UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO CARLOS CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS E BIOLÓGICAS PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM EDUCAÇÃO – PPGED SANDRA TEIXEIRA DA FONSECA MÃES FORA DO ARMÁRIO: TRAVESSIAS DE RE(EXISTÊNCIAS), NEGAÇÕES, CONFLITOS E LUTA SOROCABA – SP 2021 SANDRA TEIXEIRA DA FONSECA MÃES FORA DO ARMÁRIO: TRAVESSIAS DE RE(EXISTÊNCIAS), NEGAÇÕES, CONFLITOS E LUTAS Dissertação apresentada à banca de qualificação do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal de São Carlos – UFSCar – Campus Sorocaba, como parte das exigências para obtenção do título de Mestra em Educação. Área de Concentração: Educação, Comunidades e Movimentos Sociais Orientadora: Profa. Dra. Viviane Melo de Mendonça. SOROCABA – SP 2021 SANDRA TEIXEIRA DA FONSECA MÃES FORA DO ARMÁRIO: TRAVESSIAS DE RE(EXISTÊNCIAS), NEGAÇÕES, CONFLITOS E LUTAS Dissertação apresentada ao Programa de Pós- Graduação em Educação da Universidade Federal de São Carlos – Campus Sorocaba, em linha de pesquisa Educação, Comunidade e Movimentos Sociais, como requisito parcial à obtenção do título de Mestra em Educação. Aprovada em: 17/06/2021. BANCA EXAMINADORA ________________________________________ Profª. Drª. Viviane Melo de Mendonça (UFSCar) _________________________________________________ Profª. Drª. Marta Gouveia de Oliveira Rovai (UNIFAL-MG) ___________________________________________________ Profª. Drª. Josefina de Fátima Tranquilin Silva (COMDHC) _____________________________________ Profª. Drª. Maria Carla Corrochano (UFSCar) DEDICO ESTE TRABALHO À minha rainha, minha mãe Irene (in memorian), minha maior referência de vida e amor, que me ouve e ilumina meus caminhos de onde descansa. À minha avó Raimunda (in memorian), que com sua sabedoria da escola da vida, me ensinou que não há espaço para uma vida bela sem afetos e olhares de pureza. À Amanda, minha companheira de vida, luta e amor, por acreditar em mim, nessa pesquisa e manter todas as bases fortes para que esse trabalho pudesse ser feito. À ela e aos nossos filhos de 4 patas (Brady e Nino), dedico todo o meu amor e respeito. AGRADECIMENTOS Agradeço primeiramente a Deus por me possibilitar concluir este trabalho com saúde e principalmente respirando, diante de uma pandemia que tirou o ar de tanta gente no mundo. Agradeço à minha orientadora, Profa. Dra. Viviane Melo de Mendonça, por sua entrega, amor, empatia, apoio incondicional sem hora marcada nesta pesquisa e em tantas outras que ela orienta produzindo potências e afetos. Ninguém está preparada para terminar um trabalho e deixar de ter a Vivi como orientadora de pesquisa e da vida. Vivi é luz! Agradeço à UFSCAR Sorocaba e em especial ao PPGED pela oportunidade oferecida à mim na promoção de saberes e por acolher minha pesquisa no programa. Agradeço imensamente à Profa. Dra. Marta Rovai, à Profa. Dra. Fina Tranquilin e à Profa. Dra. Maria Carla Corrochano, por aceitarem contribuir com essa pesquisa. Esse trabalho tem muito de vocês. Agradeço por todas as contribuições no processo, que foram essenciais no resultado. Por fim, quero tecer um agradecimento mais que especial às 5 mulheres, mães e guerreiras incríveis e incansáveis em suas lutas. Sou uma pesquisadora privilegiada e um ser humano melhor por ter encontrado-as em meu caminho e ter a oportunidade de contar suas histórias, que são de tamanha potência. Sem essas 5 mulheres não haveria pesquisa. Gratidão por confiar em mim e no meu trabalho e abrirem o diário de vida de vocês comigo. “As histórias importam. Muitas histórias importam. As histórias foram usadas para espoliar e caluniar, mas também podem ser usadas para empoderar e humanizar. Elas podem despedaçar a dignidade de um povo, mas também podem reparar essa dignidade despedaçada”. - Chimamanda Adichie, 2009, p.11 RESUMO A pesquisa analisou histórias de vida de mães de pessoas transgênero que saíram do armário, ou seja, que assumiram publicamente a identidade transgênero de suas filhas e filhos e a luta social e política frente a uma sociedade cisheteronormativa que, apesar das conquistas da comunidade transgênero, os marcadores da cisheteronormatividade e ainda continuam a regular a existência de corpos de suas filhas e de seus filhos. Para alcançar o objetivo da pesquisa, foram realizadas cinco entrevistas na perspectiva da história oral com mães de pessoas transgêneros que vivem nas cidades de Campinas/SP e Sorocaba/SP e que participam de movimentos e ações pelos direitos de pessoas trans. Foram analisadas as categorias família e transexualidade, fazendo um recorte em suas memórias das temáticas da infância, educação e transição de gênero. Os resultados apontaram que os acolhimentos destas mães à transgeneridade de suas filhas e filhos, rompendo “normativas” políticas, sociais e religiosas que as interpelavam, são resultantes de afetos, da busca de conhecimento sobre as questões de identidade de gênero e do envolvimento coletivo com outras mães de pessoas transgêneros e com instituições de lutas por direitos e respeito à comunidade LGBTQIA+ (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais, Queers, Intersexos, Assexuais e outros grupos e variações de sexualidade e gênero). Conclui-se que as cinco mães que saíram do armário em prol da luta de legitimidade de existência de suas filhas e filhos transgêneros, chegaram ao acolhimento delas e deles por meio de um processo de busca constante de se inteirar sobre as questões de gênero e sexualidade, através de referências buscadas em coletivos, ONGs e até pequenos grupos de mães de pessoas LGBTQIA+. A infância, a educação e a transição de gênero são categorias fundamentais em todo o processo, pois constituem as sujeitas e sujeitos transgêneros. A coletividade das mães faz a diferença no processo de acolhimento às filhas e filhos por essas mães. Mas, por fim, são o olhar e a escuta, como formação de rede de afetos, que se mostram as principais chaves para fazer a diferença sobre as diferenças. Palavras-chaves: transexualidade; história oral; mãe; armário; educação. ABSTRACT The research analyzed life stories of mothers of transgender people who came out of the closet, that is, who publicly take on the trans identity of their sons and daughters and the social and political struggle in front of a cisnormative society that, despite the achievements of the transgender community , the markers of cisnormativity and heteronormativity still continue to regulate the existence of bodies of their daughters and sons. To achieve the research objective, five interviews were conducted from the perspective of oral history with mothers of transgender people who live in the cities of Campinas / SP and Sorocaba / SP and who participate in movements and actions for the rights of trans people. The categories family and transsexuality were analyzed, making an excerpt in their memories of the themes of childhood, education and gender transition. The results showed that the acceptance of these mothers to the transgenderity of their daughters and sons, breaking political, social and religious “norms” that challenged them, are the result of affections, the search for knowledge about gender identity issues and the collective involvement with other mothers of transgender people and with institutions fighting for rights and respect for the LGBTQIA + community (Lesbians, Gays, Bisexuals, Transvestites and Transsexuals, Queers, Intersexes, Asexuals and other groups and variations of sexuality and gender. It is concluded that the five mothers who came out of the closet in favor of the struggle for the legitimacy of the existence of their transgender daughters and sons, came to welcome them and them through a process of constant search to find out about gender and sexuality issues, through references sought in collectives , NGOs and even small groups of mothers of LGBTQIA + people. Childhood, education and gender transition are fundamental categories and n the entire process, as they constitute transgender subjects and subjects. The collectivity of mothers makes a difference in the process of welcoming daughters and sons by these mothers. But, in the end, it is looking and listening, as the formation of a network of affections, that show the main keys to make a difference about differences. Keywords: transsexuality; oral history; mother; cabinet; education. SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO 12 2 A HISTÓRIA ORAL COMO FORMA DE TECER MEMÓRIAS E SIGNIFICADOS 21 2.1 Entre-vista: Escuta sensível, olhar atento e alma dançante 24 2.2 Transcriando memórias 27 2.3 Sobre as mães entrevistadas 30 Raimunda 30 Roseli 32 Irene 33 Renata 34 Brígida 35 3 CALÇA JEANS FORA DO ARMÁRIO 37 4 TÁBUA DE PASSAR FORA DO ARMÁRIO 46 5 BOLINHA DE SABÃO FORA DO ARMÁRIO 57 6 “MARIA CHIQUINHA” FORA DO ARMÁRIO 76 7 ULTRASSOM FORA DO ARMÁRIO 92 8 INFÂNCIA E EDUCAÇÃO: MEMÓRIAS DE EXPRESSÕES, REPRESSÕES E ENFRENTAMENTOS 103 8.1 A Infância 108 8.2 A educação 116 9 TRANSIÇÃO DE GÊNERO: TRAVESSIAS DE RE(CONSTRUÇÕES) 126 9.1 Nome social: Um chamado de re(existência) 132 9.2 Gerando corpos re (existentes) 135 10 RE(EXISTÊNCIAS) MATERNAS: CONSIDERAÇÕES SOBRE A MATERNAGEM 142 11 ESTIGMAS: MARCAS E “ENCARCERAMENTO” DE CORPOS 147 ALAS A NOVOS CAMINHOS... 149 REFERÊNCIAS 151 ANEXOS 157 12 1 INTRODUÇÃO Cheguei ao tema transgeneridade e mães/família com a seguinte pergunta de pesquisa: Qual o percurso e travessias de vida de mães de pessoas transgêneros que saíram do armário dentro de uma sociedade marcada pela cisheteronormatividade, transfobia e conservadorismo político e religioso? Partimos aqui do significado de transgeneridade, como é internacionalmente e sociologicamente conhecido o termo, que se refere às pessoas que transgridem as “normas” estabelecidas através do dispositivo binário de gênero, sistema que determina a divisão social entre mulheres e homens e a elas e eles são designados papéis e atributos. Transgeneridade, portanto como descreve Lanz (2014): é um termo ?guarda-chuva', destinado a reunir debaixo de si todas essas identidades gênero-divergentes, ou seja, identidades que, de alguma forma e em algum grau, descumprem, ferem e/ou afrontam o dispositivo binário de gênero em que a pessoa foi enquadrada ao nascer. (LANZ, 2014, p.6) Destaca-se que, além da pessoa transgênero, existe a travesti, que se refere às pessoas que “[v]ivenciam papéis de gênero feminino, mas não se reconhecem como homens ou como mulheres, mas como membros de um terceiro gênero ou de um não-gênero [...]”. (JESUS, 2012, p. 17) Embora, a pesquisa tenha se concentrado a ouvir mães de pessoas transgêneros considera- se importante lembrar o papel das travestis na luta pela legitimidade de existência desta população, assim como a participação nas lutas de toda comunidade LGBTQIA+ , o que inclui a luta para ocupar espaços sociais e políticos. Essa pesquisa é resultado de dois anos frequentando disciplinas na UFSCar Sorocaba, envolvendo as questões de educação e diferenças de gênero, sexualidade, raça, classe e estudos feministas, mas também de minha prática profissional como jornalista. Em paralelo aos estudos, como jornalista, atuando como repórter, eu percorria escolas do Brasil e me deparei com esses temas de forma latente, mas grande parte das situações são mantidas nos silenciamentos das instituições e das famílias. A princípio, o projeto de pesquisa de mestrado abordaria o tema da violência de gênero na escola. Porém, depois de passar um 13 tempo frequentando grupos de apoio de mães e pais de pessoas LGBTQIA+1 e ouvir principalmente algumas mães de pessoas transgêneros, um grito ecoou dentro de mim e me fez voltar o olhar às essas mães envolvidas nesses grupos, bem como aos seus engajamentos na luta para legitimar a existência de suas filhas e filhos. Cheguei à história oral, na categoria histórias de vida, como forma de me aproximar de um fundamento teórico-metodológico de pesquisa, porque encontrei na história oral o caminho mais amplo para que as mães que seriam entrevistadas pudessem ampliar suas vozes de trajetória e para que esse registro também possa ser, além de um trabalho científico, uma ferramenta de promoção de ações sociais, políticas e pedagógicas. Entende-se a História Oral como um grande projeto que, além de ecoar vozes, memórias, experiências de vida a partir do tempo presente, é um salvamento de muitos tempos, já que o trabalho não termina com as entrevistas transcritas, transcriadas, analisadas e a pesquisa divulgada. A intenção é que vozes ecoem por muitos espaços silenciados e abram caminhos para que outras vozes sejam ampliadas também quando o projeto chega à história pública. No primeiro momento da pesquisa, busquei mergulhar nas experiências vividas e, para isso, realizei cinco entrevistas com mães de pessoas transgêneros. Encontrei essas colaboradoras ao entrar em contato com coletivos, projetos e ONGs que reúnem mães de pessoas LGBTQIA+. Entre eles, destaco a ONG “Mães pela Diversidade”, que hoje tem membros em quase todos os estados do Brasil. Ressalto, que as entrevistas divulgadas na pesquisa foram mantidas no anonimato para preservar a segurança das mães, filhas e filhos, por isso usamos nomes fictícios. A pesquisa traz as memórias das histórias de vida de: Dona Raimunda, mulher preta, idosa de 69 anos, aposentada, evangélica, moradora de Sorocaba, interior de São Paulo. Ela é mãe de Priscila, uma mulher transgênero de 35 anos. Roseli, mulher branca, 42 anos, desempregada, moradora de Campinas, interior de São Paulo. Ela é mãe de Rodrigo, jovem transgênero de 21 anos. Irene, mulher branca, 45 anos, empresária, moradora de Campinas, interior de São Paulo. Ela é mãe de Juliano, jovem transgênero de 22 anos. 1 A pesquisa traz a sigla LGBTQIA+ como referência da diversidade de gênero e sexualidade, mas entende-se que o movimento político e social, que busca cada vez mais representatividade e direitos para a comunidade, é muito mais amplo que a própria sigla, que tem outras variações e que pode também ser ampliado ao longo dos tempos. 14 Brígida, mulher branca, 38 anos, estagiária de psicologia, moradora de Campinas, interior de São Paulo. Ela é mãe de Alex, adolescente transgênero de 15 anos. Renata, mulher branca, 41 anos, especialista em compras, moradora de Campinas, interior de São Paulo. Ela é mãe de Amanda, criança transgênero, de 9 anos. Todos os nomes fictícios foram escolhidos por mim. Após as cinco entrevistas realizadas e transcritas na íntegra, desenvolvi o trabalho de transcriação com o mergulho profundo nas narrativas das colaboradoras da pesquisa. Trabalhamos nessa imersão com três categorias de análises: Infância, Educação e Transição de gênero. A pesquisa foi estruturada em oito partes. No primeiro momento, discorro sobre o projeto em História Oral como ferramenta teórico-metodológica e sua forma de tecer memórias e significados, em seguida descrendo também sobre a entrevista e o processo de transcriação. Logo depois, trago uma br apresentação das mães entrevistadas e, na sequência, as entrevistas transcriadas. Para fundamentar essa parte do processo me fundamento em autoras e autores como (1997,2006,2020), Alessandro Portelli, (1994), Ecléa Bosi, (2006,2007), José Carlos Sebe Meihy, entre outras e outros. Após, chegamos à sequência de análises das entrevistas, que iniciam pelas categorias infância e educação com fundamentação teórica a partir de (2017,2020), bell hooks, (2006,2008,2017), Berenice Bento, (2008), Edith Modesto, (1997, 2000) Guacira Lopes Louro, (1994, 1996, 2000), Paulo Freire, entre outros Na sequência, analisamos a categoria de transição de gênero, onde recorremos entre outras e outros autores a (2012), Jaqueline Gomes de Jesus, e (2020), Sofia Favero. Antes do encerramento, a pesquisa discorre de forma breve sobre maternagem e estigmas trazendo como base teórica (2004), Regina Winter, (2004), Ernesto Duvidovich, (1985), Elizabeth Badinter e (1998), Erving Goffman. Por fim, trazemos a conclusão de todo o processo. Entre tantas importantes bases teóricas, destaca-se que a pesquisa buscou se fundamentar em pessoas trans pesquisadoras e pesquisadores de forma profunda em todas as categorias de análises. São pesquisadores e escritores, que movimentam a ciência e a política a partir do lugar das dores: Guilherme Almeida, Jaqueline Gomes de Jesus, Letícia Lanz, Sofia Favero e Thiffany Odara. Sabemos ainda que existem tantas outras mulheres e homens trans que fazem ciência deixando seus traços de resistências nos caminhos do conhecimento e reflexão sociais. 15 Memorial Desde a adolescência, as questões de gênero e sexualidade me cercam. Aos 16 anos, durante o ensino médio, mesmo já me relacionando com meninos, me apaixonei por uma menina na escola. Exploramos juntas nossa sexualidade, mas havia grande medo de minha parte que minhas colegas e meus colegas, professoras e professores percebessem o que eu estava sentindo, assim como não tive coragem de contar para a minha família esse processo inicial de descobertas. Naquela fase em que eu me escondia, colegas passaram a desconfiar primeiro da menina pela qual me apaixonei, pelo fato de ela ser desprendida de padrões de comportamento femininos pré-estabelecidos. Mas, pelo fato de estarmos sempre juntas, meus colegas também voltaram olhares de estranheza a mim e também fui julgada. Sim, julgada, porque é essa a postura dos sujeitos sociais e consequentemente do espaço escolar quando alguém sai das “normas”. Eu também não escapei dos julgamentos. Na escola, por diversas vezes recebi olhares distorcidos e ainda sem entender o que estava acontecendo com meus sentidos, voltei a me relacionar com meninos temendo ser hostilizada por minha identidade sexual. Durante alguns anos, transitei entre relacionamentos com meninos e meninas, até que a maturidade chegou e comecei a compreender melhor meu corpo, sentidos e sentimentos. Ao me apaixonar, munida dessa tal maturidade, me preparei para ter a primeira conversa com minha família. Foi uma conversa difícil, dura por parte de minha mãe. Demoramos pelo menos dois anos para nos entendermos, período em que eu também busquei as minhas certezas. E u também tinha uma certa dificuldade de aceitar a minha sexualidade, mas acredito que esse seja um processo de entendimento natural. Durante todo o período de faculdade, namorei uma mulher, mas continuei a manter discrição com meus colegas de turma. Junto a essa discrição, sempre vinha uma boa dose de sofrimento camuflada. Após minha formação na universidade, minha relação de entendimento com a família melhorou. Fui morar fora e a nossa proximidade aumentou. O mesmo ainda não acontecia nas relações sociais. Como jornalista, trabalhando em televisão ficava cada dia mais difícil expor minha sexualidade, porque a profissão por si só já trazia uma larga exposição. No início da carreira como repórter e apresentadora, eu parecia ouvir em silêncio as palavras das pessoas ao se referirem a mim: “Sabe aquela repórter lésbica?”. Era grande o medo da minha sexualidade ser colocada a frente do meu profissionalismo. Bobeira? Vaidade? Talvez sim, dentro de um processo de reconhecimento de valores. 16 Algum tempo depois de iniciar minha carreira na televisão, conheci uma jovem, que mais tarde me ajudaria com esse processo. Foi válido demais o tempo em que convivi com ela, começamos a encarar os espaços públicos de frente, nos assumimos como um casal para amigos de dentro e fora do trabalho, assim como para nossa família. Desde então, passei a refletir com profundidade sobre todo o processo de liberdade da sexualidade de um sujeito. Passei a encabeçar debates/discussões nos pequenos núcleos em que eu circulava. A partir desse entendimento, que demorou anos, eu pensava todos os dias o quanto de sofrimento seria poupado caso no início de minhas autodescobertas eu tivesse um professor, um orientador, um colega de turma que pudesse levar esse mesmo debate, que eu fazia muitos anos depois, para o espaço de formação na escola. Me dei conta de que jamais vi em alguma atividade na escola as questões de gênero sendo desmistificadas, ainda que de uma forma indireta, numa peça teatral, por exemplo. Como gostaria de ter visto aulas de educação física, por exemplo, com meninas jogando futebol com meninos e das filas sem separação por elas e eles. Tudo poderia ser diferente. Sempre acreditei na educação como a ponte mais segura para formar seres humanos com uma visão crítica de mundo. Mas, apesar dela seguir com essa intenção, ela também separa os sujeitos em categorias. Voltando ao memorial, eu digo que tenho a sorte de nunca ter sofrido violência física por minha sexualidade, mas a violência moral dói tanto quanto. Um olhar de repúdio, de condenação apenas por você andar de mãos dadas com alguém do mesmo sexo é uma dor, que parece passar rápido, logo depois de tal olhar, mas não é possível se enganar, ela gera traumas e por vezes pode culminar em limitações e medo. Sim, eu senti muitas vezes. Como repórter, por um período passei a abraçar as pautas de educação. Era, talvez, também uma tentativa de aplicar minha resistência de uma forma que ela atingisse o maior número de pessoas, já que eu tinha uma importante ferramenta nas mãos. Nesse processo, propus inúmeras séries de reportagens de educação, em muitas delas eu tentava de uma forma ou outra abordar as questões de gênero. Há três anos, senti que eu precisava buscar mais conhecimento, estudar as questões de gênero em profundidade. Procurei a UFSCAR, comecei a participar de um grupo de estudos, que nada tinha haver com gênero, mas naquele espaço encontrei pessoas que falavam abertamente sobre o assunto, enquanto eu ficava de olho nas disciplinas que me levariam ao objetivo principal. Meses depois, essas disciplinas apareceram na grade da universidade. Me candidatei como aluna especial de uma delas: “Memória e educação: estudos feminismos, sexualidades e 17 política”, da professora Viviane Melo de Mendonça. Foi a grande porta de entrada para eu me aprofundar nos estudos, onde conheci com mais profundidade diversas escritoras e escritores, que iniciaram a minha base científica para buscar ainda mais conhecimento. Entre tantas e tantos, cito bell hooks, Angela Davis, Conceição Evaristo, Simone de Beauvoir, Adrienne Rich, Joan W. Scott, Judith Butler, Patrícia Hill Collins, Patrícia Galvão (Pagu), Guacira Lopes Louro, Berenice Bento, Lélia Gonzalez, Sueli Carneiro, Gloria Anzaldúa, Teresa de Lauretis, Paul B. Preciado, Paulo Freire, Michel Foucault, Rogério Junqueira. Entendi, a partir dali, que a opressão nas questões de gênero e sexualidade está dentro de uma cadeia de opressões composta também pelas questões de raça e classe. No semestre seguinte, uma outra disciplina me deixou ainda mais imersa nos estudos de gênero: “Estudos para uma crítica a uma educação heteronormativa”. Nessa linha de estudos, consegui enxergar ainda mais o quanto nossa educação é estrutural e opressora e fiquei aguçada por ir além, por eu mesma buscar um fio condutor que me fizesse contribuir com os estudos de gênero à medida que eu fosse compreendendo mais os moldes de construção social. Em uma das reportagens de educação que eu fazia para a televisão, conheci uma professora de literatura, que me mostrou um método que ela havia criado para que os alunos compreendessem melhor o Romantismo e o Realismo. Durante a atividade com estudantes que gravaríamos, eu parabenizei a professora, pois havia percebido que naquela turma, os meninos pareciam respeitar muito as meninas em suas relações. Foi então que a professora me olhou com um olhar cabisbaixo e disse: “Não é sempre assim, Sandra”. A professora me contou que na semana anterior, naquela mesma turma, um aluno havia tocado as partes íntimas de uma aluna na hora do intervalo, e ela, ao se sentir invadida, deu um tapa no menino. Os dois estudantes foram para a diretoria e a menina levou uma advertência por AGRESSÃO, já o menino, por BRINCADEIRA BOBA. Era o meio grito que me faltava para que eu escolhesse uma linha de estudos. Eu disse a mim mesma: “Precisamos falar sobre gênero e sexualidade na escola, para tentar ao menos diminuir a violência de gênero e heterossexista no espaço escolar”. A partir desse dia, munida de um incômodo e tremenda angústia, passei a buscar casos de violência de gênero e heterossexista a partir da escola. Encontrei muitos, conversei com muita gente, muitos estudantes e então, decidi escrever meu projeto de pesquisa do mestrado em educação acerca desse tema. A proposta seria analisar esses exemplos da vida real e seguir na esperança de descobrir de que forma a escola poderia ajudar a mudar esse cenário, de descobrir exemplos de práticas educativas que caminham contra a concorrente. Me entreguei à pesquisa com o coração cheio de esperança. 18 No meio do percurso o tema de minha pesquisa mudou, foi quando voltei meu olhar para as pessoas transgêneros e cheguei à história de vida de mães de pessoas trans, mães que vivem na resistência para que suas filhas e filhos existam e re (existam) através de suas inquietações e lutas. Sou movida pela utopia da transformação, quem sabe um dia? Quem sabe um dia a poesia de Quintana emana. Quem Sabe um Dia Quem sabe um dia Quem sabe um seremos Quem sabe um viveremos Quem sabe um morreremos! Quem é que Quem é macho Quem é fêmea Quem é humano, apenas! Sabe amar Sabe de mim e de si Sabe de nós Sabe ser um! Um dia Um mês Um ano Um(a) vida! (Mário Quintana) Nesse processo de esperança, vem o processo de escrita e me pergunto também… Por que escrevo? Escrevo porque é uma forma de colocar minha alma pra dançar. A propósito, quero beber da escrita de Manoel de Barros pra dizer que gostei da expressão de escovar as palavras, sabia? É uma maneira de limpar as que foram jogadas insanas, em vão e de renovar o vocabulário, para que bem despido de julgamentos, novas palavras cheguem para compor o universo de meu repertório, de meu próprio dicionário, ou para que eu me abra para o dicionário do mundo. A escrita, em todas as fases, seja na hora do pensei e não escrevi, do escrevi e não concluí ou na hora do casamento de papel passado com ela, é sempre um momento de entrega, de desapego, a gente não só escova as palavras quando escreve, a gente se entrelaça nelas. 19 Apesar de existir a borracha, uma palavra escrita já existiu. Palavras: Apesar de escovadas lá estarão elas, sempre vivas, prontas para serem capturadas outra vez. Então, pode escovar outra vez, e outra vez e outra vez, mais uma vez: Nasceu outra? Escreveu? Parabéns, Escritora! Já é hora de escovar outra vez! De volta ao cercar das questões de gênero em minha vida, eu já estava a frequentar o mestrado em educação na UFSCAR como aluna regular, quando um dia, em meu novo trabalho como assessora de comunicação da prefeitura de Sorocaba, chega essa mensagem de pedido de ajuda no portal da prefeitura. Pedido de ajuda de uma jovem transexual que chegou ao portal da prefeitura de Sorocaba e foi lido e respondido por mim: “É uma dúvida posso falar por aqui? Bom vou ser direta, eu sou uma menina Trans moro em outra cidade mais estou indo pra Sorocaba em breve E tipo, o meu sonho como de algumas Trans ai eh fazer a cirurgia de resignação sexual e como sou desempregada e mesmo q fosse empregada sairia caro eu vou tentar pelo Sus, porem eu preciso de 2 anos de atendimento com psicólogo e psiquiatra pra confirmar q sou Trans e que respeite q sou Trans. Já que não consegui o mesmo na minha cidade...Eu sai chorando pq passei transfobia da psicóloga. Ela era aquelas psicólogas que colocam a religião acima de tudo. Ela nunca respeitou meu gênero (feminino) e meu nome social, ela criticava, ele Só esse começo já eh errado no meu ponto de vista Era isso Espero q tenha entendido A dúvida era se eu conseguiria esse atendimento com vcs sem psicólogos transfóbicos q querem MUDAR o que sou?” Aquele apelo desesperador me chamou a atenção, porque eu sabia que ninguém no departamento de comunicação estaria preparado para responder de forma confortável a mensagem da menina. Tomei a frente da resposta, conversei com ela, enviei todas as orientações, ainda a apresentei a ATS - Associação Transgêneros de Sorocaba, pedi que ela procurasse a instituição para obter todo o amparo que precisasse naquele momento. Mesmo sem saber quem estava do outro lado do teclado, ela me agradeceu pelas palavras de orientação e 20 conforto ali digitadas e disse que jamais havia recebido tal atenção para tratar de um assunto tão particular, que é só dela. Penso que talvez eu tenha conseguido fazer aquela menina trans sentir esse conforto, porque os nossos corpos e nossas vidas são políticos. Precisamos pensar e discutir a existência deles em todos os espaços. A Educação, em meu modo de olhar, é um caminho de pensamento, que pode ser coletivo, desbravador e transformador. É por isso que cheguei aqui e acredito nesse caminho, que AINDA está vivo. Como eu tenho certeza disso? Estou viva dentro dele. Antes de avançar, considero importante fazer aqui em meu memorial, uma breve apresentação da consciência do meu “Lugar de Fala” nesta pesquisa. A expressão “Lugar de Fala” é trazida por Ribeiro (2017) como lugar no qual, do ponto de vista do discurso, os corpos objetificados, explorados e subalternizados lutam para existir. Nesta pesquisa, parto do lugar de uma mulher branca, cisgênero, lésbica, de classe média. Eu não falo pelas mães de pessoas transgêneros, muito menos pelas pessoas transgêneros, mas sim atravessada pelas histórias de vida narradas pelas mães. Desse “Lugar de Fala”, portanto, deixo as histórias dessas mulheres me atravessarem e me levarem a um lugar que eu não conheço e a partir do qual eu posso mediar, através das entrevistas, o que se passa nesse lugar, quais as lutas, conquistas e ainda as vulnerabilidades dele e ampliar essas vozes para que elas cheguem a outras mulheres. A história oral, como perspectiva de pesquisa, é uma ponte potente de transposição e transformação do mapa desse lugar. Falo de um lugar normativo, mas meu lugar é aberto a receber articulações constantes. 21 2 A HISTÓRIA ORAL COMO FORMA DE TECER MEMÓRIAS E SIGNIFICADOS As pessoas sempre relataram suas histórias em conversas. Em todos os tempos, a história tem sido transmitida de boca em boca. Pais para filhos, mães para filhas, avós para netos; os anciãos do povoado para geração mais nova, mexeriqueiros para ouvidos ávidos; todos a seu modo, contam sobre acontecimentos do passado, os interpretam, dão-lhes significado, mantém viva a memória coletiva. Mesmo na nossa época de alfabetização generalizada e de grande penetração dos meios de comunicação “a real e secreta história da humanidade” é contada em conversas e, a maioria das pessoas ainda forma seu entendimento básico do próprio passado, por meio de conversas com os outros. (GRELE, 2006, p.17) A história oral é sempre social. Social, sobretudo, porquê o indivíduo só se explica na vida comunitária. (MEIHY, 2006, p.160) Muita gente, não tem sequer vontade de ouvir… É urgente viver encantado (MÃE, 2019, p.12) Cheguei à história oral porque sabia que ela seria muito mais do que uma ferramenta de procedimentos de pesquisa. A história oral não me deixaria engessada e rígida, ela atuaria transcendendo as memórias que generosamente chegariam a mim e que eu teria a imensa responsabilidade de acolhê-las e levá-las à público em um processo transformador para mim, sim, mas sobretudo para as mulheres entrevistadas, colaboradoras nessa produção de conhecimento e também para quem terá contato com essas memórias, tudo isso fazendo ciência, construindo saberes. A partir dessa ideia, trago a seguinte definição sobre o projeto de história oral: História oral é uma forma de saber que se estrutura em procedimentos específicos na condução de entrevistas e o posterior estabelecimento de documentos escritos. Os resultados devem, sempre que possível, ser submetidos à análise, tendo em vista a produção de conhecimentos temáticos e teóricos na contemporaneidade. A devolução pública e os cuidados éticos e com a preservação do material devem, por sua vez, constituir preocupação e compromisso permanente do pesquisador. (MEIHY; HOLANDA, 2010, p.15) A escuta ativa, a transformação em palavras escritas e a expansão de vozes me encantaram ainda na infância, quando escutar histórias era quase uma gincana de criança, a gincana da replicagem. Eu me sentia generosa e corajosa naquela “brincadeira”, mesmo menina, eu parecia saber da responsabilidade de lidar com as histórias, as palavras e as emoções 22 das pessoas. Gostava de me sentar ao lado de gente, ouvir suas histórias, anotar os pontos principais e, a partir dali, construir narrativas que fizessem sentido para as donas e donos das histórias e também para quem iria entrar em contato com elas. Para mim, só fazia sentido histórias reais, que movimentaram vidas e núcleos sociais. Eu só não sabia que naquele momento eu já fazia um movimento humano e político e também não sabia que aqueles registros de histórias deveriam ser preservados. Anos depois, me encontrei com o jornalismo na graduação. A partir daquele momento, passei mais de 12 anos de minha vida penetrada em histórias no trabalho diário de repórter de televisão. Dezenas dessas histórias foram construídas no cerne da educação, quando voltei meu olhar para esse setor de vida essencial. Creio que deixei uma grande contribuição ao amplificar vozes e histórias invisibilizadas pela sociedade e poder público. Aqui, não pretendo estabelecer relação profunda entre jornalismo e história oral, uma vez que o jornalismo diário trabalha com a perspectiva de histórias a partir de um fato, já a história oral olha acima de tudo para a experiência humana: A História Oral, de uma riqueza extraordinária, é aquela que vem ligada a uma perspectiva de história social que trabalha com a experiência, homens, mulheres e crianças. Quer dizer, não trabalha mais com o discurso que se encontra no jornal sobre determinado acontecimento, mas trabalha com os sujeitos que vivenciaram de diversas formas. Assim como a revolução francesa foi vivenciada, experimentada e reapresentada de diferentes formas, imaginemos a quantidade de percepções que as pessoas têm a respeito de qualquer coisa. Dessa forma, será possível, como veremos, analisar detalhadamente o processo de construção da identidade. (ROUCHOU, 2003, p.5) Sobre a perspectiva da informação que chega por meio do jornalismo e da história oral, considera-se a informação jornalística, aquela que é factual, instantânea e passageira, que pode perder a potência logo depois de ser reportada. Enquanto a história oral, que nos chega pela narração, como descreve Ecléa Bosi (1994, p. 87), “[n]ão se consuma, pois sua força está concentrada em limite como a da semente e se expandirá por tempo indefinido”, a memória com toda a sua teia, transborda em significados e ressignificados do tempo passado a partir do tempo presente. Nesta pesquis , a observa-se muitas construções de sentidos nas histórias narradas pelas mães a partir do tempo presente, principalmente levando em consideração o momento político em que a pesquisa é realizada, quando há no Brasil um fortalecimento da extrema direita e de bancadas religiosas nos poderes. Há, nesse contexto, olhar e atitude repressores e tentativas de retiradas de direitos à população LGBTQIA+. O momento das entrevistas é também um momento de reflexão das narradoras a partir do exercício da memória. A narrativa em história oral é inesgotável em possibilidades de sentidos, pois ela é atravessada pela experiência do tempo. 23 Foi no mestrado que conheci a história oral. Ao estudá-la, encontrei uma característica essencial que conversa com o jornalismo: Ouvir. Assim, fui de encontro à essência da escuta, que sempre me encantou e que é presente aos narradores, como Rubem Alves deixou em seus escritos: O que as pessoas mais desejam é alguém que as escute de maneira calma e tranquila. Em silêncio. Sem dar conselhos. Sem que digam: "Se eu fosse você". A gente ama não é a pessoa que fala bonito. É a pessoa que escuta bonito. A fala só é bonita quando ela nasce de uma longa e silenciosa escuta. É na escuta que o amor começa. E é na não-escuta que ele termina. Não aprendi isso nos livros. Aprendi prestando atenção. (ALVES, 1999, p. 65) A partir do entendimento da história oral, iniciei a busca por mães de pessoas transgêneros que aceitassem me contar suas histórias de lutas com suas filhas e filhos diante da não conformidade de gênero delas e deles. Minha condução nas entrevistas com as colaboradoras da pesquisa foi a partir da abordagem de história de vida, linha da história oral que “[p]resta atenção ao valor moral da experiência pessoal...é mais espontânea e não comporta questionários fechados nem os esquemas herméticos de perguntas e respostas”. MEIHY, (2006, p. 136 e 147). Dessa forma, consegui manter uma escuta livre, sem buscar um esclarecimento ou uma verdade, assim como deixar que a narração das colaboradoras fluísse livre também, apenas com intervenções de um diálogo, o que trouxe muitos elementos importantes de análise para a pesquisa. Depois de me engajar nessa escolha e direção que faria nas entrevistas, passei a frequentar reuniões do GPH - Grupo de Pais De Homossexuais de Sorocaba e do projeto Cereus, grupo terapêutico que atende mães e pais de pessoas transgêneros, também em Sorocaba. Em uma das rodas de conversas do GPH, que participei em julho de 2019, observei que havia muitas mães e poucos pais buscando conversar sobre as questões da transgeneridade de suas filhas e filhos. Ao fim da reunião, me aproximei de uma mãe e conversamos por cerca de 10 minutos, tempo suficiente para ela confirmar que as reuniões eram de fato pouco frequentadas por pais e que muitas mães que chegavam naquele espaço tinham o desafio de lutar com suas filhas e filhos no processo de transição, assim como no enfrentamento às questões de preconceito da família e pessoas em geral. Ela disse ainda que, assim como ela, muitas mães tiveram que intermediar a relação de suas filhas e filhos com os pais. A mulher terminou nossa conversa confessando que seu marido, pai de sua filha é um homem que cresceu em uma família muito machista e que fazê-lo acolher a filha foi tão difícil 24 quanto os enfrentamentos a outros membros da família, amigos, escola e os demais círculos sociais. Porém, aquela nossa conversa tenderia a terminar com otimismo, quando a mulher me disse que saiu do armário primeiro e o marido saiu bem depois, os dois procuraram ajuda para entender as questões de gênero e hoje a família inteira acolheu a filha dela. A mãe, com quem conversei naquele encontro não está entre as cinco mulheres ouvidas na pesquisa por questões de agenda da mãe, mas aquele pequeno relato ajudou a organizar meus primeiros passos e fortaleceu a necessidade de ouvir mães/mulheres que ultrapassaram conflitos pessoais, lutaram e lutam para que suas filhas e filhos tenham dignidade diante de uma sociedade transfóbica, pois, como traz o filme Dois Papas de 2019, “O mundo pode ser caótico e há beleza nisso”. A História de vida de mães de mães de pessoas transgêneros trouxe à essa pesquisa um recorte importante dos enfrentamentos dessas mães frente às resistências ao acolhimento à diversidade, mas também vem apresentando um caminho no “esperançar” de mudanças a partir do acolhimento das diferenças pelo afeto e respeito. Um esperançar como propõe a reflexão do patrono da educação brasileira. É preciso ter esperança, mas ter esperança do verbo esperançar, porque tem gente que tem esperança do verbo esperar. E esperança do verbo esperar não é esperança, é espera. Esperançar é se levantar, esperançar é ir atrás, esperançar é construir, esperançar é não desistir! Esperançar é levar adiante, esperançar é juntar-se com outros para fazer de outro modo (FREIRE, 1992, p.9). O verbo “esperançar”, se relaciona com a pesquisa por sinalizar a esperança no campo da mudança a partir de ações práticas em que se assume o papel de agente transformador. É assim que as cinco mães entrevistadas na pesquisa se posicionam hoje fora do armário. 2.1 Entre-vista: Escuta sensível, olhar atento e alma dançante Entrevistar é um dos principais núcleos da história oral. Mesmo com a força apresentada pela teoria, é na pesquisa de campo, na busca, no encontro, no ouvir, que as possibilidades chegam ao pesquisador e são ampliadas na condução da escuta. A própria palavra entre-vista nos encaminha para o inteiro da presença e da troca pelo diálogo. Muito além dessa direção, é na entrevista que acontece o jogo de sentidos que as relações entre as colaboradoras e a pesquisadora proporcionam à pesquisa. Assim, de acordo com Meihy (2006, p. 140- 141), “[h]istória oral é um trabalho que se faz junto [...] entre pesquisadores e entrevistados [...] A 25 consciência de oralista como personagem impõe o conceito de “colaborador” 2 como substituto de “informante”, “ator social”, “objeto” [...] de pesquisa”. Partindo desse pensamento, a história oral requer olhos e ouvidos sensíveis da pesquisadora para estar entregue às experiências e não às informações, já que entrevistas nos trazem territórios humanos. De acordo com Portelli (1997, p. 31) elas “[s]empre lançam nova luz sobre áreas inexploradas da vida diária das classes não hegemônicas [...] contam-nos não apenas o que o povo fez, mas o que queria fazer, o que acreditava estar fazendo e o que agora pensa que fez”. Esse pensamento nos lança à ideia de que a história oral é um tempo suspenso onde a escuta se deleita para viver pela oralidade. Depois desse processo, aquela narrativa se aconchega para ser pública, revivida pela colaboradora e acolhida pela ouvinte. Entendo que a história oral é um mundo que caminha entre palavras, discursos, narrativas e o desejo de ouvi-las e interpretá-las, porque você encontra o tempo todo o tempo presente com nuances de narrativas. A perspectiva que adoto nessa pesquisa é de que escutar é um dos grandes privilégios que temos na vida e de acordo com Portelli (2016, p. 21), “[o]que há de mais importante sobre a natureza dialógica do trabalho de história oral é que ele não termina com a entrevista, ou mesmo com a publicação: Ele precisa encontrar maneiras de ser útil aos indivíduos e às comunidades envolvidas ”. Dessa forma, as histórias de vidas trazidas aqui certamente chegarão à história pública, atendendo, assim, não só quem Meihy, (2006, p. 130) nomeia “comunidade de destino” na história oral, como também servindo de instrumento de formação de políticas públicas sociais a favor de direitos da comunidade trans. Na pesquisa, entrevistei cinco mulheres entre os dias 23/09/2019 e 29/01/2020. As mulheres têm entre 38 e 64 anos, três são moradoras de Campinas e duas vivem em Sorocaba. Entre as cinco, temos mulheres de momentos diversos da vida profissional: uma compradora, uma empresária, uma desempregada, uma estagiária de psicologia e uma aposentada. As mulheres compõem desde a classe média baixa até a média alta. Entre elas, temos uma mulher negra, idosa. Todas as mulheres são mães de pessoas transgêneros. As entrevistas feitas foram transcritas na íntegra e depois transcriadas. Em respeito à identidade de gênero de suas filhas e filhos, sempre uso aspas nos pronomes pessoais “ele” e 2 “Colaborador”, termo que aqui, não se assemelha à relação de corporativismo, é um termo importante na definição do relacionamento entre o entrevistador e o entrevistado. Sobretudo, é fundamental porque “estabelece uma relação de compromisso entre as partes”. (MEIHY, 2006, p.154). Usaremos esse termo na pesquisa entendendo ainda que as mulheres, enquanto entrevistadas para um projeto de história oral, estão colaborando com a produção de conhecimento. 26 “ela” no momento de se referir ao gênero designado ao nascer. Para preservar o anonimato3 das narradoras e de suas filhas e filhos, todos os nomes foram mantidos em sigilo e utilizei nomes fictícios na transcrição e transcriações. Os nomes foram escolhidos com base em nomes de pessoas que eu conheço e que encontro nelas algumas características das pessoas que compõem as histórias narradas. Todas as entrevistadas assinaram o termo de consentimento livre e esclarecido, que consta anexo na defesa da dissertação. Antes da defesa ocorrer, fiz a devolutiva das entrevistas transcritas e transcriadas às colaboradoras como parte do processo da história oral na pesquisa. Como descreve Meihy (2006, p. 167): “[é] para o público que o trabalho de história oral se faz, as partes devem estar empenhadas na clareza dos resultados [...] É nesta operação que a história oral se realiza enquanto uma forma democrática de versão de situações sociais, que, no mínimo, têm olhares diferentes”. Sobre o processo de devolução das entrevistas, compartilho a mensagem que recebi no celular da primeira mãe, que fiz a devolutiva da história de vida compartilhada: Acabei de ler agora, adivinha como estou? Com lágrimas nos olhos e uma sensação de que vc me deu a oportunidade de passar para outras pessoas que não é um bicho de sete cabeças, que a única coisa que pedimos é respeito por cada indivíduo, pq no final, somos todos iguais em sentimentos, cada um com suas peculiaridades. Estou muito feliz e grata por vc ter nos dados essa chance. Agradeço por manter nossa história viva! (ROSELI, mãe de Rodrigo, jovem trans. Mensagem enviada em 19/03/2021.) Sobre a potência de entrevistar e ser ponte entre as memórias e a história pública, recorro à definição de Portelli, 2010: Na oralidade das entrevistas encontramos a forma de comunicar específica de todos os que estão excluídos, marginalizados, na mídia e no discurso público. Buscamos as fontes orais porque queremos que essas vozes – que, sim, existem, porém ninguém as escuta, ou pouco as escutam – tenham acesso à esfera pública, ao discurso público, e o modifiquem radicalmente. (PORTELLI, 2010, p.3) As fontes orais, que nesta pesquisa chamo de colaboradoras, “não são objetos de investigação e sim sujeitos de um projeto compartilhado, de um diálogo entre o entrevistado e o entrevistador. Um diálogo em que os papéis se modificam, mudam, em que nem sempre é o 3 A decisão por manter o anonimato na pesquisa se deu pelo fato das histórias de vidas narradas, envolverem outras vidas. Levamos em consideração que, ao divulgar o nome das mães, seria simples identificar as filhas e filhos, que são pessoas vulneráveis e temos no grupo de mães entrevistadas crianças e adolescentes. A pesquisa foi sensível a essa vulnerabilidade, principalmente pelo momento político vivido no Brasil, em que a população LGBTQIA+ sofre ataques constantes de violências físicas, morais e de ameaças a perda de direitos. 27 historiador quem faz as perguntas, há perguntas colocadas pelo entrevistado”. (PORTELLI, 2010, p.4) Não existem papéis rígidos nas cinco entrevistas realizadas, daquela pessoa que pergunta e a que responde, os papéis transitam, não há relação de posições de poder. Durante as entrevistas eu observava cada vez mais a oportunidade que eu tinha de agigantar meus ouvidos para escutar as memórias e reflexões das mães, e assim, as relações na história oral vão se construindo nessa pesquisa, o que Portelli (2016, p.4) define como “[u]m espaço narrativo em que a agenda do historiador e a agenda do entrevistado se encontram[...]”