Universidade Federal de São Carlos
Centro de Educação e Ciências Humanas
Programa de Pós-Graduação em Imagem e Som
Crowdfunding no Brasil:
um estudo sobre a plataforma Catarse
Carlos Eduardo Magalhães Vieira de Aguiar
São Carlos/SP
2016
Carlos Eduardo Magalhães Vieira de Aguiar
Crowdfunding no Brasil:
um estudo sobre a plataforma Catarse
Dissertação apresentada ao Programa de Pós-
Graduação em Imagem e Som, do Centro de
Educação em Ciências Humanas, da Universidade
Federal de São Carlos, como parte dos requisitos para
a obtenção do título de Mestre em Imagem e Som.
Linha de pesquisa: História e políticas do audiovisual
Orientador: Prof. Dr. Arthur Autran Franco de Sá Neto
São Carlos/SP
2016
Ficha catalográfica elaborada pelo DePT da Biblioteca Comunitária UFSCar
Processamento Técnico
com os dados fornecidos pelo(a) autor(a)
A282c
Aguiar, Carlos Eduardo Magalhães Vieira de
Crowdfunding no Brasil : um estudo sobre a
plataforma Catarse / Carlos Eduardo Magalhães Vieira
de Aguiar. -- São Carlos : UFSCar, 2016.
182 p.
Dissertação (Mestrado) -- Universidade Federal de
São Carlos, 2016.
1. Crowdfunding. 2. Crowdsourcing. 3.
Financiamento coletivo. 4. Financiamento
colaborativo. 5. Financiamento da multidão. I.
Título.
Fomento: Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes)
Para as companheiras Sarah e Pin
Resumo
No final do século XX e início do século XXI, com o advento das tecnologias digitais,
a proliferação da internet e o barateamento dos equipamentos audiovisuais,
surgiram novas opções para se produzir, distribuir e exibir filmes. Entre essas
opções, destaco a prática do crowdfunding, um dos modelos de crowdsourcing,
como possibilidade alternativa de financiamento do cinema nacional. Mesmo assim,
essa ainda é uma prática recente e pouco conhecida no país, com muitas
plataformas sendo lançadas e também fechadas, e com a grande maioria de
projetos financiados concentrada especialmente na região sudeste. A presente
dissertação buscou discutir esse cenário, tendo como ponto de partida os autores
Jeff Howe e Henry Jenkins, bem como pesquisas acadêmicas brasileiras sobre
crowdfunding publicadas até agosto de 2015. Os objetos de estudo foram a
comunidade on-line Crowdfunding BR e a plataforma brasileira de crowdfunding
Catarse, com enfoque nos projetos desta plataforma pertencentes à categoria
denominada Cinema e Vídeo. O resultado aponta dados capazes de ampliar a
compreensão do leitor e estimular sua visão crítica acerca dessa prática, partindo da
apresentação de suas origens, modo de organização, difusão ao redor do mundo e
inserção no Brasil, possibilitando o entendimento do contexto atual e dos potenciais
ainda pouco explorados pelo crowdfunding no país.
Palavras-chave: crowdfunding; crowdsourcing; financiamento coletivo;
financiamento colaborativo; financiamento da multidão; Cinema e Vídeo; filmes;
cinema brasileiro; Catarse; Crowdfunding BR.
Abstract
At the end of the twentieth century and early twenty-first century, with the advent of
digital technologies, the proliferation of the Internet and the cheapening of
audiovisual equipment, new options have emerged to produce, distribute and show
films. Among these options, highlight the practice of crowdfunding, one of
crowdsourcing models, as an alternative possibility of national film funding.
Nevertheless crowdfunding still a recent practice and little known in the country, with
many platforms being launched and also closed, and the vast majority of funded
projects are especially concentrated in the southeast region. This thesis sought to
discuss this scenario, taking as its starting point the authors Jeff Howe and Henry
Jenkins, and also Brazilian academic research on crowdfunding published until
August 2015. The study subjects were the online community Crowdfunding BR and
Brazilian platform of crowdfunding Catarse, focusing on projects of this platform in
the category named Film and Video. The result indicates datas able to expand the
reader's understanding and stimulate critical view of this practice, based on the
presentation of its origins, organization mode, propagation around the world and it
insertion in Brazil, making possible the understanding of the current context and the
potential not yet explored of crowdfunding in the country.
Keywords: crowdfunding; crowdsourcing; collective financing; collaborative funding;
Film and Video; movies; Brazilian cinema; Catarse; Crowdfunding BR.
Lista de ilustrações
Figura 1 – Arrecadação global do crowdfunding p. 14
Figura 2 – Número de plataformas de crowdfunding no mundo p. 18
Figura 3 – Copyleft: logomarca e definição p. 27
Figura 4 – Licenças CC disponíveis na internet p. 29
Figura 5 – Tirinha sobre o usuário da internet p. 32
Figura 6 – Tirinha satírica p. 33
Figura 7 – Paradigma do crowdsourcing p. 37
Figura 8 – Modelos de crowdsourcing p. 39
Figura 9 – Sumário do artigo chamado Crowdfunding p. 43
Figura 10 – Os três elementos do crowdfunding p. 47
Figura 11 – Linha do tempo p. 68
Figura 12 – Frame do vídeo p. 70
Figura 13 – Página Mapa do Crowdfunding p. 72
Figura 14 – Interface e conteúdo semelhantes p. 77
Figura 15 – Contador atualizado automaticamente p. 79
Figura 16 – Ano de nascimento dos prosumidores p. 85
Figura 17 – Logotipo e apresentação da comunidade p. 89
Figura 18 – Plataformas brasileiras de crowdfunding p. 93
mapeadas pela comunidade
Figura 19 – Divulgação do lançamento do Catarse p. 96
Figura 20 – Exemplos de usuários sendo inseridos na comunidade p. 97
Figura 21 – Paradigma da comunidade Crowdfunding BR p. 98
Figura 22 – Participação no debate p. 100
Figura 23 – E-mail enviado por jornalista para a comunidade p. 101
Figura 24 – Categorias do Catarse p. 105
Figura 25 – Organograma da equipe do Catarse p. 108
Figura 26 – Cabeçalho e rodapé p. 117
Figura 27 – Dados de 25 de abril de 2016 p. 119
Figura 28 – Descrições do Catarse nas redes sociais p. 122
Figura 29 – Primeiros passos p. 125
Figura 30 – Mapa brasileiro p. 126
Figura 31 – Idade e escolaridade p. 127
Figura 32 – Renda mensal p. 127
Figura 33 – Onde buscam informação? p. 128
Figura 34 – Projetos com maior interesse p. 129
Figura 35 – Fatores para apoiar p. 129
Figura 36 – Onde existe interesse e onde faltam projetos p. 130
Figura 37 – O primeiro círculo p. 131
Figura 38 – A presença do primeiro círculo p. 131
Figura 39 – O segundo círculo p. 132
Figura 40 – O terceiro círculo p. 133
Figura 41 – Idade dos empreendedores p. 134
Figura 42 – O que fazem os empreendedores p. 134
Figura 43 – Arrecadação dos empreendedores p. 135
Figura 44 – Projeto de sucesso p. 136
Figura 45 – Projeto sem sucesso p. 137
Figura 46 – Fatores importantes p. 137
Figura 47 – Quantidade de projetos por gêneros p. 145
Figura 48 – Quantidade de projetos por finalidade de arrecadação p. 146
Lista de tabelas
Tabela 1 – Dissertações e teses p. 15
Tabela 2 – Conceitos da Revolução Digital p. 22
Tabela 3 – Plataformas de crowdsourcing p. 36
Tabela 4 – Valor arrecadado e variação entre 2012 e 2014 p. 45
Tabela 5 – Lista de 11 plataformas internacionais de crowdfunding p. 52
Tabela 6 – Resumo das variáveis correlacionadas p. 57
com o sucesso em outros estudos
Tabela 7 – Plataformas de crowdfunding no Brasil p. 73
Tabela 8 – Plataformas de crowdfunding p. 74
que não existem mais ou estão inativas no Brasil
Tabela 9 – Perfil dos prosumidores entrevistados por Monteiro p. 80
Tabela 10 – Motivações dos prosumidores estadunidenses p. 87
Tabela 11 – Terminologias relacionadas a motivações p. 87
Tabela 12 – Motivações estadunidenses e brasileiras p. 88
Tabela 13 – Volume de dados Crowdfunding BR p. 91
Tabela 14 – Dados catalogados p. 92
Tabela 15 – Comparação dos termos p. 110
Tabela 16 – Dados dos projetos p. 113
Tabela 17 – Prosumidores, apoios e arrecadação p. 114
Tabela 18 – Prosumidores sem sucesso p. 114
Tabela 19 – Dinheiro sem sucesso p. 115
Tabela 20 – Comunidade do Catarse p. 116
Tabela 21 – Números por categoria p. 139
Tabela 22 – Arrecadação ao longo dos anos p. 141
Tabela 23 – Prosumidores e apoios ao longo dos anos p. 141
Tabela 24 – Projetos ao longo dos anos p. 142
Tabela 25 – Projetos por Estado p. 142
Tabela 26 – Projetos nas cidades p. 143
Tabela 27 – Principais empreendedores p. 147
Tabela 28 – Principais projetos p. 149
Sumário
Introdução p. 12
Primeiro capítulo: história do crowdfunding p. 21
1.1 Revolução Digital p. 21
1.1.1 Convergência p. 22
1.1.2 Cultura participativa p. 23
1.1.3 Comunidades on-line p. 24
1.1.4 Inteligência coletiva p. 24
1.1.5 Copyleft p. 25
1.1.6 Multidão revolucionária p. 30
1.2 Crowdsourcing p. 35
1.3 Prática do crowdsourcing p. 37
1.4 Crowdfunding p. 41
1.5 Origens do crowdfunding p. 49
1.6 Plataforma p. 51
1.7 Confiança e redes p. 54
1.8 Baseada na recompensa p. 55
1.9 Sucesso de um projeto p. 56
1.10 Empreendedor p. 59
1.11 Prosumidor p. 60
Segundo capítulo: crowdfunding no Brasil p. 65
2.1 Tradução para o português p. 65
2.2 História brasileira p. 66
2.3 Mercado do crowdfunding no Brasil p. 79
2.3.1 Brasil e EUA p. 81
2.3.2 Mercado restrito, divulgação e problemas p. 81
2.3.3 Prosumidor nacional p. 84
2.4 Comunidade Crowdfunding BR p. 88
2.4.1 Primórdios p. 91
2.4.2 Organização p. 94
2.4.3 Tarefa p. 98
Terceiro capítulo: filmes do Catarse p. 105
3.1 Catarse p. 105
3.2 Equipe p. 106
3.3 Termos de uso p. 109
3.4 Dados gerais p. 113
3.5 Páginas da plataforma p. 116
3.6 Categoria Cinema e Vídeo p. 139
3.7 Empreendedores da categoria p. 144
3.8 Projetos de exibição cinematográfica p. 146
3.9 Principais projetos de produção p. 148
3.10 Diversidade p. 157
Conclusão p. 158
Referências p. 161
Apêndices p. 173
Anexo p. 179
12
Introdução
Meu primeiro contato com crowdfunding foi pela prática. Em 2011, a
plataforma Catarse foi lançada na internet e meses depois era uma das poucas
possibilidades de financiamento disponíveis para nosso filme Delírios de um
cinemaníaco (Carlos Eduardo Magalhães, Felipe Leal Barquete, 2013), uma
produção feita colaborativamente por técnicos egressos do curso de Imagem e Som
da Universidade Federal de São Carlos, com a maioria do elenco formada por atores
amadores. Mesmo sendo um filme que envolveu uma produtora audiovisual, uma
associação cultural e centenas de pessoas, pode ser considerado amador. É um
filme amador por não seguir as regras estabelecidas pela Agência Nacional do
Cinema (Ancine), por sindicatos e tampouco ser um produto com fins comerciais.
