A CONDICIONALIDADE EM LÍNGUAS INDÍGENAS BRASILEIRAS: UMA ANÁLISE TIPOLÓGICA-FUNCIONAL SÃO CARLOS 2023 Fabiana Pirotta Camargo Lourenço UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO CARLOS CENTRO DE EDUCAÇÃO E CIÊNCIAS HUMANAS PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM LINGUÍSTICA A CONDICIONALIDADE EM LÍNGUAS INDÍGENAS BRASILEIRAS: UMA ANÁLISE TIPOLÓGICA-FUNCIONAL Fabiana Pirotta Camargo Lourenço Bolsista: Capes. Tese apresentada ao Programa de Pós- Graduação em Linguística da Universidade Federal de São Carlos, como parte dos requisitos para a obtenção do Título de Doutora em Linguística. Orientador: Profª. Drª. Flávia Bezerra de Menezes Hirata-Vale SÃO CARLOS 2023 UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO CARLOS Centro de Educação e Ciências Humanas Programa de Pós-Graduação em Linguística Folha de Aprovação Defesa de Tese de Doutorado da candidata Fabiana Pirotta Camargo Lourenço, realizada em 31/03/2023. Comissão Julgadora: Profa. Dra. Flavia Bezerra de Menezes Hirata Vale (UFSCar) Profa. Dra. Marize Mattos DallAglio Hattnher (UNESP) Profa. Dra. Taísa Peres de Oliveira (UFMS) Profa. Dra. Mônica Veloso Borges (UFG) Prof. Dr. Renato Miguel Basso (UFSCar) O Relatório de Defesa assinado pelos membros da Comissão Julgadora encontra-se arquivado junto ao Programa de Pós-Graduação em Linguística. Aos meus avós, Odete e Gilberto, e aos meus pais, Carmen Luciana e Fabio, por terem sido sempre tão amorosos e dispostos a me ajudar incondicionalmente sob qualquer adversidade. AGRADECIMENTOS Há muitas pessoas a quem devo agradecer por ter conseguido finalizar este trabalho. Primeiramente, agradeço à minha família. Aos meus pais, Carmen Luciana e Fabio, pelo amor e confiança incondicional que depositaram em mim, por aceitarem meus vários momentos difíceis nesses últimos anos e mobilizarem recursos para que eu pudesse contorná- los e não desistisse dessa etapa que agora está sendo finalizada. Vocês são meu maior exemplo. À minha irmã, Gabriela, pela compreensão, preocupação e cuidado que demonstrou por mim neste percurso, quando mais precisei, e por ter me proporcionado ter meus sobrinhos, e maiores alegrias, João Gabriel e Davi Lucca, que me alegraram e foram minha motivação nas vezes em que pensava em desistir. Aos meus avós maternos, Odete e Gilberto, por me acolherem nos momentos de desespero, pelas orações, pelo carinho com as palavras e pelo incentivo ao longo dos anos. Aos meus avós paternos, Carlinhos e Leda (in memoriam), os quais gostaria que estivessem aqui para presenciar a concretização de uma etapa muito importante da minha vida. Agradeço também às amigas, em especial, Gabriela, Juliana, Nathalia, Maria Beatriz e Larissa, por terem me ouvido e amparado em meio à ansiedade. Obrigada pela amizade persistente e pelos momentos de diversão compartilhados, que foram essenciais para a minha paz e equilíbrio emocional. À Professora Doutora Flávia Bezerra de Menezes Hirata-Vale, minha orientadora há mais de 10 anos, agradeço não apenas por sua orientação, que possibilitou a minha formação, mas também por sua imensa paciência, confiança e compreensão, principalmente nos últimos dois anos. Aos Professores Doutores Marize Mattos Dall Aglio Hattnher, Mônica Veloso Borges, Renato Basso e Taisa Peres de Oliveira, membros da banca desta tese, pela leitura atenta e por suas enriquecedoras contribuições, fundamentais para a redação final deste trabalho. Por fim, agradeço a Capes, pela bolsa concedida no período de 2018 a 2022. “A ostra, para fazer uma pérola, precisa ter dentro de si um grão de areia que a faça sofrer. Sofrendo, a ostra diz para si mesma: “Preciso envolver essa areia pontuda que me machuca com uma esfera lisa que lhe tire as pontas...”. Ostras felizes não fazem pérolas... Esse livro está cheio de areias pontudas que me machucaram. Para me livrar da dor, escrevi.” (Rubem Alves) RESUMO No Brasil, são faladas atualmente 274 línguas indígenas, por indivíduos pertencentes a 305 etnias diferentes, que refletem uma grande diversidade linguística e tipológica, constituindo cada uma, um sistema complexo, com conjuntos específicos de sons, categorias e regras de estruturação (Seki,2000). Essas línguas têm se constituído como objeto de estudo de muitos trabalhos, que se dedicam a descrever aspectos sintáticos, fonológicos ou pragmáticos das mesmas. No entanto, observou-se que a respeito das construções condicionais, há uma carência de estudos que se dedicam, de forma mais abrangente, a caracterizar sua expressão nessas línguas, assim como ocorre no português do Brasil e em outros idiomas. Pensando-se nessa carência e relevância do tema, o presente trabalho teve como objetivo principal descrever tipologicamente a condicionalidade, promovendo uma sistematização da expressão condicional, adotando-se para isso o método tipológico-funcional de análise, em um grupo constituído por 42 línguas indígenas brasileiras, distribuídas entre 19 famílias linguísticas. A determinação das línguas que compõem o corpus se deu a partir das classificações elaboradas a partir dos trabalhos de Rodrigues (2013) e de Moore (2011). Para análise das línguas, foram coletados exemplares das construções condicionais descritas em trabalhos como artigos, teses e dissertações. Essas construções foram analisadas, observando-se principalmente, os tipos de marcadores e as associações entre eles para a expressão do valor condicional. A hipótese principal da pesquisa, que se comprovou nos resultados da análise, foi a de que o valor condicional, nas línguas indígenas brasileiras, é expresso por elementos diversos, podendo ser por uma conjunção, afixo, partícula, dentre outros, e de forma majoritariamente composicional/multifatorial, ou seja, a partir de uma combinação de elementos que remetem a outras categorias linguísticas, tais como o irrealis e a modalidade, que desempenham um papel significativo na marcação condicional. Ainda, a respeito da contribuição da marcação de tempo (passado/não passado) para a distinção dos sentidos condicionais de contrafactualidade e potencialidade, estabeleceu-se, assim como Plungian (2005), uma escala de irrealidade, na qual as contrafactuais parecem ser mais representativas do irrealis, por estarem mais diretamente ligadas a situações não realizadas. O trabalho, por fim, possibilitou o levantamento de padrões compartilhados entre as línguas no que diz respeito à expressão formal e semântica da condicionalidade. Espera-se também que tenha contribuído com a área de Linguística Indígena, e com as descrições já desenvolvidas sobre as subordinadas condicionais nessa área. Palavras-chave: tipologia linguística; condicionalidade; línguas indígenas brasileiras. ABSTRACT In Brazil, 274 indigenous languages are currently spoken by individuals belonging to 305 different ethnic groups, which reflect a great linguistic and typological diversity, each constituting a complex system, with specific sets of sounds, categories and structuring rules, (Seki,2000). These languages have become the object of study in many works dedicated to describing their syntactic, phonological or pragmatic aspects. However, it was observed that regarding conditional subordinate constructions, there is a lack of studies dedicated, in a more comprehensive way, to characterizing their expression in these languages, as well as in Brazilian Portuguese and in other languages. Bearing in mind this lack and relevance of the theme, the main objective of this work was to typologically describe conditionality, promoting a systematization of the conditional expression, adopting for this purpose the typological-functional method of analysis, in a group consisting of 42 Brazilian indigenous languages, distributed among 19 linguistic families. The determination of the languages that make up the corpus was based on the classifications elaborated from the works of Rodrigues (2013) and Moore (2011). For language analysis, samples of conditional constructions described in works such as articles, theses and dissertations were collected. These constructions were analyzed, observing mainly the types of markers and the associations between them for the expression of the conditional value. The main hypothesis of the research, which was confirmed in the results of the analysis, was that the conditional value, in Brazilian indigenous languages, is expressed by different elements, which can be by a conjunction, affix, particle, among others, and in a mostly compositional/multifactorial way, that is, from a combination of elements that refer to other linguistic categories, such as irrealis and modality, which play a significant role in conditional marking. Still, regarding the contribution of time stamping (past/non-past) to the distinction of the conditional senses of counterfactuality and potentiality, as well as Plungian (2005), a scale of unreality was established, in which the counterfactuals seem to be more representative of the irrealis, as they are more directly linked to unrealized situations. The work, finally, made it possible to survey shared patterns between languages with regard to the formal and semantic expression of conditionality. It is also expected that it has contributed to the area of Indigenous Linguistics, and to the descriptions already developed about conditional subordinates in this area. Keywords: linguistic tipology; conditionality; brazilian indigenous languages. LISTA DE QUADROS Quadro 1: Tipologia das orações condicionais (Hirata-Vale e Oliveira, 2011, p.201) Quadro 2: Marcação do irrealis de acordo com Plungian (2005, p.138) Quadro 3: Formas verbais russas em uma 'escala de irrealidade' (PLUNGIAN, 2005, p.144) Quadro 4: Morfemas DS em verbos simultâneos na língua Amele (DE HAAN, 2012, p.11) Quadro 5: Morfemas irrealis/passado da língua Uto-asteca (Steele, 1975, p.202, apud De Haan, 2012, p.21) Quadro 6: Morfemas de passado habitual também significam... (Cristofaro, 2004, p.263) Quadro 7: Línguas indígenas do Brasil selecionadas para análise Quadro 8: Forma de marcação condicional nas línguas indígenas brasileiras - direta ou composicional Quadro 9: Escala de irrealidade proposta para as condicionais. Quadro 10: Línguas que fazem distinção realis/irrealis e que expressam condicionalidade por meio de morfemas irrealis. Quadro 11: Línguas que têm componentes modais envolvidos na marcação condicional. Quadro 12: Línguas com marcação condicional por morfemas potenciais. Quadro 13: Línguas que marcam condicionalidade por meio do modo subjuntivo. Quadro 14: Línguas que compartilham o mesmo marcador condicional/temporal. Quadro 15: Recorrências tipológicas - combinação de irrealis e/ou condicional com elementos modais. Quadro 16: Recorrências tipológicas - combinação de irrealis e/ou condicional com marcador temporal. Quadro 17: Recorrências tipológicas - combinação de marcador irrealis com condicional. Quadro 18: Recorrências tipológicas – combinação de marcador condicional/irrealis a outras categorias do domínio irrealis. Quadro 19: Recorrências tipológicas: combinação entre categorias associados ao irrealis, e tempo. Quadro 20: Recorrências tipológicas – combinação entre duas categorias associadas ao domínio irrealis. Quadro 21: Marcação direta/por categorias. Quadro 22: Línguas que marcam condicionalidade de maneira direta, por conjunção. LISTA DE ABREVIATURAS consoante latente 1 primeira pessoa 2 segunda pessoa 3 terceira pessoa A sujeito de verbo transitivo ABL ablativo ABS absolutivo ACC, ACU acusativo ANIM animado APL, APPLIC aplicativo ASP, ASPC aspecto ASS.INSTR associativo instrumentivo ASSERT assertivo AUG aumentativo AUX auxiliar C conetivo CAU causativo CLV classificador verbal CMPL completivo CN conectivo COND , CND condicional CONJ conjunção CONT aspecto continuativo CONTR, CNTRFCT, CNT.FACT contrafactual, contrafactualidade CÓP cópula CSO cosubordinação CTFG direção centrífuga DAT dativo DEC, DECL modo declarativo DED dedutivo DEM demonstrativo DEP oração dependente DESID desiderativo DIM diminutivo DIRET diretivo DST.CNTR passado distante DU dual DUB dubitativo DYNM dinâmico e evidencialidade direta EMP enfático EP epêntese ERG ergativo EXTENT „extensão no tempo‟ F, FEM feminino F.IMI futuro iminente FOC foco FP passado não recente FRUST frustrativo FUT futuro HAB habitual HIP hipotético HYPOTH modalidade hipotética I série I I.PST passado intermediário II série II III série III IMPERF aspecto imperfectivo IMPL implicativo IND, INDIC modo indicativo INT, INTNS intensificador INTR intransitivo IRR irrealis, modo irrealis LOC locativo M masculino MS mesmo sujeito MI modo indicativo N- não- (ex. nfut- não futuro, nf-não feminino, npas-não passado) N sufixo nominal NCL substantivo NEG negação, negativo NML, NMZ, NOML , NOM , NOMLZ nominalizador, nominalização O objeto de verbo transitivo OBJ objeto, caso objetivo P pessoa P.cad passado caducado P.rec passado recente PART partícula PERF aspecto perfectivo PERI periférico PFP particípio perfectivo PL plural POS possessivo POSS possibilitativo POT, PTC potencial PRES, PRS presente PROJ aspecto projetivo PRT pretérito PST, PAS passado R 1 relacional de contiguidade R 2 relacional de não contiguidade REC.PAST passado recente REFL, REF reflexivo REL relativizador, relativo REM.P passado remoto REP reportativo REPET repetitivo RES resultativo S sujeito de verbo intransitivo SENT sentido SG singular SI sujeitos idênticos So sujeito de verbo intransitivo inativo SR Switch-Reference (Sistema de Referência Alternada) SUB subordinação SUBJ modo subjuntivo Tf tempo futuro Tp tempo passado Tpr=i presente incompleto TRA transitivizador VERB, VZR verbalizador VIS visual SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO .......................................................................................................... 17 2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA ............................................................................. 21 2.1 A TIPOLOGIA LINGUÍSTICA ........................................................................................ 21 2.1.1 A METODOLOGIA TIPOLÓGICA.................................................................................... 22 2.2 O FUNCIONALISMO LINGUÍSTICO ............................................................................. 24 2.3 A EXPRESSÃO DA CONDICIONALIDADE NAS LÍNGUAS NATURAIS ................. 25 2.3.1 IRREALIS COMO CATEGORIA E SUA RELAÇÃO COM A CONDICIONALIDADE ............ 28 2.3.2 PADRÕES DE MARCAÇÃO DA CONTRAFACTUALIDADE ............................................ 45 3 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS ............................................................. 50 3.1 COMPOSIÇÃO DO CORPUS DA PESQUISA ................................................................ 55 4 ANÁLISE TIPOLÓGICA-FUNCIONAL DA CONDICIONALIDADE EM LÍNGUAS INDÍGENAS BRASILEIRAS ...................................................................... 60 4.1 FORMA DE EXPRESSÃO DAS CONSTRUÇÕES CONDICIONAIS NAS LÍNGUAS 60 4.1.1 FAMÍLIA ARAWÁK ....................................................................................................... 60 4.1.1.1 Apurinã .................................................................................................................. 60 4.1.1.2 Paresi (Haliti) ........................................................................................................ 61 4.1.1.3 Tariana .................................................................................................................. 61 4.1.1.4 Wapixana .............................................................................................................. 63 4.1.1.5 Waurá ................................................................................................................... 63 4.1.2 FAMÍLIA KARIB ........................................................................................................... 64 4.1.2.1 Ikpéng ................................................................................................................... 64 4.1.2.1 Macushi ................................................................................................................ 64 4.1.3 FAMÍLIA PANO ............................................................................................................. 65 4.1.3.1 Kaxinawá ............................................................................................................... 65 4.1.3.2 Matses .................................................................................................................... 65 4.1.3.3 Shanenawa ............................................................................................................. 67 4.1.3.4 Shawã .................................................................................................................... 68 4.1.4 FAMÍLIA TUKANO ........................................................................................................ 68 4.1.4.1 Yê‟pa-masa ............................................................................................................ 68 4.1.5 FAMÍLIA ARAWÁ ......................................................................................................... 70 4.1.5.1 Jamamadi ............................................................................................................... 70 4.1.5.2 Jarawara ................................................................................................................. 70 4.1.6 FAMÍLIA MAKÚ ............................................................................................................ 72 4.1.6.1 Dâw ....................................................................................................................... 72 4.1.6.2 Hupda .................................................................................................................... 72 4.1.7 FAMÍLIA NAMBIKWARA .............................................................................................. 74 4.1.7.1 Mamaindê .............................................................................................................. 74 4.1.8 FAMÍLIA TXAPAKÚRA .................................................................................................. 75 4.1.8.1 Oro Waram ............................................................................................................ 75 4.1.9 FAMÍLIA YANOMÁMI ................................................................................................... 76 4.1.9.1 Sanoma .................................................................................................................. 76 4.1.10 FAMÍLIA GUAIKÚRU .................................................................................................. 76 4.1.10.1 Kadiweu .............................................................................................................. 76 4.1.11 FAMÍLIA MURA .......................................................................................................... 76 4.1.11.1 Pirahã ................................................................................................................... 76 4.1.12 FAMÍLIA JÊ (MACRO-JÊ) .......................................................................................... 77 4.1.12.1 Kaingáng ............................................................................................................. 77 4.1.12.2 Krahô ................................................................................................................... 78 4.1.12.3 Panará .................................................................................................................. 79 4.1.12.4 Tapayuna ............................................................................................................. 79 4.1.12.5 Xerente (Akwê) ................................................................................................... 80 4.1.12.6 Xikrín .................................................................................................................. 81 4.1.13 FAMÍLIA KARAJÁ (MACRO-JÊ) ................................................................................. 81 4.1.13.1 Karajá .................................................................................................................. 81 4.1.14 FAMÍLIA ARIKEM (TUPI) ........................................................................................... 82 4.1.14.1 Karitiana .............................................................................................................. 82 4.1.15 FAMÍLIA JURUNA ....................................................................................................... 83 4.1.15.1 Juruna .................................................................................................................. 83 4.1.16 FAMÍLIA MAWÉ (TUPI) ............................................................................................. 84 4.1.16.1 Sateré-Mawé ........................................................................................................ 84 4.1.17 FAMÍLIA MUNDURUKÚ (TUPI) ................................................................................... 85 4.1.17.1 Mundurukú .......................................................................................................... 85 4.1.18 FAMÍLIA TUPI-GUARANI (TUPI) ................................................................................ 86 4.1.18.1 Asuriní do Xingú ................................................................................................. 86 4.1.18.2 Araweté ............................................................................................................... 86 4.1.18.3 Guajá ................................................................................................................... 87 4.1.18.4 Kaiowá ................................................................................................................ 88 4.1.18.5 Kamaiurá ............................................................................................................. 88 4.1.18.6 Karipúna .............................................................................................................. 89 4.1.18.7 Tapirapé ............................................................................................................... 90 4.1.19 LÍNGUAS ISOLADAS .................................................................................................... 91 4.1.19.1 Kanoê .................................................................................................................. 91 4.1.19.2 Kwaza .................................................................................................................. 91 4.1.19.3 Trumai ................................................................................................................. 92 4.1.20 CONSIDERAÇÕES SOBRE A FORMA DE EXPRESSÃO CONDICIONAL ........................... 93 4.2 RELAÇÕES COM OUTRAS CATEGORIAS .................................................................. 99 4.2.1 TEMPO ....................................................................................................................... 99 4.2.2 IRREALIS .................................................................................................................. 102 4.2.3 MODALIDADE .......................................................................................................... 110 4.2.4 OUTRAS COMBINAÇÕES .......................................................................................... 117 4.2.4.1 Marcadores de potencialidade ............................................................................. 117 4.2.4.2 Modo Subjuntivo ................................................................................................. 120 4.2.4.3 Frustrativo ........................................................................................................... 122 4.2.5 SOBREPOSIÇÃO DE VALORES CONDICIONAIS E TEMPORAIS ................................... 123 4.2.6 RECORRÊNCIAS TIPOLÓGICAS ................................................................................ 128 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS ................................................................................... 133 6 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS .................................................................... 135 17 1 INTRODUÇÃO De acordo com Neves (2000), as orações condicionais são tradicionalmente definidas como estruturas formadas por uma oração subordinada adverbial, a “prótase”, e por uma oração principal, a “apódose”. Entre essas duas orações é estabelecida a relação “Se p então q”. Assim, a prótase exprime uma condição que, se cumprida, permitirá a realização do evento expresso na oração principal, a apódose. Na literatura linguística existem muitos trabalhos cujo objetivo é descrever a relação condicional nas mais variadas línguas, adotando-se para isso diferentes perspectivas e concepções teóricas. Há, portanto, diferentes maneiras de conceituar a condicionalidade (DUCROT, 1972; HAIMAN, 1978; COMRIE, 1986; DIK, 1990; NEVES, 2000; entre outros). Os trabalhos existentes, em sua maioria, ocupam-se com a descrição dessa categoria em línguas nas quais o valor condicional é marcado por meio de conjunções, tais como, principalmente, a conjunção se, mas também caso, desde que, contanto que, uma vez que, a menos que, dentre outras. No português do Brasil, em especial, existe uma variedade de análises e descrições daquelas que são comumente conhecidas como orações subordinadas adverbiais condicionais nos compêndios gramaticais. Um dos trabalhos que mais se destacam nessa língua é o de Neves (1999, 2000), que faz uma classificação tripartida das condicionais, conforme as relações estabelecidas entre p e q. A autora as classifica como: factuais/reais, contrafactuais/irreais e potenciais/eventuais/hipotéticas. Esses três tipos de relações condicionais descritas, apesar de suas especificidades, se referem, de maneira geral, a situações imaginárias, improváveis ou hipotéticas, ou seja, colocam em questão a possibilidade de um evento ocorrer. Dessa maneira, pode-se considerar que a categoria da condicionalidade, como um todo, designa conteúdos não-factuais, não-atualizados, ou não pertencentes ao mundo real (por nunca terem ocorrido no passado e/ou não estarem ocorrendo no presente), estando, nesse sentido, sob o escopo do domínio irrealis, por se referirem a “eventos ainda dentro do campo do pensamento”, diferentes de situações que são categorizadas como realis, retratadas como “atualizadas, ou realmente ocorrendo, ou tendo ocorrido.” (cf. Mithun, 1995, p. 375). Outros trabalhos, como indicam Hirata-Vale e Oliveira (2011, p.201), também adotam uma classificação tripartida das condicionais, como exposto no quadro abaixo: 18 Quadro 1: Tipologia das orações condicionais (Hirata-Vale e Oliveira, 2011, p.201) Apesar de haver muitos trabalhos que se esforçam em compreender a condicionalidade tanto no português brasileiro, quanto em outras línguas, no que diz respeito às línguas indígenas brasileiras, ainda não existem estudos que se dediquem, de forma mais abrangente e exclusiva, a caracterizar a manifestação do valor condicional, que é tratado apenas pontualmente em gramáticas e estudos morfossintáticos de línguas específicas. Apesar disso, ainda que pontuais, as descrições existentes podem fornecer uma panorama global sobre a categoria da condicionalidade neste grupo, o que já é significativo, ao se pensar na carência de trabalhos dedicados a esse tema. Deve-se destacar que, no Brasil são faladas atualmente cerca de 274 línguas indígenas (Censo 2010), que refletem uma grande diversidade linguística e tipológica. Entretanto, o estudo científico dessas línguas, e o desenvolvimento de trabalhos descritivos sobre elas, passaram a ocorrer muito recentemente, apenas com o desenvolvimento da linguística indígena, a partir dos anos 80. Considerando esse contexto, a ausência de descrições abrangentes sobre a condicionalidade, e o fato de que nas línguas indígenas brasileiras há uma grande diferenciação tipológica, dados seus sistemas de sons e estruturas gramaticais diversos, neste trabalho objetivou-se realizar uma descrição tipológica da condicionalidade nessas línguas, ao investigar as diferenças e semelhanças na codificação morfossintática e semântica dessa categoria nas diversas línguas. Para tanto, realizou-se uma sistematização da expressão do valor condicional em diferentes línguas indígenas brasileiras, por meio de um estudo tipológico-funcional, ou seja, uma análise tipológica assentada em pressupostos do Funcionalismo Linguístico (Givón, 1979, 1995; Halliday, 1985; Dik, 1989, 1997; Hengeveld e Mackenzie, 2008). Para a realização desta sistematização, foi necessário realizar uma retomada teórica de trabalhos sobre a expressão da condicionalidade nas línguas naturais. A partir de trabalhos como o de Plungian (2005) e De Haan (2012), observou-se que, em línguas indígenas, o valor 19 condicional pode ser veiculado a partir da combinação de morfemas destinados secundariamente a marcação condicional. Esses morfemas, como mostram os estudos, são responsáveis por marcarem categorias diversas, tais como o irrealis, modalidade e tempo, por exemplo. Assim, ficou estabelecida como hipótese central do presente trabalho a ideia de que, nas línguas indígenas brasileiras, o valor condicional seria marcado dessa mesma forma, podendo ser expresso por elementos diversos, como conjunções, afixos ou partículas, de forma direta ou composicional/multifatorial, a partir da combinação de elementos que remetam a outras categorias linguísticas, principalmente o irrealis, que parece desempenhar um papel significativo na marcação condicional. A composição da amostra de línguas que seriam analisadas foi uma etapa metodológica primordial e desafiadora, do trabalho. Foram buscados exemplares das construções condicionais em trabalhos como artigos, teses, dissertações e gramáticas sobre línguas indígenas brasileiras específicas, tendo como ponto de partida as classificações das linguas indígenas elaboradas a partir dos trabalhos de Rodrigues (2013) e de Moore (2011). Nem todos os trabalhos descritivos sobre as línguas apresentavam material suficiente para a análise que se objetivava fazer – muitas vezes as descrições eram muito pontuais ou não abarcavam as subordinadas condicionais nas línguas descritas, por estarem dedicadas a outros aspectos dessas línguas. No entanto, foi possível compor uma amostra de 42 línguas, distribuídas entre 19 famílias/troncos, para análise. De posse dos exemplares das condicionais, nessas línguas, essas construções foram analisadas, observando-se principalmente, os tipos de marcadores e as associações entre eles para a expressão do valor condicional, de modo a confirmarem-se as hipóteses estabelecidas a partir da fundamentação teórica do trabalho. A realização desta pesquisa quis contribuir, dessa forma, com os estudos descritivos, principalmente no que se refere à condicionalidade, não apenas das línguas indígenas, mas também das línguas naturais como um todo, já que, ao se fazer um estudo tipológico obtém-se uma visão privilegiada do funcionamento da natureza da linguagem humana. Ademais, a relevância desse tipo de pesquisa insere-se em um contexto de aproximação entre os estudos descritivos funcionalistas e os de línguas indígenas, de modo que o trabalho estará contribuindo com a Linguística no Brasil como um todo e mais especificamente, com área de Linguística Indígena Brasileira. Introduzidos os objetivos principais da pesquisa, a organização que se seguirá é a seguinte: no segundo capítulo, serão apresentados os pressupostos teóricos que norteiam o trabalho, que estão assentados, como já mencionado, no paradigma funcionalista e tipológico. 20 O objetivo deste capítulo será, também, apresentar alguns estudos que caracterizam a expressão da condicionalidade nas línguas naturais como um todo, incluso o português brasileiro, a partir dos quais poderão ser determinados critérios para a investigação tipológica que se fará posteriormente. Assim, serão apontados, dentre outros fatores, a forma de expressão da condicionalidade nas línguas naturais, alguns padrões de marcação, e sua relação com outras categorias, tais como o irrealis, aspectos que serão investigados também na análise do presente trabalho, de modo a promover uma sistematização da condicionalidade em línguas indígenas. No terceiro capítulo, apresentam-se os procedimentos metodológicos de análise, com os critérios de composição do corpus, algumas características gerais das línguas selecionadas para a análise e forma de apresentação dos dados. No quarto capítulo, apresenta- se a investigação tipológica dos dados, assim como proposta, seguida das considerações finais, no quinto capítulo. Finaliza-se então, com a apresentação das referências bibliográficas. 