Universidade Federal de São Carlos Centro de Educação em Ciências Humanas Departamento de Letras Rede Conceitual da Literatura Digital Brasileira Gabriela Goulart Gritti São Carlos 2023 GABRIELA GOULART GRITTI REDE CONCEITUAL DA LITERATURA DIGITAL BRASILEIRA Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Departamento de Letras da Universidade Federal de São Carlos, Câmpus de São Carlos, como parte dos requisitos para aprovação na disciplina “Trabalho de Conclusão de Curso 2” e obtenção de título de Graduada em Licenciatura Plena em Letras Português e Inglês. Orientadora: Profa. Dra. Rejane Cristina Rocha São Carlos 2023 1 2 Gabriela Goulart Gritti REDE CONCEITUAL DA LITERATURA DIGITAL BRASILEIRA Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Departamento de Letras da Universidade Federal de São Carlos, Câmpus de São Carlos, como parte dos requisitos para aprovação na disciplina “Trabalho de Conclusão de Curso 2” e obtenção de título de Graduada em Licenciatura Plena em Letras Português e Inglês. Orientadora: Profa. Dra. Rejane Cristina Rocha Data da defesa: 09/março/2023 Membros componentes da banca examinadora: ___________________________________________________________________________ Presidente e Orientadora: Profa. Dra. Rejane Cristina Rocha Universidade Federal de São Carlos ___________________________________________________________________________ Membro titular: Profa. Dra. Amanda Rafaela Gomes Martins Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais Local: Universidade Federal de São Carlos Departamento de Letras 3 Dedicatória À Leonice Goulart Lotte, minha avó, primeira aluna e maior incentivadora que já tive, o seu amor pela educação é a minha motivação diária para seguir no caminho da licenciatura. 4 Agradecimentos Primeiramente agradeço à minha professora e orientadora, Rejane Cristina Rocha, por toda dedicação, auxílio, paciência, e principalmente, por confiar em mim quando eu não acreditava que seria possível. Seus ensinamentos e conselhos foram essenciais para a produção das pesquisas de Iniciação Científica e Trabalho de Conclusão de Curso que realizamos juntas. Meus sinceros agradecimentos a todos os integrantes do Grupo de Pesquisa “Observatório da Literatura Digital Brasileira”, que trouxeram discussões pertinentes e relevantes para o desenvolvimento deste trabalho e sempre se mostraram disponíveis para me auxiliar em momentos de dificuldade. Agradeço à Natália Cristina Estevão que forneceu auxílio para a construção deste trabalho desde o início, participando das decisões, discussões e proporcionou sugestões pertinentes para a melhoria desta pesquisa. Agradeço à minha mãe Dulcelina, e ao meu pai, Edson, por todo o apoio que me deram desde o início da minha graduação até o momento presente. Vocês me ensinaram a ser uma mulher independente e sempre acreditaram que eu poderia ir mais longe do que eu imaginava. Agradeço à minha namorada Brenda, por me incentivar a adentrar no caminho da pesquisa, e por sempre estar ao meu lado, apoiando minhas escolhas e foi suporte nos momentos de dificuldades. Sou eternamente grata pelo caminho de companheirismo, amor e dedicação mútua que trilhamos juntas. Agradeço às minha avós, Leonice e Maria, principalmente por me incentivarem a entrar no mundo da educação e por serem as pessoas que mais se orgulham deste caminho por mim escolhido. Agradeço à minha tia Michelle, por ser minha conselheira, amiga e por estar presente nos momentos mais importantes da minha vida, incluindo minha trajetória na graduação. Agradeço às minhas amigas de graduação, Andresa, Carla, Giovanna e Gabrieli. Juntas, compartilhamos conselhos e criamos uma rede de apoio que foi fundamental para o desenvolvimento desta pesquisa. 5 “Se a atenção ao sensível convém perfeitamente quando se aplica ao texto, leva a deixar escapar o essencial quando se refere ao mundo social no qual ele é produzido” Pierre Bourdieu, 1996, p.14 6 Resumo GRITTI, Gabriela Goulart. Rede conceitual da literatura digital brasileira. Monografia (Graduação em Letras) - Universidade Federal de São Carlos, 2022. Esta pesquisa teve como objetivo ampliar as reflexões desenvolvidas na pesquisa de Iniciação Científica realizada entre agosto de 2019 e outubro de 2020, financiada, em parte, pelo CNPq e intitulada Literatura Digital Brasileira: Cartografia da Produção Crítica. Desse modo, foi proposta a realização da construção de uma Rede Conceitual da Literatura Digital Brasileira, a partir de dados (gráficos, tabelas e análises) obtidos no mapeamento de textos críticos (artigos e ensaios publicados em periódicos científicos brasileiros) sobre a literatura digital brasileira, realizada ao longo da primeira pesquisa. Mediante o desenvolvimento deste projeto, foi realizada uma reflexão a respeito da gênese teórica e do percurso crítico de terminologias que a crítica literária tem utilizado para definir e analisar a emergente produção literária digital brasileira, são elas: literatura digital, literatura eletrônica e ciberliteratura. Tal esforço justifica-se pelo fato de que a metalinguagem teórico-crítica sobre a literatura digital não se encontra consolidada e, no caso brasileiro, são insuficientes as reflexões que partem das suas especificidades. Para a realização deste estudo, buscamos amparo na teoria metodológica discutida pelo pesquisador da Universidade de Stanford, Franco Moretti, que em seu livro A literatura vista de longe (2008) expõe um método intitulado distant reading (leitura distante), o qual propõe uma análise da literatura por meio da investigação de gráficos, mapas e árvores. Esta pesquisa faz parte das discussões desenvolvidas pelo Grupo de Pesquisa (CNPq) “Observatório da Literatura Digital Brasileira”. Palavras-chave: Literatura digital brasileira; Rede conceitual; Teoria e crítica da Literatura Digital; 7 Abstract This research aims at increasing the reflections developed during the Scientific Initiation produced between August 2019 and October 2020, financed, partially, by CNPq and entitled Literatura Digital Brasileira: Cartografia da Produção Crítica. This way, it was proposed the construction of a Conceptual Network of Brazilian Digital Literature based on data (graphic, tables and analisis) achieved through the mapping results of critical writings (articles and essays published in scientific brazilian journals), carried out throughout the first research. It has been made, through the project development, a reflection on the theoretical genesis and on a reflexive path of terminologies which have been presented in the literature to define and analyze emerging brazilian literary digital production, which are: digital literature, electronic literature and cyberliterature. The effort is justified by the non-consolidated theoretical and critical metalanguage on digital literature, meanwhile, in the brazilian scenario, the reflections brought by its specificities are insufficient. We based our efforts on an academic researcher from the University of Stanford Franco Moretti’s methodological theory presented in his book A literatura vista de longe (2008), in which he suggests the distant reading method in order to analyze literature through graphic, maps and trees investigation. This research is a part of the discussions developed by the research group (CNPq) “Observatório da Literatura Digital Brasileira”. Keywords: Brazilian digital literature; Conceptual network; Theory and criticism of digital literature. 8 Lista de Figuras Figura 1: Gráfico de recorte dos conceitos mais frequentes………………………………...15 Figura 2: Captura de tela do Nvivo - Autores mais referenciados - Parte 1………………...20 Figura 3: Captura de tela do Nvivo - Autores mais referenciados - Parte 2………………...21 Figura 4: Captura de tela Nvivo - Exemplo Katherine Hayles……………………………...21 Figura 5: Captura de tela da Electronic Literature Collection………………………………27 Figura 6: Captura de tela da linha do tempo da terminologia literatura eletrônica………...32 Figura 7: Captura de tela da linha do tempo da terminologia literatura digital…………….47 Figura 8: Captura de tela da linha do tempo da terminologia ciberliteratura………………56 9 Lista de Tabelas Tabela 1: Textos mapeados pela pesquisa anterior…………………………………………..12 Tabela 2: Textos que utilizam uma ou mais das três terminologias estudadas………………19 Tabela 3: Textos que mais aparecem nas referências bibliográficas dos 12 artigos e ensaios………………………………………………………………………………………..21 Tabela 4: Artigos e livros que não aparecem com tanta frequência nas referências bibliográficas dos 12 artigos mapeados, mas que utilizam pelo menos uma das três terminologias…………………………………………………………………………………35 10 Sumário 1. Introdução 12 2. Metodologia Inicial: Uso do Nvivo 17 1.2 Levantamento das referências bibliográficas: 20 Parte II - Estudo da terminologia literatura eletrônica 24 1. Sobre o uso desta terminologia 24 2. ELO - Electronic Literature Organization 26 3. Outras referências 28 Parte III - Estudo da terminologia literatura digital 33 1. Sobre o uso desta terminologia 33 2. Processo metodológico do estudo da terminologia literatura digital 35 3. Produções de Marcelo Spalding 36 3.1 Movimento Literatura Digital 37 3.2 Outras referências da América Latina 38 5. Digital ou eletrônica? 44 Parte IV - Estudo da terminologia ciberliteratura 48 1. Sobre o uso desta terminologia 48 2. Metodologia de estudo da terminologia ciberliteratura 49 3. Análise dos textos lidos 49 3.1 Para compreender a ciberliteratura - Lucia Santaella 51 4. Cibercultura, Ciberespaço e Cibernética 53 4.1 Persistência do termo 56 5. Considerações finais - Desenvolvimento tecnológico e processo de institucionalização 57 REFERÊNCIAS 60 ANEXOS: 65 11 1. Introdução A presente pesquisa surgiu com o intuito de ampliar as reflexões desenvolvidas pela Iniciação Científica Literatura Digital Brasileira: Cartografia da Produção Crítica (CNPq)1 realizada entre agosto de 2019 e outubro de 2020. O referido estudo teve como objetivo mapear e propor uma reflexão referente à produção crítica (artigos e ensaios publicados em periódicos científicos nacionais de acesso aberto e de autoria de pesquisadores brasileiros). Sendo assim, foram mapeados 22 artigos e ensaios que realizam discussões sobre 34 obras digitais brasileiras . A partir da leitura e análise do referencial teórico que estes textos2 mobilizam, tornou-se possível conhecer melhor o campo, ainda emergente, da literatura digital brasileira e identificar dados relevantes que serviram de substrato para a produção deste estudo que ora se apresenta. Abaixo é possível observar a tabela com o título de identificação dos textos encontrados, bem como os dados gerais desses artigos e ensaios: Tabela 1: Textos mapeados pela pesquisa anterior Identificação Título e autor(es) do texto: Ano de publicação e periódico Texto 1 O poema como um diagrama aberto: a poesia gráfico-digital de André Vallias - Maíra Borges Wiese. 2013 - Texto Digital (UFSC). Texto 2 O livro transmídia Poemas de Brinquedo, de Álvaro Andrade Garcia - Carmélia Daniel dos Santos e Wagner José Moreira. 2019 - Revista Textura (ULBRA). Texto 3 Tendências vanguardistas: a literatura eletrônica e o jovem leitor imersivo - Analice de Oliveira Martins e Penha Élida Ghiotto Tuão Ramos. 2014 - Via Atlântica (USP). Texto 4 O enunciatário em poesias digitais - Regina Souza Gomes. 2015 - CASA - Cadernos de Semiótica Aplicada (UNESP). Texto 5 Subsídios para estudos sobre transcriação de poesia em ambientes digitais - Giuliano Tosin. 2011 - Revista Texto Digital (UFSC). 2 As obras digitais brasileiras que serviram de referência para o mapeamento dos textos teóricos foram mapeadas de forma coletiva entre os integrantes do grupo que desenvolve o projeto de pesquisa “Observatório da Literatura Digital Brasileira” (CNPq 405609/2018-3). Tal projeto possui pesquisas a ele vinculadas (iniciações científicas, mestrado e doutorado), e assim como na Iniciação anterior, pretendemos que a atual pesquisa faça parte do repositório, e contribua para as discussões nele apresentadas. 1 Os resultados desta pesquisa podem ser acessados por meio do seguinte link: https://www.observatorioldigital.ufscar.br/projeto/literatura-digital-brasileira-cartografia-da-producao-critica-ga briela-goulart-gritti-graduacao-em-letras-ufscar-execucao-2019-2020-cnpq/ 12 Texto 6 Poesia visual, hipertexto e ciberpoesia - Sérgio Capparelli, Ana Cláudia Gruszynski e Gilberto Kmohan. 2000 - Revista FAMECOS (UFRGS). Texto 7 Literatura digital: análise de ciberpoemas - Celso Leopoldo Pagnan. 2017 - Revista Travessias (Unioeste). Texto 8 Literatura na tela do computador: a coletânea de Literatura Eletrônica de Katherine Hayles e algumas experiências no Brasil - Marcelo Spalding. 2012 - Trajetória Multicursos (UNICNEC). Texto 9 O efeito do suporte e as estratégias leitoras do texto poético na leitura poemática infantil - Diane Blank Bencke e Flávia Brocchetto Ramos. 2009 - Revista Signo (UNISC). Texto 10 Fogo, de Álvaro Andrade Garcia: o livro digital como escritura palimpséstica - Rogério Barbosa da Silva. 2017 - Fronteira Z (CEFET). Texto 11 Literatura: contexto digital, hipercolonialismo e materialidades - Alamir Aquino Corrêa. 2016 - Estudos de Literatura Contemporânea (UnB). Texto 12 Gogoame: Quanto pesa uma palavra? - Pedro Veneroso 2017 - Em Tese (Belas Artes - UFMG). Texto 13 Leituras de um tempo perdido: o leitor fragmentado do mundo virtual - Ana Júlia Poletto e João Claudio Arendt. 2014 - Revista Raído (FACALE). Texto 14 Poesia digital e ensino: o letramento literário em uma perspectiva tecnológica - Guilherme Moés Ribeiro de Sousa e Flaviano Maciel Vieira. 2018 - Revista Signo (UNISC). Texto 15 Palavra & Criação, Palavra & Ação: Livro, leitura e escrita em pauta - Ana Elisa Ribeiro. 2017 - Trem das Letras (CEFET-MG). Texto 16 O uso da transmídia por editoras brasileiras - Camila Augusta Pires Figueiredo. 2018 - Revista Signo (UNISC). Texto 17 Constituição da Tecnoarte: a emergência dos meios digitais e o diálogo com a produção do texto nos meios analógicos - Rogério Barbosa da Silva. 2017 - Revista Texto Digital (UFSC). Texto 18 Materialidades da poética digital: lalangue e a escritura de WIlton Azevedo - Leonardo Goldberg;Wellington Zangari. 2018 - Revista Texto Digital (UFSC). Texto 19 Augusto de Campos: notas sobre poemas digitais do livro Outro (2015) - Francisco Fábio Vieira Marcolino. 2018 - Leia Escola (UFCG). Texto 20 Transposição de Meios, Multiplicação de Sentidos: A Poesia Intermídia de Augusto de Campos - Expedito Ferraz Júnior. 2005 - CASA - Cadernos de Semiótica Aplicada (UNESP). 13 Texto 21 Arnaldo Antunes: O sujeito só entre nomes e bits - Wilberth Claython Ferreira Salgueiro. 2001 - Revista Contexto (UFES). Texto 22 “Monstro esperançoso”: a respeito de Oratório, de André Vallias - Rejane Cristina Rocha. 