. As cinco entrevistas foram encontros de acolhimento às diferenças e transformação de entrevistadora e entrevistadas. De um lado, uma mulher cisgênera, lésbica, buscando saber e unindo os pontos de escutas das narrativas para a promoção do conhecimento público, do outro, mulheres cisgênero, mães de pessoas transgêneros ressignificando memórias de dor e luta através do tempo presente. No centro de nosso diálogo as diferenças se concentravam em escuta, olhar, respeito e interesse conjunto à promoção da história pública. Como define Portelli, (2016, p.6): “[a] entrevista é um experimento de igualdade[...]”. Juntas, entrevistadora e entrevistadas descontruímos diferenças em pleno exercício de nossa igualdade. 2.2 Transcriando memórias A história oral requer ângulos diferentes que se completam ou mesmo que se contradizem...O tom vital é básico para uma boa operação textual. (MEIHY, 2006, p. 151 e 156 Antes de ser atualizada pela consciência, toda lembrança “vive” em estado latente, potencial. (BOSI, 1994, p.51) A transcriação é estudada e aplicada por vários pesquisadores em história oral e é parte importante do processo metodológico. Ela nos lança um desafio de construir/criar a partir do que é real e importante para as colaboradoras, além de nos instigar a transferir as memórias narradas da forma mais compreensiva, porém sem perder a originalidade da narração. Recorro a Meihy (2006) para trazer a essência da transcriação na história oral: O processo de transcriação é fundamental...ao verter do escrito para o oral, não estamos tratando de uma operação mecânica, atenta aos detalhes “do que foi dito exatamente como aconteceu”. O processo de entendimento, para viabilizar a compreensão de uma dada circunstância, impõe dimensões do drama que muitas vezes se abrigam em gestos, silêncios, risos. É isso o que o “autor” tem de saber e 28 desenvolver em termos de sensibilidade [...] Não se trata de passar de um estágio para o outro apenas segundo o “bom senso”. Mas as sutilezas da fala, de um modo geral, escondem detalhes que, se revelados, podem ser bastante significativos do sentido geral da história. É assim que o tom vital se torna relevante. (MEIHY, 2006, p.150 e 151). A partir das raízes do conceito, entende-se que a transcriação é importante para trazer a vivacidade da história, o que Portelli (1997, p. 30) chama de “[o] colorido da história”. Cabe ao pesquisador, na transcriação, estabelecer um diálogo compreensível entre o narrador e quem vai receber aquela história. Considera-se importante destacar que a transcriação não pode jamais ser considerada a substituição da narração oral e sim um processo que agrega síntese às memórias narradas. Seguindo Barbosa (2014, p. 12), no prefácio do livro “Memória e Sociedade: Lembrança de velhos” de Ecléa Bosi (2014): “não apenas se colhe memórias se dá [...] existência a essas memórias”. Essa afirmação se articula com a ideia anterior trazida por Portelli (2016) de apresentar a história viva do narrador. Durante as entrevistas desta pesquisa, percebe-se que algumas mães trazem em suas memórias momentos de vida anterior à maternidade que ativaram significados em suas lutas enquanto mães de pessoas trans. Um exemplo é quando uma das mães conta que viu o irmão mais novo dela apanhar do pai na infância por ter expressões socialmente construídas como femininas. A mãe em questão relaciona o acolhimento à sua filha transgênero também ao que viu em sua infância, no tratamento do pai com o irmão, e diz que não imaginava fazer a filha sofrer como o irmão sofreu. A mãe também relaciona a repressão de seu pai com ela na infância ao tratamento que tem com sua filha transgênero. Ela narra que usou uma calça jeans pela primeira vez aos 18 anos por questões religiosas do pai e que teve seus desejos reprimidos, conduta que ela não repetiu com a filha transgênero. São questões que vieram em falas soltas durante a narração, mas que ganham vida na transcriação. A transcriação é um trabalho profundo de muitas re-(escutas). Quando transcrevi as entrevistas de cada uma das cinco mães, sabia que elas não poderiam ser apenas relidas a partir da transcrição e sim re-(escutadas). Na escuta, entrei em contato novamente com o subjetivo da narração, e ali, outras subjetividades foram encontradas, muitas vezes, pelo silêncio. São esses níveis de narração ou de silêncio que cabem ao pesquisador de encontrar a vida durante o trabalho de transcriação que é: a fase final do trabalho dos discursos. [...] Teatralizando o que foi dito, recriando- se a atmosfera da entrevista, procura-se trazer ao leitor o mundo de sensações provocadas pelo contato, e como é evidente, isso não ocorreria reproduzindo-se o que foi dito palavra por palavra. [...] tem como fito trazer ao leitor a aura do momento da gravação. [...] O fazer do novo texto permite que se pense a entrevista como 29 algo ficcional e, sem constrangimento, se aceita esta condição no lugar de uma cientificidade que seria mais postiça. Com isso valoriza-se a narrativa enquanto um elemento comunicativo prenhe de sugestões. [...] Neste procedimento uma atitude se torna vital: a legitimação das entrevistas por parte dos depoentes. (MEIHY, 1991, p. 30-31) Nessa etapa, o historiador oral precisa se abster de julgamentos para encontrar caminhos para a diversidade presente na narração. Observa-se que a história oral com todos os seus processos, entre eles a transcriação, pode ser capaz de trazer abordagens tanto da subjetividade individual quanto da coletividade da memória. Como descreve Chauí (1994, p. 30): “Os silêncios falam sem, contudo, nos dizer o que está acontecendo”. A transcriação, portanto, revela a vivacidade desses silêncios e, na perspectiva de Caldas (1999, p. 1): “[se] abandona os estritos domínios das ciências” e cria-se dimensões diversas a partir do instante da narração. Tantas reflexões trazidas sugerem que a memória que passa pela transcriação ganha ainda mais vida a partir da interpretação do momento presente. Temos um acesso privilegiado, que seria quase intocável, não fosse a escuta ativa, o olhar atento e as emoções pulsantes das colaboradoras e da ouvinte. Toda essa memória ganha vigor fluído com essa etapa do processo. O pesquisador, de acordo com o que descreve Caldas (1999, p. 3), tem um papel rigoroso, pois “[s]ua matéria é o presente e o passado que o acompanha por dentro dando-lhe múltiplas dimensões, profundidades e reentrâncias”. Observamos essas alternâncias na forma de narração, nos detalhes enfatizados, na respiração, nas emoções, no vai e vem do tempo e das histórias. Desse modo, a transcriação não é uma mera modificação da estrutura do dito, mas também uma leitura e interpretação do universo real do discurso, além de um envolvimento profundo com a escrita. Como descreve Caldas (1999, p. 5): “[n]ão são textos que se dizem, mas que exigem o diálogo, o posicionamento e a reinterpretação. São textos que resultam de uma poética da experiência”. A vivacidade do texto da transcriação tem a intenção de trazer o real da narração, mas de uma forma que o narrador não poderia ter pronunciado, porém todo o contexto está presente no texto. As vivências que me chegaram a partir dos relatos das mães precisaram ser compiladas na re-(escuta) e transcriação, já que a nossa responsabilidade na transcriação enquanto pesquisadores é de realizar um outro modo de reviver a experiência da entrevista e, para isso, precisamos trazer a voz para o mundo da escrita de forma fluída. As entrevistas transcriadas foram delicadamente cuidadas nesse processo. Elas foram construídas a partir das anotações do caderno de campo e das re(escutas) das gravações, além do tom vital das entrevistas, que trouxe o respiro de ‘fora do armário’ para dentro do processo 30 de transcriação. Esse processo foi pensado a partir do que as próprias mães sinalizavam através de suas narrativas como pontos essenciais nas histórias vividas com suas filhas e filhos. É claro, que nesse caminho, nem todas as narrativas tornam-se centrais, por questão de tempo de percurso da pesquisa. Foi preciso ampliar a escuta e o olhar às colaboradoras para entender quais pontos em suas histórias não poderiam ficar de fora da pesquisa e os que necessitam de uma continuidade científica. Os cortes de narrativas levaram em consideração todas essas questões como também a divisão de categorias analisadas, todas a partir do grau comum e essencial narrado pelas mães. As cinco mães entrevistadas entraram em contato direto com esses documentos. A devolutiva na história oral, assim como o aval de publicação, é o que faz a história oral uma metodologia ainda mais potente, por seu caráter humano, político e de respeito às memórias das colaboradoras. 2.3 Sobre as mães entrevistadas Raimunda Raimunda, de 64 anos, foi minha primeira entrevista da pesquisa. Nosso encontrou aconteceu no dia 23/09/2019 na casa dela. Raimunda é mãe de Priscila, de 35 anos, mulher transgênero. O que seria uma escuta exploratória para trazer elementos norteadores e categorias a serem abordadas e analisadas na pesquisa, acabou se transformando em encontros de escuta livre, ampla e bela. Cheguei à Raimunda apresentada por Thara Wells, presidente da ATS - Associação Transgêneros de Sorocaba. Ela conhecia Raimunda não apenas por ser amiga da filha Priscila, mas porque Raimunda já acompanhou a filha em muitos encontros na ATS. Quando me falou sobre a relação de Raimunda com a vida da filha, Priscila, e o interesse que a mãe tem não apenas pela vida da filha, mas também por todos os ciclos sociais da comunidade LGBTQIA+, que cercam a vida de Priscila, me chamou a atenção uma questão: Raimunda é uma mulher evangélica, frequentadora da Congregação Cristã do Brasil. Raimunda não se limita a falar sobre os desafios da comunidade LGBTQIA+ só nos ciclos de convivência familiar e da filha Priscila. Raimunda é uma mulher de consciência social e afeto coletivo, portanto, dentro da igreja, se tiver oportunidade de falar sobre a filha trans e também defendê- la de qualquer tipo de destrato, ela fará. 31 Depois de conversar por telefone com a filha, Priscila, sobre como seria a entrevista e receber o apoio dela para que eu entrevistasse a mãe, liguei para Raimunda. Ela prontamente aceitou que nos encontrássemos. A entrevista foi na casa de Raimunda. Naquele primeiro dia, ficamos seis horas juntas. Entre a conversa que estávamos sentadas no sofá da sala, tivemos paradas para um café e para ver fotos antigas. Raimunda é uma mulher de fé inabalável, isso também encantou meus ouvidos e olhares, uma vez que a fé de Raimunda se distancia de qualquer tipo de fanatismo religioso e isso não aparece somente em sua narração, o entusiasmo de vida guiada por afeto e respeito à diversidade aparece em seus gestos carinhosos, enquanto fala, por exemplo, da relação com seu irmão gay e também com os amigos de Priscila, aos quais Raimunda mantém a porta de sua casa aberta para acolhê-los ao menor sinal de necessidade. Raimunda me mostrou fotos de sua participação nas paradas LGBTQIA+ de Sorocaba e São Paulo, me disse que os carros de som eram bonitos e as pessoas animadas. Raimunda dificilmente silenciou durante nossa conversa, falou sobre todas as questões de luta com a filha transgênero, acolheu a filha desde a primeira conversa que tiveram e se coloca a frente de qualquer tipo de preconceito que a filha venha a sofrer. Raimunda tem um olhar afetuoso, o movimento das mãos é delicado e o tom de voz sempre baixinho. O único momento da entrevista que deixou Raimunda com a voz embargada foi quando perguntei sobre a vida profissional da filha, que, assim como 94% das pessoas transgêneros recorrem à prostituição como forma de sobrevivência. Raimunda reconhece todos os valores de Priscila, mas não esconde a tristeza em saber que a filha deixou a escola, concluiu o ensino médio com muita dificuldade e não fez curso superior por falta de oportunidade, sendo o preconceito colocado à frente de qualquer chance. No primeiro dia, passei mais de seis horas com Raimunda. Voltei para casa com muita vida em relatos. Transcrevi toda a entrevista na mesma semana. Durante a transcrição, cheia de elementos, descobri que aquele relato não mais seria uma entrevista exploratória e sim uma das mães da pesquisa. Após um encontro com minha orientadora, decidimos que eu precisava escutar mais Raimunda. Assim que liguei para ela, fui surpreendida com a voz doce e baixinha, com sorriso auditivo me dizendo: “Foi tão boa a nossa conversa, depois passei a noite lembrando do que já não me lembrava mais e do significado de tudo isso para a minha vida hoje”. O entusiasmo de Raimunda com a reflexão trazida pelas memórias a partir do tempo presente significa o encantamento da história oral. Para Portelli (2016, p. 18), “o que faz com que as fontes orais sejam importantes e fascinantes é precisamente o fato de que elas não 32 recordam passivamente os fatos, mas elaboram a partir deles e criam significados através do trabalho de memória e do filtro da linguagem”. É curioso e interessante observar que a história oral pode envolver em proporções quase iguais as donas e donos das histórias e seus contemplados pelas narrativas porque “a história oral é um trabalho sedutor, não menos sedutor para o ouvinte do que para o narrador” (PATAI, 2010, p. 29). Retornei à casa de Raimunda mais uma vez no dia 22/10/2019. Na segunda entrevista, passamos mais quatro horas juntas e ela retomou sua narrativa de forma ainda mais solta, mais à vontade para falar. Na segunda entrevista, dividi as questões mais centrais que apareceram na primeira entrevista e retomamos aos pontos, com foco em escola, infância e religião, que no trabalho de re-escuta da transcrição senti a necessidade de aprofundarmos mais as memórias. Nesse segundo encontro, Raimunda abriu novas páginas de sua história de luta com a filha transgênero, a partir de sua própria história, antes de ser mãe. Dessa vez, Raimunda abriu sua narrativa me contando que por repressão do pai vestiu uma calça Jeans a primeira vez aos 18 anos, uma informação que poderia ter passado despercebida , ancorou o início da transcriação da entrevista. Esse é um relato que demonstra que a história oral é sim sobre fatos, mas muitas vezes fica longe do palpável, longe do visto, do imaginado, ela é também um mergulho às subjetividades, no que foi muitas vezes intocável no ser, nem pelo outro, nem por si mesmo. “Mais do que um armazém de dados, a memória é um trabalho constante de busca de sentido, que filtra os vestígios da experiência entregando ao esquecimento aquilo que já não tem significado na atualidade – mas também aquilo que tem significado demais” (PORTELLI, 2016, p. 47). Roseli Conheci Roseli por meio de uma integrante da ONG Mães pela Diversidade, que reúne mães de pessoas LGBTQIA+ em todo o Brasil para enfrentar a discriminação com base em orientação sexual, identidade de gênero e condição sexual. O grupo começou como um coletivo e hoje é registrado como ONG, onde mães se auxiliam coletivamente e também promovem debates públicos. Entrei em contato com a presidente da ONG por meio de um amigo que a conhecia e pedi que ela me indicasse mães integradas à ONG que morassem em Campinas, no interior de São Paulo, já que eu havia me mudado recentemente para a cidade. Ela prontamente me colocou em contato com a coordenadora do “Mães pela Diversidade” na cidade. Depois de 33 contatar a coordenadora, ela me indicou três mães de pessoas transgêneros, uma delas Roseli, mãe de Rodrigo, um jovem transgênero de 22 anos. A entrevista com Roseli aconteceu na casa dela no dia 06/01/2020, numa tarde chuvosa. Passamos cinco horas juntas e o curioso do nosso encontro é que, por quase todo o momento, o filho Rodrigo e a mãe de Roseli estavam presentes. No início da conversa, tive a preocupação com o constrangimento que Rodrigo poderia sentir, mas logo percebi que mãe e filho tinham uma relação sem segredos e participavam ativamente um da vida do outro. Observei que Roseli é muito mais que mãe, é a melhor amiga do filho também. Durante a conversa, as memórias de Roseli eram resgatadas com a ajuda do filho e, em alguns momentos, da mãe também. P ercebi que o trabalho não seria comprometido pela presença deles, uma vez que toda a luta de Roseli foi conjunta e que ela não se acuava com a presença do filho e da mãe. Tivemos poucos silêncios na entrevista. Irene A Irene é mãe do Juliano, um jovem transgênero, de 22 anos. Ela também é integrante da ONG Mães pela Diversidade e fomos apresentadas pela mesma coordenadora do grupo em Campinas. A entrevista com Irene foi em sua casa no dia 09/01/2020, conversamos sozinhas. Irene estava alegre e falante no dia da entrevista, me recebeu com um sorriso largo, cafezinho e pão de queijo. Passamos seis horas juntas e entre um gole de café me contou sua história com Juliano, a família, os amigos, entre idas e vindas de narração. Senti que Irene precisava falar de sua história e parece se orgulhar de todo o processo de transição com o filho. Irene não esconde o conhecimento, as decepções e as lutas, diz o tempo todo que quer dividir com o máximo de mães a sua história e ouvir a delas, deseja estender a mão para as mães que têm dificuldade em acolher as filhas e filhos no processo de transição de gênero. A conversa com Irene terminou pouco antes da meia noite, na mesa tomando o quinto café da noite. Irene finalizou sua narração me mostrando a camiseta que usa nos encontros do grupo Mães pela Diversidade e me agradeceu por ouvir sua história e de outras mães na pesquisa, pediu que, se possível, eu divulgasse essa pesquisa até alcançar um número grande não apenas de mães, mas de toda gente no sentido mais amplo da palavra. Irene se despediu de mim com um beijo e um abraço, me dizendo que tem muito orgulho de ser uma mãe fora do armário. Ao sair da casa de Irene, refleti que uma das principais belezas de um projeto de história oral é a ação de revelação e transformação social que ela tem capacidade de promover, desde 34 um pequeno núcleo até os maiores, por meio de questões como as que aparecem nesta pesquisa, que mergulha na vida e nos enfrentamentos de mães de pessoas transgêneros, uma vez que: Precisamos combinar o melhor do envolvimento ativista com as pessoas e as comunidades e o melhor da metodologia “acadêmica”, de modo que o resultado dialógico do trabalho que produzimos conjuntamente não seja um mero espelhamento daquilo que a comunidade já sabe, mas uma articulação ulterior desse conhecimento e sua inclusão em um diálogo cultural mais amplo”. (PORTELLI, 2016, p. 24) Renata Renata é mãe de Amanda, uma criança transgênero de 9 anos. Ela foi a terceira mãe que conheci em Campinas, apresentada pela coordenadora da ONG Mães pela Diversidade. A entrevista com Renata não foi fácil de ser agendada. Ela tem uma rotina cheia de compromissos por atuar em uma multinacional. A pequena Amanda também ocupa bastante tempo da atenção de Renata, muito pela idade e também porque a criança está em processo de transição de gênero. Renata enfrentou muitos problemas com a escola, até que a menina pudesse se sentir verdadeiramente acolhida. Tentei agendar a entrevista com Renata por quatro vezes, na quinta oportunidade conseguimos nos encontrar na casa dela no dia 24/01/2020. Ficamos cerca de cinco horas juntas, sozinhas. A entrevista ocorreu em um sábado e Amanda passava o fim de semana na casa do pai. Renata ainda está no calor das sensações e lutas pela legitimidade de existência da filha, e a entrevista contou com momentos de emoções variadas. Renata demonstrou raiva, medo, angústia, incerteza do futuro, se preocupa fortemente com o tratamento de hormonização de Amanda, que deve ocorrer em alguns anos. Em meio à entrevista, Renata me mostrou fotos da filha e também os desenhos que ela faz, uma projeção no papel e com muitas cores de como Amanda se vê. A entrevista com Renata terminou com um longo silêncio em palavras e muitos dizeres em lágrimas. Foi quando, por alguns minutos, ela analisou a conexão que teve com as memórias trazidas naquela manhã de narração. Entendendo que a conversa exige silêncio para exercitar a escuta, assim então me mantive naqueles instantes, eu estava presente, mas em olhares e expressões e notei que essa prática é tão importante quanto emitir sons, quanto perguntar, pois aquele era o momento de Renata expandir em emoções, o que também acredito ser essencial no processo de escuta, como define Portelli (2020 ): “A História oral abre um espaço para a escuta e qualquer possibilidade, é como uma dança, teus passos determinam os passos do teu 35 companheiro e também o do teu companheiro determinam o seus. Tem que ter olhar, tem que ter compasso, tem que ter respeito”. As lágrimas de Renata ditaram o ritmo de minhas palavras, do meu olhar e ativaram o tom de minha escuta naquela manhã de sábado. Brígida Conheci Brígida por meio de uma amiga, que integra o FLAMAS – Fórum da luta antimanicomial de Sorocaba. Brígida é mãe de Alex, um adolescente transgênero de 15 anos. Brígida é estudante de psicologia e minha amiga a conheceu em um dos encontros do FLAMAS. Quando Brígida começou a contar de sua luta para conseguir acessos com psicólogos do SUS e pedir informação para que seu filho fizesse a transição de gênero, minha amiga se lembrou de minha pesquisa e me colocou em contato com Brígida. A entrevista com Brígida aconteceu na casa dela no dia 29/01/2020 em Sorocaba, em uma tarde bastante ensolarada. Começamos a conversar na varanda da casa dela e depois entramos para conversar na cozinha. Tomamos um longo café da tarde juntas, a entrevista durou quase seis horas. No dia de nosso encontro, seu filho, Alex, estava dentro do quarto e de lá só saiu uma vez, mas logo entrou de novo. Brígida me contou que Alex era um menino reservado, por isso tomei todo o cuidado durante a conversa para que, se ele ouvisse a entrevista, não se sentisse constrangido com a narração da mãe e minhas perguntas. Mas não houve problema, a entrevista transcorreu bem. O pai de Alex, Tarcísio, também apareceu algumas vezes durante a conversa e parecia ter necessidade de falar sobre as questões levantadas. Deixei-o à vontade para falar, mas boa parte do tempo Brígida e eu ficamos a sós. Alex, filho de Brígida, está em processo de transição, no ponto alto da adolescência e vive muitos conflitos. Brígida respirava profundamente a cada momento que falava da disforia do filho, as mudanças repentinas e transitórias de seu estado de ânimo, suas tristezas, suas angústias, melancolias. Os suspiros de Brígida eram profundos quando narrava esses estados do filho. Brígida ainda está em busca de mais informações sobre as questões de identidade de gênero e transição de gênero. Em muitos momentos da entrevista, eu a orientei com o que tinha de informação por estudar gênero e estar muito ligada à pesquisadores dessa linha de estudos. A entrevista com Brígida terminou já era noite, quando ela abriu o celular, entrou na rede social do filho e começou a me mostrar os desenhos que Alex fazia. Em q uase todos os desenhos, Alex parecia transferir a imagem que ele idealizava como um menino transgênero. Os desenhos tinham homens sem camisa com cicatrizes nos mamilos, homens de cabelos 36 tingidos. Brígida me mostrava os desenhos e me dizia que entendia aquela expressão do filho como um ideal, cabelos azuis, Alex sempre contou à mãe que tinha vontade de ter. Brígida dizia que os desejos de Alex eram conduzidos pela disforia constante. Observei que aquela tarde quente com Brígida foi um momento dela se reconhecer através das memórias, ela parecia estar mais leve ao final de nossa conversa e agradeceu a minha escuta, que ela nomeou de “resgate das lembranças”. Brígida também me disse que ficaria feliz que a história dela com Alex chegasse à outras mães. 2016, p.32) a metodologia história oral não dá voz ao narrador, é ele quem nos presenteia com sua voz, e nós agradecemos o favor escutando e ampliando essa voz, “essa é a contribuição como historiadores orais: nós oferecemos a eles e às histórias deles, exposição e acesso a um discurso público mais amplo”. 37 3 CALÇA JEANS FORA DO ARMÁRIO Dona Raimunda Eu nasci em 1955, nasci e fui criada em Sorocaba. Tenho 64 anos, vesti uma calça jeans pela primeira vez aos 18 anos. É claro que as mocinhas da minha idade, naquela época, usavam calça jeans, elas gostavam, calça jeans já era coisa da modernidade, sabe? Maquiagem olha, eu usei maquiagem a primeira vez com 20 anos, foi no meu casamento. Meu pai não podia me impedir mais, eu já estava moça e ele já ia entregar o controle da filha para outro homem. Eu sempre quis usar calça jeans, também gostei de ver meu rosto maquiado, mas antes não pude, porque meu pai era muito religioso, católico fanático, inclusive ele tem uma irmã gêmea que é madre, ela tem 91 anos, está viva ainda, graças a Deus. Era uma exigência do meu pai que os filhos casassem na igreja. Eu sou a filha mais velha de 7 irmãos, nós seríamos em 10, mas minha mãe perdeu 3 filhos. Quando eu usei calça jeans pela primeira vez com 18 anos, as mulheres da igreja só podiam usar saia com blazer ou vestido comprido. Minha mãe só usava vestido, saia e blusa de manga. Mas eu queria tanto usar uma calça jeans, que minha tia foi à uma loja grande aqui de Sorocaba, me lembro até hoje o nome, Lojas Excelsior, ela tinha crediário lá e tirou uma calça para mim. Eu avisei minha mãe. Meu pai ficou um pouco chocado quando me viu de calça, mas não falou nada, porque eu já trabalhava desde 8 anos em casa de família, entrei com 14 anos para trabalhar em uma fábrica, então ele não falou nada da calça jeans, porque eu já estava uma mulher moça, sabe? Meu pai era muito machista e achava que a mulher tinha que ser submissa ao homem, seguir o homem, meu pai foi uma figura muito difícil. O meu irmão abaixo de mim é gay, eu não sabia disso quando era criança, mas meu irmão apanhava muito, meu pai batia muito nele, isso é uma lembrança muito ruim, meu irmão não tinha culpa... Eu via meu irmão apanhar por nada, eu acho que isso fez de mim uma pessoa... não sei se é mais experiente ou compreensiva, nossa… eu quase morria quando via meu pai batendo nele, a gente não sabia, mas meu pai devia de já saber que ele era gay. Ele era novo, porque eu lembro muito dele pequeno, com uns nove, dez anos, aquela loucura pra pentear o cabelo da minha mãe, o cabelo da minha mãe era melhor que o nosso... Eu acho engraçado lembrar dessa questão do cabelo… Então, ele queria arrumar o cabelo da minha mãe e ela deixava. Só que nessa época meu pai ainda trabalhava, 38 quando minha mãe via o horário ou escutava que meu pai estava chegando, ela pedia pra ele sair: “Pai chegando, pai chegando”, se não meu pai batia nele. Nossa vida foi muito difícil, eu estudava no primário e já trabalhava, meu pai trabalhava na fábrica, minha mãe era do lar, mas também costurava e vendia verdura da horta. Quando eu casei, tive 4 filhos, a Priscila , é a mais nova, tem 35 anos hoje, ela nasceu do sexo biológico masculino, mas é transexual, de “Marcos”, trocou o nome pra Priscila. Quando ela tinha 11 meses de vida, o pai dela nos deixou e meu pai pediu pra eu voltar com as 4 crianças pra casa, eu voltei. Meu marido atual não é o pai dos meus filhos, é um amor que encontrei 46 anos depois, que meu pai me proibiu de namorar com ele, que foi meu primeiro namorado. Meu pai não deixou a gente ficar junto por causa de religião, o meu amor era evangélico, da igreja Assembléia de Deus, meu pai muito católico, então… era muito complicado, mas eu amava ele. Só agora, quando voltei a conversar com ele, que eu soube, que não foi só por conta da religião. Meu pai era bem negro, ele se parecia até com o João de Camargo, o santo popular milagreiro. O meu companheiro é mais escuro que eu, meu pai chegou pra ele em um domingo à tarde, no portão de casa, não me deixou sair no portão e ouvir a conversa e falou pra ele: “Some daqui, Negrinho”. Olha só o preconceito! A minha mãe era mais clara, mas não era branca, mas era mais clara que nós. Meu pai era racista. Então, eu cresci com aquele medo de namorar. Eu conheci o meu companheiro saindo da fábrica, que eu trabalhava na época, ele foi me esperar no portão da fábrica, namoramos pouco tempo, meu pai terminou o nosso namoro e depois ele mandava recado pra mim, queria continuar a namorar escondido do meu pai. Eu tinha medo, não desobedeci meu pai. Assim como eu, o meu companheiro também se casou, tem um filho e nós nos encontramos todos esses anos depois por meio de uma prima dele. Ele ficou viúvo, o pai dos meus filhos também já é falecido. Hoje, mais de quatro décadas, nos reencontramos e eu moro com meu companheiro. E u nunca me esqueci dele todos esses anos... Até suspiro pra contar... Quando meu pai não deixou eu namorar, fiquei muito mal, eu fiquei vinte dias sem trabalhar, quase perdi o serviço na fábrica, eles só não me mandaram embora porque eu fiquei de cama. Eu namorava com ele há tão pouco tempo, aquele amor tão puro, não teve nada de nada pra eu gostar tanto dele. Mas eu achava ele um rapaz trabalhador, muito simples, muito humilde e ele queria muito que eu estudasse. Achava bonito isso! Quando eu completei 30 anos, ganhei um dos meus maiores presentes da vida, quatro dias antes a minha filha Priscila nasceu, dia 24 de novembro, eu fiz 30 anos no dia 28 de novembro. Quando eu engravidei da Priscila, eu não esperava, porque eu já tinha meus outros 3 filhos grandinhos e ela veio depois de quase 7 anos. A mais velha, a Simone, tinha 9, o Carlos 39 tinha 8 e a Cibele ia fazer 7 anos, quase 7 anos depois nasceu o “Marcos”, mas hoje, é a Priscila, a Pri, gosto de chamar ela de Pri. O pai deles chegou um dia e falou: “Tô indo embora”. Na casa dos meus pais, minha mãe olhava os meus filhos para eu ir trabalhar e minha avó também. Quando minha avó faleceu, a Priscila tinha 6 anos. Eu trabalhava no Sesi, no setor de cozinha e costura. Ela ia comigo de manhã, eu pedia para a minha chefe mudar meu horário para eu poder levar a Priscila para a escola, ela também estudava no Sesi, na hora do meu almoço eu ia pra casa, almoçava e quantos dias ela voltava comigo, ficava brincando lá no parquinho no Sesi a tarde toda enquanto eu trabalhava. Quando a Priscila tinha 2 anos e 4 meses, eu virei evangélica e passei a ir à igreja Congregação Cristã do Brasil. Meu pai ainda tentava que eu frequentasse a igreja católica, com as minhas irmãs, ele ficou bravo comigo, acho que por eu ser a filha mais velha, ele desistiu de falar. Eu já tinha ido à Congregação há muitos anos com a minha falecida sogra, a avó dos meu filhos, mas não senti nada naquela época. Uma amiga minha, que trabalhava no Sesi, anos depois me convidou para ir, mas eu também não senti vontade. Depois de um tempo eu fui por vontade própria, porque o meu coração pediu e lá frequento até hoje, eu e meu atual companheiro vamos juntos, ele ia à Assembléia de Deus, mas desde que nos reencontramos passou a ir comigo à Congregação. Eu e minha filha Priscila somos muito próximas, até pouco tempo eu morava com ela, mas agora, consegui o meu cantinho com muito custo e vivo aqui com meu companheiro. E le ainda trabalha de motorista, eu, se pudesse, também trabalharia ainda, mas meu corpo não aguenta mais, eu vou levando com a minha aposentadoria, é pouco, mas estou vivendo. A Priscila, desde muito novinha, uns 7 anos, não gostava muito de brincar com bola, não gostava de brincar com os meninos. Ela tinha muita proximidade com a prima, que é nove meses mais nova que ela, essa prima também morava no quintal do meu pai. Tinha os primos mais novos que a Priscila , mas essa prima tinha a idade mais próxima e era com ela que minha filha gostava de brincar mesmo. Eu não achava nada demais ela brincar mais com a prima e gostar de boneca. Na escola, ela não gostava das aulas de educação física, ela estudava no Sesi na época, eles me chamaram lá, eu tive que levá-la ao médico, ela tinha um probleminha no joelho, mas na época, não era só por causa do joelho. A Priscila tinha só 7 anos, eu não achava que... Quando o professor de educação física me chamou ele me disse que não tinha a possibilidade de eliminar a Priscila da aula, ao menos que tivesse um atestado médico, o ortopedista deu o atestado, mas disse que com o tratamento ela poderia voltar a fazer as aulas de educação física. Um dia ela me falou: “Mãe, você pode me tirar da escola se eu tiver que 40 fazer aula de educação física”. Eu acho que esse pânico era porque ela teria que fazer aula com os meninos e já estava sofrendo, mas eu não consegui perceber naquele momento. Ela não gostava de futebol, vôlei, de nenhum esporte, acho que porque teria que jogar junto com os meninos, acho que foi isso mesmo. A mãe de um aluno da escola de vez em quando deixava o filho ir brincar com a Priscila na nossa casa, um dia ela me disse: “Raimunda, você já percebeu algo... no “Marcos”? Eu acho que “ele” é um pouco diferente dos outros meninos, você não acha? ”. A partir desse dia, eu comecei a observar mais o “Marcos”. Eu comecei a notar que quando eu chegava do trabalho para almoçar ou voltava para casa no fim do dia, a minha avó sempre dizia pra “ele”: “‘Marcos’ , eu vou fazer roupinhas para suas bonecas ou vou ensinar você a fazer”. Tanto que a Priscila aprendeu a colocar botões e até a fazer roupinha. Minha avó era uma pessoa maravilhosa, ela era mãe do meu pai, desde que meu irmão era pequeno, acho que ela já entendia que... Meu irmão tem 60 anos hoje e é casado, ele e o marido moram em São Paulo e tem um salãozinho de cabeleireiro lá. Eu chegava em casa do trabalho e lá estava a Priscila, feliz da vida com a minha avó, as duas com a agulha e a linha na mão costurando, a Priscila falava que ia ser estilista, mas infelizmente ela não foi em frente , minha filha tem uma vida muito diferente… muito complicada. Quando a Priscila tinha 15 anos, numa noite que jamais me esqueço, ela disse que precisava me contar uma coisa. Foi então que ela começou a chorar e me disse: “Mãe, eu sou gay”. Disse que ela não era quem eu pensava que ela era, ela falou que não era um menino. Na época eu falei “Marcos...” - um detalhe, é que eu não consigo chamá-la mais assim hoje, “Marcos” - “você tem certeza disso?”. “Ele”, falou: “Tenho, mãe, tenho”. Pediu desculpas e disse que não queria me ver triste, me ver sofrer, mas falou que preferia falar naquele dia do que outras pessoas me contarem. Naquela época, a Priscila não reconhecia muito bem o que ela seria, ela falou que não era menino e não gostava de menina, gostava de menino. Quando nós morávamos na casa da minha outra filha, algumas meninas iam até lá atrás da Priscila, mas ela não conseguiu dar nenhum beijo em menina. Naquela madrugada que a Priscila me contou tudo, amanhecemos conversando, eu chorei muito, muito mesmo. Ela me pedia perdão o tempo inteirinho, até me lembro dela falando: “Perdão mãe, eu não queria ver você assim”. Eu não sabia muito o que dizer e o que pensar naquele momento, mas eu amo minha filha. 41 Depois de alguns dias que ela me contou, eu falei para ela: “Ai Priscila, você poderia me dar lindos netos”. Olha que loucura isso! F alar uma coisa dessas, não sei se ainda era esperança que eu tinha de algo mudar, eu não tinha muita informação sobre o que estava acontecendo. Ela me disse: “Mãe, você tem noção do que está falando pra mim?”. Foi aí que tudo assentou dentro de mim e eu falei pra mim mesma: “É isso mesmo”, a partir dali eu entendi: “Eu tenho que me juntar a ela, tenho que lutar lado a lado, tenho que ser mãe como eu sempre fui”. Com dezesseis anos a Priscila já começou a tomar hormônio. Eu levei minha filha ao médico endocrinologista do meu convênio, porque naquela época eu tinha convênio médico por trabalhar no Sesi. Triste foi que… eu até choro lembrando desse dia...o médico negou o caso dela, simplesmente não atendeu. Não atendeu. Ele me disse: “Olha, a senhora me desculpe, mas eu não vou atender”. Dias depois, eu procurei outro médico, outro endocrinologista, esse nos recebeu tão diferente… meu coração enche de gratidão de lembrar dele… eu tinha ido à uma consulta com ele uns dias antes e vi a forma que ele me atendeu e falei para a Priscila: “Tenta passar nele”. Ela foi e eu acompanhei. Ele foi muito atencioso, deu muitos conselhos a ela sobre as questões hormonais. Anos mais tarde, ela colocou prótese de silicone nos seios. A Priscila nunca teve vontade de fazer cirurgia no pênis, ela acha muito agressivo, e isso não muda nada, ela é muito resolvida nessa parte, minha filha é uma mulher. A Priscila só se abria comigo, eu era a confiança dela, ela até conversava com os irmãos, mas era sempre para o meu lado que ela corria e eu me virei em defesa dela a partir daí, acho que bem antes, quando ela ainda era criança, porque ela estudava na mesma escola que eu trabalhava e muitas vezes ela subia correndo e vinha me dizer que algum menino tinha batido nela, eu falava que ela não podia deixar isso acontecer, tinha que se defender. Mesmo eu trabalhando na escola, nenhum professor veio conversar comigo sobre qualquer observação, só o de educação física, que falou do desconforto dela nas aulas. A aula de educação física era uma tortura pra ela. Na sétima série, a Priscila disse para mim: “Mãe, eu não quero mais ir para a escola”. Eu perguntava por que e ela falava que não queria ir, que se fosse para ir à escola, preferia morrer. Eu acho que é difícil para transexuais mesmo. Ela deve ter sofrido muito em silêncio e não contava para mim. Só depois que ela percebeu o quanto eu realmente a amo, do jeito como ela realmente é, é que nos tornamos muito, muito amigas, mas para ela ter a cabeça que tem hoje, ela sofreu muito calada. 42 A Priscila sempre foi uma criança quieta, gostava de desenhar. Quando começou o problema de não querer ir às aulas de educação física, eu a levei à uma psicóloga, eu não tinha dinheiro pra pagar, mas fiz um esforço, era muito cara a consulta na época. Hoje, já uma pessoa idosa, eu fico triste quando ouço que não se pode falar sobre gênero na escola, porque a diferença, não apenas dos transexuais, mas de todos os LGBTs, merece muita atenção e respeito. A escola tem que falar muito disso, até que todos se cansem de ouvir, falar muito. Eu estou falando de respeito, se você não tem respeito, você não tem mais nada de importante na vida. Eu acho importante falar das diferenças, isso não tem nada haver com incentivar, porque você é o que é e pronto. Tem que falar muito não só na escola, em casa também. Se eu tivesse no passado o aprendizado que eu tenho hoje, eu seria uma mãe diferente, já ensinaria meus filhos desde muito pequenos a entenderem todas as diferenças. Esse tabu continua em casa e na escola, mesmo com tanta informação hoje. Quando a Priscila deixou de estudar, aos 16 anos, ela foi trabalhar em uma fábrica de sorvete, mas passou pouco tempo lá. Eu sonhava todos os dias que ela voltasse para a escola e terminasse até o terceiro colegial, mas hoje pensando, acho que escola também era uma tortura, só muito tempo depois ela voltou a estudar, fez supletivo e concluiu o colegial. Eu fico imaginando tudo que ela passou. Depois desse trabalho na sorveteria, a Priscila não teve muitas outras sequências de trabalho, que eu me lembre, ela trabalhou um tempo em um escritório e outro período, de cabeleireira em São Paulo, no salãozinho do meu irmão. Mas sempre ganhou muito pouco. Eu nunca me esqueço desse período que ela trabalhou em um escritório, ela chegou um dia em casa e me disse: “Nossa, mãe, como eu estou me sentindo gente, como eu estou me sentindo importante, útil”. Aquela frase veio porque a Priscila já tinha passado um tempo trabalhando na rua como profissional do sexo... é um caminho quase inevitável para as mulheres trans, quase ninguém oferece uma oportunidade pra elas. Hoje, aos 35 anos, a Priscila ainda é profissional do sexo, isso me dói muito, se eu tivesse como passar minha aposentadoria pra ela, eu passaria, se eu pudesse eu mudaria a vida dela, porque para uma mulher trans estudar, primeiro ela tem que trabalhar. Agora, estou aqui me lembrando, o primeiro dia que ela foi trabalhar na rua, ela tinha 18 anos... Eu não via a hora dela voltar para a casa, eu não dormi a noite toda, você só sabe que sua filha saiu de casa, não sabe se ela volta, às vezes eu quase amanhecia em pé, esperando ela voltar, aquela ansiedade, aquele medo, mas sempre estive ao lado da minha filha e estarei até morrer. Hoje ela trabalha na casa dela, mas eu só queria uma vida melhor pra ela. Quando eu ainda morava com ela, muitas vezes eu saia “correndinho” pra ela ter os encontros. Não tem como não sofrer e se 43 preocupar, mas não tem oportunidade pra elas, ela é uma pessoa muito boa, muito generosa, inteligente, faz tudo para ajudar as outras pessoas, não bebe uma gota de álcool, não fuma e nunca usou drogas, só que essa foi a forma que ela encontrou pra sobreviver. Quando eu morei com ela, eu não tirava nada da minha aposentadoria, ela sempre falava: “Mãe você já criou a gente, já ajudou muito a gente”. Eu faço tudo que posso pra ajudar a minha filha, não tenho vergonha nem de ir ao posto de saúde pegar preservativos, penso na segurança dela e das pessoas. Uma vez em um posto, uma senhora olhou com uma cara de espanto pra mim quando me viu retirar preservativos, ela fez um escândalo.... hoje eu dou risada, mas no dia eu respondi assim pra ela: “Se a senhora não tem filhos, eu tenho, mais de um”. Estou me lembrando de um outro sofrimento, eu sofria junto com ela, foi antes dela trocar o nome de “Marcos” para Priscila, nós íamos à uma loja fazer um crediário e nós pedíamos para a atendente não chamar no masculino, ela chamava mesmo assim. Acho isso um desrespeito tão grande! Outras vezes no posto de saúde, durante uma consulta médica, acontecia a mesma coisa, chamavam no masculino. Eu ficava tão triste! Agora, ela já fez a troca do nome, um sofrimento que terminou pra nós. Os meus netos, os sobrinhos da Priscila, todos a chamam de tia Pri, com muito carinho, com muito respeito, até a minha netinha pequenininha, é tia Pri pra cá, tia Pri prá lá. A Priscila sempre me diz: “Mãe, se não fosse você persistir tanto no Pri, ninguém me chamaria pelo nome”. Eu realmente não admito que chame por nome errado, nem na rua, nem na igreja, nem na nossa família. Eu, como uma pessoa evangélica, nunca deixei ninguém da igreja falar da minha filha também. Um dia saí com a Priscila e uma amiga dela, encontrei duas irmãs da igreja no ônibus e uma bateu no ombro da outra e falou: “É homem”. Me deu uma dor, minha filha e amiga bem vestidas, eu não aguentei, usei minha voz e falei: “Elas pagaram a passagem como todo mundo, vocês tem que ter respeito com qualquer cidadão, e elas são mulheres e as duas tem mãe”. Isso eu não consigo controlar. Eu sempre faço questão de me manifestar, quando a Priscila diz: “Mãe, pelo amor de Deus, se for assim eu não posso sair mais com a senhora, porque eu não quero que a senhora fique triste”. Mas, tem hora que é demais, eu tenho que pedir respeito, eu não admito que ninguém fale assim da minha filha, porque eu olho pra ela e ela é uma mulher, então o sexo dela não tem nada haver com o que ela é e com o que ela sente. Entende? Dentro da igreja não adianta tentar conversar, as pessoas não querem te ouvir. Eu não acredito que tenha a ver com a igreja, eu acho que tem a ver com a própria pessoa, eu creio que não adianta você ir à igreja todos os dias e você abandonar uma filha, viver julgando, 44 nós temos que fazer a nossa parte. Eu penso comigo na minha tamanha ignorância, que Deus não faz acepção de pessoas, Deus não faz, mas o ser humano faz, dentro da própria casa, da própria família, tudo começa por aí, às vezes por religião mesmo, começa a fazer a diferença. O mundo quer pregar que amor é só entre um homem e uma mulher Cis, e não é. Isso eu não creio, isso é fato e nem a bíblia vai dizer ao contrário. Minha mãe sempre dizia para o meu pai quando ele insistia em falar que uma lei ou outra estava escrita na bíblia: “A bíblia foi escrita pelo homem”. Me lembro de um dia muito feliz que vivi em todo esse processo com a Priscila, foi quando a minha filha me disse: “Mãe, se eu morrer hoje, eu morro feliz, se eu morresse muitos anos atrás, eu não morreria feliz, porque eu não me identificava com a pessoa que eu era, eu nasci no corpo errado, agora me sinto completa”. Eu nunca perguntei pra Deus, porque isso aconteceu com a Priscila, não perguntei e nunca vou perguntar, porque isso não me incomoda. Eu vejo tantos conflitos, tanta ignorância do povo, então eu não questiono nem Deus, nem ela, nem ninguém, de jeito nenhum, a minha filha está viva, isso é o que importa, ela conseguiu superar diversos conflitos, fazer a transição dela, isso não foi fácil, ela já é uma vencedora, eu como mãe, também sou. A minha filha em nada me incomoda, não sei se é só o amor de mãe, mas é um amor muito forte que eu tenho por ela. Esses dias a minha filha me falou: “Você sabia que a mãe da minha amiga mudou por sua causa? ”. Essa mãe também é evangélica, da Igreja Universal do Reino de Deus, tem uma filha trans e não aceitava a filha de jeito nenhum, tratava mal, a hora que ela viu como eu tratava a minha filha e todas as outras pessoas trans, com carinho, atenção, ela foi mudando o comportamento com a filha dela também. Hoje, elas têm uma boa relação. Eu sou muito… não sei se por toda a repressão do meu pai… se eu sou muito feminista, eu nem sei o que eu sou... Eu dou risada de tanta coisa que eu sou ao mesmo tempo.... Eu só acho que nós mulheres temos que lutar e lutar juntas. Eu converso muito com a minha filha e acolho quem quer que seja. Um dia fui à parada LGBT com a minha filha em São Paulo, gostei muito, é muito bonito, tem muita luta, muita mistura. Fui naqueles caminhões enormes... Um sonho! Eu acho isso muito importante, eu sempre participo, desses movimentos e outros. Gostei tanto, que fui muitas outras vezes com a minha filha e as amigas e amigos dela. Também estive em várias reuniões na Associação Transgêneros de Sorocaba, gosto de conversar, entender a vida das pessoas e debater sobre os assuntos desse mundo que é o mundo da minha filha. Eu e a Priscila nos ajudamos nas lutas, ela é muito humana, por muito tempo fazíamos sopa pra levar na rua para as pessoas desabrigadas, lá víamos de tudo, tinham muitas mulheres transexuais que foram 45 expulsas de casa, ficavam na rua fracas, não tinham forças, nem condições de trabalhar por um prato de comida. É muito triste! Na minha família, todo mundo sabe que eu abracei a transexualidade da minha filha como a causa mais importante da minha vida. Eu jamais impediria a Priscila de ser feliz, ela é minha filha. Ela é assim. Eu amo a minha filha! A Priscila pode sim, usar saia! A Priscila pode sim, usar calça jeans, se quiser também!. (Entrevista feita na casa de Dona Raimunda, em Sorocaba, interior de São Paulo, nos dias 23/09/2019 e 22/10/2019) 46 4 TÁBUA DE PASSAR FORA DO ARMÁRIO Roseli Eu tenho 42 anos, nasci e fui criada em Campinas, no interior de São Paulo, em uma família cheia de amor. Desde criança, meu pai sempre deixou todas as portas de casa abertas para que os filhos pudessem escolher por onde entrar e sair e conversar sobre tudo com ele. É como se meu pai dissesse: “Se você abrir este armário de casa vai encontrar uma tábua de passar dentro, ao lado está o ferro, se você ligar o ferro na tomada sem apoiar na tábua de passar e encostar a mão por desequilíbrio, você vai se queimar. E ntão, você tem várias possibilidades de vida, se seguir por esse caminho encontra isso, se seguir por esse encontra aquilo. E u posso te ajudar a não se queimar, mas respeitarei sempre os seus sentimentos, vontades e decisões”. Entendi a mensagem do meu pai e, desde então, costumo já deixar a tábua de passar fora do armário com o ferro em cima, na posição certa para que nem eu e nem meu filho Rodrigo, de 22 anos, tenhamos o risco de nos queimarmos. Quando o meu querido e sábio pai morreu, o Rodrigo tinha 10 anos. Foi muito triste para todos nós ficar sem meu pai, o Rodrigo também era muito apegado com o avô, ainda que o avô não tivesse conhecido profundamente “O Rodrigo”. Não deu tempo. Meu pai só teve contato com a “Ana Clara”, esse era o nome de registro do Rodrigo quando ele nasceu. Pouco tempo depois que meu pai morreu, percebi que “Ana Clara” começou a ficar um pouco “agressiva”, só queria usar roupas pretas, unha preta, cabelo preto, só queria ficar de moletom, mesmo no calor saía com aquele moletom e capuz para a escola, começou também a ficar afastada das pessoas, a quebrar a perua da escola, a brigar com o tio da perua. Eu e o Rodrigo sempre brigamos muito por causa de roupa. Eu me lembro de uma vez, que tinha uma festa de confraternização da empresa que eu trabalhava e eu falei que ele iria comigo, ele falou que não iria, eu falei que já tinha separado a roupinha pra ele vestir e ele me disse: “Eu não quero ir com essa roupa, mãe, eu não vou”. Eu falei que ele precisava ir comigo e ele disse: “Se eu for, eu vou com a roupa que eu estou”. As roupas sempre foram um grande problema para “Ana Clara”, mas no fim da minha insistência, “ela” sempre aceitava a vestimenta feminina chorando, desde “pequenininha”. Uma história interessante aconteceu quando “ela” tinha 3 47 aninhos, foi quando eu estava deitada no sofá e “ela” estava sentada no chão com as perninhas cruzadas, parecia um Buda, estava passando a propaganda do carnaval com a Globeleza sambando, “ela” mantinha os olhos vidrados, naquele momento eu pensei que “ela” estivesse gostando do samba, ela veio de joelhos até o sofá e falou bem baixinho no meu ouvido: “Mãe, eu gosto de mulher”. Naquele momento apenas falei para “ela”: “Olha filha você viu que linda que é a Globeleza, toda pintada”. Mas, eu não levei muito a sério o que “ela” me falou sobre a Globeleza. Anos depois, começaram os problemas com as roupas, “ela” só não brigava pra vestir a roupa quanto o pai vinha “buscá -la”. Quando eu me separei do pai do Rodrigo, meu filho tinha apenas 2 anos. Eu namorei com o pai dele muito mais tempo do que fiquei casada e não converso com ele mais. A última vez que conversamos eu falei para ele: “A ‘ Ana Clara’ gosta de meninas”. Ele me disse que eu era louca, disse que a culpa era minha, porque eu não soube dar limites. A partir daí, deixei que o Rodrigo conversasse com ele. M eu filho é muito maduro, quando percebe que o pai quer ouvi-lo, ele avança na conversa, quando percebe que não, vira as costas e vai embora. Além do incômodo em vestir roupas de menina, quando a “Ana Clara” tinha 6 anos, eu me lembro que dei uma boneca grande para “ela”. Cheguei em casa, coloquei o pacote com a boneca no chão e “ela” só rasgou um pedacinho do papel, olhou e falou: “Ah, uma boneca”, deixou o pacote, virou e saiu. Quando os conflitos com as roupas começaram a ficar mais intensos eu procurei uma psicóloga. Um dia ela me chamou e disse: “Quem veste a roupa?”, eu falei: “Ela, Ana Clara”. A terapeuta perguntou: “Você gosta que as pessoas se intrometam quando você vai se vestir”? Eu falei: “Não, só quando eu vejo que realmente não está legal, eu aceito bem”. Ela falou: “Então, vamos combinar assim, mãe, Ana Clara, você pode vestir a roupa que quiser, desde que esteja limpa, passada, não tenha rasgado” Eu falei: Combinado! Eu lembro que tinha um tênis que “a Ana Clara” queria, era um tênis masculino e eu falei que não compraria porque era masculino. Aí depois dessa conversa com a psicóloga, um dia eu levei a “Ana Clara” em uma loja e falei: “Vamos comprar roupa”. Ela me disse: “Escolhe aí o que a senhora quer”, aí eu fui com “ela” até a parte masculina e falei: “Hoje vai ser diferente, escolhe o que você quer” e “ela” falou: “Mãe, para com isso, tá todo mundo olhando”. Eu falei: “E daí que está todo mundo olhando, eu vou pagar essa conta e você vai vestir o que você quer, pode escolher”. “Ela” foi com vergonha escolhendo várias roupas masculinas. A partir daí, começou a usar a roupa que queria. Pra mim, o problema “da Ana Clara”, naquela época era a roupa, eu não sabia o que se passava com “ela”. 