21 2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA O objetivo da presente pesquisa, a saber, investigar a expressão da condicionalidade em um conjunto de línguas indígenas brasileiras, de modo a promover uma sistematização e fornecer um compilado geral de dados e uma ampliação dos conhecimentos sobre a marcação condicional e sua relação com outras categorias, nessas línguas, conduz a um estudo tipológico, que, por sua vez, exige um arcabouço teórico específico a partir do qual as diferenças tipológicas encontradas no que diz respeito à condicionalidade são analisadas. Nesse sentido, o presente capítulo, de fundamentação teórica, apresenta primeiro algumas considerações gerais sobre tipologia linguística, seguidos dos objetivos da teoria funcionalista da língua, arcabouço teórico no qual se baseará a pesquisa. Introduzidos os parâmetros teóricos de base, apresenta-se uma caracterização geral da marcação da condicionalidade nas línguas naturais, com alguns estudos sobre as condicionais que apontam para fatores que serão importantes na investigação tipológica que se fará. Por fim, uma breve exposição do panorama atual sobre as línguas indígenas e linguística indígena brasileira encerra o capítulo, antes da apresentação da metodologia de pesquisa. 2.1 A TIPOLOGIA LINGUÍSTICA O termo “tipologia”, de acordo com Greenberg (1974, p. 151), foi utilizado pela primeira vez dentro da Linguística em 1928 pelos linguistas da Escola de Praga, mas não é restrito a essa área, podendo apresentar, como informa Croft (2002, p.1), diferentes usos, se estendendo para outras diversas áreas, sendo sua definição mais comum aquela semelhante à de “taxonomia”, ou seja, “classificação” de fenômenos, categorias ou objetos em “tipos”. Para Greenberg (1974, p.151) as ocorrências mais antigas do uso do termo “tipologia” estão dentro dos campos da teologia e arqueologia, sendo que, nesta última, seu sentido não difere muito do atual, já que as semelhanças entre artefatos de diferentes sítios funcionariam como evidências de filiação cultural. Assim, tem-se que a busca pelo estabelecimento de tipos, regras gerais e universais é bastante antiga e pode ser aplicada dentro de qualquer área do conhecimento para classificar várias atividades. Dentro da linguística, a tipologia linguística desempenha um papel importante e, nas últimas décadas, tornou-se uma significativa área de pesquisa, como nos informa Rijkhoff (2007, p.2). Nessa área, para Croft (2002, p.1), a tipologia se define, de forma mais ampla, como “a classificação de tipos estruturais entre as línguas”. 22 Seguindo a mesma linha de conceituação de Croft, Whaley (1997, p.7) define a tipologia na linguística como sendo “a classificação das línguas ou dos componentes linguísticos da língua com base em suas características formais compartilhadas”.1 A tipologia, portanto, de acordo com esse autor, busca identificar padrões existentes e compartilhados entre as línguas e as relações que podem ser estabelecidas entre esses padrões. Assim, o manejo do termo “tipologia” se dá quando consideramos que, apesar de as línguas naturais variarem no que diz respeito às diferenças que podem ser encontradas entre elas em uma análise superficial, pode-se também determinar dependências entre elas, se forem observadas as suas propriedades que variam em comum, sendo possível, então, estabelecer ou conjugar “tipos” de línguas. A classificação tipológica, dessa forma, procura descrever os tipos linguísticos encontrados entre as línguas a partir da observação de um padrão encontrado na manifestação de um único parâmetro gramatical, sendo este o objetivo da investigação tipológica que se pretende realizar neste trabalho. A manifestação da condicionalidade em línguas indígenas deverá ser analisada de maneira que seja possível sistematizá-la tipologicamente, fornecendo, de maneira global, suas características de marcação que são compartilhadas entre as línguas, tendo o estudo um enfoque generalizante, classificatório e caracterológico. Para o sucesso deste trabalho, no entanto, é necessário seguir um método de coleta e análise dos dados bem definido, o que explicitará a cientificidade da investigação tipológica. 2.1.1 A METODOLOGIA TIPOLÓGICA Conforme Lehmann (1978, p.4-5), toda atividade científica está envolvida com a caracterização das similaridades e diferenças estruturais entre os fenômenos. Ressalta-se, nesse viés, o caráter científico dos estudos tipológicos, que apresentam um método de análise científica específico. Rijkhoff (2007, p.2), baseando-se nesse caráter científico da tipologia, explica que as pesquisas tipológicas devem apresentar etapas que são essenciais a qualquer estudo científico, que são a classificação, generalização e explicação dos dados. Essas três etapas constituem o método tipológico de investigação de dados linguísticos. O trabalho de um tipólogo, dentro desse panorama é, primeiramente, coletar os dados linguísticos do fenômeno a ser estudado, de uma maneira mais ou menos sistemática, e depois, categorizar esses dados baseando-se em certas propriedades (assentadas em 1 Todas as traduções presentes neste trabalho são de minha autoria. 23 pressupostos de uma teoria linguística definida). Em um segundo momento, deve-se formular generalizações sobre os dados encontrados nas línguas, para, posteriormente, por fim, explicá- los (também de acordo com o modelo ou teoria gramatical adotada para tal). As generalizações e explicações, então, devem ser estabelecidas com base em evidências empíricas, adotando-se para isso o método indutivo. Ao definir que a análise tipológica deve ser avaliada menos em termos do objeto que investiga do que em função da abrangência e da qualidade dos dados que seleciona, Lehmann (1978, p.4-5) menciona que uma etapa primordial de uma investigação tipológica, portanto, é a coleta dos dados do fenômeno a ser estudado, que deverá conter amostras suficientes desse mesmo fenômeno, de modo que seja possível fazer generalizações e explicações sobre ele. Importante também nessa etapa é garantir a diversidade areal e genética da amostra, já que, essa característica, assim como atestado por Greenberg em seus estudos, permitirá que as afirmações feitas sobre os dados tenham uma maior probabilidade de serem verdadeiras. Para obter os dados para uma pesquisa tipológica, utiliza-se, por sua vez, uma variedade de recursos. Croft (2002, p.7) ressalta a importância da existência de gramáticas de referência dos idiomas, a partir das quais se podem obter os dados sobre a estrutura gramatical que se busca analisar por meio da observação da manifestação dessa estrutura em um conjunto de línguas. De posse de gramáticas de referência e, consequentemente, dos dados, se começa comparando as línguas no que diz respeito ao parâmetro gramatical analisado. Para sustentar, fazer generalizações e explicar as diferenças encontradas nas línguas em relação a esse parâmetro, é necessário ter como suporte uma teoria gramatical das línguas, ou seja, um arcabouço teórico. Considerando-se essa necessidade, percebe-se que, na etapa de explicação dos dados há, particularmente, uma aproximação da análise tipológica com a teoria funcionalista da língua. Um linguista funcionalista, segundo Croft (2002, p.11), frequentemente, em suas análises, busca universais que possam explicitar a relação da estrutura da língua analisada com a função da linguagem. A maioria dos tipologistas, por sua vez, também de acordo com Croft, busca explicações funcionais para os universais da linguagem, já que a base da comparação entre os dados é verificar como e se a função se codifica em uma forma gramatical. Há, dessa maneira, uma necessidade metodológica, como evocada por Croft (2002), de comparar as construções que codificam as mesmas funções entre as línguas, o que leva a essa orientação funcionalista de uma parte dos estudos tipológicos. 24 Nesse sentido, para que seja possível se fazer uma análise tipológica da condicionalidade em línguas indígenas brasileiras, de modo a promover uma sistematização, no que diz respeito à marcação dessa categoria, adota-se, nesta pesquisa, como arcabouço e suporte teórico, a teoria funcionalista da língua. Isto posto, na seção seguinte explicitam-se os objetivos gerais do Funcionalismo. 2.2 O FUNCIONALISMO LINGUÍSTICO Concomitantemente às determinações da linguística estrutural, inaugurada com a publicação do Curso de Linguística Geral, de Ferdinand de Saussure, em 1916, surgiu uma abordagem segundo a qual os elementos linguísticos e, portanto, as línguas, não deveriam ser consideradas autônomas, sendo, por outro lado, dependentes do discurso, ou seja, do uso que se faz da estrutura. Conceituou-se essa nova abordagem como Funcionalismo, ou teoria funcionalista da língua, que, como destaca Pezatti (2006, p.124), adota: em primeiro lugar, a concepção de linguagem como um instrumento de comunicação e de interação social e, em segundo lugar, o estabelecimento de um objeto de estudos baseado no uso real, o que significa não admitir separações entre sistema e uso, tal como preconizam tanto o estruturalismo saussureano, com a distinção entre língua e fala, quanto a teoria gerativa, com a distinção entre competência e desempenho. Assim, consideram-se as determinações acima como características básicas da teoria, dentro da qual se pode encontrar uma diversidade de pontos de vista 2 e uma gama de diferentes trabalhos, cada um com suas especificidades, que se ocupam em classificar a língua segundo a ótica funcionalista. Sendo assim, apesar de poderem apresentar diferenças em relação a algumas características e pressupostos, a consideração comum de todas as propostas que estão vinculadas à abordagem funcional é a de que a forma é motivada pela função. Afirmar que a forma é motivada pela função significa dizer que a descrição da língua é feita com base em seu uso efetivo e real, ou seja, ela é observada de acordo com seus usos em determinados contextos discursivos, o que leva à afirmação de Dik (1980), de que as línguas naturais devem ser consideradas como instrumentos de interação social, por meio dos quais os falantes interagem no meio social. Nesse sentido, o compromisso principal do enfoque 2 O ponto de vista funcional pode ser encontrado na Escola Lingüística de Praga, na teoria tagmêmica de Pike (1972), como também em Sapir (1921), Firth, Halliday, Austin e Searle. (PEZATTI, 2006, p.153). 25 funcionalista é descrever a linguagem não como um fim em si mesmo, mas como um requisito pragmático da interação verbal (Dik, 1989, p.2). Na descrição da língua em uso, deste modo, a análise dos fenômenos linguísticos se dá de forma integrada, ou seja, os níveis sintático e semântico se concretizam no nível pragmático, de modo que a descrição se expande para além dos limites da sentença, uma vez que se descreve olhando para o contexto de uso da língua (dentro do qual se encontram as motivações das escolhas que o falante faz da estrutura da língua). Considerando essa concepção de linguagem, é a partir da necessidade de comunicação que nasce o sistema da língua. Isto posto, como argumentado por Nichols (1984, p.97), “os funcionalistas acreditam que a situação comunicativa motiva, restringe, explica e determina a estrutura gramatical”.3 A teoria funcionalista, adotando os princípios mencionados acima, torna-se adequada aos propósitos da tipologia linguística, que tem como um de seus objetivos, encontrar padrões na manifestação de um único parâmetro gramatical, existentes na relação entre forma e função atestada nas línguas, de modo a descrever e explicar tais padrões, que dão às línguas certas semelhanças ou diferenças, de modo que seja possível agrupá-las em tipos. Consequentemente, tal objetivo torna, naturalmente, o método tipológico funcionalmente orientado. 2.3 A EXPRESSÃO DA CONDICIONALIDADE NAS LÍNGUAS NATURAIS Na literatura linguística, há muitos trabalhos que se ocupam em descrever a condicionalidade nas mais variadas línguas, sob diferentes perspectivas, havendo então diferentes maneiras de conceituar essa categoria (DUCROT, 1972; HAIMAN, 1978; COMRIE, 1986; DIK, 1990; NEVES, 2000; entre outros). Esses trabalhos, em sua maioria, se preocupam com a descrição da condicionalidade em línguas nas quais o valor condicional é marcado por meio de conjunções que caracterizam as chamadas orações condicionais, tais como, principalmente, a conjunção se, mas também caso, desde que, contanto que, uma vez que, a menos que, dentre outras. Para o português do Brasil, em especial, existe uma variedade de análises e descrições daquelas que são comumente conhecidas como orações subordinadas adverbiais condicionais nos compêndios gramaticais. Um dos trabalhos que mais se destacam nessa língua é o de Neves (1999, 2000). 3 Cf. o original: “Functionalists maintain that the communicative situation motivates, constrains, explains or otherwise determines gramatical structure”. (Nichols, 1984, p.97) 26 Na descrição de orações condicionais no português do Brasil, Neves (1999) subdivide as condicionais em três grupos, conforme as relações estabelecidas entre p e q: factuais/reais, contrafactuais/irreais e potenciais/eventuais/hipotéticas. Sobre a relação estabelecida entre a oração condicional p e a oração principal ou oração núcleo q, Neves (1999, p.497) a define como sendo do tipo “condição para realização > consequência/resultado da resolução da condição enunciada (resultado que se resolve em realização, não-realização, ou eventual realização)”. As orações factuais ou reais, de acordo com a autora, são definidas como aquelas que são asseguradas pela realidade constatada a partir dos fatos do mundo. Assim, para Neves (1999, p.508), o enunciado de uma prótase condicional factual (p) é tido como real e, a partir dessa constatação, o enunciado da apódose (q) será entendido como uma consequência necessária e também real, como no exemplo (1) abaixo: (01) “Se meus antepassados vieram, é claro que os dele vieram também.” (NEVES, 2000, p. 837) Segundo Neves (2000), esse tipo de condicional envolve uma relação de condição preenchida para uma consequência/conclusão. Nesse sentido, podem-se interpretar tais proposições como estabelecendo entre si uma relação de causa e consequência. Em (1), a oração condicional “se meus antepassados vieram” apresenta-se como um fato verificado, ou seja, a vinda dos antepassados é dada como certa, e, então, a consequência deste fato “é claro que os dele vieram também”, também se confirma. As orações contrafactuais ou irreais, por outro lado, são baseadas na não realidade dos fatos, tanto na prótase (p) como na apódose (q). Neves (1999, p.524) constata que as condicionais contrafactuais comunicam uma “falsidade segura”, enunciando como não existente (falso) um fato expresso em p e, a partir daí, apresenta-se outro fato em q, consequentemente também não existente (falso). É o que se observa no exemplo abaixo: (02) “Se a pergunta partisse de Irmã Flora, a resposta teria sido outra.” (NEVES, 2000, p. 840) Em (02), acima, a contrafactualidade encontra-se no “não fato”, ou no fato de maneira contrária ao evento que realmente ocorreu: a pergunta não partiu de Irmã Flora e a resposta não foi outra, ou seja, ocorre contrafactualidade quando o que foi dito na prótase e na apódose 27 for atestado que de fato aconteceu de maneira inversa (BRITO, 2018, p. 26). Por fim, as condicionais eventuais/potenciais são aquelas em que a prótase (p) é marcada pela eventualidade de um fato, ou seja, caso venha a ocorrer tal fato, o evento expresso na apódose (q), será tido como certo, como uma consequência. Assim, esse tipo de condicional, como indica Neves (2000), denota fatos possíveis, mesmo que pouco prováveis. Um exemplo para essa construção é o que consta abaixo: (03) “Se for beber, não dirija!” Foi também Neves (2000) quem, ainda considerando o português do Brasil, e instigada pelos estudos de Haiman (1978), expande a análise das condicionais nessa língua para o plano pragmático-discursivo, ao considerar a oração condicional anteposta como uma moldura de referência para a oração principal. Há, portanto, nesta língua, uma variedade de trabalhos sobre a categoria de condicionalidade, sejam quais forem seus objetivos (sintático- semânticos ou pragmático-discursivos). No que diz respeito às línguas indígenas brasileiras, muito pouco foi feito para caracterizar a manifestação do valor condicional, que é tratado apenas pontualmente em gramáticas e estudos morfossintáticos de línguas específicas. Nesse contexto, faz-se necessária uma descrição mais abrangente da condicionalidade nessas línguas, já que, nelas, a manifestação e marcação de certas categorias, dentre elas a da condicionalidade, se dá de maneiras diversas. O valor condicional pode vir a ser marcado em línguas indígenas não apenas por meio de orações, com conjunções, mas por meio de uma combinação de morfemas destinados secundariamente para a marcação deste valor, por apresentarem funções primárias diversas, ou ainda, por morfemas usados exclusivamente com esta função. Assim, uma hipótese deste trabalho, é a de que o valor condicional é múltiplo, no sentido de que envolve outras categorias linguísticas, podendo ocorrer, até, sobreposição de valores. O entendimento deste valor, com uma sistematização dos dados, portanto, torna-se relevante, uma vez que sua manifestação se distancia do que se tem como modelo de expressão em muitos trabalhos sobre a categoria da condicionalidade. Ao colocar em questão a possibilidade de um evento ocorrer, a categoria da condicionalidade, como um todo, designa conteúdos não factuais, não atualizados, ou “não pertencentes ao mundo real”, por nunca terem ocorrido no passado e/ou não estarem ocorrendo no presente, que estão sob o escopo do domínio irrealis. Nesse sentido, as 28 condicionais são categorizadas como pertencentes ao irrealis, por se referirem a “eventos ainda dentro do campo do pensamento”, diferentes de situações que são categorizadas como realis, retratadas como “atualizadas, ou realmente ocorrendo, ou tendo ocorrido.” (cf. Mithun, 1995, p. 375). Ferdinand De Haan (2012, p.36), assim como Plungian (2005), ao discutir a categoria chamada por ele de „estatuto de realidade‟, destaca que as condicionais contrafactuais, um dos tipos de condicionalidade, podem vir a ser consideradas, frequentemente, como representantes prototípicas do domínio irrealis, já que estão mais ligadas a não realidade dos fatos, ou seja, a eventos que são irreais, ou não factuais. Nesse sentido, encontram-se alguns trabalhos que se dedicam a analisar de que maneira as línguas marcam a contrafactualidade e o irrealis. Para isso, entretanto, é necessário compreender em que medida as condicionais, principalmente as contrafactuais, se relacionam ao domínio irrealis, e se, de fato, pode-se considerar a existência de uma categoria gramatical que expresse o „estatuto de realidade‟ (De Haan, 2012), ou seja, a distinção realis/irrealis nas línguas. Esse entendimento é também relevante, visto que, ao analisar as línguas que compoem o corpus deste trabalho, se verá que em algumas há a existência dessa distinção, com os morfemas irrealis desempenhando papel significativo no estabelecimento da marcação condicional. Nessa perspectiva, a seção 2.3.1 tem por objetivo caracterizar a categoria denominada irrealis, suas características, os meios pelos quais é marcada nas línguas, ou seja, sua forma de expressão, e, por consequência, sua relação com a condicionalidade. Em 2.3.2, por sua vez, são expostas as formas de marcação gramatical da contrafactualidade em línguas específicas, analisadas por Van linden e Verstraete (2008), uma vez que a distinção deste tipo condicional parece ser também frequente nas línguas indígenas brasileiras. 2.3.1 IRREALIS COMO CATEGORIA E SUA RELAÇÃO COM A CONDICIONALIDADE Para compreender melhor a categoria da condicionalidade, é necessário, primeiramente, estudar a distinção entre eventos reais e irreais, frequentemente conhecida como distinção realis/irrealis, uma vez que ela esta está envolvida na marcação condicional nas línguas indígenas brasileiras, como será visto no próximo capítulo. Ao discutir a categoria chamada de „estatuto de realidade‟, Ferdinand De Haan (2012) busca investigar se as noções de realis e irrealis podem ser consideradas, linguisticamente, como categorias gramaticais. Segundo o autor, a noção extralinguística e o ponto de vista ontológico segundo os quais há 29 uma divisão entre eventos reais e não reais (irreais) permitem constatar que tais categorias existiriam nas línguas. Segundo Vinogradov (2018, p.161), “a categoria de „estatuto de realidade‟ tem sido uma das categorias linguísticas mais debatidas nas últimas décadas”.4 Certos autores, como Bybee (1998) e De Haan (2012) rejeitam sua validade como um conceito comparável interlinguisticamente, por meio de estudos tipológicos. Para esses autores, deve-se restringir a aplicabilidade da distinção realis e irrealis apenas para fins de descrição de línguas individuais. Outros autores, no entanto, como destaca Vinogradov (2018), apresentam argumentos a favor da validade de tal categoria para fins de comparação interlinguística, particularmente quando se trata de línguas indígenas das Américas (Mithun, 1995; Elliott, 2000; Palmer, 2001; Plungian, 2005). De fato, De Haan (2012), a partir de um estudo interlinguístico a respeito de diferenças morfológicas na marcação de realis/irrealis em línguas diversas, constata que não há categoria que seja marcada uniformemente como realis ou irrealis, significando que ambos os parâmetros não possuem um núcleo a partir do qual possam operar. Disso decorreria que o estatuto tipológico das noções realis e irrealis seria inválido. Visto isso, pode-se considerar que a determinação da distinção realis/irrealis como categoria gramatical é indefinida, e motivo de estudo em vários trabalhos, como por exemplo, o de Bybee (1998), cujo objetivo também foi o de analisar a natureza de realis/irrealis. No referido trabalho, em estudo sobre o domínio irrealis, Joan Bybee (1998) considera que esse termo poderia refletir a visão de Jakobson sobre categorias gramaticais, como sendo componentes de um sistema de oposições binárias, que são baseadas em um único traço de significado (não-factualidade) que está igualmente presente em todos os seus contextos de uso. Assim, irrealis seria codificado nas línguas como uma oposição binária entre eventos reais e não reais. Além de Bybee (1998), Plungian (2005, p.137) também considera essa distinção como binária, sendo a mesma extensível a todo domínio verbal de uma língua, o que permitiria falar em uma categoria gramatical chamada de „estatuto de realidade‟. Às constatações acima, De Haan (2012, p.5) acrescenta que “as situações conceituais codificadas por um morfema irrealis são muito diversas para tornar possível definir um significado geral entre as línguas”.5 O autor propõe a análise com base nas noções de protótipo e de escopo como sendo outras maneiras de observar a representação do que ele 4 Cf. o original: “The category of reality status has been one of the most debated linguistic categories in the last few decades.” (Vinogradov, 2018, p.161) 5 Cf. o original: “The conceptual situations encoded by an irrealis morpheme are too diverse to make it possible to define a general meaning across languages.” (De Haan, 2012, p.5) 30 chama de “estatuto de realidade” nas estruturas linguísticas. A esse respeito, também foi considerado por Bybee (1998, p.257) que a visão Jakobsoniana sobre categoria gramatical não se encaixa na visão atual de análise de protótipo, que entende as categorias como “tokens de uso organizado em torno de um protótipo com o qual compartilham alguns, mas não necessariamente todos os seus traços/características”.6 Esse entendimento do significado gramatical visto a partir da noção de protótipo tem respaldo a partir de trabalhos, na psicologia, como o de Rosch (1973), de acordo com o qual os objetos comuns em nossa experiência seriam categorizados com base no número e tipo de características que compartilhariam com um membro central ou focal desta categoria, o que levou a conclusão, segundo Bybee (1998, p.260), de que alguns membros podem se encaixar de maneira mais direta a uma categoria linguística, enquanto que outros podem ser mais marginais, ou seja, nem todos os significados de um morfema gramatical devem ser considerados como exemplares da categoria em questão. Essa seria, então, a chamada análise de protótipo, comprovada também com o trabalho de Dahl (1985, apud Bybee, 1998), com o qual se tornou notável que as categorias gramaticais das línguas são organizadas em termos de exemplos mais centrais e mais marginais, de modo que seria possível definir o elemento nuclear, ou central de uma categoria, interlinguisticamente, e medir o grau em que as categorias específicas se encaixariam nesse “protótipo”. Dessa forma, pode-se chegar à conclusão de que nem todos os traços que caracterizam o significado de um morfema gramatical precisam estar presentes em todos os seus usos, como preconizava a teoria Jakobsoniana, ao determinar que todos os usos de um morfema gramatical, não importa o contexto, deveriam compartilhar pelo menos uma característica invariante. Mais tarde, em discussão sobre a análise de protótipo, De Haan (2012, p. 5) a considera como mais adequada para os objetivos tipológicos, e, ao tratar da distinção realis/irrealis, indica que “se existisse uma categoria tipológica de „estatuto de realidade‟, então uma análise de protótipo seria, com toda a probabilidade, a melhor maneira de lidar com a variação tipológica”.7 De acordo com o autor, no entanto, não há ainda nenhuma proposta de análise de protótipo da categoria de „estatuto de realidade‟ que tenha validade interlinguística, sendo a proposta de Plungian (2005, p.138) a mais próxima de tal. Em seu 6 Cf. o original: “This notion of irrealis does not therefore fit well with more current views of categories as tokens of use organized around a prototype with which they share some but not necessarily all features...” (Bybee, 1998, p.257) 7 Cf. o original: “And if there were such a thing as a typological category of reality status then a prototype analysis would in all likelihood be the best way to deal with the typological variation.” (De Haan, 2012, p.5) 31 trabalho, Plungian (2005) fornece um quadro 8 com significados/categorias divididas ao longo dos domínios realis/irrealis, expresso abaixo: Sempre marcado como irrealis Contrafactual Optativo e conjuntivo Intencional e volicional Probabilidade e duração Menos frequentemente marcado como irrealis Evidencial indireto Negação Interrogativo Imperativo e proibitivo Habitual e passado imperfectivo Passado remoto Mais frequentemente marcado como irrealis Futuro (especialmente remoto ou incerto) Prospectivo Condicional e concessivo Intenção/propósito Nunca marcado como irrealis Passado perfectivo Passado imediato ou resultativo Presente progressivo A abordagem de protótipo determina a existência de um núcleo para uma determinada categoria gramatical, que seria marcado como a instância prototípica de manifestação do significado desta categoria. Por outro lado, há também os significados não centrais, chamados periféricos. Segundo a proposta de Plungian (2005), pode-se considerar que o significado nuclear de irrealis é manifestado pelas categorias à esquerda, no quadro 1 acima, enquanto que os significados realis são representados pelas categorias à direita, no mesmo quadro. Conforme esse autor, uma propriedade interessante do irrealis como sendo uma categoria interlinguística seria o fato de que há uma “gama de domínios irreais que varia consideravelmente de língua para língua, de modo que o que é chamado de irrealis em uma língua poderá ter apenas uma aparência remota de irrealis em outra língua”. Essa variação interlinguistica, segundo o autor, é típica para a maioria das categorias gramaticais. Segundo ele ainda, apesar de o resultado da divisão realis/irrealis de uma língua para outra não ser completamente idêntico, há entre elas, no entanto, um número de “marcadores tipicamente irreais” e “tipicamente reais” em comum, o que ele expõe por meio do quadro acima, feita com base em diversos estudos tipológicos do irrealis, dentre os quais ele cita o de Roberts (1990), Bugenhagen (1993), Givón (1994), Mithun (1995), Elliott (2000) e Urmancieva (2004). Além disso, ao discutir e determinar os tipos de significados expressos pelo irrealis, Plungian (2005, p.138) considera que a propriedade de ser irreal resulta de vários componentes semânticos, que são expostos abaixo: 8 Quadro refeito e traduzido pelo autor do presente trabalho. Quadro 2: Marcação do irrealis de acordo com Plungian (2005, p.138) 32 (a) “tendo ocorrido”, ou seja, para ocorrer ou ter ocorrido suficientemente perto do momento da fala; (b) “estar certo”, ou seja, o falante deve ter uma “crença forte em relação à proposição”; (c) “ser específico” para representar uma situação claramente identificável com os argumentos específicos e localização precisa no tempo (de preferência único e completo/concluído). Assim, de acordo com o autor, quando todos esses componentes concordam, a marcação irreal nas línguas será altamente provável ou mesmo obrigatória. Dessa maneira, haveria casos mais típicos ou prototipicamente irreais, tais como as situações contrafactuais, caracterizadas no quadro como sempre marcadas com irrealis, pois são situações que se caracterizam como nunca tendo ocorrido e não sendo nem certas, nem específicas. A contrafactualidade apresenta então, uma concordância dos componentes semânticos dos quais resulta a propriedade de ser “irreal”, sendo essa mesma constatação verdadeira para a maioria das situações hipotéticas, o que explica o fato de a condicionalidade também figurar do lado esquerdo do quadro 2, acima. Mithun (1995, p.376-377), por sua vez, também vê as contrafactuais e condicionais como “geralmente classificadas como irrealis em todas as línguas em que há uma distinção realis-irrealis gramaticalizada”.9 Existem, segundo a autora, outras construções, como o imperativo e a negação, que mostrariam uma maior variação entre as línguas do que a contrafactualidade. Dessa forma, já é esperado que as proposições contrafactuais “não ocorram ou não tenham ocorrido”, diferente dos imperativos, por exemplo, que podem ser vistos como “implicando expectativas razoáveis de conformidade.” 10 É importante citar ainda que, em seu trabalho, Plungian (2005, p. 144) chega à determinação de uma „escala de irrealidade‟, por meio da análise do russo. Em russo não há uma marcação gramatical do „estatuto de realidade‟, pois não há oposição entre marcadores reais e irreais, nem mesmo um marcador exclusivo de irrealis. No entanto, a língua tem formas específicas cujos significados podem ser considerados como “reminescentes” do que é representado em outras línguas como uma distinção realis/irrealis. Nesse sentido, a organização de vários domínios semânticos no russo refletiria essa distinção. 