Não foram feitos contratos entre a equipe ou recolhidos termos de autorização de
imagem e cessão de direitos do elenco. O filme, um longa de ficção passado em
quatro décadas diferentes, não teve sequer continuísta no set. A equipe reduzida
acumulou funções para diminuir custos de diárias das gravações, propondo outro
modo de organização adequado ao perfil de cada um.
Inscrevemos o projeto do filme no Catarse e após 60 dias conseguimos
arrecadar R$ 17.070,00, superando um pouco nossa meta de R$ 16.800,00, dinheiro
que veio de 166 apoios arrecadados de 144 pessoas. Essas pessoas, em sua
maioria, foram familiares, amigos e amigos dos amigos da equipe do filme, mas
houve também um número muito pequeno de apoios de usuários da plataforma que
ninguém da equipe conhecia – pessoas que entraram na plataforma e deram seu
apoio, adquirindo alguma das recompensas oferecidas pelo projeto, como DVD e
cartaz.
Após essa experiência de financiamento de um filme considerado amador,
tive a oportunidade de trabalhar em uma série de televisão financiada pela Lei do
Audiovisual1 chamada Meus dias de rock (Bernardo Barreto, 2014). O orçamento,
1 criada em 1993 a Lei nº 8.685/93 conhecida como Lei do Audiovisual. Uma lei criada
exclusivamente para apenas um ramo da cultura brasileira, o audivisual. Seu funcionamento é similar
a Lei Rounet, os recursos destinados aos projetos audiovisuais que a Lei contempla são oriundos de
abatimentos do imposto de renda devido, com melhores benefícios fiscais para o patrocinador que os
13
nesse caso, estava na casa dos milhões e a produtora era o Berny Filmes. A
principal diferença entre o filme amador e a série de televisão foi a seguinte: na
série, havia muito dinheiro sendo gasto para sustentar um modo de organização da
equipe ligado às divisões de tarefas que repetem um modelo hollywoodiano
industrialista nunca consolidado no Brasil. Além disso, a maior parte da equipe não
se importava se o produto seria ou não consumido, assim como poucos sabiam qual
era de fato a história que estava sendo gravada.
Após essa experiência profissional, fiquei com uma grande dúvida na cabeça:
é possível fazer filmes no Brasil sem depender do financiamento do Estado? Ao
pesquisar sobre financiamento e história do cinema brasileiro, inevitavelmente me
deparei com a participação do Estado. Desde as primeiras tentativas de
industrialização do cinema no país, cineastas sempre buscaram no Estado um
caminho para o fomento e a proteção da atividade cinematográfica. O livro O
pensamento industrial cinematográfico brasileiro, do professor e pesquisador Arthur
Autran (2013), é um dos trabalhos que contam uma história marcada por ciclos, com
começo, meio e fim. Hoje, vivemos um novo ciclo, conforme o professor e cineasta
Marcelo Ikeda descreve nos livros Leis de incentivo para o audiovisual (2013) e
Cinema brasileiro a partir da retomada (2015), marcado pela grande participação
estatal no financiamento da produção, distribuição e exibição de filmes através de
leis, editais, medidas provisórias, prêmios, coproduções, fundos e programas de
âmbitos internacional, federal, estadual e municipal. A maior parte desses recursos é
destinada ao financiamento de um produto específico, o longa-metragem
cinematográfico de ficção, um filme com mais de 70 minutos destinado
prioritariamente às salas de cinema comerciais (IKEDA, 2013, p. 168).
Paralelamente a todo esse contexto estatal de financiamento do cinema
brasileiro, nos últimos anos centenas de filmes, como Delírios de um cinemaníaco,
foram produzidos e lançados com a arrecadação de recursos por meio de uma nova
prática chamada crowdfunding.
O crowdfunding consiste na prática de conseguir contribuições monetárias de
duas ou mais pessoas por meio da internet para viabilizar serviços, projetos,
produtos, causas ou experiências de um indivíduo ou coletivo, uma associação,
cooperativa ou empresa. A cada ano, novas plataformas de crowdfunding são
lançadas e outras são tiradas da internet, e o volume de dinheiro que circula nessas
apresentados pela Lei Rounet.
14
plataformas não para de crescer (HOBEY, 2015), conforme indicado na Figura 2.
Figura 1 – Arrecadação global do crowdfunding
Valor por continente e percentual de crescimento de 2015 em relação a 2014.
Fonte: Massolution (2015) apud Carpanez (2016).
A expansão dessa prática para diferentes áreas cria novos paradigmas e
possibilita o desenvolvimento de novos conceitos e termos que tentam entender,
criticar e divulgar o potencial do crowdfunding. A prática do crowdfunding está
constantemente sofrendo mutações, adaptando-se a diferentes contextos sociais e
econômicos, ganhando novas formas e classificações. Se qualquer usuário da
internet fizer uma busca simples, em uma plataforma de pesquisa como o Google ou
no Portal de Periódicos CAPES/MEC, vai encontrar uma miríade de publicações no
formato de artigos, dissertações, teses, livros, reportagens e documentários sobre
crowdfunding. Tais publicações, em sua grande maioria escritas em inglês, foram
produzidas por pesquisadores e jornalistas de diferentes países como Holanda,
Suécia, Itália, China, Brasil, Canadá e Espanha (ZUQUETTO, 2015, p. 39).
A extensa bibliografia sobre crowdfunding e suas fecundas adaptações
culturais me levaram à escolha de um caminho metodológico: estudar os autores
que estão desenvolvendo pesquisas no Brasil sobre o tema. Essa escolha não foi
motivada pelo ufanismo, mas pela tentativa de estabelecer um diálogo entre a atual
pesquisa e o que os autores brasileiros já conseguiram desenvolver de reflexão e
crítica sobre crowdfunding. Através de um filtro linguístico e nacional, defini um
15
escopo bem delimitado para o presente trabalho.
O crowdfunding no Brasil possui uma série de particularidades e já apresenta
sua trajetória, seus atores e casos. Isso o distingue das demais experiências de
crowdfunding que existem em outros países. Segue na Tabela 1 a relação de
dissertações e teses que serviram de base para esta pesquisa:
Tabela 1 – Dissertações e teses
Dissertações
Ano Título Autor Programa Instituição Cidade/UF
2012
Economia criativa e
organizações virtuais:
modelo para o
financiamento de
empreendimentos
culturais no Brasil
CAVALHEIRO,
Ricardo Alvez
Mestrado
Profissional em
Administração do
Centro de
Ciências da
Administração e
Socioeconômicas
Universidade
do Estado de
Santa
Catarina
Florianópolis/SC
2013
Procuram-se
colaboradores,
recompensa-se bem:
a trama da
colaboração nos sites
de Crowdfunding
COSTA, Bruna
Gazzi
Programa de Pós-
Graduação em
Psicologia Social
e Institucional
Universidade
Federal do
Rio Grande
do Sul
Porto Alegre/RS
2013
Crowdfunding no
cinema brasileiro: um
estudo sobre o uso do
financiamento coletivo
em obras audiovisuais
brasileiras de baixo
orçamento
VALIATI,
Vanessa
Amália
Dalpizol
Programa de Pós-
Graduação em
Comunicação
Social
Pontifícia
Universidade
Católica do
Rio Grande
do Sul
Porto Alegre/RS
2014
Financiamento
coletivo: uma análise
do comportamento do
consumidor luso-
brasileiro em
plataformas de
crowdfunding
BERNARDES,
Bartos Batista
Centro de
Pesquisas e Pós-
Graduação em
Administração
DeVry Brasil Recife/PE
2014
Crowdfunding no
Brasil: uma análise
sobre as motivações
de quem participa
MONTEIRO,
Mônica de
Carvalho
Penido
Escola Brasileira
de Adminitração
Pública e de
Empresas
Fundação
Getúlio
Vargas
Rio de Janeiro/RJ
2014
Significados da
experiência para
apoiadores de projetos
musicais de
crowdfunding:
relacionamentos,
participação e
consumo cultural em
tempos de cibercultra
e letramento digital
SANTOS,
Gustavo Luiz
Ferreira
Programa de Pós-
Graduação em
Comunicação,
Setor de Artes,
Comunicação e
Design
Universidade
Federal do
Paraná
Curitiba/PR
16
2015
Redes ego centradas
e os projetos de
crowdfunding: uma
análise da relação
entre as
características
estruturais da rede
social do
empreendedor e o
sucesso de projetos
de financiamento
coletivo no Brasil
ZUQUETTO,
Rovian Dill
Programa de Pós-
Graduação em
Administração
Universidade
do Vale do
Rio dos
Sinos
São Leopoldo/RS
Teses
Ano Título Autor Programa Instituição Cidade/UF
2013
A Influência do capital
social no fomento de
projetos de
financiamento coletivo
no Brasil
CENTENARO,
Angela Ester
Mallmann
Programa de Pós-
Graduação em
Ciências Sociais
Universidade
do Vale do
Rio dos
Sinos
São Leopoldo/RS
2014
Os bens comuns
intelectuais e a
mercantilização
VIEIRA, Miguel
Said
Programa de Pós-
Graduação em
Educação
Universidade
de São Paulo São Paulo/SP
Fonte: elaborada pelo autor.