48 Depois da roupa, veio o cabelo, “ela” me pediu: “Mãe, posso raspar um lado da minha cabeça”? Eu falei: “Não”. “Ela” falou: “Mãe, por favor, é só um lado, tá na moda”. Eu falei que não podia e chegou um dia que “ela” me implorou, até que eu cedi: “Pelo amor de Deus, vai lá e raspa”. “Ela” raspou e ficou feliz. Mas, era uma felicidade bem pequena, parcial, “ela” estava sofrendo e eu não sabia como aliviar, nem o porquê daquele sofrimento de verdade, estava ali dentro “dela”, todos os dias com “ela”. Eu sentia que a dor interior da “minha filha” era grande e “ela” ainda continuava “agressiva” nas palavras, só fui entender anos mais tarde. Eu levei novamente “Ana Clara” na psicóloga e relatei que “ela” continuava muito “inquieta”, “nervosa” e que havia um sofrimento ali. Depois, na conversa individual com a terapeuta, ela adotou uma estratégia, além da conversa, me pediu que eu desse uma agenda para “a Ana Clara”. Eu atendi ao pedido dela, cheguei em casa, entreguei a agenda para “a minha filha” e disse: “Já que você não consegue conversar comigo e dizer o que sente e o porquê está tomando essas atitudes, coloque seu desabafo aqui, essa agenda será sua melhor amiga a partir de agora”. Nessa época eu trabalhava longe, muito longe da escola “da Ana Clara”, “ela” estudava em Valinhos, uma cidade fora de Campinas, por isso a perua escolar passava ainda de madrugada para “buscá-la”, pouco depois das 4 horas da manhã eu já estava de pé com “Ana Clara”, no portão de casa esperando a perua da escola passar, quando “ela” embarcava, eu entrava e me arrumava para ir trabalhar. A tábua de passar de casa ficava dentro do armário, no quarto de “Ana Clara”, assim como a agenda que dei, que “ela” guardava a sete chaves, ninguém podia ver, nós tínhamos um trato: “Não mexa nas minhas coisas, que eu não mexo nas suas”. Um dia, “Ana Clara” esqueceu a tábua de passar fora do armário e a agenda aberta em cima da tábua aberta em uma página escrita, não me esqueço até hoje o que tinha naquela página, “ela” dizia que havia alguma coisa de errada com “ela” e que tinha um sentimento diferente pelas meninas, que Deus não gostava disso, não se agradava com isso, que o avô, que já tinha morrido, não ficaria feliz com isso, que a mãe não ia gostar, que a vó ficaria triste se soubesse e, por fim, lá nas últimas linhas eu li a frase: “Eu vou me matar, não tenho outra opção”. Quando li aquilo, eu dei um grito: “Meu Deus, o que eu vou fazer?”. Lembrei que no lugar que eu trabalhava tinha uma psicóloga, então eu cheguei ao trabalho e a procurei para uma conversa, ela me disse: “Primeiro você respira, assimila tudo que você leu antes de conversar com “a sua filha”, converse com “ela” quando você se sentir confortável, converse em tom leve”. A psicóloga sugeriu fazer uma brincadeira, um jogo da verdade, por exemplo. Como a “minha filha” passava bastante tempo comigo no meu quarto quando eu chegava, a psicóloga sugeriu que eu aproveitasse esse momento e conversasse com “a Ana Clara”, primeiro 49 me colocando como se estivesse na situação “dela”. Eu aceitei a sugestão da psicóloga e no mesmo dia falei para “Ana Clara” que tive uma amiga de escola que gostava de mulheres, emendei e perguntei “a ela”: “Você já gostou de alguma amiga da escola”? “Ela” imediatamente olhou no fundo dos meus olhos e disse: “Mãe, você leu a minha agenda”. Eu confessei: “Eu li a sua agenda, ‘ filha’” , você deixou aberta em cima da tábua de passar, não tinha como não ler, eu sou sua mãe, a mamãe está preocupada com você”. “Ela” se levantou, correu para o quarto e se trancou, ficou três dias sem falar comigo. Eu não desisti, todos os dias eu ia até o quarto “dela”, batia no meu peito e falava: “Estamos Juntas”. Todos os dias eu abria a porta do quarto “dela” em algum momento e perguntava: “Quer falar comigo hoje? Não esquece, estamos ‘ juntas’”. Passado alguns dias, “a Ana Clara” me procurou chorando e me disse: “Mãe, eu não sei o que é isso, mas eu tenho um sentimento pelas meninas, eu gosto mais das meninas do que dos meninos”. A partir daquele momento, eu entendi que precisava buscar meios de aprender a lidar com aquela informação. Eu lembrava a todo o momento de como meu falecido pai resolvia as questões com as filhas, me lembrava dele dizendo: “Senta aqui, vamos conversar, o que está acontecendo?”. Ele sempre abria espaço para que a gente colocasse o que estava sentindo, ele nunca foi agressivo, nem com palavras. Ele dizia que tinha uma psicologia infantil maravilhosa... É engraçado lembrar disso, da leveza do meu pai… Eu aprendi demais com ele, quando eu fiquei grávida solteira , ele sempre cuidou muito de mim e da minha mãe... A partir daquele momento, eu passei a pensar como eu poderia ajudar “minha filha”. Eu me lembrei de um primo gay, que sempre foi muito meu amigo, desde a infância… Quando éramos criança, eu não entendia muito bem, mas ouvia os adultos falarem: “Ah esse menino não sei não, olha lá, tá dançando na pontinha do pé”. Eu lembro uma vez que estávamos dormindo na casa da minha avó, os pais dele moravam nos fundos da casa da minha avó, era época de festa junina, eu vesti meu primo de caipirinha, simplesmente porque eu queria que ele se vestisse assim, ele deixou. Eu peguei o vestido da irmã dele, coloquei nele, coloquei também o chapéu de trancinha e tudo terminou com ele apanhando do pai. Eu fiquei super constrangida, me senti culpada. Eu fui brincar de boneca com o menino né? ... Engraçada essa minha atitude inocente… Depois de levar uns tapas, o pai dele falou: “Vai tirar essa roupa moleque, isso não é roupa de menino”. Foi a única vez que eu vi o meu tio ter uma reação referente a isso, porque minha família sempre respeitou a individualidade de cada um. Eu era muito grudada com esse meu primo, mas eu nunca tive coragem de chegar pra ele e perguntar se era gay e ele também nunca me contou que gostava de meninos. Um tempo depois, eu já era mãe, fui à casa do meu primo convidá-lo para dar uma volta comigo e falei: “Eu tenho uma coisa para te 50 perguntar, mas eu não queria invadir sua intimidade, a gente se gosta tanto, eu estou com essa pergunta aqui na minha cabeça há anos: “Você é gay”? Ele me contou que sim, que era gay, me contou como descobriu, como foi difícil pra ele. Eu acredito que tenha sido difícil mesmo, porque me recordo de quando éramos adolescentes e ele tinha uma namorada que não gostava de leite condensado, era muito engraçado, porque ela ligava na casa dele avisando que estava indo lá, ele corria para a geladeira, pegava um “chup chup” de leite condensado e abria, ficava chupando até ela chegar, tudo isso para ela não beijar ele. Ele só namorava para mostrar que namorava uma menina, mas ele não queria que ela tocasse nele. Esse mesmo primo casou-se recentemente, o marido dele é argentino, os dois já tê m até um filhinho adotado. Quando a “Ana Clara” me contou que gostava de meninas e não de meninos, esse meu primo me ajudou bastante, assim que eu disse tudo, ele me falou : “É isso aí, não pode fugir, tem que ajudar, aconselhar, o que você pode fazer é deixar tudo caminhar com naturalidade”. Esse meu primo nunca chegou para os pais e disse que era gay, ele deixou a vida caminhar, até se casar, mas com certeza sofreu calado. No dia que procurei meu primo, eu pedi: “Me leva para o teu mundo?” Ele me disse: “Você tem certeza?”. Eu disse: “Tenho”. O primeiro lugar que ele me levou foi em um espaço onde os LGBTs se reuniam em Campinas, ele me disse que era só um ponto de encontro de amigos, um ambiente leve. Quando cheguei, vi duas meninas se beijando e imediatamente caí em prantos, pra mim foi um choque, porque não era uma cena comum na minha vida, eu não via isso no cotidiano. A falta de conhecimento era tanta, que quando eu vi duas meninas se beijando a lágrima caiu espontaneamente. Uma das meninas parecia “a Ana Clara” eu lembro até hoje... Eu estava no cantinho cheia de dúvidas, vários sentimentos dentro de mim, quando fui abordada por uma mulher transexual tocando violão lindamente e cantando, ela me viu chorando e perguntou: “Por que você está chorando?”. Naquele momento, meu primo explicou que eu tinha descoberto que minha filha era lésbica e que era a primeira vez que eu estava em contato com aquele lugar. Ela falou: “Vamos parar com isso, deixa ‘ sua filha’ ser feliz”, então ela começou a cantar uma música da cantora Ana Carolina pra mim. Foi emocionante. Minha busca por entender o que era o universo LGBT não terminou. Meu primo me levou em outros 3 lugares, no terceiro lugar eu já estava conversando com todos, perguntava o que os LGBTs sentiam. Até hoje eu tenho 2 amigos daquela época, um deles, o Gustavo, falava pra mim: “Olha, eu queria ter uma mãe igual a você”, ele me abraçava e me beijava e dizia: “Imagine se minha mãe fizesse por mim isso que você está fazendo ‘ pela sua filha’ , você 51 está tentando entender o que ela sente, isso é lindo”. Eu fui conversando com as pessoas e tentava trazer para “Ana Clara”, um pouco do que as pessoas me falavam. No início, quando “a Ana Clara” se colocou como uma mulher lésbica, eu dizia: “Não tem problema você gostar de meninas, mas a única coisa que vai deixar a mamãe com muita dificuldade é se você se colocar como homem, isso vai ser muito difícil pra mim”, acho que por esse motivo “Ana Clara” demorou tanto tempo para se assumir como Rodrigo, apesar de já entender o que sentia. Na rua em que eu moro, tinha um vizinho transexual, acho que foi a primeira pessoa trans que eu vi na vida, pertinho de casa, eu inclusive namorei o irmão dele quando era adolescente, minha irmã e meu cunhado são muito amigos da família dele. Um dia, minha mãe falou: “Nossa, a irmã do Edgar está se transformando em homem, tem até barba”, eu dizia: “Ai meu Deus, como assim, ela era uma bonequinha”. Toda vez que ela subia a rua já tinha uma mudança e toda vez eu olhava... aí eu falei para “a Ana Clara”: “A única coisa que vai ser difícil pra mim, seria te ver assim”. Mas, naquele momento, nem eu mesma entendia o que eu estava falando, nem sabia direito o que acontecia. O Rodrigo nasceu aos poucos dentro de mim, eu sabia, que mesmo depois que “Ana Clara” me contou que gostava de meninas, mesmo depois de eu ter acolhido essa informação, “Ana Clara”, continuava muito infeliz, chorava muito, passava muito tempo dentro do quarto, sempre desenhando, sempre. Quem foi me apresentando o Rodrigo foi o próprio Rodrigo, ele me trouxe muita informação, à medida que ele tentava entender o processo que ele vivia, o que faltava dentro dele, ele pesquisava e compartilhava comigo, eu ainda… não compreendia bem o que aquelas informações queriam dizer, mas elas diziam muito de “Ana Clara”, elas diziam muito de Rodrigo. Quem era aquele menino aos 17 anos, que nascia aos poucos para mim? Aquele menino era meu filho. Por diversas noites o Rodrigo vinha a meu quarto com o notebook na mão, me mostrava algumas matérias que tinha lido em sites e falava: “Mãe, sou eu aqui, é de mim que fala essa matéria, eu sou assim”. O Rodrigo também já vinha há algum tempo conversando com algumas pessoas na internet, já tinha até escolhido o nome que gostaria de ter, eu não sabia, isso ele me contou depois. Ele veio trazendo tudo bem devagarinho sobre a transexualidade para mim. De repente, comecei a ter contato com um menino como filho. Nossas conversas com a psicóloga aumentaram bastante, começamos também a frequentar o Centro de Referência LGBT, mantido pela prefeitura de Campinas, lá tem vários atendimentos de apoio para a comunidade LGBT, lá tive contato com pessoas transexuais, tudo ia ficando mais claro para mim a cada dia, as histórias que eu ouvia me ajudavam a entender 52 o Rodrigo que estava nascendo. Um dia eu me perguntei: “E agora? Como eu vou fazer essa transição?”. Eu sabia que eu também teria que fazer uma transição. Quando eu ainda tentava entender o caminho que deveria seguir com “minha filha”, uma psicóloga do Centro de Referência LGBT de Campinas disse pra mim: “Você vai ter que enterrar a ‘ sua filha Ana Clara’ e receber o seu filho Rodrigo”. Naquele momento, caiu minha ficha, mas eu chorei muito... muito mesmo... Mesmo assim, nós não tivemos muito conflito. Lembrei agora de quando o meu vizinho trans subia a rua e eu via em cada momento uma mudança no visual dele e ficava espantada. Mas, no final, nem foi tão difícil assim, porque você cria uma boneca, aquele modelinho de boneca, põe vestidinho, faz trancinha, aí de repente você tem que ter o contato com um menino. O ponto alto para eu entender que eu precisava estar junto ao Rodrigo foi quando ele me falou: “Mãe, eu prefiro morrer a viver assim”. Aí eu falei: “Opa, eu te quero vivo, então vamos atrás”. Nós passamos por uma médica e ela apontou alguns riscos de saúde para que o Rodrigo fizesse a transição hormonal, porque ele estava acima do peso, nesse dia eu falei para o Rodrigo: “Filho, você tá preparado pra isso? Você tem certeza? É isso que você quer”? Ele falou: “Mãe, eu prefiro morrer se não for isso”, então, eu disse: “Eu te quero vivo”. Ele falou uma frase pra mim: “Eu prefiro viver pouco, mas feliz, do que viver muito e infeliz”. Essa foi a frase que ele usou no período do meu maior questionamento. A resposta que dei a ele foi: “Que seja pouco, meu filho, mas que seja intenso, que você se sinta bem com você mesmo”. Logo depois, ele começou a tomar hormônio masculino. No dia de início da transição, eu tinha uma missão em família, naquele dia chamei todo mundo em casa, chorei e disse: “A partir de agora, eu estou enterrando a ‘ Ana Clara’ e estou recebendo o Rodrigo”. No momento que ele começou a fazer a hormonização eu falei: “Respira fundo, que agora somos eu com o Rodrigo, porque a ‘ Ana Clara’ vai ficar guardadinha aqui nas minhas costas, eu tenho uma tatuagem em homenagem a ‘ ela’ , somos eu e o Rodrigo daqui para frente”. O Rodrigo sempre me passou muita segurança em todas as decisões que ele tomou, ele me trazia tudo bem explicadinho, me dava explicações sobre as medicações, mostrava o que era preciso para ter barba, me falou que existia a cirurgia de retirada dos seios, a mastectomia... Na minha família, tivemos poucos conflitos, moramos com a minha mãe até hoje, ela é uma avó por completo, ama o neto, às vezes chama de “ela”, eu corrijo e o próprio Rodrigo com toda a sua generosidade diz: “Mãe, deixa a avó, é no tempo dela, ela vai mudar o modo de falar no tempo dela, vamos respeitar”. A minha avó, mãe do meu pai, agiu diferente, ela era 53 beata e queria chamar um padre para exorcizar o Rodrigo quando apresentamos a identidade de gênero para ela. O meu pai era muito Cristão, ele não sentava à mesa sem fazer o sinal da cruz, ele não dormia sem fazer a oração dele, mas ele não frequentava a igreja. A minha mãe também não. Eu sou mais para o lado espírita, kardecismo, alguma coisa me levou pra esse lado, eu estou até precisando voltar, eu já estou há um tempo sem frequentar. Quando minha avó dizia que queria exorcizar o Rodrigo, eu não discutia com ela, porque não era uma pessoa muito próxima de nós, ela era incisiva, briguenta, então achávamos melhor não entrar em conflito. Eu dizia apenas: “Está bem vó”. O Rodrigo chegou a fazer catequese, passou por três igrejas e não conseguia terminar nenhuma, a última, a mulher da igreja pediu para ele não ir mais. Eu fui conversar com ela e ela me disse que o Rodrigo não acompanhava os ensinamentos, que já tinha passado por duas igrejas e que as pessoas prestavam mais atenção nele do que na aula, porque ele era diferente. Ele chamava “Ana Clara”, mas já tinha trejeitos masculinos. Aí eu falei: “Quer saber, filho, você não vai fazer catequese mais não”, vim com ele da igreja, comprei pastel e sentamos para comer em casa. Uma parte da vida escolar do Rodrigo foi no Sesi, eu não pagava para ele estudar, mas aos 12 anos, eu tive que mudá-lo de escola por problemas financeiros, o Sesi passou a ser pago, ainda tinham os livros, o uniforme e o transporte, era só eu para cuidar de tudo, eu não dei conta e infelizmente tive que mudá-lo de escola. Ele foi para um colégio público, mas posso garantir, no Sesi ele era mais inquieto, revoltado e foi na escola pública que ele se sentiu muito melhor, não sofreu bullying, foi muito acolhido pela escola e os colegas. Se ele sofreu na escola pública, foi calado, eu nunca precisei ir à escola brigar com professor por conta do gênero e sexualidade dele. Em um momento eu fiquei muito triste, foi quando o Rodrigo pediu para sair da escola, parou de estudar um período, foi no último ano do ensino médio, ele não estava confortável com o corpo, só queria ficar dentro do quarto, mas depois de uma prova de eliminação de matéria, ele foi bem e conseguiu terminar o ensino médio. Eu tenho o sonho de ver meu filho feliz, sei que ele não é por completo, apesar de hoje ter todo o apoio de nossa família, de ter feito toda a transição, ter alterado o nome, o Rodrigo ainda não passou pelo processo de retirada dos seios, ele ainda é um jovem que passa muito tempo dentro do quarto, por isso. Ele está na fila do Sistema Único de Saúde, não sei quanto tempo isso ainda vai demorar e infelizmente hoje, eu não posso pagar essa mastectomia. 54 Há alguns meses o Rodrigo estava trabalhando, foi o primeiro emprego dele, ele ainda não tinha trocado o nome social e dentro da empresa começaram vários murmurinhos de que o Rodrigo era um homem transgênero, ele sofreu com a questão do banheiro, tinha gente que teve coragem de subir no vaso sanitário para olhar o Rodrigo, foi quando ele começou a ter crise de ansiedade, não soube lidar e pediu demissão da empresa por conta disso. Eu tenho muito medo da violência, vi recentemente na televisão uma transexual do nordeste que foi retirada do banheiro de um shopping, isso é de uma violência dolorida demais, eu me pergunto: “O que impedia aquela mulher linda de usar o banheiro feminino?”. De onde tiraram que ela era inapta pra usar o banheiro feminino? Eu sinto que a cirurgia do Rodrigo vai tirar meu filho desse casulo, porque é muito difícil, como ele é gordinho, o volume dos seios é maior e quando usa o Binder , o tecido elástico para esconder os seios, ele sofre, não consegue nem respirar direito com a pressão no peito. Eu pago convênio médico para ele, mas o convênio não cobre a cirurgia, porque entende como um procedimento estético, então tem que ser no particular mesmo, a última vez que eu vi o valor, estava de 12 a 13 mil reais. Essa cirurgia é a única coisa que falta pra ele se sentir o que ele é mesmo. No meu trabalho, por exemplo, eu nunca tive problema de preconceito com o Rodrigo, porque eu já chegava falando, não gostava de conversa atravessada, eu dizia para os colegas: “Meu filho é transexual, o dia que vocês forem olhar pra ele não precisa nem perguntar, já estou falando”. Eu já abri para todo mundo na sociedade, toda a nossa família também. Eu costumo dizer que eu sou escudo do meu filho, se eu não for forte suficiente para protegê-lo, as pessoas vão atacá-lo, então eu tenho que ser a fortaleza dele, se eu como mãe, não permito ofensas, é mais difícil elas ocorrerem. Eu lembro uma vez que eu subi no ônibus com o Rodrigo, ele ia para escola e eu ia trabalhar, eu sempre subia primeiro e ele subia atrás, só que nesse dia, eu resolvi deixar ele subir e eu subir depois, eram tantos olhares para ele, que ainda estava em transição, me deu uma vontade tão grande de chamar as pessoas e falar: “O que que foi?”. O que você está olhando para o meu filho desse jeito?”. No mesmo instante da minha fúria, veio em minha cabeça o que eu fazia com a menina que subia e descia a rua de casa e pensei o quanto é ruim a falta de conhecimento. As pessoas não sabem porque elas estranham, tem gente que é por puro preconceito mesmo, mas tem gente que é por pura falta de conhecimento. Por isso que hoje em dia em meia hora de conversa quando eu chego em algum lugar, eu já estou falando do Rodrigo, explico como foi a transição do meu filho. Eu tenho um orgulho danado do meu menino, não tenho medo nenhum de explicar sobre a transição dele, se vier conversar, vamos conversar. Eu não entendo de leis, eu não entendo 55 muito da medicina, mas eu entendo do meu filho, eu entendo do que ele sente e do que as outras pessoas como o filho passam e sentem. Então, ninguém até hoje me afrontou, ninguém falou nada ao contrário. Essa expressão criada: “Ideologia de gênero”, é algo que não cabe em nenhum espaço, eu, como mãe de uma pessoa trans e abastecida de muita informação, posso afirmar, que cada um é o que é e acabou. Não existe ideologizar uma pessoa, é impossível isso. Em minha opinião, a informação deveria começar pela escola, deveria ter mais orientação para os alunos, desde os pequenininhos e para os pais também, porque conforme os anos vão passando, eles vão adquirindo o entendimento dessas questões, que vão aparecer em algum momento da vida. É um debate muito complexo, porque cada um pensa de um jeito, mas se tiver conhecimento, deixa de ser complexo. A informação me ajudou muito a ser a pessoa, a mãe que sou hoje. Quando o Rodrigo começou a me trazer as informações sobre a identidade dele, eu me lembrei de uma amiga minha, que trabalhou comigo na APAE, ela tem um filho gay. No início, quando eu ainda estava em conflito, com alguns problemas de relacionamento com o Rodrigo eu perguntei pra ela: “Amiga, o que eu faço?”. Ela falou que tinha conhecido o grupo Mães pela Diversidade, que é um coletivo de mães de pessoas LGBT, um grupo muito fortalecido no Brasil, as mães se ajudam e quando encontram informações, vão compartilhando umas com as outras. Somos hoje uma imensa rede de mães maravilhosas. Quando conheci o grupo, passei a ir a algumas reuniões em Campinas e elas me levaram na parada da diversidade, em São Paulo, eu nunca me esqueço do que senti naquele dia ao pisar na Avenida Paulista. A hora que o grupo de mães começou a caminhar, elas gritavam juntas: “Sai, sai da frente, sai que com as mães é diferente”. Eu falei: “Meu Deus do céu, eu estou no lugar certo”.... Que felicidade! Foi tão lindo... estou toda arrepiada só de te contar isso... A partir daí, eu também passei a ajudar levando informação, eu tenho ido junto com as Mães pela diversidade em empresas conversar com os funcionários. Recentemente recebemos o convite da empresa Dell, a companhia não obrigou os funcionários a participarem do bate papo com as mães, deixou em aberto, para quem quisesse ir até o auditório. Enquanto nós falávamos, eu observava os homens que sentavam e cruzavam os braços com a cara fechada. Nós fomos entre quatro mães, conforme o bate papo ia seguindo, eles viam as 4 mães sentadas ali, a expressão das pessoas ia mudando. Talvez eles nem tivessem ideia do que é a diversidade, do que os nossos filhos passam, do que gostaríamos, de como o respeito tem que ser mútuo. Então, a pessoa entra naquela conversa de um jeito e logo muda. A nossa história real vai envolvendo… Tinha uma mulher trans trabalhando na empresa, tinham também 56 muitos gays... À noite, quando a nossa fala terminou e nós saímos da empresa, a fachada estava toda iluminada com a bandeira LGBT. Ficamos o dia inteiro lá e foi tudo ótimo. Eu queria tanto que meu filho trabalhasse ali. O Rodrigo quer fazer faculdade, ele é muito estudioso, quer fazer designer gráfico, desenha como ninguém, mas enquanto a cirurgia dele não acontecer, ele não se sente seguro e feliz para seguir, uma coisa vai levando a outra, quando ele fizer a cirurgia, vai conseguir ir para o mercado de trabalho... Que sonho! ... e consequentemente ele vai entrar na faculdade também, eu continuarei ao lado do meu filho em todo o caminho. Ser uma mãe fora do armário é assumir quem é meu filho, quem somos nós, como a gente vive, sem medo dos comentários, dos olhares, mostrar o rosto e se for preciso, chegar junto às pessoas e falar: “Não é bem assim, deixa eu te explicar o que é a transexualidade”. Eu só descobri que eu era uma mãe fora do armário quando me uni às outras mães. Fora do armário eu deixo meu filho mais confiante, mais pronto para enfrentar tudo na vida. Se eu sou forte na frente dele, ele vai se sentir forte, quando eu estiver ou não, por perto dele. A confiança, a segurança de saber, de se colocar: “Eu sou assim, essa é minha condição, me respeite, é só isso que eu te peço”. Tudo isso, se chama Amor, os nossos filhos precisam de amor para enfrentar a vida , se você consegue amar e ser amado dentro de casa, qualquer vírgula fora de um contexto na rua, não vai te chatear tanto, não vai te ferir tanto quanto se você não tivesse esse carinho e afeto, esse amor incondicional. Eu entendo que precisamos curar as feridas, precisamos nem deixar mais que elas existam, são tantas queimaduras sociais, tantas... eu sinto que tirar a tábua de passar do armário e ensinar filhas e filhos a usarem o ferro sem se queimar, é como entender que o amor independe da cor da roupa a ser passada, da crença estampada no emblema da camisa que você vai passar, da cor da pele de quem vai usar a roupa passada. É preciso tirar a tábua de passar do armário e dar liberdade para filhas e filhos escolherem a identidade que eles guardam no armário e vão vestir em suas vidas. Eu e meu filho decidimos que em nossa casa a tábua de passar nunca mais voltará para o armário, aqui fora, as verdades de nossa relação nos deixam mais seguros e enquanto as verdades atravessarem a porta, nem eu, nem o Rodrigo, vamos nos queimar. (Entrevista realizada na casa de Roseli, em Campinas, interior de São Paulo, no dia 06/01/2020.) 57 5 BOLINHA DE SABÃO FORA DO ARMÁRIO Irene Eu nasci e morei minha vida inteira no interior de São Paulo. Campinas, apesar de ser uma cidade grande do estado, sempre teve muitas possibilidades de brincadeiras típicas de criança que mora no interior, as pessoas se conhecem mais fácil, você tinha menos risco de brincar na rua com seus amigos, menos violência. Eu sempre gostei disso: liberdade, fui uma criança moleca, gostava de jogar bola com meus amigos, me vestia despojada. É engraçado lembrar hoje, aos 45 anos, porque apesar de eu gostar muito de liberdade, meu pai sempre foi um homem mais rígido, quase foi padre, mas desistiu, porque se decepcionou com as regras rígidas da igreja, celibato e tudo mais. Ainda assim, ele acabou indo para uma carreira rígida do mesmo jeito, meu pai, que hoje é aposentado, foi militar, ele é rígido com regras. Ele teve 3 filhos com a minha mãe e quando se separou dela teve mais 2 com a mulher que ele é casado hoje. Mesmo com toda a rigidez do meu pai, quando eu era criança ele não escolhia meus brinquedos, não me impedia de brincar com o que eu queria, eu fiz o mesmo com o Juliano, meu filho de 22 anos. O Juliano, ganhou o nome de “Beatriz” quando nasceu do sexo feminino, faz pouco mais de 3 anos, que ele conseguiu fazer toda a transição de gênero. Estamos felizes por ele. Ruim mesmo é viver o que não somos. Sou feliz de pensar assim hoje. Desde “pequenininha”, eu percebia que “a Beatriz”, não ficava feliz quando entrava em uma loja de brinquedos, era um lugar de incômodo para “ela”. Imagine só uma loja de brinquedos para uma criança de 5 ou 6 anos é um paraíso, mas para “a Beatriz”, não era, ela ficava acanhada, andava pela loja, olhava tudo tudo e escolhia sempre a mesma coisa: bolinha de sabão. As pessoas me diziam que eu era uma mãe de sorte, porque minha filha nunca escolhia nada caro, entrava na loja e escolhia bolinha de sabão. Se eu entrasse em 10 lojas de brinquedos, de todas as lojas “ela” sempre saia com aquele tubinho de bolinha de sabão na mão. Eu nunca vi problema naquilo, não associava isso a nada, eu tinha preferência por bichinhos de pelúcia quando era criança. Cada criança tem suas preferências. “A Beatriz” também brincava de bola, carrinho... eu não achava nada de estranho naquilo, para mim era tranquilo, achava legal, porque 58 eu também não era muito feminina na minha infância, então, tudo bem. O pai “dela” também não se incomodava com isso, ele dizia: “Deixa ‘ ela’ brincar com o que ‘ ela’ quiser”. O armário do quarto “da Beatriz” sempre estava cheio de tubinhos de bolinha de sabão, os outros brinquedos, que muitas vezes “ela” ganhava de presente da família e amigos em aniversários, ficavam dentro do armário, “ela” ganhava boneca barbie e do jeito que chegava em casa ficava, “ela” não gostava de trocar roupinha de boneca, por exemplo. Mas sempre tinha bolinha de sabão fora do armário, hoje vejo que “ela” mantinha os desejos de brincar reprimidos, guardava tudo naqueles tubinhos, só que naquela época eu não conseguia fazer essa leitura. Eu nunca impunha a roupa que “a Beatriz” ia vestir, “minha filha”, podia andar de boné para trás, camiseta, “ela” não gostava de usar rosa, desde os 4 anos, nem de usar saia, mas nunca se manifestava assim: “Eu sou menino”. Na escola, “a Beatriz” não sofreu bullying pelo fato de ser mais “masculina”. “Ela” começou a vida escolar, estudando no Liceu, depois a mudei para o Colégio Imaculada, que é uma escola católica de freira, em Campinas. Meu filho é muito inteligente, começou a ler sozinho aos 5 anos e quando entrou na escola, as professoras diziam que ele já estava bem avançado. Na época que eu mudei “a Beatriz” de escola foi uma falsa impressão que eu tinha de “afastá-la” dos amigos, eu achava que “ela” era influenciada por amigos por esse comportamento de tentar se “vestir de menino”. Começamos a vida nova de novo, compramos vestidos... Para mim, era uma chance de iniciar do zero. Passou o final do ano e eu pensei que “ela” já “fosse menina de novo”. “Ela” fingia que estava conseguindo, “ela” não me enfrentava. Hoje, eu falo para o Juliano que ele poderia ter me falado alguma coisa, me enfrentado, discutido sobre as vontades dele na forma de se vestir, mas não existia um embate, o Juliano sempre foi muito submisso em casa. Eu me separei do pai do Juliano quando ele tinha 8 anos e o pai dele continuava sem questionar muito sobre o comportamento da “Beatriz”. Durante os anos que ficamos juntos nós éramos evangélicos, participávamos de um Grupo de Estudos Bíblicos da Igreja Batista, se chamava Alvo da Mocidade, um grupo voltado para jovens, era muito legal, eu gostava muito das pessoas. Eu conheci o pai do Juliano antes, ele já era desse grupo e eu passei a frequentar depois. Passado algum tempo, eu comecei a perceber que tinham várias ideais machistas, ideias preconceituosas, com as pessoas, com a questão financeira, por exemplo, era um grupo muito elitizado, eu não me enquadrava na ideia da mulher submissa ao marido, comecei a questionar essas coisas e quando me separei, parei de frequentar o grupo, mas o pai do Juliano continuou ainda mais religioso. 59 Um ano após minha separação, eu me casei de novo. Nessa época, “a Beatriz” passava muito tempo dentro do quarto durante o dia, à noite ficava acordada a madrugada toda no computador. O meu marido daquela época, trabalhava na área de informática e começou a desconfiar “da Beatriz” passar tanto tempo “trancada” no quarto, conectada à internet. Um dia, sem que eu soubesse, ele hackeou o acesso “dela”, entrou no computador que “ela” usava e viu a conversa com uma menina e no mesmo instante, me chamou e mostrou. Na conversa, “ela” era fã de uma cantora, a menina também era, “elas” levantavam dúvidas de gostar de menino, “a Beatriz” tinha 13 anos. A maior preocupação do meu marido da época foi que “elas” falavam também de depressão, a menina desabafou, dizendo que se cortava. “A Beatriz” parecia tentar ajudar a outra adolescente a não se cortar. Meu ex-marido me disse : “Olha, pelo que entendi aqui nesse diálogo, ‘ a sua filha’ gosta de meninas, mas fique calma, não vai fazer nada contra ela”. Eu achei que eu fosse reagir bem, tirei o celular “dela”, o computador, mas nessa conversa fiz tudo errado, fui grosseira, agressiva, foi péssima minha atitude e “ela” acabou não me contando a verdade. Eu não sei por que agi daquela forma, me lembro que na época da faculdade de Direito uma das pessoas que eu tinha mais amizade era uma menina lésbica. As pessoas até brincavam que estávamos de caso, mas eu nem dava bola, nem ligava para a brincadeira, eu gostava muito dessa minha amiga, tinha muito respeito e carinho por ela. Ou seja, eu acolhi uma amiga lésbica e com “minha filha” tive aquela reação horrível. Eu achava que eu não tinha nenhum tipo de preconceito, no entanto a fúria que eu tive quando o meu ex-marido pegou aquela conversa na internet, foi horrível. Eu falava para a “Beatriz”: “Olha, ‘ filha’ você deve estar confusa, deve estar com alguma amiguinha que está te influenciando”. Na época eu achava mesmo isso, então eu tive atitudes que até eu mesma desconheço que tenham partido de mim, eu sempre peço desculpas para as pessoas por ter agido daquele jeito. Eu nunca impedi “a Beatriz” de fazer festinhas com os amigos da escola na nossa casa. Em uma das festinhas, quando “ela” estava com 13 anos, eu percebi que “ela” tinha ficado interessada em um menininho, “ela” demonstrava interesse por ele, mas nessa festa a melhor amiga “dela” ficou com o garoto, beijou o menino no dia do aniversário “da Beatriz”. Eu achei que aquilo foi uma frustação para “ela”, achei que “ela” tivesse ficado decepcionada porque o menino que “ela” gostava ficou com uma menina que era amiga “dela”, isso, na minha cabeça, teria gerado desencanto com os garotos. Depois daquela festa de aniversário “da Beatriz” eu comecei a bater insistentemente nessa tecla. Eu falava pra “ela”: “‘Filha’, você precisa se cuidar mais”, porque “ela” ainda 60 mantinha aquela aparência masculina. “Ela” chorou, tentou esconder... Eu acho que na época, eu tentei convencê-la de que “ela” podia se cuidar para ficar com uma aparência mais feminina, para poder ficar atraente para os meninos. Eu dizia para ela: “Você não está conseguindo o menino que você gosta, porque você tem que se cuidar mais, usar saia, arrumar seu cabelo”. “E la” era “aquela menina” com o cabelo desarrumado, não usava saia. Eu falava: “Vamos ao shopping, comprar roupas para você”. “Ela” aceitou. De certa forma, acho que “ela” confiou que isso pudesse funcionar. “Ela” talvez pensasse: “Ah tem chance de eu gostar de menino? Então, ótimo, vamos tentar”, Compramos roupas, “ela” foi para uma semana de retiro espiritual, conheceu um outro menino lá, começou a sair com o menino , eles iam ao shopping e eu ficava morrendo de felicidade, acreditando que era passageiro tudo aquilo que havíamos descoberto de conversas pelo computador. Só que “a Beatriz” estava me enganando na história, “ela” sabia o que deixava “ela” mais feliz. Muito tempo depois, “ela” mesma contou que o menino sabia que eles não teriam nada, além da amizade. Alguns meses depois, “Beatriz” me chamou para conversar e me disse: “Mãe, o que tem se eu gostar de menina? Qual é o problema?”. Eu disse: “Tá bom ‘ filha’ , é isso que você sente mesmo? Tudo bem!”. Mas, eu voltei a ter o preconceito com a aparência e voltei a me preocupar com os outros na rua, o que eles iriam pensar, com a forma “dela” se vestir, se “ela” ia andar de mãos dadas com outra menina na rua, esses questionamentos me rondavam. Eu disse para “ela” que podia namorar meninas, mas que na rua teria que se comportar. Se comportar, seria manter a aparência de menina e não demonstrar afeto a outra menina em público. Aquela minha reação era de pessoa preconceituosa, mas eu ainda achava que não era. Pela primeira vez, “a Beatriz” questionou a minha postura, falou que eu tinha que aceitar, que as pessoas tinham que aceitar, que namoro é namoro, que andar de mãos dadas é andar de mãos dadas, sendo dois homens ou duas mulheres. A “Beatriz” passava a ter um pouco mais de coragem de falar e eu comecei a mudar meu olhar para “ela”, mas ainda acreditando ser apenas uma fase. Um dia levei “Bea triz” ao ginecologista e durante a consulta falei sobre a questão de “Beatriz” gostar de meninas e perguntei a ele se havia algum tipo de hormônio para “ela” tomar que fizesse mudar essa vontade. Sabe o que aconteceu? O ginecologista me colocou para fora do consultório. Eu dou gargalhadas hoje quando lembro daquela cena. Ainda bem que ele fez isso. Na nova escola “da Beatriz”, na adolescência, “ela” também não sofreu bullying, “ela” diz que isso foi por questões ruins, já que “ela” era amiga da menina mais popular do colégio e como “Beatriz” sempre foi grande e forte, “ela” andava como segurança dessa amiga, coisas de adolescência. 61 As mudanças na aparência “da Beatriz” não paravam de acontecer, um dia “ela” me falou que queria cortar o cabelo, “ela” sempre teve cabelão, primeiro cortou um pouco curto, na segunda vez voltou com um side cut, só um lado do cabelo raspado. Depois de um tempo, “ela” aproveitou o fato de eu estar mais tranquila com a questão de gostar de meninas e chegou em casa com os dois lados do cabelo cortados, fez um moicano, dias após, apareceu usando um bermudão e uma camiseta bem larga. Eu acho que até aquele momento eu já tinha aceitado a “homossexualidade”, mas quando “ela” apareceu mais “masculina” eu desmoronei, passei três dias chorando, não conseguia trabalhar, não conseguia fazer nada. Com as mudanças físicas de “Beatriz”, toda a minha família ficou ao meu lado, eles falavam que “ela” estava testando os meus limites, que fazia isso para me desafiar, cada um vinha com uma opinião a respeito “da minha filha”, mas ao mesmo tempo eu era colocada contra a parede, minha mãe escreveu uma carta de 6 páginas para mim, na carta ela me disse que eu nunca eduquei “a Beatriz”, nunca coloquei limites, que tudo que estava acontecendo só era culpa minha. Minha família e amigos estavam ao meu lado, mas ao mesmo tempo me acusavam. Eu cheguei a ouvir que “minha filha” gostava de meninas porque eu tinha uma amiga lésbica da faculdade que frequentava nossa casa, que eu dei a possibilidade para “Beatriz” ser assim, me perguntavam como eu deixei “Beatriz” chegar naquele ponto. Eu fiquei em prantos, porque comecei a carregar um sentimento de culpa constante, de ter errado muito, comecei a pensar que eu deveria ter feito tudo diferente. No desespero, um dia saí andando pelo bairro onde moro procurando por psicólogos, alguém que pudesse me atender naquele momento, me lembro de que poucos dias antes, “a Beatriz” também havia me dito que precisa de um psicólogo, que não estava se sentindo bem. No dia que “ela” desabafou eu disse para “ela” que a minha intenção de um psicólogo para “ela”, seria para uma “cura”, eu queria que “ela” deixasse de ter aquela aparência. Eu olhava para “ela” e via um menino com seios, não estava legal. Caminhei pelas ruas do bairro, achei um consultório de psicologia e pensei: “Vou bater aqui na porta e ver se me atendem agora”. Não demorou muito e apareceu um senhor japonês com cara de quem já estava aposentado.... Eu dei uma risada sem graça pra ele … e disse: “Eu moro aqui perto, passei e vi que tinha uma placa, queria ver se vocês tem atendimento para jovem. Eu disparei a falar com aquele senhor: “Olha, eu tenho ‘ uma filha’ , mas ‘ minha filha’ está totalmente ‘ errada’ , ‘ atrapalhada’ , chegou em casa com o cabelo totalmente cortado, curtinho, eu estou apavorada, preciso de alguém que atenda ‘ minha filha’ , porque eu acho que ‘ ela’ está ‘ perdida’ ”. Eu não sei como eu falei direito... não sei mesmo, mas eu acho que do jeito que eu falei, o Japonês entendeu... Depois de ele me olhar com a expressão intrigada me disse: 62 “Olha, quem está precisando de atendimento é você e é urgente, entra aqui um pouquinho”. O psicólogo conversou muito tempo comigo e parece que me situou, pelo menos naquele momento. Lembro que ele disse: “ O que ‘ sua filha’ é, ‘ ela’ é, e pronto! Você como mãe, pode impedir várias coisas para o bem ‘ dela’ , mas não vai mudar o que ‘ ela’ é, comece a mudar o seu olhar, comece a identificar quais são as características ‘ da sua filha’ , o caráter ‘ dela’”. Aquele psicólogo me abriu a mente, alguém estranho, que não conhecia nada sobre mim me falando tudo aquilo, com tanta propriedade, parecia ser alguém que me queria bem, tudo começou a ficar mais tranquilo dentro de mim, minha mente começou a se abrir. Eu saí daquele consultório pensando exatamente assim: “Talvez ele tenha razão”. Eu voltei ao psicólogo outras vezes e quando fui pagar para ele, ele me disse: “Faz o seguinte, não paga você, fala para a ‘ sua filha’ vir aqui trazer o dinheiro, assim eu converso um pouco com ‘ ela’”. No dia seguinte, “a Beatriz” levou o dinheiro e dali a pouco ele me ligou: “Olha, ‘ sua filha’ é incrível, um doce, acho que você não tem que se preocupar, o que ‘ ela’ é, ‘ ela’ é, se ‘ ela’ for assim, ‘ ela’ é assim, apenas acolha”. Eu já tinha ido várias vezes lá, voltei de novo e ele me falou: “Olha, acho que você não tem mais porque voltar, você já entendeu”. A partir daquele momento minha ficha caiu, eu tinha “uma filha”, lésbica, que se sentia bem em ter a aparência masculina. O psicólogo queria me dizer, que nós somos muitos e cada um é de um jeito, aquilo eu deveria saber, mas na hora eu não conseguia entender. Depois daquela última consulta, voltei para casa mais tranquila e quando navegava pela internet vi uma publicação do grupo Mães pela Diversidade. O post falava de mães que apoiam seus filhos e aquilo me tocou de alguma forma. Minha filha estava com 17 anos, na época, meu pai ainda falou que “ela” estava testando meus limites, mesmo assim, ele era carinhoso com “Beatriz”, porque “ela” sempre foi muito “carinhosa” com todo mundo. Meu pai dizia: “Beatriz é tão boa filha, não tem como você fazer nada com relação aos sentimentos “dela”, “ela” é uma excelente “aluna” na escola, em casa, atende a tudo que você pede, com a família é extremamente carinhosa, você vai falar o que?”