9 Cf. o original: “Some kinds of consfiuctions, such as counterfactuals and conditionals, are generally classified as krealis in all languages with a grammaticized hrealis/ Realis distinction”. (Mithun, 1995, p.376) 10 Cf. o original: “While counterfactual propositions are expected not to occur or have occurred at all, imperatives could be seen to imply reasonable expectations of compliance”. (Mithun, 1995, p.377) 33 Como exemplo, o russo apresenta a partícula by, que, do ponto de vista de seu significado semântico, é usada para indicar os valores condicionais de contrafactualidade e hipoteticidade, vistos no quadro 2 como valores irreais centrais. O imperativo, no russo, usualmente expresso com aspecto perfectivo, também poderá apresentar um número de contextos sintáticos específicos que permitem as seguintes leituras, segundo Plungian (2005, p.143): condição contrafactual ou hipotética, obrigação ou necessidade, além do optativo. Tais valores, como argumenta o autor, são típicos do domínio da irrealidade, embora alguns deles não representem os valores centrais do domínio, como os de obrigação ou necessidade. A partir dessas análises, Plungian (2005) chegou à conclusão de que com os valores expressos acima, representativos do domínio irrealis, no russo, pode-se estabelecer uma „escala de irrealidade‟, sendo o imperativo o valor mais real, por ter muito em comum com o domínio da realidade, em vista de seu alto grau de certeza e de sua proximidade com o momento da fala; e o condicional (contrafactual e hipotético), o menos real. No quadro abaixo, no qual está exposta a escala, o elemento semântico que aparece na última linha, conforme o autor é uma representação convencional do significado que seria o mais típico associado à forma em questão. Quadro 3: Formas verbais russas em uma 'escala de irrealidade' (PLUNGIAN, 2005, p.144) IRREALIDADE < * > REALIDADE Condicional Infinitivo imperativo Contrafactualidade “iminência” volição Voltando para o trabalho de Bybee (1998, p.262), na investigação do significado ou função dos morfemas gramaticais, especialmente em um trabalho tipológico, é importante, ainda distinguir o domínio conceitual relevante em que determinada expressão gramatical estudada se insere, de outros conceitos dentro desse domínio. Nesse sentido, o tempo seria um domínio conceitual universalmente relevante, por exemplo, e as línguas, dessa maneira, se referem a conceitos temporais tanto por meios lexicais (com o uso de advérbios), quanto por meios gramaticais. É possível também considerar a modalidade como um amplo domínio funcional ou conceitual, mas, segundo Bybee (1998, p.263), “a modalidade, em vez de abranger um domínio conceitual, como tempo e aspecto o fazem, pode abranger quatro 34 domínios” 11: o domínio das condições sobre os agentes/ modalidade orientada para o agente; o domínio funcional dos atos de fala/modalidade orientada para o locutor; o domínio epistêmico/modalidade epistêmica; e por fim, o domínio das proposições subordinadas, como chamado pelo autor, no qual figuram as subordinadas, que geralmente podem estar relacionadas aos três primeiros domínios. Ao se referir aos quatro domínios acima, Bybee (1998, p.263) pontua que certos morfemas gramaticais podem ser ambíguos, no sentido de que seus sentidos podem vir a se encaixar em dois ou mais desses domínios. Como exemplo, há, no inglês britânico, o should, que é usado para expressar uma obrigação, uma possibilidade epistêmica e o imperativo. Apesar de tal complexidade, a maioria dos morfemas gramaticais universais podem ser identificados como estando dentro do domínio da modalidade, assim como no de tempo e aspecto, uma vez que certos significados focais modais ocorrem com frequência em várias línguas, como por exemplo, os que expressam probabilidade epistêmica. Trabalhando com o domínio da modalidade, Givón (1984) propõe uma redefinição comunicativa para a modalidade de tradição lógica, correlacionando-a ao grau de factualidade/realidade da proposição, que pode vir a ser uma asserção realis ou irrealis. Falar sobre modalidade, portanto, é importante quando se discute sobre a distinção realis/irrealis nas línguas, já que essas noções estão correlacionadas com a atitude do falante perante o enunciado, ou seja, estão inseridas dentro do domínio funcional da modalidade. Assim, é expresso o realis, quando o falante é assertivo frente ao evento transmitido no enunciado, caracterizando-o como verdadeiro [+ factual]. No pólo oposto, está a noção de irrealis, que pode ocorrer quando o falante não se compromete com o conteúdo de sua proposição, marcando-o como sendo provável ou incerto [-factual] (cf. FREITAG, ARAUJO, BARRETO, 2013). Importante ainda citar que Givón (1995), em sua redefinição de modalidade, aponta que há uma correlação entre tempo-aspecto e modalidade epistêmica, estando o passado/perfectivo, presente/progressivo, correlacionado ao realis; o futuro correlacionado ao irrealis; e o habitual correlacionado a ambos. Nesse sentido, veremos que a ocorrência do morfema irrealis nas línguas pode expressar também valores temporais, estando essa noção também ligada ao domínio conceitual temporal, além do modal, de modo que poderá haver uma sobreposição de valores. Por outro lado, contextos com determinadas características temporais, podem favorecer a ocorrência do irrealis. 11 Cf. o original: “Thus modality, rather than encompassing one conceptual domain, as tense and aspect or person and number do, may span these four domains.” (Bybee, 1998, p.263) 35 Uma construção condicional não-factual (irrealis), dentro desse contexto, funciona como ferramenta para o falante expressar seus julgamentos e avaliações sobre a proposição expressa. Assim, ao apresentar uma situação como temporalmente dependente de outra, há um grau menor de asserção do falante sobre a proposição, que é caracterizada como possível ou improvável. A modalidade, portanto, ao ser vista como um dos mais importantes domínios tipológicos funcionais, por Givón (2001), inter-relaciona vários domínios conceituais cuja expressão se dá por meio de categorias gramaticais (ou lexicais), estando a categoria irrealis aí inserida. Como foi afirmado anteriormente, no entanto, a distinção realis/irrealis como sendo categorias gramaticais universais é indefinida na literatura linguística, já que não há uma marca morfológica que seja usada exclusivamente para indicar irrealis em todos os contextos, ou seja, esse domínio semântico não é marcado por um único marcador gramatical. De fato, Bybee, Perkins e Pagliuca (1994), segundo Bybee (1998, p.264), ao desenvolverem uma pesquisa interlinguística das categorias do verbo, não encontraram evidências para a existência de um tipo de morfema gramatical universal de irrealis que fosse de alguma forma comparável a outros tipos de morfemas já identificados, como os de perfectivo, futuro, etc. A pesquisa interlinguística comprovou que para qualquer idioma, existem vários morfemas gramaticais que marcam porções do espaço conceitual para situações que não têm sua existência afirmada – ou, se há um morfema altamente generalizado, este não cobre todas as situações irrealis, e, além disso, não tem realmente um significado invariável, mas, pelo contrário, tira seu significado da construção em que ocorre. (Bybee, 1998, p.264-265) 12 Também de acordo com Mithun (1995, p.367), a expressão formal da distinção realis- irrealis varia linguisticamente, de maneira que as categorias gramaticais referidas pelos termos realis e irrealis estão longe de serem uniformes linguisticamente, já que os tipos de construções marcadas como irrealis em uma língua podem ser marcadas como realis em outra língua (como exemplo, temos o imperativo). Essa distinção, segundo o autor, pode ser codificada por diversos marcadores: por partículas, por clíticos frasais, por inflexão verbal e talvez até por derivação verbal. 12 Cf. o original: “Instead, the crosslinguistic survey found precisely what the papers in this issue report: For any given language, there are several grams that mark of portions of the conceptual space for situations that are not asserted to exist, or if there is a highly generalized gram, it does not cover all" irrealis" situations and furthermore does not actually have one invariant meaning, but rather takes its meaning from the construction in which it occurs.” (Bybee, 1998, p.264-265) 36 Para exemplificar, em uma língua do Lago Miwok, o Callaghan, de acordo com Bybee (1998), há morfemas gramaticais diferentes para a expressão de vários significados que são considerados do domínio do irrealis: o futuro, dois negativos, um sufixo verbal usado para indicar desejo, intenção e às vezes futuro ou imperativo, um marcador sentencial que indica propósito e partículas para a prótase e apódose de condicionais contrafactuais. Apesar disso, não há um marcador explícito para o domínio irrealis. De Haan (2012) também constata, em pesquisa interlinguística, que há diferentes meios morfológicos por meio das quais as línguas podem expressar a noção de irrealidade. Assim, por meio de estudos de caso, o autor demonstra que, assumindo que o irrealis exista como categoria gramatical, há uma ampla variedade semântica envolvida em sua marcação que não permanece a mesma entre as diversas línguas, havendo, portanto, heterogeneidade em seus padrões de distribuição, como constatado também por Sansò (2018). Analisando as formas de expressão do irrealis, De Haan (2012, p.8) ainda explica que, de acordo com Gívon (1994) e Palmer (2001), os modos mais prototípicos para expressar a distinção realis/irrealis são os modos indicativo e subjuntivo. Dessa forma, frequentemente, assume-se que há uma correspondência direta entre realis e modo indicativo e irrealis e modo subjuntivo, como demonstram alguns exemplos abaixo, do subjuntivo latino, retirados de De Haan (2012, p.8-9). (04) Hypotheses habe-bo ac si scrips-isses regard-1SG.IND.FUT and if write-2SG.SUBJ.PST.PERF “I shall regard it as if you had written... .” “Eu considero como se você tivesse escrito... .” (05) Wishes sint beati be.3PL.SUBJ.PRES happy.PL “May they be happy!” “Que eles sejam felizes!” (06) Potential and Ability events cuneo hoc agmen disici-as wedge this line Split-2SG.SUBJ.PRES “With a wedge, one could Split this (military) line.” “Com uma fatia, pode-se dividir esta linha.” 37 Segundo De Haan (2012), o que une os exemplos acima é o fato de que todos descrevem eventos que não ocorreram ou não ocorreram ainda (irreais), ou eventos que podem ocorrer (potenciais). Cobrem, portanto, nos termos de Cristofaro (2012, p.138-139), “estados-de-coisas que não são apresentados como positivamente realizados em algum ponto de referência, mas podem ocorrer posteriormente” ou ainda “estados-de-coisas que não aconteceram”. Isso mostra que o modo subjuntivo, nas línguas latinas, pode ser usado para descrever eventos irreais, potenciais ou não realizados. Da mesma forma, o autor mostra que o modo indicativo, por outro lado, é usado para a expressão de eventos reais e atuais. (Cf. De Haan, 2012, p.9) Apesar dessa correspondência, o autor levanta algumas questões que podem mostrar o oposto. Os eventos futuros, por exemplo, são sempre definidos no modo indicativo, porém, alguns exemplos mostram que esse tempo verbal pode se referir a eventos irreais ou não realizados, como os expressos nos exemplos acima (04-06), mesmo com a não utilização do modo subjuntivo (De Haan, 2012, p.10): (07) Future of Resolve non fer-am NEG bear-1SG.IND.FUT “I will not bear it.” “Eu não vou suportar isso.” (08) Future of Indignation ded-emus ergo Hanniba-em? give.up-1PL.IND.FUT then Hannibal-ACC “Shall we then give up Hannibal?” “Devemos então desistir de Hannibal?” A negação também ocorre independentemente do modo, em línguas latinas. Em (07), acima, há uma sentença negativa no modo indicativo. No exemplo (09) abaixo ocorre a negação no modo subjuntivo. (09) Obligation and Propriety (DE HAAN, 2012, p.9) hunc ego non admirer? this I NEG admire-1SG.SUBJ.PRES “Ought I not to admire (a man like) this?” “Eu não devo admirar isso?” 38 Conforme De Haan (2012), as sentenças negativas denotam, por definição, eventos irreais, e, desse modo, pode-se pensar que elas são sempre expressas com morfemas irrealis. O exemplo (09) acima, entretanto, demonstra que isso nem sempre ocorre. Com isso o autor conclui que, apesar de haver, em muitas línguas, correspondência entre o modo subjuntivo e irrealis, essa correspondência ainda pode ser diferente em algumas línguas, como as latinas, nas quais a escolha do modo não é dependente da realidade da ação descrita. Em outra língua, o Amele, falada em Papua-Nova Guiné, De Haan (2012), ao citar o trabalho de Roberts (1990), constata que a marcação irrealis também pode ocorrer em sentenças em que há encadeamento de orações. Nessas sentenças, o verbo medial é marcado com um sufixo que mostra se o assunto das orações encadeadas é o mesmo (SS) ou um assunto diferente (DS). Tempo e modo são marcados, por sua vez, no verbo final da frase. Assim, quando o morfema DS ocorre em verbos que expressam simultaneidade, há uma escolha entre dois conjuntos de marcadores DS, um correspondente a realis e outro correspondente a irrealis, como mostra o quadro 4 abaixo. Quadro 4: Morfemas DS em verbos simultâneos na língua Amele (DE HAAN, 2012, p.11) A marcação da categoria irrealis ocorre por meio do marcador DS junto a um verbo medial “simultâneo”, e no verbo final, havendo, portanto, dupla marcação, como pode ser visto no exemplo (10): (10) Ho bu-busal-eb age qo-u-b. (DE HAAN, 2012, p.11/12) pig SIM-run.out-3SG.DS.IRR 3PL hit-CONTR-3PL “They should/would have killed the pig as it ran out.” “Eles deveriam/teriam ter matado o porco assim que ele fugiu.” Em (10), o morfema –u marca contrafactualidade, categoria que, como já visto, pode ser considerada como prototípica do domínio irrealis. O verbo medial, por sua vez, é marcado 39 com um morfema DS do conjunto B do quadro 4. Roberts (1990, p.375, apud De Haan, 2012, p.12), atribui ao conjunto B (irrealis), as categorias do futuro, imperativo, hortativo, proibitivo e contrafactual, o que significa que a categoria irrealis é marcada por e engloba, portanto, outras categorias. Nesse sentido, o irrealis poderia ser de fato, considerado uma categoria, uma vez que contém outras em seu domínio. Pode-se dizer, assim, que a categoria de futuro em uma língua X, faz parte da categoria irrealis, enquanto que em uma língua Y, o futuro pode vir a fazer parte da categoria realis. Essas diferenças foram constatadas pelos estudos de caso feito por De Haan (2012), que, portanto, observa que mesmo que seja possível fazer uma divisão entre eventos reais e irreais, separando-os em categorias pertencentes aos dois conjuntos, essa divisão não será idêntica em todas as línguas, apesar de poder conter alguns membros prototípicos, como a contrafactualidade, para o domínio irrealis. Essa afirmação do autor pode levar à conclusão de que, como consequência, “nas descrições gramaticais, um morfema gramatical de irrealis não necessariamente corresponde a um morfema que é usado para marcar todos os tipos de eventos não reais”. (De Haan, 2012, p.2). Outra conclusão a que chega De Haan (2012) com seu estudo sobre a natureza dos tipos de marcação morfológica da distinção realis-irrealis, é que o morfema que marca tal distinção é mais comumente encontrado no verbo. Essa, no entanto não é uma verdade universal, uma vez que se pode também encontrar essa marcação em categorias lexicais, que geralmente se encontram na borda das frases, semelhante ao que ocorre com a evidencialidade. Além disso, também de acordo com De Haan (2012, p. 18), a maioria dos morfemas que marcam o „estatuto de realidade‟ parece ter um significado primário, sendo a marcação realis ou irrealis, desenvolvimentos secundários nas línguas. Na língua Amele, como foi visto anteriormente, esses morfemas marcam, como função primária, o status de sujeito/assunto igual ou diferente. Conforme Sansò (2018, p.1), também, observa-se uma tendência de os marcadores irreais se combinarem com outros marcadores, por meio de morfemas que codificam outras categorias gramaticais, além do „estatuto de realidade‟. Apesar de não haver uma divisão comprovada interlinguisticamente, entre grupos de categorias bem definidas que marcam a divisão realis-irrealis de forma idêntica em todas as línguas, como foi dito anteriormente, pode haver um pequeno grupo de subcategorias que, na maioria das línguas, pode marcar irrealis. Entretanto, isso não significa que esse domínio seja semelhante a um domínio como o aspecto, no qual as várias subcategorias (aspecto perfectivo e imperfectivo, por exemplo) têm um significado nuclear que não varia entre as línguas. Pelo contrário, significa que, diferente do que ocorre no domínio irrealis, os morfemas de aspecto 40 perfectivo, por exemplo, apresentam como seu significado central a definição de “ação completa”, independente de qualquer outro significado específico que esse morfema possa vir a apresentar em determinada língua. Uma dessas subcategorias, que marcam irrealis, como argumenta De Haan (2012, p.20), é o tempo passado, ou mais especificamente, o pretérito. Conforme o autor, na maioria das línguas em que há a distinção de passado e um morfema separado para indicar a distinção realis-irrealis, o pretérito pode ser usado tanto como um morfema explícito de realis, quanto como um marcador zero, que denota a ausência do morfema irrealis. Há línguas, por outro lado, nas quais o pretérito ocorre com um morfema explícito de irrealis, havendo uma ligação entre esse tempo verbal e os eventos considerados irreais ou não-factuais, de modo que o pretérito pode ser considerado como a própria expressão do irrealis, assumindo as características desse domínio para si. Esse fenômeno, como indica De Haan (2012), pode ser encontrado em várias línguas, nas quais haverá um morfema que combina as noções de irrealis e passado. Para exemplificar, na língua inglesa, em orações condicionais o pretérito é utilizado de uma maneira que lembra a marcação irrealis em outras línguas. (11) “If I said you have a beautiful body, would you hold it against me?” (DE HAAN, 2012, p.20) “Se eu dissesse que você tem um corpo lindo, você se colocaria contra mim?” Steele (1975, apud De Haan, 2012) desenvolveu, a respeito da ligação entre o pretérito e irrealis, uma explicação para essa relação. A partir do exame de línguas uto-astecas, observou-se a existência de um morfema –ta, que combinava as noções de irrealis e passado. A partir dessa observação, foi estabelecido dois conjuntos (A e B) com formas cognatas que remontam ao morfema –ta, diacronicamente. Os morfemas do conjunto A, têm, em sua origem, um significado irrealis. Os morfemas em B, por sua vez, apresentam um significado original de passado. Esses conjuntos são mostrados no quadro abaixo: 41 Quadro 5: Morfemas irrealis/passado da língua Uto-asteca (Steele, 1975, p.202, apud De Haan, 2012, p.21) Ao analisar o quadro elaborado por Steele, De Haan (2012) observa que o conjunto A não expressa todo o espectro completo de significados irreais, faltando as categorias de futuro e imperativo. A condicionalidade está representada dentro do conjunto A, nos quais constam as condicionais hipotéticas e contrafactuais, somadas ao significado relacionado de dúvida. Para Steele (1975), há, portanto, uma conexão entre eventos passados e eventos irreais (não-factuais) que é resultado da dissociação, ou seja, “o evento descrito na frase é, em ambos os casos, removido da realidade presente”. Essa afirmação não considera, no entanto, que é o futuro que marca a noção de distanciamento, e não o passado, como contrapõe Palmer (1986), citado por De Haan (2012). O motivo que leva o pretérito a ser usado para marcar irrealis, então, permanece como uma questão em aberto, como indica o autor. A subcategoria de futuro, também, apesar de poder ser pensada como puramente pertencente ao domínio irrealis, já que ações que ocorrem no futuro são, por definição, irreais e ainda não realizadas, pode também marcar realis em determinado conjunto de línguas. (12) Amele (Roberts, 1990, apud De Haan, 2012, p.23) Ho bu-busal-eb age qo-qag-an pig SIM-run.out-3SG.DS.IRR 3PL hit-3PL-FUT “They will kill the pig as it runs out.” “Eles vão matar o porco assim que acabar.” Também o presente pode vir a ser expresso com um morfema irrealis em certas línguas, mesmo sendo naturalmente realis. Nesse caso, como indica De Haan (2012, p.24), as ações no presente não estão marcadas ou recebem o morfema irrealis. Ações passadas, por sua vez, não são marcadas, ou recebem o morfema realis. Semelhante ao presente espera-se que o aspecto habitual, usado para denotar uma ação 42 que é realizada habitualmente, caia no domínio realis. Entretanto, pode haver línguas nas quais o aspecto habitual é marcado de maneira idêntica a outras categorias irrealis, com um morfema irrealis anexado (cf. De Haan, 2012, p.25). O quadro abaixo, desenvolvido por Cristofaro (2004, p.263, apud De Haan, 2012, p.25), mostra que um morfema habitual pode marcar também, no conjunto de línguas citadas, uma variedade de significados que estão associados ao irrealis, dentre os quais os mais comuns são futuro e obrigação. Quadro 6: Morfemas de passado habitual também significam... (Cristofaro, 2004, p.263) Outras subcategorias que marcam irrealis são os imperativos e proibitivos. Por fim, a negação, como já citado anteriormente, aciona automaticamente a marcação do domínio irrealis. Um exemplo é a língua Muyuw, na qual um morfema irrealis é utilizado sempre que ocorre uma negação na frase. De maneira geral, no entanto, De Haan (2012) alerta para a não existência de categorias que sejam inequivocadamente realis ou irrealis, como demonstra a discussão feita até aqui. As subcategorias citadas podem marcar irrealis em alguns conjuntos de línguas, mas isso não significa que não marquem ou deixem de marcar também o domínio realis, em alguns casos. Também existem, como foi visto, casos em que um morfema apresenta um significado central, podendo também ser utilizado para marcar significados secundários, como é o caso de will/would, na língua inglesa, utilizados principalmente para expressar a noção temporal de futuro, embora possam exibir uma variedade de significados secundários que são tipicamente expressos por morfemas irrealis. Ao se falar especificamente sobre a categoria de condicionalidade, é sabido que esta pertence ao domínio irrealis, já que descreve eventos que são não factuais. Apesar disso, ainda existem algumas exceções: pode haver línguas com morfemas irrealis, como indica De 43 Haan (2012, p.28), nas quais “é possível que qualquer um dos tipos de condicionais seja marcado também como realis”. É o que ocorre na língua oceânica Sinaugoro, nas quais as condicionais hipotéticas são marcadas com morfemas realis, enquanto que as contrafactuais são marcadas com morfemas irrealis. Uma explicação para isso, segundo De Haan (2012, p.28), é que as condicionais hipotéticas apresentam uma chance de se tornarem reais, enquanto que as contrafactuais, por outro lado, são sempre hipotéticas e, portanto, nunca reais. As condicionais contrafactuais, por serem marcadas e expressas na maioria das línguas por meio de morfemas irrealis, em estruturas que se referem mais diretamente a eventos não factuais ou não atualizados, têm sido analisadas, dentro de um sistema de análise de prototipicidade, como membros mais prototípicos do domínio irrealis, como ressalta De Haan (2012). Mithun (1995) e Plungian (2005) também trataram as condicionais e contrafactuais como sendo as melhores evidências da adequação do rótulo irrealis para um marcador. Para Mithun (1995, p. 384), mais especificamente, essas construções podem assim ser consideradas, pois transmitem ideias que estão mais claramente dentro do campo do pensamento/imaginação, em vez de estarem dentro do campo da realidade atualizada, passível de conhecimento através da percepção direta. A contrafactualidade, segundo Pietrandrea (2012, p.5-6), como significado irreal, ocorre quando um estado-de-coisas é qualificado como não real, ou seja, como não ocorrendo ou tendo ocorrido no mundo real. Há, portanto, uma negação da atualização de um estado-de- coisas. Para Cristofaro (2012, p.12), estados-de-coisas contrafactuais são geralmente imaginados em contextos passados, que não ocorreram, e cujos contrários ocorreram em seu lugar. Dessa maneira, para essa autora, a contrafactualidade envolve dois componentes de significado: o fato de que foi possível que algum estado-de-coisas ocorresse no passado e o fato de que não ocorreu. São, portanto, estados-de-coisas contrafactuais, as situações que poderiam ter ocorrido no passado, mas não ocorreram. (cf. Cristofaro, 2012, p.19-20). Para Verstraete (2005, apud Cristofaro, 2012, p.20), uma vez que a ocorrência de estados-de-coisas passados é inerentemente verificável, se uma forma que codifica um estado- de-coisas possível for usada em um contexto passado, isso desencadeia a inferência de que esse estado-de-coisas não ocorreu, porque, de outra forma, a expressão de certeza teria sido usada, por ser mais informativa. Considerando esta afirmação, conclui-se que, para a interpretação das condicionais contrafactuais, é levada em conta a característica da „não exclusão de factualidade‟, termo definido por Pietrandrea (2012), que pode equivaler-se à 44 ideia de potencialidade. A característica de não atualização da contrafactualidade, segundo Pietrandrea (2012, p. 9), pode se originar como uma implicatura generalizada da característica de potencialidade, ou não exclusão de factualidade, já que, “quando localizada em um domínio temporal que é inerentemente cognoscível, e, portanto, dentro do reino da certeza, o uso de uma expressão de potencialidade está em contraste com uma expressão de certeza mais informativa e, portanto, aciona-se a implicatura de que o evento não ocorreu, ou seja, uma implicatura de não atualização”. Isso está de acordo com as considerações de Verstraete (2005) sobre a contrafactualidade. O estado-de-coisas contrafactual é apresentado, então, como “apenas uma de um conjunto de alternativas mutuamente exclusivas que ocorreram no passado” (PIETRANDREA, 2012, p.9). 13 Como exemplo, a autora traz o seguinte, retirado do italiano: (13) “Se tu fossi venuto com me ci sarei andato.” (PIETRANDREA, 2012, p.10) “If you had come with me, I would have gone there.” “Se você tivesse vindo comigo, eu teria ido lá.” Em (13), o estado-de-coisas contrafactual representado na prótase é meramente apresentado “como para não ser excluído no passado”. Aciona-se então, decorrente dessa “não exclusão da factualidade”, a implicatura de que o evento realmente não ocorreu, ou seja, a “implicatura de sua contrafactualidade”. As condicionais hipotéticas, por outro lado, implicam mais diretamente a alternatividade ou não exclusão da factualidade, sendo este um componente definidor de sua estrutura conceitual, como indica Pietrandrea (2012, p.7). Essa característica pode ser explicada pela „bicondicionalidade‟, observada também por outros autores, como Geis e Zwicky (1971) e Prandi (2004). Assim, uma condicional simples poderá ser interpretada como sendo “bicondicional”, como fica mais claro a partir do exemplo abaixo: (14) “If it hails the harvest will be lost.” (PIETRANDREA, 2012, p.7) “Se chover a colheita será perdida”. Em (14), acima, há a implicação de que o segundo evento (a colheita será perdida) ocorrerá se o primeiro evento acontecer (chover). No entanto, não se pode excluir a 13 Cf. o original: “The factuality of the SoA depicted in the protasis is thus presented as not to be excluded among other option (...)”. (Pietrandrea, 2012, p.9) 45 possibilidade de que o segundo evento não ocorra (a colheita não será perdida) caso o primeiro não aconteça (não choveu), o que demonstra a interpretação bicondicional das condicionais hipotéticas. Nesse sentido, como indicam Dancygier e Sweetser (2005, p.35): “(...) a necessidade comunicativa de uma interpretação bicondicional de construções condicionais hipotéticas leva os ouvintes a construírem não apenas um único espaço mental envolvendo o estado-de-coisas representado na prótase e o estado-de-coisas representado na apódose, mas também, uma alternativa mutuamente exclusiva de um espaço mental envolvendo a negação do estado-de-coisas expresso na prótase e apódose”. (DANCYGIER e SWEETSER, 2005, p.35, apud PIETRANDREA, 2012, p.7) 14 Conforme Lazard (1998, 2006, apud Pietrandrea, 2012), as condicionais contrafactuais podem ser expressas por diferentes meios, constituindo-se em padrões de marcação: formas verbais específicas, presença de um morfema que significa “se” e uma prótase, formas verbais passadas e imperfeitas, formais verbais combinando um morfema irrealis e um morfema de passado, dentre outras. Van linden e Verstrate (2008) analisaram interlinguisticamente a natureza e origem da contrafactualidade, analisando esses padrões de marcação em diferentes línguias. Para exemplificar de que maneira o valor condicional pode ser expresso nas línguas por meios morfológicos, como ocorre com as línguas indígenas, o trabalho desses dois autores é essencial. Portanto, a próxima seção, 2.3.2, então, objetiva evidenciar esses padrões e formas de marcação. 2.3.2 PADRÕES DE MARCAÇÃO DA CONTRAFACTUALIDADE Van linden e Verstraete (2008) consideram que a contrafactualidade é mais frequentemente marcada por uma combinação de elementos que apresentam outras funções em outros contextos que não o de uma construção condicional, ou seja, de forma isolada, esses elementos poderiam marcar modalidade, tempo ou aspecto, mas quando em combinação, contribuem para a leitura condicional de uma sentença. Nesse sentido, o estudo mostrou que não há um marcador que seja único e exclusivo desta categoria, sendo este muito raro. Apesar disso, os autores constataram, em cada combinação, a presença de um elemento que pode ser considerado modal: a marcação de 14 Cf. o original: “According to Dancygier & Sweetser (2005: 35), the communicative necessity of a biconditional interpretation of hypothetical conditional constructions, prompts hearers to construct not only a single „mental space‟ involving the SoA depicted in the protasis and the SoA depicted in the apodosis, but also an alternative mutually exclusive „mental space‟ involving the SoA negating the SoA depicted in the protasis and the SoA negating the SoA depicted in the apodosis.” (Pietrandrea, 2012, p.7) 46 algum tipo de potencialidade. A partir de Pietrandrea (2012), pode-se considerar esse elemento como sendo a “não exclusão da factualidade”. De acordo com Van linden e Verstraete (2008), esse elemento modal pode se combinar com marcadores de passado, com marcadores aspectuais, ou com uma combinação de ambos. Também segundo Van linden e Verstraete (2008), as contrafactuais envolvem uma reversão de polaridade: do fato, ao não fato. O estudo desses autores se concentrou na expressão da contrafactualidade em orações simples, e, nesta seção, esses padrões serão expostos, uma vez que se presume que os mesmos poderão também ser observados, nas línguas indígenas brasileiras, para a marcação morfológica da condicionalidade como um todo. De maneira geral, os padrões observados por Van linden e Verstraete (2008), para marcação da contrafactualidade, são os seguintes: i. - marcação contrafactual direta: marcação da contrafactualidade por meio de um único morfema gramatical, que consiste em sufixos verbais irrealis, usados em contextos contrafactuais; ii. (15) Hua (Haiman, 1980, p.160, apud Van linden e Verstraete, 2008, p.1870). kori hu hine fear do.1 CTF.A “I would have run away”. “Eu teria fugido”. iii. - combinação de modalidade com pretérito: A respeito desse tipo de marcação, os autores consideram que, ao contrário de algumas generalizações, como a de James (1982) e Fleischman (1989), segundo as quais o pretérito seria uma característica universal na marcação da contrafactualidade, o que se observa é que é o traço de modalidade que está sempre presente nos padrões contrafactuais. Nesse sentido, é o elemento modal de potencialidade que se torna necessário para explicar a reversão de polaridade nas contrafactuais. Pode, portanto, haver uma combinação de modalidade mais pretérito/passado, como ocorre no Cantonês (16), língua Sino-Tibetana falada na China, Hong Kong e Macau, com a combinação de verbos modais de possibilidade ou obrigação com advérbios referentes ao passado, o que leva a uma interpretação contrafactual; ou uma combinação de um prefixo 47 irrealis modal mais um sufixo de pretérito, como ocorre no Wardaman, língua aborígene falada no norte da Austrália, em (17), segundo especificam Van linden e Verstraete (2008): (16) Cantonês (Matthews e Yip, 1994, p.231, apud Van linden e Verstraete, 2008, p.1870) léih búnlòih hóyíh sanchíng ni fahn gung ge you originally can apply this CL job PRT “You could have applied for this job.” “Você poderia ter aplicado para esse trabalho.” (17) Wardaman (Merlan, 1994, p.188, apud Van linden e Verstraete, 2008, p.1870) yi-nga-jejbarla-rri wu-munburra-wu IRR-1SG/3SG-ask-PST wu-money-DAT “I should have asked him for money.” “Eu deveria ter pedido dinheiro para ele.” iv. - combinações de modalidade com pretérito e marcação aspectual: Além da combinação de passado e modalidade, algumas línguas também precisam de um elemento aspectual para marcar contrafactualidade, como o perfectivo ou imperfectivo. No Basco, língua isolada falada no norte da Espanha e Sul da França, por exemplo, a contrafactualidade é sinalizada por uma combinação de sufixos passados e potenciais no verbo auxiliar e no particípio perfectivo do verbo principal. O sufixo potencial, nessa língua, pode ainda ser usado apenas com função modal, em outros contextos, marcando permissão e habilidade. (18) Basco (Saltarelli, 1988, p.235, apud Van linden e Verstraete, 2008, p.1871) liburu-ak erama-n book-PL.ABS carry-PFP n-i-eza-zk-io-ke-en, 1SG-ERG-PST-AUX2(SUB)-3AP-3SG-DAT-POT-PST baina ez n-u-en etxe-tik but not 1SG-ERG-(PST-ABS)-AUX2-PST house-SG.ABL atera-tze-ko gogo-rik leave-NOML-DST urge-PTV “I could have taken the books to her/him, but I did not fell like leaving the house.” “Eu poderia ter levado os livros para ela, mas não tive vontade de sair de casa.” v. - combinações de modalidade com marcação aspectual: Certas línguas ainda podem dispensar o pretérito, marcando a contrafactualidade por meio da combinação de um elemento modal mais um elemento aspectual, especificamente o perfectivo. Em Kashmiri, língua Indo-Ariana falada na India, Paquistão e Canadá, por exemplo, há uma combinação do modo condicional no verbo auxiliar com o particípio 48 perfeito do verbo principal, como exemplifica o exemplo (19) abaixo: (19) Kashmiri (Wali e Koul, 1997, p.238, apud Van linden e Verstraete, 2008, p.1871) tse a:si-he:th por-mut akhba:r you.ERG