Para chegar a essas publicações, fiz, em primeiro lugar, uma procura por
artigos, reportagens e documentários sobre crowdfunding nas plataformas Google,
YouTube e Wikipedia. Em segundo lugar, entrei em contato com Luis Otávio Ribeiro,
um dos sócios-fundadores da plataforma Catarse, e tive acesso a um acervo de
pesquisas acadêmicas realizadas sobre a plataforma. Em terceiro lugar, busquei
pelas palavras crowdfunding, financiamento coletivo, financiamento colaborativo e
financiamento da multidão em bases de dados acadêmicas disponíveis no Portal de
Periódicos CAPES/MEC2. Por último, participei, durante o curso do mestrado, de
colóquios, congressos e debates sobre produção cultural, cinema e internet,
estabelecendo contato com outros pesquisadores em busca de novos conteúdos.
Até agosto de 2015, foi encontrado um total de 26 artigos, 7 dissertações de
mestrado e 2 teses de doutorado brasileiras que utilizam o crowdfunding como
objeto de pesquisa. Nem todas essas publicações serão citadas ao longo da
dissertação, mas a relação delas está presente no Apêndice A para consulta.
Essas pesquisas têm um ponto em comum: precisam explicar da estaca zero
o que é crowdfunding, quais as suas origens e quais autores definem o ambiente em
que essa prática se desenvolve no final do século XX e no início do século XXI.
2 Disponível em: .
17
Mesmo assim não existe um discurso único ou coeso entre os pesquisadores sobre
o que é crowdfunding, ou o que é o crowdfunding no Brasil. As informações não são
contraditórias, mas incompletas. É a soma dessas pesquisas que irá colaborar na
composição dessa narrativa brasileira.
Uma mesma fonte primária de dados internacionais sobre o crowdfunding é
utilizada pela grande maioria das pesquisas. Essa fonte primária se chama
Crowdfunding Industry Report, relatórios organizados anualmente pela empresa
Massolution, que disponibiliza esses dados em sua plataforma3. A empresa se define
como “a única pesquisadora, consultora e implementadora especializada em
soluções de crowdsourcing para empresas privadas, públicas e sociais.”4. Essa
empresa desenvolve e organiza a plataforma Crowdsourcing.org, lançada no ano de
2010 com o objetivo de ser “o principal meio da indústria que oferece o maior
repositório on-line de notícias, artigos, vídeos e informações de plataformas sobre
crowdsourcing e crowdfunding.”5. Esses relatórios registram um levantamento global
de números atingidos pelo crowdfunding, com quantidade de plataformas por país,
arrecadação mundial, quantidade de projetos e categorias de crowdfunding
realizadas.
O acesso aos relatórios anuais do Crowdfunding Industry Report é pago, e o
relatório de 2015 custa US$ 495,00. Essa pesquisa não contou com recursos para
acessar tal documento, no entanto, foi encontrada gratuitamente na internet uma
versão parcial do Crowdfunding Industry Report 2012, a qual será utilizada também
como base de dados primários sobre crowdfunding. Vejamos a Figura 2 a seguir:
3 Disponível em: .
4 Original em inglês: “a unique research, advisory and implementation that specializes in
crowdsourcing solution for private, public and social enterprises.”.
5 Original em inglês: “the leading industry resource offering the largest online repository of news,
articles, videos, and site information on the topic of crowdsourcing and crowdfunding.”.
18
Figura 2 – Número de plataformas de crowdfunding no mundo
Fonte: Massolution (2012).
Essa imagem mensura a quantidade e a disposição das plataformas de
crowdfunding (em inglês, Crowdfunding Platforms – CFPs) presentes na internet em
2012. A plataforma Crowdsourcing.org também disponibiliza conteúdo gratuito, com
pesquisas internacionais e definições básicas sobre crowdfunding que também
serão incorporadas a esta dissertação.
Alguns autores estrangeiros são constantemente citados nas pesquisas
brasileiras. Esses autores são Henry Jenkins, Jeff Howe, Chris Anderson, Manuel
Castells, Clay Shirky e Pierre Lévy. Eles têm como ponto em comum a capacidade
de descrever o cenário e perceber quais os antecedentes que possibilitaram o
desenvolvimento da internet e as transformações sociais e econômicas decorrentes
desse desenvolvimento. Entre esses autores, dois deles têm maior destaque na
dissertação, Henry Jenkins, com o livro Cultura da convergência (2009), e Jeff Howe,
com a obra O poder das multidões (2009). Os dois são pesquisadores
contemporâneos que testemunham em seus livros o desenvolvimento da internet e
seu reflexo na sociedade estadunidense.
Tudo isso posto, foi fundamental definir algumas perguntas de pesquisa
19
importantes investigadas ao longo da dissertação. Essas perguntas são: o que
significa crowdfunding? O que a internet tem a ver com isso? O que é uma
plataforma de crowdfunding? Como se pratica crowdfunding? Quem pode praticar
crowdfunding? Quem pode trabalhar com crowdfunding? Quais são os principais
atores no cenário do crowdfunding brasileiro? Como essa prática se desenvolve no
país?
Assim, no primeiro capítulo, faço um breve panorama acerca da chamada
Revolução Digital para demonstrar como essa história está intrinsecamente ligada
ao crowdfunding. Depois, falo sobre crowdsourcing, termo guarda-chuva criado por
Jeff Howe capaz de compreender como usuários, empresas e o Estado estão
utilizando a internet para desenvolver novas práticas que estão mudando a
economia e a sociedade. Após consolidar uma definição sobre crowdsourcing e
entender sua prática, investigo o que é crowdfunding, quais suas origens, como ele
funciona, que categorias existem, quais as principais plataformas, que exemplos são
bons para entendê-lo e como essa prática se desenvolveu pelo mundo.
No segundo capítulo, conto a história do crowdfunding no Brasil, fazendo a
crítica de sua tradução para o português, narrando como essa prática se
estabeleceu e como seu mercado é organizado no país, bem como expondo os
problemas enfrentados e as opiniões dos prosumidores6. Em seguida, dedico-me à
comunidade on-line Crowdfunding BR, responsável por implementar a prática do
crowdfunding no país por meio do estímulo e da qualificação do debate sobre o tema
na internet. Essa pioneira iniciativa, fundada no ano de 2010, contou com a
colaboração de um grupo de usuários que futuramente veio a lançar plataformas
brasileiras de crowdfunding. Analiso, então, os primórdios dessa comunidade para
saber quais seus objetivos e quem fez parte dela. Os dados sobre a comunidade
estão disponíveis em postagens e comentários registrados no grupo de e-mails
Crowdfunding Brasil7 e no blog Crowdfunding BR8.
No terceiro capítulo, estudo a plataforma Catarse9, uma das primeiras e mais
bem-sucedidas plataformas brasileiras de crowdfunding. Para levantar os dados
necessários, acessei a plataforma e li boa parte de todo o conteúdo das milhares de
páginas disponíveis, depois entrevistei Diego Borin Reeberg, um dos sócios e
6 Palavra criada para designar a união entre o produtor (producer) e consumidor (consumer)
7 Disponível em: .
8 Disponível em: .
9 Disponível em: .
20
fundadores do Catarse, e finalmente reuni dados suficientes para analisar o modus
operandi da plataforma, os termos de uso, os dados sobre arrecadação, os projetos
e usuários inscritos de 2011 até o começo de 2016, a organização de todas as
páginas que formam o mapa da plataforma e a separação dos projetos por
categorias. Encerro a dissertação focando na categoria Cinema e Vídeo e apresento
dados do desempenho desta de 2011 a 2015, com destaque para indicadores
referentes a empreendedores, projetos de financiamento de exibição e de produção
de filmes.
Acredito que o crowdfunding pode ser uma das respostas para um caminho
possível de financiamento do cinema brasileiro, uma prática alternativa ao Estado
que pode auxiliar na busca por um novo público para filmes nacionais. Os filmes
feitos por crowdfunding têm uma real demanda de serem produzidos e consumidos
por diferentes nichos que os financiam. Seria a soma desses nichos um número
relevante de pessoas? Qual paradigma ele estabelece e como isso se relaciona com
o cinema? Quais são as principais experiências de cinema nessa prática? Quais
projetos tiveram números de destaque no Catarse? Essas são algumas das dezenas
de perguntas lançadas ao mar onde o solitário navegante adentra agora sob o sol
poente da internet. Boa leitura.
