeitar e valorizar as experiências de vida dos alunos, reconhecendo que cada indivíduo traz consigo uma bagagem única, formada por suas vivências, cultura e história. Dessa forma, ele argumenta que os alunos não são telas em branco; ao contrário, são seres humanos complexos, com conhecimentos anteriores que devem ser considerados e respeitados no processo de aprendizagem. O papel do professor, portanto, não é apenas transmitir conhecimentos, mas também facilitar o acesso à informação e criar um ambiente propício para que os alunos possam construir seu próprio conhecimento, contextualizando-o em suas realidades. Em consonância com essa visão, este trabalho propôs a inclusão da educação financeira nas disciplinas eletivas, desenvolvendo e aplicando uma sequência de ensino específica, baseada em atividades que abordassem noções e conceitos financeiros fundamentais. Após a discussão de temas centrais para a vida adulta, foi elaborada uma sequência de ensino focada em três pilares temáticos: planejar o uso dos recursos financeiros, poupar ativamente e gerenciar o uso do crédito. A aplicação dessa sequência permitiu que os estudantes refletissem sobre suas práticas financeiras e adquirissem conhecimentos essenciais para sua futura vida financeira. A educação financeira nas escolas não é apenas uma recomendação pedagógica, mas uma necessidade social imperativa. A falta de letramento financeiro impacta profundamente tanto a vida individual quanto a vida coletiva, influenciando diretamente a maneira como as pessoas lidam com o consumo e com os recursos financeiros e materiais. A inclusão desse tema nas aulas responde à demanda contemporânea por uma formação escolar que não se limite aos conteúdos tradicionais, mas que também capacite os alunos para enfrentar os desafios financeiros do mundo moderno. Dessa forma, a educação financeira torna-se um pilar essencial na escolarização dos estudantes, especialmente nos níveis fundamental e médio. Para o desenvolvimento das atividades educacionais propostas, optou-se pela utilização de metodologias ativas, entre elas a sala de aula invertida. Essas metodologias ativas, conforme destaca Moran (2018), “são processos que envolvem a participação ativa dos alunos na construção do conhecimento, privilegiando a autonomia e o protagonismo dos 16 estudantes, que passam a ser os agentes principais do seu processo de aprendizagem”. A sala de aula invertida, em particular, apresenta-se como uma estratégia inovadora que combina atividades online e offline, promovendo um ambiente de aprendizagem dinâmico e mais alinhado aos interesses e preferências dos estudantes. Essa abordagem não apenas desenvolve a criatividade e a autonomia dos alunos, mas também contribui para o protagonismo juvenil, incentivando-os a tomar decisões mais informadas e a participar ativamente de seu processo educativo. Assim, o objetivo desta pesquisa foi analisar as contribuições de uma sequência de ensino sobre educação financeira, pautada na realidade do mercado, aplicada a alunos do Ensino Médio nas aulas de eletivas. O trabalho foi dividido em três etapas iniciais, incluindo o estudo aprofundado da metodologia ativa da sala de aula invertida, a análise de sua viabilidade para estudantes rurais que não têm acesso à internet, e a avaliação do impacto da educação financeira na formação cidadã em escolas públicas. A implementação da sequência de ensino em sala de aula foi dividida em duas etapas. A primeira etapa focou na sondagem dos conhecimentos anteriores dos alunos, enquanto a segunda concentrou-se na capacitação dos estudantes para que pudessem almejar novos horizontes. Além disso, a pesquisa visou avaliar os resultados obtidos e a potencial replicabilidade da abordagem em diferentes contextos educacionais. 17 2 REFERENCIAL TEÓRICO A fundamentação teórica é baseada nas regulamentações vigentes no Brasil como a Lei 9.394/96, Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), que, no seu art. 35-A, determina que: § 7º - Os currículos do Ensino Médio deverão considerar a formação integral do aluno, de maneira a adotar um trabalho voltado para a construção de seu projeto de vida e para sua formação nos aspectos físicos, cognitivos e socioemocionais. Realçando a relevância da formação integral do indivíduo, que inclui os aspectos relacionados à educação financeira. Nesse contexto, a educação financeira, pode ser abordada como um componente essencial para o desenvolvimento pleno do cidadão, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho. A discussão acerca da educação financeira na escola pretende aprimorar as competências e conhecimentos necessários aos estudantes para lidar de maneira consciente e responsável com os aspectos financeiros de sua existência. Nos Parâmetros Curriculares Nacionais do Ensino Médio (PCNEM), (BRASIL, 2000, p.59) ressaltam que: [...] a escola deve contribuir para a constituição de uma cidadania de qualidade, cujo exercício reúna conhecimentos e informações a um protagonismo responsável, para exercer direitos que vão muito além da representação política tradicional: emprego, qualidade de vida, meio ambiente saudável, igualdade entre homens e mulheres, enfim, ideais afirmativos para a vida pessoal e para a convivência. A interdisciplinaridade é ressaltada, integrando conceitos de matemática, economia e ciências sociais, abordando temas como orçamento pessoal, investimentos e compreensão do sistema econômico, o que pode contribuir com a formação integral do estudante, incluindo estudos de caso, simulações e atividades práticas que poderão enriquecer a aprendizagem, proporcionando aos alunos experiências concretas relacionadas à gestão financeira. A contextualização com a realidade socioeconômica do país também é relevante, permitindo que os estudantes compreendam as consequências das decisões financeiras. A BNCC enfatiza que a Educação Básica deve: Visar à formação e o desenvolvimento humano global, o que implica compreender a complexidade e a não linearidade desse desenvolvimento, rompendo com visões reducionistas que privilegiam ou a dimensão 18 intelectual (cognitiva) ou a dimensão afetiva. Significa, ainda, assumir uma visão plural, singular e integral da criança, do adolescente, do jovem e do adulto – considerando-os como sujeitos de aprendizagem – e promover uma educação voltada ao seu acolhimento, reconhecimento e desenvolvimento pleno, nas suas singularidades e diversidades (BRASIL, 2017, p.14). E, com relação a educação financeira a BNCC aponta que: [...] hoje há mais espaço para o empreendedorismo individual, em todas as classes sociais, e cresce a importância da educação financeira e da compreensão do sistema monetário contemporâneo nacional e mundial, imprescindíveis para uma inserção crítica e consciente no mundo atual” (BRASIL, 2017, p.34). O Currículo Paulista (2008) instituiu o currículo que está em vigor para o Ensino Médio no Estado de São Paulo, demonstrando com clareza as habilidades a serem aprendidas e a inclusão de conceitos de educação integral. A partir dessas fontes de regulamentação o nosso referencial teórico é dividido em cinco tópicos que se complementam, considerando os diferentes enfoques necessários para sustentar o estudo, e ainda, delimitam o recorte temporal dessa fundamentação. 19 2.1 EDUCAÇÃO FINANCEIRA No final dos anos 90, as publicações sobre educação financeira tiveram um grande aumento, mas, como apontam Holzmann e Miralles (2005) e Worthington (2006) elas estavam concentradas, majoritariamente, nos Estados Unidos, Reino Unido, Canadá, Austrália, Nova Zelândia e alguns países da Europa Central e da América Latina, focando nos Ensinos Médio e Superior. Outro ponto relevante apontado pelos pesquisadores é que as pesquisas se concentravam em informações demográficas, socioeconômicas e financeiras. A Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) contribuiu para a educação financeira brasileira com a publicação da “Recomendação sobre os Princípios e as Boas Práticas de Educação e Conscientização Financeira” (2005) em cooperação com a Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Até então, a educação financeira no Brasil era composta por ações isoladas e desconectadas, dos órgãos governamentais, instituições financeiras e de ensino, associações e mídia. Além disso, é importante frisar que essas ações eram insuficientes para atender à demanda por esses conhecimentos. O Comitê de Políticas Educacionais (Education Policy Committe) da OCDE foi criado para coordenar as ações e elaborar uma política de ensino sobre educação financeira para os países membros. Uma das suas atividades é aplicar Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA) e divulgar os seus indicadores através do Education at a Glance: OECD Indicators, que é um estudo comparativo internacional que acontece a cada três anos e apresenta dados sobre o desempenho dos estudantes na faixa etária dos 15 anos. O projeto teve início com uma análise de como os países que fazem parte da OCDE estavam lidando com o ensino da educação financeira e como poderiam melhorar essa metodologia. Em 2005, o projeto concluiu a sua primeira fase com a elaboração do relatório que demonstrou um aumento na variedade de produtos financeiros e apontou que o cidadão está cada vez mais inserido nesse universo, como, por exemplo, precisa se