be-COND.3M.SG.2SG read-PFP.3M.SG newspaper.3M.SG “You would have read the newspaper.” “Você teria lido o jornal.” Analisando os padrões expostos por Van linden e Verstraete (2008), portanto, é visível que o sentido de contrafactualidade decorre da construção como um todo, a partir da combinação de morfemas gramaticais modais, temporais e aspectuais. Individualmente, esses morfemas apresentam suas funções modais, temporais e aspectuais de maneira isolada, mas, no conjunto, funcionam para marcar contrafactualidade. Nessas combinações, ainda, como verificam os autores, a característica mais típica é a presença da modalidade, já que em cada combinação, há sempre algum tipo de marcador modal de potencialidade. Como foi visto anteriormente, com De Haan (2012, p.36), a contrafactualidade pode ser vista como categoria nuclear ou prototípica de manifestação do significado do domínio irrealis, que, por sua vez, insere-se em domínios funcionais mais amplos, como os de tempo, aspecto e modalidade. A descrição de Van linden e Verstrate (2008) da contrafactualidade em orações simples, portanto, reflete essa relação entre os domínios, como mais tarde foi observada por De Haan (2012). Observando a relação dos padrões de contrafactualidade encontrados em orações simples com as condicionais contrafactuais, Van linden e Verstrate (2008, p.1889), consideram que são principalmente as contrafactuais simples com modalidade epistêmica que são estruturalmente idênticas às condicionais. Na língua Hua, língua falada em Papua- Nova Guiné, por exemplo, o tipo de construção contrafactual expressa por um único morfema gramatical - hine (como no exemplo 15), não se limita apenas a contextos contrafactuais simples, mas também é utilizada em construções condicionais, onde tanto a prótase, quanto a apódose usam os alomorfes de –hine. (20) Hua (Haiman, 1980, p.185, apud Van linden e Verstraete, 2008, p,1872) korihu-hipa-na via ta-sine run-away-REL.CTF.A-thing tears shed-CTF.B “If I had run away, you would have cried.” “Se eu tivesse fugido, você teria chorado.” Como indicam Van linden e Verstrate (2008), os tipos de padrões encontrados para as contrafactuais simples, com marcadores epistêmicos, são semelhantes aos padrões encontrados nas apódoses condicionais contrafactuais. Lazard (2001), citado pelos autores, 49 também atesta que a marcação da contrafactualidade em condicionais “mostra uma distribuição muito semelhante de padrões de marcação aos tipos encontrados para contrafactualidade em orações simples: um padrão majoritário de marcação combinada (principalmente tempo e algum marcador modal) e um padrão minoritário de marcadores exclusivos”. Visto isso, considera-se que não só o estudo de Van linden e Verstrate (2008), mas também os anteriores de Bybee (1998), Mithun (1995), Plungian (2005) e De Haan (2012), permitiram que se estabelecessem algumas hipóteses sobre a marcação condicional nas línguas indígenas brasileiras. A hipótese central deste trabalho, derivada a partir do trabalho de Van linden e Verstrate (2008), é a de que não existe apenas um marcador único e exclusivo da condicionalidade, que pode ser marcada por uma combinação de elementos que expressam outras categorias, muitas delas ligadas ao irrealis e à modalidade, sendo o valor condicional múltiplo ou multifatorial. Nesse sentido, assume-se, a partir dos trabalhos de Bybee (1998) e De Haan (2012), que a existência da distinção realis/irrealis será pertinente nas línguas da amostra, sendo as situações codificadas por um morfema irrealis diversas. Dentro desse domínio, da mesma forma que atestado por Mithun (1995) e Plungian (2005), a contrafactualidade e condicionalidade podem ser tratadas como significados que melhor se adequam ao rótulo irrealis, já que estão ligadas à não realidade dos fatos, e, por isso, supõe-se que em línguas indígenas brasileiras os marcadores tipicamente irreais terão papel significativo no estabelecimento do valor condicional nas sentenças. Assim espera-se que nas línguas da amostra em que há uma distinção realis/irrealis gramaticalizada, a condicionalidade se manifeste a partir de marcadores com significados associados ao irrealis, tais como alguns citados anteriormente nos estudos abordados, como os de tempo futuro e passado e modo subjuntivo, por exemplo. A marcação condicional, portanto, poderá ocorrer pela combinação desses morfemas, sejam eles afixos, clíticos verbais, partículas, dentre outros. Dessa maneira, será importante, além elencar a forma de expressão condicional, mostrando sua diversidade nas línguas, definir, a partir dela, as relações que poderão se dar com outras categorias linguísticas, no estabelecimento do valor condicional nessas línguas, e, mais do que isso, identificar o que há em comum entre as línguas da amostra no que diz respeito a essa marcação, já que, como se trata de um trabalho tipológico, este deverá mostrar as especificidades e alguns padrões das línguas no que diz respeito à expressão condicional, 50 assim como o fizeram os estudos citados acima, comparando as línguas em relação aos parâmetros estudados, a saber, a marcação do irrealis e da condicionalidade. Apontadas as principais considerações teóricas do trabalho, parte-se agora, no próximo capítulo, para a apresentação dos procedimentos metodológicos da análise tipológica que se fará a respeito da manifestação da condicionalidade em línguas indígenas. Como se verá, o conhecimento a respeito da classificação dessas línguas é de suma importância para a determinação e composição do corpus da pesquisa, uma das principais etapas metodológicas do trabalho. 3 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS A tipologia linguística, como observado na seção 2.1.1, apresenta um método de análise científico específico, por meio do qual se busca caracterizar as similaridades e diferenças estruturais em relação a um determinado fenômeno, neste caso, presente nas línguas indígenas brasileiras. Para tanto, inicia-se este capítulo metodológico com uma breve descrição da situação dessas línguas indígenas. No Brasil, são faladas cerca de 274 línguas (Censo 2010), que refletem uma grande diversidade linguística e tipológica, por constituírem cada uma, um sistema complexo, com conjuntos específicos de sons, categorias e regras de estruturação. Observando historicamente a constituição da documentação científica das línguas indígenas brasileiras, inicialmente, o primeiro contato com essas línguas, segundo Mattoso Câmara Jr (1965, p.99-100), ocorreu através dos missionários, na época da colonização do Brasil. No entanto, apesar da grande diversidade de línguas, esses missionários se dedicaram apenas ao estudo das línguas dos povos Tupi, que eram consideradas, até então, como o “protótipo das nossas línguas indígenas” (Mattoso Câmara Jr, 1965, p.100). Segundo Seki (2000a, p.235-236), os primeiros materiais linguísticos desenvolvidos nessa época tinham como finalidade não a de analisar a língua como um objeto de estudo, mas de estabelecer um meio de comunicação com os nativos e assim, catequizá-los. Logo, ao buscarem a compreensão das línguas Tupi para fins religiosos, o objetivo dos missionários deixava de ser científico, assim como ocorre com os estudos na linguística moderna, do que decorre o fato de que suas descrições eram muito simplistas e não forneciam uma visão dos fatos linguísticos em sua realidade (Mattoso Câmara Jr, 1965, p.100). Apesar disso, foram responsáveis por grandes contribuições para os estudos indígenas, como ressalta 51 Seki (2000a, p.235) entre os quais se destacam o trabalho do Pe. José de Anchieta, com sua gramática Tupi, em 1595. Concomitantemente à realização desses estudos, estudiosos estrangeiros, segundo Mattoso Câmara Jr. (1965, p.100), “se deixaram impressionar pela documentação brasileira”, estabelecendo as línguas Tupi como únicas línguas indígenas do Brasil, como o fez, por exemplo, Paiva Boléo, linguista contemporâneo português, professor da Universidade de Coimbra, que em suas súmulas de aulas de introdução à linguística, de 1957-1958, ao fazer a “distribuição das línguas do mundo”, identificou para o Brasil apenas o Tupi-Guarani. Esse enfoque no Tupi continuaria com o surgimento de trabalhos concentrados no objetivo filológico de interpretar os textos em Tupi resultantes da literatura missionária. (Mattoso Câmara Jr, 1965, p. 111) Mais tarde, começaram a surgir estudos desenvolvidos principalmente com objetivos etnográficos, mas que passaram a descrever as línguas de maneira mais concreta, a partir do contato direto com seus falantes. Esses trabalhos, de acordo com Mattoso Câmara Jr (1965, p.126), foram úteis ao prosseguimento dos estudos linguísticos indígenas, que se ampliaram, no século XIX, com o surgimento de dados sobre as línguas não tupi, por meio de estudiosos de áreas diversas, como naturalistas, geógrafos, dentre outros. As informações coletadas, no entanto, restringiam-se a listas lexicais, não havendo descrições de aspectos gramaticais ou transcrições adequadas das línguas (Seki, 2000a, p. 236). Posteriormente, conforme Mattoso Câmara Jr. (1965, p.134) “estudiosos de formação linguística entraram francamente no campo da pesquisa das línguas indígenas”, que passaram a ser, mais fortemente, objetos de estudo científico a partir dos anos 30, como relatam diversos autores (Seki, 2000a; Maia, 2006; Rodrigues, 2013). Nessa época, quando a Linguística passava por uma fase de desenvolvimento no exterior, reconheceu-se a necessidade de iniciar uma documentação sistemática das línguas, que, como se sabe, sofrem continuamente o perigo de extinção. No Brasil, nessa época, a Linguística como campo de estudo ainda era incipiente, e foi apenas com a sua implementação e fortalecimento no país, o que se deu de maneira mais intensa a partir dos anos 60, que o campo dedicado aos estudos indígenas passou a ter mais destaque, com o crescimento da produção de trabalhos de linguistas brasileiros cujo objetivo era descrever as línguas indígenas brasileiras. É então que, conforme indicado por Seki (2000a, p.238), a partir da década de 80, “a linguística indígena experimentou um grande desenvolvimento com o crescimento do número de linguistas brasileiros engajados no estudo de nossas línguas e na formação de especialistas, registrando-se um aumento quantitativo e qualitativo na produção resultante do trabalho 52 desses linguistas”. Além disso, segundo Monserrat, em prefácio para o livro de Aryon Dall‟Igna Rodrigues, “Línguas brasileiras - Para o conhecimento das línguas indígenas” (1985), tornou-se argumento para se dar importância e urgência aos estudos dessas línguas, no Brasil, a questão indígena, “não como questão meramente cultural (...), e sim como questão política que interessa à formulação e viabilização de um projeto democrático global para o Brasil. Pois Brasil democrático significa não apenas eleições diretas e Constituinte. Significa também o reconhecimento jurídico, institucional, da pluralidade cultural e linguística da nação, e a formulação clara dos direitos e deveres que tal reconhecimento implica.” Como já mencionado, calcula-se existir hoje, no Brasil, cerca de 274 línguas indígenas, das 1.100 línguas que eram faladas no país na época da colonização. Essas línguas, como explica Rodrigues (2013, p.11), são classificadas em famílias e troncos, de acordo com critérios genéticos: se situam em uma mesma família línguas para as quais há evidência científica de que derivam, por evolução ao longo do tempo, de uma mesma língua no passado mais ou menos remoto, mantendo um determinado nível de afinidade em sua gramática e em seu léxico. Existem famílias que revelam uma afinidade genética mais distante no tempo e constituem uma unidade mais ampla, que chamamos troncos linguísticos. Tomando-se como base a classificação de Aryon Dall‟Igna Rodrigues, de 2013, tem- se que as línguas indígenas brasileiras estão distribuídas em 42 famílias linguísticas, que se subdividem ainda em dois grandes troncos, o tronco Tupi e o tronco Macro-Jê. Esse dado, no entanto, deve ser considerado com cautela, devido a diversas razões, tendo sido algumas elencadas por Moore e Gabas Júnior (2006), resumidamente apresentadas a seguir: (i) Pode haver línguas não incluídas na classificação; (ii) Línguas tidas como extintas, não incluídas na lista, podem vir a ter falantes, ainda desconhecidos; (iii) O número exato de falantes, de cada língua, pode ser incerto; (iv) No Brasil, não há dados sistemáticos sobre o grau de transmissão da língua às crianças, o que influencia na sobrevivência do idioma; (v) Em comunidades em que se fala mais de uma língua, os grupos minoritários acabam adotando a língua majoritária, o que pode determinar a manutenção ou desaparecimento das línguas; 53 (vi) No Brasil, o mau julgamento e o baixo grau de valorização que se dá às línguas indígenas desincentivam ações para a sua preservação; (vii) Há ainda um contexto de escasso conhecimento científico sobre essas línguas, o que pode levar ao seu desaparecimento; (viii) Há ainda uma dificuldade em relação à definição técnica do que seja língua, ou dialeto. (ix) A falta de coleta sistemática de dados sobre as línguas indígenas pode prejudicar a atualização de informações sobre elas. Apesar dos fatores listados acima, a classificação estabelecida por Rodrigues (2013) é bem aceita e tida como referência para muitos estudos. Nessa perspectiva, adota-se, neste trabalho, para a busca e seleção do corpus, uma classificação mais atualizada, que foi elaborada a partir dos trabalhos de Rodrigues (2013) e de Moore (2011), e publicada em 2020 no livro “Línguas Ameríndias: ontem, hoje e amanhã”, organizado por Eduardo Rascov, em nome da Fundação Memorial da América Latina. Nessa classificação, ambos os troncos Macro-Jê e Tupi apresentam 10 famílias cada. Para o Macro-Jê há as seguintes: Bororo, Guató, Jabutí, Jê, Karajá, Krenák, Maxakali, Ofayé, Rikbaktsá, Yatê. No tronco Tupi estão o Arikem, Aweti, Juruna, Mawé, Mondé, Mundurukú, Puruborá, Ramarama, Tuparí e Tupi-Guarani. São listadas, além dessas, mais 10 famílias “não agrupadas nos troncos linguísticos principais”, que são Arawák, Karib, Pano, Tukano, Arawá, Katukina, Nadahup (Makú), Nambikwara, Txapakúra, Yanomámi; e três famílias consideradas menores – Chiquito, Guaikurú e Mura. Constam também, na classificação, cinco línguas isoladas (Aikaná, Kanoê, Kwaza, Trumái, Tikúna) e duas línguas crioulas (Galibí Marworno e Karipúna do Norte). É importante ressaltar que a cada família linguística citada acima pertencem línguas que podem se assemelhar tipologicamente, no que diz respeito à organização dos sistemas de sons e estruturação gramatical, e isso explica o fato de haver tais agrupamentos. Por outro lado, cada um desses agrupamentos de línguas pode também apresentar diferenças tipológicas entre si. Essas semelhanças e diferenças, por sua vez, se tornaram objetos de estudo de diversos trabalhos de descrição linguística, que contribuem significativamente para o estudo e preservação dessas línguas. Conforme Seki (2000a, p.245), do ponto de vista científico, os estudos das diferentes línguas indígenas são importantes para o conhecimento da linguagem humana, podendo contribuir para a confirmação de hipóteses teóricas já formuladas com base em dados de 54 línguas conhecidas, ou estimulando a busca e introdução de novas propostas que possam explicar fenômenos não considerados até então. As línguas indígenas despertam interesse especial não por serem “exóticas”, mas por serem diversificadas e estarem entre as menos conhecidas da ciência, do que decorre a expectativa de que possam apresentar propriedades ainda não observadas em línguas de outras regiões. (SEKI, 2000a, p.245). A descrição de aspectos das línguas indígenas torna-se ainda mais importante diante da constatação de que, segundo estimativas (Rodrigues, 2013) cerca de 75% das línguas faladas em território brasileiro quinhentos anos atrás desapareceu, e, dentre aquelas que resistem, apenas 35% conta com uma população grande o suficiente para garantir sua sobrevivência (Moore; Gabas Jr, 2006), ou seja, não é possível garantir que, no final do século, será possível que as línguas que ainda existem hoje possam ainda ser usadas e transmitidas de uma geração a outra. Isso ocorre porque no Brasil atual, ainda são pouco eficientes as formas de proteção destinadas aos povos indígenas pelo Estado brasileiro. (...) ainda são grandes a hostilidade e a violência, alimentadas não só por ambições de natureza econômica, mas também pela desinformação sobre a diversidade cultural do país, sobre a importância dessa diversidade para a nação e para a humanidade e sobre os direitos fundamentais das minorias. (RODRIGUES, 2005). É visível, portanto, a importância tanto científica, como política do estudo da diversidade linguística representada pelas línguas indígenas, já que elas constituem parte intrínseca da cultura brasileira, e estão sob constante ameaça de desaparecimento. Dado o objetivo principal deste trabalho, a saber, realizar uma análise tipológica- funcional da marcação da condicionalidade em um conjunto de línguas indígenas brasileiras, fornecendo uma visão mais ampla de como essa categoria é expressa nessas línguas, e também levando em conta o caráter científico da tipologia, a presente pesquisa segue, como principais procedimentos metodológicos, aqueles indicados por Rijkhoff (2007, p. 2), como essenciais a qualquer estudo científico: a coleta, classificação, generalização e explicação dos dados. Como primeiro passo metodológico, houve a coleta de dados, por meio da composição do corpus da pesquisa, tendo como ponto de partida a classificação elaborada pela Fundação Memorial da América Latina a partir dos trabalhos de Rodrigues (2013) e de Moore (2011), como mencionado acima. 55 3.1 COMPOSIÇÃO DO CORPUS DA PESQUISA Como etapa metodológica primordial de uma investigação tipológica-funcional, temos a coleta da amostragem de línguas que comporão o corpus da pesquisa. Essa coleta deve ser feita de maneira sistemática, o que significa que os dados coletados devem ser abrangentes e adequados, para que seja possível fazer generalizações e explicações sobre o fenômeno estudado. Para isso, de acordo com Lehmann (1978) e Rijkhoff (1993), é importante garantir a diversidade areal e genética da amostra, ou seja, o estudo deverá contar com línguas que apresentem características genéticas e tipológicas diversas. Estes fatos tornam esta etapa de fundamental importância para a presente pesquisa, uma vez que, como se sabe, as línguas indígenas podem compartilhar propriedades, haja vista a existência de troncos e famílias linguísticas, como exposto na seção anterior. Rijkhoff (1993, p.173), ao estabelecer um método de coleta de corpus destinado a uma análise tipológica, explica que, a partir de uma classificação genética, as línguas são divididas em grupos não sobrepostos, que neste caso são os agrupamentos genéticos. Essa divisão, segundo o autor, torna a composição da amostragem de línguas mais eficiente e também permite produzir amostras com um amplo escopo em termos de variação linguística, que é o almejado para a realização de uma análise tipológica. No entanto, uma dificuldade no trabalho com línguas indígenas, na etapa de coleta da amostra de línguas a ser analisada, é encontrar materiais com descrição suficientemente ampla do fenômeno estudado, de forma que se obtenha uma amostra de dados válida e de fato, representativa. 15 Como se sabe, apesar da grande variedade de línguas indígenas existentes, no Brasil, ainda não são todas que foram documentadas. Além disso, há uma grande variação quantitativa e qualitativa nas descrições que já existem – algumas têm um enfoque específico, que pode não estar voltado para o fenômeno que se quer analisar; outras não contêm a informação necessária e claramente evidenciada, que possibilite a análise (a falta de glosas ou glosas inconsistentes, por exemplo, ou a carência de exemplos do fenômeno analisado). Esses fatores dificultaram o trabalho de elaborar uma amostra representativa para o presente trabalho, de modo que, como critério para o agrupamento de línguas que compõem o corpus, optou-se por incluir no estudo línguas sobre as quais há material descritivo suficiente e claro para análise, a fim de se constituir uma amostra minimamente representativa da condicionalidade nessas línguas. 15 Os dados coletados para a análise provêm de fontes secundárias, ou seja, são utilizadas descrições já feitas por outros pesquisadores que se dedicaram a descrever aspectos gerais ou específicos das línguas. 56 Vimos que as línguas indígenas brasileiras foram distribuídas em troncos e famílias linguísticas, o que, de certa forma, facilita a coleta das línguas que comporão o corpus, uma vez que já se poderá garantir que há um distanciamento genético entre as línguas escolhidas. Seguindo a classificação mencionada acima, como primeiro passo, a partir do conhecimento dos agrupamentos genéticos das línguas, buscou-se por materiais de referência sobre as línguas indígenas existentes. Foram analisadas teses, dissertações, gramáticas e artigos científicos encontrados sobre as línguas. O critério, como já citado, para definir as línguas que de fato iriam compor a amostra, passou a ser a quantidade e a qualidade das descrições disponíveis sobre as condicionais, nesses materiais, de forma que fosse possível se chegar a generalizações sobre a marcação condicional nas línguas indígenas. De posse dos materiais de referência, em um primeiro momento, buscava-se pelas condicionais na seção em que os autores tratavam das estratégias de subordinação nas línguas, informação que na grande maioria dos casos, estava presente no capítulo destinado a tratar da sintaxe. Em alguns casos, não havia uma seção ou tópico específico do fenômeno analisado, o que motivou uma busca textual pelos termos „condicional‟, „condicionalidade‟, „contrafactual‟, „irrealis‟, para que se encontrassem informações sobre a marcação condicional em outras seções do material, e as informações necessárias fossem, por fim, coletadas, definindo-se as línguas a comporem a amostra. Um aspecto importante em relação aos exemplos retirados dos materiais diz respeito à forma de apresentação dos dados. Nos trabalhos selecionados, os autores apresentam os dados sob a forma de glosas, e, no final, disponibilizam uma tradução, em inglês ou em português, para o que foi apresentado na língua indígena. Para cada material, de cada uma das línguas selecionadas, uma abreviação diferente, para interpretação das glosas, foi usada. Neste trabalho, as glosas que aparecem nos exemplos são as mesmas retiradas das obras de referência, sem mudança nas classificações apresentadas pelos autores – a interpretação das glosas dos exemplos analisados será fornecida em nota de rodapé. Quanto às traduções, quando o autor fornece apenas a tradução da língua indígena para a língua inglesa, uma tradução para o português, de autoria própria, é indicada após a tradução no inglês. Já quando o exemplo está em português, a tradução original, fornecida pelo autor do trabalho, é mantida. No quadro abaixo constam as 42 línguas analisadas e suas respectivas famílias, ordenadas a partir do critério de proximidade genética, material de referência consultado, número de falantes 16 , e região do país em que a língua é falada. Quanto à grafia dos nomes 16 Consultou-se a classificação de Rodrigues (2013), para indicar o número de falantes de cada língua. 57 indígenas, esta está de acordo com a nomenclatura adotada pelo autor de cada obra de referência consultada, apesar de poder haver alterações na grafia conforme a classificação de Rodrigues (2013) e Moore (2011). 17 Quadro 7: Línguas indígenas do Brasil selecionadas para análise Família Língua Localização Nº Habitantes 18 Referência 19 ARAWÁK 20 Apurinã AC, AM 3250 FACUNDES, 2000 Paresi (Haliti) MT 1400 SILVA, 2013 Tariana AM 2540 AIKHENVALD, 2003 Wapixana RR 6850 SANTOS, 2006 Waurá MT 400 RICHARDS, 1988 KARIB Ikpéng MT 350 PACHÊCO, 2001 Macushi RR 23500 ABOOTT, 1985 PANO Kaxinawá AC 4500 LIMA KAXINAWÁ, 2014 Matses AM 1600 FLECK, 2003 Shanenawa AC 330 CÂNDIDO, 2004 Shawã AC ? SOUZA, 2012 TUKANO Ye‟pâ-masa AM 6250 RAMIREZ, 1997 ARAWÁ Jamamadi AM 890 CAMPBELL, 2008 Jarawara AM 180 DIXON, 2004 MAKÚ Dâw AM 95 MARTINS, 2004 Hupda AM 1400(?) EPPS, 1973 NAMBIKWARA Mamaindê MT 100 EBERHARD, TXAPAKÚRA Oro Waram RO 60 APONTES, 2015 17 Nos exemplos retirados dos trabalhos, a grafia do nome da língua estará de acordo com a classificação adotada, como consta no quadro 2, acima. 18 O sinal de interrogação indica dúvida em relação ao número estimado. (Fonte de dados utilizada: “Línguas Indígenas Brasileiras” – Rodrigues, 2013) 19 Os autores dos respectivos trabalhos descritivos a partir dos quais foram coletados os exemplares das condicionais, as descrevem a partir da diferentes abordagens teóricas sobre a condicionalidade. 20 Alguns autores também nomeiam a família como Aruák. 58 YANOMÁMI Sanoma RO 462(?) AUTUORI, 2019 GUAIKURÚ Kadiweu MS 1630 SANDALO, 1995 MURA Pirahã AM 390 EVERETT, 1983 JÊ (Macro-Jê) Kaingáng PR, RS, SC, SP 28000 GONÇALVES, 2007 Krahô TO 2200 MIRANDA, 2014 Panará MT, PA 300 DOURADO, 2001 Tapayuna MT 60 CAMARGO, 2015 Xerente (Akwê) TO 2570 COTRIM, 2016 Xikrín PA 1350 COSTA, 2015 KARAJÁ (Macro-Jê) Karajá MT, TO, PA 2500 RIBEIRO, 2012 ARIKEM (Tupi) Karitiana RO 320 FERREIRA, 2017; STORTO, 2002; STORTO e ROCHA, 2015 JURUNA (Tupi) Juruna MT 360 FARGETTI, 2001 MAWÉ (Tupi) Sateré-Mawé AM 8400 SILVA, 2010 MUNDURUKÚ (Tupi) Mundurukú PA 10000 CROFTS, 1973; GOMES, 2006 TUPI-GUARANI (Tupi) Asuriní do Xingú PA 125 PEREIRA, 2009 Araweté PA 340 SOLANO, 2009 Guajá MA 280 MAGALHÃES, 2007 Kaiowá MS ? TAYLOR, 1984 Kamaiurá MT 500 SEKI, 2000b Karipúna RO 14 TOBLER, 1983 Tapirapé MT 570 PRAÇA, 2007 ISOLADAS Kanoê RO 95 BACELAR, 2004 Kwaza RO 30 VAN DER VOORT, 2004 Trumai MT 150 GUIRARDELLO, 1999 De posse dos dados das gramáticas de referência, das quais foram levantados os exemplares das condicionais, em uma segunda etapa metodológica, inicia-se a investigação 59 proposta, com a comparação entre as línguas no que diz respeito ao parâmetro gramatical analisado. Para tanto foram traçados os seguintes objetivos específicos: i) Determinar a forma de expressão da condicionalidade nas línguas, identificando possíveis padrões e observando se o valor condicional é expresso por uma conjunção, afixo, partícula, de maneira exclusiva ou por combinação desses elementos (de forma multifatorial/composicional), que podem ou não apresentar outras funções, em outros contextos, assim como atestado por Van linden e Verstraete (2008), em seu estudo sobre os padrões de marcação da contrafactualidade; ii) Verificar se as línguas fazem distinção entre mais de um tipo de condicional; iii) Identificar as relações que podem ser estabelecidas com outras categorias, na marcação do valor condicional, principalmente com o irrealis e como essa relação se manifesta na forma de expressão do sentido condicional; iv) Verificar se pode haver sobreposição de valores. A partir do levantamento e análise dos aspectos listados acima, foram estabelecidas generalizações sobre os dados, observando-se principalmente, os tipos de marcadores e as associações entre eles para a expressão do valor condicional. Dessa forma, foi possível observar o que é recorrente nessa marcação, e, a partir disso, propor uma sistematização, levantando-se possíveis padrões compartilhados entre as línguas, no que diz respeito à expressão formal e semântica da condicionalidade nessas línguas. 60 4 ANÁLISE TIPOLÓGICA-FUNCIONAL DA CONDICIONALIDADE EM LÍNGUAS INDÍGENAS BRASILEIRAS 4.1 FORMA DE EXPRESSÃO DAS CONSTRUÇÕES CONDICIONAIS NAS LÍNGUAS Neste primeiro momento de análise, o objetivo foi verificar de que maneira as línguas indígenas brasileiras marcam o valor condicional, e, a partir dessa verificação, listar, para cada uma das línguas da amostra, a forma de expressão desse valor (conforme descrito pelos materiais de referência), identificando, ainda, se a marcação condicional ocorre de forma direta ou composicional. Após essa listagem, faz-se uma análise a fim de identificar possíveis padrões de marcação, observando, ainda, se padrões específicos coocorrem para as leituras contrafactual, factual ou potencial. Com essa etapa do trabalho, será possível confirmar algumas das hipóteses levantadas pela pesquisa, sendo uma delas a de que a marcação do valor condicional, além de poder ocorrer de maneira direta, com um marcador exclusivo, pode também ser composicional/múltiplo, envolvendo a combinação de morfemas que expressam outras categorias linguísticas, cujos significados possam estar também associados ao domínio irrealis. Assim, é esperado que marcadores tipicamente irreais tenham papel na marcação condicional. Essa verificação da expressão condicional, portanto, contribuirá para a análise das relações que podem ser estabelecidas entre a condicionalidade e outras categorias, o que se fará também neste capítulo. 4.1.1 FAMÍLIA ARAWÁK 4.1.1.1 Apurinã  Marcador frustrativo –ma + marcador de futuro não imediato -ko Em Apurinã, Facundes (2000, p.534) atesta o uso do morfema frustrativo –ma, que em combinação com o morfema de futuro não imediato –ko, expressa, segundo o autor, um significado análogo à oração principal de uma condicional contrafactual. (21) Apurinã (Facundes, 2000, p.535) n-oka-ma-ru-ko ãkiti 1SG-kill-FRUST-3M.O-FUT jaguar “I‟d kill the jaguar but/if...” “Eu mataria a onça mas/se...” 61 Em sentenças com o marcador frustrativo, como em (21), se expressam eventos com resultados frustrados, como indica Facundes (2000, p.5), o que pode explicar o sentido contrafactual adquirido por meio da combinação deste marcador com o futuro. 4.1.1.2 Paresi (Haliti)  Morfema de modo irrealis condicional iya No Paresi, nas sentenças em que aparece, o morfema de modo irrealis iya instaura “uma condição para o que se afirma na sentença seguinte” (Silva, 2013, p.364). O Paresi faz uma distinção entre os modos realis e irrealis, sendo o iya „condicional‟, um morfema do modo irrealis, conforme indica o autor. O modo irrealis condicional é utilizado para expressar que a realização de um evento é dependente de outra condição. O exemplo abaixo ilustra esse uso. (22) Paresi (Silva, 2013, p.364) maitsa iya hi=ka-nakai-ita hi=waini-Ø NEG COND 2sg=ter-comida-CONT 2sg=morrer-PERF “Se você não comer, você morre”. 4.1.1.3 Tariana  Clítico condicional –buhta + morfema de passado recente ou passado remoto Em Tariana, Aikhenvald (2003, p.5) identifica o condicional que, segundo ela, está incluido dentre as modalidades da língua, sendo expresso pelo clítico –buhta, que às vezes pode ser realizado como –bohta ou –botha. Esse clítico, quando acompanhado do morfema de passado recente –buhtaka/-bohtaka, marca uma condicional contrafactual, conforme pode ser observado nos exemplos da autora, expostos abaixo. (23) Tariana (Aikhenvald, 2003, p.529/530) phia tʃãɾ-naka di-a-pida di-na you man-PRES.VIS 3sgnf-say-REP 3sgnf-OBJ [phia m dite-ka] ne-bohta-ka pi-pa you in.vain+NCL:ANIM-SUB then-COND.REC.PAST 2sg-rot “You are a man,” he said to him, “If you had been useless, you would have died”. “Você é um homem”, ele disse a ele, “Se você tivesse sido inútil, você teria morrido”. 62 (24) Tariana (Aikhenvald, 2003, p.391) heku iya di-wha-ka amaku putʃa-buhtaka yesterday rain 3gnf-fall-SUB hammock be.wet-COND.REC.P “If rain had fallen yesterday, the hammock would have beem wet”. “Se tivesse chovido ontem, a rede estaria molhada”. (25) Tariana (Aikhenvald, 2003, p.392) phia wa-itu-ka pi-tʃima you 1pl-daughter-SUB 2sg-hair hale-kade-bothaka phia white-NEG-COND.REC.P you “If you were our daughter, you hair would not be white (but its white)”. “Se você fosse nossa filha, seu cabelo não seria branco (mas é branco)”. O clítico condicional também pode se combinar ao passado remoto (-buhtana/- bohtana) para expressar um sentido contrafactual, ou seja, uma situação que poderia ter acontecido, mas não aconteceu. O exemplo abaixo ilustra a condicional sendo usada com o passado remoto – “o avô do palestrante está se gabando sobre o que teria feito no passado se estivesse no lugar de alguém que tivesse visto uma onça (ele mesmo não tinha visto nenhuma onça naquela época)”21 (Aikhenvald, 2003, p.392). (26) Tariana (Aikhenvald, 2003, p.392) nuha-ka di-sipe-se nhupa wheu wheu wheu I-SUB 3sgnf-tail-LOC 1sg+grab INTERJECTION ta! pua! INTERJECTION INTERJECTION nu-ni-buhtana di-na 1sg-do-COND.REM.P 3sgnf-OBJ “If it had been me, I would have taken him (the jaguar) by his tail, (twisted) it wheu, wheu, ta! pua! I would have done this to him”. “Se fosse eu, eu pegava ele (onça) pelo rabo, (torcia) wheu, wheu, ta! Pua! Eu teria feito isso com ele”.  