2016 - Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea (UnB). Fonte: Elaborada pela autora, 2021. Dentre os dados mais importantes gerados por meio da pesquisa anterior, está o gráfico formado a partir dos conceitos, definições e terminologias provenientes da cultura e literatura digital que foram mobilizados nos artigos e ensaios mapeados. Ao visualizarmos os Anexos 1, 2, 3, 4, e 5 é possível observar o referido gráfico e a extensa quantidade de3 conceitos utilizados para realizar discussões que giram em torno da literatura aqui estudada. Tal quantidade torna evidente o fato de que a metalinguagem crítica e teórica acerca da literatura digital ainda não se encontra plenamente estabelecida e estabilizada. Um dos motivos que fundamentam essa instabilidade no campo terminológico se dá pelo fato de que a metalinguagem teórico-crítica consolidada pela teoria literária estabeleceu-se ao longo da cultura impressa. A respeito disso, o crítico literário Paul Zumthor (1993) discute que a difusão da imprensa provocou o surgimento de conceitos que estabilizaram, inclusive, a própria definição de literatura - como, por exemplo, as terminologias de autor, leitor, obra, livro, entre outras (ROCHA, 2016). No entanto, quando nos deparamos com a literatura digital, observamos que apesar de sofrer influência da cultura impressa, ela também provoca o surgimento e reformulação de novos conceitos e objetos de estudo. Isso acontece pois, assim como a história da literatura impressa está ligada ao desenvolvimento da tecnologia do livro, a literatura digital está vinculada ao desenvolvimento da tecnologia digital e ao contexto em que está inserida (HAYLES, 2009). Sendo assim, tendo em vista a longa trajetória da cultura impressa comparada com o recente desenvolvimento da cultura digital, todo o sistema relacionado à produção e estudos que envolvem a literatura digital ainda são emergentes, a despeito da trajetória de autores importantes (que serão citados ao longo deste trabalho), Grupos de pesquisa - tais quais o Observatório da Literatura Digital Brasileira (UFSCar) e periódicos científicos especializados . Desse modo, por meio do gráfico de conceitos mobilizados (Anexos 1, 2, 3,4 4 No Brasil há também o Grupo de Pesquisa que mantém a Revista Texto Digital intitulado NUPILL (Núcleo de Pesquisa em Informática, Linguística e Literatura) que pertence à Universidade Federal de Santa Catarina. 3 Ver páginas 65,66 e 67. 14 4 e 5) e do gráfico abaixo, que exibe um recorte com o termos mais frequentes, esta pesquisa realiza uma reflexão e a construção de uma rede conceitual sobre o percurso e parte da gênese teórica de três terminologias que são utilizadas para conceituar a literatura aqui estudada, sendo elas: literatura digital, literatura eletrônica e ciberliteratura. Mediante essas nomenclaturas, procuramos realizar uma análise sobre a história desses conceitos/terminologias, principais autores e projetos que as mobilizam, de modo a compreender o que as faz serem utilizadas no contexto brasileiro. Figura 1: Gráfico de recorte dos conceitos mais frequentes. Fonte: Elaborado pela autora, 2020. Decidimos estudar os termos mencionados no parágrafo acima, pois se tratam das três nomenclaturas mais utilizadas para definir a literatura digital brasileira. Além disso, consideramos que analisar os percursos pelos quais transitaram essas terminologias torna-se fator inicial de extrema relevância, pois é a partir desta reflexão de vocábulos que intitulam a literatura digital, que se poderá melhor entender a trajetória tomada por essa literatura no Brasil, e, por conseguinte, em pesquisas futuras, selecionar e realizar o estudo de outros conceitos de análise a ela ligados. A presente pesquisa esteve vinculada ao projeto de pesquisa Repositório da Literatura Digital Brasileira (CNPq 405609/2018-3- 2018-2022) que vem construindo um arquivo5 digital de literatura digital, além de um site que tem como objetivo reunir pesquisas, realizar eventos e armazenar informações que auxiliem pesquisadores do presente e do futuro a 5 Disponível em: https://www.observatorioldigital.ufscar.br/ 15 compreender e construir uma história da literatura digital no contexto brasileiro. A Rede Conceitual da Literatura Digital Brasileira, principal resultado deste projeto, será parte integrante desse site. Além disso, nossa pesquisa mobiliza as reflexões realizadas pelo linguista e crítico israelense Itamar Even-Zohar, que em seu livro Polisistemas de cultura (2017) propõe que a literatura pode ser estudada como um polissistema dinâmico, De modo breve, o significado de "sistema literário" para a teoria dos polissistemas pode ser formulado assim: A rede de relações hipotéticas entre uma certa quantidade de atividades chamadas "literárias", e consequentemente essas mesmas atividades observadas através desta rede. Ou: o complexo de atividades - ou qualquer parte dele - para o que se pode propor teoricamente relações sistêmicas que apoiem a opção de considerá- las "literárias". (EVEN-ZOHAR, 2017 p.29-30, tradução nossa ).6 O pesquisador trata o sistema literário não como um fenômeno estático, mas como algo amplo e em constante formação, por isso, utiliza a terminologia de polissistema, sob o intuito de destacar sua dinamicidade, sublinhando que o prefixo poli pressupõe o compromisso com um “conjuntos de dados que podem ser observados ” (EVEN-ZOHAR,7 2017, p.29, tradução nossa). Em outras palavras, o trabalho desenvolvido por Even-Zohar permite considerar que o polissistema literário não compreende apenas as obras que o compõem, mas também um conjunto de atividades chamadas literárias que o constituem. Dentre essas atividades, destacamos o papel da crítica literária, objeto desta pesquisa. Por fim, é necessário destacar que este trabalho é organizado em quatro partes. A primeira delas trata de explicar a metodologia inicial de pesquisa, realizada com o auxílio da teoria de Franco Moretti (2008) que nos ajudou a encontrar os textos que mais aparecem nas referências bibliográficas dos 22 artigos e ensaios encontrados na pesquisa anterior. Tais textos fizeram parte do processo inicial para a construção da nossa reflexão e genealogia terminológica. A segunda, terceira e quarta partes são dedicadas a realizar estudos aprofundados sobre cada uma das três terminologias estudadas, seguindo a seguinte ordem: literatura eletrônica, literatura digital e ciberliteratura. 7 8"(....) el conjunto de observables asumidos" (EVEN-ZOHAR, 2017 p.29). 6 Da tradução em Espanhol: “De modo breve, el significado de “sistema literario” para la teoría de los polisistemas puede formularse así: La red de relaciones hipotéticas entre una cierta cantidad de actividades llamadas “literarias”, y consiguientemente esas actividades mismas observadas a través de esta red. O: El complejo de actividades - o cualquier parte de él - para el que pueden proponerse teóricamente relaciones sistémicas que apoyen la opción de considerarlas “literarias” (EVEN-ZOHAR, 2017 p.29-30). 16 2. Metodologia Inicial: Uso do Nvivo Antes de apresentarmos nosso primeiro processo metodológico, a título de esclarecimento consideramos importante ressaltar que nossa pesquisa conta com um corpus composto pelas seguintes produções: ● 12 textos (artigos e ensaios) mapeados pela pesquisa Literatura Digital Brasileira: Cartografia da Produção Crítica (GRITTI, 2020) e que utilizam pelo menos uma das três terminologias aqui estudadas; ● Produções (artigos e livros) que aparecem com maior frequência nas referências bibliográficas desses textos 12 mapeados; ● Outros artigos e livros, que não aparecem com tanta frequência nas referências bibliográficas dos 12 artigos mapeados, mas que utilizam pelo menos uma das três terminologias. A primeira etapa desta pesquisa teve como objetivo a identificação dos textos que mais aparecem nas referências bibliográficas dos 22 artigos e ensaios mapeados pela pesquisa anterior. Para a realização deste levantamento bibliográfico, utilizamos como base os estudos do historiador e teórico literário Franco Moretti (2008), que em seu livro A literatura vista de longe, apresenta um processo metodológico intitulado distant reading (leitura distante). Nele, Moretti discute a possibilidade de se estudar a literatura por meio da construção e análise de gráficos, mapas e árvores. A partir disso, o pesquisador italiano defende que a literatura pode ser lida de longe quando se deseja realizar uma investigação que não diz respeito apenas aos detalhes internos de uma única obra literária, “mas faz com que se observem melhor as relações, os patterns, as formas” (MORETTI, 2008, p.8) de um conjunto de dados que fazem parte de um sistema ou escola literária, por exemplo. Desse modo, o método de Moretti apoia o que é realizado nesta pesquisa, pois realizamos a construção de esquemas e tabelas que nos auxiliaram a encontrar padrões, autores mais frequentes e informações que se referem não apenas a um texto específico, mas ao que comumente vem sendo discutido e analisado pela crítica em literatura digital brasileira. 17 1. Frequência das terminologias estudadas nos textos mapeados pela pesquisa anterior O primeiro passo do processo de levantamento bibliográfico foi o de inserir os 22 artigos e ensaios no software de análise de dados produzido pela QSR International, Nvivo. 8 Após isso, decodificamos as referências bibliográficas, pois antes de verificar quais as produções que mais aparecem nelas, nosso interesse era filtrar quais os textos que utilizavam, de fato, pelo menos uma das três terminologias (literatura digital, literatura eletrônica e/ou ciberliteratura) no corpo do texto. Feito isso, obtivemos os seguintes resultados: Textos que mobilizam ciberliteratura: ● Texto 3; ● Texto 9; ● Texto 19. Textos que mobilizam literatura eletrônica: ● Texto 1; ● Texto 3; ● Texto 4; ● Texto 7; ● Texto 8; ● Texto 22. Textos que mobilizam literatura digital: ● Texto 2; ● Texto 3; ● Texto 7; ● Texto 8; ● Texto 11; ● Texto 13; ● Texto 14; 8 Para mais informações relacionadas ao uso do Nvivo, é possível observar o passo a passo realizado por meio do vídeo de gravação de tela, feito pela pesquisadora durante a realização de sua pesquisa no software por meio do seguinte link: https://www.observatorioldigital.ufscar.br/projeto/rede-conceitual-da-literatura-digital-brasileira-gabriela-goulart -gritti-execucao-2021-2022-fapesp/ 18 ● Texto 22. A partir disso, observamos que dentre os 22 textos, 10 textos não utilizam nenhuma terminologia dentre as três estudadas , sendo eles:9 ● Texto 5; ● Texto 6; ● Texto 10; ● Texto 12; ● Texto 15; ● Texto 16; ● Texto 17; ● Texto 18; ● Texto 20; ● Texto 21. Por conseguinte, notamos que 12 textos mobilizam uma ou mais das três terminologias. Podemos observar quais os termos utilizados em cada um por meio da seguinte tabela: Tabela 2: Textos que utilizam uma ou mais das três terminologias estudadas Literatura eletrônica Literatura digital Ciberliteratura Texto 1 Texto 2 Texto 3 Texto 4 Texto 7 Texto 8 Texto 9 Texto 11 Texto 13 9 É importante ressaltar que, embora os textos acima não utilizem nenhuma das três nomenclaturas, eles não perdem sua qualidade e relevância, pois proporcionam estudos sobre as obras digitais brasileiras, utilizam outras terminologias que fazem parte de discussões que envolvem a literatura digital, e realizam análises importantes para se entender essa literatura no contexto brasileiro. 19 Texto 14 Texto 19 Texto 22 Fonte: Elaborado pela autora, 2021. 1.2 Levantamento das referências bibliográficas: Após a etapa descrita acima, passamos a considerar, portanto, apenas os 12 artigos e ensaios que mobilizam ao menos um dos três termos. Nosso interesse, depois disso, era identificar os autores que são mais referenciados e em seguida localizar seus respectivos textos. Sendo assim, codificamos nos 12 textos apenas o sobrenome de todos os autores que aparecem nas referências bibliográficas. Selecionamos o sobrenome, pois é uma informação comum em todas as referências. O primeiro nome de um autor, por exemplo, é algo que não aparece em todos os textos, pois muitos pesquisadores preferem inserir a primeira letra do nome ao invés de escrevê-lo por completo, por exemplo: ● Alguns autores podem referenciar meu nome como GRITTI, Gabriela Goulart; ● Contudo, outros podem referenciá-lo como GRITTI, G.G; Por fim, conseguimos obter como resultado final que os 15 sobrenomes mais frequentes são: Figura 2: Captura de tela do Nvivo - Autores mais referenciados - Parte 1 Fonte: Elaborado pela autora, 2021. 20 Figura 3: Captura de tela do Nvivo - Autores mais referenciados - Parte 2 Fonte: Elaborado pela autora, 2021. Além de nos mostrar o ranking desses autores, o Nvivo nos mostra onde e em quais textos eles foram mobilizados, tal como exibe o seguinte exemplo do sobrenome da autora Katherine Hayles: Figura 4: Captura de tela Nvivo - Exemplo Katherine Hayles Fonte: Elaborado pela autora, 2021. A partir desses dados realizamos a construção da seguinte tabela que exibe o nome completo e os textos desses autores: Tabela 3: Textos que mais aparecem nas referências bibliográficas dos 12 artigos e ensaios Nome completo do autor Título do texto e número de vezes em que o texto aparece Katherine Hayles ● Electronic Literature Collection; ● Literatura eletrônica: novos horizontes para o literário; (5) Roger Chartier10 ● Os desafios da escrita; (1); ● O que é um autor? (1); ● História da leitura no mundo ocidental - Roger Chartier e Guglielmo Cavallo (1); ● A aventura do livro: do leitor ao navegador (3); 10 Havia casos em que o nome de um autor aparecia mais de uma vez em um mesmo texto, no entanto era inserido o _____ no lugar do sobrenome. É por isso que a contagem do número de vezes que o chartier aparece aqui é de 7 e não 6 (como mostrado na imagem acima). 21 ● Do livro à leitura (1); Jorge Luiz Antonio ● Poesia digital: negociações com os processos digitais (3); ● Alguns aspectos da poesia digital (1); ● Intertexto, hipertexto, hipermídia, transmídia: os caminhos da tecno-arte-poesia”(1); ● Considerações sobre a poesia digital (2); Ângela Kleiman ● Letramento e sua implicações para o ensino de língua materna (1); ● Modelos de letramento e as práticas de alfabetização na escola (1); ● Preciso “ensinar” o letramento? Não basta ensinar a ler e a escrever? (1); ● Texto e leitor: aspectos cognitivos da leitura (1); Pierre Lévy ● A inteligência coletiva: por uma antropologia do ciberespaço (1); ● Cibercultura (1); ● O que é o virtual (1); ● As tecnologias da Inteligência (1); Roxane Helena Rodrigues Rojo ● Multiletramentos na escola (1); ● Escola conectada: os multiletramentos e as TICS (2); ● Hipermodalidade, multiletramentos e gêneros discursivos - Roxane H.R. Rojo e Jacqueline P. Barbosa (1); Lucia Santaella ● Navegar no ciberespaço: o perfil cognitivo do leitor imersivo (2); ● O novo estatuto do texto nos ambientes de hipermídia (1); ● O que a matrix não mostra: o corpo sensório-perceptivo do cibernauta (1); ● Para compreender a ciberliteratura (1); ● A aprendizagem ubíqua na educação aberta (1); Walter Benjamin ● A obra de arte na era da sua reprodutibilidade técnica (2); ● Haxixe (1); Néstor Garcia Canclini ● Culturas híbridas: estratégias para entrar y salir de la modernidad (1); ● Diferentes, desiguales y desconectados (1); ● Leitores, espectadores, internautas (1); 22 Gunther Kress ● Multimodal discourse: the modes and media of contemporary communication - Gunter Kress e Theo Van Leeuwen (1); ● Reading images: the grammar of visual design (1); ● Visual and verbal modes of representation in electronically mediated communication; Fonte: Elaborado pela autora, 2021. Por fim, obtivemos que os três textos mais referenciados eram :11 ● Literatura eletrônica: novos horizontes para o literário - Katherine Hayles (Tradução de 2010) (mobilizado em 5 textos); ● A aventura do livro: do leitor ao navegador - Roger Chartier (2002) (mobilizado em 3 textos); ● Poesia digital: negociações com os processos digitais - Jorge Luiz Antonio (2008) (mobilizado em 3 textos); Realizar essa pesquisa através do Nvivo foi importante, pois o programa nos permite uma análise mais confiável e revisada, afinal, na pesquisa anterior, a análise da mobilização das três terminologias e do levantamento bibliográfico foram feitos quase que de maneira manual a partir do programa Excel. O Nvivo nos proporcionou uma pesquisa realizada de maneira mais rápida e a metodologia aqui utilizada pode ser aperfeiçoada por outros pesquisadores. 