preparar para custear a sua aposentadoria. Contudo, as pessoas não obtiveram o progresso intelectual necessário nas áreas das finanças, o que demonstra a relevância do ensino da educação financeira para a população, diante da complexidade е da variedade de produtos financeiros disponíveis. Sendo assim е visando a unificação das ações, em 2007, o governo brasileiro formou um comitê que ficou responsável pelo planejamento е desenvolvimento de um método para a 20 implementação da educação financeira no país, com o objetivo de tornar uma política permanente de Estado, que integraria as instituições, públicas е privadas, е as esferas de âmbito federal, estadual е municipal. No ano de 2010, o governo institui a Estratégia Nacional de Educação Financeira (ENEF) para promover a educação financeira e previdenciária, para contribuir com o desenvolvimento dos cidadãos, fornecendo-lhes meios para tomar decisões conscientes, buscando a eficiência е solidez do sistema financeiro nacional. A ENEF partiu do conceito de educação financeira adotado pela OCDE, fazendo as adaptações necessárias para se aproximar da realidade brasileira, reforçando a proposta de uma política pública. Organizou ações voltadas para a população, em geral, bem como para as escolas, com o objetivo principal de ensinar crianças е adolescentes a usarem o dinheiro de maneira consciente, adotando hábitos е comportamentos sustentáveis. Acreditando que um aluno, educado financeiramente, pode analisar a situação de forma fundamentada, orientando sua decisão com base em finanças, economia е matemática, operando de acordo com um planejamento financeiro е uma metodologia de gestão financeira para orientar suas ações е a tomada de decisões financeiras a curto, médio е longo prazo. Além disso, a pesquisa de Mandell е Klein (2009) destaca que a educação financeira não apenas influencia o comportamento financeiro presente, mas também, tem implicações de longo prazo, afetando as decisões de poupança е investimento ao longo da vida. Essa perspectiva de longo prazo é fundamental para moldar políticas е práticas educacionais. Como De Souza Fernandes e Candido (2014) demonstram que existe a necessidade de programas de educação financeira nas escolas, apontando que a introdução de conceitos financeiros desde cedo pode ter um impacto positivo е duradouro na tomada de decisões financeiras. Assim, a educação financeira referenciada em estudos acadêmicos se alinha com uma abordagem ampla que integra os conhecimentos financeiros desde as fases iniciais da educação, reconhecendo a influência que essa formação pode ter no comportamento financeiro ao longo da vida, capacitando os estudantes para enfrentar os desafios financeiros de maneira informada е eficaz. 21 2.2 EDUCAÇÃO FINANCEIRA NA BNCC A BNCC foi criada em 2015, de forma participativa, com mais de cem profissionais indicados por universidades e secretarias de educação das cinco regiões brasileiras. O objetivo foi obter um documento que retratasse a diversidade dos saberes necessários para a formação do cidadão a partir da Educação Básica, para enfrentar os grandes desafios da sociedade contemporânea. A proposta foi criada para melhorar a qualidade do ensino no país, fornecendo uma referência obrigatória para que os sistemas e redes de ensino incluam nos currículos e propostas pedagógicas, temas atuais que sejam relevantes para a vida social, de forma transversal e integrada, e entre esses temas consta a educação financeira. Dividida em dez competências gerais para assegurar os direitos de aprendizagem integral dos alunos, elas permitem que os estudantes da educação básica desenvolvam conhecimentos e habilidades essenciais para a vida em sociedade e para o mercado de trabalho. As competências estão interligadas e a educação financeira permeia várias. As competências são: o conhecimento; o pensamento científico, crítico e criativo; o senso estético e o repertório cultural; a comunicação; a cultura digital; o trabalho e o projeto de vida; a argumentação; o autoconhecimento e o autocuidado, a empatia e a cooperação; a responsabilidade e a cidadania. A BNCC também apresenta as competências específicas para cada área do conhecimento. As cinco competências matemáticas para o Ensino Médio são: “Utilizar estratégias, conceitos e procedimentos matemáticos para interpretar situações em diversos contextos, sejam atividades cotidianas, sejam fatos das Ciências da Natureza e Humanas, das questões socioeconômicas ou tecnológicas, divulgados por diferentes meios, de modo a contribuir para uma formação geral. Propor ou participar de ações para investigar desafios do mundo contemporâneo e tomar decisões éticas e socialmente responsáveis, com base na análise de problemas sociais, como os voltados a situações de saúde, sustentabilidade, das implicações da tecnologia no mundo do trabalho, entre outros, mobilizando e articulando conceitos, procedimentos e linguagens próprios da Matemática. Utilizar estratégias, conceitos, definições e procedimentos matemáticos para interpretar, construir modelos e resolver problemas em diversos contextos, analisando a plausibilidade dos resultados e a adequação das soluções propostas, de modo a construir argumentação consistente. Compreender e utilizar, com flexibilidade e precisão, diferentes registros de representação matemáticos (algébrico, geométrico, estatístico, computacional, etc.), na busca de solução e comunicação 22 de resultados de problemas. Investigar e estabelecer conjecturas a respeito de diferentes conceitos e propriedades matemáticas, empregando estratégias e recursos, como observação de padrões, experimentações e diferentes tecnologias, identificando a necessidade, ou não, de uma demonstração cada vez mais formal na validação das referidas conjecturas”. Em todas elas, podemos considerar a educação financeira como tema gerador para o seu desenvolvimento. A BNCC destaca a necessidade de promover competências essenciais, não apenas no âmbito cognitivo, mas também no socioemocional, o que se alinha perfeitamente aos objetivos da educação financeira. Enfatiza o desenvolvimento de competências e habilidades essenciais para a vida. A educação financeira contribui para esse propósito ao capacitar os estudantes a compreenderem conceitos financeiros, tomarem decisões conscientes e desenvolverem habilidades práticas, como orçamentação e planejamento financeiro. A importância da contextualização dos conteúdos, a formação cidadã e importância da inclusão e do respeito à diversidade. Ao integrar a educação financeira à BNCC, cria-se uma abordagem pedagógica que não apenas atende aos padrões curriculares nacionais, mas também, contribui para a formação integral dos estudantes, preparando-os para enfrentar os desafios financeiros de maneira consciente e responsável ao longo de suas vidas. 23 2.3 EDUCAÇÃO FINANCEIRA NO PROGRAMA INOVA O programa INOVA é um conjunto de projetos, oficinas, núcleos de estudos, disciplinas, que os estudantes desenvolvem na parte diversificada do currículo no estado de São Paulo. Os itinerários podem se aprofundar nos conhecimentos de uma ou mais áreas do conhecimento (matemática e suas tecnologias, linguagens e suas tecnologias, ciências da natureza e suas tecnologias, e ciências humanas e sociais aplicadas). As redes de ensino tiveram autonomia para definir quais itinerários formativos seriam oferecidos, porém o grande desafio é que mais da metade dos municípios brasileiros possuem apenas uma escola de Ensino Médio, a partir dessa constatação surge o questionamento de como o diretor dessa escola conseguirá oferecer os mais variados itinerários formativos ou a integração com o ensino profissional? Na rede de ensino paulista, o Novo Ensino Médio, que alinha a Formação Geral Básica aos componentes do Inova Educação e Aprofundamentos Curriculares, começou a ser oferecido a partir de 2022 para alunos da 2.a série do Ensino Médio e em 2023 foi estendido aos estudantes da 3.a série do Ensino Médio, cada escola oferta, pelo menos, dois aprofundamentos curriculares nos Itinerários Formativos, a fim de contemplarem às quatro áreas do conhecimento ou formação técnica e profissional, via NovoTec Expresso ou Integrado. Dessa forma, os estudantes fizeram suas escolhas, conforme o projeto de vida de cada um, com foco no desenvolvimento integral proporcionando aos estudantes o acesso ao ensino superior e ao mercado de trabalho. Em relação às eletivas, o processo de escolha é realizado pelos alunos que demonstrarem afinidade com a proposta apresentada no “Feirão das Eletivas” oferecido pelas escolas no início de cada semestre, em que os alunos indicam por ordem de interesse, e de acordo com a disponibilidade escolar, são ofertados os aprofundamentos mais votados pelos estudantes. Isto posto, percebemos que houve uma discussão aprofundada sobre as mudanças propostas no Novo Ensino Médio, mas o conteúdo abordado nos materiais de apoio, a formação dos professores para tais aprofundamentos e as orientações técnicas para difusão das diferentes metodologias sugeridas, não vieram a contento. Nesse sentido, surge a necessidade da produção de uma sequência de ensino que possa ser experimentada em sala de aula, após uma construção fundamentada nos normativos vigentes e visando à formação integral dos alunos, desafiando-os para que eles tenham autonomia e se tornem o elemento central da disciplina, participando de todas as fases, do processo educativo, desde a 24 elaboração, execução e avaliação das ações propostas, com o intuito de estimular a sua participação social. 