. Meu pai estava ao meu lado, mas também tentava entender o lado de “Beatriz”. Já a abordagem da minha mãe era: “Você fez tudo errado, por isso que ‘ ela’ é assim”. Ao ver aquela publicação do grupo “Mães pela Diversidade” eu passei a me relacionar com várias mães. P rimeiro, elas me perguntaram quem eu era, eu disse que era uma mãe de lésbica, elas me perguntaram se eu estava precisando de apoio, eu disse que sim e então uma mãe de Campinas entrou em contato comigo, nós marcamos um café, eu contei tudo, falei o que eu tinha feito de errado, tomei café com outras mães, cada uma contou de suas 63 experiências com os filhos, eu entrei em um grupo de whatsapp e uma mãe de São Paulo falou para mim: “Olha Irene, eu tenho um grupo que é de mães de pessoas trans”, eu disse para ela: “Não, mas eu não tenho uma ‘ filha’ trans, minha ‘ filha’ é lésbica”. Eu acho que elas perceberam algo que eu não tinha visto, só de eu contar a história “da Beatriz”. Elas falavam: “T alvez ‘ sua filha’ .... seja trans... você está preparada?”. Eu disse: “Não, eu acho que ‘ ela’ é lésbica, mas é uma lésbica masculina, mas é lésbica”. Aquele contato com as mães foi importante, porque eu comecei a ouvir histórias de várias mães que contavam o que tinha acontecido, eu olho para trás e não me reconheço nessa fase, parece que um espírito se apossou de mim.... Eu realmente fui péssima com “a Beatriz”, fui uma mãe que facilmente teria a chance “da filha” ir embora de casa, eu tive sorte “dela” ter ficado ao meu lado... Várias mães do grupo começaram a me ligar. Naquele momento “a minha filha” não tinha entendido sua identidade ainda, “ela” estava em um processo de sofrimento, sem entender o que era, o que iria fazer, “ela” sofria “calada”, pesquisava informações por conta própria dentro do quarto, “Beatriz” se isolou, não tinha mais nenhum amigo, nenhuma amiga. A situação foi ficando cada dia mais difícil para “Beatriz”, “ela” tinha mudado de escola de novo, foi para o Colégio Oficina do Estudante, que era mais preparatório para o vestibular. Do ensino fundamental até o ensino médio passou por 5 escolas. Pouco tempo depois da mudança para essa escola no ensino médio, “ela” fez novas amizades, era a primeira escola “dela”, que não tinha nenhum cunho religioso. Na nova escola “ela” fez amizade com um menino gay. No grupo Mães pela Diversidade eu tentava compreender as questões de sexualidade e identidade de gênero, mas sentia medo e quando comecei a entender mais “minha filha”, pensei que talvez seria melhor que “ela” ficasse um tempo fora do país, um lugar que não tivesse preconceito. Eu pesquisei um intercâmbio e descobri a cidade de Denver, nos Estado Unidos, é uma cidade mais alternativa. “Ela” ficou lá por um mês, foi muito bom, conheceu muitas pessoas da comunidade LGBT, foi muito legal o que “ela” viveu lá, já falava inglês e foi para aperfeiçoar, trouxe experiências boas de vida, foi um desafio para quem nunca tinha saído de casa. O grupo Mães pela Diversidade começou a me dar uma luz, comecei a ver que tinham muitas mães que se davam bem com os seus filhos, se interessavam pelas questões de sexualidade e gênero deles e eu comecei a perceber que eu estava por fora e não sabia nada do que a “Beatriz ” estava passando. Eu estava tão preocupada com o meu drama e tão acolhida, todo mundo estava se solidarizando comigo, que eu fui me sentindo aquela coitada que todo mundo vinha me amparar, as pessoas diziam que nunca imaginariam eu passando por uma 64 situação dessas com “minha filha”. Eu fui ocupando esse lugar de vítima, foi estranho, porque eu não sou uma pessoa que me faço vítima, mas eu ocupei bem esse lugar, parecia estar confortável pra mim. Enquanto família e amigos se solidarizavam comigo, as mães pela diversidade me traziam para realidade e me falavam coisas do tipo: “Você não lembra que ‘ sua filha’ é a mesma pessoa, a mesma criança que você pegou no bercinho, ensinou a andar, a entrar na piscina, viu ‘ ela’ começar a engatinhar, pense que ‘ sua filha’ é essa mesma pessoa, pegue uma foto e olhe a essência ‘ dela’ , observe que é a mesma essência daquele serumaninho, olhe lá dentro do olhinho ‘ dela’ e veja que tem uma pessoa sofrendo”. Aquelas conversas foram me abrindo os olhos. Eu acho que o grupo das mães foi essencial para me apresentar a realidade, porque minha família amparava e fortalecia o meu preconceito, eu estava me voltando contra a “minha filha”. O grupo Mães pela Diversidade, me fazia ver que, aquele seria um momento difícil, mas que tudo ficaria bem, as mães me faziam olhar para “a minha filha”, entender que “ela” estava em uma idade, que precisa de muito olhar. E las me contavam histórias de pessoas que se suicidavam , filhos que fugiam de casa, por falta de apoio dos pais e “a minha filha” sempre foi muito pacífica, eu nunca consegui imaginar aquilo, mas e se uma hora “ela” fizesse aquilo? Eu comecei a ter outros tipos de medo, por exemplo, “da minha filha” ser “agredida”, de deixar a escola. Uma vez, eu estava na rua com “a Beatriz” andando a pé pelo nosso bairro, quando um carro passou e o motorista mexeu com “ela”, gritou, xingou. Aquela era a primeira vez que vi “minha filha” ser “ofendida”, parece que fez nascer uma revolta em mim. Eu me perguntava: “O que é isso? O que estão fazendo com ‘minha filha’ ? Como ela pode andar na rua e as pessoas falarem assim com ‘ela’?”. Eu fiquei nervosa e muito triste e “a Beatriz”, vendo a minha tristeza, falou: “Mãe, é assim mesmo, eu estou acostumada com esses xingamentos, todo lugar que eu vou é assim, todo mundo me olha, todo mundo me repara, todo mundo tem ódio de mim, eu não fiz nada para ninguém, mas eles têm ódio de mim. Eu não gosto de ir ao shopping porque as pessoas ficam me olhando, eu não posso ir a um banheiro público que as pessoas ficam com nojo de mim”. A partir daquele dia eu comecei a sair mais com “a Beatriz”, eu me posicionei mais, quando alguém olhava para “ela” na rua eu olhava de volta e quase enfrentava a pessoa, eu virava um leão de chácara. Comecei a entender que eu precisava fazer alguma coisa para estar mais ainda ao lado de “minha filha”, eu tinha que fazer alguma coisa, eu estava muito preocupada, eu que era a ignorante da situação começava a ficar ciente do risco de vida que “Beatriz” corria. 65 Diante de tudo que estávamos vivendo, meu marido da época, o mesmo que descobriu que Beatriz gostava de meninas, quando hackeou o computador “dela”, o mesmo homem que me acalmou naquele momento, começou a ficar contra mim. Quando eu assumi que “Beatriz” era lésbica, ele ficou contra, quando eu sofri pela transformação “dela”, de estar mais “masculina”, ele foi a favor de mim e ficou contra “ela”, ele falava: “Isso é um absurdo, não precisa fazer isso, não precisa usar roupa de menino, não precisa andar por aí jogando na cara dos outros, cortar o cabelo desse jeito”. Eu falava para ele: “É minha filha, eu vou acolher”. Quando eu aceitei a estrutura “dela” como uma “lésbica masculina” e abracei a causa, ele ficou contra. Ele começou a desdenhar de “minha filha”, não queria que “ela” saísse com a gente, dizia que “ela” causava olhares na rua. Ele era rude quando falava da aparência “dela”. Eu já estava muito insatisfeita com a nossa relação de casal, não tinha mais admiração por ele e então nos separamos. O motivo não foi apenas ele se voltar contra “Beatriz”, mas isso também pesou muito em minha decisão. Quando “Beatriz” terminou o ensino médio, “ela” passou no vestibular de biologia da USP - Universidade de São Paulo, mas teria que morar em outra cidade, Piracicaba, fica menos de 1 hora de Campinas. Era um momento feliz para “Beatriz”, e para mim, como mãe também, porque “minha filha” caminhava para um novo passo na vida, “ela” sempre gostou muito de estudar, sempre foi excelente “aluna”. Mas, ao mesmo tempo de nossa felicidade, tivemos momentos muito tensos ao procurar república estudantil para “ela” morar. Fomos a uma república em que só moravam meninas e quando chegamos lá as meninas olhavam para “ela” com desconforto, porque “ela” tinha uma aparência masculina. Como é que eu teria coragem de deixar “minha filha” morar em uma república masculina? “Ela” era uma “menina lésbica”, eu acharia muito perigoso se tomássemos essa decisão. De tanto procurarmos repúblicas de “meninas” e sentirmos o mesmo desconforto por todas as repúblicas que passamos, eu já estava a ponto de alugar um apartamento para “Beatriz” morar “sozinha”, mas ao mesmo tempo eu pensava o quanto é importante essa fase social, essa convivência de uma república estudantil, “ela” perderia essa fase. Alguns dias procurando por repúblicas em Piracicaba, encontramos uma pessoa que nos indicou um local onde moravam apenas meninas, mas eram meninas de mente aberta. Quando chegamos, elas logo perceberam que “Beatriz” era lésbica, elas disseram que na cidade não havia república mista, mas indicaram uma república onde tinham alguns meninos gays e em uma conversa com eles, eles decidiram mudar o espaço para república mista para acolher gays, lésbicas, bissexuais, sem problema algum. Foi naquele lugar que “Beatriz” se encontrou. Até hoje os meninos são amigos do Juliano, eles sempre vêm nos visitar em Campinas. 66 Quando iniciaram as aulas de “Beatriz”, “ela” logo conheceu um grupo de estudantes dentro da universidade que discutia assuntos sobre sexualidade e gênero, o grupo acolhia a diversidade dentro da faculdade. “Beatriz” me contou “entusiasmada” sobre o contato com o grupo, como eu também já estava envolvida com o grupo Mães pela Diversidade, pedi muito para que “ela” ficasse próxima a esse grupo dentro da universidade para estar mais “protegida”. No grupo, “Beatriz”, ganhou o apelido de Bidu, a maioria tinha um apelido, mas eu acho que “ela” ganhou esse apelido porque eles perceberam que “Beatriz” não entendia ainda sobre sua identidade de gênero, acredito que o apelido deixaria “ela” mais “tranquila” por poder transitar entre um nome feminino e masculino. “Ela” recebeu todo o apoio do mundo desse grupo e foi em contato com aquelas pessoas que entendeu sua identidade de gênero. “Ela” se sentiu “amada”, “acolhida”, “amparada” e passou a ser mais feliz. Mas ainda não falava para mim sobre esse processo, isso tudo “ela” me contou depois. O primeiro ano da universidade estava chegando ao fim, “Beatriz” conversava muito comigo sobre um incômodo que “ela” tinha com o curso de biologia, “ela” falava que estava estudando bastante a parte de plantas, mas gostava mesmo de genética e quase não tinha essa abordagem no curso. Quando faltava uma semana para as férias de fim de ano, que “Beatriz” voltaria para casa em Campinas, “ela” me ligou. A pergunta ao telefone se diferenciava de tudo que já tinha ouvido “dela” até aquele momento. “Beatriz” me disse: “Mãe, “Você prefere Júlio ou Juliano?”. Nós já estávamos numa fase tranquila da relação, mas eu andava muito preocupada com o mundo, “ela” não era o problema mais, o mundo que era o problema. Então, ao mesmo tempo em que aliviou nossa relação, aumentou outro sofrimento, que era a preocupação com a violência. Eu tinha medo de trote, de estupro corretivo e tantas outras coisas absurdas, meu medo era constante, todos os dias. Quando chegou aquela pergunta ao telefone: “Júlio ou Juliano? ”, eu não entendi a questão na hora e disse: “‘Filha’ , não vai me inventar um bichinho de estimação, porque eu não tenho tempo de cuidar”. “Ela” falou: “Não mãe, se fosse para mim, um desses dois nomes, qual você gostaria, Júlio ou Juliano? ”. Ainda sem entender muito bem, apenas respondi: “Eu prefiro Juliano”. Com uma voz muito tranquila ao telefone “ela” disse: “Então, eu estou indo para Campinas e conversamos aí”. Assim que “Beatriz” chegou em casa, eu observava em seu olhar a necessidade de uma conversa imediata, foi quando “ela” olhou para mim e disse: “Mãe, em todo esse ano que estive na universidade, entrei em contato com pessoas diversas, eu pesquisei muito, eu recebi muita informação, conheci muitas coisas que eu não sabia e descobri, que eu não me encaixo nesse jeito que eu estou, não me sinto totalmente encaixada nessa situação. “Ela” me explicou tudo 67 sobre a transexualidade e falou: “Olha existe sexualidade e gênero, sexo e gênero são diferentes”. “Ela” pegou um bonequinho e me explicou: “Olha mãe, o gênero está aqui, sexualidade está aqui”. “Beatriz” foi generosa comigo, me preparou uma ampla explicação para termos aquela conversa, teve um grande trabalho pra me deixar informada de tudo, colocou o desenhinho, explicou por vários ângulos, várias maneiras, me mostrou o que era a diversidade, as várias possibilidades de ser de uma pessoa. Naquele mesmo dia, “Beatriz” me disse coisas bonitas para falar de si e dos outros: “Mãe, nós, seres humanos, somos uma caixa de lápis de cor de 36 cores, você não pode colocar todo mundo no branco, preto, vermelho, nas cores primárias, nós temos muitas possibilidades, então não vamos colocar o ser humano nessa caixa que você aprendeu, ela não existe...”. “Beatriz” abriu minha mente, meu mundo e minha caixa de lápis de cor ganhavam outras cores a partir daquela conversa. Seria fácil pensar que eu teria que começar um processo do zero, mas não, o que eu precisava mesmo era de mais informação, novos conhecimentos, eu não entrei em um novo armário. Eu acho que saí do armário como uma mãe de “menina lésbica” e quando a transexualidade se apresentava para mim, eu já entendia que, como mãe, já poderia estar junto com os tubinhos de bolinha de sabão fora do armário e que de cada tubinho poderiam sair cores de bolinhas diferentes, eu já começava a entender que as bolinhas não eram iguais, que elas tinham formatos e cores diversas. A partir daquela conversa com “a Beatriz”, o meu questionamento de mãe era muito mais com relação às questões práticas da transexualidade, não importava mais para mim o que “a Beatriz” era, e sim, o que era necessário para “ela” se sentir completa, o que precisava para “ela” ser feliz com sua identidade. Eu fazia perguntas do tipo: “ O que temos que fazer daqui para frente ?”. Eu me lembrava das travestis e pensava: “Mas, travesti menino eu nunca vi”. Eu era totalmente leiga, não sabia que travesti e transexuais são diferentes. Então, eu falava para “ela”: “‘Filha’, ainda está um pouco confuso para mim, mas quantas vezes eu precisar entender e você precisar me explicar, você explica ?”. “Ela” nunca se incomodava em me responder uma pergunta, era “serena” e “generosa”. Depois que todas as informações chegaram a mim, eu começava a receber o Juliano, era um novo momento em nossa vida. Algumas semanas após nossa conversa, Juliano me chamou para um segundo bate papo e me disse: “Mãe, agora eu vou trancar a faculdade, quero trabalhar em qualquer área, qualquer emprego, para guardar dinheiro e fazer minha cirurgia, eu quero tirar a mama”. O fato de ele querer trancar a faculdade me despertou a real necessidade que ele sentia em fazer a transição 68 e imediatamente eu comecei a me informar sobre tudo que precisava, laudo de psicóloga, acompanhamento, eu me envolvi totalmente com a questão. O Juliano passou a usar o binder, a faixa para disfarçar os seios, eu ficava apavorada em vê-lo usando aquilo, machucava demais, além disso estávamos no verão e ele só andava vestido de jaqueta para cobrir os seios, foi quando eu tomei a decisão de que iríamos correr atrás de médicos para que ele pudesse fazer a cirurgia o quanto antes. Meu filho Juliano já estava informado de tudo, ele abriu uma pasta com a lista de todos os médicos que fazem essa cirurgia de mastectomia no Brasil em homens transexuais, ele tinha os preços, os procedimentos necessários, a lista de documentos. Ele me disse: “Eu já tenho tudo, mãe, só preciso de dinheiro, então vou aceitar qualquer emprego pra fazer isso”. Juliano nunca tinha trabalhado, sempre estudou. Eu comecei uma saga, procuramos uma psicóloga, ele passou com ela, depois de um tempo ela concedeu o laudo para que ele pudesse fazer a cirurgia. O Juliano já vinha conversando pela internet com o médico de Brasília, especialista na mastectomia de homens transexuais. Esse médico desenvolveu uma técnica que tira um pedaço do mamilo e constrói o mamilo masculino, ao invés de deixar o mamilo feminino. Eu entrei em contato com o médico e passamos a conversar, o interessante é que esse médico se solidariza com as questões das pessoas trans e faz toda cirurgia por um valor muito abaixo do que outros cirurgiões. Após algumas conversas, eu marquei a cirurgia em Brasília, minha família ainda não estava sabendo de nada e ele ainda não tinha alterado o nome social de “Beatriz” para Juliano, mas eu antecipei toda a questão da cirurgia, tínhamos que ir para Brasília uma semana antes para ele fazer todos os exames antes de operar. Quando eu marquei a cirurgia, enviei uma mensagem para toda a minha família para termos uma conversa e comuniquei: “A partir de hoje, gostaria que todos chamassem meu filho de Juliano, estamos indo fazer a cirurgia de transição dele em breve”. No início, eu fiquei com medo, mas naquele momento eu já estava certa disso. O pai dele ficou muito bravo, não quis falar com o Juliano, foi contra a cirurgia, passou meses sem falar com o filho, mas o Juliano sempre mandava notícias, o pai nunca respondia. Quando eu fui falar com o pai dele, ele me disse “Eu não tenho filho, eu tenho filha”, novamente ele me culpou e disse que eu que estava fazendo tudo errado. Minha mãe não concordava também, já meu pai, que passa dos 70 anos, tinha todas as questões de conservadorismo trazidas pela vida de militar, percebeu que estava apoiado em coisas muito frágeis, ele foi rápido, a mudança dele foi bem rápida e ele acolheu o Juliano. Todo o processo de transição do Juliano veio em um momento muito difícil da política no Brasil, as pessoas com discursos de ódio na ponta da língua e a comunidade LGBT estava no centro desses discursos. Em um determinado momento, um vídeo na internet mostrava 69 torcedores dentro de um estádio de futebol gritando em coro para o político Jair Messias Bolsonaro, que depois veio a se eleger como presidente do Brasil, os torcedores gritavam: “Ei, Bolsonaro, vai matar viado”. O meu filho sempre foi muito discreto e não era de fazer publicações em redes sociais. Mas, ele publicou esse vídeo e comentou no post: “Como as pessoas podem apoiar isso? Esses torcedores estão falando de mim. As pessoas precisam entender que cada vez que eu ouço isso, eu choro, eu fico mal. Como vocês ouvem isso e não sentem nada? Eles querem me matar”. Juliano finalizou o post dizendo: “Minha vida não importa para você né? ”. Meu pai leu a publicação e disse que mudou no mesmo instante a forma de pensar. Desde então, ele nunca questionou o Juliano e o trata com muito carinho. Eu acho que além da postura segura e serena do Juliano, teve um segundo ponto para que minha família pudesse mudar a visão. Para mim, é muito claro que quando eu parei de sofrer, todo mundo que era contra ou a favor do Juliano ficou a favor da causa, parece que foi um passe rápido para tudo. Se eu tivesse simplesmente ignorado a situação e continuasse a buscar “a tal cura” e não tivesse entendido que era eu quem precisava de me curar do preconceito, acho que eles continuariam na mesma defesa. Mas, quando eles perceberam que a minha vida mudou depois de sair do armário e como isso me fez feliz, foi transformador para todo mundo. É quando você se coloca a frente de seu filho e sai lutando contra o preconceito do mundo. O dia de nossa viagem à Brasília chegou. Estava tudo pronto para que Juliano fizesse a cirurgia dos seios. Foi muito bom marcar a cirurgia longe de casa. Viajamos somente eu e o Juliano, viajamos felizes, cheios de energia. Aquela viagem era a despedida da “Beatriz” e nós encaramos nossa chegada à Brasília justamente como uma despedida. Nos dias que antecederam a cirurgia passeamos bastante e cada foto que tirávamos na capital federal falávamos: “Estamos nos despedindo da Beatriz para a chegada do Juliano”, nos divertimos com a transição, não foi um processo de peso, era hora de conceber uma nova vida. Até minha mãe, que ainda não havia aceitado a transição, nos surpreendeu, ela pegou uma foto que mandamos da despedida “da Beatriz” em Brasília e fez uma caneca, o presente foi entregue quando voltamos de lá. Enquanto estávamos lá, ela me ligou chorando e disse que havia assistido a um documentário na televisão que mostrava a vida de pessoas transexuais, ela agradeceu a nós pela oportunidade de abrir a mente dela e entender o que estava acontecendo. Falou ainda, que estava feliz porque poderia ter passado por essa vida sem aprender essa questão do gênero e que tinha sido um presente ela compreender aquilo, uma oportunidade de mudar não só em relação ao neto, mas também mudar o olhar a outras pessoas. Ainda por telefone, ela me contou que tinha uma pessoa trans na cidade que ela morava, em Minas, e que ela sempre 70 tratou muito mal, porque via a mãe dessa pessoa sofrer. Nós ficamos felizes, por ela entender esse processo, já que, até aquele dia, ela já havia feito coisas muito ruins do tipo... se o Juliano colocasse uma foto dele na rede social, já com a aparência bem masculina, ela colocava fotos dele de quando era pequeno, usava vestido e cabelo cumprido, e ainda escrevia: “Eu prefiro assim”. Com isso, ela arrumava briga com os amigos do Juliano, que se manifestavam contra ela e a favor dele. Não temos tanto contato com minha mãe hoje, por outras questões familiares, mas ela virou uma pessoa carinhosa com o Juliano, ainda bem. O pai dele rompeu com ele, continuou a não aceitar a transição, mas a relação dos dois hoje é digamos… estável... mas ele ainda chama o Juliano de “ela”. A cirurgia do meu filho foi um sucesso, a mama ficou perfeita e ele segue fazendo o tratamento hormonal. Juliano também já fez a troca de nome e usa o nome social. Ele está feliz. Assim que se recuperou da operação, prestou vestibular novamente, desta vez em Campinas e para cursar administração, está perto de mim. Quando fomos fazer a matrícula dele, eu saí de casa com toda a legislação embaixo do braço, já queria chegar na faculdade falando: “Olha, é nome social e pronto”. Cheguei à faculdade, apresentei toda a documentação e a funcionária da secretaria falou: “Não tivemos nenhum caso desses ainda, quero aprender como faz no sistema, só um minutinho que eu vou chamar alguém para me ajudar, para ver onde colocaremos o nome social”. Em questão de minutos, fizemos a matrícula e mais uma etapa tinha sido superada. Na Universidade vai tudo bem, no início tivemos só uma situação desagradável, em que uma prova veio com o nome errado, mas agora, já está tudo certo. O Juliano veio trabalhar comigo, no meu restaurante, ele é muito dedicado, mas nesta nova fase, iniciamos outro processo de enfrentamento em nosso círculo social. No restaurante, um dia chamei todos os funcionários para apresentar o Juliano, porque eles conheciam “a Beatriz”, até ali. A partir daquele momento, eu pedi que ele fosse chamado pelo nome social. Mas dei um apelido de transição, que foi o conselho de uma psicóloga, amiga minha. Falei que no início os funcionários podiam chamá-lo de Ju, até se acostumarem, inclusive tem muita gente que o chama de Ju até hoje e eu acho carinhoso. Uma das funcionárias do restaurante era evangélica e durante a reunião se manifestou dizendo: “Para mim, Deus fez homem como homem e mulher como mulher, aos olhos de Deus ‘ ela é Beatriz’” . Eu falei para ela: “Você é representante de Deus? Está com a procuração de Deus assinada para falar em nome dele? Estamos na sua igreja seguindo sua religião? Não! Então, aqui é uma relação de trabalho e precisamos prezar pelo respeito”. Mesmo assim a funcionária me disse: “Não consigo, já acostumei com Beatriz”. Eu disse: “Ele é meu filho, eu também o chamei de “Beatriz” por 18 anos e hoje eu só o chamo de Juliano, como é que você, que só o conhece há um ano não pode 71 se acostumar por questão de respeito?”. Ela continuou dificultando e dizia que não conseguiria. Então eu disse: “Ou você está com má vontade ou tem dificuldade de aprendizado, vou recomendar que vá para a sua casa, pense em qual condição você se encaixa”. Eu dei a chance “dela” refletir e no dia seguinte “ela” voltou respeitando e chamando Juliano pelo nome social. Em outras situações eu também tive que ser mais dura, até com amigas de infância, por exemplo, uma amiga do meu irmão, que frequenta meu restaurante me falou um dia: “Ah eu não consigo, porque me acostumei a vida toda a chamar de “Bia”, então já estou em uma idade que acho que não consigo mudar e chamar de Juliano”. Eu disse para ela: “Quando você vai a um lugar e tem um elevador, você sabe pegar, porque um dia você aprendeu, não aprendeu? Quando você quer usar o micro-ondas você usa, por que você aprendeu, não é? Você também aprendeu a usar o controle remoto da televisão não aprendeu? Então você é uma pessoa que tem condições de aprender a chamar o Juliano por Juliano, você pode aprender, comece a chamar certo, é só questão de vontade e de respeito”. Dia desses aconteceu uma situação muito inusitada, que me deu um alerta do quanto não podemos ficar calada e temos que enfrentar a transfobia junto de nossos filhos. Eu fui comprar material elétrico numa casa de materiais para construção. Eu pedi a entrada macho da tomada, o comerciante que me atendeu, por engano, me deu a fêmea, então eu percebi o erro e falei que tinha pedido a tomada macho. Ele disse: “Agora com essa bagunça, essa confusão de não ter mais macho e fêmea, a gente até se confunde”. Eu disse: “Pois é, se as tomadas também parassem com essa divisão de macho e fêmea seria bem melhor, seria uma evolução você não acha?”. Ele me olhou com cara de espanto e disse que estava falando isso, porque agora menino quer ser menina, menina quer ser menino”. Eu falei para ele: “Mas, meu senhor, isso não é de agora, isso sempre existiu, agora nós estamos começando a ver que as pessoas querem ter o direito de ser o que elas são, o senhor não acha?”. Ele disse: “Mas, eu acho uma pouca vergonha, porque Deus...”. Logo entrou na conversa a tal da religião. Eu falei: “Mas, o que adianta o senhor falar no lugar de Deus o que o senhor quer ou não? O senhor quando era criança não lembra de ter visto na escola um rapaz que já era gay? O senhor acha que muda? A pessoa nasce assim. Deus fez você não fez? Não fez as plantas? Ele fez também a pessoa gay, a lésbica, a trans, ele fez pessoas”. Ele me disse: “Então você está desmerecendo a obra de Deus? Você está sendo contra a obra dele?”. No final, eu olhei para ele e disse: “Talvez eu já tenha até pensado como o senhor, mas eu fui conhecer as pessoas e é um sofrimento muito grande para essas pessoas saber que tem gente que pensam assim, como o senhor”. Encerramos a conversa eu dizendo: “O senhor já pensou que bom seria se não tivéssemos esse problema do 72 macho e a fêmea da tomada? O importante mesmo é ter eletricidade, é acendermos a luz”. Foi um bom começo de conversa com aquele comerciante. Outro episódio, que me lembro de não licenciar, aconteceu em um transporte por aplicativo. Eu peguei um Uber na casa de um amigo meu, no Centro de Campinas e eram 02h30min da madrugada, quando o motorista parou ele falou: “Ainda bem que é você, achei que fosse uma travesti que tinha pedido o Uber, por causa do horário”. Eu falei: “Qual seria o problema se eu fosse uma travesti? Você só vai me deixar no outro ponto de endereço, tanto faz se eu sou ou não uma travesti”. Ele falou: “Eu não pego travesti”. Eu falei: “Mas a travesti não tem direito como eu de andar de transporte por aplicativo?”. Ele disse: “É que eles querem ir comprar droga nas quebradas”. Naquele momento falei para ironizar: “Eu não sou travesti, mas eu quero ir buscar droga. Então, eu posso, já que eu não sou travesti, certo?”. Ele falou: “Você entendeu errado”. Eu falei: “Você que entende errado as pessoas, é só para você perceber que as pessoas são iguais”. A partir daí eu já tinha dado o meu recado, não discuti mais, desci no meu destino final. A medicina também é muito despreparada para as questões de saúde que envolvem as pessoas transexuais. Recentemente, fui a um dermatologista que conheço há muitos anos, levei o Juliano, falei da mudança dele por conta dos hormônios, falei que ele estava com queda de cabelo depois que passou a tomar testosterona. A resposta do médico foi: “Ué, se ele toma testosterona, o efeito é esse, se quiser que pare de cair o cabelo tem que parar de tomar”. Então, eu acho que a medicina não tem um olhar para as pessoas transexuais, parece que tudo que surgir no corpo dele, tenha sido uma escolha dele. Por causa disso, o Juliano evita de relatar quando não se sente bem e isso é uma preocupação para mim. Eu acho que a preocupação com a saúde do meu filho será eterna, porque essa questão de usar testosterona, para mim, ainda é um pouco misteriosa, os efeitos vão existir sempre, tem a questão de sobrecarregar o rim, o fígado, eu acho que ele tem dificuldade de cuidar do corpo. Ele trabalha e estuda, mas cai fácil na história do lanche e da pizza e acaba se descuidando. Ele sempre terá que ir ao ginecologista, ao endocrinologista, fazer exames periódicos, eu sempre estarei ao lado dele, mas é uma questão que realmente me preocupa. Depois que o Juliano fez a cirurgia e alterou o nome social, eu passei a ter uma necessidade ainda maior de ajudar outras mães. No grupo Mães pela Diversidade de Campinas eu fui a primeira mãe de pessoa transexual a fazer parte do movimento. Hoje, já existem outras mães e sempre conversamos, nos encontramos para organizar ações e levar informações para mães, para filhos e para a sociedade em geral. Todos precisam conhecer sobre a questão. A mãe tem um discurso de autoridade, porque quase todas as pessoas, de uma forma ou de outra, 73 tiveram uma mãe. Eu costumo dizer para os mais jovens que se distanciaram da família: “Tua mãe gosta de você, tanto quanto eu gosto do meu filho”. A mesma coisa para as mães que se afastam dos seus filhos, eu me coloco dentro do lugar delas, porque estamos no mesmo lugar e dependendo de como você sacode a pessoa ela já dá uma balançada. O grupo Mães pela Diversidade tem sido convidado também por muitas empresas para falar para os seus funcionários, empresas que cada vez mais abrem as portas para a diversidade e querem trabalhar o ambiente. Eu já estive na empresa Dell, na John Deere, em Campinas, são multinacionais. Quando você chega para começar o bate papo com os funcionários, tem gente que chora, tem gente que ignora, tem gente que se afasta. Mas, aos poucos, vamos deixando nossa mensagem. Nós fomos falar também em uma faculdade de pedagogia, muita gente levantou e saiu do auditório, mas quem ficou, nos ouviu e eu observava a expressão das pessoas mudar quando elas começavam a escutar nossas histórias de vida. O grupo Mães pela Diversidade de Campinas ajuda a Casa sem Preconceito, um espaço criado em Campinas para atender mulheres trans em situação de rua. Lá tem muita gente que foi abandonada pelos pais, a família e não tem para onde ir. Eu fico pensando, que nós, como mães, temos que tentar sensibilizar outras mães de alguma maneira. Eu tive uma ideia recente que talvez ajude um pouco essas pessoas. Acho que cada uma das mães do grupo poderia adotar uma mãe que não aceita a identidade de gênero de seus filhos e os expulsou de casa. Minha ideia é procurar essa mãe e intermediar o diálogo entre elas e os filhos. Até em escolas, eu tinha vontade de identificar mães que estão com dificuldade, fazer uma carta de próprio punho e tentar contar minha história para a mãe dizendo: “Eu sou uma mãe também, essa é uma conversa de mãe para mãe, quero te convidar para sentarmos e tomarmos um café”. Daqui para frente quero tentar colocar essas ideias em prática. O Grupo Mães pela Diversidade é lindo, várias pessoas se aproximam. Na parada da diversidade, por exemplo, todas se encontram, se abraçam, se ajudam. O grupo também ajuda pessoas que estão distantes, como no caso da mulher trans que foi expulsa de um banheiro de um shopping em Maceió, no nordeste do Brasil. Rapidamente mães do Brasil todo se manifestaram pelas redes sociais repudiando a postura daqueles seguranças do shopping. Também aconteceu da mãe de uma criança trans de uma cidadezinha pequena no interior do Rio Grande do Sul narrar que estava enfrentando muito preconceito na escola pública que a criança estudava. A mãe contou que a criança, que nasceu biologicamente do sexo masculino, já se identificava com o gênero feminino e escolheu um material escolar da boneca barbie. A professora da criança chamou a mãe na escola e pediu para que ela trocasse o material da 74 criança. A câmara de vereadores da cidade se posicionou contrária a essa mãe e ela foi massacrada nas redes sociais, isso foi durante a noite. Rapidamente, o grupo Mães pela Diversidade do Brasil inteiro entrou na mesma rede social e saiu em defesa da mãe do Rio Grande do Sul. O massacre digital terminou com um show de mensagens de afeto e amor durante a noite e madrugada a fora. Eu acho que o efeito mãe na história muda tudo. Aliás, o slogan do grupo Mães pela Diversidade diz muito do que somos: “Tire o seu preconceito do caminho, que eu quero passar com meu amor”. Ser uma mãe fora do armário é ter interesse em conhecer o seu filho ou filha, é se envolver de verdade com aquela vida, aquela realidade, é não conseguir mais ignorar o que o filho ou filha passa, é ser uma mãe realista. Eu acho que o amor verdadeiro mora na verdade. Eu sou uma mãe feliz, eu não poderia ter passado por essa vida sem aprender tudo isso que eu aprendi. Hoje, o olhar que eu tenho para as pessoas, para os jovens ou para as pessoas com qualquer tipo de diferença, mudou tudo. Quando você desbloqueia o estereótipo, essa caixa que nós criamos, você se torna capaz de abrir todas as caixas da vida, você encara a realidade sem julgar. Essa caixa se chama preconceito, eu era preconceituosa sim, eu não achava que era, mas eu era. Abrir essa caixa é libertador, é enriquecedor, você abre a porta para o aprendizado no geral, é uma oportunidade de viver em comunhão social. Eu vejo como oportunidade, tudo que vivo ao lado do meu filho Juliano. Eu olho com mais carinho para todos os grupos, que antes eu olhava com menos interesse. A mãe que sou hoje transformou totalmente a vida do meu filho. Eu fico imaginando se ele não tivesse esse apoio. Imagine se ele tivesse tido de mim, a mesma reação do pai, que fechou a porta para ele financeiramente e também de diálogo. Como o Juliano estaria hoje? Ele era um jovem de 18 anos, que nunca tinha trabalhado, nasceu numa família com uma boa estrutura financeira e de uma hora para outra se via sem ninguém e sem nada. Se eu tivesse falado: “Então, você não quer ser do jeito que eu quero que você seja? Então acabou, acabou o dinheiro, acabou o diálogo”. O que o meu filho, tão jovem, iria fazer? Onde ele estaria hoje? Poderia estar em risco, além da saúde mental dele ser totalmente abalada. Eu tive um aprendizado de vida que não dá para resumir em tudo que contei aqui, a melhor coisa foi eu ter “curado” o meu preconceito. Eu fui procurar a “cura para o meu filho” e encontrei a minha “cura”. Agora, eu lembrando de tudo... tive vontade de rever fotos do Juliano quando criança e identificá-lo naquela época. Eu queria ver umas fotos e observar o sorriso dele, o abraço, o olhar, talvez me pedindo ajuda… Porque eu não estendi a mão para o meu filho antes? Imagino que ele tenha sentido tanta solidão. Eu me sinto muito privilegiada hoje, porque eu 75 acho que corri um risco muito grande de perder meu filho, mas eu ainda tive tempo de acolher. Ele passou por momentos tão turbulentos e eu perdi, eu perdi esse pedaço dele. Eu queria voltar no tempo e ter feito essa conexão com o Juliano antes. Quando eu olho para as fotos dele desde criança eu sinto “Porque eu pulei isso?”. Mas, ao mesmo tempo, eu fico muito focada em ajudar outras mães a não deixar esse tempo passar vazio. Eu fico... mais compreensiva com as mães que estão sofrendo. Tem muitas que saem do armário e às vezes ao entrar em contato com mães que não conseguem aceitar seus filhos, dizem: “Isso não é amor, isso não é amor de mãe”. Nesse momento, eu tento olhar para mim, eu tinha muito amor pelo Juliano, mas não conseguia administrar naquele momento. Eu vejo que essa mãe que se desespera está sofrendo muito. Resgatar essas memórias, da minha história e do Juliano, me faz olhar pra frente, me faz olhar para outras mães com carinho e dar força a elas. A transfobia ... a homofobia, me despertam um sentimento de raiva, mas para essas mães, eu consigo olhar e dizer: “Tem amor aí dentro, está machucado, está ferido, mas tem amor, vamos destravar isso e vai ficar tudo bem”. Para essas mães eu digo: “Abra a porta do armário, tem tanta coisa a retirar aí de dentro, existem tantas bolhas a serem estouradas, pode ser difícil rompê-las, como também pode ser leve, igual a uma bolinha de sabão, que sai voando depois de anos em que o tubinho estava guardado no armário”. A bolinha de sabão existe para ser livre. Entrevista realizada na casa de Irene, em Campinas, interior de São Paulo, no dia 09/01/2020. 76 6 “MARIA CHIQUINHA” FORA DO ARMÁRIO Renata Meu nome é Renata SUSUMU, pode escrever aí SUSUMU com letra maiúscula, porque o significado desse sobrenome Japonês, representa muito de nossa história, da minha vida e da minha filha Amanda SUSUMU. SUSUMU, quer dizer PROGREDIR na cultura Japonesa. Então, eu já posso começar a te contar sobre uma viagem que fizemos e você vai entender porque esse sobrenome diz tanto sobre nós. Eu tenho 41 anos, a minha filha Amanda tem 9 anos. Em 2019, fizemos nossa primeira viagem internacional juntas, o sonho da Amanda era conhecer a Disney, fomos eu, ela e minha mãe, avó da Amanda. Mas, para minha filha, aquela viagem foi uma fantasia real. No acordo para que a nossa viagem acontecesse eu pedi a ela: “Filha, eu vou realizar o seu sonho, mas nós iremos com uma condição: Você terá que se fantasiar de “Evandro” para passarmos na alfândega”. “Evandro”, é o nome de registro da Amanda, o gênero designado de nascimento dela é masculino, mas hoje, aos 9 anos, seguramente, como mãe, eu digo: “Minha filha se chama Amanda”. O meu medo de passar na alfândega com a Amanda usando “Maria Chiquinha” no cabelo, era porque ela só tinha o RG social, eu fiquei com receio de ser questionada por policiais sobre o fato do RG social estar como Amanda, mas o passaporte levar o nome de “Evandro”. Na ida, Amanda aceitou minha proposta de ir “fantasiada de Evandro”, mas na hora de embarcar ela reclamou de ter que “se fantasiar” e me disse: “Mamãe, já que eu tenho que me fantasiar, eu prefiro ir de Panda”. Eu disse: “Filha, não temos uma fantasia de Panda aqui”. Ela insistiu: “Mas, já que eu tenho que ir fantasiada, eu quero ir de Panda”. Eu repeti que não seria possível. Ela, mesmo contrariada, aceitou, mas acho que por estar empolgada com a viagem, que por sinal foi ótima, nos divertimos muito. Na volta dos Estados Unidos, já estávamos no aeroporto, quando eu me lembrei de que lá, a segurança dos Estados Unidos, confere toda a documentação antes de passar no raio-x. A Amanda estava com duas “Marias Chiquinhas de pompom” no cabelo. Quando descemos do 77 táxi em frente ao aeroporto, eu pedi que ela tirasse a “Maria Chiquinha”. Ela não quis tirar ali. Assim que já estávamos dentro do aeroporto eu pedi para que ela deixasse o cabelo preso para trás só com um elástico, mas ela também não quis. Eu falei: “Então, filha, na hora que estivermos próximo à conferência da documentação, nós arrumamos o seu cabelo para “disfarçar”. Já estávamos quase em frente ao guichê e minha mãe, preocupada, foi puxando devagarzinho a “Maria Chiquinha” e falando suavemente para a Amandinha, que aquela, seria a hora soltar o cabelo. Quando a Amanda sentiu seu cabelo sem “Maria Chiquinha” começou a chorar sentida, um choro doído. Na hora, ela disse que minha mãe tinha puxado forte, mas não me parecia ser esse o real motivo das lágrimas. O policial, ao ver “o Evandro” chorando, deu um adesivo com o distintivo de policial americano pra “ele” parar de chorar e nós seguimos para embarcar. Chegamos ao Brasil. Assim que deixei minha mãe em casa e fiquei sozinha com a Amanda, perguntei a ela porque ela chorou tanto na alfândega. Ela me disse: “Eu fiquei triste mãe”. Eu perguntei: “Por quê , filha? Ela falou: “Fiquei triste de ter que tirar a “Maria Chiquinha” do cabelo”. E me perguntou: “Mãe, quando eu vou poder ter uma vida normal? Eu falei: “Filha, você tem uma vida normal, mas você tem que entender que você tem uma vida normal de criança transexual”. Eu disse ainda: “Lá na alfândega, eu não queria tirar sua “Maria Chiquinha”, mas seria muito mais difícil se o policial começasse a fazer várias perguntas para eu provar que você era o “Evandro”, você me entende? Eu não queria ter esse transtorno, você entende?”. Ela disse: “Eu entendo, mamãe”. Mas, bem no fundo de mim, eu me arrependi. Eu deveria ter deixado minha filha com “a Maria Chiquinha” no cabelo para ver como o pessoal da alfândega iria lidar com aquela situação. O meu medo era que os Estados Unidos nesse momento estão tirando várias políticas de acolhimento que existiam para as pessoas transexuais. Tive medo! Cada dia é um desafio. Mas, acho que já caminhamos bastante, desde o início do percurso. Aos 2 anos e 8 meses “o Evandro” começou a falar que “ele” era errado, que o corpo “dele” estava errado. Com 3 anos “ele” começou a falar que queria cortar o “pipi”. Eu flagrei “o Evandro” com uma tesourinha infantil nas mãos, puxando o “pipi”, “Ele” olhou para mim e falou: “Tá errado mãe, eu vou cortar”. Eu entrei em pânico, levei um susto enorme, tirei a tesoura das mãos “dele” e disse: “Pelo amor de Deus, ‘ filho’ , isso vai te machucar, vai sangrar, vai doer”. Eu corri para a internet e pesquisei digitando a frase: “Criança que quer cortar o pipi”. Nas primeiras informações que apareceram constavam questões de transexualidade. Ainda era confuso para mim, porque apareciam essas questões, mas ao mesmo 78 tempo apareciam informações de crianças que diziam isso, mas não tinha a ver com a transexualidade. Eu resolvi observar “o Evandro” mais um pouco. A cada banho que eu dava no “Evandro”, “ele” voltava a repetir a frase: “Quero cortar o ‘ pipi’”. Eu tentava dizer para “ele” que aquilo que ele estava me falando doía, que não podia cortar, que o “pipi” era bonito. Eu conversei com o pai “do Evandro”, meu ex-marido, sobre a questão, pedi para ele também ler sobre o assunto, se informar, mas o pai do Evandro levava com mais tranquilidade que eu. Eu tentava negar um pouco aquela informação. Com o tempo, a frequência da frase: “Quero cortar o ‘ pipi’” foi diminuindo, até que “ele” parou de dizer. “O Evandro” sempre quis brincar de boneca, brincadeiras que a sociedade diz ser de meninas. “Ele” também gostava de pegar as minhas coisas, sapatos, maquiagens, roupas, mas eu dava um jeito de desviar a atenção “dele”, de tirar as minhas coisas “dele”. Eu tenho uma irmã mais nova, ela ama a Amanda. Minha irmã sempre deixou “o Evandro” brincar da forma que “ele” quisesse. Quando “o Evandro tinha 3 anos “ele” pediu para minha irmã comprar um vestido de princesa para “ele”. A minha irmã, não só comprou o vestido, como também a coroa e a sapatilha. “O Evandro” ficou muito feliz, “ele” queria ficar “vestido” de princesa o tempo todo. Mas eu relutava, deixava “ele” brincar um pouquinho e logo tirava o vestido e os acessórios “dele”, escondia tudo. Eu não queria, eu não estava aceitando aquela vontade “dele”. Para mim, tinha o medo do que os outros iriam pensar, falar e também de como eu sairia na rua com “ele vestido” de menina. Por diversas vezes eu conversava com o pai “do Evandro” sobre as vontades de “nosso filho” de se vestir de menina, de gostar de brincar de boneca, mas o pai deixava “ele” sambar com meu salto alto. Para ele, estava tudo bem, era só uma fase “do Evandro” de criança, “ele” dizia que “o Evandro” estava só brincando, ele não ligava que “ele” preferisse aquelas brincadeiras. O pai “dele” só não queria comprar os brinquedos de menina, mas não ligava que “ele” gostasse. Eu me lembro de uma vez que “o Evandro” estava muito doente e queria uma boneca, desta vez o pai foi à loja e comprou pra “ele”. Eu sempre cobrava muito dele, eu dizia que ele precisava brincar com “o filho”, precisava mostrar o mundo masculino para “o Evandro”. “Ele” me ajudava muito, dava banho “no Evandro”, comida, participava de todos os cuidados, mas eu acabava culpando “ele” de não ter essa presença nas brincadeiras. Eu achava que o pai brincando mais com “ele” de jogar bola, carrinho, que desta forma “o Evandro” pudesse mudar o interesse pelo universo feminino. Hoje, nós moramos em Campinas, mas quando “o Evandro” ainda estava na pré-escola, nós morávamos em Hortolândia, cidade que fica 20 minutos de Campinas. Lá, “o Evandro” 79 estudava numa Escola Adventista. A professora da pré-escola nunca questionou o fato “do Evandro” gostar mais de brincadeiras de meninas. Quando “o Evandro” completou 5 anos, eu me divorciei do pai “dele”. Mas, a separação nada teve a ver com essa questão de gênero, chegou ao fim o casamento mesmo. Quando nos separamos, decidimos levar “o Evandro” em uma psicóloga para evitar traumas “do nosso filho” na mudança de rotina da casa por causa do divórcio. Mas a psicóloga acabou nos trazendo mais as questões de gênero, fortemente presentes “no Evandro”, do que o próprio divórcio. Ainda assim, a psicóloga dizia ser muito cedo para lidar com isso, ela disse que “o Evandro” era muito “novinho” ainda e que teríamos que esperar um pouco mais. A separação não afetou a saúde mental de “nosso filho”, “ele” encarou bem, é apegado a mim e ao pai também. Tem carinho das duas partes. Quando “o Evandro” foi para o primeiro ano do ensino fundamental “ele” já começou a ser mais excluído do grupo, mudou de sala, horário, as crianças não aceitavam muito o jeito “dele”. “Ele” se aproximou bastante da professora e tinha só uma amiguinha que se relacionava bem com “ele”. Eu achava um pouco estranho esse problema de relacionamento com os outros alunos, porque “ele” sempre foi uma criança muito comunicativa, mas tinha dificuldade de fazer amizades com crianças. Naquela época eu não entendia o motivo. No segundo ano, “o Evandro” teve uma professora que perdia um pouco o controle da sala e “o Evandro” passou a sofrer bullying. A professora percebia a atitude dos outros alunos e me informava. Os meninos chamavam “o Evandro” de menininha, falavam que “ele” era “estranho”, “esquisito”, que era “nojento”. A escola tentava ser acolhedora diante daquela situação, fazia trabalhos para tentar mostrar as diferenças e acolher. Nas atividades pedagógicas tentavam trabalhar o brincar, falavam que existem muitos tipos de brincadeiras e que ambas são para meninas e meninos, falava que meninos podem chorar, podem brincar de fazer comidinha igualzinho as meninas. Mas a escola também me falava: “Mãe, tem uma questão cultural que nós não podemos negar, a escola sozinha não consegue fazer tudo, tem coisas que vem da educação, vem de casa e por mais que a gente tente, tem coisas que nos deixa limitados, porque nós não conseguimos estar 100% do tempo ao lado ‘ do Evandro’ para evitar o bullying, por mais que cercamos, tentamos controlar, em algum momento, o bullying pode fugir aos nossos olhos”. Levei “o Evandro” na psicóloga novamente e “ele” voltou a fazer acompanhamento para trabalhar essa questão do bullying. No terceiro ano do ensino fundamental, “o Evandro” começou a questionar a metodologia da escola, porque no início “ele” não queria trocar de escola, nem de sala, mesmo 80 com bullying. Os dias se passavam e a situação piorava, “ele” começou a sofrer bullying físico, empurravam “ele” da escada. Ficou muito complicado. Quando eu ia buscar “o Evandro” na escola na sexta-feira “ele” já começava a chorar, porque tinha que voltar à escola na segunda. Eu sempre conversava muito com “meu filho”, porque eu não queria tomar uma atitude abrupta, do tipo: “Você vai mudar de sala querendo ou não”. Eu queria tomar decisões coordenadas com “ele”. Conforme eu conversava com “o Evandro”, “ele” começava a falar sobre o conteúdo das aulas, dizia que não gostava de decorar e também achava que naquela escola tinham muitas provas. Eu falei para “ele”, que existiam metodologias, formas de ensinar diferentes, que cada escola tem a sua forma de ensinar. A partir daquele momento, “ele” começou a se interessar em conhecer outras escolas. Visitamos muitas escolas em Hortolândia, mas eu estava achando todas muito tradicionais. Comecei a conhecer as escolas de Campinas e encontrei um escola que tem uma metodologia de ensino não convencional. Lá, as crianças têm muito contato com a natureza, trabalham muito as questões ambientais e de respeito. Já que “o Evandro” estudava em período integral, eu achei ótimo esse ambiente aberto, de atividades ao ar livre. Nós mudamos para Campinas e no terceiro ano “o Evandro” foi estudar nessa escola. Na nova escola, eu conversei com a professora e coordenação sobre o interesse que “o Evandro” tinha pelas coisas de menina, o bullying que vinha sofrendo na outra escola. Mas, nessa época eu ainda não havia entendido “o Evandro” como uma criança transexual. Então, preferi evitar falar sobre essa possibilidade na escola. “Ele” foi muito bem acolhido na escola, se integrou muito rápido com os colegas de turma, já que a escola faz um trabalho muito forte de inclusão. Na sala, os alunos autistas são muito acolhidos pelos outros estudantes. “O Evandro” fez novas amizades na nova escola. Nas atividades dessa escola “o Evandro” sempre apresentava personagens femininos, “ele” sempre desenhou muito bem e sempre criou histórias em quadrinhos, todas as histórias destacavam “ele” como a personagem feminina. As apresentações na escola também eram com essas personagens. O nome “do Evandro” feminino era Magali, nas histórias que “ele” criava suas personagens eram cômicas também, com muitas encenações e performances. Talvez tenha sido o caminho “do Evandro” expressar o feminino. Os professores sempre narravam para mim a dificuldade de trazer “o Evandro” para a realidade, “ele” passava boa parte do tempo querendo ocupar o universo imaginário, estava sempre no lúdico, nas brincadeiras. A Amanda é uma criança muito inteligente, não gosta nem de fazer conta no papel, gosta de resolver tudo de cabeça, então, os professores e eu precisamos sempre trabalhar com ela 81 questões pedagógicas, trazer informação pra ela, de que tanto meninas, quanto meninos tem que estudar da mesma forma e que toda a criança tem responsabilidades também. Aos 6 anos, a vida “do Evandro ” passou a ser de brincar durante o dia de representar o feminino e à noite, “ele” tinha crises de choro dormindo, crises fortes, horríveis, chorava muito. Eu estudo uma técnica e faço a terapia que se chama Body Talk, que é o estudo da linguagem do corpo para buscar equilíbrio natural, é uma técnica que passa muito pela observação. Então, eu pedi para a terapeuta de Body Talk trabalhar essa técnica com “o Evandro”. Todas as vezes que “ele” ia para atendimento, a terapeuta percebia muito a dualidade de aceitação do corpo. Com duas sessões de terapia “o Evandro” parou de ter as crises de choro noturnas. Em muitos momentos em que estávamos só eu e “Evandro”, ele me falava: “Mãe, minha vida não faz sentido, eu não posso ser eu, eu não posso gostar do que eu gosto, não posso vestir o que eu quero”. Esses questionamentos sempre apareciam. Um dia, “Evandro” passou a questionar Deus. Como “ele” havia estudado muito tempo em escola adventista, teve muito contato com estudos bíblicos. Em uma noite, “Evandro” me disse algo bem forte: “Mãe, se Deus existisse, ele não teria me feito errado e todas as vezes que eu rezasse a noite para ser menina, no dia seguinte eu iria acordar menina, mas Deus não está consertando isso em mim, mãe”. Os dilemas de gênero “do Evandro” impactavam diretamente a expressão “dele” na sala de aula. As professoras me diziam que no dia que “ele” estava bem, se sentindo confortável, se expressava de uma maneira, no dia que estava se sentindo “angustiado”, ficava mais “disperso”, parecendo viajar para outro mundo, que não era aquele que “ele” vivia e eu ainda não conseguia agir naquela dor, porque sei que era uma dor. No começo do ano de 2019, “o Evandro” estava muito abalado emocionalmente, uma frustração simples que ele vivia no dia, já o fazia chorar por horas e logo vinham novamente os questionamentos a Deus com relação ao corpo. Eu estava angustiada como mãe, em ver “o Evandro” sofrer daquele jeito aos 8 anos de idade. Foi quando uni todas as minhas forças e tomei uma decisão, baseada em muita informação que eu já tinha buscado. Eu não podia mais negar a identidade “do Evandro”. Numa tarde de domingo, em mais uma das crises de choro, eu e “Evandro” sentamos para conversar. Eu olhei pra “ele” e disse: “Olha eu não posso mudar seu corpo, eu não consigo, mas você pode sim viver como mulher, inclusive muitas pessoas vivem assim. O que eu posso fazer, se você quiser, é comprar roupas de mulher para você e a partir daí você passa 82 a se vestir como você quiser”. “Ele” parou de chorar na hora e me disse: “É verdade, mãe?”