Clítico condicional –buhta + morfema de „não-passado‟22 Aikhenvald (2003, p.5) constata também que, além de se combinar com os morfemas de passado remoto e passado recente, o clítico condicional se combina com o morfema “não passado” (-bohta), instaurando possibilidade/consequência (no futuro ou presente) da 21 Cf. o original: “The speaker's grandfather is boasting about what he would have done in the past if he had been in place of someone wh o had seen a jaguar (he himself had not seen any jaguar at that stage”. (Aikhenvald, 2003, p.392) 22 Cf. o original: “Nonpast conditional”. 63 concretização de uma hipótese/condição. Chega-se a essa conclusão a partir do significado potencial, que geralmente é atribuído a –bohta, como mostra a autora, no exemplo abaixo. (27) Tariana (Aikhenvald, 2003, p.391) pa:pe nu-ni-ka nhua nuhpani-nipe maybe 1sg-do-SUB I 1sg+work-NOM nu-keta-bohta nhua 1sg-encounter-POT.NON.PAST I “Maybe I could encounter work”. “Talvez eu possa encontrar trabalho”. Portanto, na condicional abaixo, instaura-se uma condição (“se chover”), que, se realizada, poderá permitir que a realização do que é expresso na principal (a rede vai molhar). (28) Tariana (Aikhenvald, 2003, p.391) iya di-wha-ka amaku putʃa-buhta rain 3sgnf-fall-SUB hammock be.wet-COND.NON.PAST “If rain falls, the hammock might get wet (in future, or right now)”. “Se chover, a rede pode molhar (no futuro ou agora)”. 4.1.1.4 Wapixana  Conjunção temporal -ɖun Na língua Wapixana, Santos (2006, p.249) verifica que em a noção de condição pode ser expressa por meio da mesma conjunção que expressa a noção temporal. Segundo o autor, o fato de as orações adverbiais temporais e condicionais compartilharem a mesma marca ocorre em muitas línguas, sendo o valor de verdade da proposição condicional, mais baixo. (29) Wapixana (Santos, 2006, p.249) pɨ-naʡak-a-n ɖun kanɨʐ, u᷈-tum paracari 2-levar-EP-MI TEMP mandioca 1-fazer caxiri “quando (se) você levar mandioca, eu faço caixiri” 4.1.1.5 Waurá  Sufixo de modalidade lógica –mia No Waurá, há um sufixo de modalidade responsável por expressar uma condição na sentença, como pode ser observado no exemplo (30) abaixo. Dentre os sufixos de modalidade lógica, além do sufixo de condição figuram o de frustração, o de certeza e o de finalidade. 64 (30) Waurá (Richards, 1988, p.8) pu-húka-mia ɨ-náku unɨ-í-u ukú-ene-pe-te-u-há você-despejar-condicional ela-dentro água-_-_ mole-pontual-tornar=se-restritivo-_-_ “Se você despejar água nela, apenas ficará mole” (parte da razão pela qual as panelas de barro devem ser cozidas” 4.1.2 FAMÍLIA KARIB 4.1.2.1 Ikpéng  Sufixo temporal/condicional –tup/-rup No Ikpéng, de acordo com Pachêco (2001, p.211), as orações temporais e condicionais apresentam a mesma morfologia, como verificado em outras línguas. O sufixo –tup/-rup, adicionado ao verbo da oração principal, poderá, então, veicular um evento irreal, como observa o autor. (31) Ikpéng (Pachêco, 2001, p.211) m-akpɨlɨ-rup y-anore-t 2A3O-molhar-COND 3So-crescer-NPAS “Se você molhar (essa planta), ela vai crescer”. (32) Ikpéng (Pachêco, 2001, p.211) y-ene-tup in-kanop-tʃi 1A30-ver-COND 1A3O-contar-NPAS “Se eu vir, eu conto”. 4.1.2.2 Macushi  Partícula temporal/condicional -ya + verbo auxiliar nominalizado e’painon Na língua Macushi, Abbott (1985) encontra a partícula temporal –ya, que, quando no final da oração subordinada, poderá ter tanto uma interpretação temporal (quando), como uma interpretação condicional (se). Essa partícula, quando em coocorrência com o verbo auxiliar nominalizado e‟painon, na oração principal, tem interpretação contrafactual (contrary to fact constructions), conforme afirma a autora. (33) Macushi (Abbott, 1985, p.6) epuˈ-sa-uˈ-ya ya, a-yarakkîrî uutî-pî eˈ-pai-non know-CMPL-1-ERG if, 2-with 1:go-PAST be-DESID- NOMLZR “If I had known, I would have gone with you”. “Se eu soubesse, teria ido com você”. 65  Partícula temporal/condicional -ya Outra forma de marcar a condicionalidade, em Macushi, ocorre de forma direta, por meio da utilização da partícula temporal –ya no final da oração subordinada, como pode ser observado no exemplo abaixo. (34) Macushi (Abbott, 1985, p.6)23 i-wî-sa-uˈ-ya pra a-wanî ya, miarî rî u-wî-i-ya 3-kill-CMPL-1-ERG NEG 3-be if, there EMP 1-kill-3-ERG “If I don‟t kill him, he will kill me there right there”. “Se eu não o matar, ele vai me matar ali mesmo”. 4.1.3 FAMÍLIA PANO 4.1.3.1 Kaxinawá  Partícula de foco rã24 Na língua Kaxinawá, a partícula de foco rã funciona também para marcar a relação de condição entre duas orações, na qual uma oração, a subordinada, expressa a condição de existência do conteúdo informacional da oração principal, como indica Lima Kaxinawá (2014, p.194). (35) Kaxinawá (Lima Kaxinawá, 2014, p.194) m ɨ-a kuʃa rã kasa i 1-NOM 1-ACU bater FOC 1.NOM chorar IMPERF “Se você me bater eu choro”. 4.1.3.2 Matses  Sufixo temporal + sufixo de modo condicional No Matses, de acordo com Fleck (2003, p.1121), a interpretação condicional é um significado secundário implícito dos sufixos temporais when (quando), while (enquanto) e after (depois). Uma construção condicional com sentido contrafactual, poderá ser expressa, normalmente, de duas formas: em uma delas os sufixos temporais aparecem na subordinada, e o verbo da principal pode estar no presente (35), ou futuro (36), e nestes casos, serão 23 CMPL: completivo; ERG: ergativo; NEG: negação; EMP: enfático. 24 “Separando orações, põe em foco a estrutura subordinada, em outras funções põem em FOCo os constituintes que devem ser ressaltados, seja em perguntas, seja em declarações.” (Lima Kaxinawá, 2014, p.206) 66 acrescidos do sufixo de modo condicional –tsia. No caso de o verbo da principal estar no passado, acrescenta-se a ele o sufixo –tsen, que significa „quase‟ (37). (36) Matses (Fleck, 2003, p.1124) onque-ac-no nid-shun mimbi tantia-tsia-c talk-Act.Nzr-Loc go-after:S/A>A 2Erg understand-Npast:Cond-1/2 “If you had gone to the meeting, you would know”. “Se você tivesse ido à reunião, você saberia”. (37) Matses (Fleck, 2003, p.1122) istuid-shun cues-tsia-mbi find-after:S/A>A hit-Npast:Cond-1A “If I (could) find him, I would hit him”. “Se eu (pudesse) encontrá-lo, eu batia nele”. (38) Matses (Fleck, 2003, p.1123) debi cho-em-quio ic-sho chushca-tsen-o-mbi Davy come-Neg-Aug Aux-when:S/A/O>O reprimand-almost-Past-1A “If Davy hadn‟t come, I would have yelled at him”. “Se Davy não tivesse vindo, eu teria gritado com ele”.  Sufixo temporal + sufixo não passado + sufixo de modo condicional Em Matses, ainda, uma leitura condicional potencial pode ocorrer quando os sufixos temporais when (quando), while (enquanto) ou after (depois) aparecem na subordinada, e ao verbo da principal, que sempre está com a marca de não passado, acopla-se o sufixo de modo condicional –tsia. (39) Matses (Fleck, 2003, p.1124) b da-mbo ic-tsia-bi chuoquid ic-ec good-Aug be-Npast:Cond-1S chief be-while:S/A>S “If I were chief, I would be good”. “Se eu for chefe, Eu serei bom”. (40) Matses (Fleck, 2003, p.1123) debi cho-en-quio ic-sho chushca-tsia-mbi Davy come-Neg-Aug Aux-when:S/A/O>O reprimand-Npast:Cond-1ª “If Davy doesn‟t come, I will yell at him”. “Se Davy não vier, eu vou gritar com ele”.  Sufixo temporal + verbo da principal no modo indicativo Por fim, quando os sufixos temporais when (quando) ou while (enquanto) aparecem na subordinada, e o verbo da oração principal está no indicativo, o sentido condicional parece ser 67 real, como indica Fleck (2003). 25 Nestes casos, pode aparecer também o sufixo de aspecto habitual, ao invés do sufixo de modo indicativo. (41) Matses (Fleck, 2003, p.1122) napen nid-ec ush-tuid-quin matses-n far go-while:S/A>S sleep-upon.arrival-while:S/A>A Matses-Erg isan podo shubu-ua-e-c palm.species frond house-Vzr:make-Npast-Indic “When Matses go far, if/when they stop to sleep, they make a shelter from isan palm fronds”. “Quando os Matses vão longe, se/quando param para dormir, eles fazem um abrigo com folhas de isan”. (42) Matses (Fleck, 2003, p.1122) ad-sho [podo an-se]-ac n bi u n s-quid do.thus-when:S/A/O>O arm under-pierce-when:O>S/A now die-hab n isham tapir “When that happens to it, if it pierces it under its front leg, the tapir dies right away”. “Quando isso acontece com ela, se furar debaixo da pata dianteira, a anta morre na hora”. 4.1.3.3 Shanenawa  Justaposição de sentenças conjugadas no futuro/não passado Na língua Shanenawa, conforme observado por Cândido (2004, p.190), “para indicar a relação de condicionamento entre dois eventos verbais, os falantes não recorrem a construções de subordinação”. No lugar disso, ocorre a justaposição das duas sentenças envolvidas na relação condicional, “a condicionada e a condicionadora”, que equivaleriam à oração principal e a subordinada, em outras línguas. Assim, de acordo com a autora, “a realização ou não de um dos eventos envolvidos no enunciado depende de uma espécie de jogo lógico de concessão executado com base nas noções de negação e afirmação dos eventos verbais”. (43) Shanenawa (Cândido, 2004, p.190) [ɨn nami-ɸ pi-as, ɨn usa-i-ki;]Grupo I 1ps carne-ABS comer-SR(SI), 1ps dormir-N-PAS-DECL [ɨn nami-ɸ pi-ma-as, ɨn usa-i-ma-ki]Grupo II 1ps carne-ABS comer-NEG-SR(SI), 1ps dormir-N.PAS-NEG-DECL “Dado solicitado: “Se eu comer carne, eu dormirei”. 25 Cf. o original: “In conditioned commands, in real or habitual situations or in probable predictive situations, sentences with conditional clauses have the same form as those with temporal „when‟ or „after‟ clauses; the inflection on the main verb is indicative”. (Fleck, 2003, p.1123) 68 Dado elicidado: “Eu como carne, eu dormirei; eu não como, eu não dormirei”. No exemplo acima, a relação condicional implicada é resultado do contraste entre os dois grupos de sentenças - “se X é AFIRMATIVO, então, Y é AFIRMATIVO; em contrapartida, se X for NEGATIVO, então, Y será NEGATIVO” (Cândido, 2004, p.191). Importante observar que, no que diz respeito ao tempo dos verbos envolvidos na construção condicionada (principal), estes estão sempre conjugados no futuro/não passado, o que corrobora para uma leitura potencial dessas construções. 4.1.3.4 Shawã  Sufixo de modo condicional --ʃ Além do Shanenawa, outra língua da família Pano marca a relação condicional através da justaposição de sentenças – o Shawã. Nesta língua, porém, o autor identifica --ʃ como sendo responsável por marcar o modo condicional, estabelecendo a “relação de condicionamento entre dois eventos verbais” (Souza, 2012, p.72). (44) Shawã (Souza, 2012, p.72) [mɨ tʃimbu-ø aja-ba-ʃ, mɨ da-i-ki] Grupo I 2SG cipó-ABS beber-NEG-SR(SI), 2SG morrer-FUT-DECL [mɨ tʃimbu-ø aja- ʃ, mɨ da-ba-ki]Grupo II Dado solicitado: “Se você não beber o cipó, você morrerá”. Dado elicidado: “Você bebe o cipó, você não morre; Se você não beber o cipó, morrerá”. 4.1.4 FAMÍLIA TUKANO 4.1.4.1 Ye‟pâ-masa  Verbo implicativo + verbo potencial boo + sufixos de evidencialidade e tempo passado No Ye‟pâ-masa, segundo Ramirez (1997, p.140), há um verbo dependente potencial, boo, que indica que “a situação vai se realizar, seria ou teria sido realizada se certas condições exigidas para a sua realização também se realizarem, fossem ou tivessem sido realizadas”. Ainda conforme o autor, boo expressa “a modalidade da possibilidade, da hipótese e da virtualidade”, podendo ser traduzido por “possivelmente” ou por uma condicional (Ramirez, 1997, p.140). Quando este verbo aparece na oração principal de uma construção em que ocorram também sufixos implicativos junto do verbo da subordinada, que no Ye‟pâ-masa, 69 servem para expressar as relações condicionais de „simples condição‟ ou „contrafato‟ (irreal), configura-se o uso de uma condicional contrafactual, caso boo venha acompanhado de sufixos de evidencialidade (“modalidade dedutiva ou sentida”26, para o autor), juntamente com sufixos de tempo (passado recente ou passado „remoto‟27), como expresso nos exemplos abaixo. (45) Ye‟pâ-masa (Ramirez, 1997, p.141) /b sâ ba‟â-sehé kɨó-dã‟ ba‟â+boo-a-pã / vocês comida ter-impl.ms comer+potencial-p.rec.ded “Vocês comeriam se tivessem comida”. (46) Ye‟pâ-masa (Ramirez, 1997, p.141) /yɨ‟ b d -go‟ p -do sihâ+boo-pã / eu homem ser-impl.ms muito viajar+potencial-p.cad.ded “Eu teria viajado muito se fosse homem (mulher falando)” Ramirez (1997, p.140) interpreta as situações acima da seguinte forma: “se A, então B, mas na realidade nem A nem B”. O autor ainda chama esses usos de “irreal do passado recente” e “irreal do passado remoto”.  Verbo implicativo + verbo potencial boo + sufixos de evidencialidade e tempo presente Outra forma de marcar condicionalidade, no Ye‟pâ-masa, ocorre quando boo aparece junto do verbo da principal, em uma construção com sufixos implicativos na subordinada, na qual poderá haver o sentido potencial, ou de “simples hipótese”, como observado pelo autor, se junto de boo houver sufixos de evidencialidade (“modalidade dedutiva ou sentida”) e tempo presente. Neste caso a interpretação é “se tal condição A se realizar, então a situação B também se realizará”. O exemplo abaixo ilustra esse uso. (47) Ye‟pâ-masa (Ramirez, 1997, p.140) /b ‟ d bâ s ‟dí-gɨ‟ w d +boo-as-‟/ você veneno tomar-impl.ms morrer+potencial+pres.sent “Você morrerá se tomar veneno”. 26 Segundo Ramirez (1997, p.81), a modalidade sentida (entendida como um tipo de modalidade epistêmica) indica que o grau de conhecimento do falante em relação ao que ele está dizendo sobre a situação verbal está baseado em uma informação não-visual: auditivo, olfativo, tátil, etc (“eu percebo/percebi que...”). 27 Passado caducado ou remoto: situação/evidência que ocorreu num passado bastante distante para que não haja mais repercussões dela no presente e que, frequentemente, representam fatos cujo realizador já morreu ou não está mais na região (“o mês passado”, “o ano passado”, “outrora”,...). (cf. RAMIREZ, 1997, p.87) 70 4.1.5 FAMÍLIA ARAWÁ 4.1.5.1 Jamamadi  Sufixo de tema condicional –mani + sufixo –ne “contrário ao fato” Em Jamamadi, de acordo com Campbell (2008, p.4), as condicionais são consideradas um tipo de sentença paratática, que é composta por duas orações independentes precedidas por uma oração dependente opcional. A primeira proposição da sentença condicional „contrária ao fato‟, como o autor a chama, aparece sempre na forma positiva, com o sufixo temático condicional –mani, que marca a oração como oração independente. A segunda proposição também aparece na forma positiva, junto do sufixo –ne, cujo significado é „contrário ao fato‟. Como informa Campbell, “embora a sentença inteira seja potencialmente uma afirmação verdadeira, nenhuma das proposições de fato ocorreu”, o que confirma o valor condicional contrafactual. Esse uso pode ser observado no exemplo abaixo: (48) Jamamadi (Campbell, 2008, p.4) katoso kara-to-na-mani shell click (not fire)-process-stem=clos.-theme yome oda-ra kaba-ne-mete-ra onça us-obj. eat.Cont. to f.-time-theme “If the shell had clicked (misfired) the onça would have eaten us”. “Se o casco tivesse feito barulho, a onça teria nos comido”. 4.1.5.2 Jarawara  Sufixo de modalidade hipotética –(he)mene/-(he)mana + sufixo irrealis –(he)ne/- (hi)na 28 Em Jarawara, a condicionalidade pode ser expressa de três maneiras, todas envolvendo combinação de morfemas. Uma delas é a partir da ocorrência do sufixo que expressa modalidade hipotética (HYPOTH), em uma oração, e o sufixo irrealis em outra. No exemplo abaixo, um relato de viagem no rio, o narrador explica que “se o jacaré estivesse vivo (HIPÓTESE), ele poderia tê-lo perseguido (IRR) e ele poderia ter se enroscado na rede que sua canoa estava seguindo (IRR) (e não conseguir se afastar do jacaré)”. 28 -(he)mene – feminino/ -(hi)mana – masculino; -(he)ne – feminino/ -(hi)na- masculino 71 (49) Jarawara (Dixon, 2004, p.216) inohowes jati-mana-há, alligator(m) be.alive-HYPOTHm-DEP inohoweA owa fito ka-ne-hina ama o-ke, alligator(m) 1sgO chase APPLIC-AUX-IRRm EXTENT 1sg-DECf majateraA owa kini ka-ne-hene owa gill.net(f) 1sgO wrap-aroung APPLIC-AUX-IRRf 1sgDEP “If the aligátor had been alive, it might have chased me, [and] I might have got tangled up in the gill-net (lit. the gill net might have wrapped itself around me)”. “Se o jacaré estivesse vivo, poderia ter me perseguido, [e] eu poderia ter me enroscado na rede (lit. a rede poderia ter se enrolado em mim)”. Nessa língua, ainda, conforme explica Dixon (2004, p.215), a presença do sufixo irrealis, remete a “algo que pode muito bem acontecer ou ter acontecido, mas que ainda não aconteceu ou ainda não acontecerá”.29  Partícula jaa/subordinada + sufixo irrealis –(he)ne/-(hi)na + sufixo de tempo/passado não recente na principal A condicionalidade também pode ser expressa em Jarawara, a partir da ocorrência da partícula jaa, que marca uma oração subordinada a uma oração principal na qual ocorre a combinação dos sufixos de tempo (passado não recente) e de modo irrealis, para se fazer referência a algo que pode muito bem ter acontecido em um passado não recente. (50) Jarawara (Dixon, 2004, p.216) [[matoS bete to-si] jaa] [[o-si] jaa] vine(f) break away-middle+NOM PERI 1sgS-fall+NOM PERI o-habe-ne-maro ama o-ke 1sgS-die-IRRf-FPef EXTENT 1sg-DECf “If the vine had snapped, if I had fallen, I might have died”. “Se o vinho tivesse quebrado, se eu tivesse caído, poderia ter morrido”.  Partícula jaa/subordinada + sufixo irrealis na oração principal Por fim, as condicionais também podem ser expressas, em Jarawara, a partir da ocorrência da partícula jaa, que marca o status de oração subordinada a uma oração principal na qual ocorre o sufixo irrealis, como atestado no exemplo abaixo. 29 Cf. o original: “What is called the irrealis (IRR) suffix, -(he)ne/-(hi)na, refers to something that might well happen or have happened, but which didn't or hasn't yet or won't happen. It is useful to distinguish a number of related senses.” (DIXON, 2004, p.215) 72 (51) Jarawara (Dixon, 2004, p.215) [[o-wasi-ki] jaa], 1sgA-find-coming+NOM PERI jomeeo tao o-ka-ne-ne ama o-ke jaguar(m) shoot 1sgA-APPLIC-AUX-IRRf EXTENT 1sg-DECf “If I found a jaguar, I would shoot it” “Se eu encontrasse uma onça, eu dava um tiro” 4.1.6 FAMÍLIA MAKÚ 4.1.6.1 Dâw  Conjunção subordinativa kɔn Em Dâw, as orações subordinadas adverbiais condicionais, segundo Martins (2004, p.602), “expressam uma hipótese ou uma condição necessária ao cumprimento da asserção enunciada pela cláusula principal”. Essa relação de condição é estabelecida de forma direta, pela conjunção kɔn, que significa “se, caso”. (52) Dâw (Martins, 2004, p.603) xow ʔ m h kɔn/ tih n ʔ p hãm kuɟ xàj borboleta azul não existir CONJ/ 3SG sumir ir sempre mata “Se não existisse essa borboleta azul, o menino ia sumir para sempre na mata”. 4.1.6.2 Hupda  Sufixo condicional - a n + sufixo contrafactual – a ʡ / -tih + marcador frustrativo - ae Na língua Hupda, uma leitura contrafactual pode ser marcada pela ocorrência do sufixo condicional -ta n na subordinada, mais o sufixo contrafactual –ta ʡ ou –tih, junto ao verbo da principal. Esse uso, segundo Epps (1973, p.611), é „não real‟/irreal. (53) Hupda (Epps, 1973, p.511) deh b‟ am d‟o -naén-ta n, ãh əg-d‟ó -ta n, water cuia 2sg take-come-COND 1sg drink-take-COND, h ᷈ h- ᷈ y=tih hníy make.sound=CNTRFCT2 maybe “If you brought me a cuia, and if I drank, maybe the song would come.” “Se você me trouxesse uma mandioca, e se eu bebesse, talvez a música viesse.” 73 Em (60), como observado por Epps (1973, p.511) o locutor sabe que nenhuma mandioca – o ingrediente necessário para produzir a „música‟ – está disponível naquele dia. O morfema contrafactual =tih, portanto, marca o status irrealizável do evento expresso na condicional, uma vez que a condição expressa na subordinada não pode ser cumprida (ou não é esperada que seja cumprida), do que decorre a leitura contrafactual da sentença. O mesmo ocorre no exemplo abaixo. (54) Hupda (Epps, 1973, p.613) ám=báb‟ d ə b-ta n, də b d =maeh 2sg=sibling much-COND much remain=DIM am d‟o -ye-ta ʡ-n‟ h 2sg take-enter-CNTRFCT-NMZ “If you had many siblings, you would bring in a lot (of fruit)!”. “Se você tivesse muitos irmãos, você traria muitas (frutas)!”. Um marcador frustrativo também pode aparecer na oração principal, apesar de não ser obrigatório, sinalizando que o resultado pretendido não é realizado. (55) Hupda (Epps, 1973, p.614) h tae h ãh ní-ta n ãh way-d‟o -ta ʡ-ae y - ae bird 1sg be-COND 1sg leave-take-CNTRFCT-DYNM FRUST “If I were a Bird, I would fly”. “Se eu fosse um pássaro, voaria”.  Sufixo verbal - a n Em Hupda, a condicionalidade também pode ser marcada de forma direta, por meio de um sufixo verbal identificado por Epps (1973, p.609), que “ocorre normalmente na primeira oração de uma construção biclausal – composta por uma prótase (oração „se‟), seguida de uma apódose („então‟ ou consequente)”.30 De acordo com a autora, esse sufixo, -ta n, é usado em condicionais reais, ou seja, aquelas que se referem a eventos que são esperados e/ou ocorrem regularmente, como no exemplo abaixo, que, como pode ser observado, também pode ter uma leitura temporal („quando‟). 30 Cf. o original: “It normally occurs in the first clause of a biclausal construction, which is made up of a protasis („if‟ clause), followed by an apodosis („then‟ or consequent clause).” (EPPS, 1973, p.609) 74 (56) Hupda (Epps, 1973, p.611) nɨ-n h-ɨ᷈ y b g j‟a᷈ h b‟ y ãh cúh-ta n-ae ᷈ h this-be.like-DYNM HAB DST.CNTR traira 1sg string-COND-DECL “I Always do like this if I string traira fish”. “Eu sempre faço assim se/quando eu firo o peixe traira”. 4.1.7 FAMÍLIA NAMBIKWARA 4.1.7.1 Mamaindê  Conectivo -satoʔni/ + sufixo irrealis –lhi + sufixo tempo passado Em Mamaindê, a relação condicional entre duas orações pode ser marcada pelo conectivo -satoʔni, que aparece sempre em coocorrência com o sufixo irrealis –lhi, adicionado ao verbo da oração, junto do sufixo marcador de tempo passado. Nessa língua, como destacado por Eberhard (2009, p.426), a atitude dos falantes perante a realidade de uma situação ou evento é codificada no verbo. Nessa configuração, a condicional parece receber uma leitura contrafactual, já que, conforme indica o autor, “usado no passado, o marcador irrealis serve para descrever um evento que teria acontecido se as coisas tivessem ocorrido de maneira diferente”. 31 (57) Mamaindê (Eberhard, 2009, p.426) eu- na-na-satoʔni tanu- na-lhi-le-a-nãn-wa see-O2-S1-CN.CND give-O2-IRR-I.PST.S1-PST-DECL “If I had seen you, I would have given (it) to you”. “Se eu tivesse visto você, eu teria dado (isso) para você”.  Conectivo -satoʔni/ + sufixo irrealis –lhi + sufixo tempo presente A relação condicional, em Mamaindê, também pode ser expressa pelo conectivo - satoʔni, em coocorrência com o sufixo irrealis –lhi, adicionado ao verbo da oração principal, mais o sufixo de tempo presente. Neste caso, embora no tempo presente, está implícita a ideia de que a situação irrealis ainda não aconteceu, mas se as condições forem atendidas, ela ocorrerá no futuro. 32 31 Cf. o original: “Used in past tense, the irrealis marker serves to describe an event which would have happened had things transpired differently.” (Eberhard, 2009, p.427) 32 Cf. o original: “Although this morpheme occurs commonly on present tense verbs, implied is the idea that the irrealis situtation has not yet happened, but if the conditions are met, it will occur in the future”. (Eberhard, 2009, p.427) 75 (58) Mamaindê (Eberhard, 2009, p.353) huk wes-ø-satoʔni joha-lhi-a -ø-wa gun fix-S3-CN.CND pay-IRR-S1-PRS-DECL “If he fixes the gun, I would pay”. “Se ele consertar a arma, eu pago”. 4.1.8 FAMÍLIA TXAPAKÚRA 4.1.8.1 Oro Waram  Conjunção condicional mo ta + partícula de modo possibilitativo ɾaʡ + partículas de modo irrealis No Oro Waram, as condicionais são introduzidas pela conjunção condicional mo ta. De acordo com Apontes (2015, p.261), “pelo fato de a oração condicional iniciar a sentença, ela toma toda a estrutura oracional como um domínio de condicionalidade ou de evento hipotético, portanto, irrealis”. Assim, como observado pelo autor, uma vez que a oração está no modo “„não factual‟, isto é, devido ao fato de expressar uma oração no modo condicional ou hipotético”, requererá partículas de modo irrealis. Além disso, acrescenta-se à construção a partícula de modo possibilitativo tɾaʡ, após o marcador temporal, ou no final da sentença. (59) Oro Waram (Apontes, 2015, p.146)33 mo ta pan ne ʃowi COND cair 3SG.N.IRR chuva ʃo maw ak ne tɾaʡ ʃijat molhar RES APL 3SG.N.IRR POSS rede “Se a chuva cair, ela poderá molhar a rede”. (60) Oro Waram (Apontes, 2015, p.146) mo ta maki maʡ ton ak kem tɾaʡ kaʡ-em COND vir 2SG bater APL 3SG.M.IRR-2SG POSSIB “Se você vier, ele poderá te bater”. No Oro Waram, os fatos irrealis expressam eventos que tem a probabilidade de ocorrer, ou seja, eventos hipotéticos ou não factuais (Apontes, 2015, p.290). Nessa língua, o tempo futuro é marcado pelas partículas irrealis. Nas sentenças acima, ainda, a partícula de modo possibilitativo evidencia o pouco compromisso com a informação. 33 N: neutro. 76 4.1.9 FAMÍLIA YANOMÁMI 4.1.9.1 Sanoma  Clítico verbal subordinador =könaha + sufixo condicional –pi No Sanoma, “as orações subordinadas contrafactuais expressam uma ação ou evento que não ocorreu, mas que se tivesse ocorrido teria condicionado a realização da ação ou evento expresso pela oração principal” (Autuori, 2019, p.308). Nesse tipo de sentença, segundo o autora, a contrafactualidade é expressa a partir da ocorrência do subordinador contrafactual =könaha, adicionado na raiz do verbo da oração subordinada, mais o sufixo condicional –pi adicionado ao verbo da oração principal, como visto no exemplo abaixo. (61) Sanoma (Autuori, 2019, p.308) salaka a= noma = könaha pe =epi peixe 3SG= morrer =CNT.FACT grande =INTNS samakö= ia =palo =pi 1PL= comer =REPET =COND “Se os peixes morressem nós comeríamos muito”. 4.1.10 FAMÍLIA GUAIKURÚ 4.1.10.1 Kadiweu  Próclítico de modo condicional dGa+ No Kadiweu, as condicionais são marcadas, de maneira direta, por um proclítico de modo condicional, conforme indica Sandalo (1995, p.45). (62) Kadiweu (Sandalo, 1995, p.45) dGa+j-d:-n-ici-t+ke bitGa j-d:-ou cond+1sg.SUBJ-theme-refl-swing-rel+outward fear 1sg.SUBJ-theme-feel “If I swing myself, I feel fear” “Se eu me balançar, sinto medo” 4.1.11 FAMÍLIA MURA 4.1.11.1 Pirahã  Sufixo verbal de modo condicional –saí + sufixo de grau de certeza Em Pirahã, conforme, Everett (1983), a marcação condicional é feita por um sufixo de modo condicional, -saí, adicionado ao verbo da subordinada, em coocorrência com sufixos de grau de certeza adicionados ao verbo da oração principal. 77 Conforme indicado pelo autor, “o grau de certeza do falante ao produzir um enunciado é expresso em três níveis, através de três sufixos: -há “certeza completa”, -hai “certeza relativa”, e –áti “incerteza”. (Everett, 1983, p.170) (63) Pirahã (Everett, 1983, p.116) pii boi-hiab -i -saí ti ahá água vir-negativo -próximo -condicional 1 ir -p -i -í -imperfectivo -próximo -certeza completa “Se não chover, eu irei” (64) Pirahã (Everett, 1983, p.116) gí hi aho -a -áti pii ap 2 1 dizer -remoto -incerteza água entrar -ai -p -i -saí -atélico -imperfectivo -próximo -condicional baósaí ib -ai -t -op -í pano bater -atélico -iterativo -movimento(?) -próximo “Você diga (para) ele (que) se (ele) for tomar banho, (para ele) lavar a roupa”. (65) Pirahã (Everett, 1983, p.116) paió hi ab -óp-ai -saí nome próprio 3 virar -ir-atélico -condicional ti xií oá -boí-haí 1 coisa comprar -vir-certeza relativa “Se paió vier, eu comprarei alguma coisa”. 4.1.12 FAMÍLIA JÊ (MACRO-JÊ) 4.1.12.1 Kaingáng  Partícula modal/conjunção ra Na língua Kaingáng, a partícula ra, segundo Gonçalves (2007, p.119) “pode ser glosada em Português como „se‟, tendo a função gramatical de conjunção, mas função semântica de expressão de modo em construções complexas ou em orações simples que apontam situações hipotéticas”. Assim, sempre que há uma situação condicional expressa, ocorre a conjunção ra como marcador de modo, como no exemplo abaixo. 78 (66) Kaingáng (Gonçalves, 2007, p.120)34 Kófa fi ta kaga n n ra fi pi t g t . velho fem ms doente ASP modo 3pf ms v.andar ASP “Se a velha estivesse doente ela não andava/andaria”. No exemplo acima, como explica Gonçalves (2007, p.120), a “„verdade‟ de um conteúdo proposicional é a garantia da „verdade‟ do outro”, ou seja, “„se ela estivesse doente‟, então „ela não andaria‟”. Essa referência, no entanto, é feita hipoteticamente, ou seja, não é verdade que a velha está doente. Outro exemplo pode ser visto abaixo. (67) Kaingáng (Gonçalves, 2007, p.121)35 Sa kakó kã n n ra 1p perto em ASP modo sa ã to pasa ké kej m . (1p)+ms 2p para v.passear v.fazer mf muito “Se eu morasse aqui perto, eu visitaria muito você”. 4.1.12.2 Krahô  Marcador contrafactual rə No Krahô, segundo Miranda (2014, p.236), “orações condicionais que expressam situações contrafactuais ocorrem com o marcador rə”, que aparece na subordinada, expressando um evento que pode ter ocorrido, mas cuja realização não é asseverada pelo falante. (68) Krahô (Miranda, 2014, p.236) [ka rə m i pupu] ku rama m pa Ø-kunea 2SG COND.CONTR PL 1SG R¹-ver 1±2 já PL 1±2 R¹-todos m Ø-mõ PL R²-ir “Se você tivesse visto nós, todos nós já tínhamos ido”.  Expressão hipotética mãn=japen As condicionais também são expressas em Krahô, de acordo com Miranda (2014, p.235), pela presença, na subordinada, da expressão mãn=japen, indicando uma situação hipotética. Embora o sentido hipotético seja veiculado exclusivamente por essa expressão, é importante notar ainda que, tanto na subordinada, quanto na principal, aparece também a 34 ms: marca de sujeito. 35 ms: marca de sujeito; mf: marca de futuro. 79 partícula de modo irrealis ha, que, quando usada, no Krahô, “abrange eventos a respeito dos quais não se tem certeza quanto a sua realização”, conforme indica o autor. (69) Krahô (Miranda, 2014, p.235) [ka ha wap Ø-t a Ø-mõ-r mãn=jape] 2SG IRR faca R 1 -ASS.INSTR 2SG R 1 -ir-NOMLZ COND.HIP wa ha Ø-t prikɐk j-i᷈ j-akh p 1SG IRR R 2 -ASS.INSTR vaca R 1 -carne R 1 -cortar “Se você ir com a faca, eu vou cortar a carne da vaca” 4.1.12.3 Panará  Conjunção subordinativa tu/ta...ta No Panará, segundo Dourado (2001, p.179), as condicionais são marcadas por um operador descontínuo, considerado uma conjunção subordinativa, tu/ta..ta. Conforme a autora, a primeira conjunção introduz, e a segunda segue a oração condicional. Dourado constata haver dois sentidos semânticos, contrafactual e hipotético, no entanto, como observado, não há distinção formal entre esses dois usos. (70) Panará (Dourado, 2001, p.179) [tu rã =( )pɨ ta] ra =waya-ni sõ CONJ 1SG.ABS=homem CONJ 1SG.ABS=fazer-PERF comida “Se eu fosse homem, eu ia fazer comida”. (71) Panará (Dourado, 2001, p.179) [ta ra=p panãra ta] ra =k -ni kye CONJ 1SG.ABS=falar Panará CONJ 1SG.ABS=feliz-PERF eu.ABS “Se eu aprender Panará, vou ficar feliz”. 4.1.12.4 Tapayuna  Partícula irrealis kot As orações condicionais em Tapayuna são marcadas, diretamente, pela partícula irrealis kot, que ocorre sempre no início da subordinada, instaurando uma condição para o que se afirma na principal. (72) Tapayuna (CAMARGO, 2015) kot wa i- tʌ kuru tʃi ket i- ɲ wth tʃi COND 1SG 1SG ? comer INT NEG 1SG magro INT “Se eu não comer muito vou ficar muito magro”. 80 4.1.12.5 Xerente (Akwê)  Morfema condicional wa + partícula de modalidade alética arke᷈ No Xerente, conforme Cotrim (2016, p.254), as condicionais de irrealidade imaginativas, como considerado pelo autor, a partir da classificação proposta por Thompson et al. (2007), “referem-se a situações que denotam uma situação que poderia ter ocorrido ou existido (contrafactual)”. Esse sentido é veiculado pela presença da partícula condicional wa na subordinada, junto da partícula de modalidade alética, arkne᷈ , que aparece na principal, sinalizando que o conteúdo informacional do enunciado tem a probabilidade de ocorrer. (73) Xerente (Cotrim, 2016, p.254) )r mzakrã=r wa i᷈ ktu kwaikə arkne᷈ wa ai waikrãm-kw de.manha COND 1 acordar SUBJ PROB 1 2 encontrar-PL “se eu tivesse acordado cedo, eu já tinha encontrado vocês”.  Partícula condicional wa + partícula de modo irrealis za Cotrim (2016) identifica ainda mais dois usos condicionais para o Xerente, que são marcados por meio da partícula condicional wa, que aparece na subordinada. O autor, seguindo a classificação de Thompson et al. (2007), identifica um dos usos como sendo uma condicional de realidade (73), e o outro, como uma condicional de irrealidade/hipotética/potencial (74). Nesses exemplos, a partícula condicional wa instaura uma condição/hipótese, para o que é asseverado na oração principal. Além disso, em ambas as ocorrências, a partícula de modo irrealis za está presente na oração principal, de modo que esta também tem papel na marcação condicional. Em Xerente, conforme define Cotrim (2016, p.338) o modo irrealis, é acionado pelo falante quando o mesmo quer informar a seu interlocutor que o conteúdo informacional expresso pelo predicado é uma possibilidade. (74) Xerente (Cotrim, 2016, p.252) i᷈ nmi ᷈=zaza-r wa wa za to i᷈ ni᷈pi 1 PERT-ficar.parado-NML COND 1 IRR mesmo 1 trabalhar “Se eu ficar, irei trabalhar”. (75) Xerente (Cotrim, 2016, p.254) toka ai mõ-r wa smi ᷈k z mr wa za ktəkmõ ni᷈ ka-nhə 2 2 ir-NML COND faca 1 IRR gado carne 3o-cortar “Se você for com a faca, eu vou cortar a carne da vaca” 81 4.1.12.6 Xikrín  Partícula de modo irrealis ʤa As condicionais, em Xikrín, são marcadas pela partícula de modo irrealis ʤa, que aparece sempre no início da sentença. Segundo Costa (2015, p.229), “as orações subordinadas condicionais são usadas para expressar eventos que poderiam ser ou ter sido realizados, mas, por algum motivo não o foram ou não puderem ter sido". (76) Xikrín (Costa, 2015, p.230) [ʤa m pɾ ɾ ø-t kɾɨ] ga ku-mã pidʒə ø-ŋã IRRLS criança R 1 -doente 2 R 2 -DIRET remédio R 2 -dar “Quando/se a criança estiver doente, você lhe dá”. (77) Xikrín (Costa, 2015, p.232) [ʤa ga mua] a ø-kamɨ IRRLS 2 chorar 2 R 1 -irmão a ø-mã məja ø-ŋã 2 R 1 -DIRET coisa R 1 -dar “Se você tivesse chorado, teu irmão teria te dado algo”. 