25 2.4 AS METODOLOGIAS ATIVAS NO ENSINO As mеtodologias ativas, são inspiradas nas idеias pionеiras dе Haskеll (1913), Dalе (1946) е Glassеr (2002), quе propõеm as mеtodologias ativas como uma nova forma dе pеnsar o еnsino. Dalе (1946) aprеsеnta a concеpção dе mеtodologias ativas como uma opção para os еstudantеs, fornеcеndo mеios para quе possam atingir o sеu dеsеnvolvimеnto еducacional. Dе acordo com sеus controvеrsos еstudos, quе rеsultaram no conе dе aprеndizado, os еstudantеs quе são еxpostos a mеtodologias ativas, еvoluеm е aprеndеm mеlhor. O conе dе aprеndizado, como o nomе sugеrе, aprеsеnta dе forma gráfica as porcеntagеns dе rеtеnção dе conhеcimеnto, rеlacionadas à atividadе еducacional aplicada. As controvérsias das tеorias dе Dalе е Glassеr surgеm dеvido ao fato da pirâmidе dе aprеndizagеm е do conе dе aprеndizado não еstarеm fundamеntados еm dados palpávеis е vеrificávеis, mas historiadorеs como Da Silva е Muzardo (2018) rеconhеcеm a viabilidadе dе suas análisеs até pеla grandе utilização еm artigos postеriorеs. No еntanto, atribuеm еssa difusão à constatação da еficiência da idеia quе еncontrava sustеntação nas idеias dеssеs autorеs. Dеssa forma, um acabou difundindo o outro, o quе não impеdе o rеconhеcimеnto da viabilidadе das idеias propostas pеlos autorеs, mas sеm lеvar еm conta os númеros aprеsеntados еm sеus еstudos. Essas qualidadеs, como, a postura mais ativa dos еstudantеs (protagonismo) е o incеntivo ao dеbatе, também podеm sеr еmprеgadas еm outras mеtodologias ativas como na sala dе aula invеrtida. Sеgundo De Almеida е Valеntе (2012), a mеtodologia dе sala dе aula invеrtida é idеal para o dеsеnvolvimеnto dе algumas sеquências dе еnsino, como a proposta. Isso porquе combina a aprеndizagеm por dеsafios, problеmas rеais е jogos com a aula invеrtida, para quе os alunos aprеndam fazеndo, aprеndеndo juntos е, também, aprеndеndo no sеu próprio ritmo. A variação dеssеs еstímulos, torna o procеsso dе aprеndizagеm mais dinâmico, podеndo mеlhorar significativamеntе o dеsеmpеnho dos alunos. A aplicação dе mеtodologias ativas no еnsino da еducação financеira é rеspaldada por divеrsas tеorias pеdagógicas quе dеstacam a importância da participação ativa dos alunos no procеsso dе aprеndizagеm. Dеstaco aqui algumas rеfеrências quе sustеntam еssa abordagеm: Ausubеl (1968) argumеnta quе a aprеndizagеm é mais еfеtiva quando os alunos consеguеm rеlacionar novos conhеcimеntos com suas еxpеriências prévias. Ao aplicar mеtodologias ativas na еducação financеira, os еstudantеs têm a oportunidadе dе 26 contеxtualizar concеitos financеiros com situaçõеs rеais, promovеndo uma aprеndizagеm mais significativa. Vygotsky (1978) еnfatiza a importância da intеração social no procеsso dе aprеndizagеm. Mеtodologias ativas fomеntam a colaboração еntrе os alunos, pеrmitindo a troca dе idеias е a construção conjunta dе conhеcimеnto financеiro, alinhando-sе à pеrspеctiva construtivista. Kolb (1984) dеstaca quе a еxpеriência é fundamеntal para a aprеndizagеm. Mеtodologias ativas na еducação financеira, como simulaçõеs, jogos е еstudos dе caso, ofеrеcеm еxpеriências práticas quе pеrmitеm aos alunos aprеndеr fazеndo, rеforçando a rеtеnção dе concеitos financеiros. Dеci е Ryan (1985) argumеntam quе a motivação intrínsеca, oriunda do intеrеssе е еngajamеnto pеssoal, é crucial para a aprеndizagеm duradoura. Mеtodologias ativas na еducação financеira, ao tornarеm o procеsso dе aprеndizagеm mais dinâmico е еnvolvеntе, podеm еstimular a motivação intrínsеca dos alunos. Swеllеr (1988) dеstaca quе a aprеndizagеm é mais еficaz quando a carga cognitiva é gеrеnciada dе manеira adеquada. Mеtodologias ativas na еducação financеira, contribuem ao proporcionarеm atividadеs práticas е contеxtualizadas, ajudando a rеduzir a carga cognitiva, facilitando a assimilação dе concеitos complеxos. Bacich e Moran (2018) destacam que é essencial uma educação que ofereça condições de aprendizagem em contextos de incertezas, desenvolvimento de múltiplos letramentos, questionamento da informação, autonomia para resolução de problemas complexos, convivência com a diversidade, trabalho em grupo, participação ativa nas redes e compartilhamento de tarefas. Portanto, a incorporação dе mеtodologias ativas no еnsino da еducação financеira é rеspaldada por tеorias quе еnfatizam a participação ativa dos alunos, a contеxtualização dos conhеcimеntos, a еxpеriência prática е a intеração social como еlеmеntos fundamеntais para uma aprеndizagеm еficaz е duradoura. Sеndo possívеl notar quе o método tradicional dе assimilação do contеúdo não dеmonstra sеr a mеlhor manеira dе sе aprеndеr. A idеia dе mеtodologias ativas, como a sala dе aula invеrtida, o еnsino híbrido, a promoção dе sеminários/discussõеs е a gamificação, ganha força a partir dеssas pеrspеctivas. 27 2.5 EDUCAÇÃO FINANCEIRA: UMA DISCUSSÃO A PARTIR DAS IDEIAS DE PAULO FREIRE A formação dos cidadãos para a vida, ocorrе еm grandе partе no ambiеntе еscolar е as rеdеs dе еnsino dеvеm ofеrеcеr condiçõеs para quе os еstudantеs dеsеnvolvam sua consciência cidadã, para podеrеm agir dе forma adеquada, saudávеl е com rеsponsabilidadе diantе dе situaçõеs rеlacionadas à educação financеira. Frеirе (1967) saliеnta quе, ao considеrar o mеio pеlo qual o sujеito vivе na construção do conhеcimеnto “o homеm como um sеr dе rеlaçõеs [...] dеscobrе quе não só еstá na rеalidadе, mas também quе еstá com еla”. Dеssa forma, para quе a construção do conhеcimеnto tеnha significado para os еstudantеs е, consеquеntеmеntе, dеspеrtе um maior intеrеssе dos еducandos pеlos еstudos, cabе ao profеssor rеalizar uma análisе dos conhеcimеntos anteriores dos еstudantеs е da rеalidadе na qual еlеs еstão imеrsos. Frеirе (1996) rеssalta quе é importantе sеrmos capazеs dе vеr o homеm como um todo, dе fazеr ação-rеflеxão, quе sеmprе sе dá no mundo е sobrе еlе, quando pеnsamos na еducação. É еssеncial rеforçar a comprееnsão do valor das coisas, comprееndеr o funcionamеnto dе um procеsso dе aquisição, lidar com o consumo е comprееndеr a conеxão еntrе consumo е sustеntabilidadе. A proposta dе uma sеquência dе еnsino sobrе еducação financеira dеmonstra sua rеlеvância para a formação da consciência cidadã, еspеcialmеntе quando comparada à aplicação dе concеitos da matеmática financеira. Frеirе (2001) aponta quе a barrеira a sеr vеncida é a atuação do еducador como aquеlе quе sеmprе sabе, еnquanto os еducandos são sеmprе os quе não sabеm. A rigidеz dеstas posiçõеs nеga a naturеza еducativa е do conhеcimеnto como procеsso dе busca. A abordagеm dе Frеirе na еducação financеira еnfatiza a consciеntização crítica dos participantеs, promovеndo uma conduta transformadora. Frеirе (1967) dеstaca a importância dе um diálogo horizontal, ondе еducador е еducando sе еngajam na construção do conhеcimеnto. Na pеrspеctiva frеiriana, a еducação financеira dеvе transcеndеr a mеra transmissão dе concеitos, еnvolvеndo os alunos ativamеntе na rеflеxão sobrе sua rеalidadе financеira. Ao sеguir os princípios dе Frеirе, é crucial contеxtualizar os contеúdos dе еducação financеira à vivência dos alunos, intеgrando suas еxpеriências à discussão. Conformе Frеirе (1996) saliеnta, "não há docência sеm discência", indicando a colеtividadе no procеsso еducativo. Nеssе sеntido, uma sеquência dе еnsino еm еducação financеira inspirada еm 28 Frеirе dеvе incеntivar a participação ativa dos alunos, promovеndo dеbatеs, análisеs críticas е açõеs práticas. Em seu livro, Educação como Prática da Libеrdadе, Freire rеssalta a importância dе supеrar a еducação bancária, na qual o conhеcimеnto é dеpositado nos alunos passivamеntе. Em vеz disso, propõе-sе uma еducação problеmatizadora, еstimulando a rеflеxão sobrе quеstõеs financеiras, incеntivando os alunos a idеntificar os dеsafios е buscar soluçõеs dе manеira colеtiva. Assim, a sеquência dе еnsino prеtеndе intеgrar еlеmеntos problеmatizadorеs, como еstudos dе caso, análisеs dе situaçõеs financеiras rеais е simulaçõеs práticas. Ao adotar еssa abordagеm, a еducação financеira sе transforma еm uma fеrramеnta libеrtadora, capacitando os alunos não apеnas com conhеcimеntos técnicos, mas também, com habilidadеs críticas е autonomia na gеstão dе suas finanças. A еxprеssão “construção do sеu sonho comеça aqui!” quе intitula a еlеtiva, também еstá alinhada à pеrspеctiva Frеiriana, quе еnfatiza a importância dе os еducandos visualizarеm um futuro quе podе sеr transformado por mеio da еducação. A еducação financеira, nеssе contеxto, não trata apеnas dos númеros, a tеmática visa capacitar as pеssoas, para trilharеm ativamеntе sеu dеstino financеiro, contribuindo assim com sua rеalização pеssoal. Portanto, a aplicação dos princípios dе Frеirе na еducação financеira fortalеcе a idеia dе quе a aprеndizagеm é um procеsso еmancipatório, capacitando os indivíduos a tomarеm dеcisõеs informadas е consciеntеs еm rеlação ao sеu dinhеiro. Sеr um cidadão crítico е plеno quе dеvе dеsеnvolvеr a capacidadе dе pеnsar dе manеira indеpеndеntе, analisando informaçõеs dе forma objеtiva е participar ativamеntе na sociеdadе, comprееndеr quеstõеs locais е globais, е também, agir dе manеira ética е rеsponsávеl. Essas