11 Assim como dito anteriormente, esses textos se tratam das Produções (artigos e livros) que aparecem com maior frequência nas referências bibliográficas dos textos 12 mapeados (ver página 8). 23 Parte II - Estudo da terminologia literatura eletrônica 1. Sobre o uso desta terminologia Dentre os 12 textos filtrados pelo Nvivo, seis utilizam a terminologia literatura eletrônica. A esse respeito, notamos que cinco deles fazem referência ao livro Literatura eletrônica: novos horizontes para o literário, de Katherine Hayles (2008), livro este que, como observado pelo levantamento bibliográfico, é o mais referenciado. Nesse sentido, consideramos tarefa fundamental para a realização desta pesquisa a realização da leitura desta produção de Hayles, procurando entender como o termo é mobilizado e compreender o processo, ou o(s) autor(es) que a influenciaram a utilizar essa terminologia. De acordo com Hayles, seu livro foi publicado com o intuito fornecer noções importantes para que pesquisadores e professores que tivessem interesse em conhecer a literatura eletrônica pudessem encontrar nele informações que auxiliam a conhecer as principais características dessa literatura, seu desenvolvimento ao longo dos anos, análise de algumas obras digitais, e o contexto (diga-se de passagem norte-americano) em que ela se insere. Em resumo, a definição proposta pela autora é de que: A literatura eletrônica, geralmente considerada excludente da literatura impressa que tenha sido digitalizada, é, por contraste, “nascida no meio digital”, um objeto digital de primeira geração criado pelo uso de um computador e (geralmente) lido em tela de computador. (HAYLES, 2008, p.20). Para a autora, é portanto uma literatura que ao mesmo tempo em que faz parte da tradição literária está também vinculada ao desenvolvimento dos computadores e ao surgimento de inovações tecnológicas. Contudo, Hayles também destaca que literatura eletrônica e literatura digitalizada não são a mesma coisa. O livro digitalizado, embora provoque mudanças nos modos de ler, difere das obras literárias digitais, pois além de nem sempre apresentarem uma linearidade, tais obras apresentam elementos que não só as impedem de serem lidas sem a ajuda do computador, como também apresentam objetos que estão arraigados à cultura digital, como por exemplo o hipertexto e a multimodalidade. Dessa forma, a literatura eletrônica é híbrida por natureza, ou seja, trata-se de um “monstro esperançoso (...) composto por partes extraídas de diversas tradições e que nem sempre se posicionam juntas de forma organizada” (HAYLES, 2008, p.21). 24 Os textos 1,3,7,8 e 22 são os que fazem referência à produção da pesquisadora norte americana. No primeiro texto, literatura eletrônica é citado na conclusão do artigo, no qual Wiese (2013) menciona Hayles a fim de relacionar os estudos da autora com a poesia digital de André Vallias. Isso se baseia no fato de que, assim como as discussões proporcionadas por Hayles sobre uma literatura que pode moldar a subjetividade e gerar mudanças culturais, as obras de Vallias estão em diálogo com as proposições de Hayles, pois provocam novos modos de ler e produzir em meio ao desenvolvimento das “mídias de rede e programáveis” (HAYLES, 2008, p.37). No texto 3 (2014), são realizadas discussões sobre o desenvolvimento das novas formas de leitura causadas pela revolução das tecnologias eletrônicas e do consequente surgimento das obras literárias digitais. O intuito das autoras Analice de Oliveira Martins e Penha Élida Ghiotto Tuão Ramos (2014), é refletir sobre as relações entre texto, suporte e leitura. Ao abordarem essa temática, as autoras mencionam que diversas terminologias aparecem para denominar a literatura digital. Devido a isso, as três terminologias aqui estudadas aparecem no artigo, no entanto, a que mais predomina ao longo do texto é literatura eletrônica. Apesar de não explicarem o motivo de usarem esse termo, ao longo do artigo as escritoras fazem referência ao livro de Hayles para explicar algumas especificidades dessa literatura. No artigo 7 (2017), Celso Leopoldo Pagnan utiliza as nomenclaturas literatura eletrônica, destacando que esta terminologia é utilizada nos Estados Unidos, tendo como justificativa o livro produzido por Hayles, e literatura digital, termo que, segundo o autor, é aplicado no contexto brasileiro. No entanto, Pagnan (2017) não menciona o porquê de tal termo ser utilizado no Brasil. O texto 8 (2012), de Marcelo Spalding, mobiliza as terminologias literatura digital e literatura eletrônica. Ao utilizar literatura eletrônica, Spalding (2012), assim como a maioria, utiliza como referência o livro de Katherine Hayles e a ELO. Por fim, no texto 22 (2016), literatura eletrônica aparece em nota de rodapé na qual a autora Rejane Cristina Rocha menciona a definição de Hayles sobre o conceito de literatura eletrônica. No que diz respeito à discussão terminológica que percorre esta pesquisa, observamos que assim como a maioria dos textos que compõem o nosso corpus e os textos complementares estudados, Hayles não realiza um comentário que justifique sua opção em 25 utilizar o termo eletrônico em detrimento de digital. Contudo, durante a leitura do livro, foi possível notar um ponto fundamental que nos mostra o alicerce das pesquisas realizadas pela escritora e que talvez justifiquem sua escolha para a utilização de tal termo: a autora foi uma das diretoras da Antologia de Literatura Eletrônica da ELO - Electronic Literature Organization .12 A mencionada organização possui sua relevância, pois é considerada como um dos maiores repositórios de literatura eletrônica do mundo. Na época do lançamento, o livro de Hayles vinha acompanhado de um CD que trazia o primeiro volume da Antologia ELO (que atualmente já apresenta três volumes ). Além disso, ao longo de sua produção, a autora13 menciona diversas vezes a organização e declara que ela foi fundamental para a publicação de seu livro. Dos 6 textos do nosso corpus que mobilizam literatura eletrônica, o texto 4 é o único que não faz referência ao livro de Hayles, no entanto, nele, a nomenclatura aparece apenas uma vez em nota de rodapé na qual a autora Regina Souza Gomes cita a ELO. Além do texto 4, os textos 3, 7, 8 e 22 também mencionam a organização. Por meio deste primeiro tópico de análise, já nos foi possível observar a influência que estudos norte-americanos possuem sobre a literatura digital no Brasil. Desse modo, temos, portanto, dois objetos importantes para a compreensão da utilização da terminologia literatura eletrônica no contexto brasileiro: o livro de Hayles e a Electronic Literature Organization. 2. ELO - Electronic Literature Organization Tendo em vista a popularidade da ELO e sua influência para os estudos de diversos pesquisadores da literatura digital no Brasil e no mundo, como Katherine Hayles, é importante que entendamos as principais informações que dizem respeito a essa organização. A Electronic Literature Organization faz parte da Washington State University of Vancouver e é o único corpo acadêmico dos Estados Unidos dedicado exclusivamente à investigação da literatura produzida para o meio digital. Fundada em 1999 por Scott Rettberg , Robert Coover e Jeff Ballowe , a ELO tem como objetivo “fomentar e promover a14 15 16 16 Atua no conselho da Onvia e OnQueue Technologies. 15 Romancista americano e Professor Emérito de Artes Literárias da Brown University, Estados Unidos. 14 Professor do Departamento de Linguística, Literatura e Estudos Estéticos da Universidade de Bergen, Noruega. 13 Disponível em https://collection.eliterature.org/ 12 Disponível em https://eliterature.org/ 26 leitura, a escrita, o ensino e a compreensão da literatura na medida em que ela se desenvolve e persiste em um ambiente digital em constante mudança” (Electronic Literature Organization, s.d). O site da organização abriga uma página intitulada Electronic Literature Collection17 que armazena uma extensa quantidade de obras literárias digitais produzidas no mundo todo. No total, são quatro volumes que datam de 2006 a 2022. Sobre esta coleção, em seu livro, Hayles (2009) comenta que: A escolha da comissão foi incluir trabalhos realizados em meios de comunicação digitais, assim como aqueles criados em um computador, mas publicadas em meio impresso (...). A formulação feita pela comissão diz: “Obras com um aspecto literário importante que aproveita as capacidades e contextos fornecidos por um computador independente ou em rede” (p.21). Figura 5: Captura de tela da Electronic Literature Collection - Volume 1. Fonte: https://collection.eliterature.org/1/. Acesso em: 1 mai. 2022. Além de conter obras digitais, a instituição também possui em sua página uma lista de autores e pesquisadores que fazem parte do Literary Advisory Board (Conselho Literário 17 Disponível em: https://collection.eliterature.org/ 27 Consultivo). A organização também conta com o ELD - Electronic Literature Directory18 (Diretório de Literatura Eletrônica) que comporta uma coleção de trabalhos com artigos e documentos com descrições e análise de obras digitais, novos conceitos, críticas e dentre outros temas referentes à literatura eletrônica. Foi nesta página que encontramos textos importantes que fizeram parte da bibliografia desta pesquisa (dentre eles o texto A Bibliographic Overview of Electronic Literature (2012), de autoria de Amanda Starling Gould e que será abordado adiante). Há também uma aba intitulada Electronic Literature Archives ,19 um repositório que contém todos os trabalhos produzidos pela equipe ELO. Por fim, a ELO também é líder e gerenciadora do CELL Project - Consortium on Electronic Literature (Consórcio de Literatura Eletrônica) , um site de acesso gratuito que20 oferece um banco de dados com trabalhos e programas institucionais que envolvem estudos em artes literárias e estudos de humanidades na área da cultura digital de países como Estados Unidos, Canadá, Portugal, Espanha, Noruega, Austrália e Alemanha. 3. Outras referências A fim de nos aprofundarmos no percurso genealógico da terminologia literatura eletrônica, realizamos a leitura de outros materiais em busca de textos e produções anteriores ao surgimento da ELO que também mobilizam a referida nomenclatura. Contudo, vale ressaltar que realizar tal tarefa é um grande desafio, pois são inúmeros os textos que utilizam tal terminologia, e por isso nos detivemos em uma quantidade restrita de produções que condizem com nosso percurso metodológico e, nesse sentido, dizem respeito aos 12 artigos mapeados, às influências de Hayles e da ELO. Sendo assim, a maioria das produções utilizadas nesse terceiro tópico foram encontradas por meio de textos presentes no Electronic Literature Directory, investigação de autores citados no Literary Advisory Board, e textos discutidos nas sessões de estudo do Observatório da Literatura Digital Brasileira (CNPq) do qual a presente pesquisa faz parte. O primeiro texto tem como título The history of the term “electronic literature” (2012) de Jill Walker Rettberg , professora de Cultura Digital na Universidade Bergen,21 Noruega, que faz parte do Legacy Members da ELO. Nele, a autora nos apresenta sua 21 Professora de Cultura Digital na Universidade de Bergen, Noruega. 20 Disponível em: https://cellproject.net/ 19 Disponível em: https://eliterature.org/electronic-literature-archives/ 18 Disponível em: https://eliterature.org/lab/ 28 pesquisa sobre publicações anteriores ao surgimento da ELO que possuem destaque em estudos relacionados à literatura eletrônica e que consequentemente utilizam essa terminologia. Por meio dele é possível notar o destaque dos trabalhos do professor e pesquisador da Escola de Literatura, Mídia e Comunicação do Instituto de Tecnologia da Universidade da Georgia, Jay David Bolter. Dois dos textos mencionados pela autora pertencem ao pesquisador. O primeiro deles, datado de 1985, é The idea of literature in the electronic medium. Nesse artigo, Bolter realiza especulações sobre o futuro da literatura eletrônica e a necessidade de novos autores nesse ramo, apresentando uma diferença entre os jogos de videogame e as futuras obras literárias digitais. O segundo deles é o livro Writing Space, de 1991, cujo foco é a discussão sobre o uso da remediação após o surgimento da WWW (World Wide Web). Sobre este livro, Walker ressalta que apesar de mobilizar literatura eletrônica, o termo hypertext fiction (ficção de hipertexto) era mais popular na época. Outro artigo mencionado pela pesquisadora norueguesa é Writing for the New Millennium: The Birth of Electronic Literature, escrito por Robert Kendall em 1995 . Dos22 três textos mencionados pela autora, esse é aquele que mais se aprofunda em discutir a literatura eletrônica de forma específica, apresentando uma definição sobre ela muito próxima da que entendemos hoje: Os novos livros sobre literatura eletrônica rompem com os laços de linearidade e estase impostos pelo papel. Na forma digital, uma história pode atrair os leitores a esse mundo ao dar-lhes um papel no qual eles podem moldá-la, deixando-os escolher uma linha narrativa para seguir, uma nova situação ou personagem para explorar. Dentro de uma “página” de poesia na tela, palavras ou linhas podem mudar continuamente conforme o leitor assiste, fazendo o texto ressoar com uma quantidade variável de formas e significados. Com esse poder de misturar textos, gráficos, sons e vídeos, o PC pode estender as antigas tradições interdisciplinares de escrita. (KENDAL, 1995, n.p, tradução nossa) .23 Em seu texto, Kendall também realiza uma discussão sobre o fato de que muitos autores que realizam a produção de obras digitais fazem parte do mundo da literatura 23 No original: “The new electronic literature books breaks the bonds of linearity and stasis imposed by paper. In digital form, a story can draw readers into its world by giving them a role in shaping it, letting them choose which narrative thread to follow, which new situation or character to explore. Within a “page” of poetry on screen, words or lines can change continually as the reader watches, making the text resonate with shifting shades of meaning. With its power to mix text, graphics, sound, and video, the PC can extend the ancient interdisciplinary traditions of writing”. (KENDALL, 1995, n.p). 