4.1.13 FAMÍLIA KARAJÁ (MACRO-JÊ) 4.1.13.1 Karajá  Posposição locativa =kɪ adicionada a verbos potenciais =kɛ Em Karajá, as orações condicionais são construídas com posposições, como especificado por Ribeiro (2012, p.244). O autor identifica uma condicional marcada pela posposição locativa, adicionada a verbos potenciais (=kɛ=kɪ), construção que se restringe ao modo irrealis, conforme também observado. Nota-se, ainda, que a partícula potencial =kɛ está presente nos verbos das duas orações que compõem a construção condicional. (78) Karajá (Ribeiro, 2012, p.247) dʒiarə a-hãbu=kɛ=kɪ a-r-a-d -də -õ-dɨhɨ=kɛ I 2-man=POT=LOC 1-CTFG-2-send-VERB-NEG-strong=POT “If I were your husband, I wouldn‟t boss you around”. “Se eu fosse seu marido, não mandaria em você”. 82  Posposição =wədã No Karajá, as orações condicionais também podem ser marcadas a partir da posposição =wədã, como especificado por Ribeiro (2012). As condicionais construídas essa posposição ocorrem, geralmente, em condicionais nas quais se verifica o caráter habitual, ou seja, nas quais se observa a recorrência da relação implicada na construção condicional, de modo que, sempre que ocorrer o fato expresso na subordinada, o evento expresso na principal será tido como certo, como uma consequência esperada. (79) Karajá (Ribeiro, 2012, p.247) wari h ka i-ruda ∅-r∅-a=r-e, maguari ASSERT 3-shy 3-CTFG-INTR-go=CTFG-IMPERF idə =bə i-rɛhɛ= ∅-r-∅-obi=bə hə =r-e=wədã people 3-long=AL 3-CTFG-INTR-see=HABIT=CTFG-IMPERF=COM urile idə =lau ∅-r-∅-ʊw =bə hə =r-e simply people=EVIT 3-CTFG-INTR-fly=HABIT=CTFG-IMPERF “The maguari Bird is shy. If (or whenever) it sees a person far away, it flies away.” “O pássaro maguari é tímido. Se (ou sempre que) ele vê uma pessoa distante, ele voa para longe”. 4.1.14 FAMÍLIA ARIKEM (TUPI) 4.1.14.1 Karitiana  Prefixo modal - (80) Karitiana (Storto, 2002, p.158) yn j -soko‟ -t eremby a-otam-am 1s COND-amarrar-nfut rede 2s-chegar-perfectivo “Eu amarraria a rede se você tivesse chegado” Para a língua Karitiana, Storto (2002, p.158) constatou que sempre que o sentido condicional era veiculado, o prefixo j - estava presente, funcionando como um marcador do modo condicional. Posteriormente, Ferreira (2017), ao fazer uma reanálise desse morfema, chega à conclusão de que ele deve ser considerado como um prefixo modal que expressa contrafactualidade, já que expressa operações sobre mundos possíveis. Logo, “a contribuição de j - em uma estrutura condicional é indicar que a verdade do consequente Q no qual esse prefixo opera não é assumida no mundo real, mas em mundos possíveis semelhantes ao real no qual o antecedente P seja verdadeiro” (Ferreira, 2017, p.134). A sentença (79) acima, portanto, com o verbo prefixado por j -, descreve uma situação que não ocorreu, ou seja, uma 83 situação contrafactual, sendo o prefixo j - responsável pela marcação deste sentido, como confirma Ferreira (2017, p.39). 4.1.15 FAMÍLIA JURUNA 4.1.15.1 Juruna  Conjunções condicionais/temporais káde e táde As condicionais em Juruna, como constata Fargetti (2001, p.252), podem ser reais ou irreais. Dentre estas últimas há as irreais preditivas (que expressam algo que provavelmente irá ocorrer), e as irreais imaginativas (que expressam algo que teria a possibilidade de ocorrer ou não). A autora fornece exemplos apenas das irreais imaginativas, que têm, como um dos seus tipos, as hipotéticas, que expressam algo que teria condições de ocorrer, sendo marcadas pela conjunção temporal táde, que passa a atuar como conjunção condicional. O fato de ser expresso por um marcador de tempo não é incomum em outras línguas, como observado pela autora. (81) Juruna (Fargetti, 2001, p.252) u=mená w-a táde na ha 1s=marido voltar-neg conj. 1s preocupada “Se meu marido não voltar, eu ficarei preocupada”. (82) Juruna (Fargetti, 2001, p.252) ena wiã táde udí karia 2s vir-neg conj. 1p fazer festa-neg “Se você não vier, nós não vamos fazer festa” Em (80) e (81), há a descrição de situações que teriam condições de ocorrer. Em (80), a não-volta do marido, e em (81), a não-ida do ouvinte a uma festa. A condicional, dessa maneira, como mostram os exemplos, enuncia um evento não-realizado, ao se referir a uma situação hipotética (a não-volta do marido e a não-ida do ouvinte a uma festa). Logo, táde fica responsável pela marcação de uma condicional hipotética/potencial, em Juruna. Outro tipo de condicional irreal imaginativa descrito por Fargetti (2001) está expresso nas ocorrências abaixo, nas quais o sentido condicional é marcado pela conjunção káde. 84 (83) Juruna (Fargetti, 2001, p.252) awã záku káde na enú curupira ver conj. 1s ficar com medo “Se eu visse o curupira, ficaria com medo” (84) Juruna (Fargetti, 2001, p.252) ena kahu txa káde ena i=záká hide 2s ir conj. 2s 3s=ver quase “Se você tivesse ido (para o Xingu) teria visto (Sãluahã)” Em (82) e (83), acima, de acordo com Fargetti (2001), as condicionais descrevem situações que não poderiam ocorrer em um mundo real/imaginário. Em (82), a possibilidade de ver-se um curupira é tão remota para o falante, que é tida como improvável de ocorrer (a informante estava na cidade, onde seres sobrenaturais não podem ser vistos); em (83), o falante dirige-se a uma pessoa que poderia ter assistido Sãluahã (uma festa), caso tivesse ido ao Xingu, mas essa pessoa não foi e Sãluahã não ocorrerá de novo (não será mais época da festa), e, portanto, a ação não poderia mais ocorrer. Esses exemplos descrevem condicionais irreais contrafactuais, como informado pela autora (2001). Káde, portanto, é um marcador condicional de contrafactualidade. 4.1.16 FAMÍLIA MAWÉ (TUPI) 4.1.16.1 Sateré-Mawé  Partícula modal pote + partícula de futuro potencial aru Para marcar condição (se), na língua Sateré-Mawé, da família Mawé, Silva (2010, p.204) encontra a partícula modal pote, que pode aparecer na construção condicional sozinha (84) ou juntamente de outra partícula modal (85), sio, cujo significado é de “incerteza, dúvida, na condição de”. (85) Sateré-Mawé (Silva, 2010, p.206) u-i-‟ahɨk pote aru a-re-wak 1SG:O-rel-bater PART:COND PART:PTC 1SG:As-rel-chorar “Se bater em mim vou chorar”. (86) Sateré-Mawé (Silva, 2010, p.204)36 sio ø-to-to pote in aru a-re-to PART:DUB 2SG:As-rel-ir PART:COND PART:HAB PART:PTC 1SG:A-rel-ir “Eu vou se ele for também”. 36 A: agente. 85 Nota-se que, em ambas as ocorrências, (64) e (65), aparece também a partícula potencial aru, que indica futuro pontencial, conforme Silva (2010, p.211), o que concorre para o sentido condicional. 4.1.17 FAMÍLIA MUNDURUKÚ (TUPI) 4.1.17.1 Mundurukú37  Conjunção condicional pi³ma² + morfema aspectual „condicional incompleto‟ ka³jɨk Em Mundurukú, Crofts (1973) trata da condicionalidade ao descrever as sentenças contingentes, que, segundo ele, “apresentam uma estrutura em que ambas as bases são manifestadas por uma oração independente e se unem mediante um conector”. Em uma construção deste tipo, a conjunção condicional pi³ma² (se) faz o papel de conector, ocorrendo na primeira oração. Quando esta aparece junto do morfema aspectual ka³jɨk² , cujo significado é de “condicional incompleto”, na segunda oração, o significado é de condição contrária à verdade, como afirma a autora. O exemplo abaixo ilustra esse uso. (87) Mundurukú (Crofts, 1973) mɨ3ba2‟at2 ‟ m 2 pi³ma² bit 3 ka³jɨk² bi2o3 o‟3ya2o2ka3 ip2 // chuva não se (enf.) -riam anta ele-a-matou eles Base 1 C2 Base 2 “Se não tivesse chovido, teriam matado a anta”. Gomes (2006, p.164), a respeito da conjunção pi³ma², diz se tratar de uma conjunção de natureza temporal, usada também com valor condicional. Além do morfema ka³jɨk², há um outro morfema de aspecto, com o significado de „condição geral‟, que também parece veicular sentido contrafactual, quando em conjunto com pi³ma², o morfema kɨ3ka2. (88) Mundurukú (Crofts, 1973) we 3nɨy2 ‟ m 2 pi³ma² i 3 ko 3 õm 2 kɨ3ka2 o3‟e2 // nozes não se insípido seria (uma vez só) Base C1 Base 2 “Se não houvessem nozes, seria insípido”. 37 O Mundurukú é uma língua tonal. 86 4.1.18 FAMÍLIA TUPI-GUARANI (TUPI) 4.1.18.1 Asuriní do Xingú  Sufixo irrealis -ram ou ame + sufixo de modo subjuntivo – a No Asuriní do Xingú, de acordo com Pereira (2009, p.226), uma condicional contrafactual pode ser marcada pela coocorrência do sufixo irrealis -ram ou ame, adicionado ao verbo da subordinada, juntamente com o sufixo de modo subjuntivo, -ram .38 (89) Asuriní do Xingú (Pereira, 2009, p.226) djawara ga ur-ame-am djawara a-djuka onça 3sg morder-Irr-subj jawara 1-matar “Se a onça o mordesse, eu o mataria”. (90) Asuriní do Xingú (Pereira, 2009, p.326) amyna rur-ame-am avatxi a-tym chuva cair-Irr-subj milho 1-plantar “Se tivesse chovido eu teria plantado milho”.  Sufixo condicional – a A condicionalidade também pode ser expressa, no Asuriní do Xingú, segundo, Pereira (2009, p.321), de maneira direta, apenas pelo morfema –ram , que fica responsável por marcar a relação condicional entre duas sentenças. Conforme a autora, ainda, esse morfema também pode expressar relação de causa, de tempo e de explicação, sendo que é o contexto que “auxilia para que o falante compreenda que o que está sendo dito tem valor causal, temporal, explicativo ou condicional”. (91) Asuriní do Xingú (Pereira, 2009, p.322) kunum avyki-rame i-„y dje-mumy‟a menino apanhar-Cond 3-mãe refl-envergonhar-se “Se o menino apanha, sua mãe fica envergonhada”. 4.1.18.2 Araweté  Partícula de modo subjuntivo ime Na língua Araweté, de acordo com Solano (2009, p.262), é a partícula de modo subjuntivo que fica responsável por marcar a relação condicional entre as sentenças. 38 Sua realização se dá em dois alomorfes: -ramu, após vogal, e -amu após consoante. (Pereira, 2009, p.225) 87 (92) Araweté (Solano, 2009, p.263)39 ɨ-tʃe ime ure ø-tʃe R 2- dormir se 13 R 1 -dormir “Se ele dormir, nós dormimos”. 4.1.18.3 Guajá  Verbo no modo indicativo + partícula de aspecto imperfectivo xí No Guajá, Magalhães (2007) trata das orações condicionais ao descrever o processo de subordinação semântica, que ocorre nessa língua, não por meio de um morfema subordinador, mas sim, por justaposição de orações independentes, que pode resultar em uma construção adverbial de condição. Em uma construção condicional do Guajá, portanto, não haverá um morfema subordinador que indique condição. As orações que expressam condição, nessa língua, são constituídas de um tema no modo indicativo I associado à partícula de aspecto imperfectivo xí (cf. Magalhães, 2007, p.278). As orações independentes que compõem a construção condicional aparecem no modo indicativo I, que, segundo a autora, “denotam a simples realização do evento, estado ou condição de existência expressos pelos seus respectivos núcleos verbais, adjetivais ou nominais”. (93) Guajá (Magalhães, 2007, p.278) a‟é karaí-a i-maká-ø ø-rukú xí are=ø-ka‟á DEM não.índio.N R 2 -arma-N 3-ficar IMPERF 123=R 2 -mata r-ehé areá ø-jará ar-iká tá h-ajá R 1 -sobre nós R 2 -dono 123-matar PROJ R 2 -de “Se os não-índios ficarem com as armas deles na nossa mata, nós mataremos os donos delas”. No exemplo acima, a partícula de aspecto imperfectivo, xí, indica que o acontecimento/evento narrado não se completou. Em (93), xí coocorre com a partícula tá, de aspecto projetivo. Neste caso, xí passa a expressar a ideia de um evento/acontecimento que iria ocorrer, podendo ou não vir a ser realizado. 39 13: primeira pessoa plural exclusiva. 88 4.1.18.4 Kaiowá  Marcador de futuro hipotético arã + marcador de tempo/aspecto passado recente ra'e Na língua Kaiowá, Taylor (1984, p.26) identifica um morfema marcador de futuro que segundo ele funciona como marcador hipotético, que indica que a realização do evento depende de uma condição explícita ou implícita. Tendo esa função, arã pode marcar uma construção condicional como sendo contrafactual, quando se refere ao passado, e neste caso, ocorrerá também o marcador de tempo/passado recente ra'e. (94) Kaiowá (Taylor, 1984, p.26) Nonhembojagwái-rire ra'e, naha'ãi arã ra'e Não=eles=mesmos=fazer=cachorro-depois aspc não=eu=tentar fut aspc. “Se eles não tivessem se transformado em cachorros, eu não teria tentado (os cantos dos espíritos”.  Marcador de futuro condicional arã A partícula de futuro, como marcador hipotético, também pode aparecer sozinha, marcando uma construção condicional como sendo de valor hipotético, quando aparece sozinha na oração principal. (95) Kaiowá (Taylor, 1984, p.26) Iporã-ramo pohã ko, oikove jevy arã. (ele)=bom-quando curar intens ele=viver-mais outra=vez fut “Se o remédio for bom, ele vai sarar.” 4.1.18.5 Kamaiurá  Partícula irrealis ram + sufixo de modo subjuntivo – a No Kamaiurá, tanto as orações adverbiais temporais, como as condicionais, podem ser marcadas como sufixo de modo subjuntivo -ramu , como observado por Seki (2000b, p.194). Em uma construção condicional contrafactual, conforme a autora, esse sufixo ocorre junto da partícula ram, irrealis, que se anexará também em outros constituintes da sentença, com exceção do verbo da oração principal. (96) Kamaiurá (Seki, 2000b, p.91) oryw-ama‟e=ram ne=reko-ramu ram ere-huka=tete =ram e-ko-m alegre-Nom=Irr 2sg=Cóp-Subj=Irr 2sg-rir =somente=Irr 2sg-Cóp-G “Se você fosse alegre, estaria sempre rindo”. 89 (97) Kamaiurá (Seki, 2000b, p.91) akwama‟e-a=ram je=r -eko-ramu ram pira r-ehe=ram a -há homem -N=Irr 1sg=Rel-Cóp-Subj=Irr peixe Rel-por=Irr 1sg-ir “Se eu fosse homem, iria pescar”.  Sufixo de modo subjuntivo – a partícula de futuro korin A condicionalidade também pode ser expressa, em Kamaiurá, pela ocorrência do sufixo de modo subjuntivo, junto ao verbo da subordinada, mais a partícula de futuro korin, na oração principal. (98) Kamaiurá (Seki, 2000b, p.193) [wararuwikaw-a je=u‟u -ramu a-juka korin [cachorro-N 1sg=morder=Subj] 1sg-matar Fut “Se o cachorro me morder, eu o matarei”. 4.1.18.6 Karipúna  Subordinador condicional si + morfemas de tempo passado + marcador de tempo condicional teke Na língua Karipúna, as construções condicionais são encabeçadas pelo um subordinador condicional si, como informa Tobler (1983, p.13). Quando na construção, o verbo da subordinada está no passado e o marcador de tempo condicional teke aparecer na principal, a leitura da sentença parece ser contrafactual. (99) Karipúna (Tobler, 1983, p.14)40 si-l te hive, mo teke pale ke-l if-3s Tp arrive 1s Tc speak with-3s “If he had come I would have spoken with him”. “Se ele tivesse vindo eu teria falado com ele”. (100) Karipúna (Tobler, 1983, p.14) si mo te gã lajõ, mo teke axte wun hadj if 1s Tp have money 1s Tc buy one radio “Ih I had had the money, I would have bought a radio”. “Se eu tivesse dinheiro, eu teria comprado um radio”. 40 teke: marcador condicional. 90  Subordinador condicional si + morfemas de tempo presente e futuro Quando na construção, o verbo da subordinada está no presente e o verbo da principal no futuro, a leitura parece ser a de uma condicional hipotética/potencial. (101) Karipúna (Tobler, 1983, p.14) si-l ka vin, mo ke pale ke-l if-3s Tpr=i come 1s Tf talk with-3s “If he comes, I will speak with him”. “Se ele vier, falarei com ele”. 4.1.18.7 Tapirapé  Sufixo de modo subjuntivo –ãramõ + partícula de modalidade epistêmica/futuro iminente ekwe Na língua Tapirapé, Praça (2007, p.205) considera as condicionais como um tipo de oração adverbial “subjuntivo”, na qual consta o sufixo –ãramõ. As orações adverbiais subjuntivo indicam “não correferencialidade entre o sujeito da oração matriz e o da subordinada” e expressam principalmente circunstância temporal, podendo ser interpretadas, no entanto, como causais ou condicionais. A condicionalidade em Tapirapé é expressa quando há na construção o verbo sufixado –ãramõ (subjuntivo), e a partícula de modalidade epistêmica de segunda posição ekwe, cujo significado é o de “futuro iminente‟. Esta partícula, de acordo com Praça (2007, p.165), indica que “o falante tem um elevado grau de certeza que o evento/estado projetado em relação ao presente está em via de efetivação imediata”.41 As ocorrências abaixo exemplificam esse uso. (102) Tapirapé (Praça, 2007, p.206) ã-petek ekwe we-petek-ãramõ 1sg.I-bater F.IMI 1sg.III-bater-SUB “Eu baterei nele se ele me bater”. (103) Tapirapé (Praça, 2007, p.206) i-porãã-j-ãramõ ekwe xi-xe-pa-petek 3.II-dançar-SUB F.IMI 1incl.I-REF-mão-bater “Quando ele for dançar, nós bateremos palmas”. 41 A partícula ekwe, conforme indica Praça, é empregada para marcar a confiabilidade da informação (Praça, 2007, p.156). 91 4.1.19 LÍNGUAS ISOLADAS 4.1.19.1 Kanoê  Conjunção condicional neko Em Kanoê, uma das línguas isoladas que constam no corpus, segundo Bacelar (2004, p.270), “as subordinadas condicionais são geralmente relacionadas à principal por meio da conjunção neko “se””. Essa conjunção, segundo o autor, traduz uma pré-condição para a realização ou não do evento veiculado na oração principal. (104) Kanoê (Bacelar, 2004, p.270) [mini væ-tsi-e neko] aj tyvæ-ro õ-k-e-re hoje chuva-ter-NLZ COND 1SG caçar-CLV 1-NEG-DECL-AUX “Se chover hoje, não vou caçar”. 4.1.19.2 Kwaza  Sufixo condicional –kywy + sufixo de modo cosubordinativo –ta + sufixo irrealis – rydy No Kwaza, as construções condicionais, de acordo com Van der Voort (2014, p.628), consistem em uma oração condicional adverbial e uma oração matriz. Podem ser marcadas pela ocorrência do sufixo condicional –kywy no final da subordinada condicional, acrescido do sufixo de modo cosubordinativo –ta. Ao verbo da principal, por sua vez, adiciona-se o sufixo –rydy, que segundo o autor, tem função irrealis “genuína”.42 Os exemplos abaixo são ilustrativos dessa forma de marcação. (105) Kwaza (Van der Voort, 2004, p.631) ce nãi-da-h -kywy-'ta dai-'he-da-rydy-ki know-1S-NOM-COND-CSO take-NEG-1S-IRR-DEC “If I had known (the bulb was so weak) I would not have bought it”. “Se eu soubesse (a lâmpada era tão fraca) não teria comprado”. (106) Kwaza (Van der Voort, 2004, p.631) tso'je dw - he-da-h -kywy-'ta mamã -'dy-da-rydy-ki hand break-NEG-1S-NOM-COND-CSO play-CAU-1S-IRR-DEC “If I hadn‟t broken these fingers I wouldhave played”. “Se eu não tivesse quebrado esses dedos eu teria jogado”. 42 Cf. o original: “If the antecedent containing -kywy is subsequently ended by a cosubordinative mood marker - ta, the matrix clause will bear an irrealis condition morpheme -rydy-, which has a genuine irrealis function”. (Van der Voort, 2004, p.628) 92  Sufixo condicional -kywy + sufixo potencial –tsy Outra forma de marcar a condicionalidade em Kwaza se dá pela ocorrência do sufixo condicional –kywy no final da subordinada, em coocorrência com o sufixo potencial –tsy, junto ao verbo da principal. Segundo Van der Voort (2014, p.607), “o potencial -tsy ocorre com mais frequência em verbos de oração matriz quando uma oração subordinada contém um morfema futuro ou um sentido futuro”. (107) Kwaza (Van der Voort, 2014, p.629) areta-'he-da-kywy si-dy-h tã'jã e'nãi-tja-ta-tsy-tse know-NEG-1S-COND I-POS-NOM chief quarrel-TRA-1O-POT-DEC “If I don‟t learn, my chief will quarrel with me”. “Se eu não aprender, meu chefe brigará comigo”. 4.1.19.3 Trumai  Sufixo condicional –is/-es + advérbio de tempo futuro Por fim, no Trumai, última língua do corpus, tanto as orações subordinadas temporais quanto as condicionais são marcadas pelos sufixos –is/-es. Segundo Guirardello (1999, p. 389), uma oração subordinada condicional “representa as condições sob as quais o evento principal ocorre (isto é, o evento principal ocorre [se o evento X acontecer]”.43 É comum, conforme o autor, que o sentido condicional ocorra quando na oração principal aparecem também os advérbios hat‟ke ou ifke, que significam „no futuro‟. Nesse caso, “a oração subordinada se refere a um evento futuro, e uma vez que eventos futuros são não realizados, eles são, por natureza, mais potenciais do que reais”.44 (108) Trumai (Guirardello, 1999, p.394) [wa-pata tak iyi-n-es] ha makdits hat‟ke WA-arrive Neg IYI-3Abs-ES 1 sad in.future “If he does not arrive, I will be sad”. “Se ele não chegar, vou ficar triste”. (109) Trumai (Guirardello, 1999, p.394) [pech pata tak afiaun yi-is], ayey de há‟tke chikida tak. run arrive Neg airplaneYI-IS grandpa already in.future travel Neg. “If the airplane does not arrive, grandpa will not travel”. “Se o avião não chegar, o vovô não vai viajar”. 43 Cf. o original: “A Temporal or Conditional subordinate clause refers to an event (...) which representes the conditions under which the main event happens (i.e. main event happens [if evenet X happens])”. (Guirardello, 1999, p.389) 44 Cf. o original: “The „conditional‟ sense can also occur when the main clause has the adverbs hat‟ke ou ifke, „in future‟. In this case, the subordinate clause refers to a future event, and since future events are unrealized, they are by nature more potential than real”. (Guirardello, 1999, p. 394) 93  Sufixo condicional –is/-es O sentido condicional de uma oração subordinada também pode ocorrer em Trumai quando se refere a uma situação habitual, e neste caso, se trataria de uma condicional real. A diferença, neste caso, é que a marcação condicional, por meio dos sufixos –is/-es, ocorre de maneira direta. (110) Trumai (Guirardello, 1999, p.393) Yaw t ch -s yaw da iye le. Human.being scarify-S human.being leg big hersay. “When/If a person is scarified, the person‟s leg becomes big”. “Quando/Se uma pessoa é escarificada, a perna da pessoa fica grande”. 4.1.20 CONSIDERAÇÕES SOBRE A FORMA DE EXPRESSÃO CONDICIONAL A finalidade dessa seção foi fazer um levantamento das possibilidades de marcação da condicionalidade em línguas indígenas, fornecendo um panorama do modo como a condicionalidade pode ser marcada nessas línguas. O quadro abaixo expõe um comparativo entre as línguas no que diz respeito à forma, direta ou composicional, de marcação do valor condicional. Quadro 8: Forma de marcação condicional nas línguas indígenas brasileiras - direta ou composicional Família Língua D 45 C 46 Forma de expressão Marcadores ARAWÁK Apurinã Afixos (frustrativo + futuro) -ma + -ko Paresi (Haliti) Partícula (modo irrealis) iya Tariana Afixos (clítico condicional + passado ou não-passado) -buhta + -ka ou -na Wapixana Conjunção temporal ɖun Waurá Afixo (sufixo de modalidade) -mia KARIB Ikpéng Afixo (sufixo temporal/condicional) -tup/-rup Macushi Partícula (temporal/condicional) OU partícula (temp./cond) + afixos (verbo auxiliar nominalizado) ya OU ya + eˈ-pai-non PANO Kaxinawá Partícula de foco rã Matses Afixos (sufixos temporais + sufixo modo condicional) -shun /-sho + -tsia 45 Direta. 46 Composicional. 94 Shanenawa Justaposição Shawã Afixo (sufixo de modo condicional) -ʃ TUKANO Ye‟pâ-masa Afixos (implicativo + potencial + sufixos de evidencialidade 47 e tempo) -dã/-go/-gɨ + boo + -‟ ou -pã + passado ou presente ARAWÁ Jamamadi Afixos (sufixo de tema + sufixo contrafactual) -mani + -ne Jarawara Afixos (sufixo modalidade hipotética + sufixo irrealis) OU Partícula subordinadora + Afixos (sufixo irrealis + sufixo passado) –(he)mene / (he)mana + –(he)ne/-(hi)na OU jaa + –(he)ne/-(hi)na + passado MAKÚ Dâw Conjunção condicional kɔn Hupda Afixos (sufixo condicional OU sufixo condicional + sufixo contrafactual + frustrativo) -ta n OU -ta n + –ta ʡ/-tih + -yae h NAMBIKWARA Mamaindê Afixos (conectivo condicional + sufixo irrealis + passado ou presente) -satoʔni + -lhi + passado ou presente TXAPAKÚRA Oro Waram Conjunção condicional + partículas (modo irrealis + modo possibilitativo) mo ta + ne / kaʡ + tɾaʡ YANOMÁMI Sanoma Afixos (clítico verbal contrafactual + sufixo condicional) =könaha + -pi GUAIKURÚ Kadiweu Afixo (proclítico de modo condicional) dGa- MURA Pirahã Afixos (sufixo modo condicional + sufixos modalidade epistêmica) -saí + -há/-hai/–áti JÊ (Macro-Jê) Kaingáng Partícula modal ra Krahô Partícula contrafactual OU partícula de modo irrealis + expressão hipotética rə OU ha + mãn=japen Panará Conjunção condicional tu/ta..ta Tapayuna Partícula irrealis kot Xerente Partículas condicional + modalidade alética OU partículas condicional + modo irrealis wa + arke᷈ OU wa + za Xikrín Partícula de modo irrealis ʤa KARAJÁ (Macro-Jê) Karajá Posposição locativa + Afixo potencial (verbos) OU posposição =kɪ + =kɛ OU =wədã ARIKEM (Tupi) Karitiana Afixo (prefixo modal) j - 47 -‟ – modalidade sentida/ -pã- modalidade dedutiva (sufixos de evidencialidade). 95 JURUNA (Tupi) Juruna Conjunção temporal/condicional káde / táde MAWÉ (Tupi) Sateré-Mawé Partículas (modal + futuro) pote + aru MUNDURUKÚ (Tupi) Mundurukú Conjunção condicional + afixo (aspecto/condicional incompleto) pi³ma² + ka³jɨk² TUPI-GUARANI (Tupi) Asuriní do Xingú Afixos (sufixo irrealis + sufixo modo subjuntivo OU Sufixo irrealis/condicional) -ram /-ame + -ram OU -ram Araweté Partícula (modo subjuntivo) ime Guajá Justaposição oração condicional com partícula de aspecto imperfectivo xí Kaiowá Partículas (futuro hipotético/condicional OU futuro hip./cond. + passado) arã OU arã + ra'e Kamaiurá Partícula (irrealis) + afixo (sufixo modo subjuntivo) OU afixo (sufixo modo subj.) + partícula (futuro) ram + –ramu OU –ramu + korin Karipúna Afixo subordinador condicional + partículas (passado e condicional) OU afixo subordinador + partículas (presente e futuro) si + te + teke OU si + ka + ke Tapirapé Partícula (modalidade epistêmica) + afixo (sufixo modo subjuntivo) ekwe + –ãramõ ISOLADAS Kanoê Conjunção condicional neko Kwaza Afixos (sufixo irrealis/condicional + sufixo modo cosubordinativo + sufixo irrealis OU sufixo condicional + sufixo potencial) –kywy + –ta + -rydy OU -kywy + –tsy Trumai Afixo (sufixo condicional) OU afixo + advérbio de tempo (sufixo condicional + advérbio-futuro) –is/-es OU –is/-es + hat‟ke A partir do quadro acima, pode-se chegar a algumas generalizações quanto à forma de expressão do valor condicional nas línguas indígenas analisadas, que são as seguintes: 96  Observa-se que, assim como hipotetizado, o valor condicional é expresso nas línguas por diferentes elementos, sendo estes, de forma majoritária, afixos, partículas e conjunções;  A expressão do valor condicional pode ser feita por meio da combinação de elementos, de forma composicional/multifatorial, ou de maneira exclusiva/direta, o que está de acordo com o trabalho de Van linden e Verstraetete (2008), sobre os padrões de marcação condicional;  Quando em combinação, parece haver, em grande parte das línguas que compõem o corpus, um elemento que atua como conector/morfema subordinador, que restringe a semântica da oração adverbial à expressão da condição, e outros para especificação desse sentido (se contrafactual, potencial ou factual) - estes últimos expressam outras categorias linguísticas, tais como irrealis, modalidade, modo, tempo, aspecto, dentre outros, e ao se combinarem com conectores específicos, no conjunto, passam a veicular o valor condicional nas construções em que ocorrem;  Apenas três línguas do corpus têm uma conjunção específica para marcar, de maneira direta, a condicionalidade, o Dãw, da família Makú, o Panará, da família Jê (Tronco Macro-Jê), e o Kanoê, língua considerada isolada;  Duas línguas do corpus marcam a condicionalidade pela combinação de uma conjunção condicional, atuando como conector, com partículas ou afixos que também coocorrem na construção, para especificação do sentido: o Oro Waram, da família Txapakúra, que apresenta a conjunção condicional, em coocorrência, na construção, com as partículas de modo irrealis e modo possibilitativo; e o Mundurukú, da família Mundurukú (Tronco Tupi), língua na qual o valor condicional é veiculado pela combinação da conjunção condicional com um afixo aspectual que marca o caráter de incompletude da situação expressa na construção – nessa língua, ainda, a conjunção pi³ma² também pode ser empregada em orações com valor temporal;  Outras duas línguas têm conjunções temporais que também marcam a condicionalidade, de forma direta, podendo haver, nestes casos, sobreposição de valores, o Wapixana, da família Arawák, e o Juruna, da família Juruna (Tronco Tupi);  A maioria das línguas que expressam a condicionalidade de maneira direta, o fazem por meio de um elemento que, ou é o próprio marcador de irrealis na língua, ou está associado ao domínio irrealis – no Paresi, da família Arawák, e no Tapayuna e Xikrín, ambas da família Jê (Tronco Macro-Jê), o valor condicional é expresso, por partículas 97 que expressam o modo irrealis na língua; no Waurá, da família Arawák, no Kaingáng, da família Jê (Tronco Macro-Jê) e no Karitiana, da família Arikem (Tronco Tupi), um sufixo de modalidade, uma partícula modal e um prefixo modal, respectivamente, marcam o valor condicional; no Shawã, da família Pano, há um sufixo de modo condicional, assim como há um proclítico de modo condicional, no Kadiweu, da família Guaikurú, responsável pela marcação da condicionalidade na sentença; e por fim, no Araweté, da família Tupi-Guarani (Tronco Tupi), há uma partícula de modo subjuntivo empregada quando se quer veicular um sentido condicional na língua;  Em línguas nas quais a condicionalidade é marcada pela combinação de elementos, por sua vez, estão envolvidos, também, elementos que se associam de alguma forma ao domínio irrealis, isso porque as condicionais tendem a vir sobre o escopo do irrealis, como foi abordado anteriormente, no capítulo de fundamentação teórica, exemplos disso podem ser: o Apurinã, da família Arawák, língua na qual os afixos marcadores de aspecto frustrativo e futuro ocorrem na construção condicional; o Jarawara, família Arawá, que tem os sufixos de modalidade hipotética e o sufixo irrealis para marcar o valor condicional; o Sateré-Mawé, da família Mawé (Tronco Tupi), com uma partícula modal e uma de futuro para a marcação condicional; e da família Tupi-Guarani (Tronco Tupi), o Kamaiurá, com a combinação da partícula irrealis mais o sufixo de modo subjuntivo, e o Tapirapé, que combina uma partícula de modalidade epistêmica, em coocorrência com um sufixo verbal de modo subjuntivo, na construção, para veicular o valor condicional;  Exemplos de línguas nas quais há um elemento funcionando como conector condicional em coocorrência com outro especificando esse sentido são: o Tariana, da família Arawák, na qual em uma construção condicional coocorrem um clítico condicional mais morfemas indicadores de passado/não-passado; o Ye‟pâ-masa, língua da família Tukano na qual os sufixos implicativos do verbo da subordinada indicam a relação de „simples condição‟, funcionando como conectores, havendo ainda um verbo potencial acoplado a sufixos de evidencialidade e tempo que especificam o sentido condicional da construção; da família Arawá, o Jamamadi, com um sufixo verbal de tema e um sufixo contrafactual, e o Jarawara, que tem uma partícula subordinadora que, em coocorrência com o sufixo irrealis e outro marcador de passado, na construção, veiculam a condicionalidade; o Mamaindê, da família Nambikwara, língua que apresenta um conectivo condicional, em coocorrência, na construção, com o sufixo irrealis mais os sufixos de passado ou presente, para 98 especificação do valor condicional da mesma; e por fim, mas não último exemplo, o Sanumá, da família Yanomami, cujo valor condicional é veiculado pela coocorrência do clítico verbal, atuando como subordinador contrafactual, mais um sufixo condicional acoplado ao verbo da oração principal; Por fim, uma consideração importante a respeito da forma de expressão da condicionalidade nas línguas indígenas do corpus é a constatação de que línguas pertencentes ao mesmo tronco linguístico, como observado, podem expressar a condicionalidade de formas distintas. É o caso, por exemplo, das línguas pertencentes a famílias do tronco Tupi – as famílias Juruna e Arikém (línguas Juruna e Karitiana, respectivamente) expressam o valor condicional de maneira direta, enquanto que nas outras famílias, Mawé, Mundurukú e Tupi- Guarani, a maioria das línguas marca a condicionalidade de forma composicional. Os elementos envolvidos nessa marcação, no entanto, assim como as estratégias para expressar o valor condicional, como pode ser observado anteriormente, são os mesmos. Das famílias cujo tronco é o Macro-Jê, respectivamente, família Jê e Karajá, a maioria das línguas marca a condicionalidade de forma direta, sendo cinco línguas da família Jê (Kaingáng, Panará, Tapayuna, Xikrín, Krahô) e uma língua da família Karajá – o Karajá. Há, no entanto, de forma mais recorrente nesse grupo, do que entre as famílias/línguas do Tronco Tupi (sendo considerada a totalidade do número de línguas de cada grupo) línguas que fazem a marcação das duas formas (direta e composicional), o Krahô e o Karajá, de um total de seis línguas, mas apenas o Asuriní do Xingu e o Kaiowá, do tronco Tupi, de um total de 11 línguas que constam no corpus associadas a esse tronco. Quanto às línguas pertencentes às outras famílias, de maneira geral, estas marcam a condicionalidade, em sua maioria, de maneira composicional, envolvendo elementos que são afixos ou partículas, indicadores de irrealis, modalidade ou tempo, como pode ser observado a partir do quadro acima. A partir da observação da forma de marcação condicional nas línguas do corpus, foi possível estabelecer alguns padrões de marcação levando-se em conta as relações estabelecidas com outras categorias linguísticas. Assim, dando prosseguimento à análise, a próxima seção tem a finalidade de expor algumas dessas relações recorrentes encontradas entre as línguas do corpus. 