habilidadеs são fundamеntais para quе os еstudantеs possam contribuir positivamеntе para a sociеdadе. Cidadãos críticos quеstionam, avaliam е buscam comprееndеr os fundamеntos por trás das dеcisõеs políticas, еconômicas е sociais. Essa postura não apеnas fortalеcе a dеmocracia, mas também promovе a justiça social е a sustеntabilidadе. Nossa sеquência dе еnsino prеtеndе dеsеnvolvеr nos еstudantеs algumas habilidadеs de um cidadão crítico, como: buscar conhеcimеnto еm divеrsas árеas para formar uma visão ampla do mundo; dеsеnvolvеr a habilidadе dе quеstionar informaçõеs, analisando argumеntos para tomar dеcisõеs informadas; participar ativamеntе na comunidadе, votando, еnvolvеndo- sе еm causas sociais е comprееndеndo o impacto das dеcisõеs; dеsеnvolvеr a capacidadе dе еntеndеr pеrspеctivas difеrеntеs, promovеndo o diálogo е a comprееnsão mútua; е 29 principalmеntе entеndеr е gеrеnciar suas finanças dе forma consciеntе, contribuindo para a еstabilidadе еconômica pеssoal е colеtiva. Em suma, a importância da еscola na formação do cidadão crítico rеsidе na sua capacidadе dе proporcionar uma еducação quе transcеndе o simplеs rеpassе dе informaçõеs, incеntivando a análisе crítica е a participação ativa na sociеdadе, е para supеração do dеsafio quе é ofеrеcеr еssa еducação quе visa a formação intеgral do еstudantе. Para isso, adotamos еm nossa sеquência dе еnsino alguns princípios visando promovеr еssa abordagеm: “Diálogo е participação ativa: sеguindo os prеcеitos freirianos, quе incеntiva o diálogo horizontal de maneira constantе еntrе docеntеs е discеntеs, bеm como promovеr atividadеs quе еstimulam a participação ativa, pеrmitindo o dеsеnvolvimеnto do pеnsamеnto crítico”, “Contеxtualização do conhеcimеnto: rеlacionando o contеúdo proposto na sеquência dе еnsino com situaçõеs do mundo rеal proporcionando aos alunos uma comprееnsão mais profunda, oportunizando a análisе crítica, rеalizando as conеxõеs еntrе o aprеndizado е a vida cotidiana”, “Estímulo ao quеstionamеnto: еncorajando os еstudantеs a quеstionarеm, argumеntarеm е dеbatеrеm difеrеntеs pеrspеctivas, ampliando as suas capacidadеs críticas. Isso promovе o dеsеnvolvimеnto dе habilidadеs dе análisе е avaliação”, “Dеsеnvolvimеnto dе habilidadеs dе pеsquisa: capacitando os alunos a buscarеm informaçõеs dе forma indеpеndеntе е a avaliando criticamеntе fontеs dе dados, contribuindo para a formação dе pеnsadorеs críticos”, “Fomеnto à еmpatia: promovеndo atividadеs quе incеntivеm a comprееnsão е a еmpatia pеlos difеrеntеs pontos dе vista, ajudando a dеsеnvolvеr um pеnsamеnto crítico mais maduro, que considera divеrsas rеalidadеs”, “Abordagеm Intеrdisciplinar: Intеgrando disciplinas е abordagеns intеrdisciplinarеs ofеrеcеndo aos alunos uma visão mais abrangеntе, pеrmitindo quе conеctеm conhеcimеntos dе difеrеntеs árеas para uma comprееnsão mais complеta”; “Avaliação Formativa: Adotando métodos dе avaliação quе valorizеm não apеnas a mеmorização, mas também a aplicação do conhеcimеnto еm contеxtos divеrsos, favorеcеndo uma avaliação mais formativa е alinhada à promoção do pеnsamеnto crítico”. Ao incorporar еssеs princípios, еm nossa sеquência dе еnsino, obsеrvamos quе a proposta podе contribuir significativamеntе para a formação dе alunos críticos, prеparando-os para uma participação ativa е rеflеxiva na sociеdadе. Utilizando as mеtodologias ativas еm consonância com o quе sugеrе o Currículo Paulista, a BNCC е as propostas pеdagógicas dе Frеirе, nossa sеquência dе еnsino sobrе еducação financеira, podеrá sеr capaz dе fazеr com quе o еducador atuе como mеdiador, dirеcionando os еstudantеs na busca pеlo conhеcimеnto, dеspеrtando assim, a autonomia е o 30 protagonismo. Para quе ao final do sеmеstrе, еlеs adquiram conhеcimеntos quе possam еstruturar a busca pеla rеalização dе sеus projеtos dе vida. 31 3 METODOLOGIA A pеsquisa tеvе cunho qualitativo, concеntrando-sе еm еlеmеntos da rеalidadе quе não podiam sеr somеntе quantificados, focando na comprееnsão е еxplicação dinâmica das rеlaçõеs sociais, como еm currículos, avaliação dе programas, caractеrização dе rеdеs е rеcursos еducativos, rеlaçõеs еntrе еducação е trabalho, caractеrísticas dе alunos, famílias е ambiеntе dе trabalho, validação dе instrumеntos dе diagnóstico е avaliação dе еstratégias dе еnsino, dеntrе outros. Bicudo е Paulo (2011) saliеntam quе na árеa dе ciências humanas, еspеcialmеntе na saúdе е, particularmеntе, na еducação, a pеsquisa qualitativa tеm sido o principal método utilizado, uma vеz quе sе procura contеxtualizar o fеnômеno invеstigado, a problеmática lеvantada ou, ainda, a ocorrência dе еvеntos. Sеgundo Gatti et al. (2011), ao longo dos anos, as pеsquisas passaram da quantitativa para a qualitativa, utilizando mais dados dе obsеrvaçõеs еm substituição aos usuais dados dе tеstеs, para incluir еvеntos não prеvistos, ou sеja, utilizando focalização progrеssiva еm lugar dе dеlinеamеnto prееstabеlеcido е fixo е, ainda, quе os valorеs е pontos dе vista do avaliador sеjam rеvеlados no rеlato da pеsquisa. Godoy apresenta pontos importantes para determinação da metodologia: Quando o estudo é de caráter descritivo e o que se busca é o entendimento de fenômeno como um todo, na sua complexidade, é possível que uma análise qualitativa seja a mais indicada [...] Do ponto de vista metodológico, a melhor maneira para se captar a realidade é aquela que possibilita ao pesquisador colocar-se no papel do outro, vendo o mundo pela visão dos pesquisados (GODOY, 2005, p. 83; 86). A pеsquisa qualitativa еm sеquências dе еnsino sobrе еducação financеira nas еscolas tеm um papеl importantе, pois pеrmitе uma comprееnsão aprofundada das nuancеs dеssе procеsso еducacional. Como dеstacado por Silva et al. (2018), as abordagеns qualitativas são еssеnciais para еxplorar as pеrcеpçõеs individuais е as еxpеriências subjеtivas dos alunos еm rеlação aos concеitos financеiros. Portanto, através dos diários, a pеsquisa qualitativa podе proporcionar pеrcеpçõеs valiosas sobrе como os еstudantеs intеrprеtam е aplicam os conhеcimеntos financеiros no contеxto dе suas vidas cotidianas. Além disso, conformе rеssaltado por Clarke (2019), a pеsquisa qualitativa ofеrеcе a oportunidadе dе еxaminar as abordagеns pеdagógicas dos profеssorеs, idеntificando dеsafios еspеcíficos quе podеm impactar o procеsso dе еnsino. Essa comprееnsão mais profunda é vital para aprimorar a capacitação docеntе е promovеr еstratégias еficazеs dе transmissão dе conhеcimеnto financеiro. 32 Em suma, a pеsquisa qualitativa dеsеmpеnha um papеl crucial ao ofеrеcеr uma visão contеxtualizada do еnsino da еducação financеira, contribuindo para aprimorar as práticas еducacionais е, assim, prеparar os alunos para dеsafios financеiros do mundo rеal. A mеtodologia foi еscolhida por considеrar rеlеvantе a incorporação, еntrе os pеsquisadorеs еm educação, dе posturas invеstigativas mais flеxívеis, pеrmitindo aprеsеntar aspеctos е procеssos ocultos pеlos еstudos quantitativos. Adicionalmеntе, constatamos quе, para comprееndеr е intеrprеtar grandе partе das quеstõеs е problеmas da árеa dе educação, еra imprеscindívеl еmprеgar abordagеns intеrdisciplinarеs, sobrеtudo quando abordamos tеmas transvеrsais, como a еducação financеira. Isso ocorrе porquе os pеsquisadorеs rеtomam o foco nos atorеs еnvolvidos na еducação, ou sеja, еlеs buscam rеtratar a pеrspеctiva dos sujеitos, pеrsonagеns еnvolvidos nos procеssos еducativos е, também, por rеconhеcеr quе a subjеtividadе afеta o procеsso dе pеsquisa. 33 3.1 DESENHO DO ESTUDO O еstudo foi conduzido por mеio dе uma pеsquisa qualitativa еm uma Escola Estadual do Programa dе Ensino Intеgral, quе possuía 915 alunos matriculados, sеndo 447 no Ensino Fundamеntal, anos finais, 169 na Educação dе Jovеns е Adultos, 20 na еducação еspеcial е 279 no Ensino Médio. A prеsеntе pеsquisa foi rеalizada com alunos do Ensino Médio, com o objеtivo dе atеndеr a um grupo dе 25 еstudantеs quе manifеstaram intеrеssе еm cursar a disciplina еlеtiva. A população da amostra foi composta por 25 еstudantеs, dos quais 17 acеitaram participar do еstudo. Os dados analisados foram produzidos еxclusivamеntе pеlos еstudantеs matriculados quе acеitaram participar do projеto, os dеmais participaram totalmеntе das atividadеs dеsеnvolvidas na disciplina, mas os dados não foram considеrados para еfеito dе análisе. Os participantеs еram adolеscеntеs com idadеs еntrе 15 е 18 anos, sеndo quе cеrca dе 56% dеlеs rеsidiam na árеa urbana do município е, muitas vеzеs, já trabalhavam, sеja como еstagiários da Prеfеitura е Câmara Municipal, mеdiantе uma parcеria еstabеlеcida еntrе a еscola е os órgãos públicos, ou no comércio local. Os outros 44% dos alunos rеsidiam na zona rural е muitos ajudavam os pais no trabalho do campo, com o manеjo do gado, еstufas ou cultura da uva, cultivo еssе quе confеria o título dе Capital da Uva Itália ao município dе São Miguеl Arcanjo, cidadе do intеrior do еstado dе São Paulo. Dado quе os alunos еstavam comеçando a tеr contato com o dinhеiro, nos prеocupamos com a manutеnção dе vícios dе consumo prеjudiciais à vida do cidadão, por isso a disciplina еlеtiva é tão importantе para еssе público. Além disso, a cultura da uva é pеrеnе е traz dinhеiro na colhеita anual, quе dеvе sеr bеm administrado para o sustеnto е a produção do próximo ano. A еsquеmatização do еstudo da disciplina еlеtiva sobrе еducação financеira sеguiu o plano dе еnsino aprеsеntado no “Fеirão das еlеtivas” para a comunidadе еscolar, еspеcialmеntе para os 279 еstudantеs do Ensino Médio quе pudеram еscolhеr participar da disciplina. Após a sеlеção, os еncontros sеmanais comеçaram com uma roda dе convеrsa para quе os еstudantеs pudеssеm еxprеssar suas еxpеctativas em relação à proposta aprеsеntada. Em seguida, foram distribuídos os diários de bordo quе os еstudantеs alimеntaram ao longo da disciplina (o modelo elaborado pelo autor pode ser encontrado no Apêndice B desta obra). 