22 Robert Kendall é autor de obras digitais, tais quais o hipertexto A Life Set for Two (1996). O autor também é uma das referências que constam no Literary Advisory Board. 29 eletrônica, mas que não têm conhecimento disso. O próprio autor menciona que passou pela mesma situação: Comecei a trabalhar com os meios eletrônicos assumindo que eu era o único escritor inspirado (ou enlouquecido) o suficiente para fazer isso, no entanto, gradualmente eu tomei a consciência de que outros espíritos semelhantes, alguns deles - como Willian Dickey, Michael Joyce, e Judy Malloy. - já tinham respondido ao chamado da musa de silício muito antes de mim. Eu era parte de um movimento literário novo e não sabia disso. (1995, n.p, grifo e tradução nossa) .24 Essa é uma realidade que observamos também no contexto brasileiro. O trabalho de iniciação científica realizado pela pesquisadora Giovanna Maria Zago Affonso (2021) intitulado Literatura digital brasileira: a perspectiva dos criadores (CNPq) cujo principal objetivo era a realização de entrevistas com criadores de obras digitais brasileiras, exibe que alguns dos autores entrevistados não tinham um conhecimento aprofundado das especificidades dessa literatura .25 Os estudos realizados por Rettberg são importantes, pois além de fornecerem textos como esse, que nos auxiliou na compreensão do percurso genealógico da terminologia literatura eletrônica, apresenta uma metodologia semelhante à que utilizamos no presente trabalho. Em outro artigo de 2014, Visualizing Networks of Electronic Literature: Dissertations and the Creative Works They Cite, observamos que o trabalho da autora possui relação com o a teoria metodológica discutida por Franco Moretti (2008), pois nele a pesquisadora relata o trabalho que realizou por meio da análise de teses (escritas por autores da Europa e Estados Unidos) sobre a literatura eletrônica a partir da construção de redes e tabelas que exibem informações sobre as obras digitais discutidas nessas produções, principais discussões e livros teóricos mobilizados. Durante a execução desta etapa de trabalho também realizamos a leitura de outros dois textos, que apesar de não nos fornecerem informações sobre a história da terminologia em si, nos trouxeram referências bibliográficas pertinentes. Em primeira instância lemos o texto A Bibliographic Overview of Electronic Literature, (publicado no Electronic Literature Directory) de Amanda Starling Gould (2012), que nos proporcionou uma coletânea de 25 As entrevistas realizadas pela pesquisadora estão disponíveis no site criado pelo grupo de estudos Observatório da Literatura Digital Brasileira, disponível em: https://www.observatorioldigital.ufscar.br/ 24 Em inglês: “I had begun working in the electronic medium assuming that I was the only writer inspired (or deranged) enough to do so, but I gradually became aware of other kindred spirits, some of whom – like Willian Dickey, Michael Joyce, and Judy Malloy. – had answered the call of the silicon muse years before I did. I was part of a new literary movement and didn’t realize it”. (KENDAL, 1995, n.p). 30 produções literárias e teóricas que, segundo a autora, são fundamentais para aqueles que desejam compreender a história dessa literatura. Os textos teóricos mencionados por ela são: ● Aesthetics of Net Literature: Writing, Reading and Playing in Programmable Media (2007) dos organizadores Peter Gendolla & Jörgen Schäfer; ● Literary Art in Digital Performance: Case Studies in New Media Art (2009) do editor Francisco J. Ricardo; ● Reading Moving Letters: Digital literature in Research and Teaching, a Handbook (2010) - editado por Roberto Simanowski, Jörgen Schäfer and Peter Gendolla; ● Beyond the Scream, Transformations of Literary Structures, Interfaces, and Genres (2010) - editado por Jörgen Schäfer, Peter Gendolla;Aesthetics of Net Literature: Writing, Reading and Playing in Programmable Media (2007) dos editores Peter Gendolla & Jörgen Schäfer; As produções elencadas acima também nos chamaram atenção, pois utilizam outras terminologias para se referirem à presente literatura estudada. Mais uma vez esses dados nos mostram a instabilidade no campo da literatura digital, principalmente no que diz respeito a sua metalinguagem. O último artigo lido é The Origins of Electronic Literature - An Overview (2019), das autoras Giovanna Di Rosario, Kerri Grimaldi e Nohelia Meza. Neste texto são utilizadas as terminologias literatura eletrônica e literatura digital, alegando, em nota de rodapé que, “Nós iremos utilizar os termos “literatura eletrônica” (ou sua abreviação e-lit) e “literatura digital” como sinônimos e no espaço deste capítulo não iremos realizar nenhuma referência às possíveis diferenças que eles possuem” (p.5). Contudo, ao apresentarem a definição dessa literatura, também utilizam-se daquela que é elaborada pela ELO. O que torna o artigo mais interessante é que os autores apresentam, de maneira resumida, um panorama dessa literatura nas diferentes regiões mundiais. Ao abordarem a América Latina, o nome da pesquisadora argentina Claudia Kozak aparece como referência para os estudos em literatura digital em nosso continente. De fato, a pesquisadora possui relevância, afinal ela faz parte do Board of Directors da ELO e é também uma das26 organizadoras da Antologia litElat , que tem como intuito reunir obras de literatura digital27 27 Disponível em: http://antologia.litelat.net/ 26 Disponível em: https://eliterature.org/board/ 31 produzidas por autores da América Latina e Caribe. Além disso, em seus textos a autora utiliza-se da nomenclatura literatura digital, termo mais utilizado no contexto brasileiro e latino, e portanto, seus estudos podem nos ser úteis para o entendimento desta terminologia. Em conclusão desta etapa de pesquisa, realizamos a construção de uma linha do tempo com os textos que consideramos mais importantes para o entendimento da genealogia da terminologia literatura eletrônica: Figura 6: Captura de tela da linha do tempo da terminologia literatura eletrônica. Fonte: Elaborado pela autora, 2022. Também é possível visualizar a rede conceitual da literatura digital brasileira completa, por meio do seguinte link: https://whimsical.com/rede-conceitual-da-literatura-digital-brasileira-2DphNXtAn9hrwaYQq KEaBv 32 Parte III - Estudo da terminologia literatura digital 1. Sobre o uso desta terminologia No que se refere aos 12 textos que compõem o corpus desta pesquisa, literatura digital é a nomenclatura mais utilizada entre os três termos aqui estudados. Contudo, assim como ocorre com literatura eletrônica, não são todos os autores que apresentam uma justificativa para seu emprego. A primeira hipótese que temos é de que, provavelmente, a maioria dos textos que mobilizam literatura digital têm como referência o professor, escritor, editor e jornalista, Marcelo Spalding, que além de ser autor de obras digitais, também realiza estudos voltados para esta área. A terminologia em questão, aparece nos textos 2, 3, 8, 11, 13, 14 e 22. O texto 2 (2019), tem como foco realizar uma análise da obra transmídia Poemas de Brinquedo (2016) de Álvaro Andrade Garcia. Ao mencionarem literatura digital, os autores Carmélia Daniel28 dos Santos e Wagner José Moreira, declaram que este termo é definido por Marcelo Spalding. Já o texto 3, o único que utiliza as três terminologias que estudamos, mobiliza literatura digital apenas uma vez, coincidentemente ou não, para realizar uma breve análise da obra Minicontos coloridos (2013), de autoria de Marcelo Spalding.29 No artigo de número 11 (2016), Alamir Aquino Corrêa não apresenta uma justificativa para o emprego de literatura digital. No entanto, em uma das vezes em que o termo é utilizado, o autor também menciona a obra Minicontos Coloridos. Em relação ao texto 13, a abordagem de literatura digital é feita sob o intuito de realizar reflexões sobre as novas concepções de leitura que ocorrem no contexto digital e quais as principais diferenças que este tipo de leitura apresenta em relação à leitura do livro impresso. Além disso, com o objetivo de apresentar as principais características da referida literatura, os autores inserem em seu ensaio um recorte do Manifesto da Literatura Digital 29 Disponível em: https://www.observatorioldigital.ufscar.br/repositorio-da-literatura-digital-brasileira/minicontos-coloridos/?perp age=12&order=DESC&orderby=date&search=minicontos%20coloridos&pos=2&source_list=collection&ref=% 2Frepositorio-da-literatura-digital-brasileira 28 Disponível em: https://www.observatorioldigital.ufscar.br/repositorio-da-literatura-digital-brasileira/poemas-de-brinquedo/?perp age=12&order=DESC&orderby=date&search=Poemas%20de%20brinquedo%20&taxquery%5B0%5D%5Btaxo nomy%5D=tnc_tax_8246&taxquery%5B0%5D%5Bterms%5D%5B0%5D=321&taxquery%5B0%5D%5Bcomp are%5D=IN&pos=0&source_list=collection&ref=%2Frepositorio-da-literatura-digital-brasileira 33 disponível no site http://www.literaturadigital.com.br/ do qual Marcelo Spalding é um dos organizadores. Como mencionado anteriormente, quando discutimos o livro de Hayles, o texto 7 não justifica o uso da nomenclatura literatura digital, entretanto, ao longo do artigo o autor realiza análise de obras presentes no site de Marcelo Spalding e destaca, assim como o texto 13, alguns aspectos do Manifesto da Literatura Digital. O texto 22, de Rejane Cristina Rocha, tem como objetivo gerar uma problematização sobre os limites do conceito de literatura, “questionando em que medida seus contornos, tal qual se consolidaram ao longo do tempo, podem abrigar as textualidades digitais” (ROCHA, 2016, p.157). A partir dessa discussão, a pesquisadora realiza uma reflexão sobre as especificidades da produção literária no contexto digital e analisa a obra Oratório (2003) do poeta André Vallias. Neste artigo, a terminologia literatura digital aparece 4 vezes, na primeira, ela é mobilizada em nota de rodapé, para também fazer menção ao site organizado por Spalding. No restante do texto, literatura digital é utilizada para referenciar os trabalhos de André Vallias e a produção de obras que “(...) acatam e evidenciam as possibilidades e, por que não dizer, as limitações do meio e as transformam em experiências significativas esteticamente” (ROCHA, 2016, p.166). O texto 8, por sua vez, é de autoria de Spalding e apresenta discussões importantes sobre as novas formas de criação proporcionadas pela literatura digital por meio da análise de obras digitais produzidas no Brasil e obras presentes na ELO. Por último, o texto 14 é o único que não faz menção a Spalding. A terminologia literatura digital aparece duas vezes ao longo do texto para fazer menção às discussões que o professor do Centro de Alfabetização, Leitura e Escrita (Ceale) da Faculdade de Educação da UFMG, Rildo Cosson (2014), realiza sobre essa literatura. Abaixo listamos, outros textos que estão presentes nas referências bibliográficas dos artigos e ensaios que compõem o nosso corpus e que utilizam a terminologia literatura digital, mas que não fazem parte das Produções (artigos e livros) que aparecem com maior frequência nas referências bibliográficas dos textos 12 mapeados: 34 Tabela 4: Artigos e livros que não aparecem com tanta frequência nas referências bibliográficas dos 12 artigos mapeados, mas que utilizam pelo menos uma das três terminologias. Texto em que é referenciado Nome do texto/livro e autor(es) Ano de publicação Observações Texto 3 Literatura digital: Intertexto, Intratexto e Hipertexto - Cinthya Costa Santos 2002 Texto 3 O desaparecimento do autor nas tramas da literatura digital - uma reflexão Foucaultiana - Edgar Roberto Kirchof 2009 Além de utilizar literatura digital, também mobiliza literatura eletrônica. Texto 22 Poesia em rede: Poesia Portuguesa em blogues e sitios - Manuel Portela e Rita Grácio 2012 Além de utilizar literatura digital, também mobiliza literatura eletrônica e ciberliteratura. Texto 22 A poesia digital de André Vallias - Maíra Borges Wiese 2012 Além de utilizar literatura digital, também mobiliza literatura eletrônica. Texto 22 Notícia da atual literatura brasileira digital - Alckmar Luiz dos Santos 2012 Fonte: Elaborado pela autora, 2022. 2. Processo metodológico do estudo da terminologia literatura digital Diferentemente do processo de pesquisa da terminologia literatura eletrônica, não tínhamos textos e um percurso plenamente estabelecido para a realização dos estudos sobre o vocábulo literatura digital. Sendo assim, para a realização do estudo deste termo seguimos os seguintes passos: 1. Leitura e mapeamento de produções de Marcelo Spalding, tendo em vista a frequência de menções à obras e projetos de autor são citados nos textos que mobilizam literatura digital; 2. Leitura e análise de textos das autoras Carolina Gainza e Claudia Kozak, pois ambas realizam projetos de pesquisas semelhantes ao Observatório da Literatura Digital Brasileira (CNPq 405609/2018-3) e se tratam de autoras latino-americanas inseridas em um contexto no qual o termo literatura digital é mais utilizado. Além disso, Claudia Kozak também é citada no texto discutido anteriormente The Origens of 35 Electronic Literature - An Overview (2019) como uma das principais influências em estudos sobre a literatura digital na América Latina; 3. Produções de Marcelo Spalding A primeira leitura e investigação que realizamos sobre Marcelo Spalding foi de sua tese de doutorado que leva o título de Alice do livro impresso ao e-book: adaptação de Alice no País das Maravilhas e de Através do Espelho para o IPAD (2012). Por meio dela, o pesquisador realiza uma reflexão sobre as transformações e as novas possibilidades de criação que a literatura tem sofrido devido ao desenvolvimento das novas tecnologias e da cultura digital. Para aprofundar suas discussões, o autor utiliza-se das adaptações digitais para o IPAD das obras Alice no País das Maravilhas e Através do Espelho, de Lewis Carroll. No que concerne ao estudo terminológico que envolve a presente pesquisa, notamos que Spalding utiliza-se tanto das nomenclaturas literatura digital quanto literatura eletrônica. Todavia, o autor destaca que apesar de tratar ambas como sinônimas, literatura eletrônica é aquela utilizada no contexto norte-americano, mencionando inclusive como referência a ELO e o livro de Katherine Hayles (2008). Outrossim, ainda que não destaque diretamente o porquê de utilizar literatura digital no contexto brasileiro, entendemos que Spalding utiliza este termo devido à diferenciação que apresenta logo no início de sua tese sobre as nomenclaturas e-book e livro digital, na qual destaca que: Para nós, o termo “livro digital” parece muito mais apropriado que o termo “livro eletrônico”, pois eletrônico não é sinônimo de digital. A televisão, o rádio, o micro-ondas, o ventilador, o relógio de pulso, o aspirador de pó e o marca-passo são eletrônicos, mas nenhum deles produz ou distribui bits, essência dessa vida digital. (SPALDING, 2012, p.14, grifos nossos). A partir disso, por tratar-se de uma literatura que se encontra no computador, ferramenta manipulada por bits, ou seja, manipulada por números binários formados por uma sequência infinita de 0 e 1, supomos que Spalding dá prioridade à literatura digital justamente devido a essa diferenciação que apresenta entre aquilo que é eletrônico e o que é digital. Entretanto, nos adiantamos aqui, dizendo que não existe uma forma errada ou correta para se referir a tal literatura, o próprio autor em sua tese destaca que “(...) nos referimos tanto a livros digitais quanto e-books (inclusive no título da tese) com o objetivo de estar interagindo às palavras-chave desse campo, dialogando não apenas com os acadêmicos de nosso idioma”. (SPALDING, 2012, p.14, grifo nosso). 