99 4.2 RELAÇÕES COM OUTRAS CATEGORIAS 4.2.1 TEMPO Sobre a relação com os marcadores de tempo, notou-se ser recorrente, nas línguas, a presença de afixos que indicam passado nas condicionais que permitem uma leitura contrafactual, uma vez que estas indicam situações que não têm mais chance de ocorrer, ou seja, uma possibilidade anulada. É o que ocorre nas línguas, de famílias diversas, Karitiana, Jarawara, Tariana, Macushi, Mamaindê, Tukano, Kaiowá e Karipúna, para as quais os autores descrevem os exemplos abaixo como permitindo uma leitura contrafactual. (111) Karitiana (Storto, 2002, p.158) yn j -soko‟ -t eremby a-otam-am 1s COND-amarrar-nfut rede 2s-chegar-perfectivo “Eu amarraria a rede se você tivesse chegado” (112) Jarawara (Dixon, 2004, p.216) [[matoS bete to-si] jaa] [[o-si] jaa] vine(f) break away-middle+NOM PERI 1sgS-fall+NOM PERI o-habe-ne-maro ama o-ke 1sgS-die-IRRf-FPef EXTENT 1sg-DECf “If the vine had snapped, if I had fallen, I might have died”. “Se o vinho tivesse quebrado, se eu tivesse caído, poderia ter morrido”. (113) Tariana (Aikhenvald, 2003, p.391) heku iya di-wha-ka amaku putʃa-buhtaka yesterday rain 3gnf-fall-SUB hammock be.wet-COND.REC.P “If rain had fallen yesterday, the hammock would have beem wet”. “Se tivesse chovido ontem, a rede estaria molhada”. (114) Macushi (Abbott, 1985, p.6) epuˈ-sa-uˈ-ya ya, a-yarakkîrî uutî-pî eˈ-pai-non know-CMPL-1-ERG if, 2-with 1:go-PAST be-DESID- NOMLZR “If I had known, I would have gone with you”. “Se eu soubesse, teria ido com você”. (115) Mamaindê (Eberhard, 2009, p.426) eu- na-na-satoʔni tanu- na-lhi-le-a-nãn-wa see-O2-S1-CN.CND give-O2-IRR-I.PST.S1-PST-DECL “If I had seen you, I would have given (it) to you”. “Se eu tivesse visto você, eu teria dado (isso) para você”. 100 (116) Ye‟pâ-masa (Ramirez, 1997, p.141) /b sâ ba‟â-sehé kɨó-dã‟ ba‟â+boo-a-pã / vocês comida ter-impl.ms comer+potencial-p.rec.ded “Vocês comeriam se tivessem comida”. (117) Kaiowá (Taylor, 1984, p.26) Nonhembojagwái-rire ra'e, naha'ãi arã ra'e Não=eles=mesmos=fazer=cachorro-depois p.rec não=eu=tentar fut aspc. “Se eles não tivessem se transformado em cachorros, eu não teria tentado (os cantos dos espíritos”. (118) Karipúna (Tobler, 1983, p.14) si-l te hive, mo teke pale ke-l if-3s Tp arrive 1s Tc speak with-3s “If he had come I would have spoken with him”. “Se ele tivesse vindo eu teria falado com ele”. Por outro lado, quando ocorrem marcadores de tempo não passado, ou seja, presente e futuro, contextos que ainda têm chance de ocorrer, a leitura condicional parece ser mais potencial, como ocorre, por exemplo, nas línguas Ikpéng, Kaiowá, Tariana, Mamaindê, Matses, Karipúna, Tapirapé e Trumai, cujos exemplos estão abaixo: (119) Ikpéng (Pâcheco, 2001, p.211) m-akpɨlɨ-rup y-anore-t 2A3O-molhar-COND 3So-crescer-NPAS “Se você molhar (essa planta), ela vai crescer”. (120) Kaiowá (Taylor, 1984, p.26) Iporã-ramo pohã ko, oikove jevy arã. (ele)=bom-quando curar intens ele=viver-mais outra=vez fut “Se o remédio for bom, ele vai sarar.” (121) Tariana (Aikhenvald, 2003, p.391) pa:pe nu-ni-ka nhua nuhpani-nipe maybe 1sg-do-SUB I 1sg+work-NOM nu-keta-bohta nhua 1sg-encounter-POT.NON.PAST I “Maybe I could encounter work”. “Talvez eu possa encontrar trabalho”. (122) Mamaindê (Eberhard, 2009, p.353) huk wes-ø-satoʔni joha-lhi-a -ø-wa gun fix-S3-CN.CND pay-IRR-S1-PRS-DECL “If he fixes the gun, I would pay”. “Se ele consertar a arma, eu pago”. 101 (123) Matses (Fleck, 2003, p.1124) b da-mbo ic-tsia-bi chuoquid ic-ec good-Aug be-Npast:Cond-1S chief be-while:S/A>S “If I were chief, I would be good”. “Se eu for chefe, Eu serei bom”. (124) Karipúna (Tobler, 1983, p.14) si-l ka vin, mo ke pale ke-l if-3s Tpr=i come 1s Tf talk with-3s “If he comes, I will speak with him”. “Se ele vier, falarei com ele”. (125) Tapirapé (Praça, 2007, p.206) ã-petek ekwe we-petek-ãramõ 1sg.I-bater F.IMI 1sg.III-bater-SUB “Eu baterei nele se ele me bater”. (126) Trumai (Guirardello, 199, p.394) [wa-pata tak iyi-n-es] ha makdits hat‟ke WA-arrive Neg IYI-3Abs-ES 1 sad in.future “If he does not arrive, I will be sad”. “Se ele não chegar, vou ficar triste”. Baseando-se nessa diferenciação na marcação do tempo, que parece influenciar na leitura do sentido condicional, e considerando-se os estudos anteriores, que atestavam a contrafactualidade como sendo prototípica do domínio irrealis, pode-se argumentar a favor da escala de irrealidade proposta por Plungian (2005), no quadro 3, retomado abaixo. Quadro 3: Formas verbais russas em uma 'escala de irrealidade' (PLUNGIAN, 2005, p.144) IRREALIDADE < * > REALIDADE Condicional Infinitivo imperativo Contrafactualidade “iminência” volição Nesse sentido, como proposto pelo autor, os valores condicionais de potencialidade e contrafactualidade podem ser considerados como sempre estando sob o domínio do irrealis, como determinado pelo quadro 2, retomado abaixo, por se referirem sempre a situações não realizadas, e isso justificaria o fato de morfemas irrealis também veicularem o valor condicional potencial. 102 Sempre marcado como irrealis Contrafactual Optativo e conjuntivo Intencional e volicional Probabilidade e duração Menos frequentemente marcado como irrealis Evidencial indireto Negação Interrogativo Imperativo e proibitivo Habitual e passado imperfectivo Passado remoto Mais frequentemente marcado como irrealis Futuro (especialmente remoto ou incerto) Prospectivo Condicional e concessivo Intenção/propósito Nunca marcado como irrealis Passado perfectivo Passado imediato ou resultativo Presente progressivo No entanto, haveria uma escala de irrealidade, nas quais as condicionais marcadas com o tempo não passado são menos contrafactuais e mais potenciais, por fazerem referência a situações com mais probabilidade de ocorrer, ainda que estejam no campo do pensamento. Dessa forma, em uma escala de irrealidade, as contrafactuais se encaixam mais diretamente ao domínio irrealis, ao fazerem referência a situações passadas, irrealizáveis, sendo, portanto, consideradas mais prototípicas desse domínio. Quadro 9: Escala de irrealidade proposta para as condicionais (Elaboração própria) - < IRREALIDADE > + Factual Potencial Contrafactual 4.2.2 IRREALIS A análise da expressão condicional nas línguas indígenas permitiu observar que em algumas delas, a marcação do valor condicional envolve morfemas, em sua maioria afixos ou partículas, cuja função é marcar o irrealis. No quadro abaixo, constam as línguas que expressam condicionalidade por meio do irrealis ou da associação do irrealis com outros morfemas. Quadro 2: Marcação do irrealis de acordo com Plungian (2005, p.138) 103 Quadro 10: Línguas que fazem distinção realis/irrealis e que expressam condicionalidade por meio de morfemas irrealis. Família Língua Realis x Irrealis Marcador Irrealis Forma de expressão do morfema irrealis Marcador ARAWÁK Apurinã Paresi (Haliti) Partícula (modo irrealis) iya Tariana Wapixana Waurá KARIB Ikpéng Macushi PANO Kaxinawá Matses Shanenawa Shawã TUKANO Ye‟pâ- masa ARAWÁ Jamamadi Jarawara Sufixo irrealis –(he)ne/-(hi)na MAKÚ Dâw Hupda NAMBIKWARA Mamaindê Sufixo irrealis -lhi TXAPAKÚRA Oro Waram Partícula (modo irrealis) ne/kaʡ YANOMÁMI Sanoma GUAIKURÚ Kadiweu MURA Pirahã JÊ (Macro-Jê) Kaingáng Krahô Partícula (modo irrealis) ha Panará Conjunção condicional tu/ta..ta Tapayuna Partícula irrealis kot Xerente Partícula (modo irrealis) za Xikrín Partícula de modo irrealis ʤa KARAJÁ (Macro-Jê) Karajá ARIKEM (Tupi) Karitiana JURUNA (Tupi) Juruna MAWÉ (Tupi) Sateré- Mawé MUNDURUKÚ (Tupi) Mundurukú TUPI- GUARANI (Tupi) Asuriní do Xingú Sufixo irrealis -ram Araweté Guajá Kaiowá 104 Kamaiurá Partícula (irrealis) ram Karipúna Tapirapé ISOLADAS Kanoê Kwaza Trumai Dentre as línguas apresentadas no quadro, a maioria marca a distinção realis x irrealis, entendendo o irrealis como marcador de modo ou como sendo um tipo de modalidade, ou seja, o irrealis abarcaria noção de modalidade/possibilidade. O que se observa a partir do quadro é que as línguas da família Jê, do tronco Macro-Jê (Kaingáng, Krahô, Panará, Tapayuna, Xerente, Xikrín), em sua maioria, expressam a distinção realis x irrealis, marcando a condicionalidade, majoritariamente, por meio da combinação de partículas que, em casos como o do Xerente, também podem marcar modalidade. Quando em combinação, há uma partícula que atua como conector, restringindo a semântica da oração adverbial, e outra que atua como especificador do sentido condicional, como já discutido acima. No Krahô, a expressão condicional pode ocorrer a partir da ocorrência da expressão mãn=japen na subordinada, indicando uma situação potencial. Além disso, tanto na subordinada, quanto na principal, aparece a partícula de modo irrealis ha. Neste caso, essa partícula restringe a significação da construção ao domínio da não realidade/possibilidade, e a expressão mãn=japen é empregada para especificação do sentido condicional (potencial), como pode ser verificado a partir do exemplo abaixo. (127) Krahô (Miranda, 2014, p.235) [ka ha wap Ø-t a Ø-mõ-r mãn=jape] 2SG IRR faca R 1 -ASS.INSTR 2SG R 1 -ir-NOMLZ COND.HIP wa ha Ø-t prikɐk j-i᷈ j-akh p 1SG IRR R 2 -ASS.INSTR vaca R 1 -carne R 1 -cortar “Se você ir com a faca, eu vou cortar a carne da vaca” Por outro lado, nessa língua também pode haver marcação direta da condicionalidade, por meio de uma partícula destinada exclusivamente a marcar a contrafactualidade. Este fato parece decorrer da prototipicidade da contrafactualidade como sendo um significado irrealis. 105 No Krahô, Miranda (2014, p.286) especifica a relação entre o irrealis e a modalidade, ao retomar a definição de Trask (1994, p.174), da categoria gramatical de modo, ressaltando que esta está relacionada “ao grau ou tipo de realidade de uma proposição percebida pelo falante”. O autor distingue realis de irrealis, sendo este último usado para fazer referência a algo que ainda não aconteceu. O irrealis, nesse sentido, abrangeria as noções de modalidade, como possibilidade, potencial, dentre outras, conforme observado por Miranda (2014, p.286). Ainda da família Jê, no Xerente também se faz distinção gramatical entre o modo realis e irrealis. O primeiro, de acordo com Cotrim (2016, p. 337), é o “modo de falar de processos e eventos já realizados ou em fase de realização”, enquanto que o segundo é o “modo das hipóteses, de processos e eventos planejados ou esperados”, sendo “acionado pelo falante quando o mesmo quer informar a seu interlocutor que o conteúdo informacional expresso pelo predicado é uma potencialidade, uma possibilidade, ou uma condição” (Cotrim, 2016, p.338). Nessa língua, as condicionais potenciais, de acordo com a autor, são marcadas pela associação da partícula condicional wa, na subordinada, restringindo o significado condicional da oração adverbial, com a partícula de modo irrealis za, conforme expresso abaixo. (128) Xerente (Cotrim, 2016, p.254) toka ai mõ-r wa smi ᷈k z mr wa za ktəkmõ ni᷈ ka-nhə 2 2 ir-NML COND faca 1 IRR gado carne 3o-cortar “Se você for com a faca, eu vou cortar a carne da vaca” No Xikrín, outra língua da família Jê que também faz distinção gramatical realis/irrealis, as condicionais expressam eventos que poderiam ser ou ter sido realizados, mas, por algum motivo não o foram ou não puderam ter sido. Nessas construções, a partícula de modo irrealis ʤa é que marca a relação condicional. Segundo Costa (2015, p.311), o “modo irrealis, em oposição ao realis, é acionado pelo falante quando o mesmo quer informar a seu interlocutor que o evento expresso pelo verbo está no nível da potencialidade, possibilidade, condicionalidade, e que pode vir a ser realizado”. Percebe-se novamente, então, a relação intrínseca entre irrealis e modalidade. (129) Xikrín (Costa, 2015, p.230) [ʤa m pɾ ɾ ø-t kɾɨ] ga ku-mã pidʒə ø-ŋã IRRLS criança R 1 -doente 2 R 2 -DIRET remédio R 2 -dar “Quando/se a criança estiver doente, você lhe dá”. 106 (130) Xikrín (Costa, 2015, p.232) [ʤa ga mua] a ø-kamɨ IRRLS 2 chorar 2 R 1 -irmão a ø-mã məja ø-ŋã 2 R 1 -DIRET coisa R 1 -dar “Se você tivesse chorado, teu irmão teria te dado algo”. Por outro lado, em outra língua da família Jê, o Panará, apesar de haver distinção gramatical entre situações realis/irrealis, a marcação condicional é feita, de maneira direta, por uma conjunção condicional. Tal fato também ocorre na língua Juruna, da família Juruna, a qual também não distingue gramaticalmente realis de irrealis, havendo uma conjunção condicional (também com valor temporal) para marcação do valor condicional da sentença. Por último, da família Jê, tronco Macro-Jê, as línguas Tapayuna e Kaingáng, por sua vez, não fazem a distinção gramatical realis/irrealis, conforme os autores dos respectivos trabalhos de referência analisados, mas, ainda assim, identificam partículas responsáveis pela marcação condicional que são, respectivamente, uma partícula irrealis, no Tapayuna, e uma partícula modal, no Kaingáng, domínios associados, portanto. Também no Jarawara, língua da família Arawá, conforme determinado por Dixon (2004, p.215), o irrealis é considerado como um tipo de modalidade, sendo usado para fazer referência a “algo que pode muito bem acontecer ou ter acontecido, mas que não aconteceu, ainda não aconteceu ou não acontecerá”.48 Nessa língua, a marcação condicional ocorre a partir da associação de um sufixo de modalidade hipotética no verbo da subordinada, mais um sufixo irrealis adicionado ao verbo da oração principal, como pode ser visto abaixo. O Jarawara é uma língua que gramaticaliza a distinção entre realis e irrealis. Além desta forma de marcação, também há outra, quando uma partícula subordinadora estabelece a relação de subordinação entre as sentenças, e o sufixo irrealis, junto do sufixo de tempo passado, no verbo da principal, indica uma situação que poderia ter acontecido em um passado não recente, mas não aconteceu. É o caso do exemplo (132). 48 Cf. o original: “What is called the irrealis (IRR) suffix, -(he)ne/-(hi)na, refers to something that might well happen or have happened, but which didn't or hasn't yet or won't happen”. (Dixon, 2004, p.215) 107 (131) Jarawara (Dixon, 2004, p.216) inohowes jati-mana-há, alligator(m) be.alive-HYPOTHm-DEP inohoweA owa fito ka-ne-hina ama o-ke, alligator(m) 1sgO chase APPLIC-AUX-IRRm EXTENT 1sg-DECf majateraA owa kini ka-ne-hene owa gill.net(f) 1sgO wrap-aroung APPLIC-AUX-IRRf 1sgDEP “If the aligátor had been alive, it might have chased me, [and] I might have got tangled up in the gill-net (lit. the gill net might have wrapped itself around me)”. “Se o jacaré estivesse vivo, poderia ter me perseguido, [e] eu poderia ter me enroscado na rede (lit. a rede poderia ter se enrolado em mim)”. (132) Jarawara (Dixon, 2004, p.216) [[matoS bete to-si] jaa] [[o-si] jaa] vine(f) break away-middle+NOM PERI 1sgS-fall+NOM PERI o-habe-ne-maro ama o-ke 1sgS-die-IRRf-FPef EXTENT 1sg-DECf “If the vine had snapped, if I had fallen, I might have died”. “Se o vinho tivesse quebrado, se eu tivesse caído, poderia ter morrido”. Outra língua que reconhece a distinção entre os modos realis e irrealis é o Paresi, da família Arawák, língua na qual a partícula condicional iya é um tipo de morfema usado para expressar o modo irrealis. Assim, o modo irrealis condicional, nessa língua, fica responsável por indicar que a realização de um evento é dependente de outra condição, conforme indica Silva (2013, p.385). (133) Paresi (Silva, 2013, p.364) maitsa iya hi=ka-nakai-ita hi=waini-Ø NEG COND 2sg=ter-comida-CONT 2sg=morrer-PERF “Se você não comer, você morre”. Da família Nambikwara, o Mamaindê não especifica a distinção entre realis e irrealis, porém, considera o sufixo irrealis -lhi como um marcador que especifica a atitude do falante diante da realidade de uma situação, segundo Eberhard (2009, p.426), o que comprova novamente a relação entre irrealis e modalidade. 49 Nessa língua, a expressão condicional se dá a partir da associação do conectivo -satoʔni, que especifica o sentido condicional da construção, com o sufixo irrealis, mais um sufixo marcador de tempo, que poderá ser passado 49 Cf. o original: “The attitude of Mamaindê speakers towards the reality of a situation may also be encoded in the verb”. (Eberhard, 2009, p.426) 108 ou presente, conforme a interpretação foi contrafactual ou potencial, como mostrado nos exemplos abaixo. (134) Mamaindê (Eberhard, 2009, p.426) eu- na-na-satoʔni tanu- na-lhi-le-a-nãn-wa see-O2-S1-CN.CND give-O2-IRR-I.PST.S1-PST-DECL “If I had seen you, I would have given (it) to you”. “Se eu tivesse visto você, eu teria dado (isso) para você”. (135) Mamaindê (Eberhard, 2009, p.353) huk wes-ø-satoʔni joha-lhi-a -ø-wa gun fix-S3-CN.CND pay-IRR-S1-PRS-DECL “If he fixes the gun, I would pay”. “Se ele consertar a arma, eu pago”. Na língua Oro Waram, da família Txapakura, Apontes (2015, p.126) determina que a marcação de modo pode ser agrupada em dois tipos, que podem ser chamados de factual e não factual, ou, realis e irrealis. Para o autor, as sentenças marcadas com o modo irrealis referem- se a eventos que podem ser, ou que tem a probabilidade de ser realidade (Apontes, 2015, p.181), ou seja, eventos não realizados (não factuais, hipotéticos) ou com a possibilidade de se realizar. Nessa língua, para a expressão condicional, há uma associação entre uma conjunção condicional, mo ta, que introduz a oração condicional, e uma partícula de modo possibilitativo, tɾaʡ, mais partículas de modo irrealis (ne). Como observado, a ocorrência das partículas irrealis ocorre devido ao fato de a oração estar no modo “não factual”. Por sua vez, há uma associação com a modalidade, através da partícula de modo possibilitativo, que, segundo o autor, expresssa o pouco compromisso com a informação, ou seja, a atitude do falante perante o fato veiculado. O exemplo abaixo exemplifica esses usos. (136) Oro Waram (Apontes, 2015, p.146) mo ta pan ne ʃowi COND cair 3SG.N.IRR chuva ʃo maw ak ne tɾaʡ ʃijat molhar RES APL 3SG.N.IRR POSS rede “Se a chuva cair, ela poderá molhar a rede”. Da família Tupi-Guarani, há duas línguas que fazem uso de morfemas irrealis para a expressão condicional, o Asuriní do Xingú e o Kamaiurá. Em ambas as línguas, não se especifica a existência de um modo realis, porém, reconhece-se o modo irrealis. No Asuriní 109 do Xingú, Pereira (2009, p.228) observa que “a semântica do modo irrealis aponta o evento como uma hipótese possível de acontecer, desde que uma ação que se encontra no futuro aconteça para possibilitar a realização do evento que se encontra no verbo marcado por ram ”, sufixo irrealis que, em coocorrência com o sufixo de modo subjuntivo, marca a interpretação contrafactual de uma condicional. O modo subjuntivo, como visto no capítulo de fundamentação teórica, também é um dos significados que podem estar sob o escopo do domínio irrealis. (137) Asuriní do Xingú (Pereira, 2009, p.326) amyna rur-ame-am avatxi a-tym chuva cair-Irr-subj milho 1-plantar “Se tivesse chovido eu teria plantado milho”. Na língua Kamaiurá, por sua vez, de acordo com Seki (2000b, p.194), existe uma partícula, o ram, irrealis, que é especialmente utilizada em construções condicionais, como mostram os exemplos abaixo. (138) Kamaiurá (Seki, 2000b, p.91) akwama‟e-a=ram je=r -eko-ramu ram pira r-ehe=ram a -há homem -N=Irr 1sg=Rel-Cóp-Subj=Irr peixe Rel-por=Irr 1sg-ir “Se eu fosse homem, iria pescar”. (139) Kamaiurá (Seki, 2000b, p.194) Ij-u‟u -ramu =ram wararuwijaw-a o-juka 3-morder -Subj=Irr cachorro-N 3-matar “Se ele o mordesse, ele mataria o cachorro”. Por fim, no Kwaza, uma das línguas isoladas do corpus, há um sufixo irrealis, -rydy, cuja função principal se dá nas condicionais, como indica Van der Voort (2004, p.428). Esse sufixo pode aparecer adicionado ao verbo da oração principal, em associação ao sufixo condicional –kywy, que ocorre no final da subordinada (condicionais contrafactuais). Além disso, também aparece em coocorrência com o sufixo potencial –tsy, em condicionais hipotéticas. (140) Kwaza (Van der Voort, 2004, p.631) tso'je dw - he-da-h -kywy-'ta mamã -'dy-da-rydy-ki hand break-NEG-1S-NOM-COND-CSO play-CAU-1S-IRR-DEC “If I hadn‟t broken these fingers I wouldhave played”. “Se eu não tivesse quebrado esses dedos eu teria jogado”. 110 (141) Kwaza (Van der Voort, 2014, p.629) areta-'he-da-kywy si-dy-h tã'jã e'nãi-tja-ta-tsy-tse know-NEG-1S-COND I-POS-NOM chief quarrel-TRA-1O-POT-DEC “If I don‟t learn, my chief will quarrel with me”. “Se eu não aprender, meu chefe brigará comigo”. A análise do papel dos morfemas irrealis na marcação condicional demonstra que, em grande parte das línguas em que há uma distinção realis x irrealis marcada, a expressão condicional ocorre por meio dos morfemas irrealis ou por meio de morfemas que expressam categorias que se associam ao domínio irrealis, seja de forma exclusiva, com marcação direta, ou de maneira composicional – a associação se dá principalmente com a modalidade. Outras línguas do corpus, Kaingáng, Panará e Juruna distinguem realis de irrealis, porém, não fazem uso de um morfema dedicado exclusivamente ao modo irrealis, na marcação condicional. A expressão condicional, portanto, nas línguas que distinguem gramaticalmente realis- irrealis, assim como em outras línguas que fazem parte do corpus, envolve principalmente o emprego de marcadores de irrealis e modalidade, como já pôde ser observado acima, estando esses domínios relacionados, tal como foi verificado por Van linden e Verstraete (2008), em seu trabalho de investigação dos padrões de marcação condicional. Portanto, considerando-se a redefinição da noção de modalidade proposta por Givón (1984), que a correlaciona ao grau de factualidade/realidade da proposição, tornou-se necessário investigar também a relação da condicionalidade com a modalidade em línguas nas quais não há distinção gramatical realis/irrealis, o que será feito na seção seguinte. 4.2.3 MODALIDADE Uma vez constatada por De Haan (2012) a recorrência de elementos modais na marcação condicional, e dada a relação que pode ser estabelecida entre modalidade e irrealis, era esperado que as línguas do corpus também manifestassem essa ligação. O quadro abaixo, portanto, mostra as línguas nas quais a marcação condicional envolve a ocorrência de algum elemento modal. Quadro 11: Línguas que têm componentes modais envolvidos na marcação condicional. Família Língua Modalidade Forma de expressão do marcador de modalidade Marcador ARAWÁK Apurinã Paresi (Haliti) Tariana Wapixana 111 Waurá Sufixo de modalidade -mia KARIB Ikpéng Macushi PANO Kaxinawá Matses Shanenawa Shawã TUKANO Ye‟pâ-masa Sufixos de evidencialidade 50 -‟ ou -pã ARAWÁ Jamamadi Jarawara Sufixo de modalidade hipotética –(he)mene / (he)mana MAKÚ Dâw Hupda NAMBIKWARA Mamaindê Afixos (conectivo condicional + sufixo irrealis 51 + passado ou presente) -satoʔni + -lhi + passado ou presente TXAPAKÚRA Oro Waram Partícula (modo possibilitativo) tɾaʡ YANOMÁMI Sanoma GUAIKURÚ Kadiweu MURA Pirahã Sufixos de modalidade epistêmica -há/-hai/–áti JÊ (Macro-Jê) Kaingáng Partícula modal ra Krahô Panará Tapayuna Xerente Partícula de modalidade alética arke᷈ Xikrín KARAJÁ (Macro-Jê) Karajá ARIKEM (Tupi) Karitiana Afixo (prefixo modal) j - JURUNA (Tupi) Juruna MAWÉ (Tupi) Sateré-Mawé Partícula modal pote MUNDURUKÚ (Tupi) Mundurukú TUPI- GUARANI (Tupi) Asuriní do Xingú Araweté Guajá Kaiowá Kamaiurá Karipúna 50 -‟ – modalidade sentida/ -pã- modalidade dedutiva (sufixos de evidencialidade). 51 No Mamaindê, o sufixo irrealis –lhi, segundo Eberhard (2009, p.426), é um marcador que especifica a atitude do falante diante da realidade de uma situação. 112 Tapirapé Partícula de modalidade epistêmica ekwe ISOLADAS Kanoê Kwaza Trumai De maneira geral, o processo de modalização pode ser entendido como o modo pelo qual o significado de uma frase é qualificado de forma a refletir o julgamento do falante sobre a probabilidade de ser verdadeira a proposição por ele expressa. Lyons (1977) define modalidade como as maneiras, nas diferentes línguas, pelas quais a atitude do falante é gramaticalmente marcada. Em uma redefinição do conceito de modalidade de tradição lógica, Givón (1984) correlaciona-a ao grau de factualidade/realidade da proposição, estando, portanto, relacionada às noções de realis e irrealis. Assim, como já observado anteriormente, é expresso o realis, quando o falante é assertivo frente ao evento transmitido no enunciado, caracterizando-o como verdadeiro e certo. Por outro lado, é expresso irrealis, quando o falante não se compromete com o conteúdo da sua proposição, marcando-o como sendo provável, possível ou incerto. Nesse sentido, ao estabelecer a relação condicional entre as sentenças, especificando a ocorrência de um evento/situação como dependente da realização de uma condição, ou seja, marcando-o como incerto/irrealis, os falantes estão fazendo uma avaliação a respeito dos graus de verdade da proposição expressa, marcando-a como [-factual]. Justifica-se, portanto, a recorrência de elementos modais envolvidos na marcação condicional, às vezes, ainda, utilizados em conjunto a morfemas que expressam modo irrealis. Nas línguas Jarawara, Mamaindê, Oro Waram e Xerente, como já especificado acima, a marcação condicional ocorre havendo associação entre morfemas irrealis e elementos modais. No Jarawara (exemplo 131), língua da família Arawá, há um sufixo que expressa modalidade hipotética (–(he)mene/-(he)mana) que ocorre adicionado ao verbo da subordinada, especificando o caráter incerto/hipotético/possível da proposição, enquanto junto ao verbo da principal, por outro lado, acopla-se o sufixo irrealis (–(he)ne/-(hi)na). Nessa língua, como já observado, o irrealis é considerado um tipo de modalidade. Em uma língua da família Nambikawara, o Mamaindê (exemplos 134 e 135, acima), o sufixo irrealis –lhi, utilizado na construção condicional, é responsável por especificar a atitude do falante diante da realidade de uma situação, conforme indica Eberhard (2009, p.426). Por fim, na língua Oro Waram, da família Txapakúra (exemplo 136)), a associação 113 entre uma partícula irrealis (kaʡ) e outra partícula de modo possibilitativo (tɾaʡ), expressa o valor condicional. O modo possibilitativo, nessa língua, expressa o pouco compromisso do falante com a informação veiculada, isto é, sua atitude perante a proposição expressa, pelo fato dessa ser incerta/hipotética. No Xerente (exemplo 74), pertencente à família Jê, tronco Macro-Jê, o modo irrealis é acionado quando o falante “quer informar a seu interlocutor que o conteúdo informacional expresso pelo predicado é uma potencialidade, uma possibilidade, ou uma condição” (Cotrim, 2016, p.338). Assim, o modo irrealis é utilizado para qualificar o jugamento do falante sobre a probabilidade de a proposição ser verdadeira, ou seja, o próprio uso da partícula de modo irrealis na construção condicional, já funciona como uma estratégia de modalização do discurso. Nessa língua, também pode haver a marcação condicional contrafactual por meio da associação entre a partícula condicional wa na subordinada, junto da partícula de modalidade alética, arkne᷈, que aparece na principal, sinalizando que o conteúdo informacional do enunciado tem a probabilidade de ocorrer. A modalidade alética expressa a atitude do locutor em relação ao valor de verdade de seus enunciados, ou seja, está vinculada a existência do estado de coisas enunciado em uma proposição. (142) Xerente (Cotrim, 2016, p.254) )r mzakrã=r wa i᷈ ktu kwaikə arkne᷈ wa ai waikrãm-kw de.manha COND 1 acordar SUBJ PROB 1 2 encontrar-PL “se eu tivesse acordado cedo, eu já tinha encontrado vocês”. No Waurá, da família Arawak, um sufixo denominado „de modalidade lógica‟, é responsável por expressar uma condição na sentença. (143) Waurá (Richards, 1988, p.8) pu-húka-mia ɨ-náku unɨ-í-u ukú-ene-pe-te-u-há você-despejar-condicional ela-dentro água-_-_ mole-pontual-tornar=se-restritivo-_-_ “Se você despejar água nela, apenas ficará mole” (parte da razão pela qual as panelas de barro devem ser cozidas” No Ye‟pâ-masa, da família Tukano, segundo Ramirez (1997, p.140), a marcação condicional ocorre a partir da combinação de um verbo implicativo, um verbo potencial e sufixos que indicam modalidade sentida (evidencialidade) e tempo passado. O verbo potencial boo, conforme informa o autor, é usado para indicar que “a situação vai se realizar, seria ou teria sido realizada se certas condições exigidas para a sua realização também se realizarem, fossem ou tivessem sido realizadas”, sendo considerado como um marcador de modalidade da 114 possibilidade. O valor condicional é expresso quando este verbo aparece na oração principal de uma construção em que ocorre também sufixos implicativos junto do verbo da subordinada, que no Ye‟pâ-masa, servem para expressar as relações condicionais de „simples condição‟ ou „contrafato‟ (irreal). Ao ser acompanhado, ainda, de sufixos do que o autor chama de modalidade dedutiva ou sentida, junto de sufixos de tempo (passado recente ou passado remoto), tem-se configurado o uso de uma condicional contrafactual. (144) Ye‟pâ-masa (Ramirez, 1997, p.141) /yɨ‟ b d -go‟ p -do sihâ+boo-pã / eu homem ser-impl.ms muito viajar+potencial-p.cad.ded “Eu teria viajado muito se fosse homem (mulher falando)” De acordo com Ramirez (1997, p.81), os sufixos de modalidade sentida/dedutiva, no exemplo acima, indicam que o grau de conhecimento do falante em relação ao que ele está dizendo sobre a situação verbal está baseado em uma informação não-visual: auditivo, olfativo, tátil, etc (“eu percebo/percebi que...”). Ramirez entende a modalidade sentida/dedutiva como sendo um tipo de modalidade epistêmica. Assim, ao qualificar epistemicamente o enunciado, o falante estaria determinando seu grau de certeza sobre o estado-de-coisas contido na proposição, de modo que, na medida em que isto ocorre ele também acaba por estabelecer seu grau de (des)comprometimento com a verdade da proposição. Logo, os sufixos de modalidade sentida/dedutiva também podem ser entendidos como marcadores de evidencialidade, que indicam que o conhecimento do falante a respeito da situação verbal expressa, foi obtida com base em informações não-visuais. No Pirahã, da família Mura, a relação entre a condicionalidade e a modalização é expressa a partir dos sufixos de grau de certeza que ocorrem nas construções condicionais. Conforme indicado por Everett (1983, p.170), “o grau de certeza do falante ao produzir um enunciado é expresso em três níveis, através de três sufixos: -há “certeza completa”, -hai “certeza relativa”, e –áti “incerteza”. Esses sufixos aparecem em conjunto com o sufixo de modo condicional, para veicular o valor em questão. (145) Pirahã (Everett, 1983, p.116) pii boi-hiab -i -saí ti ahá água vir-negativo -próximo -condicional 1 ir -p -i -í -imperfectivo -próximo -certeza completa “Se não chover, eu irei” 115 (146) Pirahã (Everett, 1983, p.116) gí hi aho -a -áti pii ap 2 1 dizer -remoto -incerteza água entrar -ai -p -i -saí -atélico -imperfectivo -próximo -condicional baósaí ib -ai -t -op -í pano bater -atélico -iterativo -movimento(?) -próximo “Você diga (para) ele (que) se (ele) for tomar banho, (para ele) lavar a roupa”. (147) Pirahã (Everett, 1983, p.116) paió hi ab -óp-ai -saí nome próprio 3 virar -ir-atélico -condicional ti xií oá -boí-haí 1 coisa comprar -vir-certeza relativa “Se paió vier, eu comprarei alguma coisa”. Na língua Kaingáng, da família Jê (Macro-Jê), de acordo com Gonçalves (2007, p.120) há uma partícula modal que veicula o valor condicional, estabelecendo que a “„verdade‟ de um conteúdo proposicional é a garantia da „verdade‟ do outro”, ou seja, também é feita uma avaliação sobre o conteúdo da proposição. (148) Kaingáng (Gonçalves, 2007, p.120) Kófa fi ta kaga n n ra fi pi t g t . velho fem ms doente ASP modo 3pf ms v.andar ASP “Se a velha estivesse doente ela não andava/andaria”. Pertencente à família Arikem (Tupi), o Karitiana utiliza um prefixo modal para veicular o valor condicional contrafactual da oração, expressando “operações sobre mundos possíveis”, como informa Ferreira (2017). (149) Karitiana (Storto, 2002, p.158) yn j -soko‟ -t eremby a-otam-am 1s COND-amarrar-nfut rede 2s-chegar-perfectivo “Eu amarraria a rede se você tivesse chegado” Para marcar condição (se), na língua Sateré-Mawé, da família Mawé, Silva (2010, p.204) encontra a partícula modal pote, que pode aparecer na construção condicional sozinha ou juntamente de outra partícula modal, sio, cujo significado é de “incerteza, dúvida, na condição de”. Além disso, ocorre também, na construção, uma partícula que indica futuro potencial, que, na maioria das línguas, correlaciona-se ao irrealis, já que ações que ocorrem 116 no futuro são, por definição, irreais e ainda não realizadas. Outros autores, como De Haan (2012), como já exposto no capítulo de fundamentação teórica, também consideram o futuro como um significado associado ao irrealis. Além dele, Roberts (1990, p.375, apud De Haan, 2012, p.12) atribui ao conjunto de categorias que expressam irrealis, o futuro. (150) Sateré-Mawé (Silva, 2010, p.206) u-i-‟ahɨk pote aru a-re-wak 1SG:O-rel-bater PART:COND PART:PTC 1SG:As-rel-chorar “Se bater em mim vou chorar”. (151) Sateré-Mawé (Silva, 2010, p.204) sio ø-to-to pote in aru a-re-to PART:DUB 2SG:As-rel-ir PART:COND PART:HAB PART:PTC 1SG:A-rel-ir “Eu vou se ele for também”. Na língua Tapirapé, por fim, o valor condicional, segundo Praça (2007, p.205), é expresso quando há na construção o verbo sufixado –ãramõ (subjuntivo), e a partícula de modalidade epistêmica de segunda posição ekwe, cujo significado é o de “futuro iminente‟. Esta partícula, de acordo com Praça (2007, p.165), indica que “o falante tem um elevado grau de certeza que o evento/estado projetado em relação ao presente está em via de efetivação imediata”.52 A ocorrência abaixo exemplifica esse uso. (152) Tapirapé (Praça, 2007, p.206) ã-petek ekwe we-petek-ãramõ 1sg.I-bater F.IMI 1sg.III-bater-SUB “Eu baterei nele se ele me bater”. Tapirapé e Pirahã, portanto, associam a marcação condicional à modalidade epistêmica, que, como se sabe, expressa o grau de certeza, evidência ou precisão do falante em relação ao enunciado, qualificando, segundo Nuyts (1993), o estado-de-coisas contido no enunciado em termos de chances de ele ocorrer em algum mundo possível. Há, portanto, uma gradação de valores, que vai do certo ao impossível, passando pelo provável, possível, duvidoso, improvável, etc. Essa gradação fica evidente com os sufixos de grau de certeza, no Pirahã (família Mura). Sendo assim, a recorrência de elementos modais na marcação condicional mostra que há uma relação explícita entre a condicionalidade e a modalidade, assim como há entre modalidade e irrealis. Dentro dessa perspectiva, o irrealis estaria a serviço da modalidade, 52 A partícula ekwe, conforme indica Praça, é empregada para marcar a confiabilidade da informação (Praça, 2007, p.156). 