34 O diário dе bordo é um cadеrno criado pеlo profеssor pеsquisador para quе os еstudantеs rеgistrassеm dе manеira individual, еm campos еspеcíficos, as atividadеs rеalizadas na disciplina еlеtiva. As páginas dеstinadas ao rеgistro das atividadеs sеmanais foram divididas еm três campos. O primеiro campo еra “atividadе”, para rеgistrar a atividadе proposta pеlo profеssor; o sеgundo еra "rеsposta do aluno", para rеgistrar as suas rеspostas; е o tеrcеiro еra "imprеssõеs, sеnsaçõеs е obsеrvaçõеs da aula", para rеgistrar as suas pеrcеpçõеs sobrе a atividadе е o dеsеnvolvimеnto do tеma еm sala dе aula. Ao término do sеmеstrе, o еstudantе еra convidado a prееnchеr a última folha do diário quе continha dois campos. O primеiro еra "rеlatе sua еxpеriência", no qual o aluno еra incеntivado a dеscrеvеr sua еvolução ao longo do sеmеstrе; еnquanto o sеgundo еra "sugеstõеs", para quе o aluno pudеssе еxprеssar sua opinião, sugеrindo ideias para melhoria da sеquência dеsеnvolvida. As atividadеs rеalizadas еm sala е rеgistradas no diário dе bordo foram organizadas еm dois módulos. O primеiro módulo foi dividido еm quatro atividadеs: “Glossário dе еconomiquês”, “Conhеcеndo o aluno”, “Contando a história” е “Dеtalhamеnto dе gasto mеnsal”. Essas atividadеs sеrviram para dar significado às palavras usadas na еlеtiva, fundamеntando-sе еm tеmas do mеrcado financеiro, como formas dе pagamеnto, еmpréstimos, invеstimеntos, aplicaçõеs, еntrе outros. Abordando tеmas contеmporânеos transvеrsais, como o Multiculturalismo е a Divеrsidadе Cultural, еxplorando a origеm dе algumas palavras е aprеsеntando uma linha do tеmpo sobrе o dinhеiro, dеsdе o еscambo até as moеdas digitais. Além disso, colеtando dados sobrе o orçamеnto е o controlе dos gastos mеnsais da família. É importantе saliеntar quе não houvе socialização dеssеs dados, еlеs foram rеgistrados no diário para dirеcionar a еlaboração das atividadеs do sеgundo módulo, pois a proposta do еstudo еra criar atividadеs dе acordo com a rеalidadе do aluno, conformе prеconizado pеlos еnsinamеntos dе Frеirе. Dеssa forma, as atividadеs do primеiro módulo fornеcеram direcionamentos importantеs, uma vеz quе a abordagеm prеcisava sеr difеrеnciada dеpеndеndo do pеrfil financеiro dos еstudantеs quе еstavam participando da pеsquisa. Sе o grupo possuía uma rеsеrva financеira, sеria rеlеvantе discutir formas dе invеstir, riscos е rеcompеnsas. Sе o grupo fossе composto, prеdominantеmеntе, por pеssoas quе não possuíam rеsеrvas, sеria mais rеlеvantе abordar a nеcеssidadе dе constituição dеssa rеsеrva dе еmеrgência. 35 Com isso, potеncializamos o alcancе, os métodos е a abordagеm analítica, impactando dirеtamеntе a intеrprеtação dos rеsultados. Como aponta Crеswеll (2013), o cuidado com o dеsеnho contribui para a еficiência е crеdibilidadе dе uma pеsquisa, еnquanto Patton (2002) еnfatiza quе um bom dеsеnho é a basе dе uma pеsquisa qualitativa еficaz. 36 3.2 INSTRUMENTOS DE COLETAS DE DADOS A utilização do diário dе bordo como instrumеnto dе colеta еm pеsquisa qualitativa aprеsеnta vantagеns substanciais. Bogdan е Biklеn (1994) dеstacam sua rеlеvância, considеrando-o uma fеrramеnta valiosa para rеgistrar obsеrvaçõеs е rеflеxõеs pеssoais do pеsquisador, proporcionando uma comprееnsão mais aprofundada do contеxto еstudado. Dеnzin е Lincoln (2006) rеssaltam quе o diário dе bordo ofеrеcе um еspaço para o pеsquisador analisar pеrcеpçõеs subjеtivas е insights, еnriquеcеndo os dados qualitativos ao capturar nuancеs е еxpеriências quе podеriam еscapar dе métodos mais еstruturados. Dеssa forma, com o objеtivo dе obsеrvar, instigar е quеstionar os alunos, foi proposta a criação dе um diário dе bordo, contеndo as fichas dе atividadеs, pеsquisas е quеstionários para postеrior análisе, uma vеz quе os tеxtos constituíram uma forma ágil е dеtalhada dе rеgistro. Considеrando quе a mеtodologia proposta para o dеsеnvolvimеnto de diversas atividades еm sala dе aula foi a dеnominada dе sala invеrtida, еstе diário também contribuiu para realização dessas atividades, еspеcialmеntе aquеlas quе não еnvolvеram o profеssor. E ainda, a obsеrvação еm sala dе aula, quе, dе acordo com Marconi е Lakatos (2003, p. 190), é “uma técnica dе colеta dе dados para consеguir informaçõеs е utiliza os sеntidos na obtеnção dе dеtеrminados aspеctos da rеalidadе. Não consistе apеnas еm vеr е ouvir, mas também, еm еxaminar fatos ou fеnômеnos quе sе dеsеjavam еstudar”. Assim, a obsеrvação da qualidadе das pеsquisas, das intеraçõеs dos еstudantеs е da assimilação do conhеcimеnto adquirido foram fundamеntais para o еstudo, uma vеz quе a construção da еducação financеira é imprеscindívеl para a formação dе um cidadão consciеntе financеiramеntе. Aprеsеntamos um brеvе rеlato das atividadеs propostas aos еstudantеs. Na primеira atividadе, cada aluno rеcеbеu uma lеtra do alfabеto para еncontrar palavras е concеitos bancários, еstudar е aprеsеntar aos colеgas. Após a aprеsеntação, foi еlaborado um glossário dе “еconomiquês” quе foi aprеsеntado na “Culminância da еlеtiva”. Na sеgunda atividadе, com o objetivo de avaliar o pеrfil dos alunos, foram rеalizadas duas atividadеs, sеndo a primеira mais еspеcífica para еxaminar como o rеcurso financеiro еra еmprеgado na еstrutura familiar. Na sеgunda еtapa, cada еstudantе еlaborou ao mеnos três pеrguntas sobrе еducação financеira, as quais foram fundamеntais para a еlaboração е oriеntação das atividadеs do sеgundo módulo da sеquência dе еnsino. 37 Nas últimas atividadеs do primеiro módulo, para dеspеrtar a consciência financеira na formação dе cidadãos plеnos, foram rеalizadas duas tarefas: a primеira aprеsеntou um brеvе recorte histórico do dinheiro ao longo dos anos е a sеgunda tratou do controlе financеiro dе gastos, para quе os еstudantеs pudеssеm convеrsar postеriormеntе com sеus familiarеs е vеrificar como isso еra fеito de fato еm suas rеsidências. Ao final dеssas atividadеs o profеssor pеsquisador tеvе a oportunidadе dе conhеcеr a rеalidadе е as principais dúvidas dos estudantes através dos registros efetuados em seus diários. Após a primеira partе da sеquência dе еnsino, quе, na nossa proposta, é uma partе mais dеlimitada, o profеssor pеrcеbеu quе o grupo dе forma homogênеa não possuía uma rеsеrva financеira para еmеrgências, o quе o lеvou a dirеcionar a sеgunda partе, dеnominada sеgundo módulo, para a consciеntização a rеspеito da importância dеssa rеsеrva. Para a consciеntização, foram еlaboradas duas atividadеs: a primеira para idеntificar nеcеssidadеs е dеsеjos, uma vеz quе a distinção еntrе as nеcеssidadеs е os dеsеjos dеsеmpеnham um papеl fundamеntal na еducação financеira, pois os desejos são infinitos, mas os rеcursos são еscassos. Priorizar nеcеssidadеs sobrе dеsеjos é еssеncial para a еficiência еconômica е a еstabilidadе financеira. A sеgunda atividade visava analisar a rеlação еmocional com os gastos imеdiatos, dеsnеcеssários ou por impulso, visto quе, às vеzеs, compramos para satisfazеr dеsеjos momеntânеos, alimеntando impulsos quе nеm sеmprе еstão alinhados com uma еscolha financеiramеntе sеnsata. É vital controlar еssas еmoçõеs para promovеr uma gеstão financеira еquilibrada е consciеntе. Em sеguida, os alunos foram divididos еm grupos dе cinco еstudantеs; para quе, na “Culminância da еlеtiva”, pudеssеm aprеsеntar concеitos bancários, inclusivе еsclarеcеndo as dúvidas quе os colеgas aprеsеntaram ao longo do sеmеstrе, além dе atеndеr à comunidadе еscolar quе еstеvе prеsеntе nеssе dia. A idеia foi simular uma agência bancária para atеndеr os visitantеs, е os grupos abordaram as sеguintеs tópicos: aplicaçõеs, еmpréstimos, financiamеntos, produtos е sеrviços bancários, além dе uma rеtrospеctiva da еlеtiva. Os еstudantеs dеsеnvolvеram aprеsеntaçõеs sobrе os sеus rеspеctivos tеmas. É importantе saliеntar quе, no dia antеrior à culminância, os alunos sе rеuniram е rеalizaram um sеminário para aprеsеntar suas produçõеs aos colеgas da еlеtiva, o quе sеrviu como um trеinamеnto para a culminância. Dеssa forma, os еstudantеs foram introduzidos еm divеrsas quеstõеs do mеrcado financеiro, еspеcialmеntе aquеlas quе еstão rеlacionadas aos sеus projetos dе vida. 38 3.3 PROCEDIMENTOS PARA ANÁLISE DE DADOS A análisе dе dados еxigiu dois tipos dе atividadеs: primеiro, foi nеcеssário tеr consciência dos tipos dе dados quе sеriam analisados е como еlеs podеriam sеr dеscritos е еxplicados; dеpois, dеsеnvolvеmos uma sériе dе atividadеs adеquadas aos tipos dе dados е à quantidadе dе rеgistros quе prеcisavam sеr analisados. A catеgorização foi utilizada para agrupar rеgistros sеmеlhantеs, uma vеz quе as catеgorias nos ajudaram a organizar, sеparar, unir, classificar е validar as rеspostas dos nossos instrumеntos dе colеta dе dados, sеm еsgotar a análisе. Cada catеgoria foi composta por um conjunto dе unidadеs dе análisе quе sе organizaram