. Eu falei: “É verdade, ‘filho’”. No dia seguinte, combinamos de ir ao Shopping depois da aula, para comprarmos roupas. Após deixar “o Evandro” na escola, fui até a diretoria e conversei com a Diretora: “Olha, eu sei que é uma novidade para vocês, para mim também é, mas precisamos atuar juntos, escola e família. ‘ O Evandro’ está trazendo cada vez mais forte essa questão do gênero, não se sente feliz mais em usar roupas de ‘ menino’ . Quero comunicar que a partir de amanhã pode ser que ‘ ele’ já” apareça ‘ vestido’ de menina”. Nesta escola não há exigência de uniforme, eu acho ótimo. É um espaço que é cedido para a criança desenvolver a própria identidade . A maioria das escolas obriga o uso de uniforme, eu acho errado, porque você coloca as crianças em um quadrado. Eu penso que as crianças já tem que seguir tantos padrões impostos… Eu acho que o uniforme escolar é uma das restrições de desenvolvimento pessoal da criança, de se descobrir, se entender como pessoa. Quando você obriga a criança a usar uniforme, você tira a possibilidade dela de se entender: Quem eu sou? O que eu gosto? Como eu me sinto? A Amanda hoje, tem dia que vai toda descabelada, tem dia que vai uma boneca para a escola. É o espaço que os alunos têm para exercitar a expressão. Quando eu comuniquei a diretora da escola sobre a possibilidade de vestimenta do “Evandro” no dia seguinte, ela disse: “Tudo bem, mais para frente a gente lida com essa situação, vamos ver o que acontece”. Eu acho que a diretora pensou que aquela seria apenas uma fase, uma experiência, que iria passar. Após a aula, fomos ao shopping e foi a experiência mais diferente que já vivi. “O Evandro”, em outras idas ao shopping para escolher uma roupa e outra, nunca queria experimentar nada, não era confortável para “ele”, não queria nada, entrava com o rosto fechado, triste e saía do shopping com a mesma expressão. Na grande maioria das vezes as roupas “do Evandro” eram compradas por mim, minha mãe ou minha irmã. Quando pedíamos para “ele” experimentar, era sempre uma briga. Naquela noite de segunda-feira, “Evandro” entrou no shopping e só queria olhar vestidos, experimentou muitos, compramos 3. No primeiro dia que “Evandro” pisou na escola de vestido, “ele” não queria mais usar o banheiro masculino e sem comunicar ninguém, simplesmente passou a usar o banheiro feminino. Iniciei uma batalha com a escola. Foi tudo tão rápido e natural, que no dia seguinte, as crianças da escola já fizeram uma enquete para escolher o nome social “do Evandro”. “Ele” gostava muito do nome Magali, mas as crianças disseram que esse era o nome de uma personagem de comédia. Apesar de surgirem vários nomes na enquete organizada pelos alunos, 83 no fim das contas a escolha foi “do próprio Evandro”, que a partir daquele dia, passava a se chamar Amanda Susumu. Entende agora, porque esse sobrenome Japonês, que significa Progredir, representa tanto a história da Amanda? Ela mesma ditou o curso da história dela, desde muito pequenininha lutou para que sua identidade fosse respeitada.... e estamos só no começo desta luta. Quando as crianças da escola passaram a levar para casa a informação da identidade da Amanda, tivemos problemas. Uma vez, tirei fotos das roupas de menina que a Amanda tinha escolhido e mandei para as minhas irmãs. Eu escrevi na mensagem, junto com as fotos: “Fiz um enxoval novo”. A Amanda viu as fotos no meu celular e na felicidade e inocência de criança enviou todas as imagens para o grupo de pais da escola, sem eu ver. Alguns minutos depois, fui usar o celular e vi que estavam chegando mensagens de pais, vi o envio. Eu perguntei para a Amanda porque ela havia feito isso, ela me disse: “Mãe, eu quero mostrar para todo mundo quem eu sou, agora tenho roupas que eu gosto, agora posso me vestir como eu quero”. O movimento da Amanda era de felicidade, de alegria extrema, como se quisesse que o mundo todo soubesse quem ela era. Após aquela mensagem, uma das mães que estavam no grupo da escola, me enviou uma mensagem, que eu considero muito corajosa, ela disse: “Isso que está acontecendo é um absurdo. Os pais não podem incentivar as crianças a se vestirem assim , ‘ o Evandro’ é só uma criança, ‘ ele’ ainda não sabe distinguir essas questões, você teria que ditar a conduta ‘ dele’ . Eu também quero manifestar que eu não admito que a escola abra o banheiro para as pessoas trans. Não estou falando isso pelo fato ‘ do Evandro’ usar, porque ‘ ele’ ainda é muito ‘ novinho’ mas meu medo, como mãe, é que amanhã, alunos adolescentes também comecem a usar o banheiro feminino. Eu não quero colocar em risco a segurança da minha filha”. Na hora que li aquela mensagem, pensei bem, tentei manter a calma e acreditei que tudo aquilo havia sido falado por alguém que não conhece uma pessoa trans. Pelo tom da mensagem, a mãe estaria confundindo a transexualidade com um distúrbio. Então, naquele momento, apenas decidi agradecer pela coragem da manifestação dela e o espaço para que eu pudesse contar a história da Amanda. Escrevi um texto ao grupo de pais esclarecendo que a Amanda trouxe a questão da transexualidade a mim aos 2 anos e 8 meses de vida. Eu disse que para mim, foi muito difícil aceitar, contei que escondia brinquedos, que eu relutava muito, mas que realmente havia chegado a hora de eu escolher entre a vida e felicidade da minha filha ou deixar que ela desenvolva uma depressão, com alto risco de suicídio. Expliquei que Amanda vinha apresentando falas suicidas, de descontentamento com relação a identidade, com a vida, falas 84 de questionamento sobre Deus. Me senti muito bem ao relatar para os pais a história da Amanda, mas também estava consciente de que a luta na escola não terminaria ali. Nas semanas seguintes, alguns pais procuraram a escola para reclamar sobre a questão do banheiro. A diretora da escola me ligou e falou que estava difícil administrar aquela situação e que tinha muitos pais indo procurá-la para se manifestarem contra a Amanda usar o banheiro feminino. Minha resposta à diretora foi: “Olha, eu sugiro que a escola libere ao menos o banheiro das professoras para a minha filha usar”. Eu enviei para a diretora toda a legislação que falava sobre o assunto e informei que isso poderia causar um impacto muito grande na vida da Amanda. Eu disse ainda que não é porque os outros pais não estavam conseguindo lidar com a situação, que a minha filha iria voltar a usar o banheiro masculino. Eu pedi para que a escola, então, apresentasse alguma solução. No primeiro momento, a diretora me disse que a Amanda não poderia usar o banheiro das professoras de jeito nenhum, porque a escola nunca abriu exceção para nenhuma aluna. Eu deixei que a escola pensasse sobre a questão, mas com a condição de que eu não aceitaria que minha filha voltasse a usar o banheiro masculino. Dias depois, o dono da escola, veio conversar comigo, me questionou muito sobre essa questão do uso do banheiro, ele dizia: “Mas, ‘ ele’ é um ‘ moleque’, usa vestido, mas é um ‘ moleque’ , continua fazendo as coisas de ‘ moleque’”. Ele falou isso primeiro para o pai da Amanda e depois para mim.... Até respiro fundo pra pensar sobre isso... sei que essa manifestação é de pura falta de conhecimento.... Depois da minha conversa com a diretora da escola, ela me ligou e disse ao telefone que após uma reunião, a escola entendeu que realmente não era possível a Amanda voltar a usar o banheiro masculino e que ela poderia usar o banheiro das professoras. A Amanda concordou e temporariamente, foi um problema a menos. A partir daquela nossa primeira ida ao shopping para comprar roupas femininas, Amanda nunca mais quis usar uma roupa que não fosse vestido ou saia. Aos poucos, tive que trocar todo o guarda roupa “do Evandro”. O pai ainda insistiu por um tempo, colocava roupa masculina, algumas roupas antigas “do Evandro”, quando a Amanda ia passar o fim de semana na casa dele. Mas, eu conversei com ele, disse que isso não seria possível mais, porque fazia a Amanda sofrer. Com o tempo, ele percebeu esse sofrimento e deixou a Amanda livre para usar a roupa que quisesse. No terceiro dia que a Amanda estava usando vestido e cueca, eu parei em um supermercado depois de buscá-la na escola e na parte de trás tinha um banquinho de terra, do jeito que ela desceu do carro, ela foi escalar a terra, eu olhei aquilo e dei risada... falei para mim mesma: “De vestido ou não, é a mesma criança ali, o extinto da infância é o mesmo”. Eu 85 olhei aquela “menina/menino”, de vestido, de cueca e eu falei: “É a mesma pessoa”. Difícil mesmo é que as pessoas tenham o mesmo olhar. A sociedade acha que fazer a transição é virar uma chave, mas esquece da essência da pessoa. Um dia fui levar a Amanda ao dentista após a aula, antes da transição, o dentista, via a imagem de um “menino” chegando todo sujo ao consultório depois da aula, estava tudo bem naquele caso para o dentista. Na segunda vez que eu levei a Amanda ao dentista, só que usando vestido, o dentista fez um escândalo dizendo que ela estava sujando o consultório dele. Eu olhei pra ele e perguntei se ele queria que fôssemos embora. Ele percebeu que havia passado dos limites e parou de falar, mas já era tarde eu me virei, chamei a minha filha e fomos embora. Percebi que a Amanda tinha acabado de viver naquele consultório o primeiro ataque de transfobia. Nesse caso, eu avalio que entra a questão do quadrado social: Já que você migrou de menino para menina, você tem que se comportar como menina. Entra em cena uma segunda pressão: Enquanto ela era menor, a sociedade aceitava algumas coisas, agora que ela começa a crescer e entrar na pré-adolescência, ela “deve entrar” em algumas caixas. A psicóloga conversa muito com a Amanda sobre as questões que ditam o gênero. Ela explica, de forma lúdica, o quanto ela terá que lutar, fala das diferenças de gênero, fala que a mulher tem várias exigências no mundo, exige-se que a mulher se cuide mais, que se comporte mais e que existem coisas que a sociedade aceita para os homens e não aceita para as mulheres. É uma forma de preparar minha filha a ser forte e resistir. Eu entendo que não temos que nos enquadrar a isso, mas o preconceito tem que ser discutido todos os dias, ela precisa saber dos julgamentos, sentir menos exclusão, ou você se adequa ou se fortalece para ser mulher de saia que senta de pernas abertas sem se preocupar. O quanto de impacto um indivíduo pode ter por estar fora do padrão social, do que se espera que você seja, é muito grande. Então, o que é possível fazer para que ela sofra menos, tentamos ajudar, trazemos a Amanda para a realidade: “Olha Amandinha, agora você é menina, então você vai ter que sentar de pernas fechadas”. Em 2019, tiramos o documento de identidade social da Amanda. Naquele ano, a rematrícula da escola já foi feita com o novo documento, o novo nome. Fiz um requerimento para que os trabalhos da minha filha, expostos na escola, fossem apresentados como Amanda. Também solicitei que a Amanda pudesse voltar a usar o banheiro das crianças, o banheiro feminino. Depois de uma visita da psicóloga da Amanda à escola, o colégio aceitou o meu pedido. A luta na escola foi grande. Lá tem dois senhores que trabalham auxiliando na inspetoria dos alunos, um deles é evangélico e ele estava com muita dificuldade de chamar a Amanda pelo nome social. O mesmo aconteceu com uma professora, a Amanda chegava em casa reclamando 86 que ela continuava a chamá-la de “Evandro”. Um dia, cheguei à escola e brinquei com o inspetor: “O senhor viu como a Amanda está bonita? Pode chamá-la de Amanda, ela está usando vestido. Falei o mesmo para a professora que insistia em chamar de “Evandro”. Os dois foram reclamar para a diretora, disseram que se sentiram pressionados, que eu não deveria falar direto com eles. A diretora me chamou para conversar e eu recuei dizendo: “Olha, eu realmente errei, deveria ter vindo aqui fazer uma reclamação formal com você pela inadequação de seus funcionários. Peço desculpas por ter dirigido a palavra a eles, mas peço que você passe as orientações, porque eles estão com dificuldade”. Depois disso, a diretora teve uma conversa com os funcionários e eles passaram a chamar minha filha de Amanda. Um dia, a diretora me pediu para eu evitar publicar informações sobre transexualidade no grupo de pais, porque estava gerando muito conflito. Eu me incomodei bastante na época. Penso que da mesma forma que a mãe de uma criança autista envia textos sobre autismo, para ampliar o conhecimento de outras mães sobre o tema e para que as mães também possam conversar com seus filhos, eu acho pertinente orientar os pais de crianças que estudam com a minha filha sobre as questões de gênero. No final do ano de 2019, a escola fez uma apresentação aberta ao público e as crianças podiam escolher suas vestimentas. É claro que a Amanda escolheu ir de saia. Outros dois meninos foram de saia também, assim como algumas meninas foram de calça. No dia da apresentação, a Amanda pegou uma bolsa de maquiagem minha em casa e começou a se maquiar, quando vi, até uns cílios postiços que eu nunca tinha usado, ela colocou. Eu permiti que ela fosse à apresentação da forma que ela escolheu. Quando chegamos à escola, a Amanda estava com vergonha de descer do carro maquiada, então ela pegou uma toalha e cobriu o rosto, porque não sabia se seria aceita pelos colegas ao chegar maquiada. Na hora que a assistente da escola veio falar com ela, eu disse: “Olha, a Amandinha veio bem preparada para a apresentação, ela resolveu fazer uma maquiagem. A assistente logo percebeu o desconforto da minha filha em entrar na escola e falou bem naturalmente: “Deixa eu ver sua maquiagem Amanda, que linda você está, parabéns por essa ideia, seus amiguinhos vão adorar”. Ela foi acolhida, ficou à vontade, tirou a toalha do rosto e fez a apresentação. Os pais de alunos viram a apresentação e não disseram nada, acho que encararam como uma brincadeira de criança. Sim, na escola, naquele dia era uma brincadeira, mas a expressão que a Amanda traz naquelas representações é realidade, é como ela se vê, isso eu também enfrentei na minha família. As avós da Amanda, materna e paterna, davam total liberdade para “o Evandro” se expressar como menina, desde “pequeno”, mas na transição tivemos problemas. A avó paterna não aceita a transexualidade até hoje e continua a chamar minha filha de “Evandro”. 87 Minha mãe teve muita dificuldade, queria que eu levasse a Amanda para fazer tratamento de regressão. Chegou uma hora que eu fui enfática: “Mãe, eu entendo sua dificuldade em entender, estou aqui para te ajudar com qualquer informação, mas eu apenas te peço que você respeite a sua neta e não faça ela sofrer. Não fale esse tipo de coisa de tratamento para ela, minha filha não precisa de nenhum tipo de tratamento, ela não está doente, ela está bem, está feliz”. A partir desse dia, minha mãe nunca mais tocou no assunto. Eu cresci em contato com muitas religiões, a minha família materna é extremamente católica, só que a minha avó tinha mediunidade, então nós sabíamos muito do espiritismo por conta da mediunidade dela, apesar dela não aceitar. Eu tenho uma tia, que também tem bastante mediunidade, então em nossa família sempre teve uma divisão entre o catolicismo e o espiritismo. Já a minha família paterna é budista. Quando a Amanda fez a transição, os meus avós já tinham morrido, mas ela tem uma memória muito forte deles, porque quando era pequena, meus avós eram muito presentes. Só não deu tempo de vivenciarmos a experiência da diversidade com eles, nem com os avós Brasileiros nem com os Japoneses. Meu pai nasceu no Brasil, os pais dele nasceram no Japão, com 18 anos vieram para o Brasil. O pai da Amanda é católico e sofreu muito com a transição da Amandinha. Ele sofreu bastante com o divórcio também, porque na igreja católica tem aquela questão de que casou-se, não pode mais separar-se. Mas, com o tempo, ele superou o fim da relação e também a questão do gênero da Amanda. Acho que para superar a transição da Amandinha ele colocou o amor em primeiro lugar. Ele me disse um dia: “Eu amo muito a minha filha e quero que ela seja feliz, então eu vou me trabalhar para aprender a lidar com essa questão”. Demorou uns 3 meses pra ele conseguir chamá-la de Amanda, mas ele conseguiu. Eu comecei a mandar roupa de menina, quando ela ficava com ele, aos poucos ele começou a deixar que ela usasse o que queria. Hoje, a relação de pai e filha é ótima. Quando eu era criança, não tive contato com pessoas LGBTs em meu círculo familiar ou de amigos. Aos 17 anos, eu conheci o meu melhor amigo, ele é gay, um homem alto, bonito. Por meio dele, eu passei a ter contato pela primeira vez com o universo LGBT, ele tem muitos amigos gays também. Eu observo que na comunidade LGBT também tem muito preconceito, a pessoa trans sofre preconceito duas vezes, tanto com as pessoas cisgêneros e heterossexuais quanto com os gays, porque antes de eu sair do armário e assumir que eu tenho uma filha trans, eu percebia o quanto o grupo de amigos desse meu amigo era transfóbico. É muito forte o preconceito. Hoje, esse grupo acolheu muito a Amanda, eles são orgulhosos da história dela. A Amanda fica muito feliz quando vê um casal de homens ou mulheres. Toda vez que passamos por um casal ela comenta: “Olha mãe, você viu”? Eu falo: “Vi, filha”, Ela fala: “Tá 88 tudo bem com eles, tá vendo? Algumas vezes eu peço para ela parar de olhar tanto e ela esclarece: “Mãe, eu tô olhando porque é da minha bandeira”. Ela está trabalhando essa questão na cabeça dela, que tudo bem gostar de menino ou de menina. A Amandinha ainda não expressa interesses de relacionamentos sentimentais. Ela gosta de dizer que namora com o vento e que vai se casar com o vento. Um dia ela me disse que não sabia ainda se ia querer namorar um menino ou uma menina, mas antes, veio com a fala: “Mãe, eu não sei se um dia alguém vai querer namorar comigo”. Eu falei para ela: “Claro que vai filha, você é uma pessoa incrível, maravilhosa, só precisa ter um relacionamento que seja bom, que você esteja feliz, goste da pessoa, que a pessoa goste de você, que você fique bem com essa pessoa, isso é o que importa”. Ela falou: “Mãe, mas eu não sei se eu vou namorar menino ou menina”. Eu disse: “Filha, você não precisa se preocupar com isso agora, você é criança ainda, na hora certa você vai saber”. A Amanda tem amigas e amigos, gosta de todos, sem distinção. Eu conversei com a Amandinha um dia e perguntei: “Filha, qual a parte do seu corpo você mais gosta?”. Ela disse: “Eu gosto do meu cabelo”. Eu falei: “E qual a parte você menos gosta?”. Ela falou: “Eu não gosto do pipi”. Eu perguntei por que é ela disse: “Porque é a única parte do meu corpo que eu não posso ser menina”. Eu falei pra ela: “Amanda, mas você vê as mulheres e homens na rua mostrando as partes íntimas?”. Ela falou: “Não”. Eu disse: “Então, filha, para ser mulher, não importa, tem mulher com pipi também, isso não tem diferença nenhuma. Temos que cuidar do nosso corpo, só isso”. Eu entendo que a questão do gênero e da sexualidade são coisas diferentes. Eu converso muito com a Amanda, mas por enquanto, não deixo que ela busque informações na internet, porque tem muita coisa imprópria para a idade dela. Eu controlo o acesso em casa, até ela sair da infância. A questão da hormonização é o que mais me preocupa, porque hoje minha filha é uma criança, mesmo que ande vestida de menina, ninguém reconhece muito, ela está na fase que chama de androide, quando não é possível identificar detalhes. Mas, eu sei que quando ela entrar na adolescência alguns traços virão à tona e que o ideal é que ela passe pela puberdade para ter a maturação dos órgãos e depois inicie o processo de tomar hormônio. Para isso, entendo que a Amanda terá que estar muito fortalecida, porque ela vai se descaracterizar muito do feminino na fase da adolescência, é uma fase que temos muitos questionamentos. No final de 2019, eu conversei muito com a psicóloga sobre a questão do desenvolvimento do organismo, da maturação endócrina, principalmente do rim, falei para ela sobre a minha preocupação. Eu sei que a maturação não tem tempo certo, vai de criança para criança. A psicóloga também conversou comigo sobre a questão da menstruação quando a Amanda fez a transição e me alertou que esse poderia ser um luto a ser vivido por ela. Logo 89 que ela passou a se vestir de menina, o primeiro questionamento que ela me fez foi sobre a menstruação, aí conversamos abertamente sobre isso e ela mesma chegou à conclusão que se ela quisesse, colocaria um absorvente pintado de vermelho e estaria tudo certo. Eu falei para ela que não há problema algum, que vamos buscando a solução para tudo. Eu também pedi à psicóloga para trabalharmos bastante o empoderamento da Amanda, para que ela conseguisse resistir a adolescência sem o bloqueio hormonal e entrarmos com esse processo depois que os órgãos já estiverem maturados. No caso dela, que nasceu biologicamente do sexo masculino, o período é observado pela maturação do corpo, do testículo, existem várias fases de desenvolvimento do testículo e do pênis, que vão sendo monitoradas com exames físicos para analisar o tamanho da glândula. Ela está bem acolhida por uma médica pediatra endocrinologista, que atende no ambulatório de transgêneros da Unicamp – Universidade de Campinas. Os exames físicos mexem um pouco com o emocional dela, percebi que ela não se sente confortável. Eu acho que existe um tabu muito grande em relação aos órgãos genitais. Ela deve começar a tomar hormônio por volta dos 17 anos, mas o bloqueio hormonal é antes. Se fizesse o bloqueio hormonal no começo, o pênis iria parar de se desenvolver, isso, de acordo com os médicos, pode provocar a atrofia. Por isso, eu estou bem atenta a todas as informações e orientações dos médicos. Além das questões do corpo, eu estou atenta a tudo que se passa na vida da minha filha. Isso é ser uma mãe fora do armário. Quando você abre a porta dele, você não muda só a sua vida, você muda a vida da sua filha ou filho. Sair do armário me deixou atenta aos sentimentos da Amanda, nossos filhos nos dão sinais, às vezes tão sutis. Na alfândega, quando minha mãe tirou a “Maria Chiquinha” do cabelo da Amandinha e ela começou a chorar dizendo que doeu, a dor estava dentro dela. Mas, eu poderia ter só interpretado que doeu na hora de tirar o elástico e não encarar a realidade. Aquela dor era muito maior para a minha filha. Tirar aquela “Maria Chiquinha” do cabelo era negar a existência dela, mas ela não sabia me dizer naquele momento, minha missão de mãe era tentar entender, para não gerar mais dores. Os cuidados emocionais de mãe, todas devem ter, mas como uma mãe de trans, nós temos que estar muito mais atentas para o sutil, o que não é explícito, porque isso pode trazer transtornos muito mais sérios para os filhos. Trabalhar a questão emocional da criança acaba sendo o mais exigido de nós, essa é uma grande preocupação para mim. Uma responsabilidade que eu carrego também é de não esconder a realidade da minha filha, todos os espaços que eu tenho, eu falo que sou mãe de uma criança transgênero, eu tenho a obrigação de falar para que a informação chegue para as pessoas. Eu falo sempre para a minha filha que nós temos que conversar sobre esse assunto com as pessoas, porque se nós não 90 falarmos, isso fica escondido e as pessoas ficam sem saber que existe. Para ser normal, tem que ser comum na vida das pessoas, elas precisam ouvir falar e, então, vai chegar uma hora que ninguém mais vai se importar, eu tenho essa esperança, por isso cumpro com a responsabilidade em dizer. Eu trabalho na área de compras de uma grande indústria, todos os contatos que faço no mundo corporativo, executivo, quando encontro um espacinho, eu digo que tenho uma filha trans, falo de uma forma muito natural. Todas as pessoas que convivem comigo sabem. No início, muitas delas me questionaram: “Que absurdo, sua filha é uma criança, e nessa idade criança não tem que saber nada, você deveria esperar a adolescência para ver isso”. Minha resposta é sempre categórica: “Se a criança não for ouvida, cuidada, entendida, quando chegar à adolescência ela pode ter graves problemas de saúde mental, ela pode tentar se matar como tantas tentam”. Existe uma cobrança muito grande sobre a mãe de uma criança trans, as pessoas se chocam quando você sai do armário junto com a criança. Muitas vezes, a pessoa trans vai ser olhada quando chega a uma depressão profunda, às vezes na adolescência, às vezes mais tarde. Só então, as pessoas param para pensar. Eu ainda acho que entendi os sinais que minha filha me dava tarde, porque existem crianças com 3 anos, que a mãe já entende e deixa a criança se expressar. Cada um tem a sua história. Para mim, permitir que a criança possa ser quem ela é, que ela se expresse como quiser, é o ideal. Hoje, eu vejo como fui restrita. Eu sei que existem mães que restringem seus filhos muito mais que eu, mas eu sinto por não ter dado mais liberdade para a minha filha. Hoje, eu vejo muito claro pela experiência que tive com a Amandinha, que não é questão de incentivo ou não, porque a identidade está ali, é corpo, é alma. É muito além do que nós colocamos enquadrados como expressão social. Hoje, eu vejo que exigir que o pai do “Evandro” apresentasse a “ele” brincadeiras masculinas era pura ignorância minha. Na verdade, aquilo era uma fuga para não ter que lidar com esse desafio social. Hoje, viajando nessas memórias, lembrando “do Evandro pequeninho”, vejo que a dificuldade que “ele” tinha ao se relacionar com outras crianças era um conflito imenso que “ele” carregava ao olhar o que é estabelecido pela sociedade como brincadeiras de meninas e meninos. Lembrar e falar tudo isso, é ter um espaço para revisitar a minha história com a Amanda e ver o quanto a gente já conseguiu progredir juntas. 91 Depois que a Amanda fez a transição, as representações de “papéis femininos” na escola diminuíram muito. Eu acho, que talvez ela tenha sentido que já poderia viver a liberdade de sua identidade e que não precisava mais criar personagens. Eu tenho muito orgulho de ser mãe de uma criança fora do armário e tenho muito orgulho da minha filha ter me ajudado a sair lá de dentro e me ensinar a olhar o ser humano, além de uma mulher ou um homem. Olhar o ser humano fora dessa caixa é um privilégio pra mim. Ter uma criança questionadora como a Amanda me faz também questionar os “padrões” sociais, que nos prendem. Eu aprendo com a minha filha todos os dias. Na escola da Amanda, ela já não é a única criança transgênero. Quando soube de nossa história, outra mãe procurou a escola e a filha dela também foi acolhida lá. Eu fiquei muito feliz. Amanda tem mais uma amiga. A maternidade é um desafio para todas as mães, mas quando mexe com um tabu social, vira um emaranhado de fios ainda maior. Por isso, é preciso tirar não apenas uma, mas muitas “Marias Chiquinhas” do armário. Quando uma “Maria Chiquinha” se quebrar em meio aos fios, a outra está ali fora, pronta para ajeitá-los e uni-los de novo. Entrevista realizada na casa de Renata, em Campinas, interior de São Paulo, no dia 24/01/2020. 92 7 ULTRASSOM FORA DO ARMÁRIO Brígida Eu fiquei grávida do Alex, meu primeiro filho, aos 23 anos, hoje ele tem 15 anos e eu completei 38. No primeiro ultrassom que fiz na minha gestação do Alex, quando eu estava deitada sendo examinada e aguardando o médico revelar o sexo do bebê, o doutor olhou para mim e disse uma frase que jamais esqueci: “Mãe, até uns 15 anos, eu garanto que é menina”. É claro, que aquela era uma brincadeira feita pelo médico no momento de curiosidade dos pais, mas anos depois, aquela “brincadeira” fez todo o sentido para mim. O Alex nasceu, mas primeiro eu e meu marido recebemos “a Janaina”, nome de registro do Alex, que veio ao mundo do sexo biológico feminino. As fotos aqui no mural da parede da sala de casa ainda tem muito da infância da “Janaina”. Em casa, nós estamos todos em processo de transição, eu, o pai do Alex, o irmão mais novo dele, que também está na adolescência, aprendemos dia a dia a deixar “a Janaina” ir e abrir espaços para que o Alex devagarzinho se aconchegue. O mural de fotos já mostra um pouco do Alex. “A Janaina” desenvolveu o corpo bem rápido, aos 9 anos menstruou e suas mamas cresceram bastante. A partir daí, comecei a perceber um desconforto que “ela” tinha com o corpo, que eu nunca tinha identificado na infância. “Ela” sempre usou roupas de menina, saía comigo para comprar roupas e não se incomodava com as minhas escolhas. Depois da primeira menstruação, “a Janaina” começou a usar roupas bem largas, usava sutiã, mas começou a pedir para comprar roupas masculinas. “A Janaina” sempre teve boneca, mas eu via que “ela” só colecionava, nunca gostou muito de brincar com as bonecas. A paixão “dela” foi sempre desenhar. O Alex desenha tanto a mão, quanto na mesa digital. Eu percebo que os desenhos que o Alex faz o representam, o que ele deseja como imagem própria, como ele se vê. Ele também adora escrever. Tudo que meu filho faz relacionado a arte, ele aprende sozinho. Teve um desenho dele, que quando eu vi eu falei para o meu marido: “É ele, é nosso filho, porque o sonho dele sempre foi ter cabelo azul, e ele desenhou um homem de cabelo azul”. 93 Aos 11 anos, “a Janaina” começou a ficar muito triste na escola, “ela” já estava nessa escola há alguns anos. Todos os dias “ela” chegava em casa falando que estava se sentindo muito “sozinha”, que não tinha amigos na escola, que passava o intervalo da aula “sozinha”. Um dia “Janaina” chegou da aula, conversou comigo e pediu que eu a mudasse de escola. “Ela” me disse que sentia uma tristeza enorme, um desconforto imenso com o corpo “dela”. No primeiro momento, eu achei que aquele incômodo, era por causa dos seios, que cresceram bastante e bem rápido. “Ela” insistia que a mudança de escola poderia fazer com que “ela” se sentisse melhor. Eu fiquei muito preocupada, comecei a pensar não ser normal uma criança passar o intervalo da aula todos os dias sozinha. “A Janaina” sempre estudou em escola pública, do primeiro ao quinto ano era uma escola municipal de Sorocaba, no sexto ano foi para uma escola do estado, no sétimo ano reclamava todos os dias da escola e pedia para mudar novamente. Mas nenhuma das escolas identificou a origem desse sofrimento que “a minha filha” sentia, ninguém compreendeu. “A Janaina” passava muito tempo no computador, dentro do quarto, “ela” sempre estudou muito. O que eu não sabia é que “ela” também usava esse tempo para pesquisar o desconforto que sentia. Um dia, “Janaina” me chamou para conversar e me disse: “Mãe, eu fiz várias pesquisas e me identifico como uma pessoa transexual, por isso eu sinto toda essa agonia com o meu corpo”. No relato, “ela” disse que já tinha encontrado até o sentido para o que “ela” sentia. “Ela” disse: “Eu sinto muita disforia, me incomodo com meu sexo, com o meu corpo”. Aquela informação chegou para mim com várias interrogações, eu sabia que eu teria que pesquisar muito sobre o que “Janaina” estava me trazendo. Nessa época, as conversas com “ela” eram curtas, eu e meu marido não entendíamos muito bem o que “ela” estava dizendo, porque “ela” nunca nos deu muitos sinais. No começo tapamos os nossos olhos. Eu não procurei a escola que “a Janaina” estudava para conversar, porque “ela” não queria de jeito nenhum continuar lá. No meio do sétimo ano escolar, eu fui pesquisar outras escolas em Sorocaba. Achei uma escola no Centro da cidade e transferi “ela” de escola. Naquela época, eu já tinha acolhido a dúvida que “a Janaina” me trouxe, mas não me aprofundei tanto no assunto. Eu perguntava sempre para “ela”: “Como você identificou isso que está sentindo? Porque você diz que você não é menina?”. Fui tentando trabalhar os conflitos. Quando “Janaina” completou 11 anos, eu busquei me informar um pouco mais sobre o assunto. Ao pesquisar, vi que tinham crianças que já não se identificavam com o sexo biológico desde muito pequenas. Eu comecei a perguntar para mim mesma: “Mas, como eu nunca percebi 94 isso na infância?”. A minha pergunta me motivava a pensar na resposta e eu fui descobrindo que eu mesma não dava abertura para “a Janaina” se expressar e eu entender. O Alex é um adolescente muito reservado e na infância também era assim. Aos poucos, sem falar muito mais sobre o assunto, as mudanças no visual dele foram chegando, primeiro, com o cabelo, que cada vez ia ficando mais curto. Um dia, fomos a um aniversário e ele fez amizade com um menino e esse menino foi apresentar o Alex aos pais dele e disse: “Mãe, esse aqui é meu amigo, ele é menino, mas é menina”. O Alex foi se apresentando ao mundo com naturalidade. A primeira psicóloga que eu procurei para ter ajuda foi quando minha sogra morreu em 2017. O Alex, desde criança era muito apegado a ela, então a perda da avó foi muito dolorida para ele. Eu tinha que procurar ajuda para que o Alex fosse acolhido diante da morte dela e também sobre todas as questões de gênero que ele estava vivendo. A nossa experiência com a primeira psicóloga, pelo serviço público de saúde, foi muito ruim, ela era extremamente conservadora e preconceituosa. O Alex fez terapia por um tempo, uns três, quatro meses, mas ele não foi acolhido pela psicóloga e nós abandonamos os atendimentos. Na época, eu não conseguia pagar uma consulta particular com outra psicóloga, comecei a buscar outros atendimentos públicos. Demorou muitos meses para que fôssemos chamados para uma consulta e quando conseguimos a experiência também foi ruim. Fomos atendidos por uma psicóloga que já é aposentada e trabalha em 5 postos de saúde de Sorocaba. Ela também não era preparada para falar das questões de gênero. Essa psicóloga disse que o caso do Alex era só de medicamento, que tinha a questão da transexualidade, mas que ele precisava tratar depressão porque teria que lidar com o preconceito a vida inteira. É claro que não fomos mais a essa psicóloga. Eu conheci um Centro de atenção psicossocial infantil, que faz reintegração social de crianças. Fui ao Posto de Saúde para tentar pedir um encaminhamento e a atendente me disse que o Alex teria que passar primeiro por uma reunião em grupo para que depois fosse encaminhado para o atendimento individual. Demorou mais de 8 meses para que fôssemos chamados. No dia que ele conseguiu a primeira consulta com a psicóloga, ele já ia completar 14 anos, então, entrou sozinho no consultório. Ao sair da sala, a psicóloga não conversou comigo, só disse para o Alex: “Passa todas as informações para a sua mãe”. Eu pensei: “Poxa, um assunto tão delicado para ela jogar assim, sem ao menos ter uma conversa comigo”. Depois dessa primeira consulta, a psicóloga encaminhou o Alex para a equipe multidisciplinar. As terapias eram em grupo e não tinha nenhuma pessoa LGBT, para que ele 95 ao menos se identificasse, se visse representado. No grupo tinham adolescentes autistas ou com outras deficiências cognitivas. A saúde pública aqui em Sorocaba é horrível. O Alex não quis mais ir aos atendimentos. Nesse tempo, eu tentava passar no vestibular de psicologia, fiz o Exame Nacional do Ensino Médio e consegui entrar na universidade. É o que tem salvado meu caminho, as pessoas que eu tenho encontrado nesse percurso me ajudam a não ficar mais perdida. Demorou para que eu conseguisse ter condições financeiras de pagar uma psicóloga particular. Quando eu comecei a fazer estágio em psicologia, eu perguntei para o psicólogo, que é meu supervisor no estágio, se ele me indicaria algum profissional que atendesse essas questões de gênero com bastante conhecimento, ele me passou várias indicações, até que cheguei à psicóloga Cláudia, que já trabalha com pessoas LGBTs. Lá, no consultório de Claúdia, o Alex finalmente se sentiu acolhido. Na faculdade, por meio de outros colegas, também conheci uma psiquiatra, que atende pessoas trans e ela também me deu vários caminhos. Com essa disforia, que o Alex tem com a mama muito grande, procuramos um cirurgião plástico para ver se seria possível fazer uma cirurgia parcial para depois, quando o Alex completar 18 anos, fazer a mastectomia, retirada total. O Alex usou o binder, o tecido para disfarçar a mama, por um tempo, mas ele sente muita dor, é uma automutilação, hoje ele usa só em algumas situações específicas. O cirurgião plástico atendeu o Alex sem cobrar a avaliação. O médico disse que se o Alex fosse reduzir a mama, teria que tirar 700 gramas de cada mama, para ficar proporcional ao corpo dele. A questão da transexualidade só foi informada ao médico no fim da consulta. Quando o cirurgião soube, ele disse que a cirurgia parcial não era indicada, caso o Alex fosse fazer a cirurgia total depois. Ele explicou que meu filho ficaria com uma cicatriz imensa fazendo duas cirurgias. Deixamos a questão da cirurgia por enquanto, porque temos que esperar a idade permitida para a mastectomia. Depois disso, segui buscando mais informações e conheci uma pessoa da defensoria pública, que me ajudou com a retificação do nome social. Eu não sabia os caminhos e agora que estou aprendendo. Tem também a questão de bloqueio hormonal, fiquei sabendo por meio dessa psicóloga, que ele está indo hoje, vou aumentando as informações dia a dia. Há 2 anos, o Alex faz acompanhamento com a médica endocrinologista pelo Sistema Único de Saúde, na Policlínica de Especialidades, em Sorocaba. O tratamento é porque ele tem um probleminha de colesterol. Até agora, nós não tínhamos apresentado a questão da transexualidade à médica. Na última consulta, em novembro de 2019, ela quase caiu da cadeira 96 quando nós trouxemos a situação Mas, a médica foi muito acolhedora, apesar de falar algumas coisas fora de contexto, do tipo: “Mas você já tem certeza da sua escolha?”. Ainda assim, acho que faltou informação, porque ela é muito cuidadosa e carinhosa com o Alex, assim que ficou sabendo, logo anotou no prontuário o nome social para não se esquecer na consulta seguinte. A medicina ainda está muito despreparada, se dentro da psicologia há falta de preparo, imagine na medicina. Terminamos a consulta naquele dia, com a endocrinologista dizendo: “Prometo que vou estudar, para atender melhor o Alex da próxima vez”. Na escola, ainda no ensino fundamental 2, o Alex se assumiu como transexual. No primeiro momento, ele não me contou que tinha falado para os amigos. O sofrimento dele aumentou ao revelar, porque alguns amigos se afastaram dele. Uma vez a coordenadora pedagógica da escola me chamou para conversar e disse que o meu filho estava muito triste. Eu falei para ela que o Alex era um menino transexual. Naquele dia, foi ela quem me disse que o Alex havia aberto a informação na escola. Ela me contou que ele procurou a direção para pedir que a escola promovesse alguma palestra sobre gênero para os alunos. Só que a própria coordenadora disse que não soube lidar com a questão, ficou de pensar no assunto e não deu a resposta para o Alex. Eu disse a ela que eu já tinha uma palestra pronta de um trabalho que eu havia feito na faculdade de psicologia e me ofereci para bater um papo com os alunos na escola, ela disse que ia passar para a diretora avaliar. Mandei vários e-mails cobrando e nunca tive resposta. Alguns amigos da escola que haviam se afastado do meu filho, aos poucos se aproximaram de novo, mas ainda com receio, outros se mantiveram longe de vez. Em 2019, quando o Alex estava no último ano do ensino fundamental 2, ele tirou o RG social e logo me falou: “Mãe, eu quero mudar o nome social na minha escola, não quero mais ser chamado de Janaina, quero ser chamado de Alex”. Eu disse para ele: “Será que já é a hora, filho? Esses amiguinhos já te acompanharam, já teve resistência de alguns, será que é a hora?”. Tentei convencê-lo de que ele já estava no último ano e que logo mudaria de escola para cursar o ensino médio com pessoas diferentes, ele já seria conhecido desde o início por Alex. Ele pensou e aceitou minha sugestão. Ainda bem, porque meu filho já tinha sofrido muitos episódios de preconceito durante o ano, eu não queria que ele sofresse mais naquela escola. Até o fim do ano na escola, ele ainda sofreu um pouco, a questão de depilação é um problema também e ele ainda está vivendo esse processo. Antes, ele depilava, agora, não depila mais, às vezes, os alunos da escola tiram sarro dele, mas nessa questão ele é bem resolvido, não depila mais as axilas, pernas e se sente bem assim. No começo, eu e meu marido estranhamos um pouco, mas agora, já acostumamos. Nas férias de janeiro de 2020, fomos passar uns dias na 97 praia e eu disse para o Alex que caso ele quisesse ir à praia de bermuda e camiseta poderia ir, se quisesse ir de top, também poderia ir. No fim, ele acabou colocando o maiô que ele tinha e foi sem depilação. Eu falei: “Fica tranquilo, é você, isso é o que importa”. Ele ficou, mas quando voltamos da praia ele falou: “Mãe, eu senti muita disforia”. Eu falei para ele que essa sensação era normal no processo. Mas, fiquei feliz porque senti que ele aproveitou aqueles dias na praia em família. A nossa família é muito conservadora dos dois lados, tanto do lado do meu marido, quanto do meu lado, são famílias extremamente preconceituosas e homofóbicas. Nós moramos em uma cidade muito conservadora. Em Sorocaba, romper com essa barreira é muito difícil. Eu acho que eu também era um pouco preconceituosa e nunca iria imaginar que teria que quebrar esse preconceito, a começar pela minha própria casa. Mas eu rompi. Nós já temos problemas familiares faz tempo e quando fomos naquela festinha, que o menino falou que o Alex era menino, mas era menina, o meu irmão mais velho, que já tem um discurso bem machista, disse: “Eu não aceito isso”. Após aquela festa, ele se afastou de nós de vez. Eu não tinha muito contato com ele mesmo, nós tivemos uma relação muito conturbada de irmãos. Nossos pais terminaram o casamento de uma forma terrível e isso nos afastou. Minha mãe nos procura de vez em quando, mas ela não é muito carinhosa. Um dia desses expliquei a ela que agora temos o Alex, não mais a Janaina. Ela disse que não se importava, que queria ver as crianças. Ela se reencontrou com o Alex uma vez, no natal, mas depois ele não quis ir mais ao encontro dela. Eu o deixo à vontade para ir onde ele se sentir bem. A adolescência já é complicada e tem mais essa questão da transexualidade para trabalhar, não quero que meu filho se sinta mais pressionado. Meu marido é o filho caçula e tem irmãos bem mais velhos. Quando ele nasceu, a maioria dos irmãos já tinha saído de casa, então ele foi criado mais distante dos irmãos. Ele sempre foi mais próximo de uma irmã dele, mas ela tem um filho machista, autoritário, então acabamos nos afastando também. Quando os pais dele faleceram, a família deixou de estar junta de vez. O que significa que para o Alex, todo o acolhimento vem de mim e do pai. Meu filho mais novo não entende muito a transexualidade do Alex, ele tem 13 anos, só 2 anos a mais que o irmão, são dois adolescentes em casa. Ele gosta do Alex, mas diz ter dificuldade de chamar por Alex. Ele sempre questiona muito a parte genital: “Mas mãe, ele não tem pênis, como é menino?”