36 Ainda no que diz respeito à tese de Spalding, outra discussão importante mobilizada pelo autor pôde nos ajudar a compreender a utilização da terminologia ciberliteratura. O primeiro capítulo é exclusivamente dedicado a uma explanação e análise sobre o surgimento e desenvolvimento dos primeiros computadores, da internet e da cultura digital. Ao abordar este último tópico (cultura digital), o autor alega que a sua consolidação se deu por meio do surgimento do ciberespaço, utilizando como referência o livro Cibercultura, de Pierre Lévy (1999). A partir deste livro, e da análise das produções que mobilizam a ciberliteratura, observamos que o prefixo ciber era muito popular durante o início do século XXI. Como veremos mais adiante, o termo ciberliteratura aparece em textos datados em produções que variam entre os anos 1999 a 2005. Sendo assim, notamos que a referida terminologia pode estar ligada não apenas à utilização do prefixo ciber, mas também aos conceitos de ciberespaço e cibercultura, populares nos anos em que o tal termo era mais mobilizado. Mais à frente voltaremos a abordar essa discussão. 3.1 Movimento Literatura Digital Como visto no início do estudo desta terminologia, Marcelo Spalding é frequentemente citado, pois além de realizar pesquisas que envolvem a literatura digital, é também autor de obras digitais brasileiras. Até o momento possuímos conhecimento sobre três delas: Minicontos de ouvir (sem data), Um estudo em vermelho (sem data) e30 31 Minicontos coloridos (2013) . Esta última citada é tida como uma das mais mobilizadas nos32 22 artigos e ensaios que compõem o corpus da pesquisa anterior a esta (Ver Anexo 6). Além 32 Disponível em: https://www.observatorioldigital.ufscar.br/repositorio-da-literatura-digital-brasileira/um-estudo-em-vermelho/?p erpage=12&order=DESC&orderby=date&taxquery%5B0%5D%5Btaxonomy%5D=tnc_tax_8246&taxquery%5 B0%5D%5Bterms%5D%5B0%5D=412&taxquery%5B0%5D%5Bcompare%5D=IN&pos=1&source_list=colle ction&ref=%2Frepositorio-da-literatura-digital-brasileira 31 Disponível em: https://www.observatorioldigital.ufscar.br/repositorio-da-literatura-digital-brasileira/um-estudo-em-vermelho/?p erpage=12&order=DESC&orderby=date&taxquery%5B0%5D%5Btaxonomy%5D=tnc_tax_8246&taxquery%5 B0%5D%5Bterms%5D%5B0%5D=412&taxquery%5B0%5D%5Bcompare%5D=IN&pos=1&source_list=colle ction&ref=%2Frepositorio-da-literatura-digital-brasileira 30 A obra também é de autoria de Angela Schnoor, Ana Mello, Ana Maria Pimentel, Eduardo Oliveira Freire, Isi Caruso, Jorge Rein, Laís Chaffe, Leonardo Brasiliense, Rafael Manfrere, Sidnei Schneider e Viviane Juguero. Disponível em http://www.literaturadigital.com.br/minicontosdeouvir/autores.html e https://www.observatorioldigital.ufscar.br/repositorio-da-literatura-digital-brasileira/minicontos-de-ouvir/?perpa ge=12&order=DESC&orderby=date&taxquery%5B0%5D%5Btaxonomy%5D=tnc_tax_8246&taxquery%5B0% 5D%5Bterms%5D%5B0%5D=412&taxquery%5B0%5D%5Bcompare%5D=IN&pos=0&source_list=collection &ref=%2Frepositorio-da-literatura-digital-brasileira 37 disso, Spalding é também um dos organizadores, juntamente com Ana Mello e Maurem Kayna, do site Movimento Literatura Digital, que segundo os autores trata-se de: um movimento permanente em defesa da leitura e da literatura na era digital. (...) O movimento, sem fins lucrativos, tem um viés acadêmico e outro criativo, divulgando e fomentando tanto a reflexão e a discussão teórica acerca dos novos gêneros que surgem quanto produzindo, divulgando e apoiando projetos de literatura digital. (MOVIMENTO LITERATURA DIGITAL, grifo dos autores, s.d). Tal site, lançado em 2012, pode ser considerado como um dos grandes influenciadores na utilização da terminologia literatura digital no contexto brasileiro, pois assim como a ELO, exibe obras digitais produzidas por autores de diversas regiões brasileiras, trabalhos acadêmicos, espaço para o professor (com dicas de atividades e informações sobre a literatura digital), além de apresentar um manifesto da literatura digital, escrito em 10 tópicos e inclusive utilizado por autores de textos do nosso corpus para definir essa literatura (tal qual visto no tópico 1 que abre o estudo desta terminologia). 3.2 Outras referências da América Latina Após a análise das principais produções de Marcelo Spalding, optamos por realizar a investigação de produções de duas autoras que possuem projetos semelhantes ao que está sendo elaborado pelo grupo de estudos Observatório da Literatura Digital Brasileira e também ao projeto Repositório da Literatura Digital Brasileira (CNPq 405609/2018-3- 2018-2022). A primeira delas é Claudia Kozak, já mencionada anteriormente na discussão sobre o artigo The Origins of Electronic Literature - An Overview (2019). Esta pesquisadora argentina realiza estudos voltados para a literatura digital e é também uma das organizadoras da Antologia LiteLat, um projeto em parceria com Leonardo Flores e Rodolfo Mata, que tem como objetivo reunir e recuperar obras digitais da América Latina e do Caribe. O nome do site organizado por Kozak, Antologia LiteLat: Literatura electrónica latinoamericana, logo de início já nos chama atenção, pois leva em seu título o termo literatura eletrônica. Acreditamos que isto aconteça, pois além de ter como um dos organizadores Leonardo Flores, presidente da ELO, também faz parte de um projeto que abriga obras produzidas por diversos países da américa látina, mas que estão nos mais variados idiomas. A partir disso, interpretamos que a intenção dos autores tenha sido justamente agregar a terminologia que se encontra mais em voga na escala mundial: literatura eletrônica, devido à ELO. Contudo, em 38 seus artigos e ensaios Claudia Kozak ainda prioriza a utilização do vocábulo literatura digital. A segunda autora é Carolina Gainza, professora chilena da Escuela de Literatura Creativa de La Universidad Diego Portales e organizadora do projeto Cartografia de La Literatura Digital Latinoamericana , um site que, assim como o de Kozak e do OBLD ,33 34 busca pela preservação da literatura digital a partir de “uma recompilação de obras literárias criadas para os meios digitais, cuja composição está marcada pela linguagem de códigos” . (GAINZA, Cartografía de La Literatura Digital Latinoamericana, s.d, tradução nossa) .35 Ambas pesquisadoras utilizam o termo literatura digital e seus estudos possuem importância para a compreensão desta literatura na América Latina, e consequentemente, no Brasil. Tanto Kozak, quanto Gainza possuem inúmeros textos que permeiam sobre o universo da literatura digital, contudo, não foi possível realizarmos a leitura e análise de todos. Sendo assim, realizamos um recorte, selecionando os textos que consideramos mais importantes de acordo com a análise do resumo, título e palavras-chaves. Foi após esta etapa que realizamos a leitura dos textos selecionados na íntegra e trouxemos as análises aqui realizadas. Em um de seus artigos publicados em 2018, cujo título é Comunidades experimentales y literatura digital en Lationoamérica, Claudia Kozak, ao definir o que é literatura digital, dá destaque para a função poética como forma de alegar que esta se trata de uma especificidade da presente literatura quando comparada com a arte digital. No ano seguinte (2019), no artigo Derivas literarias digitales: (des)encuentros entre experimentalismos y flujos culturales masivos, a autora aprofunda sua definição, trazendo outras discussões importantes: Ao postular como objeto de indagação a literatura digital, me refiro a um tipo de produção artística-verbal digital, isto é, que inclua tanto texto como função poética preeminente - não subsidiária de outra funções da linguagem verbal - como mecanismo de produção/circulação/recepção próprios da linguagem dos entorno digitais. Não falo simplesmente de textos literários digitalizados, que poderiam existir sem recurso aos meios digitais e às linguagens de programação. Tão pouco no sentido estrito de textos não programados digitalmente que se difundem através de plataformas digitais como textos que alguém publica em um site web, blog, Instagram ou até mesmo no Twitter (ainda que esta última plataforma permita a difusão de literatura programada, como por exemplo os bots poéticos, textos 35 No original: “una recompilación de obras literarias creadas para los medios digitales, y cuya composición está marcada por el lenguaje de códigos“ (GAINZA, Cartografía de La Literatura Digital Latinoamericana, s.d). 34 Abreviação de Observatório da Literatura Digital Brasileira. 33 Disponível em: https://www.cartografiadigital.cl/ 39 automáticos que se produzem a partir da uma programação algorítmica e se enviam de acordo com uma periodicidade preestabelecida). Falo então de uma arte textual em meios programáveis (Cayley, 2002), de limites difusos e embora me refira aqui à noção de texto verbal digital, permite muito habitualmente a prática de outras linguagens - como por exemplo a audiovisual - integradas com o verbal. (KOZAK, 2019, p.4-5, tradução36 nossa). Neste mesmo artigo de 2019, Kozak também traz explanações sobre a disseminação da literatura digital no mundo, refletindo sobre os motivos que ainda a tornam não tão divulgada em meio a uma cultura em que as tecnologias digitais crescem de forma exponencial e acelerada. Nas palavras da autora: (...) como é que, a esta altura, as culturas digitais atingiram profundamente a vida cotidiana de uma porção importante da população do planeta, incluindo em hábitos de leitura e escrita, mas ao mesmo tempo, a literatura digital permanece quase invisível para a maioria dessa população? (2019, p.2,37 tradução nossa). Um dos motivos que a pesquisadora destaca em resposta a essa questão está relacionado ao mercado, que acaba por condicionar os meios de produção e consequentemente a própria cultura de massa. Cultura essa que devido ao capitalismo, passa a depender de mecanismos rentáveis, contudo, no que se refere à literatura digital são poucas as obras (principalmente no contexto brasileiro) que são comercializadas. Isso nos mostra também que o próprio mercado da literatura digital é constituído de uma forma diferente, mas essa discussão é pertinente para pesquisas futuras. Em outro texto, Esos raros poemas nuevos. Teoría y crítica de la poesía digital lationamericana (2017), Kozak também aborda a marginalização da literatura digital e a 37 No original, em Espanhol: “(...) cómo es que, a esta altura, las culturas digitales han calado hondo en la vida cotidiana de una porción importante de la población del planeta, incluso en relación con hábitos de lectura y escritura y,sin embargo, al mismo tiempo, la literatura digital permanece casi invisible para la mayoría de esa población?” (2019, p.2). 36 No espanhol original: “Al postular como objeto de indagación la literatura digital, me refiero a un tipo de producción artístico-verbal digital, esto es, que incluye tanto texto con función poética preeminente - no subsidiaria de otras funciones del lenguaje verbal - como mecanismo de producción/circulación/recepción propios del lenguaje y los entornos digitales. No hablo simplemente de textos literarios digitalizados, que podrían existir sin recurso a los medios digitales y a los lenguajes de programación. Tampoco en sentido estricto de textos no programados digitalmente que se difunden a través de plataformas digitales como textos que alguien publica en un sitio web, un blog, Instagram o hasta en Twitter (aunque sobre todo esta última plataforma permite la difusión de literatura programada, como por ejemplo los bots poéticos, textos automáticos que se producen a partir de una programación algorítmica y se envían de acuerdo con una periodicidad preestablecida). Hablo entonces de un arte textual en medios programables (Cayley, 2002), de bordes difusos Y si bien remito aquí a la noción de texto verbal digital, entran muy habitualmente en la práctica otros lenguajes - audiovisuales, por ejemplo - integrados con ese lenguaje verbal”. (KOZAK, 2019, p.4-5). 40 relaciona com a falta de reconhecimento de disciplinas das áreas de humanidades, além de dissertar sobre os desafios que dizem respeito à análise de obras literárias digitais: A deslegitimação de linguagens e disciplinas artísticas tem percorrido um longo caminho desde as experimentações das vanguardas históricas que colocavam as artes digitais em diálogo com aquelas que também foram à sua maneira multimídia, diferentemente do que acontece com o experimental tecnológico, com algumas noções das quais me deterei brevemente para marcar uma leitura política deste objeto do que por suas características, poderia provocar leituras sem reflexões, protegidas por um certo fascínio pela novidade tecnológica .38 Para Kozak, apesar de estar diretamente ligada às novas tecnologias, as obras literárias digitais, também necessitam de análises reflexivas, tal como ocorre com a análise de obras impressas. Contudo, a pesquisadora argentina destaca que a maneira como se realiza a leitura das criações digitais exige pensar sobre modos de análise que possam ultrapassar os limites do livro impresso. Isso porque a literatura digital provoca o surgimento de novos objetos culturais, afinal, não é possível ler uma obra não linear e multimodal, da mesma maneira que se lê um livro no papel, por exemplo. Em outras palavras, a análise e reflexão de obras digitais com base em parâmetros consolidados pela literatura impressa pode ser insuficiente para explorar as significações e percepções provocadas pelas criações literárias digitais. Apoiada nessa perspectiva, Kozak argumenta que uma das formas de se analisar tais obras é por meio de uma “Lectura cercana-distante-colabrativa-localizada” (2017). Em síntese, trata-se de uma leitura que interage com os diferentes tipos de abordagem, desde uma leitura que se restringe à reflexão de apenas uma obra, até uma análise que diz respeito a um conjunto de obras ou textos críticos que abordam a literatura digital e novas mídias. Para isso, a autora também menciona o trabalho metodológico elaborado por Franco Moretti (2008) justamente para defender que a análise da literatura digital não pode basear-se de forma restrita apenas na leitura das obras literárias. No que concerne às produções de Carolina Gainza, no artigo Campos literários emergentes: literatura digital en América Latina (2014), a pesquisadora aborda temática 38 No original, em Espanhol: La deslimitación de lenguajes y disciplinas artísticas ha recorrido, por otra parte, un largo camino como mínimo desde las experimentaciones de las vanguardias históricas, lo que ubica a las artes digitales en diálogo con aquellas que también fueron a su manera multimediales y, por el lado de lo experimental tecnológico, con algunas nociones en las que me detendré brevemente para marcar una lectura política de este objeto que por sus características podría invitar a lecturas poco reflexivas, amparadas por cierta fascinación hacia la novedad tecnológica. (KOZAK, 2017, p.4). 