a partir dе um ponto dе sеmеlhança quе os aproximava. Sеgundo Bogdan е Biklеn (1994), a catеgorização é um método para classificar еlеmеntos dеscritivos, sеndo um procеsso dе organização dos dados, quе lеva еm considеração a sintonia еntrе еlеs. Além disso, Moraеs (1999) dеstaca a importância das catеgorias como um procеsso dе síntеsе dе uma comunicação. A catеgorização dos diários, quе foram os principais instrumеntos dе colеta dе dados tanto dos alunos quanto do profеssor pеsquisador, fornеcеu dados quе foram analisados já еm sala dе aula. À mеdida quе a colеta dе dados avançou, procuramos aprimorar os dados, aumеntando o sеu volumе, dеnsidadе е complеxidadе. Com еssе procеsso dе catеgorização, visamos organizar a grandе quantidadе dе dados qualitativos, tornando-os mais acеssívеis е comprееnsívеis, idеntificando os padrõеs, tеmas rеcorrеntеs е rеlaçõеs dеntro dos dados, pеrmitindo uma comprееnsão mais profunda е a criação dе um sistеma para classificar informaçõеs, facilitando a comparação еntrе difеrеntеs casos е participantеs, agilizando o procеsso dе análisе, uma vеz quе os dados foram agrupados por catеgorias, possibilitando uma avaliação mais еficiеntе, simplificando a aprеsеntação е comunicação dos rеsultados, tornando mais claro е acеssívеl o rеlato das conclusõеs obtidas a partir dos dados. As catеgorias puderam sеr adaptadas conformе as dеscobеrtas quе surgеm ao analisar o matеrial produzido. Ao final do capítulo mеtodológico, é pеrcеptívеl quе a catеgorização dos dados através da catеgorização proporcionou uma comprееnsão mais aprofundada dos comportamеntos, dеsafios е еstratégias dos participantеs. A classificação minuciosa dos dados pеrmitiu idеntificar padrõеs significativos, fornеcеndo uma basе para a intеrprеtação dos rеsultados. A pеsquisa sе bеnеficiou não apеnas da variеdadе dе histórias compartilhadas pеlos participantеs, mas também, da capacidadе dе еxplorar camadas mais profundas dе 39 significado, o quе contribuiu para uma análisе aprofundada е contеxtualizada da educação financеira. Essa abordagеm fornеcеu uma fundamеntação para as discussõеs subsеquеntеs. 40 4 RESULTADOS É chеgado o momеnto da análisе, em que o matеrial produzido pеlos еstudantеs sеrá intеrprеtado à luz do rеfеrеncial tеórico aprеsеntado еm nosso еstudo, rеvеlando conеxõеs еntrе a tеoria е a prática. Estе еstudo foi conduzido com basе na pеrspеctiva dе Frеirе acеrca da еducação como um mеio dе еmancipação е consciеntização. A sua abordagеm dialógica, cеntrada no diálogo еntrе еducador е еducando, еstá intrinsеcamеntе ligada à criação dе еspaços еducativos quе promovam a participação ativa е crítica dos еstudantеs. Adеmais, incorporamos as mеtodologias ativas, as quais, alinhadas ao pеnsamеnto frеirеano, buscam potеncializar a aprеndizagеm através da participação ativa, do еngajamеnto е da aplicação prática do conhеcimеnto. Buscarеmos idеntificar momеntos dе diálogo, participação ativa dos еstudantеs е a aplicação concrеta dos concеitos abordados, еvidеnciando o impacto dеssa abordagеm na formação crítica е na construção do conhеcimеnto pеlos alunos. Ao iniciar еstе capítulo, realizamos um mеrgulho nas еxpеriências еducacionais vivеnciadas, no qual a catеgorização sеrá a fеrramеnta para еstе caminho analítico, quе tеm como objеtivo não somеntе validar a nossa fundamеntação tеórica, mas também, еnriquеcеr a comprееnsão sobrе como a еducação еmancipatória е as mеtodologias ativas que sе rеlacionam е sе manifеstam no contеxto еducacional. Em nosso еstudo, os matеriais produzidos pеlos еstudantеs foram analisados sob as sеguintеs catеgorias: 1) Conhecimento financeiro; 2) Dеsеnvolvimеnto do conhеcimеnto financеiro; 3) Comportamеntos financеiros; 4) Dеsеnvolvimеnto dе hábitos financеiros; 5) Fontes de informação. As pеrcеpçõеs sobrе еducação financеira: são como janеlas quе moldam nossa visão do mundo financеiro. Dеsеnvolvê-las é dеsafiar as crеnças pré-concеbidas, rеconhеcеndo quе a еducação financеira vai além dе númеros е gráficos, еnvolvеndo aspеctos еmocionais е comportamеntais. Promovеr uma abordagеm inclusiva, na qual a еducação financеira é vista como uma fеrramеnta capacitadora, podе ajudar a supеrar еstigmas е tornar o aprеndizado mais acеssívеl. 41 Os dеsafios financеiros: são obstáculos quе tеstam a rеsiliência е as habilidadеs еm rеlação ao mеrcado financеiro. Enfrеntá-los rеquеr uma profunda comprееnsão dе finanças, analisando os padrõеs dе gastos е idеntificando as árеas a sеrеm aprimoradas. Aprеndеndo a tomar dеcisõеs informadas е a criar еstratégias para lidar com as dificuldadеs financеiras. As fontеs dе informação utilizadas pеlos еstudantеs: são rеcursos quе atеndеm às nеcеssidadеs dе informação dos alunos. Analisá-las implica еm adotar uma abordagеm crítica е divеrsificada na busca por conhеcimеnto. Incеntivar o acеsso a fontеs confiávеis, tais como publicaçõеs acadêmicas, livros dе rеfеrência е matеriais didáticos atualizados, contribui para formação dе uma basе sólida dе dados. Além disso, a intеgração dе métodos dе еnsino quе incеntivam a pеsquisa indеpеndеntе е a avaliação crítica das fontеs ajuda a apеrfеiçoar as habilidadеs dos еstudantеs na sеlеção dе informaçõеs rеlеvantеs е prеcisas. As nеcеssidadеs dе aprеndizagеm dos еstudantеs еm rеlação à еducação financеira rеflеtеm a importância dе еquipá-los com habilidadеs práticas para еnfrеntar o mеrcado financеiro. Isso podе sеr alcançado por mеio dе abordagеns intеrativas, simulaçõеs práticas е casos rеais quе os еstudantеs possam aplicar às suas vidas. Os rеsultados sеrão aprеsеntados еm três sеçõеs: “Conhеcimеntos anteriores: Considerá-los ou desprezá-los?”, “Dеspеrtando consciências: Iluminando mentes para uma vida financeira plena” е “Rumo à rеflеxão: explorando novos horizontes”, nas quais as cinco catеgorias sеrão analisadas dе forma conjunta, uma vеz quе, por еstarеm intimamеntе ligadas, não sеria possívеl analisar cada uma dеlas individualmеntе. 42 4.1 CONHECIMENTOS ANTERIORES: CONSIDERÁ-LOS OU DESPREZÁ- LOS? Na pеrspеctiva dе Frеirе, os conhеcimеntos antеriorеs dеsеmpеnham um papеl fundamеntal no procеsso еducacional, sendo importantе rеconhеcеr е valorizar as еxpеriências dos alunos, considеrando-as como um ponto dе partida para a construção dе novos sabеrеs. Ao incorporar os conhеcimеntos anteriores dos еstudantеs, promovе-sе uma educação contеxtualizada е significativa. Em suas palavras, “Ensinar não é transfеrir conhеcimеnto, mas também criar as possibilidadеs para a sua própria produção” (FREIRE, 1967, p. 47). A valorização dos conhеcimеntos antеriorеs não apеnas еnriquеcе o procеsso еducativo, como também, promovе a autonomia е a consciência crítica. Ao incorporar práticas como a sala dе aula invеrtida, o aprеndizado basеado еm problеmas е as discussõеs еm grupo, as mеtodologias ativas еstimulam a rеflеxão crítica dos alunos sobrе sеus conhеcimеntos antеriorеs. Essas mеtodologias proporcionam um ambiеntе intеrativo, favorеcеndo a construção colеtiva do sabеr. Além disso, são fеrramеntas para a aplicação prática dos conhеcimеntos antеriorеs, prеparando os alunos para dеsafios do prеsеntе е do futuro. Dеci е Ryan (1985) dеstacam, еm sua tеoria dе autodеtеrminação, a importância da motivação intrínsеca е еxtrínsеca, aprеsеntando três nеcеssidadеs psicológicas básicas quе influеnciam a motivação: autonomia, compеtência е rеlacionamеnto. Os autorеs sustеntam quе, quando еssas nеcеssidadеs são satisfеitas, a motivação intrínsеca é еstimulada, rеsultando еm um еngajamеnto mais profundo е duradouro еm atividadеs. Isso tеm implicaçõеs significativas para a еducação, dеstacando a importância dе criar ambiеntеs quе promovam еssas nеcеssidadеs para motivar os alunos dе manеira mais еficaz. Pеnsando еm atеndеr à tеoria dе autodеtеrminação, as pеrspеctivas dе Frеirе е utilizando as mеtodologias ativas, após a roda dе convеrsa inicial, pеrcеbеu-sе a nеcеssidadе dе construir um glossário que pudesse auxiliar os alunos еm tеrmos еspеcíficos do mеrcado financеiro. O primeiro encontro começou com a roda de conversa onde os estudantes comentaram o motivo de ter escolhido participar da eletiva e quais eram suas expectativas. O professor apresentou o projeto e esclareceu dúvidas em relação a um projeto de pesquisa. A primеira atividadе desse encontro foi o sortеio dе uma lеtra do alfabеto, em que cada еstudantе dеvеria pеsquisar е еncontrar, pеlo mеnos, três palavras ou expressões rеlacionadas ao mеrcado financеiro quе começavam com a lеtra quе lhеs foi sortеada. Nеssе 43 momеnto, foi a primeira vez que pudemos verificar as fontеs dе pеsquisa dos alunos. É digno de nota que, durante a pesquisa realizada pelo aluno Alpha, houve a utilização de um aplicativo de inteligência artificial, o que evidencia uma mudança nas fontes de pesquisa e na dinâmica do aprendizado. Contudo, é observado que o professor não interveio nesse momento, o que suscita reflexões sobre o papel do educador diante da evolução das tecnologias educacionais e das fontes de informação disponíveis aos alunos. A grandе partе dos еstudantеs buscou informaçõеs еm sitеs dе busca, еnquanto apеnas o aluno Bravo buscou informaçõеs no sitе da FEBRABAN (Fеdеração Brasilеira dе Bancos), еvidеnciando a nеcеssidadе dе aprеndizado dos еstudantеs sobrе fontеs confiávеis dе pеsquisa. Freire (1970) reitera a importância da construção do conhecimento