. Eu falo: “Não tem, mas é, porque é identidade de gênero”. Eu explico por várias vezes e ele fala: “Mãe, como eu vou chamar de Alex, ‘ minha irmã’ , se meu melhor amigo chama Alex”? Eu falo: “Seu melhor amigo é seu melhor amigo, seu irmão é seu irmão”. Ainda assim eles convivem bem, brigam como todos os irmãos, só 98 isso. O universo dele é muito diferente do que vive o Alex. Ele não conhece nenhuma pessoa LGBT, não tem nenhum amigo gay, nem amiga lésbica. Mas eu faço questão de sempre trazer a conversa para dentro de casa. Eu fiz um trabalho na faculdade, que era para fazer o diário de um adolescente transexual e usamos várias histórias do Alex, ele escreveu a maior parte do diário, aí fizemos um livrinho, porque a disciplina pedia, ficou muito legal. Nós vamos caminhando, pedindo informação, a psicologia na faculdade tem me trazido muita informação. Acho que se eu não tivesse fazendo esse curso eu não saberia por onde começar. Eu não entrei na psicologia por isso, mas me ajudou muito. Essa é minha segunda faculdade, a primeira foi na FATEC, fiz faculdade de projetos mecânicos, faculdade pública, no final eu abandonei, não me identifiquei. Depois, eu fiz instrumentação cirúrgica e fui me preparando, fazendo o Exame Nacional do Ensino Médio, até que deu certo. Quando eu entrei na faculdade, a questão da transexualidade do meu filho estava à tona aqui em casa. O meu marido teve um pouco mais de dificuldade de entender o processo do Alex no início. Demorou mais tempo para chamá-lo pelo nome social. Às vezes ainda escapa “Janaina” e ele fica sem jeito, eu sempre o tranquilizo dizendo que não tem problema nenhum errarmos. Eu explico para ele que é uma fase de transição, que eu fiquei grávida de uma “Janaina” , comprei roupa de menina, eu tive um bebê do sexo biológico feminino e que vamos aos poucos reprogramando nosso cérebro. Eu não tenho religião, depois que comecei a estudar psicologia acredito cada vez menos em religião, não sigo nenhuma. Em minha família, meu pai sempre foi espírita, a parte da minha mãe sempre católica, a família do meu marido católica também. Ninguém trouxe discursos religiosos para falar do Alex, ainda bem. Às vezes eu gosto de ir a palestras em centro espírita, mas nos últimos tempos eu fui abandonando um pouco. Eu acredito em energia, no universo, que tudo é composto pela mesma matéria, eu sei que tem uma energia que flui, que precisamos estar sempre no positivo. Eu e meu marido procuramos manter a paz em casa. Nós nunca brigamos em todo esse processo do Alex. Às vezes ele falava para mim: “Você acolhe demais o Alex, você ouve demais, dá brecha demais para ele decidir”. Mas, depois de algum tempo, ele foi entendendo que não era bem assim, que precisávamos estar ao lado do nosso filho e tentar compreender tudo o que ele sentia. Eu nunca fui transfóbica com o Alex. Apenas perguntava: “De onde vem isso? Como você começou a perceber? Me explica para eu entender? ”. Isso eu sempre falava porque eu precisava entender. Ele não sabia explicar, nunca soube, ele tinha um sofrimento, procurou 99 explicações, se identificou e seguiu a trajetória dele. Ele nunca teve dúvida, desde que ele me contou sobre a identidade de gênero, sempre demonstrou certeza do que sentia, eu achei que iria passar e questionei bastante no primeiro ano, até eu começar a entender. Esses dias ele falou para mim: “Mãe, eu tenho tanto orgulho de você, acho que você foi um pouquinho homofóbica no início, hoje você é tão incrível”. Tem aquele ditado que diz: “Quem bate esquece, quem apanha nunca esquece”... Mas, o acolhimento e o amor eu sempre tive. O Alex sempre foi de poucos amigos, tinha um ou dois amiguinhos. A psicóloga diz que é por causa da hipersensibilidade dele. Ele não gosta de muito barulho, não gosta de lugar com muita gente, nunca gostou. Ele vai ao cinema, ao shopping com os amigos, às vezes traz só meninos em casa, outras vezes só meninas, mas os amigos dele sempre estão aqui em casa, às vezes passam a tarde toda aqui. Eu sinto que o Alex tem bastante tensão e eu o entendo, parece que você tem que viver o tempo todo na defensiva e isso o deixa ter altos e baixos. Na semana passada mesmo eu achei que estivesse tudo ótimo, essa semana ele já estava péssimo, ficou muito tempo dentro do quarto. T em dias melhores, dias piores. Meu filho não é de chorar muito. Mas, às vezes, tem aqueles choros doídos. Ontem, por exemplo, eu vi que ele estava muito para baixo, puxei ele e falei para ele conversar comigo, falar o que estava sentindo, aí ele chorou, chorou bastante. Quando ele quer se abrir e vai começar a falar é quando ele chora. Como mãe, têm dias que para mim são mais difíceis, outros mais fáceis. Os dias mais difíceis são os de sofrimentos do Alex, quando ele sofre mais, eu sofro mais também. Mas, sei que ainda temos muita informação para colher, temos um caminho longo, tem o nome social na escola, tem o caminho para a cirurgia, tem o laudo da psicóloga, que temos que ter para a cirurgia ser feita. Ainda estamos só no início da caminhada. Eu acho que vou ficar respirar melhor quando meu filho tiver o conforto de sair à rua e ficar bem, levar uma vida mais tranquila. Enquanto meu filho não tiver uma vida tranquila, eu também não fico tranquila. Nós ainda não temos uma rede de apoio, que nos deixe tranquilos, um lugar que possamos correr e recorrer, eu ainda estou construindo. O Alex tem a psicóloga, que ele adora, deu muito certo, ela o acolheu bem, mas ele nunca passou por uma psiquiatra, eu fico preocupada com esses picos de tristezas dele. Esses dias eu perguntei a ele: “Filho, de zero a dez, quanto está sua tristeza?”. Ele falou: “Nove”. Eu me assustei. Era na véspera da consulta com a psicóloga, eu pedi que ele conversasse bastante com ela, para ver se era o caso de procurarmos um psiquiatra, eu tenho medo dele sofrer depressão. Mas, a psicóloga como é muito esclarecida, falou que ia fazer um outro trabalho, ir no passo a passo, construir um 100 objetivo. Ela falou que ia construir um projeto mais em curto prazo para ele se sentir mais tranquilo, porque a ansiedade fica muito no futuro. Ele adora essa psicóloga, desde o primeiro dia que ele foi na primeira sessão. A psicóloga é bem atualizada, tem só 4 anos de formada, mas é muito estudiosa. Ela é LGBT também, é uma mulher forte, a imagem dela é forte, ela não se depila, usa blusa de alcinha, então, é tranquila, bem resolvida, é feliz, é livre. Eu acho que isso passa muita segurança para o Alex, ele volta muito bem das sessões. O Alex nunca namorou, ele me diz que nunca beijou, nem meninas, nem meninos. Até agora, ele conta que só gostou de meninos. Acho que ele ainda não sabe muito definir essas sensações da atração. Ele tem muito medo, e sempre me pergunta: “Mãe, será que a pessoa que eu gostar vai gostar de mim”? Eu falo: “Olha, a pessoa que gostar de você vai gostar como você é”. Ele é muito novo ainda. Ele teve uma paquerinha no ano passado, que era bissexual, eles saíram algumas vezes para passear, mas ele disse que o menino era muito imaturo e ele é muito maduro, não beijaram, só foram ao cinema de mãos dadas. Depois, o menininho terminou com ele, pediu um tempo. Se você olhar os dois, o mesmo cabelinho, mesmo jeitinho de ser. Ele fala que quer namorar sério. Ele admira muito a beleza das mulheres, mas nunca disse ter sentido atração por mulheres. Por enquanto, o Alex ainda usa o banheiro feminino, eu não sei como vai ser no ensino médio, na nova escola. O Alex terminou o ensino fundamental no fim de 2019. Ele prestou Vestibulinho na ETEC Fernando Prestes – Escola Técnica do Estado, aqui em Sorocaba mesmo e passou na prova. Ele e eu estamos com bastante esperança dele ser bem acolhido lá. Sei que a nossa luta será contínua, cada dia temos que estar prontos para uma questão. No dia que fomos fazer a matrícula do Alex na ETEC, surgiu mais uma. A inscrição do Vestibulinho foi feita pelo site e o Alex colocou o nome social. Quando veio o resultado do Vestibulinho, estava constando o nome feminino. Fomos fazer a matrícula na unidade, passamos pela verificação dos documentos e fomos para a outra sala, explicamos para a atendente a questão do nome social, era uma mulher lésbica, então o acolhimento foi ótimo. Ela nos informou que a instituição tinha outros alunos transexuais, que já adotavam o nome social há 2 anos. Ela falou para não nos esquecermos de mencionarmos o nome social na hora de fazermos a matrícula, porque caso contrário não haveria possibilidade de fazer a correção depois. Na hora da matrícula, a atendente nos informou que como o resultado do Vestibulinho veio constando “Janaina”, ela teria que deixar daquela forma e que o aluno deveria falar individualmente com cada professor. Eu discordei imediatamente e disse a ela: “Moça, meu filho vai começar em uma escola nova, como ele vai chegar em cada professor e explicar que é 101 um menino transexual?”. Ela falou que iria tentar, e então, a matrícula saiu com o nome social. A instituição criou um login, uma senha e um e-mail institucional. O e-mail institucional veio com o nome de Janaina. Eu falei para ele: “Filho, no primeiro dia de aula você já pede para alterar o e-mail”. Percebe como o sistema é falho? Em todo o lugar você tem que viver se explicando. Quando você já tem a aparência física mudada, cabe a pessoa trans explicar ou não, mas no caso dele, ainda é difícil, está no início da transição. Entendo que para o meu filho, ainda seja muito difícil se posicionar, ele não está preparado ainda. Eu sempre falo para o Alex, que é importante que ele tenha contato com a população LGBT, com pessoas que caminhem com ele também. Na Marcha da Visibilidade Trans, em 2019, ele foi e gostou muito. Ele tem algumas amigas LGBTs e elas o acompanharam. O único amigo transexual que o Alex tem, a mãe não deixou que ele fosse à Marcha. Eu fui junto à Marcha com meu filho, mas quando chegamos lá, ele pediu para ficar só com as amigas. Eu fico feliz em saber que tem amigos que o acolhem e que andam juntos. Eu deixei que ele ficasse com as amigas, ele comprou até uma bandeira. Foi um domingo diferente para ele. Eu também quero passar a frequentar grupos de apoios como a ATS – Associação Transgêneros de Sorocaba. O discurso de ódio em cima da população LGBT hoje está muito grande. Eu não sei como eles acham que as pessoas LGBTs podem fazer mal a alguém. Precisamos estar preparados para enfrentar isso. Como mãe de um menino trans, eu não tenho desconforto nenhum. Se eu me vesti de algum preconceito no início, já me despi. É claro que, desde que o Alex se apresentou como trans, ele tem mais momentos sofridos do que dias de felicidade e isso é o que mais me deixa triste também. Ele sofre para se vestir quando vamos sair, eu sofro junto. Mas estou aprendendo. Quanto mais você aprende, mais você entende que tem que aprender, q uando sinto que estou falhando em alguma coisa, eu tento ouvir mais atenta para não julgar. Não julgar é uma coisa que a gente também aprende bastante. Ainda tem poucos eventos para se debater a transsexualidade, mas tem. É sempre bom ter espaços de discussão. No caso do meu filho, ele quem me trouxe todas as informações. Eu só não quero que a disforia impeça meu filho de viver. Eu espero muito que o Alex consiga fazer a cirurgia dele para ser feliz com o corpo. Muito do que ele carrega de sofrimento vem desse incômodo com a mama, tem dificuldade de se apresentar como Alex, fica sem saber quando ele pode ser o Alex e em quais lugares ainda tem que se passar por “Janaina”. Eu falo sempre para o meu filho que cada vez mais ele tem que ser quem ele é. Então, o meu sonho é que ele possa se apresentar em todos os lugares como Alex, que tenha confiança e auto-aceitação. É muito difícil para mim, como mãe, ouvir que meu 102 filho não está confortável dentro do corpo dele... é triste... é bem triste… a dor dele é a minha dor... Às vezes eu chamo a atenção do Alex, quando ele está muito sozinho e se afasta, mas entendo o desconforto dele. Tem alguns amigos que não aceitam muito, mas tem muitos amigos que adoram ele. Alguns vêm aqui em casa e falam que estão com saudade da minha comida. Eu falo para o Alex que quando ele se afasta dos amigos e se tranca em casa, é tempo da vida que não recupera mais. O Alex não é de fazer grandes declarações de amor, ele é tímido, mas algumas vezes me fala coisas pequenas, que fazem muita diferença. Na escola, ele sempre participou de debates com intermediações e um dia me falou: “Mãe, hoje falei para os meus amigos que fui criado em uma casa muito aberta, que minha mãe é feminista”. Isso, claro, me enche de orgulho. Quando ele diz que tem orgulho de mim, já é uma recompensa. Eu acho que estou mais tranquila hoje em dia, não carrego culpa, faço o meu melhor, penso que se um dia eu não soube acolher meu filho tanto, hoje eu sei. Eu busquei e estou em busca de conhecimento para acolher ainda mais. Quero contar essa história cada vez mais, quero que outras pessoas possam sair da caixinha também. Ser uma mãe fora do armário ameniza muito o sofrimento do meu filho. Em casa, ele só tem afeto. Uma vez, meu marido disse para mim: “Eu não sei se estou me tornando uma pessoa melhor ou menos homem”. Eu falei para ele: “Está vendo esse ultrassom? Lembra-se dele? É o primeiro feito com o Alex em minha barriga. Olhe bem, já se passaram 16 anos desde que o médico disse que até os 15 anos ele garantiria que nosso bebê seria ‘ uma menina’ . Nosso filho tem 15 anos hoje, é um homem. Qual o sexo ou gênero do seu amor por ele? Pouco importa. É amor!”. Entrevista realizada na casa de Brígida, em Sorocaba, interior de São Paulo, no dia 29/01/2020. 103 8 INFÂNCIA E EDUCAÇÃO: MEMÓRIAS DE EXPRESSÕES, REPRESSÕES E ENFRENTAMENTOS O abismo que perfuramos ao dizer que desejamos outro roteiro que não aquele estabelecido no nascimento não assusta somente a nós. Nos tornamos arqueólogas em busca de vestígios que nos mostrem como a cisgeneridade foi produzida. (FAVERO , 2020, p.43) Desejamos afirmar, com segurança, que o sujeito é isso, e, consequentemente, ele não é aquilo? (LOURO , 2000, p.62) Ser mãe não é ser despolitizada, não é estar a parte, todos nós enxergamos e temos consciência de mundo. A consciência é uma construção que nasce do diálogo com o outro. Então, é preciso que a gente ouça as pessoas para que a consciência seja construída coletivamente, muitas consciências. (ROVAI , 2020, p. ) Quantas portas existem no armário social regulador de corpos para que, além das pessoas transgêneros e de toda a comunidade LGBTQIA+, as mães desses sujeitos humanos também façam suas travessias de descobertas e acolhimento das identidades de gênero e sexualidade de suas filhas e filhos? Esta análise não tem a intenção e nem conseguiria revelar a resposta completa a essa questão, já que novas “normas” sociais, que sustentam o conceito de cisheteronormatividade são construídas e desconstruídas de tempos em tempos e consequentemente novas portas de armários são fabricadas. Antes de conhecermos e localizarmos três das portas que separam esses corpos, precisamos antes partir dos fundamentos, primeiro da cisheteronormatividade, construção de poder que tem normas vigentes e dominantes nas relações sociais. É um fator que regulamenta e posiciona o sexo e a sexualidade com base exclusivamente na biologia dos corpos. Nessa matriz, os corpos são estigmatizados apenas pelos discursos morais criados e potencializados em torno do sexo, desconsiderando que os seres femininos ou masculinos também são frutos de construções sociais históricas e culturais ao longo dos tempos, já que o gênero é “[u]m elemento constitutivo de relações sociais fundadas sobre as diferenças percebidas entre os sexos, e o gênero é um primeiro modo de dar significado às relações de poder”. (SCOTT, 1995, p. 75). 104 Podemos perceber então, que a cisheternormatividade é uma estratégia para afirmar que as identidades são binárias, promovendo assim um modo de ser e estar no mundo que prevê e espera que o gênero designado ao nascimento, esteja em conformidade com o sexo biológico (a genitália), assim como prevê a atração sexual de mulheres por homens e de homens por mulheres, levando em consideração que as pessoas transgêneros, depois que passam pelo processo de transição, são enquadradas nas mesmas normativas com base na identidade de gênero. Dessa forma, cria-se um conceito de normalidade social para as pessoas cisgêneros – ou “cis” , aquelas que se identificam com o gênero designado ao nascer e também as heterossexuais, que se relacionam afetivo-sexualmente com pessoas de gênero oposto. O gênero, portanto, [...] não é algo que está dado, mas é construído social e culturalmente e envolve um conjunto de processos que marcando os corpos, a partir daquilo que se identifica ser masculino e/ou feminino... o corpo é generificado, isso implica dizer que as marcas do gênero se inscrevem nele. Observa-se que ao menor sinal de um rompimento da estrutura estabelecida, [...] aqueles que escapam desse protótipo são rotulados e desrespeitados, quando não cerceados de viver. (FAERMANN; COSTA; COUTO, 2020. p.7) Também trazemos aqui, o conceito de individual de heteronormatividade, outra construção de poder reguladora de corpos em torno da sexualidade. Dentro da proposta de Petry e Meyer (2011) e Santos (2007), pensamos de forma ampliada a heteronormatividade nas relações sociais, pois nas narrações das colaboradoras da pesquisa, ela aparece inicialmente por um longo período, como única referência para as mães de uma não conformidade de seus filhos com o gênero designado. Ou seja, nesse período, identidade de gênero e orientação sexual são confundidas. A heteronormatividade também é um sistema que impõe regras e organiza as sociedades ocidentais modernas. Começamos desmembrando os vocábulos hetero, com significado de outro ou diferente, que é o contrário de homo, com significado de igual. Se o termo hetero é tomado para sexualidade, a palavra heterossexual leva à atração de uma pessoa por outra de outro sexo. Já a palavra homossexual trata da pessoa que tem atração por outra do mesmo sexo. Na definição de Berlante e Warner (2002) , entende-se heteronormatividade como: [A]quelas instituições, estruturas de compreensão e orientações práticas que não apenas fazem com que a heterossexualidade pareça coerente – ou seja, organizada como sexualidade – mas também que seja privilegiada. Sua coerência é sempre provisional e seu privilégio pode adotar várias formas (que às vezes são contraditórias): passa desapercebida como linguagem básica sobre aspectos sociais e 105 pessoais; é percebida como um estado natural; também se projeta como um objetivo ideal ou moral. (BERLANTE; WARNER, 2002, p.230). Dentro da análise dos quatro autores, que desmembram os conceitos de cisnormatividade, heteronormatividade agora pensando pelo termo do vocábulo norma, somos levados para a regulação, que universaliza o caminho do que é igual. Dessa forma, a “norma” dita um “padrão”, de “ser normal” apenas o indivíduo que se identifica com o gênero designado e a atração ou o sexo entre pessoas biologicamente diferentes. Visto que trouxemos aqui os dois conceitos separados, é relevante dizer que podemos uni-los também em torno da heterocisnormatividade, já que a própria construção social dita que “[P]ara reconhecer-se identitariamente pressupõem-se um pertencimento social, o que dificulta as razões de ser: uma mesma espécie identitária pode requerer fazer-se parte de múltiplos grupos e ao mesmo passo podem ser rejeitados e abandonados...”. (BARBOSA; NETO, 2020, p. 59). Com tal afirmação, entende-se que uma mulher transgênero, por exemplo, pode não desafiar somente a cisnormatividade como também a heteronormatividade, nesse caso, se sua orientação sexual for para mulheres. Portanto, gênero e sexualidade são categorias construídas ao longo da história. Como aborda Guacira Lopes Louro (2000): Os corpos ganham sentido socialmente. A inscrição dos gêneros - feminino ou masculino - nos corpos é feita, sempre, no contexto de uma determinada cultura e, portanto, com as marcas dessa cultura. As possibilidades da sexualidade - das formas de expressar os desejos e prazeres - também são sempre socialmente estabelecidas e codificadas. As identidades de gênero e sexuais são, portanto, compostas e definidas por relações sociais, elas são moldadas pelas redes de poder de uma sociedade (LOURO, 2000, p. 10). Em diversos momentos nas narrativas identifica-se as mães trazendo traços enraizados na cisheteronormatividade, quando, por exemplo, uma das mães narra a preocupação da filha trans, que ainda está na pré-adolescência, admirar mulheres. A própria mãe no meio de sua narração reconhece a tensão de normatividades sociais divididas e acumuladas nas questões de gênero e sexualidade: A questão do gênero e da sexualidade são coisas muito diferentes. A minha preocupação dessa questão de gênero com a Amanda, é que ela sempre foi muito teatral , então sempre fez muitos papéis femininos, mas sempre muito na comédia e em contrapartida, ela sempre olhou muito as mulheres, inclusive no sentido de cobiçar, de admiração, de se interessar mesmo por menina quando começou a ficar maiorzinha. (RENATA, mãe de Amanda, criança trans. Entrevista realizada em 24/01/2020). 106 A história oral na pesquisa que sustenta essa análise, representa muito mais do que um projeto na perspectiva teórico- metodológica de investigação social, as memórias tecidas e as “palavras escovadas4 generosamente pelas mães, que cederam suas vozes, podem atuar como um instrumento de luta política. Tem-se a intenção de que a história oral movimente lugares que por algum tempo já estiveram silenciados e que as questões trazidas na oralidade dessas mães se ampliem no debate do tema em diversos espaços, ecoando assim essas vozes, como Walter Benjamin descreve, o que eu chamaria, de o poder da memória e de quem a externiza e a eterniza. “O narrador retira da experiência o que ele conta: sua própria experiência ou a relatada pelos outros. E incorpora as coisas narradas à experiência dos seus ouvintes”. (BENJAMIN, 1987, p. 201). A observação de Walter Benjamin a respeito da experiência em torno da narração dialoga com a teoria de Alessandro Portelli, que vê na relação do colaborador da pesquisa e do pesquisador “u m experimento em igualdade” (PORTELLI, 1997, p. 9). É nessa troca que as entrevistas ocorreram na pesquisa, sem provocar tensão e distorção em nossa experiência, de modo que as mães entendessem a importância de mergulhar em suas memórias como uma ação que traz à história pública um acervo vivo de resistência social e política. Considero importante dizer que essa experiência em igualdade não nos afastou do trabalho conjunto de questionamentos relevantes e reflexões em profundidade acerca da narração. Entendo ser necessário estabelecer um jogo constante do que é conhecido, reconhecido e do que ainda falta conhecer e reconhecer nas histórias. Assim como descreve Portelli, (1999, p. 23), “ s omente a igualdade faz a entrevista aceitável, mas somente a diferença a faz relevante”. Portanto, nessa sequência de igualdade e diferença dosadas, temos quatro saberes se construindo: A ouvinte transformando as colaboradoras a partir da mediação, assim como as colaboradoras devolvendo essas transformações como um presente à pesquisadora, enquanto também se transformam, e a própria entrevista ao chegar à história pública transformando outras mulheres. Em tese, é o que Benjamin (1987, p. 213) chamou de “ f aculdade de intercambiar experiências”. As travessias e trans(formações) pessoais e sociais dessas cinco mães junto às suas filhas e filhos transgêneros aparecem em suas memórias desde a mais tenra idade das crianças. Aqui, começamos a costurar essas memórias a partir do relato curioso de Brígida, mãe de Alex, um 4 A expressão “Escovar as palavras” é poeticamente criada por Manoel de Barros. “Eu já sabia que as palavras possuem no corpo muitas oralidades remontadas e muitas significâncias remontadas. Eu queria então escovar as palavras para escutar o primeiro esgar de cada uma. Para escutar os primeiros sons, mesmo que ainda bígrafos. […]” (BARROS, 2010, p.15) 107 adolescente transgênero de 15 anos. Ela relata que, diferentemente das normativas de sexo e gênero, colocando seus significados todos dentro da mesma bolha, um discurso diferente chegou a ela antes mesmo da infância de seu filho, quando a vida de Alex ainda se formava no útero de Brígida. É por isso que até hoje Brígida guarda o ultrassom “fora do armário”, aquele que revelou o gênero de seu bebê designado ao nascer. Foi numa tarde de setembro na cidade de Sorocaba, no interior de São Paulo, que Brígida e seu marido Carlos foram à clínica fazer o exame. Assim que terminou o ultrassom, Brígida se levantou da maca ansiosa para saber se carregava uma menina ou um menino no ventre. O médico Francisco fez mistério, olhou no fundo dos olhos de Brígida e disse: “É uma criança do sexo feminino, quer dizer, até uns 15 anos… é ‘ menina’ aos olhos da sociedade, porque quem vai dizer o gênero a qual pertence, é a pessoa que está aí dentro de você com o andar da vida”. (Entrevista realizada em 09/01/2020) Brígida não entendeu muito bem a fala do médico, absorveu o comentário na “brincadeira” e voltou para casa carregando o feto e o afeto, que a partir daquele momento recebia o nome de “Janaína”. A tentativa do médico de desnaturalizar o conceito e a ideia de sexo e gênero daquele ser que viria ao mundo é uma ideia construcionista. Para Pelúcio (2014), essa vertente propõe que os gêneros são produtos de relações históricas e sociais, são constituídos simbolicamente e têm dimensões culturais. Este conceito é contrário à ideia essencialista que naturaliza os gêneros, vinculando-os a um determinante biológico, é determinista e biologizante e tem um enfoque a-histórico e transcultural. Ambos os conceitos, o Construcionismo e o Essencialismo são pilares das matrizes teóricas dos estudos de gênero. A abordagem que trazemos nessa pesquisa parte da matriz construcionista. Voltamos à questão trazida na narração de Brígida, que conta que 9 anos depois se lembrou da fala do médico durante aquele exame de ultrassom e encontrou sentidos nela. A partir desse relato, conhecemos a primeira porta do armário regulador, que Brígida atravessou como mãe de pessoa trans. Mas, antes de trazer essa passagem, é preciso apresentar o sentido do conceito de “armário”, que aparece desde o título da pesquisa. O armário ou o segredo aberto, “é a estrutura definidora da opressão gay no século XX”. (SEDGWICK, 2007, p. 26). Nessa definição, a metáfora do armário é usada para localizar o que é privado (dentro do armário) e público (fora do armário). Observamos que a definição nesse caso, aparece como um lugar da opressão gay, mas este espaço regula a vida de toda a comunidade LGBTQIA+ (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transexuais e Travestis, Queers, intersexos, Assexuais e qualquer outra pessoa fora do aspecto cis-hétero). 108 As pessoas transgêneros passam por essa vigilância do armário desde que apresentam as primeiras reações à não conformidade do gênero designado, visto que “[a]s pessoas encontram novos muros que surgem à volta delas, até quando cochilam” (SEDGWICK, 2007, p.22). Isso reforça a ideia de que novas portas de armários a serem atravessadas estão sempre surgindo. Mas esse armário não é só da pessoa trans, é da família também, que, fora dele, passa a fazer parte de todos os enfrentamentos sociais, lutas estas contra o sistema que manipula formas de promover a invisibilidade deste ser, quase o tornando não humano, visto que “ homem privado não se dá a conhecer, e, portanto, é como se ele não existisse. O que quer que ele faça permanece sem importância ou consequência para outros e o que tem importância para ele é desprovido de interesse para os outros” (TELLES, 1981a, p. 67-68). Aqui, encontramos a figura das cinco mães, que nos situam na luta para que seus filhos ocupem o lugar contrário ao do humano privado. São dois atravessamentos de lutas públicas, já que essas mulheres também não fazem questão de ser invisíveis, porque se suas filhas e filhos “[...] se enquadrassem direitinho, dentro das respectivas caixinhas de gênero que a sociedade lhes destinou, não haveria perseguição, não haveria necessidade de transição, não haveria o armário” (LANZ, 2014, p. 26). Sabemos que sim, existem caixinhas, existe o armário, mas essas mães (re) existem fora deles. 8.1 A Infância A palavra “infância”5 vem do latim infantia, que nasce do verbo fari = falar. Traduzindo essa construção, temos fan = falante e in, que é a negação do verbo. Forma-se, portanto, infans, no latim, que significa o ser humano que ainda não é capaz de falar. A tentativa da fala por meio de outras formas de expressão ou de comportamentos de filhas e filhos frente a uma sociedade transfóbica, construída de forma sistêmica no binarismo de gênero, perpassa a fase da infância nas histórias contadas pelas cinco mães de pessoas transgêneros ouvidas na pesquisa. Pode-se observar as sutilezas neste relato de Renata, mãe de Amanda, uma criança trans de 9 anos, que, ao nascer, ganhou no registro o nome de “Evandro”. Quando “ele” começou a falar com 2 anos, a primeira coisa que “ele” me questionou foi sobre o corte do meu cabelo, porque eu cortei meu cabelo quando ela tinha 1 ano, ele era na cintura e eu cortei bastante, “o Evandro” reclamou e disse que preferia cabelo comprido. Eu falei: “Como uma criança vai se importar tanto assim como 5 Fonte: https://www.significados.com.br/infancia/. Pesquisa realizada em 28/04/2020. 109 uma questão tão estética e lembrar depois de um ano e meio? (RENATA, mãe da Amanda. 24/01/2020) Tomo como exemplo o relato de Renata sobre a manifestação da filha em tenra idade, a respeito do cabelo da mãe para pensarmos que a concepção de corpos não escapa de traços que a sociedade constrói. Recorro aqui à Sofia Favero, psicóloga, pesquisadora de transgeneridade a partir da infância e que também é uma mulher trans. Sobre essa questão de estereótipo ela discorre em seu livro ‘Crianças Trans: Infâncias possíveis’: Se a definição de criança trans for aquela de quem tem aversão à autoimagem...a mesma poderia ser aplicada a muitos meninos e muitas meninas, pois ninguém está alheio ao que está sendo produzido em termos de corpo e norma por uma dada sociedade”. (FAVERO, 2020, p.21). Entende-se a partir da teoria trazida por Favero, que qualquer pessoa está fadada a reproduzir em seu inconsciente e a expressar ou a reencenar, desde os primeiros meses de vida, o comportamento de um adulto. Dessa forma, é preciso nos livrarmos de concepções a partir de estereótipos do corpo, que são construídos socialmente. É por isso que percebemos ao longo das entrevistas que muitos armários são “projetados” pelas mães nesse período da vida das filhas e filhos. Também foi na infância que a primeira porta do armário apareceu para Brígida, mãe de “Janaína”, nome de registro de nascimento de “sua filha”. Brígida conheceu a porta a ser atravessada três anos antes “da filha” entrar na adolescência. Hoje, em transição de gênero, “Janaína”, deu lugar ao Alex, nome social. A infância também marca a primeira porta a ser atravessada pelas outras três mães que trazem as memórias vividas com suas filhas e filhos transgêneros. Essa travessia define como a relação de filhas e filhos e mães será formada, conduzida e fortalecida na vida, dentro de um ambiente social controlado, já que “[toda questão de controle definicional está carregada de consequências”. (SEDGWICK, 2007, p. 47) Brígida lembra das primeiras percepções de que a filha não se identificava com o gênero designado ao nascer. “A Janaína” desenvolveu o corpo bem rápido, aos 9 anos menstruou e suas mamas cresceram bastante. A partir daí, comecei a perceber um desconforto que ela tinha com o corpo, que eu nunca tinha identificado até aquele momento da infância. Ela sempre usou roupas de menina...depois da primeira menstruação “a Janaína” começou a usar roupas bem largas, usava sutiã, mas começou a pedir para comprar roupas masculinas. Antes disso, “mais nova, a Janaína” sempre teve boneca, mas, eu via que “ela” só colecionava, nunca gostou muito de brincar com as bonecas. (BRÍGIDA, mãe da Alex . Entrevista realizada em 29/01/2020) 110 O que Brígida e Renata narram é a forma como “Janaína” e “Evandro” passaram a se expressar dentro de uma sociedade que institui a ideia binária de existência do sujeito feminino/masculino, premissa questionada nas análises de Butler (2003), que defende que o gênero é “performático” e que o binário não abre espaço para todas as formas possíveis do gênero como identidade. A expressão de gênero na infância a partir de comportamentos, vestimentas, brinquedos e brincadeiras das filhas e filhos transgêneros, aparece como um território desconhecido, de tensão e negação nos relatos das mães. Assim, narra Roseli, mãe do Rodrigo, um jovem transgênero também de Sorocaba, em São Paulo, que antes da transição se chamava “Ana Clara”: Aos 10 anos de idade “a Ana Clara” começou a ficar um pouco “agressiva”, só queria usar roupas pretas, unha preta, cabelo preto, só queria ficar de moletom, mesmo no calor saía com aquele moletom e capuz para a escola, começou também a ficar afastada das pessoas… Eu e “Ana Clara” sempre brigamos muito por causa de roupa... sempre aceitava a vestimenta feminina chorando, desde “pequenininha”. Além do incômodo em vestir roupas de menina, quando a “Ana Clara” tinha 6 anos, eu me lembro que dei uma boneca grande para “ela”. Cheguei em casa, coloquei o pacote com a boneca no chão e “ela” só rasgou um pedacinho do papel, olhou e falou: “Ah, uma boneca”, deixou o pacote, virou e saiu. Quando os conflitos com as roupas começaram a ficar mais intensos eu procurei uma psicóloga. Ela falou: “Então, vamos combinar assim mãe, “Ana Clara” você pode vestir a roupa que quiser. Depois dessa conversa com a psicóloga, um dia eu levei a “Ana Clara” em uma loja e falei: “Vamos comprar roupa”. Eu fui com “ela” até a parte masculina e falei: “Hoje vai ser diferente, escolhe o que você quer”. Depois da roupa, veio o cabelo, que ela raspou. (ROSELI, mãe de Rodrigo. Entrevista realizada em 06/01/2020) Observa-se no relato da mãe que os conflitos iniciais de gênero na infância de Rodrigo se manifestaram pela expressão dentro de uma concepção social do que é masculino e feminino. Isso pode sinalizar que “os sujeitos também se identificam social e historicamente, como masculinos e femininos e assim, constroem suas identidades de gênero” (LOURO, 1997, p. 26). Aqui, volto o olhar para o movimento das portas do armário que regulava a vida de “Ana Clara” na infância e que passava a regular a vida de Roseli também. A mãe percebe que embaixo do moletom quente que “Ana Clara” usava em dias de calor intenso estava um corpo sufocado pela “norma” social, sedento em abrir a porta e respirar uma liberdade ainda desconhecida. Roseli também temia essa liberdade enquanto mãe. Quando Roseli leva “Ana Clara” até o setor de “roupas masculinas” de uma loja e deixa que o corpo de Rodrigo exista, recebendo as roupas que permitam sua pele de respirar e além disso, que esse corpo passe a 111 transitar despido de um passado aprisionado e vestido de sua identidade de gênero, Roseli, saiu do armário. Em uma sociedade permeada por dicotomias rígidas, não estranhamos que as mães entrevistadas tragam em suas memórias percepções e dores muito similares vividas com seus filhos transgêneros na infância. Mas queremos ressaltar aqui o processo atento de escuta e acolhimento resultante de um importante impacto nas relações familiares e sociais de suas filhas e filhos. Quando procurei Renata para ouvi-la, esta mãe estava no calor das vivências da transição de gênero da filha Amanda. Aproveito para situar que das cinco mães entrevistadas, Renata foi a que viveu mais cedo esse processo com “o filho Evandro”, nome de registro de nascimento. Aos 2 anos e 8 meses “o Evandro” começou a falar que “ele” era errado, que o corpo “dele” estava errado. Com 3 anos “ele” começou a falar que queria cortar o “pipi”. Eu flagrei “o Evandro” com uma tesourinha infantil nas mãos, puxando o “pipi”, “Ele” olhou para mim e falou: “Tá errado mãe, eu vou cortar”. Eu entrei em pânico, levei um susto enorme, tirei a tesoura das mãos “dele” e disse: “Pelo amor de Deus, “filho”, isso vai te machucar, vai sangrar, vai doer”. Eu corri para a internet… Nas primeiras informações que apareceram constavam questões de transexualidade. Eu resolvi observar “o Evandro” mais um pouco... “O Evandro” sempre quis brincar de boneca, brincadeiras que a sociedade diz ser de meninas. “Ele” também gostava de pegar as minhas coisas, sapatos, maquiagens, roupas, mas eu dava um jeito de desviar a atenção “dele”, de tirar as minhas coisas dele...Eu tenho uma irmã mais nova, ela ama a Amanda. Minha irmã sempre deixou “o Evandro” brincar da forma que “ele” quisesse... mas, eu relutava, deixava “ele” brincar um pouquinho e logo tirava”, escondia tudo. Eu não queria, eu não estava aceitando aquela vontade “dele”. Eu tentava negar um pouco aquela informação... Eu achava que o pai brincando mais com “ele” de jogar bola, carrinho, que desta forma “o Evandro” pudesse mudar o interesse pelo universo feminino. (RENATA, mãe da Amanda. Entrevista realizada em 24/01/2020) Os conflitos narrados por Renata duraram até que ela buscasse informações sobre pessoas transgêneros e identificasse as dores da filha. Cabe nesse ponto pensarmos que um “corpo errado”, como narra Renata sobre a manifestação da filha, também se encaixa no contexto das construções sociais ao longo dos tempos. Sobre essa ótica, Favero (2020) faz uma provocação a partir da concepção do nascimento de um ser, que já ocorre diante do que a pesquisadora nomeia de “berço generificado”: Quais os arranjos que permitem que um corpo seja encarado como correto ou equivocado? Situar uma configuração física como inadequada por outro lado, é um processo que pode servir para sustentar uma concepção normativa, onde pênis = masculino e vagina = feminino?... É importante questionar se a diferença está no corpo ou na cultura. (FAVERO, 2020, p.54) 112 Voltando às narrativas, pensa-se que acolher esses conflitos, procurar conhecimento, para, então, abraçar as angústias das filhas e filhos e atravessar com elas e eles as portas do armário, aparecem como um processo fundamental para todas as mães ouvidas. Esses contextos de informação e acolhimento trazidos pelas mães vão de encontro ao trabalho realizado pela pesquisadora Edith Modesto, que é fundadora do GPH – Grupo de Pais de Homossexuais, ONG criada no Brasil em 1997. Apesar de levar em sua sigla apenas o PH (Pais de Homossexuais), o projeto atende mães e pais de pessoas de toda a comunidade LGBTQIA+ em dezenas de cidades do Brasil com grupos de apoio e mediação de conflitos que envolvem questões de gênero e sexualidade das filhas e filhos. Por muitos anos, Edith Modesto, que é mãe de um homem gay, se dedicou a criar pontes para que mães, pais e filhos fortalecessem suas relações entre família e outras relações sociais. A partir da experiência pessoal com o filho, em um exercício de empatia com mães e pais, ela narrava sua jornada de re (existências) Brasil a fora e ouvia outras famílias, criando redes de conhecimento e apoio entre mães e pais. Edith Modesto se especializou em diversidade sexual e escreveu muitos artigos e livros a partir de suas dores e a experiência inicial com o filho. “Eu escondi a revolução que eclodiu dentro de mim”. (MODESTO, 2008, p. 20). No livro Mãe Sempre Sabe?, o mais conhecido de Edith Modesto, a pesquisadora conceitua o armário como um dispositivo cruel de regulação de vidas, que está sempre a postos para esconder as identidades e camuflar qualquer entendimento das mães à essas identidades. Na mesma hora em que os filhos saem do armário, as mães entram. (MODESTO, 2008, p. 25). Edith Modesto trouxe as experiências para a teoria e movimentou a revolução na vida de muitas mães e pais de filhos transgêneros. A partir do trabalho que Edith Modesto desenvolveu e considerando redes assim criadas como ONGs , Coletivos e Movimentos Sociais, que englobam dores, conhecimento e ações concretas, podemos dizer que a teoria a partir das vivências reais, quando praticada e absorvida, pode vir a ser um núcleo de potência mobilizadora. Além de Edith Modesto, quem também recorreu à teoria como um movimento de ampliação de vozes e caminho para a liberdade foi a professora e escritora americana negra bell hooks. Ela experienciou “a teoria como prática libertadora”. No livro Ensinando a transgredir: A Educação como Prática da Liberdade, bell hooks explica o caminho inicial desse movimento: “Cheguei à teoria porque estava machucada… Cheguei à teoria desesperada, querendo compreender – aprender o que estava acontecendo ao redor e dentro de mim. Mais importante, queria fazer a dor ir embora”. (HOOKS, 2017, p. 83). 113 A professora bell hooks se apropriou da dor e da teoria para construir afetos iguais na educação, enquanto a revolução que Edith Modesto teoriza como uma eclosão que a princípio ela escondeu dentro de si, primeiro se fez dor, mas criou movimentos na vida pelo amor. Ações mobilizadoras como de Edith Modesto e bell hooks podem nos conectar a histórias como a de Irene, mãe de Juliano, um jovem transgênero de Campinas, interior de São Paulo. Ela passou grande parte da infância de seu filho acumulando dores em forma de dúvidas pelo que ainda lhe era desconhecido. Ainda sem informação para identificar e dar nome às experiências que vivia, para Irene, não poderia existir formação de teorias, tam pouco ações práticas. Pouco tempo depois de seu filho Juliano completar 22 anos, a mãe me recebeu em sua casa. Em alguns minutos de conversa, ela me conta entusiasmada que Juliano já fez a cirurgia de adequação/ mastectomia e “teoriza”: “Estamos todos muito felizes. Ruim mesmo é viver o que não somos”. (IRENE, mãe de Juliano. Entrevista realizada em 09/01/2020). Pode-se ater que essa já é parte importante da teoria construída por Irene. Só então, depois de mostrar sua felicidade com o momento presente, é que Irene traz as memórias da infância de “Beatriz”, nome de registro de nascimento de Juliano. Voltamos, portanto, às questões de expressão de gênero. “Desde “pequenininha”, eu percebia que “a Beatriz”, não ficava feliz quando entrava em uma loja de brinquedos, era um lugar de incômodo para “ela”. Imagine só uma loja de brinquedos para uma criança de cinco anos , é um paraíso, mas para “a Beatriz”, não era, ela ficava acanhada, andava pela loja, olhava tudo e escolhia sempre a mesma coisa: bolinha de sabão”... O armário do quarto “da Beatriz” sempre estava cheio de tubinhos de bolinha de sabão. Hoje vejo que “ela” mantinha os desejos de brincar reprimidos, guardava tudo naqueles tubinhos, só que naquela época eu não conseguia fazer essa leitura. (IRENE, mãe do Juliano. Entrevista realizada em 09/01/2020) A partir do relato de Irene sobre as “preferências” da filha” na infância e suas expressões na contramão da heteronormatividade, que deseja indicar que “Beatriz”, de acordo com o gênero designado ao nascer, “deveria” voltar o olhar para os brinquedos, que são associados ao gênero feminino e não masculino. Aqui nos aproximamos dos “scripts” de gênero, que, na perspectiva de Zanette e Felipe (2016), são: [t]ensionados pela transexualidade...Entendemos que na medida em que a/o trans expressa um gosto ou comportamento tido como sendo do gênero diferente ao seu sexo biológico, ele/ela está demarcando um script de masculinidade e/ou feminilidade e ao mesmo tempo desestabilizando as normas propostas para cada gênero (ZANETTE; FELIPE, 2016, p.40). 