21
História do crowdfunding
1.1 Revolução Digital
É preciso contar uma história antes de falar sobre crowdsourcing e
crowdfunding. Desde meados de 1980 até os dias de hoje, vivemos uma Revolução
Digital. Essa revolução tem como características a difusão da internet ao redor do
mundo, o desenvolvimento de computadores e equipamentos audiovisuais e o
barateamento das tecnologias digitais. Com o acesso à internet e o desenvolvimento
dos computadores, a comunicação possibilitou a conexão de diversas pessoas e
consequentemente um grande fluxo de dados começou a circular. O barateamento
das tecnologias digitais propiciou que pessoas, antes classificadas como
consumidoras passivas, pudessem desenvolver seus próprios conteúdos. Com
apenas uma câmera de vídeo e um computador, qualquer pessoa pode se tornar
uma produtora de filmes, criar um canal de jornalismo ou compartilhar sua vida
pessoal com quem nem a conhece.
O tempo que se demorava para filmar, revelar, montar, copiar e distribuir um
filme foi reduzido a poucas horas, tornando possível que qualquer cidadão – que
seja alfabetizado e tenha algum dinheiro – possa se declarar um cineasta. O
desenvolvimento de softwares de edição de vídeo e de som, distribuídos por meio
de sistemas de compartilhamento P2P (peer-to-peer), possibilitou que amadores
conseguissem produzir com qualidade profissional músicas, filmes, notícias, livros,
design e outras formas de expressão audiovisuais.
Durante a Revolução Digital, as pessoas começaram a se reunir para executar
tarefas, independentemente de haver ou não remuneração, utilizando o tempo livre
para trabalhar com outras pessoas on-line em prol de alguma coisa. No livro O
poder das multidões (2009), o jornalista e pesquisador Jeff Howe enumera uma série
de exemplos de plataformas estadunidenses em que as pessoas transformaram
seus hobbies em novos modelos de negócios, como os casos das plataformas
iStockphoto.com, que trabalha com fotografia, e Threadless.com, que trabalha com
moda.
22
Isso significa que essa Revolução Digital não é apenas tecnológica, é também
conceitual e acontece na cabeça das pessoas que utilizam a internet10, refletindo-se,
consequentemente, no comportamento dessas pessoas na rede. Por acontecer na
cabeça das pessoas, existem conceitos que sustentam essa revolução. Esses
conceitos, dos quais selecionei cinco, não foram proferidos pelos personagens que
realizaram a revolução, mas criados pelos autores que sustentam essa pesquisa e
que foram percebidos na trajetória da Revolução Digital. Vejamos na Tabela 2 quais
são esses conceitos:
Tabela 2 – Conceitos da Revolução Digital
Conceitos da Revolução Digital
Convergência
Cultura participativa
Comunidades on-line
Inteligência coletiva
Copyleft
Fonte: elaborada pelo autor.
Esses são os cinco conceitos que considero fundamentais a ponto de dedicar
as próximas páginas a eles, buscando formular uma história e uma teoria da
Revolução Digital e sua conexão com o desenvolvimento do crowdsourcing e do
crowdfunding.
1.1.1 Convergência
A proliferação da internet e o acesso aos equipamentos digitais permitiram o
desenvolvimento daquilo que Henry Jenkins chama de convergência em seu livro
Cultura da Convergência (2009). A convergência está relacionada ao “fluxo de
conteúdos através de múltiplas plataformas de mídia, à cooperação entre os
múltiplos mercados didáticos e ao comportamento migratório dos públicos dos meios
de comunicação” (JENKINS, 2009, p. 29).
Ela pode ser interpretada por seus aspectos tecnológico e conceitual. O
aspecto tecnológico é a diversidade de janelas que existem em diferentes meios de
comunicação capazes de abordar uma mesma questão por dessemelhantes
formatos de mídia, para diferentes públicos, sendo o público capaz de transitar por
10 As quais chamarei de usuários.
23
todas essas janelas e mídias em busca do conteúdo que mais lhe interessa. No
aspecto conceitual, a convergência é um dos pilares que sustentam o
desenvolvimento da Revolução Digital, pois possibilita que temas tão antagônicos
como a Primavera Árabe (CAVALHEIRO, 2012, p. 118) ou o universo de super-
heróis da Marvel sejam discutidos em diferentes mídias como a televisão, o rádio e
principalmente a internet através de hipertextos, fotos e vídeos.
Essa prática da convergência permite a pluralidade de opiniões e estimula o
pensamento crítico, possibilitando que muitos tenham voz para opinar sobre tais
temas e que essas opiniões organizadas sejam capazes de pressionar os grandes
meios de comunicação a debater tais assuntos. Essa potência da convergência
estabeleceu um ambiente de constante tensão entre os antigos e os novos
formadores de opinião.
Seguindo o pensamento de Jenkins (2009), são cinco os comportamentos que
as pessoas praticam na internet que expressam bem o que é a convergência:
a) a capacidade de unir seu conhecimento ao de outros numa empreitada
coletiva;
b) a capacidade de compartilhar e comparar sistemas de valores por meio da
avaliação de dramas éticos;
c) a capacidade de formar conexões entre pedaços espalhados de informação;
d) a capacidade de expressar suas interpretações e seus sentimentos em
relação a ficções populares por meio de sua própria cultura tradicional;
e) a capacidade de circulação das criações através da internet para que
possam ser compartilhadas com outros.
1.1.2 Cultura participativa
Outro conceito estruturante da Revolução Digital é a cultura participativa. Essa
expressão contrasta com as ideias mais antigas que apontavam para a passividade
das pessoas perante os grandes meios de comunicação hegemônicos (jornal,
cinema e rádio) na primeira metade do século XX.
Na cultura participativa, produtores e consumidores de mídia não ocupam
papéis separados (JENKINS, 2009, p. 30). Com o desenvolvimento da internet, os
usuários mais habilidosos são capazes de utilizar a cultura da participação para
amplificar suas opiniões e afetar diretamente a produção de conteúdo.
Na cultura participativa, quem produz e quem consome tem de trabalhar em
24
conjunto para contemplar as mais diversas expectativas e sobreviver no mercado
midiático. As diferentes possibilidades de comunicação criadas na internet, como
fóruns, chats, blogs, transmissões ao vivo e redes sociais11, permitiram que os
consumidores dos rincões mais distantes do planeta pudessem dialogar com outros
consumidores e, juntos, pautarem a produção por meio de mobilizações on-line,
produção de conteúdo e expressão individual.
1.1.3 Comunidades on-line
O agrupamento de usuários através da internet caracteriza as comunidades
on-line. Não é preciso conhecer o usuário ou saber onde ele mora para participar da
mesma comunidade on-line. As comunidades são os espaços na internet em que
pessoas com os mesmos interesses se reúnem e encontram seus pares para tentar
desenvolver em grupo alguma tarefa. Essa tarefa pode ser o debate sobre a melhor
formação do meu time de futebol – como fazem torcedores da Sociedade Esportiva
Palmeiras em plataformas como Verdao.net ou Verdazzo.com.br – ou atividades
complexas como o desenvolvimento de softwares livres para o benefício gratuito de
quaisquer usuários da internet – como o projeto da ONG VideoLAN12, que
desenvolve o software de reprodução de vídeo e áudio VLC. As ações das
comunidades on-line estão voltadas ao benefício da própria comunidade e também
de outros usuários que venham a se interessar por ela.
As comunidades on-line reúnem-se por um simples motivo: cada usuário sabe
alguma coisa sobre algo que o outro não sabe. Se tivermos mais pessoas que
detenham diferentes conhecimentos sobre um mesmo assunto, poderemos
encontrar com maior facilidade a solução para os problemas e as oportunidades
relacionadas a ele. Essa lógica de que cada um sabe um pouco e juntos sabemos
mais nos leva ao próximo conceito fundamental da Revolução Digital, a inteligência
coletiva.
1.1.4 Inteligência coletiva
Na época podia soar como abstrata a ideia da inteligência coletiva,
desenvolvida pelo teórico Pierre Lévy em seu livro A Inteligência Coletiva: por uma
11 Rede social é uma estrutura composta por pessoas ou organizações, conectadas por um ou vários
tipos de relações, que compartilham valores e objetivos comuns. Alguns exemplos de rede social
são Facebook, Twitter e Youtube.
12 Disponível em: .
25
antropologia do ciberespaço (1998), mas ela já se manifesta diariamente em nossa
sociedade e foi absorvida pelas grandes corporações atuantes na internet. O
conceito de inteligência coletiva parte da premissa de que se muitas pessoas têm
algo a dizer sobre um assunto, as conclusões às quais irão chegar passarão por um
processo de inteligência coletiva, que tende a gerar melhores resultados e reflexões
sobre o assunto do que aqueles alcançados por um pequeno grupo de especialistas
profissionais remunerados.
A inteligência coletiva é movida pela força da diversidade: quanto mais diversos
forem os perfis das pessoas que participam do processo, melhores serão os
resultados alcançados. Apesar desse processo já se manifestar antes do advento da
internet, foi durante a Revolução Digital que a inteligência coletiva conseguiu se
desenvolver e ampliar sua aplicação na sociedade. No livro O poder das multidões,
de Jeff Howe, há uma ótima definição para se entender como a diversidade é o
combustível dessa prática:
Entender a diversidade é imperativo para compreender a inteligência
coletiva e a inteligência coletiva é um ingrediente essencial em uma das
principais categorias de crowdsourcing: a tentativa de atrelar os
conhecimentos de muitas pessoas a fim de resolver problemas, predizer
futuros resultados ou ajudar a dirigir a estratégia corporativa. A inteligência
coletiva é a forma de experiência de grupo que vemos no trabalho de
colônias de formigas que atuam como células de um único organismo.