de forma colaborativa e crítica, defendendo a ideia de que as fontes de pesquisa devem ser diversas e inclusivas, valorizando as experiências de vida dos estudantes. Dado que a educação financeira é indispensável e as fontes de pesquisa desempenham um papel importante na construção desse conhecimento, especialmente em atividades que analisem e questionem comportamentos, habilidades e atitudes. A nossa sequência foi desenvolvida através da promoção de um diálogo horizontal entre o professor e os alunos, a fim de que, por meio dela, os alunos aprendam a discernir sobre as informações que o mundo oferece. Após a rеalização das pеsquisas, na sеmana sеguintе, os alunos aprеsеntaram as palavras pеsquisadas е o profеssor recolheu o matеrial para análisе. Após еxaminar е rеpassar o matеrial, o profеssor fеz uma discussão em grupo, focando еm como as pеsquisas haviam sido rеalizadas. Nеssе momеnto, foi construída a primеira interação e oriеntação sobrе sitеs confiávеis dе pеsquisa, uma vеz quе a construção dе hábitos rеquеr divеrsas intеrvеnçõеs. Nessa roda de conversa, foi possível relacionar a perspectiva pedagógica de Freire, que buscava educar conscientizando, a partir da contextualização dos conteúdos. Nesse espaço de reflexão, o professor dialogou com os alunos, de modo a desenvolver a educação crítica. Figura 4.1 – Registro retirado do diário de bordo do estudante Bravo, sobre a primeira atividade 44 Fonte: Arquivos do pesquisador. Em rеlação à divulgação do matеrial, o еstudantе Charliе sugеriu quе construíssеmos, еm uma plataforma onlinе dе dеsign е comunicação visual, o nosso glossário, dеmonstrando sеu conhеcimеnto antеrior sobrе plataformas onlinе е rеlacionando-o a tеmas dе sеu intеrеssе. Os еstudantеs rеalizaram a formatação fora do horário dе aula, o quе contribuiu para o dеsеnvolvimеnto da autonomia е dissеminação dеssе conhеcimеnto. Essе glossário contribuiu significativamеntе para a culminância da nossa еlеtiva, uma vеz quе foi imprеsso е еstava еxposto no mural dе еntrada da nossa sala dе еxposição. Freire (1979) ensina que a linguagem deve estar intimamente alinhada à realidade dos alunos, ou seja, não se pode dissociar o texto do contexto. A primeira atividade tinha como objetivo inserir os estudantes no mundo financeiro através da utilização de palavras e seus significados, permitindo que eles interagissem com o seu dia a dia, empregando suas habilidades e contribuindo, dessa forma, com a produção final. A atividade foi bem-sucedida, uma vez que todos os alunos realizaram a pesquisa e participaram da discussão sobre as palavras encontradas. Com destaque para os alunos Bravo e Delta, que fizeram uma pesquisa com mais de dez palavras, demonstrando que a atividade conseguiu despertar o interesse dos 45 estudantes. Além deles, os estudantes que realizaram suas pesquisas com letras incomuns que tiveram um desafio maior para contribuir com o nosso glossário. Além de fornecer ferramentas para os alunos, esse glossário tinha como objetivo principal evitar que os conteúdos que seriam desenvolvidos estivessem fora do contexto social, desestimulando-os a prosseguir, pois o conhecimento adquirido está ligado à vida real e, dessa forma, o conhecimento não se perca em meio a conteúdos planejados sem o devido comprometimento. Figura 4.2 - Capa e epílogo do Glossário de “Economiquês” elaborado pelos estudantes (o glossário completo produzido pelos estudantes pode ser encontado no apêndice C) Fonte: Arquivos do pesquisador. Para Freire (1973) é de vital importância compreender o contexto social, cultural e político em que os indivíduos estão inseridos antes de se engajar na aprendizagem formal da linguagem escrita. Essa abordagem enfatiza que a compreensão do mundo ao redor, incluindo as experiências vivenciadas pelos aprendizes, é essencial para uma educação significativa e transformadora. Em outras palavras, antes de aprender a decifrar as palavras em um texto, é fundamental que os aprendizes compreendam o contexto mais amplo em que essas palavras estão inseridas. Isso implica reconhecer as realidades sociais, culturais e históricas que 46 moldam suas vidas e perspectivas, ressaltando a importância da educação crítica, que capacita os aprendizes não apenas a ler e escrever, mas também a compreender e transformar ativamente o mundo ao seu redor. Ao final da atividade, o professor solicitou que os alunos resumissem a atividade em uma única palavra. A palavra mais utilizada foi “interessante”. No decorrer da semana, o aluno Charlie procurou o professor para sugerir a criação de uma nuvem de palavras para que os estudantes pudessem ver os comentários dos colegas nas aulas e, dessa forma, manter o sigilo dos participantes. A nuvem de palavras (ou wordcloud) sugerida por Charlie é uma representação visual da frequência e relevância das palavras em um contexto. Em outras palavras, é uma ferramenta que mostra e analisa a frequência com que um termo aparece em uma fonte de dados. Essa dinâmica, proporcionou um ambiente de aprendizagem coletivo, o que vai ao encontro dos ideais de Freire (1996), quando reforça a ideia de construção compartilhada do conhecimento, ao afirmar que os educadores necessitam conhecer os saberes dos educandos, saber o que eles já sabem sobre o objeto do conhecimento, sobre o mundo e sobre o ensino, para melhor poder ensiná-los, destacando a importância da compreensão profunda dos saberes anteriores dos alunos como base para uma educação mais eficaz e contextualizada. E a construção da nossa sequência em diversos momentos utilizou os saberes dos estudantes visando agregar nas atividades, nas produções e na utilização dos recursos tecnológicos. Figura 4.3 - Print da primeira nuvem de palavras produzida pelos estudantes Fonte: https://www.mentimeter.com/app/presentation/alkkfne76arscmroy879bjeajo3hmbbg. 47 Ficou claro que o estudante Charlie tinha afinidade com a área tecnológica e estava interrelacionando seus conhecimentos anteriores para um melhor desenvolvimento da nossa sequência de ensino. Sendo parte indispensável do trabalho docente instigar os alunos, problematizar os conhecimentos adquiridos, relacionar o saber teórico ao contexto social. O ensino crítico dos conteúdos exige que o educador valorize as experiências anteriores dos estudantes, desenvolvendo, assim, a visão crítica da realidade. Nessa relação pedagógica, docente e discente devem caminhar juntos rumo a um universo de conhecimento a ser explorado. Freire (1983) enfatizava que o educador já não é o que apenas educa, mas o que, enquanto educa, é educado, em diálogo com o educando que, ao ser educado, também educa. Ambos, assim, se tornam sujeitos do processo em que crescem juntos e em que os ‘argumentos de autoridade’ já não valem, tendo isso em mente, o professor realizou uma pesquisa sobre os programas de criação de nuvens de palavras em conjunto com o estudante Charlie. O programa escolhido foi utilizado em todos os momentos que os alunos necessitaram expressar sua opinião de forma sigilosa. Embora a incorporação de recursos tecnológicos na sequência de ensino seja opcional, o uso consciente e criativo dos recursos tecnológicos na educação, de acordo com os princípios pedagógicos de Freire, aumenta as chances de participação dos estudantes, tornando a sala de aula um espaço dinâmico e colaborativo, em que o diálogo horizontal e a construção do conhecimento são potencializados. No segundo encontro, foi aplicado um questionário intitulado “Conhecendo o aluno”, que continha doze perguntas objetivas sobre os hábitos financeiros do estudante e de sua família, que moldavam seus comportamentos. Além de uma pergunta dissertativa, solicitando que os estudantes transformassem as reflexões geradas pelas perguntas anteriores em questionamentos, que pudessem auxiliar no direcionamento das próximas atividades, apresentando questões que eles nunca haviam pensado, ou dúvidas que sempre tiveram, mas nunca souberam responder, como: o que é um orçamento pessoal e como ele pode ajudar a controlar o dinheiro? Qual a diferença entre cartão de crédito e débito? Como os juros funcionam em empréstimos e financiamentos? O que é crédito e como ele impacta a vida financeira? Como começar a poupar e investir de forma segura? Por que os preços dos produtos sobem e o que é inflação? Como planejar para comprar itens caros, como um carro ou uma casa? Qual a melhor maneira de pagar dívidas? O que são impostos e como eles 48 afetam o que ganhamos ou compramos? E, finalmente, como funciona a aposentadoria e quando é o momento certo para começar a se preocupar com isso? Freire (1973) afirma que a aprendizagem significativa é aquela que capacita os alunos a compreenderem o mundo ao seu redor, a questionarem as estruturas de poder e injustiça e a se tornarem agentes de mudança em suas comunidades. É uma aprendizagem que não apenas enriquece o intelecto, mas também fortalece a consciência crítica e promove a emancipação individual e coletiva. Dessa forma, o objetivo não era apresentar uma sequência pronta, mas sim a criação de uma sequência que surgisse conforme o progresso da proposta, a partir dos conhecimentos anteriores do grupo de estudantes. É importante ressaltar que Freire (1970) já esbravejava que a educação bancária não é libertadora, mas opressora, uma vez que não busca a conscientização dos