41 parecida com o que é discutido por Kozak sobre as formas de se ler literatura digital. Nele, Gainza põe em foco a questão de que a leitura de obras digitais provê experiências “relacionadas com lo lúdico, la interacción, la participación y la formación de comunidades interpretativas” (p.30). Desse modo, ao realizar a análise das obras Word Toys (2006), de39 Belén Gache e Gabriella Infinita (2002), de Jaime Alejandro Rodriguez, a autora exibe as diversas possibilidades de leitura e interação proporcionadas por ambas as obras. Nesse sentido, assim como Kozak, Gainza nos mostra que ler literatura digital é diferente de ler um livro impresso ou digitalizado, portanto, “Uma das características intrínsecas da literatura da literatura digital, como já vimos, é ser interativa. As tecnologias digitais permitem criar um texto manipulável, modificável, móvel, o qual convida leitores a explorar o texto, operá-lo e jogar com ele”. (GAINZA, 2017, p. 34, tradução nossa).40 Por último, também realizamos a leitura do verbete sobre o conceito de literatura digital produzido por Rejane Cristina Rocha, publicado em 2020 no livro no livro Tarefas da Edição. Na apresentação deste livro organizado por Ana Elisa Ribeiro e Cleber Araújo Cabral, os autores alegam que: “Visamos não a estimular uma teoria stricto sensu, mas sugerir reflexões sobre as operações ou tarefas concernentes à produção de objetos de ler (objetos livros ou livros objetos, periódicos digitais ou impressos etc.) que veiculam textos e imagens”.(2020, p.6). Sendo assim, tendo em vista os objetivos destacados, literatura digital também foi considerada um conceito fundamental para o entendimento dos novos objetos literários que surgem no contexto atual de convivência entre a cultura impressa e digital (JENKINS, 20091; BOLTER; GRUSIN, 2000), pois ela também provoca mudanças no campo da edição. Sendo assim, em sua definição Rocha também menciona sobre a instabilidade no campo terminológico desta literatura, alegando que, dentre as dificuldades de se definir o que é literatura digital, está (...) a impossibilidade de adoção de uma terminologia única, e variações podem ser observadas tanto no que diz respeito ao recorte temporal – p. ex. o termo ciberliteratura, embora popular entre meados dos anos 1990 e início dos anos 2000 é, atualmente, muito pouco empregado da bibliografia teórico-crítica sobre o assunto –, quanto no que diz respeito 40 No original: “Una de las características intrínsecas de la literatura digital, como hemos visto, es ser interactiva. Las tecnologías digitales permiten crear un texto manipulable, modificable, movible, el cual invita a los lectores a explorar el texto, operarlo, jugar con él” (GAINZA, 2017, p. 34). 39 Tradução nossa: “relacionadas com o lúdico, a interação, a participação e a formulação de comunidades interpretativas” (GAINZA, 2014, p.30). 42 às regiões geográficas de onde provêm os estudos – p. ex. no contexto norte-americano, adota-se o termo electronic literature (literatura eletrônica); no contexto francês, littérature numérique (literatura numérica); no contexto canadense francófono, littérature hypermédiatique (literatura hipermídia); no contexto latino-americano, tem se consolidado o termo literatura digital. (ROCHA, 2020, p.80-81, grifos nossos). Esta definição desenvolvida por uma pesquisadora brasileira em um livro que conta com verbetes elaborados por pesquisadores vinculados à diversas instituições brasileiras, possui relevância no processo de consolidação da terminologia literatura digital, pois além de contribuir para o processo de institucionalização (EVEN-ZOHAR, 2017) dessa literatura no contexto brasileiro, o verbete também exibe que, dentre as variadas terminologias utilizadas para denominar tal literatura ao redor do mundo, literatura digital foi a escolhida para melhor representar o que é discutido no contexto brasileiro. Além disso, em seu verbete, Rocha também menciona uma definição de literatura digital formulada por Carolina Gainza alegando que A definição proposta por Gainza tem o mérito de prever uma importante especificidade das criações digitais brasileiras recentes, que podem ser analisadas à luz do que Leonardo Flores (2017) identifica como a 3ª geração da literatura digital, aquela que se caracteriza pelo aproveitamento de interfaces já estabelecidas, caracterizadas pelo grande número de usuários, como as redes sociais, p. ex. Isso porque, na definição da estudiosa, distinguem-se as obras que experimentam com o código, criando, simultaneamente à obra, a plataforma/programa que lhe dá formalização material, das obras que fazem uso de plataformas de uso massivo, que não foram criadas com finalidades estético/literárias, mas que são apropriadas e “desprogramadas” pelos autores que, ao fazê-lo, também reconfiguram os gêneros literários estabelecidos pela cultura impressa. (ROCHA, 2020, p.83 -84, grifo nosso). Por meio disso, é possível observar que a pesquisadora opta por utilizar a terminologia literatura digital, pois se trata de um termo relacionado com o atual contexto histórico e tecnológico no qual tal literatura está inserida. À título de exemplo temos a produção de diversas obras presentes no Observatório da Literatura Digital Brasileira que possuem características da poesia concreta produzida no Brasil. Isso nos mostra que, apesar de possuir semelhanças com a literatura eletrônica produzida nos Estados Unidos, a literatura digital produzida no Brasil tem suas especificidades e busca resgatar em suas obras características que fazem parte da cultura literária de nosso país. A pesquisa de iniciação científica realizada por Taciana Gava Menezes (2020), cujo título é Augusto de Campos entre dois séculos: poeta concreto e digital, traz um panorama relevante para essa discussão. Além 43 disso, optar por utilizar literatura digital também dá destaque para uma literatura que é produzida em um país periférico, onde o acesso à internet e aos meios digitais ainda é precário em diversas regiões do país. 5. Digital ou eletrônica? Em seu artigo publicado em 2020 Mídium e mundos éticos: notas sobre a construção do Observatório da Literatura Digital Brasileira, a professora e pesquisadora da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), Luciana Salazar Salgado, discute sobre as mudanças que a literatura digital provoca nos modos de conceitualização e editoração da literatura que, antes tinha como parâmetros a materialidade do impresso. Segundo ela, atualmente tais parâmetros são colocados em xeque pela cultura digital. De acordo com a autora: Em todo caso, (...) o advento da internet e, nela, da web, onde tudo circula como cenografia multimodal que demanda engajamento em um percurso, os objetos técnicos em que se inscrevem os discursos transformaram territórios relativamente estabilizados em terrenos movediços, em pântanos nos quais o próprio literário às vezes se afoga. (2020, p.6, grifo nosso). A partir disso, Salgado também mobiliza questões sobre o conceito de mídum, baseada em estudos realizados por Maingueneau (2008), que os trata não como mídias, mas sim como um objeto de estudo que se dá por meio de mediações. Sendo assim, a autora também menciona Debray (2000), para destacar que tais mediações são feitas através da articulação entre um vetor de sensibilidade e uma matriz de sociabilidade. Com base nesse estudo, entendemos que a matriz de sociabilidade se configura a partir de como a sociedade (pesquisadores, professores, escritores, autores, críticos, etc) realiza a mobilização e compreensão de um determinado conceito. Nesse sentido, ao aplicarmos essa matriz para o nosso contexto de estudo, compreendemos que é ela quem pode determinar a utilização de uma terminologia, um conceito, e até mesmo o repertório da literatura digital. Já o vetor de sensibilidade diz respeito a uma lógica de uso que impõe limitações, ou seja, “regras” para o uso desse repertório e terminologias não sejam utilizadas de maneira “errônea” em outros contextos ou ações. Desse modo, com base nessas discussões, Salgado também aborda a própria instabilidade das terminologias utilizadas para definir a presente literatura digital: 44 No caso do Observatório , que pretende acompanhar a produção literária41 digital brasileira, logo a equipe de pesquisa constatou a inexistência de qualquer compilação de obras e também de qualquer terminologia estabilizada em português para referir essa produção, como se não houvesse nenhuma matriz de sociabilidade que pudesse dar sustentação a essa especificidade. (2020, p. 8, grifo nosso). O que Salazar destaca é que ainda não há uma matriz de sociabilidade consolidada para a literatura digital. Diante dessa ausência de uma matriz de sociabilidade para a literatura digital, a semântica expedicionária do Altas evoca um mundo ético que42 reconhece a necessidade do percurso: nesta etapa, com esse site provisório, onde os conteúdos se movem conforme a pesquisa vai se cenografando, o projeto se assume como instrumental e exploratório. Há saberes e coragem investidos em um desbravamento, é o mundo ético dos bravos que se põem a mapear o desconhecido. (SALGADO, 2020, p.9). É justamente por isso que o presente trabalho e o projeto Observatório da Literatura Digital Brasileira, possuem sua importância, pois tentam contribuir para a consolidação e a criação desta matriz de sociabilidade no contexto brasileiro. O fato de Spalding, Kozak, Gainza, Rocha, dentre outros pesquisadores brasileiros e latino-americanos optarem por utilizar literatura digital, nos mostra que, apesar de utilizar referências norte-americanas, existem pesquisadores que procuram compreender e contribuir para o estabelecimento desta literatura no contexto brasileiro, de forma a evidenciar que ela possui suas especificidades em nosso país. Contudo, é necessário destacar que, embora exista uma diferenciação entre a utilização das terminologias literatura digital e literatura eletrônica, não podemos alegar qual termo é mais correto ou não. No caso norte-americano, por exemplo, a utilização de literatura eletrônica, talvez esteja ligada ao fato de que a ELO e o livro de Hayles (2008) tenham justamente provocado uma matriz de sociabilidade que contribuiu para o destaque da utilização de tal termo. É muito provável que a ELO e Hayles tenham conhecimento da diferenciação que existe entre os termos digital e eletrônico, contudo, o nome da organização e o livro de Hayles já encontram-se fortemente fixados e estabelecidos, afinal, como visto ao longo deste trabalho, são inúmeros os autores que os utilizam como referência para seus 42 Nesta citação a autora se refere ao Atlas da Literatura Digital Brasileira, site desenvolvido antes do Observatório da Literatura Digital Brasileira e que tinha como objetivo documentar os trabalhos que eram desenvolvidos anteriormente ao surgimento do atual arquivo da OLDB. 41 A autora se refere ao projeto do grupo de estudos do Observatório da Literatura Digital Brasileira. 45 estudos. Mudar a terminologia para literatura digital no contexto norte-americano talvez não fosse algo produtivo, principalmente se pensarmos no contexto da ELO, que teria que realizar diversas mudanças em seu site, em termos de alteração de links, textos, e até mesmo no nome da própria instituição que já é conhecida mundialmente. Situação parecida vem acontecendo no contexto brasileiro. Marcelo Spalding criou o seu site com a terminologia literatura digital e sua página ganha destaque e é influência para diversos pesquisadores brasileiros. Rejane Cristina Rocha, Claudia Kozak e Carolina Gainza, vêm construindo projetos que têm como termo principal literatura digital, e portanto, são esses projetos que ganham destaque no contexto brasileiro e contribuem para o emprego desta terminologia em nosso país. Além disso, o fator tempo é outro aspecto que pode nos ajudar a compreender essa diferenciação de usos terminológicos. Em Poesia digital: negociações com os processos digitais (2010), um dos livros mais referenciados nas referências bibliográficas dos 12 textos mapeados na pesquisa anterior, Jorge Luiz Antonio realiza, de forma breve, uma análise sobre o uso da terminologia digital e eletrônica. Isso porque, na primeira publicação, em 2005, seu livro levava como título Poesia eletrônica: negociações com os processos digitais, contudo, na atual publicação de 2010, o nome foi alterado para Poesia digital, pois, nas palavras do autor: Cada denominação traz consigo um componente tecnológico de um determinado momento e, de certa forma, traz poucas semelhanças com outro componente que surgirá em seguida. Assim, adotamos a terminologia de poesia digital por diversas razões: é a mais abrangente, pois engloba experimentações poéticas com outros processos eletrônico-digitais; é a mais aceita por poetas, grupos de poetas e pesquisadores; é tema central de congressos, títulos de livros e antologia; etc. (2010, p.56, grifo nosso). Logo, apesar de apresentar um conteúdo que envolve a poesia e não a literatura digital, as discussões de Antonio nos trazem informações relevantes que nos ajudam a compreender a utilização de nomenclaturas diferentes para explicar uma mesma literatura. Com base nisso, compreendemos que existe a possibilidade de que cada autor utilize a terminologia que tenha relação com o contexto atual, e que portanto, tais nomenclaturas vêm acompanhando o desenvolvimento das novas tecnologias e aquilo que encontra-se em evidência na época em que está sendo realizada uma determinada pesquisa. Em 1999, quando a ELO surgiu, o termo eletrônico era o que estava em evidência. Em contrapartida, o projeto 46 Observatório da Literatura Digital tem seu surgimento em 2018 e perdura até os dias atuais, momento em que a era e cultura digital possuem maior destaque. Abaixo é possível observar a captura de tela com a linha do tempo que realizamos sobre a terminologia literatura digital que também está disponível no seguinte link: https://whimsical.com/literatura-eletronica-e-literatura-digital-2DphNXtAn9hrwaYQqKEaBv Figura 7: Captura de tela da linha do tempo da terminologia literatura digital. Fonte: Elaborado pela autora, 2022. 