Também vemos no ritual humano de votação, no qual milhares de escolhas
individuais resultam em uma única decisão. Estudiosos de várias disciplinas
– da sociologia à psicologia comportamental e à ciência da computação –
vêm estudando o fenômeno desde o início do século XX, mas o surgimento
da internet trouxe um novo significado à inteligência coletiva, pelo simples
fato de que a internet tem feito mais do que qualquer outra coisa na história
para facilitar isso. (HOWE, 2009, p. 116)
Sabemos que na internet a diversidade ainda não é tão grande. Existem mais
usuários em países ricos e desenvolvidos como os EUA, a Inglaterra, a Alemanha e
o Japão do que nos países pobres como o Equador, a Nigéria e a Argentina. Porém,
dentro dos países ricos também existe a desigualdade social, o que me leva à
conclusão de que apenas as pessoas alfabetizadas, que possuem um computador
ou um smartphone com acesso à internet, são de fato capazes de participar da
inteligência coletiva contemporânea. Mesmo assim, esse recorte de usuários da
internet já é grande e diverso, e essa diversidade na rede tende a aumentar cada
vez mais graças ao crescimento e à difusão de práticas como o crowdfunding.
26
1.1.5 Copyleft
Hoje, temos três sistemas operacionais de maior destaque utilizados nos
computadores brasileiros: o Windows, desenvolvido pela Microsoft, o Mac,
desenvolvido pela Apple, e o Linux, desenvolvido pelo movimento do software livre.
Para explicar o que é o Copyleft, é preciso dissertar sobre este último.
Um importante ativista do movimento do software livre, criador do conceito de
Copyleft, chama-se Richard Stallman. Ele é um programador que, influenciado pela
cultura hacker, criou, na segunda metade da década de 1980, a licença de software
General Public License – GNU (HOWE, 2009, p. 45) e a aplicou no Compilador C
que havia desenvolvido. O Compilador C era a parte mais importante e complexa no
desenvolvimento de um sistema operacional e foi utilizado nas primeiras versões do
sistema Linux. Essa licença possibilitou o desencadeando de uma série de outros
softwares, os softwares livres, que são difundidos gratuitamente por toda a internet.
Em poucas palavras, a “GNU – General Public License é uma licença livre, Copyleft,
para software e outros tipos de trabalhos13” (GNU, 2016).
Assim, o Copyleft é um conceito desenvolvido por Stallman, que utilizou a
legislação dos direitos autorais estadunidenses para conseguir garantir que sua
criação, o Compilador C, não tivesse barreiras para ser utilizada, difundida ou
modificada por qualquer pessoa, desde que essas mesmas liberdades de utilizar,
difundir e modificar também fossem preservadas nas novas versões derivadas
dessa criação. Ele garantiu, então, que o sistema operacional Linux, desenvolvido a
partir de seu Compilador C, pudesse ser distribuído gratuitamente pela internet,
como ainda é até hoje. Vejamos na Figura 3 o símbolo e a definição de Copyleft:
13 Original em inglês: “GNU General Public License is a free, copyleft license for software and other
kinds of works.”.
27
Figura 3 – Copyleft: logomarca e definição
Fonte: Wikipedia (2015).
O caminho escolhido por Stallman é totalmente oposto ao caminho escolhido
por seus contemporâneos Bill Gates, da Microsoft, e Steve Jobs, da Apple, que
optaram por fechar os códigos de seus sistemas operacionais, beneficiando-se
muitas vezes de códigos abertos desenvolvidos pelo movimento do software livre, os
quais, por meio de manobras jurídicas, puderam ser utilizados com vistas à geração
de lucro.
Para exemplificar a atualidade do debate sobre o Copyleft e a reverberação
desse conceito na cultura brasileira, é de se observar que na mudança do governo
Lula para o governo Dilma, no ano de 2011, uma das primeiras ações da então
empossada ministra da Cultura Ana de Hollanda foi a de retirar da plataforma do
Ministério da Cultura a licença Creative Commons (CC), atribuída a todo o conteúdo
publicado. O movimento do software livre e ativistas da cultura protestaram contra tal
atitude, e os jornais registraram esse debate na grande imprensa. Em entrevista
para O Estado de S. Paulo, Gilberto Gil, ex-ministro da Cultura e responsável por
28
colocar a licença na plataforma do MinC durante o governo Lula, apontou que a
retirada da licença era sinal de uma mudança de rumo tomada pelo governo,
rompendo com o que havia sido feito antes (MEDEIROS, 2011). Do outro lado da
história, a ministra Ana de Hollanda se defendia e Cacá Diegues, cineasta oriundo
do Cinema Novo, atacava a licença Creative Commons como “patrulhamento
ideológico” estadunidense (RABELLO, 2011). Esse debate só chegou ao jornal O
Estado de S. Paulo graças à mobilização do movimento do software livre através de
redes sociais da internet e da linha editorial do jornal, que é de oposição ao governo
federal.
O Creative Commons é o desdobramento do Copyleft e da licença GNU. Segue
o DNA do Copyleft e da GNU, mas supera as limitações de seus predecessores,
ampliando as opções de licenças gratuitas disponíveis aos usuários da internet. O
Creative Commons ganhou notoriedade através da Wikipedia, uma das plataformas
mais acessadas do mundo, que adota uma licença Creative Commons para todos os
conteúdos publicados pelos usuários.
O Creative Commons é uma “organização sem fins lucrativos, que permite o
compartilhamento e o uso da criatividade e do conhecimento através de licenças
jurídicas gratuitas.” (COMMONS, 2016). Tais licenças gratuitas permitem que
qualquer usuário da internet possa escolher o que será feito com o conteúdo que
está publicado na rede. Temos na Figura 4 os tipos de licença disponíveis:
29
Figura 4 – Licenças CC disponíveis na internet
30
Fonte: Commons (2016).
1.1.6 Multidão revolucionária
Agora que apresentei os cinco principais conceitos relacionados à Revolução
Digital, é importante levantar uma questão fundamental: quem são essas pessoas,
denominadas usuários, que fizeram parte da Revolução Digital? Elas são a crowd,
palavra da língua inglesa que significa multidão. Mas o que forma a crowd
(multidão)? Não são todos os seres humanos vivos no planeta, mas todas as
pessoas que utilizam a internet no seu dia a dia. Quando Jeff Howe escreveu O
poder das multidões, em 2008, ele calculou que a multidão de pessoas que
utilizavam a internet naquela época era formada por um bilhão de pessoas.
31
Dito isso, é possível chegar a algumas considerações sobre a Revolução
Digital, que foi possível graças à difusão da internet ao redor do mundo, o
desenvolvimento de computadores e equipamentos audiovisuais, o barateamento
das tecnologias digitais e os cinco conceitos fundamentais – convergência, cultura
participativa, comunidades on-line, inteligência coletiva e Copyleft. Como causa e
consequência, essa Revolução desenvolveu a multidão, um bilhão de pessoas com
potencial de exercer a prática do crowdsourcing e do crowdfunding na internet. São
essas práticas que destaco em meu trabalho, por quebrarem paradigmas de
produção, distribuição e fruição nos mais diferentes setores da economia.
Logo, crowdsourcing e crowdfunding só são possíveis graças à presença da
multidão. Essa multidão, formada por grupos difusos e dispersos, é capaz de se
auto-organizar em comunidades on-line (HOWE, 2009, p. 88). Essas comunidades
estão afetando diversas áreas da produção cultural no Brasil, dentre elas o cinema
brasileiro.
A conclusão a que chego é de que a multidão é a principal beneficiada da
Revolução Digital. Ao mesmo tempo em que usufrui dos adventos gerados pela
Revolução, a crowd tem a responsabilidade de definir quais os próximos passos da
internet. Vanessa Amália Dalpizol Valiati, na dissertação Crowdfunding no cinema
brasileiro: um estudo sobre o uso do financiamento coletivo em obras audiovisuais
brasileiras de baixo orçamento (2013), tenta traçar um breve panorama histórico
sobre o que era a ideia de multidão e no que essa ideia se transformou:
observa-se que o conceito de massa e multidão está em plena modificação.
Das turbas ensandecidas e delírios coletivos (MACKAY, 1841; LE BON,
1980) passa-se a conviver com novos conceitos, como a sabedoria das
multidões (SUROWIECKI, 2006), a inteligência coletiva (LÉVY, 1998), a
multidão enquanto classe política (HARDT E NEGRI, 2005), as multidões
inteligentes (RHEINGOLD, 2002). Conceitos esses que estão ligados à
organização de uma sociedade em rede (CASTELLS, 1999) e ao sentido de
comunidade, que foram amplamente facilitados com as mudanças
tecnossociais. (VALIATI, 2013, p. 128)
No ano de 1993, o artista Peter Steiner publicou no periódico The New Yorker
a seguinte charge, retratando bem a visão da época sobre quem era o usuário da
internet disperso na multidão durante sua popularização nos EUA (Figura 5):
32
Figura 5 – Tirinha sobre o usuário da internet
Tradução: Na internet, ninguém sabe que você é um cachorro.
Fonte: Wikipedia (2016).
Na tirinha de Peter Steiner, não importa origem, raça, sexo, idade e
qualificação do indivíduo, o que vale é a qualidade do trabalho que ele desenvolve.
Não é preciso ser um especialista altamente graduado para conseguir ter
notoriedade na internet, pois é possível ser um amador e conseguir visibilidade,
mesmo que você seja um cachorro.
A Revolução Digital é uma oposição à mentalidade de linha de montagem que
prevaleceu após a Revolução Industrial, na qual o indivíduo foi retratado apenas
como uma peça para fazer funcionar uma máquina maior com um propósito bem
definido (HOWE, 2009, p. 11). Essa visão que enaltece as capacidades do indivíduo
no meio da multidão é também um combustível de estímulo para o desenvolvimento
do crowdsourcing e do crowdfunding na internet.