114 Ressalto que a mãe/família também está inserida no mesmo ambiente tensionado, dentro de um armário com portas reguladas, que Irene só conseguiu abrir e sair na pós-adolescência de Juliano. As travessias e o tempo dessas passagens para cada mãe, a partir dos relatos da pesquisa, denotam a infância como o período de maior questionamento e pensamentos relutantes velados pelas mães. Observa-se uma preocupação de se “perder” o momento da infância para questões que, no entendimento das mães, aparecerão com mais clareza na adolescência, período da vida que já se espera manifestações de formação das identidades. D e acordo com os discursos de teorias da psicologia do desenvolvimento César (1998) ou como sugere Heilborn (2012, p. 59): “A adolescência/juventude é a etapa da vida em que representações, valores, práticas, papéis e condutas sociais são consolidados”. Nesse ponto, considero relevante observarmos que o conceito de adolescência a partir da psicologia é problematizado em sua teoria e quatro das mães ouvidas na pesquisa narram justamente esse período como o ponto alto em que suas filhas e filhos sentiram a necessidade absoluta de expor a não conformidade com o gênero designado, enquanto a quinta mãe, que tem uma filha ainda na infância, relata a preocupação com a chegada desse período também. Sobre esse momento da vida do indivíduo, César (1988) discorre: A ciência da “adolescência” vem construindo e reafirmando uma idéia de ‘crise’, que já estava presente no momento fundador da caracterização dessa ‘fase’ da vida, e que ainda hoje povoa os textos sobre a “adolescência”: os “adolescentes” estão em ‘crise’, a “adolescência” é uma ‘fase de crise’. Já desde as primeiras investigações científicas, a “adolescência” foi estabelecida como uma ‘fase’ de ‘ajustes’ necessários em relação aos parâmetros estabelecidos de maturidade, e essas ‘difíceis’ acomodações foram interpretadas como responsáveis por ‘tempestades’ e ‘tormentas’, pelas quais os “adolescentes” passariam inevitavelmente. Do começo do século até suas últimas décadas, os especialistas não cansaram de repeti-lo... Estes dispositivos psicologizantes permanecem ainda hoje na mentalidade e na prática das instituições escolares, traduzindo a antiga ideia da formação do ‘sujeito higiênico’ em termos da formação e produção do ‘sujeito feliz’. (CÉSAR, 1998, p. 1 e 11). Diante desse conceito, observa-se um ‘resguardo’ das mães colaboradoras da pesquisa na fase da infância para uma adequação de postura delas em relação às filhas e filhos no período da adolescência. O tempo da infância segurou dona Raimunda dentro do armário. O detalhe é que ela manteve a porta aberta e de lá, só observou, até que Priscila, sua filha trans, chegasse à adolescência e dona Raimunda pudesse sair desse lugar para acolher a filha ao lado de fora. Dona Raimunda é uma mulher de 64 anos, Priscila é sua quarta filha e tem 34 anos. Dona Raimunda é uma mulher evangélica, frequentadora assídua da Igreja Congregação Cristã do 115 Brasil, uma mulher à frente do tempo, que acolheu as expressões da filha na infância. Dessa forma, “Marcos”, nome de registro de nascimento do “filho” de dona Raimunda teve essa ligeira “liberdade” de expressão quando criança, ao menos dentro de casa. O Marcos” desde muito novinho, uns sete anos, não gostava muito de brincar com bola, não gostava de brincar com os meninos. “Ele” tinha muita proximidade com a prima, que é nove meses mais nova que “ele”, essa prima também morava no quintal do meu pai. Eu não achava nada demais “ele” brincar mais com a prima e gostar de boneca...Eu também comecei a notar que quando eu chegava do trabalho para almoçar ou voltava para casa no fim do dia, a minha avó sempre dizia pra “ele”: “Marcos”, eu vou fazer roupinhas para suas bonecas ou vou ensinar você a fazer. Tanto que “ele” aprendeu a colocar botões e até a fazer roupinha. (RAIMUNDA, mãe da Priscila. Entrevista realizada em 29/01/2020) Percebemos no relato da mãe uma ação orgânica de contracorrente aos moldes sociais de expressões masculinas e femininas, já que [...] o período moderno é formado por uma sociedade disciplinar que vigia e controla os corpos por meio das relações de poder. Mais do que vigiar é preciso construir um sistema capaz de moldar (sujeitar) o indivíduo, para que ele se torne passivo, útil e disciplinado, de acordo com os ditames da cultura na qual está inserido. (WEEKS, 1999, p. 51) A infância das filhas e filhos transgêneros das mães entrevistadas, foi, portanto, para elas, um período de olhares de fora para dentro do armário e de dentro para fora dele. Foi também o tempo para que essas mulheres voltassem sua observação para as camadas reguladoras das estruturas sociais e moldassem seus enfrentamentos futuros, ainda que esse processo fosse subjetivo em sua formação. A infância aqui analisada é uma porta marcadora do armário na construção de re (existências) das mães entrevistadas. Observa-se, portanto, que é a partir do olhar para a infância que as mães iniciam um processo de significar e ressignificar a construção de uma relação de afeto e acolhimento às questões que envolvem a identidade de gênero de suas filhas e filhos. As cinco mães entrevistadas olham diretamente para o período da infância no momento em que narram seus atravessamentos de dentro do espaço regulador do armário até chegar ao lado de fora. Observa-se na narração das mães uma separação das marcas conscientes e também as inconscientes de percepção da identidade de gênero. Todas recorrem ao período da infância para explanar suas jornadas de resistências, (re) existências e luta. 116 8.2 A educação Quando começamos a falar em sala de aula sobre o corpo, estamos automaticamente desafiando o modo como o poder se orquestrou nesse espaço institucionalizado em particular”. (hooks, 2017, p.183) O termo escola6 nasce do latim schola sobre o grego scholé, trazendo a ideia de lugar onde se realiza atividades interessantes e educativas. Dentro da perspectiva de Freire (1994), é importante que a escola, mais amplamente a educação que chega por ela, parta da realidade dos sujeitos, da comunidade, da educação popular, o que Freire chama de “razão de ser dos fatos”. A partir daí, pensa-se uma educação libertadora, com base no pensamento que traz o indivíduo ao modo de conscientização, ela acontece com a leitura e problematização do mundo, buscando transformá-lo radicalmente a partir do diálogo e da ação. Pensa-se a educação como o espaço dialógico, lugar em que a escuta e a troca de saberes acontecem com olhar às diferenças e acolhendo-as para uma educação igual para todas e todos. Desconstruir estruturas separatistas de gênero, raça e classe para reconhecer a presença do outro também é uma forma que bell hooks (2017), assim como Paulo Freire e inspirada por ele, defende como educação libertadora. Ela narra esse processo a partir de suas próprias experiências escolares no momento em que se sugeriu uma mudança na disposição da sala de aula que, ao invés de os alunos sentarem-se em fileiras, passassem a sentar-se em círculo, onde todos poderiam se olhar, se conhecer e se reconhecer enquanto humanos naquele espaço de conhecimento em que “as fronteiras são transpostas, as diferenças são confrontadas, a discussão acontece e a solidariedade surge” (HOOKS, 2017, p.174), carregando daquela experiência um olhar humanizado às diferenças, acreditando-se que é pela vida diária, nos pequenos espaços, que se constrói a revolução. Na escola, quando a criança estabelece as primeiras relações sociais fora do vínculo familiar, é esperado por parte da família que a realização de atividades educativas promova a inserção daquela criança ao universo do aprendizado, conhecimento, saber, e que a partir daquele lugar os afetos humanos sejam ampliados para além dos laços internos. A criança passa a ser “incluída” e “conduzida” ao desenvolvimento para se localizar como ser pertencente e pensante no mundo. Mas, nem sempre essa inclusão acontece em sua plenitude como observamos nos relatos das mães entrevistadas. 6 Definição completa do termo em https://etimologia.com.br/escola/. Pesquisa realizada em 03/10/2020 117 “Quando ela mudou para a primeira série, ela já começou a ser excluída do grupo, mudou de sala, de horário, as crianças não aceitavam, ela começou a ficar a parte do grupo... No primeiro ano, eu não percebi muito, eu achava estranho por ela ser muito aberta, muito comunicativa e estar ali isolada [...] Mas, depois isso ficou claro, era mesmo por causa dos gostos dela, por ela ter nascido “menino”, mas se ver como menina, era um conflito.... No segundo ano...começaram os bullyings e a professora começou a perceber algumas coisas e me passar. Os meninos chamavam ela de menininha, falavam que ela era estranha, esquisita, que era nojenta... No terceiro ano... começou o bullying físico de empurrar ela na escada, tava bem complicado. Na sexta-feira ela já começava a chorar porque tinha que voltar na escola na segunda”. (RENATA, mãe da Amanda. Entrevista realizada dia 24/01/2020). O relato desta mãe nos leva à mesma porta do mesmo armário regulador da infância, mas “[na] escola, indivíduos que escapam da sequência heteronormativa e não conseguem se ocultar, arriscam-se a serem postos à margem das preocupações centrais de uma educação supostamente para todos (as) ”. (BUTLER, 1999, p. 151) As 5 mães de pessoas transgêneros ouvidas, em algum momento precisaram travar questionamentos e embates no espaço escolar para legitimar a presença dos corpos de suas filhas e filhos no lugar do conhecimento, as questões aparecem tanto dentro da instituição, quanto no ambiente que cerca a comunidade escolar e acadêmica. Há casos em que essa (re) existência das mães teve início ainda nos primeiros anos escolares e outros, em períodos adiantes, do ensino fundamental até a universidade. “...educação física, não teve quem fizesse ela fazer uma aula. Eles me chamaram lá, os professores na época...eu tive que levar no médico, ela tem mesmo um problema no joelho, mas naquela época não era só por causa do joelho, ela não gostava, aí o professor chegou e falou pra mim: “Olha... não tem como eu eliminar ou deixar ela sentada todas as aulas, tem que participar ao menos que a senhora leve ao médico e traga um atestado... aí eu levei ao médico, ela tinha dor, mas ela não queria fazer educação física por nada... e já é do próprio extinto né? Eu creio né? O médico deu um atestado, porque realmente ela tinha esse problema no joelho, mas com o tratamento ela poderia fazer, mas ela falava: “Mãe, você me tira da escola se eu tiver que fazer educação física”. Não gostava de jogar bola, de vôlei, não gostava nada de esporte, acho que é porque aí tinha que fazer com os meninos e ela já vinha sofrendo tudo, desde mais novinha”. (RAIMUNDA, mãe da Priscila. Entrevista realizada em 23/09/2019) Percebemos no relato de Raimunda que as memórias escolares de mãe em relação à ocupação daquele espaço pela filha são marcadas por traumas provocados pela divisão de gênero. Nesse sentido, Pelúcio (2014) nos faz uma provocação: Por quê... desde pequeninos...meninos… não aprenderam a valorizar o feminino como uma condição comparável à do masculino, como forças complementares, e não hierárquicas. Foram reprimidos, quando não ridicularizados, todas as vezes que fizeram coisas associadas socialmente às mulheres, ao menino?... Da mesma maneira 118 que hoje em dia, achamos natural, leia-se “correto”, que meninas sejam menos ágeis nos esportes, assim como em raciocínio matemático. Ainda fazemos filas exclusivas para meninos, separados das filas das meninas. Reproduzimos este procedimento muitas vezes sem crítica, exatamente porque os naturalizamos, não vemos problemas nele. E haverá problemas nessa divisão?... A pergunta é simples, mas a resposta não, pois nos obriga a emergir em um rol de outro questionamento, sobre nossas práticas diárias, seja na sala de aula, no pátio do recreio, na sala dos professores ou durante reuniões com pais. (PELÚCIO, 2014, p.107) A partir dessa provocação da autora sobre o pensar macro na construção e divisão dos gêneros no ambiente da escola, encontramos um desafio para a desconstrução dessa divisão, que começa com o corpo escolar aceitando que o sistema existe e propondo a virada de chave dele. [a]s possibilidades de viver os gêneros e as sexualidades ampliaram-se. As certezas acabaram. Tudo isso pode ser fascinante, rico e também desestabilizador. Mas, não há como escapar a esse desafio. O único modo de lidar com a contemporaneidade é, precisamente, não se recusar a vivê-la. (LOURO, 2008, p.23) Nos dois relatos de mães que veremos a seguir, observa-se que as mães voltaram seus olhares às tristezas que seus filhos vinham sentindo no espaço escolar ligadas às inconformidades com os aspectos do corpo e aparência, além de exclusões sociais naquele ambiente. Com 11 anos ele começou a ficar muito triste na escola...ele começou a relatar pra gente que não tinha amigo na escola, que passava o intervalo sozinho... pediu muito pra mudar de escola. Foi então que ele veio contar que ele tinha se identificado como trans, ele procurou na internet o desconforto que ele sentia e leu sobre disforia . (BRÍGIDA, mãe do Alex, entrevista realizada em 08/01/2019) O Rodrigo começou com tristeza e malcriação por causa da vestimenta...eu acho que dentro das escolas deveria ter mais orientação para os pais, desde lá dos pequenininhos, porque conforme os anos vão passando, eles vão tendo o entendimento que cada um é um...” (ROSELI, mãe do Rodrigo, entrevista realizada em 08/01/2019). A disforia7 citada pela mãe de Alex, que ele buscou entender e que a mãe de Rodrigo conta que ele também sofria sem saber ainda o sentido, é, de acordo com a SBP (2020): [U]m desconforto ou sofrimento causados pela incongruência entre o gênero atribuído ao nascimento e o gênero experimentado pelo indivíduo [...] As crianças podem expressar a certeza de serem do sexo oposto ou não estar feliz com suas características sexuais, preferindo roupas, brinquedos, jogos e brincadeiras culturalmente ligados ao outro sexo. O grau dessa inconformidade pode ser de leve a intensa, associada ou não 7 O guia prático da Sociedade Brasileira de Pediatria, 2020, em suas páginas 2 a 4, traz a definição completa de disforia de gênero. https://www.sbp.com.br/fileadmin/user_upload/19706c-GP_-_Disforia_de_Genero.pdf. Pesquisa realizada em 04/101/2020 119 a distúrbios de internalização como ansiedade, depressão e isolamento social. (SBP, 2020, p. 2- 4). Vemos até aqui, de acordo com as mães, que corpo e mente de filhas e filhos estão unidas em sensações. Suas conformidades e inconformidades também se manifestam por eles. O corpo está no eixo central das expressões e das regulações não apenas das pessoas trans, como de todos nós. Nós todos somos vigiados, porém há corpos e identidades que ocupam espaços de reconhecimento e outros de desvios, que passam a ser isolados ou perseguidos e punidos, já que os corpos carregam marcas de convenções sociais. As marcas devem nos "falar" dos sujeitos. Esperamos que elas nos indiquem - sem ambigüidade - suas identidades. Gênero? Sexualidade? Raça? Aparentemente seriam evidentes, "deduzidos" das marcas dos corpos. Teríamos apenas de ler ou interpretar marcas que, em princípio, estão lá, fixadas, de uma vez e para sempre. Então, ficamos desconfortáveis se, por algum motivo, nossa leitura não é imediatamente clara e reveladora; se, por algum motivo, não conseguimos enquadrar alguém (ou a nós próprios) numa identidade a partir da aparência de seu corpo. Afinal, o sujeito é masculino ou feminino? É branco ou negro? O corpo deveria fornecer as garantias para tais identificações. Pretendemos reconhecer a identidade - aquilo que o sujeito é - e, ao mesmo tempo, estabelecer o que ele não é - a diferença... Esquecemos de indagar a respeito das razões porque certas características (um pênis ou uma vagina, a cor da pele, o formato dos olhos ou do nariz) são tão especiais; deixamos de perguntar por que esses e não outros elementos (as orelhas, o tamanho das mãos ou dos braços, por exemplo) foram escolhidos como definidores de uma identidade sexual, de raça, étnica ou de gênero. Esquecemos que a identidade é uma atribuição cultural; que ela sempre é dita e nomeada no contexto de uma cultura. (LOURO, 2000, p.61 e 62). Na escola, de acordo com Louro (2000), os corpos que não atendem ao rigor da cisnormatividade e heteronormatividade são colocados à margem do conhecimento e, são despertencidos daquele espaço, corpos que são silenciados a partir de suas expressões de gênero. As tecnologias e as estratégias propostas falavam que as professoras e professores deveriam organizar situações-estímulo, prever condições facilitadoras da aprendizagem, promover o diálogo, favorecer a conscientização. Mas o corpo não era nomeado, ele parecia de fora, por fora. (LOURO, 2000, p.61) Para diminuir esse distanciamento criado entre mente e corpo é preciso que o corpo, não apenas dos alunos, como também dos professores, esteja presente naquele espaço, seja visto, sentido, ouvido e falado, como a teórica americana bell hooks (2017) observa. As pessoas entram na sala para ensinar como se apenas a mente estivesse presente, e não o corpo. Chamar a atenção para o corpo é trair o legado de repressão e negação que nos foi transmitido pelos professores que nos antecederam, em geral brancos e do 120 sexo masculino.... Para além da esfera do pensamento crítico é igualmente importante que entremos na sala de aula “inteiras”, não como “espíritos desencarnados”. (HOOKS, 2017, p. 253). O corpo silenciado no espaço do conhecimento e seus estereótipos moldados não estão apenas dentro dos muros escolares, eles envolvem a comunidade na universidade também. No relato a seguir, a mãe recorda-se da dificuldade em encontrar uma república estudantil para o filho trans. Atentamo-nos, pelas memórias da mãe, às barreiras da ocupação do corpo naquele espaço de corpos que “deveriam” ser livres e diversos. “Ela” tinha ido pra Piracicaba fazer faculdade, eu fui junto e comecei a procurar república estudantil...“Ela” foi numa república de meninas e ficou um certo desconforto, porque “ela” tinha uma aparência muito masculina. Até que a gente achou por indicação uma república que era de meninos, que tinham meninos gays e numa conversa entre eles, resolveram mudar a república pra mista, pra poder ter a situação de lésbica, de gay, de bi, de tudo... (IRENE, mãe do Juliano, entrevista realizada em 09/01/2019). Identifica-se nas entrevistas que 3 das 5 mães ouvidas na pesquisa tiveram que abrir enfrentamentos com a comunidade escolar para que filhas e filhos fossem reconhecidos dentro daquele espaço de acordo com sua identidade e expressão de gênero e que tivessem a possibilidade de viver o gênero na escola tanto na concepção do espaço físico como de relações. As re(existências) aqui se localizam a partir de forças para que essa aluna ou aluno transgênero seja, como abordado por Freire (2000, p. 110) quanto discorre sobre o educando e educanda, “um ser da intervenção no mundo (...) e por isso mesmo deve deixar suas marcas de sujeito e não pegadas de puro objeto”. … A partir de então, começou a batalha na escola... a Amanda prontamente começou a usar o banheiro das meninas, sem pedir pra ninguém... Quando as crianças da escola começaram a levar essa informação pra casa, tivemos alguns problemas”. (RENATA, mãe da Amanda. Entrevista realizada em 24/01/2020) Um dia, logo que ele já tava terminando o fundamental, a coordenadora me chamou e falou que o Alex tava muito triste, que andava cabisbaixo. Eu falei: “Olha, o Alex é um menino trans”. (BRÍGIDA , mãe do Alex. Entrevista realizada em 29/01/2020) … tinha um amigo dela, que adorava bater nela lá na escola… eu trabalhava lá e ela subia “correndinho” chorando: “Ai mãe, o Anderson me bateu”, aí um dia eu me esquentei e falei: “‘Marcos’ , hoje eu vou falar uma vez só, se você não descer lá e fazer o mesmo com ele quando você chegar em casa você vai apanhar…”. Ela desceu “correndinho”, pegou uma vara, o menino tava no gira gira e ela bateu nele e aí o menino abriu a boca, daí a diretora me chama e eu falei: “A senhora vai me desculpar, mas hoje eu mandei bater, porque eu não aguentava mais, todos os dias. (RAIMUNDA, mãe da Priscila, entrevista realizada em 22/10/2019) 121 Para reflexão sobre as narrativas acima, recorro a Tiffany Odara, mulher trans, preta, pesquisadora, que em seu livro Pedagogia da Desobediência: Travestilizando a Educação tece a crítica: [...O tempo passa, mas o alvo continua sendo o mesmo, as pessoas negras, gordinhas, com deficiências, ou até mesmo, aqueles que apresentam traços de sexualidade e gêneros “fora do padrão”... São necessárias algumas mudanças: a escola precisa assumir o seu papel, que é transformar o que está imposto e exposto...A pedagogia da desobediência carrega em seu bojo elementos elaborados a partir da insubmissão a uma ordem cisgenerificada , que vem valorizando uma única maneira de ser estar no mundo...Diz respeito a um projeto desobediente que promove perspectivas educacionais sob a luz da organicidade insurgente das travestis...toda essa bagagem vem acompanhada da estratégia de travestilizar as normas vigentes de políticas educacionais , assim como currículos excludentes que dialogam diretamente com os conhecidos e chamados de padrões dominantes]. (ODARA, 2020, p. 85-95) O silenciamento das instituições de ensino e toda a comunidade escolar frente às questões que permeiam a vida de pessoas transgêneros aparecem nas entrevistas como uma espécie de “protocolo”, um “ordenamento” dos lugares sociais. É como se não houvesse “brecha” alguma para viver a transgeneridade e falar sobre ela dentro da escola. As instituições parecem sentir-se despreparadas e muitas vezes até “envergonhadas” para realizar uma roda de conversa com pais, professores e principalmente os alunos. Não existe círculo, o que se ouve a partir das mães, forma o desenho similar de uma estrutura vertical rígida. Para pensarmos sobre a dimensão do ser transgênero e do ser mãe de transgênero lutando pelo direito de filhas e filhos existirem dentro da sociedade atual, recorro às palavras de Jaqueline Gomes de Jesus, que, a partir de seu lugar de fala, enquanto mulher transgênero e de pesquisadora acadêmica na área de estudos de gênero e sexualidade, amplia-nos o conhecimento acerca do poder das representatividades. No mundo contemporâneo, mais que vivenciar uma identidade de gênero, ser transgênero corresponde a representar uma identidade política, pautada pela desconstrução da crença em papéis de gênero considerados “naturais”, construídos biologicamente; e pela visibilização de identidades particulares historicamente estigmatizadas, tornadas invisíveis em determinados espaços sociais considerados “normais”. (JESUS, 2012, p.12) Quando o adolescente Alex foi procurar a coordenação da escola em que estudava para relatar sua tristeza, após se identificar como transgênero, quase no fim do ensino fundamental, a resposta veio em tom de silêncio. Ele disse que ele queria uma palestra na escola sobre transexualidade e ela não deu atenção. Quando eu falei ela disse: “Ele veio me procurar e eu fiquei de dar uma 122 resposta”. Eu falei que já tinha uma palestra pronta pra dar do trabalho que fiz na faculdade de psicologia, ela disse que ia passar para a diretora avaliar. Mandei vários e-mails cobrando e nunca tive resposta”. (BRÍGIDA, mãe do Alex. Entrevista realizada em 29/01/2020) Observamos no relato da mãe que o próprio filho, sentindo a limitação na ocupação de seu lugar, procurou a coordenação da escola para pedir uma conversa ampliada sobre questões de gênero, mas o silêncio se fez presente. Recorremos a Freire (1996) para pensar a necessidade de diálogo a partir da demanda trazida pelos alunos e que também abre portas à socialização, inclusão e quebra de paradigma das diferenças: A curiosidade como inquietação indagadora, como inclinação ao desvelamento de algo, como pergunta verbalizada ou não, como procura de esclarecimento, como sinal de atenção que sugere alerta, faz parte integrante do fenômeno vital. Não haveria criatividade sem a curiosidade que nos move e que nos põe pacientemente impacientes diante do mundo que não fizemos, acrescentando a ele algo que fizemos (FREIRE, 1996, p.32). No entanto, parece não ter acontecido esse diálogo necessário nas lembranças narradas. À mãe da menina Amanda, a escola também “sugeriu” o silêncio diante de outras mães e pais no que diz respeito a identidade de sua filha. A diretora me pediu para não publicar coisas no grupo de pais no whatsapp, informações sobre transexualidade, porque estava gerando muito conflito”. (RENATA , mãe da Amanda . Entrevista realizada em 24/01/2020). Silenciar a transexualidade é uma forma de esconder a diversidade, as diferenças e legitimar a transfobia, assim como qualquer tipo de preconceito, desde os primeiros anos na escola. O silenciamento também pode provocar a sensação de despertencimento da aluna ou aluno transgênero dentro do espaço escolar e a escola pode culminar em contribuir para a exclusão dessas pessoas nesse lugar. Pensando nas diferenças de uma forma mais ampla, que abarque a diversidade no espaço escolar como algo rico em humanidades, tal como apontado por hooks (2020), quando defende a inserção de políticas feministas nos mais diversos lugares. A proposta fundamental da autora é trazer a abordagem feminista para todos os espaços, inclusive os da educação, como forma de rompimento das estruturas de dominação excludentes interseccionando de gênero, raça e classe. Nesse ponto, hooks considera essencial a abordagem feminista na teoria e prática desde os primeiros anos na escola: 123 A literatura infantil é um dos locais cruciais para a educação feminista, para a conscientização crítica, exatamente porque crenças e identidades ainda estão sendo formadas. E, com muita frequência, os pensamentos retrógrados sobre gênero continuam sendo a norma nos parquinhos. A educação pública para crianças precisa ser um local onde ativistas feministas continuem fazendo o trabalho de criar currículos sem preconceito. Movimentos feministas futuros precisam necessariamente pensar em educação feminista como algo importante na vida de todo mundo. (hooks, 2020, p.46) . Entende-se que silenciar as questões de gênero na escola é permitir um lugar vazio em diálogo. No silenciamento, a escola se torna muro entre os iguais e diferentes, reproduzindo o discurso hegemônico, de modo a destruir diálogos antes mesmo de serem construídos. Olha, eu acho que na escola não se faz muita questão de conversar sobre isso. A maioria dos pais não aceita por exemplo, que tenha aula de...gênero e sexualidade... Professor nenhum, nunca chegou e falou pra mim...e olha que eu trabalhava na escola...ninguém nunca veio conversar comigo. (RAIMUNDA, mãe da Priscila. Entrevista realizada em 23/09/2019) Observa-se nas 5 histórias narradas pelas mães, que o círculo do conhecimento, desde a pré-escola até a universidade, tornou-se e ainda se mantém ruidoso para as filhas e filhos transgêneros, diante dos enfrentamentos para preservar viva a chama do aprender e desenvolver, como também de construir, como diria Freire (1994), a “unidade na diversidade”. A menina Amanda, de nove anos precisou mudar de cidade e escola, na tentativa de encontrar inclusão e vínculos no ensino fundamental. Apresentou sua identidade e, desde então, a mãe luta para reafirmá-la e legitimá-la todos os dias. Das crianças, a maioria acolheu com bastante tranquilidade, da parte dos profissionais teve muita dificuldade, muita. A coordenadora pedagógica quase teve um “treco”, ela veio me falar que na época que me entrevistou pra entrar na escola eu não tinha falado da questão de gênero da Amanda. A diretora foi fantástica. Ela falou: “Olha, Renata, é novidade pra gente, teremos muito a enfrentar, conforme os pais forem chegando com as dúvidas nós vamos lidando, a escola prefere não fazer uma reunião geral e vamos lidar com as situações conforme elas chegarem. Eu prefiro conduzir dessa maneira”. (RENATA, mãe da Amanda. Entrevista realizada em 24/01/2020) O adolescente Alex, de 15 anos, após relatos de solidão, onde cursava a segunda fase do ensino fundamental, mudou de escola faltando pouco tempo para terminar esse período de estudos. Ele ainda também tenta se sentir parte da escola e a mãe se coloca inteira à frente do filho. Ele insistiu pra mudar da escola e nós começamos a questionar... ele não queria de jeito nenhum continuar lá... Eu fui pesquisar outras escolas...Na outra escola ele 124 também teve problema, teve amigo que ele se abriu e ficou um tempo sem falar com ele... Agora, o Alex fez a matrícula no ensino médio... eu não sei como vai ser agora. Eu vou à escola antes de começar as aulas para tentar dar uma conversada. (BRÍGIDA , mãe do Alex. Entrevista realizada em 29/01/2020). O jovem Juliano, de 22 anos, alterou por diversas vezes seu círculo escolar. Passou todo o ensino fundamental e o ensino médio sem conseguir dizer como se sentia de verdade. Também encontrou o silenciamento da escola para essa questão. Sofreu sozinho e só ao chegar à universidade teve o acolhimento de um grupo que o ajudou a entender sua identidade de gênero. Do ensino fundamental até o ensino médio “ela” passou por 5 escolas. Aí, lá no ensino médio “ela” fez mais amizades, porque era uma escola que não tinha cunho religioso...Quando “ela” percebeu que se encontrou como trans, dentro do grupo “dela”...foi esse grupo que entendeu e ajudou em todo o processo, que mostrou o caminho, o pessoal deu muito apoio, acho que “ela” se sentiu amada a ponto de dizer: “Talvez seja isso que eu realmente sou”, acho que “ela” sentiu esse amparo. (IRENE, mãe do Juliano, Entrevista realizada em 09/01/2020) O jovem Rodrigo, de 22 anos, precisou interromper um ano dos estudos pelo desconforto que tinha com o corpo na escola. Lá, não houve quem o ouvisse sobre suas angústias e abrisse espaço para falar sobre elas. Lá morava mais uma vez o silêncio. A escuta e o acolhimento poderiam ter evitado a perda de um ano letivo. “Ele parou de estudar no último ano do ensino médio. Mas, depois fez uma prova de eliminação de matéria e terminou...” (ROSELI, mãe do Rodrigo. Entrevista realizada em 06/01/2020) Priscila, de 35 anos, viveu a escola em um período bem anterior ao de Amanda, Alex, Juliano e Lucas, quando o silenciamento para questões de gênero e sexualidade na escola eram ainda mais sufocantes. Interrompeu os estudos no fim do ensino fundamental, por não encontrar na escola espaço para existir. Priscila parou de frequentar a escola antes mesmo do tempo médio, segundo dados8 da Rede Trans de 2020. Eles apontam que 82% das mulheres transexuais e travestis deixam de estudar no ensino médio entre os 14 e os 18 anos. Nas memórias da mãe de Priscila, esse rompimento veio carregado de angústias. Ela parou na oitava, ela não concluiu na mesma escola por causa de pressão das crianças...Sabe, um monte de coisa, eles já percebiam... Depois de um tempo ela acabou indo para uma escola que tinha para adulto... Meu sonho era que ela terminasse a escola. Só muito tempo depois terminou fazendo supletivo. Eu só imagino tudo que ela passou...Ela deve ter sofrido muito na escola e não contava pra mim. (RAIMUNDA, mãe da Priscila. Entrevista realizada em 23/09/2019) 8 Levantamento divulgado na página: https://www.cadaminuto.com.br/noticia/2017/09/16/segundo-dados-da- rede-trans-82-mulheres-transexuais-travestis-e-homens-trans-abandonam-o-ensino-medio-entre-os-14-e-18-anos. Pesquisa realizada em 04/10/2020 125 Notamos em todos os relatos que a expectativa de aceitação parece se afastar muito do espaço escolar ao se tratar das questões de gênero e sexualidade. O que aparece nas entrevistas é o contrário do que é defendido por Junqueira (2012) como o necessário e o que se espera da escola, ou seja, a escola que não exclui, tampouco deixa rígida a sua estrutura de relações, que acolhe as alunas e alunos de forma humanizada e que, além de acolher, trabalha desenvolvendo atividades pedagógicas que apresentem um humano sem rigidez, moldes e regulações. Uma escola inclusiva, um espaço livre, seguro, educativo e de qualidade. Experiências que consideram que corpos, sexualidades, sujeitos, padrões culturais, normas, valores e relações humanas não constituem realidades naturais e imutáveis, mas construções em contínua transformação [...] (JUNQUEIRA, 2012, p.85). A partir das histórias ouvidas e analisando as relações que se estabelecem no interior desse grupo de mães e em seus atravessamentos à essas duas portas de armários, podemos concluir, diante da análise, que parece essencial pensarmos a construção de projetos de educação que tragam as questões de gênero em seu cerne. Destacamos, a partir das entrevistas com as cinco mães, a importância da presença dessas mulheres no ambiente da escola e quão é grande o movimento que elas promovem nesse espaço para levantar as questões de gênero e sexualidade, na maioria das vezes silenciadas. As narrativas denotam que quando a escola se nega a abordar o assunto, as mães já estão dentro do espaço em luta pelo acolhimento de filhas e filhos, assim como apesar de todos os obstáculos e dores muitas pessoas transgêneros e travestis passaram a ocupar o espaço da educação, chegando a graduação, mestrado, doutorado e pós-doutorado e por isso, cito essas pessoas aqui na dissertação. Hoje, muitas pessoas transgêneros estão lecionando e pesquisando. Observamos, portanto, que a escola é um dos espaços essenciais para se produzir reflexões e compreender a construção das identidades a partir da infância. Não é utopia pensar em desconstruir as portas desse armário e reutilizar as madeiras para construir pontes, que todas e todos possam atravessar, pontes que não esqueçam ninguém às margens do rio social. 126 9 TRANSIÇÃO DE GÊNERO: TRAVESSIAS DE RE(CONSTRUÇÕES) “Nada está dado” (FAVERO , 2020. p.3) “Não é o que o mundo tem para você, mas, o que você traz para o mundo”. (BECKETT , 2017) Começo essa categoria de análise: Transição, transitando por esse texto com um pouco de poesia. Aquela poesia que é sentida na carne do poeta. Molhado de vermelho: poemas de transição, de Guilherme Almeida, homem trans, é aquele livro de 120 páginas que nos atravessa nos rasgando de intensidade. Recorro a alguns trechos que considero simbólicos a essa categoria de análise. Te convido para alguns minutos em suspensão: Trecho da poesia Fáceis e difíceis É fácil saber que é dor e mudar de assunto. Difícil é abrir em si o mesmo corte e sentir junto. (ALMEIDA, 2018, p.31) Trecho da poesia Condomínio Quando conto minha história para alguns, arrancam-me a roupa com os olhos, comem-me as entranhas com os pelos e tudo, decompõem-me, digerem-me com azia, sou bicho raro, rebaixam-me.(ALMEIDA, 2018, p.86) Trecho da poesia O espelho ou o adeus de Maria Célia Nasceste Maria Célia, mas hoje me olhas com olhos firmes, Maria Célia. É o grande dia pelo qual choraste, pelo qual lutaste, pelo qual mudaste e do qual algumas vezes esqueceste, Maria Célia. O que foi forte na criança, fez chorar na adolescência e quase foi abandonado na idade adulta, agora pode ser Maria Célia. (ALMEIDA, 2018, p. 45) Trecho da poesia Cicatriz A ferida de ontem já tem casca. Já nasceu com casca a ferida de amanhã. (ALMEIDA, 2018, p.33) Trecho da poesia O espelho ou o adeus de Maria Célia 127 Viraste Henrique, Maria Célia. O Henrique que assinava tuas primeiras cartas de amor, Maria Célia. (ALMEIDA,2018, p.45) Um respiro fundo e abrimos a análise com o significado da palavra transição9, que vem do latim transitione e significa a passagem de um estado para outro, uma mudança. Sendo a transição de gênero o período de passagem de uma pessoa do gênero que foi designada ao nascer ao gênero que se identifica. E ssa transição demanda muito acolhimento da família, de uma rede multidisciplinar de saúde, da escola e dos círculos sociais do indivíduo. Mas, diante de uma sociedade estruturada a partir do binarismo de gênero, que naturaliza e normatiza o feminino e o masculino, a transição de gênero não se mostra um momento confortável e digno às pessoas transgêneros, assim como à família, quando, amparada de afetos e informação, acolhe e acompanha o processo. As mães de pessoas transgêneros entrevistadas na pesquisa narraram inúmeros desafios no processo de transição de suas filhas e filhos. São lutas que passam primeiro pelo entendimento pessoal das mães sobre as questões de gênero e sexualidade a partir de informações científicas, sociais e do cercar-se de outras mães, que vivenciam ou já vivenciaram o momento. O conhecimento unido aos afetos aparece ditando o ritmo das buscas, lutas, atravessamentos, enfrentamentos e re(existências) também nessa importante categoria de análise. Um dos primeiros passos no processo de transição, que aparece nas narrações das mães colaboradoras da pesquisa, surge como um grande desafio para filhas, filhos e mães. Esse passo chega antes mesmo da própria transição, consiste no entendimento da identidade de gênero e sexualidade. As cinco histórias ouvidas trazem um longo período de dores e conflitos de identidade por parte das pessoas trans e nos enfrentamentos para expor os sentimentos e sentidos às mães e às pessoas que pertencem a outros círculos sociais, além da família. Sexo e gênero se confundem em um misto de dúvidas carregadas por uma identidade ainda não reconhecida. ...uma noite. Ela disse: Mãe, “eu sou gay”. Naquela época ela não tinha reconhecido bem o que ela seria, ela falou que não era menino e não gostava de menina, gostava de menino... “Ela falou que ela não era quem eu pensava que ela era, que ela não era um menino”. (RAIMUNDA, mãe da Priscila, mulher trans. Entrevista realizada em 23/09/2019). 9 Fonte: https://pt.wiktionary.org/wiki/transi%C3%A7%C3%A3o) pesquisa feita em 23/04/2021. 128 A situação que Raimunda relata foi a primeira abordagem da filha Priscila com a mãe sobre sua identidade de gênero ao dizer que “não é um menino”. Nota-se no relato que a forma exposta pela filha, ao falar que “gostava de menino”, que era “gay”, é vista ainda como “falta de reconhecimento” pela mãe, ou ainda o não “entendimento da identidade” que se apresenta. Entende-se que a não localização da identidade de gênero no início desse processo é ancorada pela falta de referências de indivíduos LGBTQIA+ e principalmente pela invisibilidade de transgêneros imposta pela sociedade cisnormativa. Assim, o apagamento de referências abre ainda mais espaço para a reiteração e o fortalecimento de normativas sociais com base no binarismo de gênero e da condição de abjeção das pessoas transgêneros, não concedendo espaço, nem nome, à essa população e sim dando à ela o lugar da inexistência como define Berenice Bento: O tempo inteiro nós estamos vendo expressões de gênero, vivências de gênero que explodem essa coisa retilínea com uma correspondência entre desejo e genitália afetada na heterossexualidade. Tanto as ciências quanto a religião, hegemonicamente falando, ainda trabalham com essa ideia de binarismo, e tudo que foge disso é da ordem do anormal, do pecaminoso, do não inteligível, do que não tem nome. (BENTO, 2017, p.110). Recorro aqui, então, ao conceito de transexualidade, travestilidade e transgênero, para pensarmos juntas e juntos teoricamente sobre ele e seus desmembramentos. Você vai notar que o conceito se interliga ao relato trazido por Raimunda e que, mais adiante, veremos também na narração de outras mães que colaboraram com a pesquisa. Transexualidade, travestilidade, transgênero são expressões identitárias que revelam divergências com as normas de gênero, uma vez que estão fundadas no disformismo, na heterossexualidade e nas idealizações...está relacionada a capacidade dos sujeitos construírem novos sentidos para os masculinos e os femininos. A transexualidade revela com toda dor e dramaticidade os limites de uma ordem de gênero que se fundamenta na diferença sexual...Quando se diz menino/menina , não está se descrevendo uma situação, mas produzindo masculinidades e feminilidades condicionada ao órgão genital...O sexo é uma das normas pela qual se torna viável, qualificador de humanidade à matéria corpórea...A transexualidade e outras experiências de trânsito entre os gêneros demonstram que não somos predestinados a cumprir os desejos de nossas estruturas corpóreas. O sistema não consegue a unidade desejada. Há corpos que escapam ao processo de produção dos gêneros...ao fazê-lo se põem em risco porque desobedeceram às normas de gênero; ao mesmo tempo revelam as possibilidades de transformação dessas mesmas normas. Esse processo de fuga do cárcere dos corpos assexuados é marcado por dores, conflitos e medos. (BENTO, 2008, p.20-38) Encontramos, no conceito trazido por Berenice Bento, fundamentos da construção de um entendimento da genitália como definidora da identidade de gênero de um sujeito. A “ordem 129 de gênero” que a autora se refere, produz o destino dos corpos, que a transexualidade desafia resistindo à manutenção designada e imposta ao seu corpo. Ao “sistema” que a autora afirma não conseguir a unidade desejada, é apresentada a condição não binária, é desse lugar, portanto, que parte a quebra das normas de gênero. Diante desse entendimento, voltamos ao relato de Raimunda sobre a filha Priscila, que rompe a “norma” ao dizer para a mãe que “não era o que a mãe pensava que ela era, que não era um menino”. Mas, só a ruptura e o desafio ao sistema binário não são validadores para legitimar a existência da pessoa transgênero na família e sociedade. É certo que Bento (2008, p. 20), descreve que as pessoas trans “[d]esfazem a relação simplista vagina-feminino e pênis-masculino.” , mas a transição de gênero, categoria a qual discutimos nesse capítulo, encontra ainda um longo percurso para acontecer. Seguimos esse percurso das cinco mães ouvidas para trazer suas travessias juntas de suas filhas e filhos. Na época que “ele” começou a falar que era menino e começou a se ver como menino. “Ele” tinha 11 anos...Quando eu comecei a estudar os casos eu via casos de crianças que já não se identificavam com o gênero bem cedo, desde pequeno. Eu comecei a perguntar, mas porque eu não percebi isso? Nós fomos tentando trabalhar os conflitos que nosso filho estava vivendo, perguntávamos pra ele: “Como você identificou isso, porque não é menina? (BRÍGIDA , mãe de Alex, adolescente trans. Entrevista realizada em 29/01/2020). Com 5, 6 anos, quando ela tinha qualquer frustração, ela vinha me falar: “Ah porque minha vida não faz sentido, eu não posso ser eu, porque eu não posso gostar do que eu gosto, vestir o que eu quero, ela sempre me trazia esses questionamentos da vida não fazer sentido, porque ela não podia ser quem ela era”. (RENATA, mãe de Amanda, criança trans. Entrevista realizada em 24/01/2020). Podemos notar nos relatos de Brígida e Renata, que as primeiras manifestações de Alex e Amanda de não conformidade com o gênero designado chegam ainda na infância e ela, nessa categoria transição, também compõe o caminho ou o processo. Assim, o período de identificação de gênero e de expressão da identidade é entendido como o “[a]bismo que perfuramos ao dizer que desejamos outro roteiro que não aquele estabelecido no nascimento.” (FAVERO, 2020, p. 43). Entende-se aqui a palavra abismo também como um ato de resistência da pessoa transgênero e de quem a acolhe (nesse caso a mãe), também resistindo à cisnormatividade. O processo de transição de gênero narrado pelas cinco mães entrevistadas passa por configurações de construção muito similares, embora ainda tenhamos, no momento da pesquisa, filha e filhos transicionando. Nota-se a busca de uma afirmação social de si, que encontra a resistência das mães no primeiro momento. A construção dessa condição de se auto- 130 recriar é também, em paralelo, a preparação da mãe para conceber socialmente filhas e filhos com uma nova identidade. Considero importante trazer aqui trechos narrados pelas cinco mães, onde constata-se alguns passos que se conversam dentro da desconstrução e reconstrução de identidades. Nesse ponto, trazemos as questões de expressão/apresentação social. Em um determinado momento “ela” me falou que ia cortar o cabelo, tinha um cabelão, cortou um pouco curto, depois voltou com um side cut. Aí nesse momento “ela” já começou a falar: “Eu gosto de menina mesmo”. Eu tava um pouco aceitando a história, falei: “Tá certo, tá superada essa questão, você gosta de menina”, aí “ela” se aproveitou um pouco dessa história de gosto de menina, que eu já tinha aceitado a história, aí foi cortar o cabelo e voltou com os dois lados cortados, tipo um moicano. Nisso, “ela” já usava a roupa mais descolada, mas na sequência já apareceu com um bermudão mais masculino e camisetão largão e esse cabelo cortado, aí eu pirei. Eu já tinha aceitado a questão da “homossexualidade” , mas quando apareceu com a aparência mais masculina, eu pirei, passei três dias chorando, não conseguia trabalhar, não conseguia fazer nada, eu pirei total. (IRENE, mãe do Juliano, jovem trans. Entrevista realizada em 09/01/2020). ...fui com ele até a parte masculina e falei pra ele “Escolhe o que você quer”. Ele falou: “Mãe...tá todo mundo olhando”. Eu falei: “E daí que está todo mundo olhando, eu vou pagar essa conta e você vai vestir o que você quer, pode escolher”. Ele foi com vergonha e eu fui mostrando pra ele: “Olha isso vai ficar bom”, a partir daí ele começou usar a roupa que queria...Depois daí, veio o cabelo, ele me pediu: “Mãe, posso raspar um lado da minha cabeça”? Eu falei: “Não”. Chegou um dia que ele me implorou eu falei: “Pelo amor de Deus, vai lá e raspa. Aí ele foi e raspou um lado da cabeça, aí ficou feliz com um lado careca. (ROSELI, mãe do Rodrigo, jovem trans. Entrevista realizada em 06/01/2020). ...depois ela foi mudando né? cabelo...tudo né? (RAIMUNDA, mãe da Priscila, mulher trans) No começo do ano de 2019, uma frustração simples já fazia ela chorar muito e começar a questionar Deus. Um dia eu disse pra ela: “Olha, Amanda, mudar seu corpo eu não consigo, mas você pode sim viver como mulher... O que eu posso fazer, se você quiser, é comprar roupa de mulher pra você e você se veste como você quiser”. Ela parou de chorar na hora e me disse: “É verdade mãe”? Eu falei: “É verdade”. Foi em um domingo de crise, que eu falei que ela ia poder usar roupas de mulher.... Aí eu comprei 3 vestidos, depois ela só queria usar vestido, eu tive que voltar e comprar outros vestidos, roupas femininas, ela não queria mais o outro guarda roupa. (RENATA, mãe da Amanda, criança trans. Entrevista realizada em 24/01/2020). Ele foi cortando sempre o cabelo, deixava o cabelo sempre mais curto, nunca usou brinco, não usava maquiagem... agora, não depila mais, mas não tem problema nenhum...não depila axila, perna, no começo a gente meio que estranhou. (BRÍGIDA, mãe do Alex, adolescente trans. Entrevista realizada em 29/01/2020). Observa-se nos relatos que as cinco mães encontram a primeira travessia de transição de gênero de suas filhas e filhos. O auto-reconhecimento e as expressões sociais que foram apresentadas a elas e eles, aparecem nesse momento como um fator inicial, porém muito 131 importante na construção da legitimação das existências enquanto pessoas trans. Aqui, é necessário frisar que essa condição independe do tempo da vida que se estabelece, mas ela chega como o primeiro passo de autonomia de identidade, já que “[c]ada um (a) tem o seu tempo. É preciso compreender que essa atitude não é simples de se tomar, nem fácil de pôr em prática, porém é necessária, para que elas possam ser quem são por inteiro, entre seus amigos, na família, no trabalho, na rua”. (JESUS, 2012, p. 20) Vimos que entre descobertas e compreensões, aparece a expressão de gênero, condição socialmente criada e que se mantém intocável ditando como uma mulher ou homem devem se vestir e se portar na sociedade para não quebrar a sequência “determinante” de sexo e gênero. Esse fator culmina por tentar impedir a autonomia social das pessoas transgêneros. A forma visual como a pessoa se identifica e se apresenta socialmente aparece como um gerador de conflitos inicial entre a pessoa trans, família e círculos sociais. Enquanto isso, o começo do processo de transição de gênero, a partir do lugar da pessoa trans e das mães, que acolhem suas filhas e filhos, passa pela luta da localização e legitimação de um corpo dentro de um espaço social, que é controlador e normatizador de corpos, uma vez que o olhar social busca no corpo da pessoa transgênero sinais/marcas de um gênero designado conforme definição: O sistema binário (masculino versus feminino) produz e reproduz a ideia de que o gênero reflete, espelha o sexo e que todas as outras esferas constitutivas dos sujeitos estão amarradas a essa determinação inicial: a natureza constrói a sexualidade e posiciona os corpos de acordo com as supostas disposições naturais. (BENTO, 2008, p.17) Mães, filhas e filhos travam uma busca por conhecimento identitário. Esse percurso de acordo com as mães ouvidas vem carregado de estereótipos e estigmas a serem desmistificados. ...eu fui para uma boate gay, meu primo me levou pra lá, aí eu fiquei chocada e na terceira boate que eu fui, já comecei a conversar, comecei a questionar pra saber o que os LGBTs sentiam... Eu fui conversando com as pessoas pra entender se era tudo aquilo que as pessoas falavam, que os travestis só sabiam vender o corpo, que os transexuais não conseguiam emprego e fui trazendo pra casa o carinho que eles diziam pra mim que gostariam de ter da família, eu trazia para o Rodrigo. (ROSELI, mãe do Rodrigo, jovem trans. Entrevista realizada em 06/01/2020). ....Você cria uma boneca, aquele modelinho de boneca, põe vestidinho, faz trancinha, aí de repente você tem que ter o contato com um menino. Eu falei: “E agora? Como eu vou fazer essa transição”? Porque eu também tive que fazer uma transição na minha vida. Foi quando a psicóloga disse pra mim: “Você vai ter que enterrar a sua filha Ana Clara e receber o seu filho Rodrigo”. Naquele momento caiu minha ficha. (ROSELI , mãe do Rodrigo, jovem trans. Entrevista realizada em 06/01/2020). 