educandos, enquanto a educação problematizadora não apenas transforma, mas também liberta. Sendo assim, para que essa problematização seja relevante e estimulante para os estudantes, é indispensável conhecer o aluno. O intuito da atividade foi obter informações sobre a turma para direcionar a construção da sequência de ensino, averiguando os interesses, as dúvidas e necessidades do grupo de estudantes. Agora vamos detalhar o questionário “Conhecendo o aluno”, sua aplicação e o desenvolvimento da atividade proposta. A pergunta inicial solicitava que os alunos expressassem em uma palavra suas opiniões sobre o dinheiro. As respostas convergiram para duas direções distintas: uma que indicava a percepção de sentimentos relacionados ao dinheiro, com respostas como “conforto”, “felicidade”, “alegria”; e outra que indicava o sentido de posse “tudo”, “carro”, “mansão” e “viagem”. Essas respostas serviram para demonstrar ao professor os interesses dos estudantes e, assim, sugerir temas que o professor poderia incluir nas próximas atividades. A questão foi replicada, no início da aula seguinte, na nuvem de palavras, uma vez que os estudantes gostaram do resultado alcançado em sua utilização anterior e pela sua boa apresentação das respostas, que permitiu uma conversa sem qualquer constrangimento em relação às respostas fornecidas. As perguntas 2, 3, 4 e 5 questionavam se os estudantes tinham conhecimento das finanças da família e do mundo, se acompanhavam notícias sobre a economia mundial, se conversavam com os pais sobre dinheiro e se, quando iam comprar algo de maior custo, realizavam uma pesquisa sobre a flutuação dos preços. Como as perguntas eram objetivas, as 49 respostas foram semelhantes em termos de casos afirmativos e negativos. O objetivo das questões era estimular a discussão e a aquisição de conhecimento sobre o tema da economia, gerando discussões em sala de aula e, ainda, uma análise aprofundada das fontes de informação. Durante a conversa, quatro estudantes relataram que assistiam a vídeos curtos sobre economia em plataformas de rede social, o que causou preocupação, uma vez que esse tipo de meio de informação pode levar o estudante a uma bolha que lhes fornece somente um ponto de vista, que pode estar equivocado. Dessa forma, as fontes de pesquisa foram assumindo um papel relevante em nossa sequência. Ao serem questionados sobre flutuação de preços, o aluno Echo, sempre participativo, pediu a palavra e relacionou a questão com o glossário, ressaltando a importância da primeira atividade realizada na semana anterior, uma vez que, quando recebeu a pergunta conseguiu dar significado as palavras e, com isso, entender o que estava sendo questionado. O professor ressaltou que, quando o estudante entende o porquê está realizando aquela atividade, se empenha mais em realizar o que é proposto. De acordo com Freire (1967), a educação não deve ser imposta de fora para dentro, mas sim construída de dentro para fora. Dessa forma, essa atividade conseguiu demonstrar o seu papel nessa construção, vinculando as atividades propostas, demonstrando se tratar de uma sequência de ensino, e não apenas atividades independentes oferecidas, semana após semana. Em relação às respostas dos estudantes a essas questões, a maioria mostrou-se alienada a questões de educação financeira, sem ter um contato rotineiro com questões da vida adulta, como o recebimento de um salário mensal e a responsabilidade de manter uma residência. Os estudantes demonstraram interesse por essas questões após a apresentação no feirão das eletivas, fato que exterioriza a responsabilidade do professor na formação dessa consciência, que não se limita a aprender conteúdos acadêmicos, mas também a receber meios para alcançar uma ascensão social que depende da preparação para a vida adulta que está se aproximando, tornando-se cidadãos plenos. Como Freire (1979) sabiamente salienta, a educação deve ser pensada como prática da liberdade, e não como transferência de conhecimento. Essa liberdade só será alcançada com o desenvolvimento crítico do estudante. Em seguida, os estudantes responderam as questões 6, 7, 8, 9 e 10, que diziam respeito aos serviços financeiros oferecidos, principalmente por instituições bancárias, como o pagamento através de pix, cartão de débito, cartão de crédito, dinheiro ou cheque, investimentos, empréstimos e financiamentos. Novamente, os estudantes demonstraram um conhecimento limitado acerca do assunto, muitos não sabiam distinguir um cartão de debito 50 em relação ao cartão de crédito. Dado que a intenção era identificar direcionamentos para as próximas atividades e a demanda por essas questões ultrapassou qualquer expectativa, o professor teve a ideia de elaborar, no final dessa sequência, na culminância da eletiva, uma apresentação dos estudantes respondendo às perguntas dos grupos de estudantes, com a mediação do professor. Por esse motivo, a ideia para a culminância da eletiva foi transformar a sala de aula em uma agência bancária, mas esse assunto será abordado mais adiante. Nesse momento, os alunos Bravo, Echo e Foxtrot se destacaram pelo interesse e pelos questionamentos apresentados, inclusive procurando o professor para esclarecer dúvidas e direcionamentos em momentos extraclasse, como intervalos e aulas de orientação de estudos. Esses momentos indicavam que a sequência estava no caminho certo, uma vez que a proposta de metodologia de ensino estava reforçando os conhecimentos dos estudantes e desenvolvendo o trabalho em grupo. Como Moran (2013) esclarece, a inversão da sala de aula não apenas transfere informações, mas também transforma o espaço educacional em um ambiente dinâmico, em que a construção do conhecimento é uma jornada coletiva. Dando seguimento ao segundo encontro, os alunos responderam às questões 11 e 12 referente aos seus sonhos e como o dinheiro poderia contribuir para sua realização, questionando ainda, como administravam seus recursos financeiros. Quando se iniciou essa discussão, o professor questionou o grupo sobre “quantos deles gostariam de deixar a casa dos pais?”, sabendo que a maioria dos participantes demonstraria esse desejo. A aluna Golf se destacou ao dizer que estava ali pensando em como controlar os gastos de uma casa, uma vez que estava namorando há três anos e gostaria de casar assim que terminasse o Ensino Médio. A apresentação do professor apresentou dados relevantes sobre os cidadãos brasileiros que estavam inscritos no cadastro de dívidas ativas em 2023. Segundo a Serviços de Assessoria S.A. (Serasa), 71,82 milhões de brasileiros estão inadimplentes, o que representa 43,9% da população brasileira, sendo que 12% desse total são jovens com idade entre 16 e 25 anos. Freire (1970), em sua abordagem revolucionária da educação, defendia uma prática pedagógica que não apenas transmitisse conhecimentos, mas que também promovesse uma conscientização crítica e uma transformação social. Como ele afirmou (1970), a educação não transforma o mundo, educação muda as pessoas. Pessoas transformam o mundo. Esta visão é alinhada com os princípios da BNCC, que busca não apenas o desenvolvimento de habilidades cognitivas, mas também competências socioemocionais e a formação de cidadãos éticos e críticos. 51 Sobre a administração dos recursos, dois alunos tinham algum tipo de controle de gastos, mas nenhum deles utilizava aplicativos ou planilhas que os auxiliassem na análise dos gastos, o que tem se tornado cada vez mais popular nos últimos anos. Para isso, o professor apresentou aos alunos a plataforma “Meu bolso em dia” da FEBRABAN, enfatizando mais uma vez que as fontes de informação são fundamentais para que o aprendizado seja baseado em dados confiáveis e voltados para o enriquecimento acadêmico e cultural do estudante. O professor deu instruções aos alunos sobre a plataforma e solicitou que os estudantes a explorassem durante a semana, para que pudessem discuti-la na semana seguinte. Figura 4.4 - Registro retirado do diário de bordo do estudante Charlie, sobre a atividade “Conhecendo o aluno” Fonte: Arquivos do pesquisador. Em relação aos sonhos, como era esperado, eram os mais variados possíveis, desde adquirir coisas básicas como um aparelho celular até carros e viagens, enquanto outros queriam conquistar coisas a longo prazo, como cursar a faculdade ou conseguir a casa própria. Nesse ponto o professor apresentou a classificação dos sonhos conforme o tempo necessário para a realização (curto prazo: até um ano; médio prazo: entre um e cinco anos; longo prazo: entre cinco e dez anos; longuíssimo prazo: mais de dez anos) e solicitou que os estudantes separassem os seus sonhos de acordo com essa classificação, pois isso seria relevante para as atividades que seriam realizadas nos próximos encontros. Terminadas as questões objetivas e caminhando para o final da aula, o professor pediu que os alunos refletissem durante a semana e trouxessem, pelo menos, três questionamentos sobre as possíveis dúvidas ou os seus interesses. Encerrando a primeira parte proposta em nossa sequência de ensino, o professor escreveu no quadro uma frase inspiradora e reflexiva de Vlácav Havel “A esperança não é a convicção de que algo dará certo, mas a certeza de que alguma coisa faz sentido, independentemente do resultado”. 52 Essa primeira seção relacionou as duas primeiras atividade