117 configurando-se como uma forma de qualificar o conteúdo da proposição, estabelecendo-o como incerto/não factual. Assim, para expressar uma atitude de dúvida sobre a probabilidade de ocorrência de um evento/situação, os falantes utilizam uma construção condicional. Para concluir, pode-se considerar, então, assim como define Bittencourt (2012, p.76) em trabalho sobre a relação entre condicionais e modalidade, que “(...)o uso das construções gramaticais condicionais é um excelente dispositivo linguístico para o falante expressar seu julgamento e avaliação sobre um fato qualquer, conforme a visão funcionalista de Givón. Isso porque ambas as orações do período hipotético são não factuais (também chamadas de irrealis). A oração condicional, em função da presença da conjunção “se” (ou outra semelhantemente condicional) , e a principal, por depender da satisfação da condição imposta pela subordinada condicional, para que se realize”. Como observado até aqui, as línguas indígenas brasileiras, ao expressarem o valor condicional, principalmente de maneira composicional, estabelecem relações com outras categorias. Os elementos envolvidos na expressão condicional, portanto, parecem ter, isoladamente, um significado central, mas, quando associados, funcionam em conjunto para veicular o valor condicional na sentença. Além da associação com a modalidade e o irrealis, outras combinações relevantes serão expostas a partir do tópico abaixo. 4.2.4 OUTRAS COMBINAÇÕES 4.2.4.1 Marcadores de potencialidade Como observado no tópico anterior, é comum, também, que a marcação condicional envolva verbos potenciais, com o sufixo de potencialidade. Isso ocorre no Ye‟pâ-masa (exemplo 152, acima), e também em outras línguas tais como o Tariana, Kwaza, Karajá e Mawé, como marcado no quadro abaixo. Quadro 12: Línguascom marcação condicional por morfemas potenciais. Família Língua Marcadores potenciais Forma de expressão do marcador potencial Marcador ARAWÁK Apurinã Paresi (Haliti) Tariana Afixos (clítico condicional + não-passado) 53 –bohta Wapixana Waurá 53 De acordo com Aikhenvald (2003, p.5), a junção co clítico condicional ao marcador de não-passado leva a um significado potencial. 118 KARIB Ikpéng Macushi PANO Kaxinawá Matses Shanenawa Shawã TUKANO Ye‟pâ-masa Verbo dependente potencial boo ARAWÁ Jamamadi Jarawara MAKÚ Dâw Hupda NAMBIKWARA Mamaindê TXAPAKÚRA Oro Waram YANOMÁMI Sanoma GUAIKURÚ Kadiweu MURA Pirahã JÊ (Macro-Jê) Kaingáng Krahô Panará Tapayuna Xerente Xikrín KARAJÁ (Macro-Jê) Karajá Verbo potencial =kɛ ARIKEM (Tupi) Karitiana JURUNA (Tupi) Juruna MAWÉ (Tupi) Sateré-Mawé Partícula (futuro potencial) aru MUNDURUKÚ (Tupi) Mundurukú TUPI-GUARANI (Tupi) Asuriní do Xingú Araweté Guajá Kaiowá Kamaiurá Karipúna Tapirapé ISOLADAS Kanoê Kwaza Sufixo potencial –tsy Trumai No Tariana, o significado potencial do marcador –bohta, instaura uma possibilidade de concretização de uma hipótese/condição, como indica Aikhenvald (2003, p.5). 119 (153) Tariana (Aikhenvald, 2003, p.391) pa:pe nu-ni-ka nhua nuhpani-nipe maybe 1sg-do-SUB I 1sg+work-NOM nu-keta-bohta nhua 1sg-encounter-POT.NON.PAST I “Maybe I could encounter work”. “Talvez eu possa encontrar trabalho”. No Ye‟pâ-masa, da família Tukano, um verbo potencial, boo, ocorre na construção condicional, expressando, conforme Ramirez (1997, p.140) “a modalidade da possibilidade”, podendo ser traduzido por “possivelmente”. Na mesma construção ainda aparecem sufixos de evidencialidade e de tempo: (154) Ye‟pâ-masa (Ramirez, 1997, p.141) /b sâ ba‟â-sehé kɨó-dã‟ ba‟â+boo-a-pã / vocês comida ter-impl.ms comer+potencial-p.rec.ded “Vocês comeriam se tivessem comida”. Na língua Karajá, pertencente à família Karajá, tronco Macro-Jê, o valor condicional contrafactual é expresso por meio de uma posposição adicionada a verbos potenciais. O sufixo potencial, ainda, aparece tanto na subordinada, quanto na principal. (155) Karajá (Ribeiro, 2012, p.247) dʒiarə a-hãbu=kɛ=kɪ a-r-a-d -də -õ-dɨhɨ=kɛ I 2-man=POT=LOC 1-CTFG-2-send-VERB-NEG-strong=POT “If I were your husband, I wouldn‟t boss you around”. “Se eu fosse seu marido, não mandaria em você”. Na língua Sateré-Mawé, da família Mawé, Silva (2010, p.204) encontra a partícula modal pote, que pode aparecer na construção condicional acompanhada da partícula de futuro potencial aru. (156) Sateré-Mawé (Silva, 2010, p.206) u-i-‟ahɨk pote aru a-re-wak 1SG:O-rel-bater PART:COND PART:PTC 1SG:As-rel-chorar “Se bater em mim vou chorar”. No Kwaza, língua isolada, por fim, a condicionalidade pode ser expressa pela ocorrência de um sufixo condicional, no final da subordinada, mais o verbo da principal acrescido do sufixo potencial –tsy, que aparece, majoritariamente “em verbos de oração 120 matriz quando uma oração subordinada contém um morfema futuro ou um sentido futuro”, ou seja, situações irrealis. (Van der Voort, 2014, p.607). (157) Kwaza (Van der Voort, 2014, p.629) areta-'he-da-kywy si-dy-h tã'jã e'nãi-tja-ta-tsy-tse know-NEG-1S-COND I-POS-NOM chief quarrel-TRA-1O-POT-DEC “If I don‟t learn, my chief will quarrel with me”. “Se eu não aprender, meu chefe brigará comigo”. Marcadores de potencialidade, portanto, parecem ser recorrentes em construções condicionais, evidenciando o caráter modal desse tipo de construção. 4.2.4.2 Modo Subjuntivo Como discutido anteriormente, ao analisar as formas de expressão do irrealis, De Haan (2012, p.8) observa que o modo mais prototípico para expressar o irrealis é o modo subjuntivo, havendo uma correspondência entre ambos. O subjuntivo, então, pode ser usado para descrever eventos irreais, potenciais ou não realizados, como constata o autor. Em algumas línguas do corpus, particularmente da família Tupi-Guarani, essa relação também foi observada, como marcado na tabela abaixo. Quadro 13: Línguas que marcam condicionalidade por meio do modo subjuntivo. Família Língua Modo Subjuntivo Forma de expressão do subjuntivo Marcador ARAWÁK Apurinã Paresi (Haliti) Tariana Wapixana Waurá KARIB Ikpéng Macushi PANO Kaxinawá Matses Shanenawa Shawã TUKANO Ye‟pâ-masa ARAWÁ Jamamadi Jarawara MAKÚ Dâw Hupda NAMBIKWARA Mamaindê TXAPAKÚRA Oro Waram 121 YANOMÁMI Sanoma GUAIKURÚ Kadiweu MURA Pirahã JÊ (Macro-Jê) Kaingáng Krahô Panará Tapayuna Xerente Xikrín KARAJÁ (Macro-Jê) Karajá ARIKEM (Tupi) Karitiana JURUNA (Tupi) Juruna MAWÉ (Tupi) Sateré-Mawé MUNDURUKÚ (Tupi) Mundurukú TUPI-GUARANI (Tupi) Asuriní do Xingú Sufixo -ram Araweté Partícula ime Guajá Kaiowá Kamaiurá Sufixo –ramu Karipúna Tapirapé Sufixo –ãramõ ISOLADAS Kanoê Kwaza Trumai No Asuriní do Xingú, da família Tupi-Guarani, tronco Tupi, por exemplo, as condicionais contrafactuais podem ser expressas pela associação do sufixo irrealis, adicionada ao verbo da subordinada, juntamente com o sufixo de modo subjuntivo –ram . uma condicional contrafactual pode ser marcada pela coocorrência do sufixo irrealis -ram ou ame, adicionado ao verbo da subordinada, juntamente com o sufixo de modo subjuntivo, - ram .54 (158) Asuriní do Xingú (Pereira, 2009, p.326) amyna rur-ame-am avatxi a-tym chuva cair-Irr-subj milho 1-plantar “Se tivesse chovido eu teria plantado milho”. 54 Sua realização se dá em dois alomorfes: -ramu, após vogal, e -amu após consoante. (Pereira, 2009, p.225) 122 Essa relação também ocorre no Kamaiurá, outra língua da família Tupi-Guarani, na qual as condicionais são marcadas por meio da combinação de uma partícula irrealis a um sufixo de modo subjuntivo. (159) Kamaiurá (Seki, 2000b, p.91) akwama‟e-a=ram je=r -eko-ramu ram pira r-ehe=ram a -há homem -N=Irr 1sg=Rel-Cóp-Subj=Irr peixe Rel-por=Irr 1sg-ir “Se eu fosse homem, iria pescar”. Em mais uma língua da família Tupi-Guarani, o Araweté, é a partícula de modo subjuntivo, ime, exclusivamente, que fica responsável por marcar a relação condicional entre as sentenças, segundo Solano (2009, p.262). (160) Araweté (Solano, 2009, p.263) ɨ-tʃe ime ure ø-tʃe R 2- dormir se 13 R 1 -dormir “Se ele dormir, nós dormimos”. Por último, no Tapirapé, como já visto no exemplo 151, mais acima, a marcação condicional ocorre através da combinação de um verbo sufixado por –ãramõ, que expressa modo subjuntivo, mais a partícula de modalidade epistêmica. Fica constatado, então, que a relação entre condicionalidade, irrealis e subjuntivo é particularmente expressiva nas línguas da família Tupi-Guarani. 4.2.4.3 Frustrativo Marcadores de aspecto frustrativo também parecem contribuir para a marcação condicional. O frustrativo, como se sabe, é usado para expressar eventos com resultados frustrados, o que pode explicar sua maior ocorrência em condicionais que permitem uma leitura contrafactual. Em Apurinã, da família Arawák, Facundes (2000, p.534) identifica o uso do morfema frustrativo –ma, que em combinação com o morfema de futuro não imediato –ko, expressa, segundo o autor, um significado análogo à oração principal de uma condicional contrafactual. Ressalta-se aqui, novamente, o uso de marcadores de futuro para expressar significados associados ao irrealis, como a contrafactualidade. 123 (161) Apurinã (Facundes, 2000, p.535) n-oka-ma-ru-ko ãkiti 1SG-kill-FRUST-3M.O-FUT jaguar “I‟d kill the jaguar but/if...” “Eu mataria a onça mas/se...” No Hupda, da família Makú, uma leitura contrafactual pode ser marcada pela ocorrência do sufixo condicional -ta n na subordinada, mais o sufixo contrafactual –ta ʡ ou – tih, junto ao verbo da principal. Um uso que, segundo Epps (1973, p.611), é „não real‟/irreal. O marcador frustrativo poderá aparecer na oração principal, sinalizando que o resultado pretendido não é realizado. (162) Hupda (Epps, 1973, p.614) h tae h ãh ní-ta n ãh way-d‟o -ta ʡ-ae y - ae bird 1sg be-COND 1sg leave-take-CNTRFCT-DYNM FRUST “If I were a Bird, I would fly”. “Se eu fosse um pássaro, voaria”. Logo, outra consideração que pode ser feita até agora é a de que marcadores tipicamente irreais, ou seja, que expressam significados associados ao domínio irrealis, têm papel significativo no estabelecimento do valor condicional, como pode ser observado com os marcadores de futuro, aspecto frustrativo e modo subjuntivo, confirmando-se uma das hipóteses do presente trabalho. 4.2.5 SOBREPOSIÇÃO DE VALORES CONDICIONAIS E TEMPORAIS Como último aspecto observado na análise, destaca-se a sobreposição dos valores condicionais e temporais. Nesses casos, a noção de condição pode ser expressa pelos mesmos marcadores que expressam a noção temporal. Muitos autores indicam ser esta uma característica recorrente em muitas línguas. No quadro abaixo estão marcadas as línguas que compartilham o mesmo marcador, para uma leitura temporal ou condicional. Quadro 14: Línguas que compartilham o mesmo marcador condicional/temporal. Família Língua Sobreposição Tempo/Condição Forma de expressão Marcador ARAWÁK Apurinã Paresi (Haliti) Tariana Wapixana Conjunção temporal ɖun 124 Waurá KARIB Ikpéng Sufixo temporal/condicional -tup/-rup Macushi Partícula (temporal/condicional) ya PANO Kaxinawá Matses Sufixos temporais -shun /-sho Shanenawa Shawã TUKANO Ye‟pâ-masa ARAWÁ Jamamadi Jarawara MAKÚ Dâw Hupda Sufixo condicional/temporal -ta n NAMBIKWARA Mamaindê TXAPAKÚRA Oro Waram YANOMÁMI Sanoma GUAIKURÚ Kadiweu MURA Pirahã JÊ (Macro-Jê) Kaingáng Krahô Panará Tapayuna Xerente Xikrín KARAJÁ (Macro-Jê) Karajá ARIKEM (Tupi) Karitiana JURUNA (Tupi) Juruna Conjunção temporal/condicional káde / táde MAWÉ (Tupi) Sateré-Mawé MUNDURUKÚ (Tupi) Mundurukú Conjunção condicional/temporal pi³ma² TUPI- GUARANI (Tupi) Asuriní do Xingú Sufixo condicional/temporal -ram Araweté Guajá Kaiowá Kamaiurá Sufixo de modo subjuntivo –ramu Karipúna Tapirapé ISOLADAS Kanoê Kwaza Trumai Sufixo temporal/condicional –is/-es 125 No Wapixana, da família Arawák, assim como no Juruna, língua Tupi pertencente a família Juruna, uma conjunção temporal pode expressar a noção de condição – as adverbiais temporais e condicionais, nessa língua, compartilham do mesmo marcador. (163) Wapixana (Santos, 2006, p.249) pɨ-naʡak-a-n ɖun kanɨʐ, u᷈-tum paracari 2-levar-EP-MI TEMP mandioca 1-fazer caxiri “quando (se) você levar mandioca, eu faço caixiri” (164) Juruna (Fargetti, 2001, p.252) u=mená w-a táde na ha 1s=marido voltar-neg conj. 1s preocupada “Se meu marido não voltar, eu ficarei preocupada”. No Ikpéng, da família Karib, de acordo com Pachêco (2001, p.211), as orações temporais e condicionais também apresentam a mesma morfologia, o sufixo –tup/-rup. (165) Ikpéng (Pachêco, 2001, p.211) m-akpɨlɨ-rup y-anore-t 2A3O-molhar-COND 3So-crescer-NPAS “Se você molhar (essa planta), ela vai crescer”. Na língua Macushi, também da família Karib, Abbott (1985) identifica uma partícula temporal –ya, que, segundo ela, quando no final da oração subordinada, pode ter, além da interpretação temporal (quando), uma interpretação condicional (se). (166) Macushi (Abbott, 1985, p.6) i-wî-sa-uˈ-ya pra a-wanî ya, miarî rî u-wî-i-ya 3-kill-CMPL-1-ERG NEG 3-be if, there EMP 1-kill-3-ERG “If I don‟t kill him, he will kill me there right there”. “Se eu não o matar, ele vai me matar ali mesmo”. No Hupda, da família Makú, há um sufixo verbal identificado por Epps (1973, p.609), que também pode fazer com que a leitura seja temporal. (167) Hupda (Epps, 1973, p.611) nɨ-n h-ɨ᷈ y b g j‟a᷈ h b‟ y ãh cúh-ta n-ae ᷈ h this-be.like-DYNM HAB DST.CNTR traira 1sg string-COND-DECL “I Always do like this if I string traira fish”. “Eu sempre faço assim se/quando eu firo o peixe traira”. 126 Também no Mundurukú, outra língua Tupi, da família Mundurukú, há uma conjunção, pi³ma², que, segundo Gomes (2006, p.164) é de natureza temporal, usada também com valor condicional. (168) Mundurukú (Crofts, 1973) mɨ3ba2‟at2 ‟ m 2 pi³ma² bit 3 ka³jɨk² bi2o3 o‟3ya2o2ka3 ip2 // chuva não se (enf.) -riam anta ele-a-matou eles Base 1 C2 Base 2 “Se não tivesse chovido, teriam matado a anta”. No Matses, da família Pano, de acordo com Fleck (2003, p.1121), a interpretação condicional é um significado secundário implícito dos sufixos temporais when (quando), while (enquanto) e after (depois). (169) Matses (Fleck, 2003, p.1124) onque-ac-no nid-shun mimbi tantia-tsia-c talk-Act.Nzr-Loc go-after:S/A>A 2Erg understand-Npast:Cond-1/2 “If you had gone to the meeting, you would know”. “Se você tivesse ido à reunião, você saberia”. (170) Matses (Fleck, 2003, p.1123) debi cho-em-quio ic-sho chushca-tsen-o-mbi Davy come-Neg-Aug Aux-when:S/A/O>O reprimand-almost-Past-1A “If Davy hadn‟t come, I would have yelled at him”. “Se Davy não tivesse vindo, eu teria gritado com ele”. No Asuriní do Xingú, língua da família Tupi-Guarani, também do tronco Tupi, segundo, Pereira (2009, p.321) o morfema –ram é responsável por marcar a relação condicional entre duas sentenças. Conforme a autora, ainda, esse morfema também pode expressar relação de causa, de tempo e de explicação, sendo que é o contexto que “auxilia para que o falante compreenda que o que está sendo dito tem valor causal, temporal, explicativo ou condicional”. (171) Asuriní do Xingú (Pereira, 2009, p.322) kunum avyki-rame i-„y dje-mumy‟a menino apanhar-Cond 3-mãe refl-envergonhar-se “Se o menino apanha, sua mãe fica envergonhada”. 127 Na língua Kamaiurá, família Tupi-Guarani, tanto as orações adverbiais temporais, como as condicionais, podem ser marcadas com o sufixo de modo subjuntivo -ramu , como observado por Seki (2000b, p.194). 55 (172) Kamaiurá (Seki, 2000b, p.194) Ij-u‟u -ramu =ram wararuwijaw-a o-juka 3-morder -Subj=Irr cachorro-N 3-matar “Se ele o mordesse, ele mataria o cachorro”. Por último, no Trumai, língua isolada, tanto as orações subordinadas temporais quanto as condicionais são marcadas pelos sufixos –is/-es. (173) Trumai (Guirardello, 199, p.394) [wa-pata tak iyi-n-es] ha makdits hat‟ke WA-arrive Neg IYI-3Abs-ES 1 sad in.future “If he does not arrive, I will be sad”. “Se ele não chegar, vou ficar triste”. Como explicação para a sobreposição do valor condicional e temporal, o presente trabalho adota a constatação de Givón (2001, p.332), segundo o qual a diferença entre as condicionais e temporais tem relação com a expectativa epistêmica concernente ao valor de verdade da proposição, que é mais baixo nas condicionais e mais alto para as temporais (Givón, 2001, p.332, apud Santos, 2006, p.250). A análise até aqui elaborada, portanto, levantou alguns padrões de marcação que são mais frequentes nas línguas da amostra, para a expressão condicional, que como observado, é bastante diversa, e pode ocorrer de forma direta ou composicional. Assim, foi possível observar algumas semelhanças entre as línguas no que diz respeito à condicionalidade, sendo sua relação com a modalidade e o irrealis as constatações mais significativas. A próxima seção sistematiza esses dados. 55 O modo subjuntivo, como demonstrado por Marques (2001) e Thompson et al (2008)., pode expressar uma hipótese (o que poderia acontecer) ou contrafactualidade (o que não poderia ocorrer). Como observado por Margarido (2016, p.92), embora o subjuntivo indique, geralmente, “algo que não tem mais chance de ocorrer, ou seja, uma possibilidade já anulada, essa possibilidade pode não estar completamente anulada”. 128 4.2.6 RECORRÊNCIAS TIPOLÓGICAS Após a observação da forma de expressão condicional nas línguas, chegou-se a algumas recorrências tipológicas que vão ao encontro das considerações de Van linden e Verstraete (2008) expressas na seção 2.3.2. De modo geral, ficou claro que não há um marcador exclusivo da condicionalidade, na maior parte das línguas. A combinação de elementos pertencentes a outras categorias parece ser a estratégia mais comum adotada pelas línguas, para expressar o valor condicional nas sentenças, de modo que os seguintes padrões foram observados, primeiro, quanto à marcação combinada: I. Quando a combinação envolve um marcador irrealis ou condicional: a) Irrealis e/ou condicional se combinarão a algum marcador de potencialidade/modalidade. Quadro 15: Recorrências tipológicas - combinação de irrealis e/ou condicional com elementos modais. Expressão Combinação com potencialidade/modalidade Língua/família em que ocorre Afixos Sufixo de modalidade hipotética + sufixo irrealis Jarawara/Arawá Sufixo de modo condicional + sufixo de modalidade epistêmica Pirahã/Mura Sufixo condicional + sufixo potencial Kwasa/Isolada Partículas Modo irrealis + expressão hipotética Krahô/Jê (Macro-Jê) Condicional + modalidade alética Xerente/Jê (Macro-Jê) Conjunção + partícula Conjunção condicional + partícula de modo irrealis + partícula de modo possibilitativo Oro Waram/Txapakúra b) Condicional, ou irrealis, ou ambos se combinarão com um marcador de tempo: Quadro 16: Recorrências tipológicas - combinação de irrealis e/ou condicional com marcador temporal. Expressão Combinação com tempo Língua/família em que ocorre Afixos Clítico condicional + passado/não passado Tariana/Arawák Sufixo temporal + sufixo de modo condicional Matses/Pano 129 Condicional + sufixo irrealis + sufixo passado ou presente Mamaindê/Nambikwara Partículas + Afixos Partícula subordinadora + sufixos irrealis + sufixo passado Jarawara/Arawá Afixo subordinador condicional + partículas de passado e condicional Karipúna/Tupi-Guarani (Tupi) Afixo subordinador condicional + partículas de presente e futuro Karipúna/Tupi-Guarani (Tupi) Afixo + Advérbio Sufixo condicional + advérbio de tempo/futuro Trumai/Isolada c) Haverá combinação entre irrealis e condicional: Quadro 17: Recorrências tipológicas - combinação de marcador irrealis com condicional. Expressão Combinação irrealis + condicional Língua/família em que ocorre Afixos Sufixo condicional + sufixo de modo cosubordinativo + sufixo irrealis Kwaza/Isolada Partículas Condicional + modo irrealis Xerente/Jê (Macro-Jê) d) Haverá combinação entre o marcador condicional/irrealis e outro de categorias associadas ao domínio irrealis: Quadro 18: Recorrências tipológicas – combinação de marcador condicional/irrealis a outras categorias do domínio irrealis. Expressão Combinação com categoria(s) associada ao domínio irrealis Língua/família em que ocorre Afixos Sufixo de tema condicional + sufixo contrafactual Jamamadi/Arawá Sufixo condicional + clítico verbal contrafactual Sanoma/Yanomámi Sufixo condicional + sufixo contrafactual + sufixo frustrativo Hupda/Makú Sufixo irrealis + sufixo de modo subjuntivo Asuriní do Xingu/Tupi- Guarani (Tupi) Partículas + Afixos Partícula irrealis + sufixo de modo subjuntivo Kamaiurá/Tupi-Guarani (Tupi) 130 Conjunção + afixo Conjunção condicional + aspecto/„condicional incompleto‟ Mundurukú/Mundurukú (Tupi) II. Quando a marcação condicional envolve apenas elementos de categorias associadas ao domínio irrealis: a) Poderá haver combinação com tempo: Quadro 19: Recorrências tipológicas: combinação entre categorias associados ao irrealis, e tempo. Expressão Combinação Língua/família em que ocorre Afixos Frustrativo + futuro Apurinã/Arawák Implicativo + potencial + sufixos de evidencialidade + passado ou presente Ye‟pâ-masa/Tukano Partículas Partícula modal + futuro Sateré-Mawé/Mawé (Tupi) Futuro hipotético/condicional + passado Kaiowá/Tupi-Guarani (Tupi) Partículas + Afixos Sufixo de modo subjuntivo + partícula de futuro Kamaiurá/Tupi-Guarani (Tupi) b) Poderá haver combinação de dois elementos de categorias associadas ao domínio irrealis: Quadro 20: Recorrências tipológicas – combinação entre duas categorias associadas ao domínio irrealis. Expressão Combinação Língua/família em que ocorre Partículas + afixos Partícula de modalidade epistêmica + sufixo de modo subjuntivo Tapirapé/Tupi-Guarani (Tupi) Partícula temporal/condicional + verbo auxiliar nominalizado Macushi/Karib Em relação à marcação direta, feita por um marcador exclusivo para a condicionalidade, as línguas que o apresentam foram listadas abaixo, em uma relação que especifica a categoria a qual pertence o elemento responsável pela marcação: 131 Quadro 21: Marcação direta/por categorias. Língua/Família Irrealis Condicional Modalidade Contraf. Modo Subj. Foco Tempo Paresi/Arawák Waurá/ Arawák Macushi/Karib Ikpéng/Karib Kaxinawá/Pano Shawã/Pano Hupda/Makú Kadiwéu/Guaikurú Kaingáng/Jê (Macro-Jê) Krahô/Jê (Macro-Jê) Tapayuna/Jê (Macro-Jê) Xikrín/Jê (Macro-Jê) Karitiana/Arikem (Tupi) Araweté/Tupi-Guarani (Tupi) Kaiowá/Tupi-Guarani (Tupi) Asuriní do Xingu/Tupi- Guarani (Tupi) Trumai/Isolada A marcação direta da condicionalidade também ocorre, como visto por meio de conjunções: Quadro 22: Línguas que marcam condicionalidade de maneira direta, por conjunção. Língua/Família Conjunção Wapixana/Arawák Conjunção temporal Dãw/Makú Conjunção condicional Panará/Jê (Macro-Jê) Conjunção condicional Juruna/Juruna (Tupi) Conjunção temporal/condicional Kanoê/Isolada Conjunção condicional A partir dos quadros expostos acima, mais alguns apontamento importantes, sobre semelhanças entre algumas famílias, são: 132 I. Família Karib: as línguas da família Karib que constam no corpus, Macushi e Ikpéng, marcam a condicionalidade da mesma forma, respectivamente, a partir de uma partícula adicionado ao final da oração subordinada, e de um sufixo adicionada ao verbo da oração principal; II. Família Jê (Macro-Jê): de seis línguas pertencentes ao corpus, duas marcam a condicionalidade através de uma partícula de modo irrealis, o Tapayuna e o Xikrín. Também da família Jê, o Kaingáng marca o valor condicional através de uma partícula modal, exclusivamente destinada a essa função. Ao se considerar também a marcação combinada, notou-se, a partir do quadro 15, que outras duas línguas dessa família, do corpus, também têm elementos modais envolvidos na expressão condicional, o Krahô e o Xerente. Então, essa família, majoritariamente, recorre a elementos modais na expressão da condicionalidade; III. Família Tupi-Guarani (Tupi): o Araweté marca a condicionalidade, de forma direta, por meio de uma partícula de modo subjuntivo. Essa categoria está envolvida na marcação condicional, feita por combinação, de outras quatro línguas dessa família, o Asuriní do Xingu e Kamaiurá, que como visto no quadro 18, expressam o valor condicional por uma combinação de um marcador irrealis mais modo subjuntivo, o Kamaiurá (vide quadro 19), a partir da combinatória de uma partícula irrealis mais modo subjuntivo ou sufixo de modo subjuntivo mais partícula temporal que expressa futuro, e por fim, o Tapirapé (vide quadro 20), língua que expressa condicionalidade pela junção de uma partícula de modalidade epistêmica mais afixo de modo subjuntivo. Conclui-se então, que, nessa família, a categoria de modo subjuntivo é proeminente para a expressão da condicionalidade, aparecendo em cinco das sete línguas do corpus. IV. Família Pano: as línguas dessa família marcam o valor condicional de forma diversa, mas, das quatro línguas do corpus, duas o fazem utilizando um sufixo de modo condicional, o Shawã, de forma direta, e o Matses, como observado no quadro 16. Feitas as principais ponderações sobre a análise dos dados, parte-se agora para as considerações finais do trabalho. 133 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS A análise da expressão da condicionalidade nas línguas permitiu que se confirmassem algumas hipóteses deste trabalho. Em primeiro lugar, ao se fazer o levantamento das possibilidades de expressão condicional nas línguas, ficou constatado que esse valor pode ser expresso de maneira direta ou composicional, esta última sendo majoritária, por meio de afixos, partículas e conjunções. Esta consideração está de acordo com o trabalho de Van linden e Verstraetete (2008), sobre os padrões de marcação condicional. Observou-se a grande diversidade de categorias que estão envolvidas na expressão condicional, dentre elas destaca-se a relação direta com o irrealis, em línguas que distinguem realis x irrealis, e com a modalidade. Nesta forma de marcação combinada ou multifatorial, em muitas línguas é comum que haja um elemento atuando como conector/morfema subordinador, restringindo a semântica da oração adverbial à expressão da condição, e outros, pertencentes a categorias diversas, para especificação desse sentido (contrafactual, potencial ou factual). Estes últimos, ainda, sempre são de categorias que estão dentro do domínio irrealis. Quanto à relação com a modalidade, essa parece ser proeminente quando aparecem na construção um marcador irrealis ou condicional, como mostraram os dados do quadro 15. Logo, há uma relação explícita entre a condicionalidade e a modalidade, assim como há entre a modalidade e o irrealis, em uma perspectiva na qual o este último pode ser considerado como estando a serviço da modalidade, ao se configurar como uma das formas de o falante qualificar o conteúdo da proposição, estabelecendo-o como incerto/não factual. O estudo de Van linden e Verstraete (2008) sugeriu também algo semelhante, ao considerar que, em combinação, para a marcação da contrafactualidade, aqui considerada como um dos tipos de condicionalidade, sempre há um elemento que pode ser considerado modal, que seria, também de acordo com Pietrandrea (2012), a “não exclusão da factualidade”. Ainda, os morfemas cujos significados estão associados ao irrealis, tais como alguns dos elencados por Plungian (2005) no quadro 2, discutidos na seção 2.3.1 - o modo subjuntivo (De Haan, 2012; Palmer, 2001; Gívon, 1994), aspecto frustrativo, contrafactualidade (Mithun, 1995) e tempo passado e futuro (De Haan, 2012), parecem exercer papel significativo na marcação condicional, o que também foi uma hipótese deste trabalho, a partir das leituras realizadas sobre o Irrealis e sua relação com a condicionalidade, expostas na seção 2.3.1. Os quadros de números 16, 18, 19 e 20 mostraram as recorrências observadas 134 quanto ao papel dessas categorias na expressão condicional. Elas podem aparecer em combinação com um marcador irrealis e/ou condicional, ou combinadas entre sí. Em relação à contribuição da marcação de tempo (passado/não passado) para a distinção dos sentidos condicionais de contrafactualidade e potencialidade, propôs-se, assim como Plungian (2005), uma escala de irrealidade, considerando as contrafactuais como mais representativas do irrealis, por estarem mais diretamente ligadas a situações não realizadas, assim como proposto pelos estudos abordados no capítulo de fundamentação teórica. Parece haver, então, uma conexão entre eventos passados e eventos irreais/não-factuais, isso porque, como afirma Steele, “o evento descrito na frase é, em ambos os casos, removido da realidade presente”, fato que ocorre em uma construção condicional. Por fim, outra constatação foi a possibilidade de haver sobreposição de valores, sendo o mais recorrente o compartilhamento de elementos formais para expressar a condicionalidade e a temporalidade, fato que também está associado à modalização, uma vez que a certeza epistêmica das sentenças determina a leitura condicional ou temporal, sendo mais baixa para as condicionais e mais alta para as temporais, assim como especificado por Givón (2001). A partir dessas considerações, foi possível observar certas semelhanças, quanto ao modo de expressar a condicionalidade, entre línguas pertencentes à mesma família, mas, mais do que isso, constatou-se que línguas pertencentes ao mesmo tronco ou família linguística, apesar de expressarem o valor condicional de formas distintas, ainda assim utilizam os mesmos recursos para fazê-lo (mesmos tipos de marcadores, das mesmas categorias). De maneira geral, considera-se que o presente trabalho forneceu uma visualização mais abrangente de como é expressa a condicionalidade em línguas indígenas brasileiras. No entanto, a consideração final é a de que esta pesquisa forneceu algumas semelhanças e diferenciações tipológicas importantes sobre a marcação da condicionalidade em línguas indígenas brasileiras, trabalho que ainda não havia sido realizado até então, o que ressalta sua pertinência para o campo da Linguística em geral e principalmente para a Linguística Indígena Brasileira. 135 6 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ABOOTT, M. Subordinate clauses in Macushi. Brasília: Summer Institute of Linguistics, 1985. AIKHENVALD, A.. A grammar of Tariana. Cambridge: Cambridge University Press, 2003. APONTES, S. A.. Descrição gramatical do oro waram, variante wari‟ norte (Pakaa Nova, Txapakura): fonologia, morfologia e sintaxe. 2015. 303 f. 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