Entretanto, com o passar dos anos essa visão acabou entrando em
contradição com os fatos ocorridos na internet. Em 2013, o site de quadrinhos The
Joy of Tech publicou uma tirinha satirizando a tirinha de Peter Steiner (Figura 6):
33
Figura 6 – Tirinha satírica
Tradução: (quadrinho da esquerda) Na internet, ninguém sabe que você é um
cachorro. (quadrinho da direita) Nossa análise de metadata indica que ele
é definitivamente um labrador marrom. Ele mora com um cachorro tipo
beagle branco com manchas negras, e eu suspeito que eles estão deprimidos.
Fonte: Culture (2013).
O esforço (em sua maioria involuntário) dos usuários de produzir
conhecimento e compartilhá-lo por meio da internet gerou um cenário em que as
corporações e o Estado identificam e utilizam os dados publicados na rede para
gerar lucro e estabelecer uma política de espionagem constante. A Revolução Digital
se desenvolveu graças à internet, que por sua vez tem suas origens ligadas a fins
militarísticos. Empresas como Google, Microsoft e Apple utilizam a multidão a seu
favor para reduzir seus custos de produção e ampliar suas margens de ganho. O
Estado onisciente e a criação de seu antagonista revolucionário, criado no quadrinho
de ficção científica V for Vendetta, do escritor Alan Moore (1982), começam a se
manifestar na atual realidade. Um bom exemplo disso é a espionagem feita pelo
governo estadunidense que foi denunciada pela plataforma Wikileaks (RT, 2011),
caso em que a falha do Estado estadunidense onisciente gerou subsídios para
grupos denominados por eles como “terroristas” executarem espiões
estadunidenses infiltrados em seus territórios.
Cada link clicado e cada dado publicado por um indivíduo na internet é
registrado e pode ser acessado pelo governo dos EUA. Em contraponto, e-mails,
34
documentos e planilhas, de Governos e Corporações, que poderiam e deveriam ter
acesso livre na internet, são ocultados da multidão. Como destacou a pesquisadora
Bruna Gazzi Costa na dissertação Procuram-se colaboradores, recompensa-se
bem: a trama da colaboração nos sites de Crowdfunding, “a exaltação de um
discurso de colaboração, relacionando-a com uma maior democracia e igualdade
nas relações”, que Jeff Howe chama de meritocracia perfeita (HOWE, 2009, p. 11),
nos faz perceber que mesmo a internet sendo um território em que são possíveis
práticas mais igualitárias, hoje é regulada por corporações e por governos como o
dos EUA, que vivem sob constante tensão retalhando a vida de hackers e ativistas
por meio de perseguição política e batalhas judiciais de cifras milionárias.
Plataformas de compartilhamento de dados são fechadas, na tentativa de se regular
o irregulável potencial da internet, sendo esta “marcada por jogos de uma cultura
neoliberal que produz, muitas vezes, coletivos de indivíduos livres, mas que também
permite a existência e a resistência de multidões de sujeitos singulares.” (COSTA,
2013, p. 13).
Para saber mais sobre as retaliações do governo estadunidense e das
corporações transnacionais sediadas nos EUA, feitas contra hackers e ativistas do
movimento do software livre, é importante conhecer dois documentários
contemporâneos: The internet own boy: the story of Aaron Swartz (Brian
Knappenberger, 2015), sobre a trajetória do programador e ativista Aaron Swartz,
sua luta e perseguição sofrida pelo governo estadunidense, e TPB AFK (Simon
Klose, 2013), sobre a perseguição promovida pelas majors de Hollywood contra os
criadores da plataforma Pirate Bay (Peter Sunde, Fredrik Neji e Gottfrid Svartholm).
Hoje, vivemos o momento final da Revolução Digital no qual as corporações e
o Estado aos poucos conseguiram se adaptar e começar a exercer um grande
domínio sobre a internet e a multidão que a forma. Vivemos também um momento
em que a multidão consegue se auto-organizar e reagir à presença do Estado e das
corporações, como é o caso da Wikileaks, uma organização internacional jornalística
sem fins lucrativos que publica informações secretas em sua plataforma. Na
contemporaneidade, tem início um ciclo posterior à Revolução Digital, caracterizado
pelo desenvolvimento de uma série de práticas na internet que são reconhecidas e
rotuladas diariamente por pesquisadores de todo o planeta. Cabe à pesquisa
dedicar-se a duas dessas práticas, frutos da Revolução Digital: o crowdsourcing e o
crowdfunding.
35
1.2 Crowdsourcing
O crowdsourcing é um tipo de atividade participativa on-line, em que
indivíduos, instituições, organizações não governamentais ou companhias
propõem a um grupo de pessoas de diversos conhecimentos, heterogêneas
e em grande número, através de uma chamada aberta flexível o
compromisso voluntário para realização de uma tarefa. A realização da
tarefa, de complexidade variável, em que a multidão deve participar
trazendo seu trabalho, dinheiro, conhecimento e/ou experiência, sempre
implica em benefício mútuo. O usuário irá receber a satisfação de uma
necessidade sua, podendo ser econômica, reconhecimento social,
autoestima ou o desenvolvimento de habilidades individuais, enquanto a
entidade (crowdsourcer) irá obter e utilizar em sua vantagem o que os
usuários trouxeram para o empreendimento, o qual irá depender do tipo de
atividade solicitada. (ESTELLÉS-AROLAS; GONZÁLEZ-LADRÓN-DE-
GUEVARA, 2012, p. 7)
O trecho acima faz parte do artigo Towards an integrated crowdsourcing
definition, escrito por pesquisadores da Universidade de Valência, na Espanha, e
utilizado por duas dissertações brasileiras, ambas de programas de pós-graduação
em Administração, escritas por Mônica de Carvalho Penido e Rovian Dill Zuquetto,
para definir a palavra crowdsourcing. Utilizo essa definição justamente por ela ser a
mais sintética e completa que encontrei em importantes trabalhos brasileiros e
também por seguir a mesma linha de raciocínio utilizada na presente dissertação.
Outra definição de crowdsourcing utilizada nas demais publicações acadêmicas
brasileiras afirma que “o crowdsourcing pode ser entendido como a coleta de
contribuições de muitas [pessoas] para atingir um objetivo” (BIER; CAVALHEIRO,
2015, p. 38).
A palavra crowdsourcing foi publicada pela primeira vez na internet como
título de um artigo da revista Wired, em junho de 2006 (HOWE, 2006). O artigo foi
desenvolvido a partir de um debate em 2005 entre Jeff Howe e Mark Robinson,
editores da revista Wired, que discutiam como as empresas utilizam a internet para
que usuários trabalhem a seu favor por um baixo custo, obtendo alta lucratividade.
Esse debate se tornou um artigo, com o título de The rise of crowdsourcing,
publicado por Jeff Howe em junho de 2006 pela Wired (SAFIRE, 2015).
A revista Wired, caracterizada por abordar questões sobre como a tecnologia
afeta a cultura, a economia e a política, foi lançada no ano de 1993 com tiragem
impressa e pela internet. No referido artigo, Howe associa a origem do
36
crowdsourcing ao movimento do software livre e aponta exemplos de como o
capitalismo se apropriou do crowdsourcing para alavancar empreendimentos de
sucesso financeiro na internet.
Bem-vindos à era da multidão. […] O movimento do software livre provou
que uma rede de apaixonados voluntários podem escrever códigos tão bons
quanto desenvolvedores altamente remunerados da Microsoft ou Sun
Microsystems. A Wikipedia mostrou que o modelo pode ser utilizado para
criar uma extensa e surpreendentemente abrangente enciclopédia on-line.
Empresas como eBay e MySpace construíram negócios rentáveis que não
poderiam existir sem as contribuições dos usuários. (HOWE, 2006)14
Na Tabela 3 estão listadas algumas plataformas de crowdsourcing ativas na
internet:
Tabela 3 – Plataformas de crowdsourcing
Site Descrição
1. X PRIZE Foundation (www.xprize.org)
A X PRIZE se concentra na concepção e
execução de incentivo competições no valor
entre US$ 1 milhão e US$ 30 milhões com foco
na resolução grandes desafios.
2. CoFundos (www.cofundos.org) Plataforma focada no desenvolvimento desoftware de código aberto.
3. Genius Rocket (www.geniusrocket.com)
Agência de design criativo composta
exclusivamente de profissionais de vídeo com
foco na produção de conteúdo de publicidade.
4. Amazon Mechanical Turk (www.mturk.com)
Plataforma de crowdsourcing para tarefas
simples que os computadores não podem realizar
(ainda), como podcasts transcrever ou editar
texto.
5. Innocentive (www.innocentive.com) Plataforma com foco em concursos de inovação.
6. UTest (http://www.utest.com) Maior plataforma do mundo para serviços detestes de software.
7. IdeaConnection (www.ideaconnection.com) Plataforma de desafio aberta para novasinvenções, inovações e produtos.
8. NineSigma (www.ninesigma.com) Conecta clientes à uma rede global deespecialistas em inovação.
9. Ennovent (www.ennovent.com)
Plataforma de especialistas em busca de
soluções para o desenvolvimento sustentável,
energia, saúde, água, alimentação e educação
na Índia rural.
10. TopCoder (www.topcoder.com) Plataforma com mais de 425 mil desenvolvedores
14 Original em inglês: “Welcome to the age of the crowd. […] The open source software movement
proved that a network of passionate, geeky volunteers could write code just as well as the highly paid
developers at Microsoft or Sun Microsystems. Wikipedia showed that the model could be used to
create a sprawling and surprisingly comprehensive online encyclopedia. And companies like eBay and
MySpace have built profitable businesses that couldn’t exist without the contributions of users.”.
37
de software, algoritmos e designers digitais.
Fonte: Cavalheiro (2012, p. 10).
Iremos discutir na próxima seção como funciona o crowdsourcing e quais
exemplos podemos averiguar para permitir ao leitor melhor compreensão do
assunto. Para isso, desenvolvi um paradigma, que chamo de Paradigma do
crowdsourcing (Figura 7), formado por três elementos que retirei da definição de
crowdsourcing supracitada. Esses três elementos são crowdsourcer (plataforma de
crowdsourcing), multidão (o bilhão de usuários) e tarefa (uma ação organizada pelo
crowdsourcer para a multidão), todos eles imersos na esfera da internet.