47 Parte IV - Estudo da terminologia ciberliteratura 1. Sobre o uso desta terminologia São apenas três as produções que mobilizam ciberliteratura, sendo eles os textos 3, 9 e 19. Apesar de serem datados dos anos 2014, 2009 e 2018, respectivamente, a presente nomenclatura é mobilizada para se referir a obras ou fazer referência a artigos que foram publicados no início do século XXI, por volta dos anos 1997 a 2003. No artigo de número 3, as autoras Analice de Oliveira Martins e Penha Élida Ghiotto Tuão Ramos, utilizam o termo em três contextos, o primeiro deles é para mencionar as várias nomenclaturas utilizadas para definir a literatura digital, já no segundo, é para apresentar uma breve definição de ciberliteratura formulada por Pedro Barbosa no artigo O computador como Máquina Semiótica, publicado em 2003. No terceiro contexto, as autoras também mobilizam um texto de Lúcia Santaella, intitulado Para compreender a ciberliteratura (2012). No texto 9, o termo é abordado para classificar os poemas digitais do site www.ciberpoesia.com.br, que foram lidos por alunos do Ensino Fundamental I durante um experimento realizado pelas autoras Diane Blank Benck e Flávia Brocchetto Ramos. A obra Ciberpoesia ou Ciberpoemas (nome que constava na página inicial do site) está entre as obras mais citadas nos 22 artigos e ensaios mapeados pela pesquisa de Cartografia da Produção Crítica (GRITTI, 2020) e trata-se de um site que apresenta poemas visuais e poesias digitais interativas, multimodais e hipertextuais, realizadas pelos autores Sérgio Capparelli e Ana Cláudia Gruszynski, publicados no ano 2000 .43 Por fim, no artigo 19, a nomenclatura é utilizada para realizar discussões sobre os “novos horizontes abertos pela ciberliteratura” (MARCOLINO, 2018, p.10), sem oferecer uma explicação do que está de fato se considerando por ciberliteratura, talvez porque o foco do texto esteja mais ligado à análise de poesias digitais de Augusto de Campos sob o campo da linguística e da semiótica do que a uma discussão centralizada nos princípios da literatura 43 Devido à obsolência do reprodutor de mídia Flash Player em 2021 a obra não encontra-se mais disponível, no entanto, é possível encontrar a sua documentação no site do Observatório da Literatura Digital por meio do seguinte link: https://www.observatorioldigital.ufscar.br/repositorio-da-literatura-digital-brasileira?view_mode=masonry&perp age=12&paged=1&order=ASC&orderby=date&fetch_only=thumbnail%2Ccreation_date%2Ctitle%2Cdescripti on&fetch_only_meta=&taxquery%5B0%5D%5Btaxonomy%5D=tnc_tax_8246&taxquery%5B0%5D%5Bterms %5D%5B0%5D=338&taxquery%5B0%5D%5Bcompare%5D=IN 48 digital. As obras digitais mencionadas no artigo foram publicadas entre os anos 1997 (Poema Bomba) e 2000 (SOS). 2. Metodologia de estudo da terminologia ciberliteratura Devido à dificuldade em encontrar textos que realizassem discussões voltadas para uma explicação que justificasse o uso do termo ciberliteratura, para a realização deste estudo, realizamos a procura de textos que são citados nas referências bibliográficas dos três artigos (textos 3, 9 e 19) que mobilizam a presente terminologia. Contudo, encontramos referências apenas no texto 3, mesmo assim, tais produções foram relevantes e nos ajudaram a traçar um primeiro caminho para o entendimento e construção de uma genealogia dessa terminologia. Sendo assim, realizamos a leitura dos seguintes artigos: ● O computador como máquina semiótica - Pedro Barbosa (2003); ● A criação assistida por computador - a ciberliteratura - José Augusto Mourão (2001); ● Para compreender a ciberliteratura - Lucia Santaella (2012); Após isso, também fizemos a leitura e análise do livro Cibercultura, de Pierre Lévy (1999), e do artigo Cibernética como discurso fundador da discursividade digital, (2016), de Benedito Fernando Pereira. Estas duas últimas produções foram lidas com o intuito de nos ajudar a compreender a utilização do prefixo ciber como um dos objetos influenciadores para a utilização da terminologia ciberliteratura. 3. Análise dos textos lidos Em O computador como máquina semiótica (2003), o pesquisador português Pedro Barbosa realiza discussões sobre o desenvolvimento da literatura mediante o surgimento e desenvolvimento do computador, o qual trata como uma máquina semiótica utilizada como extensora de sentidos e manipuladora de sinais. O computador no seu todo (hardware mais software) equivale a uma “máquina semiótica” criadora de informação nova, o que conduz a uma alteração profunda em todo o circuito comunicacional da literatura no que concerne à criação, ao suporte e à circulação da mensagem. (BARBOSA, 2003, p. 5). 49 Por meio disso, o autor mobiliza o livro Cibercultura (1999), de Pierre Lévy, a fim de destacar as discussões realizadas pelo escritor francês acerca do ciberespaço, pois o mesmo se trata da rede comunicacional (LÉVY, 1999) onde ocorrem as mudanças no paradigma da escrita e leitura (causada pela extensão de sentidos) provocadas pelo computador. Também o texto típico do ciberespaço apresenta características próprias que o desviam do paradigma gutemberguiano, do texto linear clássico: em primeiro lugar a textura plurissígnica, depois a estrutura hipertextual em rede e por fim a interactividade acolhendo nele a imersão activa de um sujeito “navegador”. (BARBOSA, 2003, p. 4). Nesse sentido, após abordar a relação entre o computador enquanto máquina semiótica e o ciberespaço, Barbosa passa a realizar discussões sobre a ciberliteratura, tratando de destacar as mudanças que ela provoca na tradição literária, pois a mesma não apresenta necessariamente uma leitura linear, mas provoca o surgimento de outros objetos tais quais o hipertexto e a interatividade, tudo isso pois encontra-se no contexto do ciberespaço. Desse modo, além de utilizar ciberliteratura, o autor português também mobiliza outras duas nomenclaturas para definir a literatura digital, evidenciando mais uma vez a instabilidade dos termos utilizados para definir e nomear tal literatura: Num tão extenso e tão instável domínio tentarei ser o mais conciso possível. Literatura Gerada por Computador (LGC), Infoliteratura ou Ciberliteratura são termos que designam um procedimento criativo novo, nascido com a tecnologia informática, em que o computador é utilizado, de forma criativa, como manipulador de signos verbais e não apenas como simples armazenador e transmissor de informação, que é o seu uso corrente. Tal uso criativo do computador, extensível de forma geral à Arte Assistida por Computador e à Ciberarte (composição musical, criação de imagens sintéticas, cinema animado por computador, etc.), varia consoante as potencialidades gerativas do algoritmo introduzido nos programas. Tais programas assentam normalmente num algoritmo de base combinatória, aleatória, a estrutural, interactiva ou mista (combinando uma ou várias destas modalidades) (Barbosa 1998, p.4, grifos nossos). Como podemos notar acima, a definição formulada por Barbosa, apesar de ser datada de 1998, possui relação com as definições de outros autores que apresentamos até o momento, mas que utilizam nomenclaturas diferentes. No texto seguinte, intitulado A criação assistida por computador (2001), o especialista em semiótica e hiperficção, José Augusto Mourão (1947-2011), realiza apontamentos, divididos em 20 tópicos, sobre as possibilidades de criação e combinação 50 literárias, artísticas e textuais proporcionadas pelo uso do computador. Nesse artigo, o que mais nos chamou atenção é que, logo no início, Mourão menciona Pedro Barbosa como um dos precursores “no campo daquilo a que o advento da informática abriu a literatura um novo horizonte de criação e de recepção [ao] que se chama “ciberliteratura” ou “literatura ergódica””. (2001, s.p). A partir disso, a leitura deste, e do texto citado nos parágrafos anteriores deste tópico, nos mostrou que Pedro Barbosa tem papel importante na formação da rede conceitual da terminologia ciberliteratura. Além disso, outra discussão relevante realizada por Mourão diz respeito à seguinte citação por ele utilizada e que foi formulada por Jean-Pierre Balpe: Qualquer que seja o combate, não há dúvida que toda a literatura é determinada "pelas ideologias das culturas em que se inscreve, com as quais as suas formas correm o risco de desaparecer e pelos dispositivos tecnológicos que permitem a sua mediatização" (MOURÃO, 2001, n.p apud Jean-Pierre Balpe, s.d, n.p, grifo nosso). Desse modo, Mourão defende, assim como vimos em Hayles (2008), que a literatura é determinada pela cultura e pelos processos que estão ocorrendo no momento em que ela é discutida. A partir disso entendemos portanto, que a utilização de uma nomenclatura está ligada ao que está em voga em uma determinada cultura e que a sua instabilidade também está vinculada ao fato de que ainda não há em nossa sociedade uma determinação plenamente estabelecida de qual termo é mais apropriado para definir a literatura digital. Se voltarmos para o texto de Salazar (2020), é possível reforçarmos novamente a ausência de uma matriz de socialização que estabeleça a utilização de uma única terminologia. Talvez nossa matriz de socialização esteja voltada justamente para utilização de várias terminologias que se enquadrem com o que é discutido em cada texto. 3.1 Para compreender a ciberliteratura - Lucia Santaella Separamos este texto (2012) de Lucia Santaella em um subtópico diferente, pois a partir da leitura deste artigo compreendemos que a autora utiliza a nomenclatura ciberliteratura sob uma perspectiva diferente da que os autores anteriormente citados definem. Neste artigo, a pesquisadora especializada em semiótica, Lucia Santaella, discorre sobre a expansão da definição do conceito de literatura provocada pelo espaço virtual gerado pelas “redes de computadores [que] funcionam como um novo meio” (SANTAELLA, 2012, p.229). A partir disso, o objetivo principal do seu artigo é realizar uma exploração da 51 ciberliteratura e suas relações com a cultura impressa, principalmente no que ela difere da era de Gutenberg. Contudo, a autora também utiliza as terminologias literatura eletrônica e literatura digital. Sobre a utilização de diferentes terminologias, a autora menciona que: São muitos os nomes que a literatura no ciberespaço e a profusão quantitativa e qualitativa de seus formatos, protótipos e estilos vêm recebendo, tais como: literatura gerada por computador, literatura informática, infoliteratura, literatura algorítmica, literatura potencial, ciberliteratura, literatura generativa, hiperficções, texto virtual, geração automática de texto, poesia animada por computador, poesia multimídia (SANTAELLA, 2012, p.230-231, apud, MOURÃO, 2001, p. 4; COSTA SANTOS, 2010). Na tentativa de definir a ciberliteratura a autora faz menção ao pesquisador Viires (2006, p.2): (a) Todos os textos literários disponíveis nas redes, cobrindo tanto a prosa quanto a poesia que aparecem em sites e blogs de escritores profissionais, em antologias digitais e em revistas literárias online. (b) Textos literários não profissionais disponíveis na internet, cuja inclusão na análise literária expande as fronteiras da literatura tradicional. Aqui a rede funciona, antes de tudo, como um espaço independente de publicação, abraçando os sites de escritores amadores, portais de grupos de jovens autores ainda não reconhecidos. Também se incluem aqui as periferias da literatura, como a ficção fanzine, textos baseados em games e narrativas coletivas online. (c) Literatura hipertextual e cibertextos que incluem textos literários de estrutura mais complexa, explorando várias soluções possíveis de hipertextos e intricados cibertextos multimídia que fazem a literatura misturar-se com as artes visuais, vídeo e música. (apud SANTAELLA, 2012, p. 231). Nesse sentido, entendemos que, diferentemente dos autores citados acima, Santaella deixa evidente o seu conhecimento sobre as diversas nomenclaturas utilizadas para definir a literatura digital, mas utiliza o termo ciberliteratura com maior frequência. Não sabemos ao certo os motivos que a levaram a utilizar tal vocábulo em detrimento de outro, uma de nossas suposições é de que a autora o utilize, pois seus estudos estão voltados para área da linguística e semiótica, tal qual acontece com o texto 19. 52 4. Cibercultura, Ciberespaço e Cibernética Como visto nos textos discutidos neste tópico, a maioria faz referência a obras e textos mais antigos. No primeiro deles, Barbosa faz referência a uma definição formulada por ele que é datada de 1998 referente a seu texto A renovação do experimentalismo literário na Literatura Gerada por Computador . Já no artigo de José Augusto Mourão, a terminologia também é utilizada em data muito próxima à 1998, que é o ano de 2001. Além disso, o próprio autor também menciona Pedro Barbosa. Mediante isso, observamos que se tratam de datas em que os termos ciberespaço, cibercultura e cibernética, estavam em voga no vocabulário acadêmico e científico relacionado à cultura digital. A partir disso, podemos notar que as terminologias mobilizadas para definir a literatura que aqui estudamos vêm sendo modificadas ao longo dos anos, acompanhando o desenvolvimento e surgimento de novos objetos ligados à cultura digital e que o fato de o termo ciberliteratura ter sido mobilizado para se referir a textos e obras do início do século XXI pode ser também justificado por causa da popularização do prefixo ciber no início dos anos 2000. Nesse sentido, tendo em vista a mobilização do livro Cibercultura (1999 ) de Pierre44 Lévy, por vários autores que realizam estudos sobre a literatura digital, tais quais Pedro Barbosa (2003), Marcelo Spalding (2012), José Augusto Mourão (2001), Rejane Rocha (2016) dentre outros, decidimos realizar a leitura desta produção a fim de procurar entender os conceitos de cibercultura e ciberespaço, e além disso, tentar entender os prenúncios da utilização do prefixo ciber para definir objetos que surgiram por meio do desenvolvimento da cultura digital. Sendo assim, em seu livro, Lévy (1999) realiza discussões sobre os dois conceitos acima mencionados, justamente para abordar “as implicações culturais do desenvolvimento das tecnologias digitais de informação e de comunicação”. (p.17). De acordo com o autor, O ciberespaço (que também chamarei de “rede”) é o novo meio de comunicação que surge da interconexão mundial de computadores. O termo especifica não apenas a infra-estrutura material da comunicação digital, mas também o universo oceânico de informações que ela abriga, assim como os seres humanos que navegam e alimentam esse universo (grifos nossos, p.17). 44 Data da primeira edição. 