132 Observa-se nos dois momentos da narrativa de Roseli que não somente a pessoa transgênero precisa desmistificar conceitos socialmente construídos em torno de sexo e gênero, como também a mãe precisa entender e construir nova concepção acerca das questões de corpo e identidade, porque, como descreve Bento (2008, p. 12) “a transexualidade aproxima-se da revelação de normativas sociais sobre a masculinidade e a feminilidade”. Isso explica que a partir da consciência da identidade transgênero, há também uma proximidade com uma construção de gênero. As mães aqui entrevistadas embarcam juntas nessa travessia, que em muitos momentos é composta por perguntas às vezes sem respostas, dores, conflitos e muita luta. O trecho narrado a seguir por Renata, mãe da pequena Amanda, traz a dor e o conflito de uma identidade de gênero em construção, que esbarra justamente com normativas sociais a respeito da expressão do feminino e masculino. Na volta dos Estados Unidos .... Ela estava com duas Maria Chiquinhas de pompom, bem na frente e ela não quis tirar, quando chegamos no aeroporto eu falei para deixarmos um rabo de cabelo só e ela não quis. Eu falei: “Então, na hora que tiver próximo a gente arruma o cabelo pra disfarçar. Já estava chegando próximo eu falei pra Amanda que precisava tirar a Chiquinha...naquele momento ela começou a chorar muito.... Quando chegamos aqui no Brasil ... e fiquei sozinha com a Amanda eu perguntei pra ela porque ela chorou tanto na alfândega, ela disse: “Fiquei triste de ter que tirar a Maria Chiquinha do cabelo, quando eu vou poder ter uma vida normal? ” (RENATA, mãe da Amanda, criança trans. Entrevista realizada em 24/01/2021). O constrangimento vivenciado por Renata naquele aeroporto americano, a dor de Amanda pela não validação de sua identidade de gênero e sua pergunta sem resposta são fatores, que, naquele dia, foram desencadeados pela ausência do nome social, já que nos documentos de Amanda ainda constavam o gênero “masculino” e o nome de “Evandro”. Chegamos, portanto, em um momento importante desse trabalho que discutiremos no item a seguir. 9.1 Nome social: Um chamado de re(existência) " As cicatrizes falam, mas as palavras calam" (CARLOS; CARLOS, 1982) O uso do nome social e o reconhecimento da identidade de gênero de pessoas travestis e transexuais foi regulamentado no Brasil em 28 de abril de 2016 a partir do Decreto n°8.727 da então Presidenta Dilma Rousseff. 133 O nome social representa um dos processos mais importantes na transição de gênero. A questão é trazida como chave de legitimidade da existência trans pelas cinco mães entrevistadas. O decreto foi uma grande conquista de luta da comunidade LGBTQIA+. Instituições públicas e privadas aos poucos passaram a adotar o nome de pessoas trans e travestis em seus cadastros. Porém, o que se observa a partir das entrevistas é que ainda existem resistências, algumas explícitas, outras veladas na funcionalidade dos sistemas de cadastro de algumas instituições. Conflitos com familiares e outros grupos sociais para o uso do nome é uma situação que ainda persiste também. Em contrapartida, as entrevistas revelam um movimento importante de mudança no comportamento desses círculos. A partir do momento em que as mães se sentem mais confortáveis com a identidade de gênero das filhas e filhos, elas também tomam a responsabilidade do uso do nome como uma luta. Para as pessoas trans, assim como para as mães, essa é uma ação pautada pela dignidade, pois o nome social reflete o reconhecimento legítimo da identidade de gênero que esses indivíduos construíram em suas trajetórias de vida. Como descreve Alves (2017) em sua tese de doutoramento sobre o nome social como dispositivo de identificação de gênero: [Nomear é caracterizar, personalizar e distinguir sujeitos.... Um nome revela posições ocupadas pelo sujeito no mundo – posições essas no campo subjetivo, social, profissional, afetivo, sexual, familiar, entre outros...Nomes são produzidos e compartilhados no contexto social, implicando sentidos e histórias] (ALVES, 2017, p.19-20) Tomando como base a definição do nome de uma pessoa como algo que a identifica e a localiza enquanto sujeito humano existente, trago trechos das narrações das mães, em que o nome social de suas filhas e filhos aparece como um dispositivo de luta pela legitimação da identidade, não apenas no momento em que o nome é concebido e registrado, mas também em boa parte das vezes que a importância dele é levantada e ainda em muitos espaços ou situações, que ele vira uma “questão”. Priscila, era mais difícil falar...assim de repente né...porque eu não tava ainda habituada, aí eu falei pra ela: “Olha eu vou te chamar de Pri”. Foi uma vitória muito grande, pra ela. Ela fala pra mim: “Mãe eu nasci duas vezes”. Agora, pensa a minha alegria de ver ela falando isso. Ela está se sentindo completa... Isso incomodava muito ela né...ela ia fazer uma compra em algum lugar, quando ela ia fazer um crediário, ela toda feminina ali e chamavam: “Marcos” e ela pedia para o vendedor, para chamar por Priscila. Um dia ela desfez uma compra na hora, aí o vendedor falou que ela não podia fazer isso e ela disse: “Posso, porque eu pedi um único favor e vocês não fizeram...só pedi pra chamarem no feminino”. Isso era maldade, crueldade, eu posso falar isso porque eu vi, eu convivo’. Então a Priscila fala: “Mãe, se não fosse você mãe persistir no Pri, Pri”, porque eu não admito, não admito, seja quem for se quiser tratar diferente. (RAIMUNDA, mãe de Priscila. Entrevista realizada em 23/09/2019). 134 “Com 17 anos ele já vinha conversando com algumas pessoas na internet, já tinha até escolhido o nome e eu não sabia. Escolheu nome de amigos e dele”. (ROSELI, mãe eo Rodrigo, jovem trans. Entrevista realizada em 06/01/2020) Cheguei no trabalho fiz uma reunião com todo mundo e falei: “Gente, queria pedir a ajuda de vocês: Como vocês estão acostumados com “Beatriz” e agora é Juliano, então agora, tem um apelido de transição, que foi uma amiga minha que deu a idéia, então ficou Beju, porque você vai falar e não lembra, então ficou esse apelido de transição, pra esquecer a Beatriz”. (IRENE , mãe de Juliano, jovem tran. Entrevista realizada em 09/01/2020) “No ano de 2019 , fiz o RG social dela, a rematrícula fiz com o RG social, entrei com um requerimento para que os trabalhos dela expostos na escola fossem apresentados como Amanda”. (RENATA , mãe de Amanda, criança trans. Entrevista realizada em 24/01/2020) “...quando veio o resultado do vestibulinho, veio com o nome feminino: “Janaina”. Quando fomos fazer a matrícula, a moça, falou que teria que deixar “Janaina” mesmo e que “ela” teria que falar com cada professor. Eu falei: “Moça, ele vai começar em uma escola nova, como ele vai chegar em cada professor e explicar que é um menino trans”? Aí ela falou que ia tentar lá...e deu certo... o e-mail institucional veio com o nome de “Janaina”. Eu falei pra ele, vai no primeiro dia de aula e explica... todo lugar você tem que viver se explicando... Quando você não identifica pelo físico, cabe a pessoa trans explicar ou não, mas no caso dele, ainda é difícil, está no início da transição. (BRÍGIDA, mãe de Alex, adolescente trans. Entrevista realizada em 29/01/2020) Raimunda, Roseli, Renata, Irene e Brígida, não apenas participaram do processo jurídico de registro do nome social de suas filhas e filhos trans, como travaram lutas em diversos espaços para que o nome social não fosse só um direito adquirido, mas sim, que aquela pessoa trans fosse reconhecida de forma legítima por seu nome e sua identidade em todos os lugares. As narrativas mostram ainda essa participação integral das mães como um movimento de peso importante diante da luta diária pela existência e o reconhecimento das identidades trans e suas características na sociedade, uma vez que: [O uso do nome social não pode ser entendido apenas como uma garantia de direitos, e sim como forma de validar e consolidar o que a pessoa trans traz sobre si, de como se apresenta no mundo sem que suas escolhas sejam questionadas... O nome apresenta um significado...e negar o uso do nome é negar o reconhecimento de si, e consequentemente remete a inexistência e a anulação de vida]. (CERQUEIRA; DENEGA; PADOVANI, 2020, p.37) Esse primeiro passo de legitimação da identidade de gênero, abre, portanto, espaço para trazermos aqui a discussão a respeito da transição de corpos. A transição hormonal é um outro ponto no processo que abarca desafios e lutas das mães entrevistadas. 135 9.2 Gerando corpos re (existentes) O processo transexualizador, que engloba a hormonioterapia e a cirurgia de redesignação de gênero é o maior serviço de saúde destinado a população trans no Brasil. O processo busca redesignar o gênero de nascimento, garantindo a identidade social da pessoa transgênero em viver corporalmente o gênero ao qual ela se identifica, uma vez que “a construção da nossa identificação como homens ou como mulheres não é um fato biológico, é social”. (JESUS, 2012 p. 9). O processo transexualizador do gênero masculino para o feminino só foi autorizado pelo Conselho Federal de Medicina no Brasil em 2002 e só em 2008 passou a ser oferecido pelo SUS (Sistema Único de Saúde), por meio de uma decisão do Tribunal Regional Federal, em Porto Alegre. Já a cirurgia de redesignação para homens transexuais, a mastectomia, demorou ainda mais a ser oferecida pelo SUS, só em 2019 a portaria n° 1.370 foi publicada no Diário Oficial da União. Em 2020 houve uma alteração na portaria. O artigo 8º da portaria 457, passa a regulamentar que “Toda pessoa maior de dezoito (18) anos poderá realizar intervenções cirúrgicas totais ou parciais de transexualização, inclusive as de modificação genital, e/ou tratamentos hormonais integrais, a fim de adequar seu corpo à sua identidade de gênero auto- percebida”. A transição hormonal como descreve Ribeiro (2020): Consiste na administração de fármacos compostos por frações hormonais que agem de forma a inibir características masculinas ou estimular aspectos físicos femininos. Estes agentes são responsáveis pela afirmação de características sexuais secundárias que atuam na construção da identidade de gênero. (RIBEIRO, 2020, p.9) Ainda de acordo com a definição, esse tratamento permite, por exemplo, que as mamas cresçam, que as gorduras sejam redistribuídas, a diminuição ou aumento no crescimento dos pelos e a potência do desenvolvimento muscular. É por meio do tratamento hormonal também que a menstruação é interrompida. Destaca-se que essa terapia deve ser acompanhada por equipe profissional capacitada para evitar a automedicação e superdosagem de medicamentos. Nesse ponto, recorro à explicação da pesquisadora Jesus (2012), que também é uma mulher trans, para fazer algumas observações sobre o processo transexualizador. Jesus ressalta que esse processo: 136 ...pode ou não incluir tratamento hormonal, procedimentos cirúrgicos variados (como mastectomia, para homens transexuais) e cirurgia de redesignação genital/sexual ou de transgenitalização. Cirurgia de redesignação genital/sexual ou de transgenitalização, procedimento cirúrgico por meio do qual se altera o órgão genital da pessoa para criar uma neovagina ou um neofalo. Preferível ao termo antiquado “mudança de sexo”. É importante, para quem se relaciona ou trata com pessoas transexuais, não enfatizar exageradamente o papel dessa cirurgia em sua vida ou no seu processo transexualizador, do qual ela é apenas uma etapa, que pode não ocorrer. (JESUS, 2012, p.31). Sobre a abordagem ao processo transexualizador trazido por Jesus (2012), a encontramos na narrativa de Raimunda: ...O hormônio judia muito, principalmente quando não tem um acompanhamento, não tem uma refeição bem adequada, e outra, eles se descontrolam demais, de querer ficar mais rápido do que o normal, então ela tomava muito, acaba com o estômago, acaba com tudo, a gente falar não adianta, até hoje ela toma... Ela não tem vontade de fazer cirurgia de sexo, ela diz que mexe muito com a cabeça. Ela é muito bem resolvida nessa parte. (RAIMUNDA, mãe da Priscila, mulher trans. Entrevista realizada em 23/09/2019) Na narração das cinco mães a questão hormonal aparece como um período da transição delicado, tenso e preocupante, como vemos no relato de Irene: Eu acho que eu ainda continuo com a preocupação com a saúde dele, porque essa questão de usar testosterona, pra mim ainda é um pouco misteriosa, os efeitos são eternos, porque eu tenho um pouco de medo, tem a questão de sobrecarregar o rim, o fígado. (IRENE, mãe de Juliano, jovem trans. Entrevista realizada em 09/01/2020) Mesmo com todos os medos e receios do processo, as mães trazem esse momento de transição como o período em que as filhas e filhos começam a fazer valer o seu direito de existir carregando também corporalmente sua identidade social. A época que o Juliano usava o Binder, acessório para disfarçar os seios, eu ficava apavorada, porque machucava. Eu falei: “Vamos fazer essa cirurgia”. Ele tirou uma pasta com a lista de todos os médicos que fazem essa cirurgia no Brasil, tinha os preços, o que precisava, lista de documentos. Ele me disse: “Eu já tenho tudo, só preciso de dinheiro, então vou aceitar qualquer emprego pra fazer isso...Ele nunca tinha trabalhado, só estava estudando. Então, eu falei que íamos ver o que precisava, fomos atrás do laudo. Nós fomos a uma psicóloga, ele fez o atendimento, conseguiu o laudo e procuramos um médico de Brasília, que faz isso pra atender essa população… Mandei mensagem para a família toda e disse: “A partir de agora é Juliano, estamos indo fazer a cirurgia” Falamos: “Estamos nos despedindo da Beatriz para chegar o Juliano”. (IRENE, mãe de Juliano, jovem trans. Entrevista realizada em 09/01/2020) Observamos no relato de Irene que seu filho Juliano vinha sofrendo muito antes da transição e a condição de classe social aqui foi fator determinante para que a mãe limasse esse 137 sofrimento e Juliano passasse a viver dentro de um corpo que lhe permitisse a expressão social de sua identidade de gênero. Encontra-se na categoria de transição de gênero um processo de luto narrado pelas mães. O luto, nesse caso, refere-se à uma transição que não é apenas da pessoa transgênero, mas de toda a família, ainda que o acolhimento ao processo de transição seja individual e no tempo de cada membro da família, o luto aparece como dispositivo central sobre essa questão. Familiares, ao testemunhar a transição de gênero, passam a reavaliar a identidade da pessoa trans. Nisto, vivenciam momentos de confusão sobre a pessoa ser mulher ou homem, experimentando a sensação de que a pessoa de antes está presente, ao mesmo tempo que não está...Este processo é dinâmico e instável, no qual por vezes a percepção do familiar está na presença e por vezes na ausência... (NIGRO, 2019, p.86) Em todas as narrativas foi possível constatar a experiência de perda em algum momento vivido pelas mães, na ausência de um gênero até a concepção de outro gênero. Todas as entrevistadas nesta pesquisa traçam conflitos nessa passagem, sobretudo com o pai e também com familiares que nem sempre acolhem a transição de gênero no tempo que ela acontece. Como descreve Nigro, (2019, p. 87), “[e]stas perdas originam características do luto , como tristeza, apego às lembranças e sofrimento emocional]”. Observa-se também nas narrativas, que ao transitar por lembranças nesse processo de luta, as mães e familiares recorrem à fotografias, textos e símbolos diversos da existência da filha e filho no gênero designado ao nascer. A concepção e percepção de que aquele gênero não está mais presente aparece em tempos diferentes para cada uma das colaboradoras da pesquisa e o acolhimento à identidade de gênero vem após o que Nigro (2019, p.88) nomeia de morte metafórica, quando a morte passa a ser um símbolo: Apesar de não haver morte física, tampouco psicológica durante o processo de transição de gênero, o movimento de substituição da imagem de um filho por uma filha, e vice- versa, vivenciado por algumas mães, indica a necessidade de dizer adeus a uma pessoa para acolher alguém que se apresenta de forma diferente. (Nigro, 2019, p. 89). O processo completo de transição de gênero pode demorar e o luto e acolhimento serem vivenciados em doses paliativas pela mãe e outros familiares. No relato a seguir de Roseli, veremos que apesar da hormonização de seu filho transgênero, ele ainda não vivencia por completo no corpo sua identidade, já que aguarda a cirurgia na fila do SUS ou a fará no momento em que a família conseguir levantar o valor para que o procedimento possa ser feito 138 na rede privada de saúde. Nota-se o fator de classe como determinante para a transição completa. Depois da transição, ele ficou muito feliz, ele passou a conversar com todo mundo, a fazer mais amizade, mas ainda se segura um pouco, porque falta alguma coisa pra ele se libertar de vez, eu acredito que seja a cirurgia de mastectomia... “...a cirurgia dele vai tirar ele desse casulo, porque é muito difícil, como ele é gordinho, o volume é maior e quando usa o Binder , o tecido elástico para esconder os seios, ele sofre, não consegue nem respirar direito com a pressão no peito. Eu pago convênio médico para ele, mas o convênio não cobre a cirurgia, porque entende como um procedimento estético. Essa cirurgia é a única coisa que falta pra ele se sentir o que ele é mesmo... : É cara, a última vez que eu vi tava de 12 a 13 mil reais. Eu sei que isso pra ele é muito importante, eu quero muito aguardar pra tentar pagar isso pra ele. O que mais quero é que ele faça essa cirurgia. (ROSELI, mãe do Rodrigo, jovem trans. Entrevista feita em 06/01/2020) A questão da demora no caso da cirurgia de adequação de gênero para mulheres trans, por exemplo, foi publicada recentemente no Portal Drauzio Varella . A matéria10 traz que só : ...no estado de São Paulo, cerca de 70 mulheres transexuais estão agendadas para ser atendidas até 2021 pelo SUS...A demora se deve à complexidade do processo, que demanda avaliações psicológicas e psiquiátricas durante um período de até 3 anos, com acompanhamentos semanais e diagnóstico final que pode encaminhar ou não a paciente para a cirurgia tão aguardada. (VIANA, 2020, n.p). Observa-se nos relatos das mães que o programa todo de transição hormonal somado à cirurgia de adequação, quando assim for de interesse da pessoa transgênero, é um processo demorado e burocrático, o que gera preocupação nos especialistas em saúde dessa área. Segundo descreve Mazaro e Cardin (2017) , o processo público atende a um número pequeno de pessoas e isso ajuda a aumentar a procura por serviços clandestinos. Observa-se, com base no tempo e burocracia para que a cirurgia de redesignação ocorra, que a constituição da identidade desse corpo é regulamentada e decidida por uma rede de agentes e órgãos públicos, o faz com que a cirurgia de redesignação seja política, segundo Favero (2020). No caso das pessoas transgêneros que identificam a não conformidade com o gênero designado ainda na infância, o processo deve levar um tempo maior ainda, já que na infância 10 https://drauziovarella.uol.com.br/reportagens/como-funciona-o-sus-para-pessoas-transexuais/ (consulta feita em 22/04/2020) 139 “[n]ão é permitida qualquer intervenção física, medicamentosa, hormonal ou cirúrgica. O que acontece é um acompanhamento com a criança... A transição social passa a ocorrer quando os pais aceitam vestir a criança com roupas do gênero com o qual ela se identifica e chamam pelo nome social”. (CIASCA, 2019, n.p)11 Entre as mães entrevistadas na pesquisa, encontramos esse longo processo narrado por Renata, mãe de Amanda, criança trans de 9 anos: Tem várias fases de desenvolvimento do testículo e do pênis e aí tem que fazer um exame físico mesmo pra ver qual o tamanho da glândula... a endócrino tem que apalpar o testículo pra ver em qual fase está. Então precisa ir fazendo esse exame físico, que é complicado, mexe muito com o emocional dela, ela fez uma vez só, ficou muito abalada. Tem que mostrar que é uma menina e tem um pênis. É diferente de ser a pediatra dela que acompanha ela desde pequenininha. Tem um tabu muito grande em relação a genital, que já é de consciente coletivo querendo ou não. A decisão de entrar com o bloqueio hormonal (que a primeira fase é o bloqueio, depois com 16, 17 anos entrar com a hormonização). Entrar com o bloqueio ou não é por conta do psicológico da criança, pra saber se ela tá lidando bem com a situação ou não, então ela tem que estar fortalecida. Se fizesse o bloqueio hormonal no começo o pênis iria parar de se desenvolver, pode atrofiar e aí é inevitável ter que fazer uma cirurgia”. (RENATA, mãe de Amanda, criança trans. Entrevista realizada 24/01/2020 ). A partir da narração de Renata, podemos observar que a transição de gênero, sendo ela na fase adulta ou na infância, é uma categoria que se mostra amplamente complexa e não pode ser observada de forma universalizante no que diz respeito aos dispositivos que formam a identidade de gênero de um indivíduo. Portanto, é importante que as mães, que acompanham suas filhas e filhos nesse processo ouçam dia a dia o que elas e eles têm a dizer a respeito de sua identidade de gênero, dos sentidos que seus corpos apontam, pois o processo de transição é contínuo, a jornada de (re) existência deve estar sempre pronta para seguir. Entende-se que o ser humano é plural também em suas diversidades. Como define Jesus (2012, p. 17): para a pessoa transexual, é imprescindível viver integralmente, exteriormente, como ela é por dentro, seja na aceitação social e profissional do nome pelo qual ela se identifica ou no uso do banheiro correspondente à sua identidade de gênero, entre outros aspectos. Isso ajuda na consolidação da sua identidade, e no que se refere aos procedimentos clínicos atuais, tem servido como um “teste da vida real”, para avaliar se as pessoas transexuais interessadas em se submeterem a uma cirurgia de transgenitalização — adequação cirúrgica do órgão genital à imagem que a pessoa tem dele — podem ser atendidas nesse aspecto... o que determina a identidade de gênero transexual é a forma como as pessoas se identificam, e não um procedimento cirúrgico (JESUS, 2012, p. 17). 11 Entrevista do psiquiatra Paulo Ciasca ao Portal G1> Matéria publicada em 20/07/2019 : https://g1.globo.com/sp/santos-regiao/educacao/noticia/2019/07/20/crianca-trans-para-adocao-faz-abrigo-se- adaptar-a-mudanca-de-genero.ghtml (consulta feita 22/04/2021) 140 Cabe ressaltar aqui que, para as cinco mães entrevistadas, o processo transexualizador de suas filhas e filhos não se mostra como fator principal na luta em toda a transição de gênero. Observa-se que as mães lutam pelo reconhecimento social de suas filhas e filhos a partir do gênero a qual elas e eles se identificam, o que significa que a luta é pelo direito de filhas e filhos existirem. Dessa maneira, para concluir o que trouxeram as mães nesse capítulo e as conversas que suas histórias de vida com suas filhas e filhos no processo de transição têm com as diversas referências que enriqueceram esse debate, levanto um trecho da narração de Roseli e complemento com um trecho do livro da pesquisadora transgênero Sofia Favero (2020). Apesar de Roseli e Sofia Favero não se conhecerem, curiosamente, encontro aqui um exemplo da beleza de uma pesquisa científica e os encontros que ela pode promover. As duas, Sofia e Roseli, parecem tecer um pequeno diálogo desde a dedicatória do livro da pesquisadora: Sofia: “À Jane, minha mãe, por ter me ouvido” (FAVERO, 2020, p.5) Roseli: “Todos os dias eu abria a porta do quarto “dela” em algum momento e perguntava: “Quer falar comigo hoje? Não esquece, estamos juntas”. (Roseli, mãe do Rodrigo, jovem trans). Sofia: “Uma transição altera toda uma lógica familiar” (FAVERO, 2020, p.64) Roseli: “...essa transição é tanto dos filhos, como da família, mexe com a família inteira e tem que ter paciência por eles, pelos outros...” (ROSELI, mãe do Rodrigo, jovem trans). Sofia: “O abismo que perfuramos ao dizer que desejamos outro roteiro que não aquele estabelecido no nascimento não assusta somente a nós”. (FAVERO, 2020, p.43) Roseli: “O Rodrigo nasceu aos poucos dentro de mim...O ponto alto pra eu entender, que eu precisava estar junto ao Rodrigo foi quando ele me falou: “Mãe eu prefiro morrer, a viver assim”. (ROSELI, mãe do Rodrigo, jovem trans) 141 Sofia: “Transitamos, logo existimos” (FAVERO, 2020 p.68). 142 10 RE(EXISTÊNCIAS) MATERNAS: CONSIDERAÇÕES SOBRE A MATERNAGEM Considero difícil e polêmico levantar qualquer questionamento sobre a essência do amor materno. Enquanto jornalista, observo que todas as vezes em que estive cobrindo reportagens que envolviam a figura da mãe enquanto postura social diante de abandono12, maus-tratos ou qualquer tipo de violência moral ou física, partindo de mãe para filho, vi gerar grande comoção popular. Assim como, se uma reportagem do noticiário exibe um ato de acolhimento13 de mãe à uma filha ou filho, que desafie “normativas”14 sociais das mais diversas, tal demonstração de afeto também movimenta com imensa proporção reações populares. Essas questões não são pontuais e sim históricas, acerca do que se construiu e se espera socialmente do “papel de mãe” a partir da figura e do “papel da mulher”, aquela que em sua essência “é projetada que deva” amar instintivamente, assim como proteger, acolher, renunciar e até renunciar-se acima de tudo em prol do cuidado. Nos aproximamos aqui do conceito de maternagem, que na definição de Winter e Duvidovich (2004, p. 38) é: a forma de uma mãe cuidar de seu bebê de maneira boa, protetora. São os bons cuidados que incluem o amparo às necessidades fisiológicas e todo investimento de desejo, de amor, de aconchego. A mãe passa ao seu bebê os limites e proteção, gerando para ele possibilidades de sobrevivência frente ao novo ambiente que pode ser considerado hostil. (WINTER; DUVIDOVICH, 2004, p.38). 12 https://g1.globo.com/go/goias/noticia/2021/03/10/mae-deixa-a-filha-com-baba-e-nao-volta-para-buscar-ha- dois-meses-em-goiania-diz-conselho-tutelar.ghtml (Consulta feita em 24/04/2021) 13 https://g1.globo.com/ms/mato-grosso-do-sul/noticia/2020/06/17/mae-viraliza-nas-redes-sociais-apos- publicacao-de-amor-e-aceitacao-a-filho-transgenero.ghtml (Consulta feita em 24/04/2021) 14 https://g1.globo.com/es/espirito-santo/noticia/2021/03/18/mae-pinta-casa-com-cores-do-arco-iris-para- homenagear-filho-gay-no-es.ghtml (Consulta feita em 24/01/2021) 143 O conceito pode traduzir a cultura do cuidado que temos hoje após três séculos da história que o embasa, quando as crianças que nasciam “eram amamentadas fora de casa pelas amas de leite nos primeiros anos de vida. Comportamentos que definiram o aleitamento feito pela própria mãe… A mulher se apaga em favor da boa mãe que, doravante, terá suas responsabilidades cada vez mais ampliadas. ” (WINTER; DUVIDOVICH, 2004, p. 40). Observa-se que essas definições podem claramente ser vistas em2021, ano que essa pesquisa é realizada, quando a questão do cuidado continua a ser direcionada para a mulher, seja ela mãe ou não, a configuração dessa atuação volta-se às mulheres de forma essencialista e universalizante. “O mito do amor materno” foi questionado pela filósofa francesa Élisabeth Badinter, em 1985: (...) o amor materno existe desde a origem dos tempos, mas não penso que exista necessariamente em todas as mulheres, nem mesmo que a espécie só sobreviva graças a ele. Primeiro, qualquer pessoa que não a mãe (o pai, a ama, etc.) pode “maternar” uma criança. Segundo, não é só o amor que leva a mulher a cumprir seus “deveres maternais”. A moral, os valores sociais, ou religiosos, podem ser incitadores tão poderosos quanto o desejo da mãe. É certo que a antiga divisão sexual do trabalho pesou muito na atribuição das funções da “maternagem” à mulher, e que, até ontem, esta se figurava o mais puro produto da natureza. (BADINTER, 1985, p.17) Entende-se, portanto, de acordo com essa definição, que o amor de mãe não pode ser referenciado a partir do instinto, seria como naturalizar o sentimento e a atitude das mulheres diante da condição de mãe, assim como definir a maternidade como destino certo e imutável à mulher. Dessa forma, “o instinto materno é um mito” (BADINTER, 1985, p. 7). Observa-se que o acolhimento, o cuidado e o amor que vem da mãe encontra diversas vulnerabilidades em sua construção, podendo ser expressado de diferentes maneiras, potências e fragilidades sem ser referenciado a partir da natureza da mulher. Como ainda descreve Badinter (1985): O amor materno é produto da evolução social desde princípios do século XIX, já que, como o exame dos dados históricos mostra, nos séculos XVII e XVIII o próprio conceito do amor da mãe aos filhos era outro: as crianças eram normalmente entregues, desde tenra idade, às amas, para que as criassem, e só voltavam ao lar depois dos cinco anos. Dessa maneira, como todos os sentimentos humanos, ele varia de acordo com as flutuações socioeconômicas da história (BADINTER, 1985, p.7) Constata-se nas cinco entrevistas das mães colaboradoras da pesquisa a diversidade de afetos e formas de expressão em seus acolhimentos e como também afirma Badinter (1985) o amor pode ser expressado de diversas maneiras, da maior ou menor intensidade, o que não significa um julgamento e sim, que afetos não podem ser determinismos sociais construídos com base no gênero. 144 No trecho a seguir, Roseli, mãe de Rodrigo, jovem trans, narra sua dificuldade em pensar no filho enquanto homem transgênero. No início, quando o “Rodrigo” se colocou como “uma mulher lésbica” eu dizia: “Não tem problema você gostar de meninas, mas a única coisa que vai deixar a mamãe com muita dificuldade é se você se colocar como homem, isso vai ser muito difícil pra mim”, acho que por esse motivo “Ana Clara” demorou tanto tempo para se assumir como Rodrigo, apesar de já entender o que sentia. (ROSELI , mãe de Rodrigo, jovem trans. Entrevista realizada em 06/01/2020). Podemos observar que a mãe admite sua dificuldade e é reativa ao pensar na possibilidade do filho se identificar enquanto trans, mas a reação não a coloca em uma posição avessa ao amor. Ele está ali, presente na relação e tem seus temperos e destemperos das condições humanas, alheios à condição de mulher e mãe. O relato de Raimunda, mãe de uma mulher trans , por exemplo, traz uma reação de acolhimento imediata, quando a filha diz à mãe que se identifica com o gênero oposto ao designado e vai iniciar sua transição. Com dezesseis anos a Priscila já começou a tomar hormônio...A Priscila só se abria comigo, eu era a confiança dela, ela até conversava com os irmãos, mas era sempre para o meu lado que ela corria e eu me virei em defesa dela a partir daí, acho que bem antes, quando ela ainda era criança, porque ela estudava na mesma escola que eu trabalhava e muitas vezes ela subia correndo e vinha me dizer que algum menino tinha batido nela, eu falava que ela não podia deixar isso acontecer, tinha que se defender. (RAIMUNDA, mãe de Priscila , mulher trans. Entrevista realizada em 23/09/2019) Notaremos agora, na narração de Irene, uma reação diferente das outras duas mães que acabamos de mostrar, quando seu filho Juliano começou a manifestar a não identificação com o gênero designado. No dia que “ela” desabafou eu disse para “ela” que a minha intenção de um psicólogo para “ela”, seria para uma “cura”, eu queria que “ela” deixasse de ter aquela aparência. Eu olhava para “ela” e via um menino com seios, não estava legal. (IRENE, mãe de Juliano, jovem trans. Entrevista realizada em 09/01/2020) Na sequência da narrativa, Irene me conta que pouco tempo depois, quando se uniu à outras mães de filhas e filhos transgêneros, passou a analisar sua reação e o acolhimento inicial à transgeneridade do filho. ...eu comecei a ver outras mães que contavam o que tinha acontecido e que eu me lembre não teve ninguém tão estúpida quanto eu, porque eu fui muito estúpida, eu olho pra trás e não me reconheço nessa fase, parece que um espírito se apossou de mim. Eu 145 realmente fui um horror, uma tragédia, eu teria sido uma pessoa que facilmente, minha filha teria ido embora de casa... O armário é péssimo pra todo mundo, pra pessoa e pra mãe também. (IRENE, mãe de Juliano, jovem trans. Entrevista realizada em 09/01/2020) Todas as mães ouvidas na pesquisa estão fora do armário, todas acolheram suas e filhos transgêneros em algum momento, mas não podemos comparar nenhuma reação de afeto e amor dita como essencialmente materna. Percebemos afetos sendo construídos a todo o momento e de diferentes formas. Outra constatação da pesquisa é que, apesar dela não identificar a construção de afeto e o acolhimento à transgeneridade das filhas e filhos como algo essencialmente materno, destaca- se que, das cinco mães ouvidas, apenas Brígida, mãe do Alex, adolescente trans, não se divorciou do marido. Ainda assim, foi Brígida quem também mediou a relação do pai com o filho sobre as questões de identidade de gênero. No começo, meu marido falava pra mim: “Você acolhe demais o Alex, você ouve demais, dá brecha demais, você dá muito ouvido, não é bem assim...Ele sempre falava: “Será que é porque só foi criado por homem? Porque é primo, tio, tudo homem, só tinha homem mesmo. Mas, eu falo sempre pra ele, que não precisamos buscar a causa, precisamos buscar um conforto, uma saúde, um bem estar, não culpa. (BRÍGIDA, mãe de Alex, jovem trans. Entrevista realizada em 29/01/2020 ) Conclui-se, portanto, que a premissa social de designar o acolhimento e o afeto de uma mãe às filhas e filhos como ações naturalmente femininas, poderia ser entendida como uma pluralidade de experiências femininas diante de mais uma questão socialmente construída. Podemos observar que entre as mães entrevistadas, esse protagonismo aparece de forma desromantizada e em potência como uma luta política, visto que todas as mães, além da luta pessoal com suas filhas e filhos, exercem um acolhimento coletivo com outras mães e se integram à movimentos sociais para atuar na conquista de direitos e promoções políticas em prol da comunidade LGBTQIA+. O ativismo das mães entrevistadas aparece na pesquisa como ponte para que a informação sobre a diversidade seja ampliada e chegue a espaços que talvez seriam inalcançáveis. Quando a ação vem das mães, os olhares e ouvidos se abrem mais ao conteúdo, informação esta que diz respeito à vida, à existência de pessoas trans, como narra Roseli neste trecho: Eu tenho ido com o “Mães pela D iversidade” em empresas conversar com os funcionários sobre diversidade. Eu fui recentemente em uma. Eles não obrigaram os funcionários a participar, deixaram aberto. Eu observava os homens que sentavam e cruzavam os braços com a cara fechada. Nós fomos em quatro mães lá e depois que 146 começávamos a falar ia mudando a cara deles. É maravilhoso o grupo! Eu sempre digo, é informação, eles vendo quatro mães sentadas ali. Talvez eles nem tivessem ideia do que é a diversidade, do que os nossos filhos passam, do que gostaríamos, que o respeito tem que ser mútuo. Então, o cara chega de um jeito pra ouvir a gente e logo ele muda. A história vai entrando...O amor incondicional é o que eu quero que seja levado para todas as mães, pra todas as pessoas no geral, que o amor independe de cor, raça, crença, gênero, de qualquer coisa, é amor. Vamos amar as pessoas, vamos trazer elas pra gente, vamos fazer o possível pra gente poder viver feliz e em harmonia. (ROSELI, mãe de Rodrigo, jovem trans. Entrevista feita em 06/01/2020). Sobre os afetos narrados pelas mães, que aqui chamamos de Amor, trago a poesia cantada por Chico César para descrever que: “O Amor É Um Ato Revolucionário Por estados e religiões temido Quem pelo amor é pertencido A si governa e só a ele é confessado” (GONÇALVES, 2019) E também ao apelo cantado por Davi Shamá: O amor é a notícia que eu quero nos jornais” (SHAMÁ, 2021) 147 11 ESTIGMAS: MARCAS E “ENCARCERAMENTO” DE CORPOS O estigma é um termo surgido na Grécia antiga para nortear o status moral de um indivíduo com base em marcas/traços/sinais apresentados pelo corpo. Na origem do conceito, um corpo estigmatizado era, no sentido literal, marcado por punições, que vinham desde cortes até fogo. Hoje, o termo ainda é identificado e usado para corpos marcados socialmente, quando a “sociedade cria formas de categorizar as pessoas”. (GOFFMAN 2008, p.12). O estigma, com base na marcação de corpos, aparece nas três categorias de análises da pesquisa: Infância, Educação e Transição. Mas, sobretudo, aparecia a todo momento nas narrativas vivas, das mães durante as entrevistas. Quanto mais tempo eu passava com as mães, mais eu aprendia sobre a localização dos estigmas. A construção deles nas vidas das histórias narradas começa com um olhar de “estranhamento” aos corpos, passa pela exclusão dos grupos e lugares e assim vai aumentando sua sequência que pune as pessoas estigmatizadas e quem também se inter-relaciona com elas, atuando com descrédito, defeito e fraqueza” (GOFFMAN, 2008, p.4) Tomo aqui o uso da palavra “encarceramento de corpos” como forma de provocar a reflexão acerca do abandono, da prisão, da separação e exclusão de seres socialmente rejeitados pela “norma”. É assim que cada uma das mães narra a rejeição que suas filhas e filhos sentem nos círculos sociais a partir da não identificação com o gênero designado. Observamos a seguir essa falta de liberdade, exclusão ou “encarceramento” sendo construído em três momentos diferentes narrados por Renata, mãe da Amanda, criança trans. Quando “o Evandro” foi para o primeiro ano do ensino fundamental “ele” já começou a ser mais excluído do grupo, mudou de sala, horário, as crianças não aceitavam muito o “jeito dele”. (RENATA, mãe da Amanda, criança trans. Entrevista feita em 24/01/2020). No segundo ano, “o Evandro” teve uma professora que perdia um pouco o controle da sala e “o Evandro” passou a sofrer bullying. A professora percebia a atitude dos outros alunos e me informava. Os meninos chamavam “o Evandro” de “menininha”, falavam que “ele” era “estranho”, “esquisito”, que era “nojento”. Depois, começou o bullying físico, empurravam eles da escada. (RENATA, mãe da Amanda, criança trans. Entrevista feita em 24/01/2020). Alguns pais procuraram a escola para reclamar sobre a questão do banheiro...”Meu medo, como mãe, é que amanhã, alunos adolescentes também comecem a usar o 148 banheiro feminino. Eu não quero colocar em risco a segurança da minha filha”. Na hora que li aquela mensagem, pensei bem, tentei manter a calma e acreditei que tudo aquilo havia sido falado por alguém que não conhece uma pessoa trans. Pelo tom da mensagem, a mãe estaria confundido a transexualidade com um distúrbio. (RENATA, mãe de Amanda, criança trans. Entrevista feita em 24/01/2020). Podemos observar nos relatos da mãe, que o estigma se expressa quando à pessoa vão sendo atribuídas características sem o seu próprio consentimento. A pessoa não possui controle sobre as características de sua própria identidade de gênero. A pessoa estigmatizada ainda pode ser exposta a condições vexatórias que são ampliadas, como narra Irene, mãe de Juliano, adolescente trans, sobre uma situação que ocorreu no período das eleições presidenciais de 2018. Todo o processo de transição do Juliano veio em um momento muito difícil da política no Brasil, as pessoas com discursos de ódio na ponta da língua e a comunidade LGBT estava no centro desses discursos. Em um determinado momento, um vídeo na internet mostrava torcedores dentro de um estádio de futebol gritando em coro para o político Jair Messias Bolsonaro, que depois veio a se eleger como presidente do Brasil, os torcedores gritavam: “Ei, Bolsonaro, vai matar viado”. (IRENE, mãe de Juliano, jovem trans. Entrevista feita em 09/01/2020). A palavra “viado” usada em coro no estádio de futebol, ambiente frequentando em grande parte por homens, pode ser um estigma voltado para a condição de homem efeminado e, ao pensar sobre essa condição, podemos constatar agregado ao discurso, não só a homofobia e a transfobia como também a misoginia, já que o fato do homem se “portar” de forma a trazer traços mais efeminados é um desafio à lógica da construção do machismo com sua estrutura máscula e viril e suas vertentes. Esse discurso significa, portanto, um culto de ódio aos homens gays como também às mulheres. Por fim, como trazemos na pesquisa histórias de vida de mães de pessoas transgêneros, é fundamental dizer que na teoria de Goffman (2008, p. 38) a família também “[c]ompartilha o descrédito do estigmatizado com o qual ele se relaciona”. Constatamos em todas as entrevistas que, conforme narra Renata, mãe de Amanda, “Existe uma cobrança muito grande sobre a mãe de uma criança trans, as pessoas se chocam quando você sai do armário junto com a criança”. (RENATA, mãe de Amanda, criança trans. Entrevista feita em 24/01/2020). Dessa forma, conclui-se ser indispensável o conhecimento da família em torno das ações e discursos engendrados pelo estigma para atuar na desconstrução deles em seus núcleos sociais, assim como levar ao conhecimento de filhas e filhos transgêneros as questões para que elas e eles também possam ser sujeitos e sujeitas dessa desconstrução. 149 ALAS A NOVOS CAMINHOS... Chegamos a esta pesquisa propondo encontrar nas narrativas das cinco mães de pessoas transgêneros os caminhos e as travessias que elas fizeram para acolher e garantir o direito e o respeito a legitimidade da existência de suas filhas e filhos em uma sociedade fortemente marcada pela cisnormatividade e heteronormatividade com base no binarismo de gênero, dois dispositivos, que ainda são amparados pelo conservadorismo político e religioso. A pergunta inicial de pesquisa era de como essas mães, que também precisaram romper e transgredir as normativas sociais conseguiram atravessar as portas do armário regulador de corpos e se posicionarem ao lado de suas filhas e filhos para re(existir) fora desse lugar com eles? Quais as lutas internas e externas dessas mães para quebrar as portas do armário e sair? Encontramos em dois anos de pesquisa por meio de escutas abertas e sensíveis de entrevistas, leituras e análises, um longo percurso feito por essas mães. São trajetos de dores, amores, incertezas, certezas, buscas, encontros, medos, conflitos, lutas incansáveis e vitórias muito comemoradas, mas não conformadas. Dentro das entrevistas, encontramos oito categorias principais dessas travessias de re(existências) feitas pelas mães: Infância, Educação, Transição de Gênero, Ativismo, Religião, Discursos LGBTQIA+, Relação com família e amigos e Relação com o pai. Para o escopo desta pesquisa, foram selecionadas três categorias, que apareciam com mais potência nas narrativas e mais respondiam aos objetivos traçados: Infância, Educação e Transição de gênero. As outras categorias serão analisadas posteriormente. Destaca-se que, de todo o período de 2 anos da pesquisa, desses, durante 1 ano e 2 meses, o trabalho foi realizado em meio à Pandemia de Covid- 19, que, assim como todo o mundo, afetou consideravelmente a saúde mental e física dos pesquisadores. As entrevistas presenciais foram concluídas pouco antes do início da pandemia, mas foi preciso superar constantes barreiras de concentração e criatividade diante da crise mundial de saúde pública, que levou tantas vidas. Vale dizer que essa pesquisa também resultaria na produção de um documentário, porém tornou-se impossível retomar os encontros presenciais com as colaboradoras para as gravações, em respeito ao distanciamento social resultante das medidas sanitárias da pandemia. O projeto, nesse sentido, ficou comprometido, mas não invalidado, consta em planejamento futuro. 150 Os resultados da pesquisa apontam que que as cinco mães, que saíram do armário em prol da luta de legitimidade de existência de suas filhas e filhos transgêneros, chegaram ao acolhimento por meio de um processo de busca constante de se inteirar sobre as questões de gênero e sexualidade. Os movimentos sociais, as ONGS, os coletivos, os pequenos grupos que propagam informações e prestam assistências às mães de pessoas trans contribuíram para as travessias das cinco mães entrevistadas e continuam contribuindo fortemente para difundir conhecimentos. Observa-se que cada informação nova que chega para essas mães não é mais individual, ela se torna instantaneamente difundida para os núcleos de mães de pessoas trans, que trabalham em rede. As mães entrevistadas já se encontram de alguma forma conectadas a essas redes e o processo de acolhimento às novas questões de transgeneridade trazidas por suas filhas e filhos mostra-se grandioso, além de outros enfrentamentos sociais, como, por exemplo, o estigma. As redes formadas trazem localização e mobilização social. É preciso senso de localização para transformar a diferença em igualdade e toda movimentação da família de pessoas transgêneros para romper as “normativas” políticas, sociais e religiosas pregadas, mas nada aparece nessa pesquisa com tanta potência quanto os afetos em rede. Essa é também uma das principais potências do resultado desse trabalho. Espera-se que ele possa atuar na construção de novos projetos sociais, educativos, pedagógicos e no desenvolvimento de políticas públicas a partir das análises feitas. Essa pesquisa carrega em sua essência a coletividade e os laços como forma de transgredir “normas”, romper muros, desenhar armários sem portas, levando sempre nessa utopia possível a Igualdade e o Amor. 151 REFERÊNCIAS ADICHIE, Chimamanda. O perigo de uma história única. São Paulo: Companhia das Letras, 2009. ALMEIDA, Guilherme. Molhado de vermelho: poemas de transição. 1. ed. Salvador: Editora Devires, 2018. ALVES, Cláudio. 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