Figura 7 – Paradigma do crowdsourcing
Fonte: elaborada pelo autor.
Esse paradigma será evocado ao longo da dissertação sempre que for
necessário tornar mais inteligível a prática de crowdsourcing a partir da identificação
dos três elementos.
1.3 Prática do crowdsourcing
38
Por ser um fato recente, a Revolução Digital gerou uma série de práticas na
internet. Na tentativa de entender tais práticas, os pesquisadores lançam-se na
tentativa de decifrá-las. São criados diversos termos para dar nome a tais práticas,
termos esses que buscam definir um padrão de comportamento. O crowdsourcing é
um desses termos criados na tentativa de nomear e decifrar as práticas decorrentes
da Revolução Digital.
Muitas plataformas estão conseguindo prosperar e desenvolver diferentes
negócios na internet, o que hoje conseguimos identificar como crowdsourcing. No
entanto, as utilizações do crowdsourcing são diversas, novos modelos e categorias
são desenvolvidas e outras estão entrando em desuso com o passar do tempo. O
crowdsourcing se tornou uma espécie de termo guarda-chuva para outros termos
(MONTEIRO, 2014, p. 23).
Vou apresentar a seguir um organograma que relaciona o crowdsourcing a
outros termos criados a partir de experiências ocorridas na internet (Figura 8). Esse
organograma foi desenvolvido com base nas ideias de Jeff Howe e nos demais
termos encontrados durante a pesquisa, e tem a seguinte divisão: na parte superior
está o crowdsourcing; abaixo do crowdsourcing estão os modelos de crowdsourcing;
esses modelos são termos criados para nomear as diferentes formas como o
crowdsourcing é utilizado na internet, e cada modelo possui características
diferentes.
39
Figura 8 – Modelos de crowdsourcing
Fonte: elaborada pelo autor.
Não vou me dedicar com afinco a explicar esses termos e apresentar uma
gama de exemplos de como eles estão funcionando nas plataformas da internet,
deixo aqui apenas o registro desse pequeno mapa teórico, cujos principais termos
têm os seguintes significados:
Inteligência coletiva ou sabedoria das multidões: modelo de
crowdsourcing baseado na premissa de que a multidão tem mais conhecimento que
um pequeno conjunto de especialistas para solucionar uma tarefa. Para funcionar,
esse modelo precisa criar as condições adequadas em que a multidão poderá se
expressar para solucionar uma tarefa. Como exemplo, temos a empresa Netflix
(crowdsourcer), que possuía um problema em sua plataforma que não conseguia
solucionar com sua equipe. Ela, então, no ano de 2006, lançou o Netflix Prize,
oferecendo US$ 1 milhão para quem conseguisse melhorar em 10% o sistema de
indicações de filmes de sua plataforma (tarefa). A multidão decidiu encarar a tarefa e
conseguiu desenvolver o código que os funcionários da empresa não conseguiam
(HOWE, 2009, p. 137).
Criatividade da multidão: modelo de crowdsourcing baseado na premissa de
40
que é possível que o crowdsourcer transfira para a multidão o trabalho de criação. A
multidão tem potencial criativo, capaz de criar em grande quantidade. Dessas
milhares de possibilidades criativas, uma pequena parcela possui qualidade
suficiente para ser explorada e gerar retorno à multidão e ao crowdsourcer. Temos
como exemplo a empresa Threadless (crowdsourcer), que nos anos 2000 lançou um
concurso de design de camisetas (tarefa) que contou com a participação de usuários
designers amadores e profissionais (multidão), cujos vencedores tiveram suas
camisetas produzidas pela empresa e vendidas na plataforma Threadless.com
(HOWE, 2009, p. 195).
Poder de voto da multidão: é o modelo de crowdsourcing que utiliza “a
opinião da multidão para organizar grandes volumes de informação” (HOWE, 2009,
p. 247). A participação da multidão não é necessariamente através do voto e a tarefa
não precisa ser apresentada à multidão. O aspecto mais interessante é a
perspicácia da multidão em selecionar o joio do trigo entre os milhões de dados que
existem na internet. Como exemplo, temos a empresa Google (crowdsourcer), que
usa, entre outros algoritmos de busca, um algoritmo capaz de reconhecer os
mesmos links publicados pela multidão em páginas da internet. A Google utiliza
esses dados para criar um ranking de quantas vezes um mesmo link é publicado na
internet (tarefa). Os links que aparecem em mais páginas da internet e que são
compartilhados por plataformas de grande acesso tendem a ser novamente
divulgados em outras páginas. A empresa consegue mapear essa quantidade de
vezes que um link é compartilhado na internet e coloca esse mesmo link como um
dos primeiros a aparecer quando se busca, no Google, alguma das palavras que
existem na página do link. “O que a Google demonstrou foi que as decisões
individuais, quando agregadas apropriadamente, são capazes de organizar uma
vasta quantidade de informações diferentes” (HOWE, 2009, p. 206). Os links mais
compartilhados pela multidão ficam nas primeiras posições do ranking, mas eles só
são amplamente compartilhados porque as pessoas que os acessaram confiaram no
conteúdo apresentado a ponto de compartilhar em suas páginas pessoais.
Esse é um ótimo exemplo de crowdsourcing em que a multidão não sabe que
está executando uma tarefa para um crowdsourcer, no caso a Google, produzindo
conteúdos que serão utilizados pela própria multidão gratuitamente, assim como
serão capitalizados pelo crowdsourcer.
Crowdfunding: modelo de crowdsourcing que utiliza a multidão para financiar
41
algo através de uma plataforma. Neste caso, a tarefa é financiar as coisas. A
plataforma de crowdfunding é o crowdsourcer e a multidão são as pessoas que
participam desse financiamento, chamados de prosumidores e empreendedores.
Nas próximas páginas, vou me dedicar com mais afinco ao crowdfunding e trazer
exemplos de seu funcionamento, montar seu paradigma e falar sobre seu
desenvolvimento no mundo, mais especificamente no Brasil.
Com esse organograma apresentado, posso afirmar que o crowdsourcing é
uma prática complexa. A multidão é formada por usuários que possuem ou não
experiência profissional para contribuir com as tarefas lançadas pelos
crowdsourcers. Em alguns casos, a multidão recebe dinheiro para executar uma
tarefa – como no prêmio da Netflix –, em outros casos, não – como os usuários que
publicam conteúdos na Wikipedia o fazem por livre e espontânea vontade. Em
outros casos ainda, a multidão nem sabe que está executando uma tarefa – como
nas pesquisas no Google.
O que as empresas estão percebendo é que a multidão tem uma fonte de
energia inesgotável: a criatividade (HOWE, 2009, p. 157). Essa energia
aparentemente infinita de criatividade é um combustível ideal para o
desenvolvimento da prática do crowdsourcing.
Nas próximas páginas, será analisado o crowdfunding, um modelo de
crowdsourcing que possui trajetória própria, influenciada pela Revolução Digital, pelo
paradigma do crowdsourcing e pelo comportamento da multidão. Vamos entender o
que significa crowdfunding, como ele funciona e quais suas origens, para depois
contar uma breve história de seu desenvolvimento no mundo, nomear e apresentar
seus três principais elementos.
1.4 Crowdfunding
Para buscar uma definição mais abrangente sobre crowdfunding, segui os
caminhos da Revolução Digital. Apostei nas respostas oriundas da energia criativa
da multidão disponíveis na internet em duas plataformas de crowdsourcing: YouTube
e Wikipedia.
Ao entrar no YouTube, pesquisei por um vídeo escrevendo na barra de
pesquisa “o que é crowdfunding?”. Em seguida, uma série de algoritmos e códigos
42
começou a trabalhar para me oferecer uma lista de vídeos que pudessem
corresponder à minha busca. Eu, um usuário, faço parte da multidão. O YouTube,
uma plataforma da Google, é o crowdsourcer. A tarefa é encontrar vídeos no
YouTube relacionados ao que escrevi na barra de busca. O crowdsourcer utiliza os
dados de outros usuários da plataforma, meus dados pessoais de navegação no
Google e outros algoritmos que desconheço e cria uma lista de vídeos cujos
primeiros são de maior acesso e estão relacionados à pergunta que escrevi (o que é
crowdfunding?).
Assisti aos dez primeiros vídeos que o YouTube selecionou para mim. A
maioria deles tinha menos de três minutos e os de maior duração eram entrevistas
com especialistas sobre crowdfunding. Os vídeos foram realizados por pessoas
buscando financiamento de seus projetos, plataformas de crowdfunding
preocupadas em explicar com o que trabalham e programas de entrevista sobre
tecnologia. Anotei as principais definições apresentadas, depois parti para a
definição de crowdfunding da plataforma Wikipedia.
Ao entrar em wikipedia.org, pesquisei a palavra crowdfunding em publicações
da língua portuguesa. Fui direcionado a uma página com um artigo de título
Financiamento Coletivo. Nessa página está a definição do que é crowdfunding e um
resumo de sua história. Ali encontrei o link para o artigo original em inglês e, ao
acessar essa versão, fui surpreendido com a manifestação da inteligência coletiva.
O conteúdo era claro, contemporâneo e com uma bela gama de referências para se
entender o que é crowdfunding, como pode ser observado no sumário do artigo
apresentado na Figura 9.
43
Figura 9 – Sumário do artigo chamado Crowdfunding
Fonte: Wikipedia (2016).
Wiki, que significa rápido, é uma palavra de origem havaiana (HOWE, 2009,
p. 51). Wikipedia, a rápida enciclopédia, é o crowdfunder. A tarefa é possibilitar o
acesso livre, pela internet, ao conteúdo da enciclopédia e permitir a participação da
multidão através da publicação, da edição e da revisão de seus conteúdos.