53 Para o autor francês, o ciberespaço agrega não apenas o computador enquanto máquina, mas abriga também todas as comunicações e interconexões que ele proporciona por meio de seu hardware, software, sistemas operacionais, internet e até mesmo o homem que utiliza essa ferramenta/meio. O ciberespaço é a junção de todos esses componentes que proporcionam a interligação de uma rede de comunicação universal, o que consequentemente ocasiona também mudanças nos paradigmas de escrita e de leitura. Após apresentar uma primeira definição do conceito explorado no parágrafo anterior, Lévy apresenta sua definição sobre cibercultura e destaca que ela está totalmente interligada ao ciberespaço, pois trata-se de um relação de retroalimentação, na qual um conceito depende do outro para existir. Desse modo, o escritor alega que “quanto ao neologismo “cibercultura”, especifica aqui o conjunto de técnicas (materiais e intelectuais), de práticas, de atitudes, de modos de pensamento e de valores que se desenvolvem juntamente com o crescimento do ciberespaço” (LÉVY, 1999, p.17, grifo nosso). Sendo assim, cibercultura diz respeito às relações provocadas por meio do ciberespaço, ou seja, ela emerge por meio do surgimento de novos componentes, comportamentos, relações sociais e dentre outros aspectos que causam mudanças culturais na sociedade, provocadas pelas interconexões que se dão no ciberespaço. Os dois conceitos discutidos até então estão ligados à literatura digital, pois ela está presente no ciberespaço e, portanto, faz parte da cibercultura. Ambas terminologias são utilizadas até o presente momento, mas foram difundidas entre os anos 1998 e 2000, quando o prefixo “ciber” estava em voga e era utilizado em diversos contextos. Para aprofundar nossas discussões, encontramos por meio de pesquisas no Google Scholar, o artigo A cibernética como discurso fundador da discursividade digital (2016) de Benedito Fernando Pereira. Nele o autor trata a cibernética como termo difusor do discurso que gira em torno das tecnologias digitais: No séc. XX, a Cibernética é herdeira dessa forma matematizada de ver o mundo e, ao mesmo tempo, difusora da sua ideologia para as demais ciências. É a partir daí que se instaura o paradigma tecnológico que em nossos dias redefine as formas de relações sociais em todos os âmbitos de sua vida. Neste texto, traçamos uma breve história da Cibernética, tomando-a como acontecimento discursivo, e procuramos expor alguns elementos que nos permitam afirmar ser ela o discurso fundador da discursividade digital contemporânea. (PEREIRA, 2016, p. 52). 54 De acordo com Pereira, a cibernética foi fundada em 1948 pelo matemático Norbert Wiener e em resumo, tem como principal característica a tentativa de controlar as máquinas e o seres vivos com o intuito de entender as relações que se dão entre os mecanismos de comunicação desses dois agentes (máquina e homem). A partir dela, o autor defende que a terminologia cibernética foi muito difundida para explicar diversos mecanismos e objetos que surgiram por meio do desenvolvimento das novas tecnologias. A apropriação da ideologia cibernética ganhou dimensões maiores, e aparecem hoje como resultado desse processo, naturalizadas no meio social e presentes em termos compostos pelo prefixo “ciber-” (ou cyber-), como em ciberespaço, cibercafé, ciberativismo etc. A discursividade cyber passou a circular e a fazer sentido, e se popularizou, sobretudo, impulsionada pela mídia e pelas novas tecnologias. (PEREIRA, 2016, p.59). (...) Assim, palavras compostas pelo prefixo “e-” ou pelo prefixo “ciber-”, são constitutivas da memória discursiva de todo esse processo histórico que aqui expomos, e constituem a materialidade linguística de uma interpelação discursiva a que o sujeito está exposto e que passa a determinar seus modos de ser em sociedade. (PEREIRA, 2016, p. 59). Mediante isso, e tendo em vista que os textos 3, 9 e 19 do nosso corpus que mobilizam ciberliteratura utilizam a terminologia para a associarem a obras e textos que datam do início do século XXI, concluímos que a presente terminologia é utilizada justamente devido a essa influência que a cibernética e o prefixo “ciber” possuem. No texto 9, por exemplo, a própria obra que as autoras mencionam, Ciberpoesia, e que é datada do ano 2000, leva esse prefixo. Além disso, a cibercultura e o ciberespaço foram de grande influência para diversos pesquisadores e fornecem estudos importantes que nos ajudam a compreender o desenvolvimento da literatura digital, não se restringindo apenas para o estudo da terminologia ciberliteratura. Por fim, no seguinte link: https://whimsical.com/rede-conceitual-da-literatura-digital-brasileira-2DphNXtAn9hrwaYQq KEaBv é possível encontrar a linha do tempo que construímos sobre a terminologia ciberliteratura. 55 Figura 8: Captura de tela da linha do tempo da terminologia ciberliteratura. Fonte: Elaborado pela autora, 2022. 4.1 Persistência do termo Durante nossos estudos sobre ciberliteratura, nos encontramos frente ao seguinte questionamento: o que faz com que esse termo seja mobilizado em textos atuais, mesmo que seja utilizado para realizar discussões sobre obras ou produções que datam do início do século XXI? Como dito anteriormente, nossa primeira hipótese é a de que nos textos em que foram mobilizados o termo ciberliteratura é utilizado para realizar discussões sobre obras que datam do início do século XXI. A segunda hipótese está relacionada à instabilidade no campo da literatura digital, que ainda não apresenta uma metalinguagem plenamente estabelecida, portanto, cada autor utiliza a terminologia que condiz com os estudos que realiza. No texto 9 por exemplo, o foco não era a literatura digital em si, mas sim abordar discussões sobre as mudanças no paradigmas de leitura no meio impresso e digital. Já no texto 19, os autores fazem essa análise de obras digitais de Augusto de Campos a partir dos estudos em Semiótica da Cultura e no procedimento da semiótica aplicada, sendo ciberliteratura mobilizada apenas uma vez, sem grandes aprofundamentos do que significa o termo. Se olharmos o gráfico da pesquisa anterior (Anexos 1, 2, 3, 4, 5 e 6), podemos observar uma quantidade extensa de conceitos que são utilizados para nomear essa literatura. Estudos futuros, com um corpus mais abrangente, poderão nos mostrar mais respostas sobre essas questões. 56 5. Considerações finais - Desenvolvimento tecnológico e processo de institucionalização Todas as produções destacadas ao longo desta pesquisa possuem importância não apenas para o estudo das terminologias aqui estudadas, mas para a literatura digital e os objetos que surgem e se desenvolvem por meio dela. Contudo, como visto nos dados da fortuna crítica e do levantamento das referências bibliográficas, aquelas que mais se destacam são a ELO e o livro Literatura eletrônica: novos horizontes para o literário, de Hayles. Ambas são produções que se desenvolveram nos Estados Unidos, país que se encontra no centro do desenvolvimento tecnológico. Como mencionado na introdução deste trabalho, em seu livro Polisistemas de Cultura (2017), o teórico israelense Itamar Even-Zohar realiza uma discussão sobre a formação do polissistema literário (que é dinâmico e está em constante formação) e os fatores, internos e externos, que o compõem. Sobre a discussão de polissistema, a pesquisadora brasileira em literatura digital, Rejane Rocha (2021, p. 29) discute que: A literatura, compreendida como sistema, pressupõe a temporalidade longa: o tempo da criação da obra, da sua fruição, da sua inserção em circuitos de legitimação e, por fim, da sua transformação em repertório que vai estimular outras criações, provocar outras leituras e, assim, sucessivamente. Além disso, para Even-Zohar, o polissistema literário não compreende apenas as obras que o compõem, mas um conjunto de atividades chamadas literárias que também o constituem. Dentre essas atividades está o fator literário denominado por Even-Zohar como instituição. (...) o eixos da "vida literária” (byt; Ejchenbaun 1929: especialmente 49-86 y 109-114; 1971), isso é, a instituição literária (como por exemplo, ideologias literárias, editoras, crítica, grupos literários, ou qualquer outro meio que tem por intuito ditar pautas ou fornecer normas), ainda que inegavelmente se comportem como sistemas socioculturais semi-independentes que obedecem suas próprias leis, devem também serem reconhecidos como fatores integrados do sistema literário propriamente dito . (EVEN-ZOHAR, 2017, p.16, tradução nossa).45 45 No espanhol: “(...) los hechos de la “vida literaria” (byt; Ejchenbaun 1929: especialmente 49-86 y 109-114; 1971), esto es, la institución literaria (constituida por, ejemplo, ideologías literarias, casa editoras, crítica, grupos literarios, o cualquier otro medio para dictar pautas de gusto o dar normas), aunque innegablemente se comportan como sistemas socio-culturales semi-independientes que obedecen sus propias leyes, deben también reconocerse como factores integrales del sistema literario propiamente dicho”. (EVEN-ZOHAR, 2017, p 16). 57 A partir disso, compreendemos que a instituição é aquela que por meio de seus agentes (universidades, periódicos científicos, pesquisas, prêmios literários, editoras, etc) permite a legitimação de um objeto como parte da produção literária. Em outras palavras, a instituição é elemento fundamental para a consolidação do repertório da literatura digital. De acordo com Even-Zohar, Um “repertório”, portanto, pode ser o conhecimento compartilhado necessário tanto para produzir (e entender) um “texto”, como para produzir (e entender) vários outros produtos do sistema literário. Pode haver um repertório para ser “escritor”, outro para ser “leitor” e inclusive outro para “como comportar-se perante um agente literário”, e assim por diante. Tudo isso deve ser claramente reconhecido como “repertório literário” .46 (EVEN-ZOHAR, 2017, p.42). O repertório diz respeito aos objetos, conceitos, obras, livros teóricos, periódicos, discussões acadêmicas e demais conhecimentos que são utilizados para se discutir uma literatura. Já a instituição é o fator que permite que esse repertório faça parte de e consolide um determinado polissistema literário. É a partir desse raciocínio que se pode compreender a importância da ELO no que concerne ao fortalecimento do polissistema literário da literatura digital, pois se trata de uma organização que conta com apoio de universidades, pesquisas acadêmicas, textos teóricos e demais materiais que fazem parte do fator instituição e da formação do polissistema da literatura digital. O mesmo acontece com o livro de Hayles, pois ele surgiu por meio do desenvolvimento de pesquisas que aconteceram no âmbito da ELO e foi publicado por uma pesquisadora que faz parte do ambiente universitário e acadêmico .47 Acreditamos, também, que a presente pesquisa cumpre o papel de instituição no interior do polissistema literário, pois se trata de um trabalho baseado em conceitos mobilizados por artigos e ensaios que foram publicados em periódicos que fazem parte de grandes instituições acadêmicas espalhadas por todo o Brasil. Contudo, diferentemente do contexto norte-americano, a literatura digital brasileira ainda não possui o mesmo destaque que a literatura digital (ou eletrônica) dos EUA, pois 47 Katherine Hayles é professora e diretora de estudos de pós-graduação no programa de literatura da Duke University, EUA. 46 No espanhol: “Un "repertorio", por tanto, puede ser el conocimiento compartido necesario tanto para producir (y entender) un "texto", como para producir (y entender) varios otros productos del sistema literario. Puede haber un repertorio para ser "escritor", otro para ser "lector" e incluso otro para "comportarse como se esperaría en un agente literario", y así en adelante. Todos éstos deben ser claramente reconocidos como "repertorios literarios"”. (EVEN-ZOHAR, 2017, p.42). 58 estudá-la em um contexto periférico, no qual o desenvolvimento tecnológico ainda é precário em muitas regiões brasileiras, torna nossos trabalhos ainda mais desafiadores. O texto 11, de Alamir Aquino Corrêa (2016) nos traz inclusive uma reflexão crítica sobre “a premissa da ubiquidade do acesso, quando em boa parte das comunidades [brasileiras] há sequer eletricidade” (p.120). Além disso, para o autor, (...) o grande avanço proporcionado pelas tecnologias de informação contemporâneas é o aumento do número de fontes disponibilizadas e a “instantaneidade” de seu acesso, cada vez menos admirável. Para muitos, apesar das críticas, chegamos a uma sociedade do conhecimento, que aproximou um enorme conjunto de pessoas, grupos e nações, mas, novamente, concentra o poderio nas mãos da Europa, dos Estados Unidos e do Canadá. (CORRÊA, 2016, p.122, grifo nosso). Em vista disso, apesar do avanço tecnológico e das mudanças positivas que ele provocou em nossa sociedade, o poder e desenvolvimento tecnológicos são capitaneados por poucos países (atualmente, por grandes corporações criadas e sediadas em poucos países) Como prova disso, temos o destaque de duas produções norte-americanas (ELO e o livro de Hayles (2008)) em estudos que envolvem o contexto brasileiro. Por fim, outro aspecto destacado por Even-Zohar é o fato de que muitas vezes reduz-se a heterogeneidade de um determinado fenômeno apenas àquilo que lhe é dominante, não se dando atenção a outros sistemas e fatores que também estão ao redor dele. Nesse sentido, se considerarmos a literatura digital/eletrônica/ciberliteratura, temos sim um fator dominante, que é a literatura eletrônica dos EUA, no entanto, não podemos desconsiderar os (poli)sistemas que estão ao seu redor, principalmente aqueles que estão à margem do desenvolvimento tecnológico. É justamente aí que entra a literatura digital brasileira, que possui relação direta com a literatura digital/eletrônica, pois é fortemente influenciada pela mesma, mas possui suas especificidades. 59 REFERÊNCIAS AFFONSO, Giovanna Maria Zago. Literatura digital brasileira: a perspectiva dos criadores (CNPq). ICT/SR Iniciação Científica. 2021. Centro de Educação e Ciências Humanas, Universidade Federal de São Carlos, 2021. ANTONIO, Jorge Luiz. Poesia digital: Negociações com os processos digitais - teoria, história, antologias. Navegar editora, 2010. BARBOSA, Pedro. O computador como Máquina Semiótica. Ciberscópio, Coimbra, v. 2, n. 2, p. 1-25, maio 2003. Disponível em: https://po-ex.net/pdfs/clit_06.pdf. Acesso em: 05 mar. 2022. BENCK, Diane Blank; RAMOS, Flávia Brocchetto. O efeito do suporte e as estratégias leitoras do texto poético na leitura poemática infantil. Signo, Santa Cruz do Sul, v. 34, n. 56, p. 64–79, 2009. 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Anexo 2 - Parte 2 - Conceitos mobilizados Fonte: elaborado pela autora, 2020. 65 Anexo 3 - Parte 3 - Conceitos mobilizados Fonte: Elaborado pela autora, 2020. Anexo 4 - Parte 4 - Conceitos mobilizados Fonte: Elaborado pela autora, 2020. 66 Anexo 5 - Parte 5 - Conceitos mobilizados Fonte: Elaborado pela autora, 2020. Anexo 6 - Obras digitais mobilizadas Fonte: Elaborada pela autora, 2020. 67