Pesquisar na Wikipedia é praticar o crowdsourcing.
Decidi, então, comparar as definições encontradas no YouTube e na
Wikipedia com as definições acadêmicas brasileiras, depois remixar tais definições
para chegar à definição mais universal e abrangente possível. Crowdfunding, um
termo originário da língua inglesa formado por duas palavras, crowd (multidão) e
funding (financiamento), consiste na prática de conseguir contribuições monetárias
de duas ou mais pessoas através da internet para viabilizar serviços, projetos,
produtos, causas ou experiências de indivíduos, coletivos, associações,
44
cooperativas ou empresas. É um termo que surge na internet em 2006, cunhado por
Michael Sullivan em sua já encerrada plataforma estadunidense Fundavlog (DRAKE,
2015). Fundavlog foi uma tentantiva de incubadora em forma de páginas para
projetos relacionados a videoblog. No entanto, o termo crowdfunding ganha
notoriedade após os primeiros casos de financiamentos realizados com sucesso
pela plataforma estadunidense Kickstarter (CASTRATARO, 2011).
A palavra crowdfunding já faz parte dos novos dicionários da língua inglesa.
Segundo o dicionário Oxford (2015), é “a prática de financiar um projeto ou
empreendimento de risco levantando pequenas quantias de dinheiro de um grande
número de pessoas, normalmente através da internet.”. No dicionário Cambridge
(2015), é “a prática de conseguir um grande número de pessoas para cada um dar
uma pequena quantia de dinheiro, com fim de fornecer o financiamento para um
projeto de negócios, geralmente usando a internet.”.
Como já fora previamente dito, a empresa Massolution divulga anualmente,
em seu site crowdsourcing.org, relatórios com números sobre a prática do
crowdfunding ao redor do mundo. Vou comparar dois relatórios: Crowdfunding
Industry Report 2012, com dados sobre o ano de 2012, e Crowdfunding Industry
Report 2015, com dados sobre o ano de 2014.
Essa pesquisa teve acesso na íntegra apenas ao relatório de 2012. Os dados
de 2015 foram extraídos de uma reportagem escrita por Erin Hobey para a
plataforma Crowdfund Insider. Vale relembrar que outras pesquisas brasileiras
também utilizam o relatório de 2012 para apresentar estatísticas internacionais sobre
o crowdfunding. A versão de 2012 é a mais recente que se encontra disponível
gratuitamente na internet, e a versão de 2015 pode ser comprada por US$ 495.00
na plataforma crowdsourcing.org.
Dentre as pesquisas brasileiras consultadas, a dissertação Crowdfunding no
Brasil: uma análise sobre as motivações de quem participa, de Mônica de Carvalho
Penido Monteiro, da Fundação Getúlio Vargas, fez um recorte interessante dos
dados do Crowdfunding Industry Report 2012. Monteiro (2014, p. 36) destacou o
volume total de recursos arrecadados através dessa prática na internet, o valor que
os países arrecadaram com crowdfunding e a porcentagem de crescimento do
volume total de recursos entre os anos 2011 e 2012. Com base nos dados da autora,
produzi a Tabela 4, na qual comparo o volume total de recursos arrecadados por ano
e apresento a variação desse valor entre 2012 e 2014.
45
Tabela 4 – Valor arrecadado e variação entre 2012 e 2014
Ano 2012 2014
Valor arrecadado US$ 2.8 bilhões US$ 16.2 bilhões
Variação do valor arrecadado 2012-2014 em % 478,00%
Fonte: adaptada de Monteiro (2014, p. 36).
De acordo com o relatório de 2015, a Ásia é apontada como a região do
mundo onde o crowdfunding mais cresceu nos dois últimos anos. Hoje, o continente
asiático movimenta mais dinheiro que o europeu, até então segundo colocado. Entre
todos os países, a liderança na arrecadação de dinheiro pelo crowdfunding é dos
EUA (ROBEY, 2015).
No relatório Crowdfunding Industry Report (2012) e nas dissertações de
Santos (2014, p. 71) e Monteiro (2014, p. 10) são apresentadas diferentes
modalidades de crowdfunding, por isso decidi reunir essas modalidades, publicar
seus nomes em inglês, traduzi-los e adicionar uma breve descrição deles, a saber:
a) Donation-based (tradução: baseada na doação)
Modalidade de crowdfunding em que as doações são feitas para viabilizar
algo, sem nenhuma compensação em dinheiro, produtos ou serviços.
b) Equity-based (tradução: baseada na compra de ações)
Modalidade de crowdfunding em que os prosumidores investem dinheiro para
viabilizar algo de um empreendedor em troca de futura participação financeira.
c) Lending-based (tradução: baseada no empréstimo)
Modalidade de crowdfunding em que os prosumidores emprestam pequenas
quantidades de dinheiro para os empreendedores viabilizarem algo, cabendo aos
empreendedores devolver o empréstimo em pequenas parcelas.
d) Reward-based (tradução: baseada na recompensa)
Modalidade de crowdfunding em que os prosumidores viabilizam algo
proposto pelo empreendedor, recebendo em troca uma recompensa. Essa
recompensa não é financeira, mas é um produto ou um serviço oferecido pelo
empreendedor.
Para entender o crowdfunding e suas modalidades, é preciso chegar a seus
próprios termos e a suas definições. Por ser um modelo do crowdsourcing, o
crowdfunding segue o mesmo paradigma. Tanto o crowdfunding como o
46
crowdsourcing dependem da interação de três elementos para existir, os quais se
encontram dentro da esfera da internet e apresentam algumas diferenças.
O primeiro elemento, crowdsourcer, será chamado de plataforma de
crowdfunding, pois ambos os termos se referem a plataformas da internet, mas o
segundo termo é focado naquelas criadas para a prática do crowdfunding. O
segundo elemento, multidão, torna-se apenas uma parcela de seus usuários,
chamados de prosumidores, os quais são consumidores, de produtos e serviços de
projetos de crowdfunding, e produtores, pois apoiam financeiramente e divulgam o
projeto em suas redes, mobilizando outros usuários e, assim, gerando novos apoios.
O termo prosumidores caracteriza a dificuldade de distinguir se um usuário é apenas
consumidor ou produtor.
Em seu livro A terceira Onda, Alvin Toffler previu que os consumidores
exerceriam maior controle sobre a criação dos produtos que utilizam,
tornando-se "prosumidores". Em 1980, ano em que Toffler publicou o livro, a
ideia mais parecia um enredo de romances de ficção científica de qualidade
duvidosa. Mas sob a perspectiva de 2005, o conceito pareceu de uma
presciência impressionante. (HOWE, 2009, p. 4)
O terceiro elemento, tarefa, agora é o empreendedor, um usuário que está
propondo projetos junto ao crowdfunder para conseguir recursos financeiros dos
prosumidores. Cada um dos três elementos será melhor abordado em sua própria
seção nesta dissertação. Vejamos, na Figura 10, a organização desses elementos:
47
Figura 10 – Os três elementos do crowdfunding
Fonte: elaborada pelo autor.
Vou apresentar alguns exemplos para expor as diferenças entre as
modalidades de crowdfunding. O primeiro exemplo se refere à modalidade baseada
na doação. Nas eleições de 2008, Barack Obama arrecadou através da internet,
para as primárias do Partido Democrata, cerca de US$ 272 milhões de mais de 2
milhões de pessoas, a maioria pequenos doadores (HOWE, 2009, p. 222). A tarefa é
a mesma de sempre, conseguir arrecadar recursos financeiros. Foi criada uma
plataforma de crowdfunding para arrecadar as doações, Obama é o empreendedor,
seu projeto é vencer as primárias e ser candidato à Presidência. Os prosumidores
são os eleitores que acessam a plataforma criada e fazem a doação para Obama.
Não existe, nessa modalidade, um retorno material ao prosumidor. Ele não recebe
nenhum dinheiro, produto ou serviço em troca dessa doação, e essa é a principal
característica dessa modalidade.
O segundo exemplo é referente à modalidade baseada na recompensa. A
plataforma de crowdfunding estadunidense Kickstarter, famosa por financiar projetos
de cinema, tecnologia, música, quadrinhos e jogos, teve entre seus muitos projetos
financiados o projeto de cinema chamado The newest hottest Spike Lee joint.
48
Proposto pelo cineasta Spike Lee, que precisava de US$ 1,25 milhões para fazer
seu próximo filme, o projeto ofereceu aos prosumidores 82 recompensas diferentes,
e cada uma delas poderia ser adquirida de acordo com o valor pago à plataforma
Kickstarter. Aplicando os três elementos, temos o Kickstarter como crowdfunder,
Spike Lee como empreendedor e os 6.421 usuários como prosumidores que com
seus apoios financiaram US$ 1.418.910,00, recebendo em troca desse apoio uma
das 82 recompensas disponíveis. Receber algo em troca do apoio de um projeto é a
principal característica da modalidade de crowdfunding baseada na recompensa.
Esta é a que mais se desenvolveu no Brasil e será nosso foco de pesquisa durante
toda a dissertação.
O terceiro exemplo refere-se à modalidade baseada no empréstimo. A
plataforma Kiva.org foi uma das primeiras do mundo a realizar microempréstimos
através do crowdfunding. Ao visitar o site da Kiva, deparo-me com diversos
exemplos, e um deles é o projeto proposto pela Babban Gona Farmer Organization,
chamado Yusif. Yusif é o nome do fazendeiro que precisa de US$ 450,00
emprestados para ampliar sua produção. A organização que propõe o projeto
armazena a produção de um grupo de fazendeiros, permitindo que eles possam
estocar e vender a melhores preços os alimentos que produzem. Yusif, da Nigéria, é
um desses fazendeiros. Nesse caso, Kiva é o crowdfunder e Babba Gona Farmer
Organization é o empreendedor. Quem faz o empréstimo são os prosumidores. O
projeto é auxiliar a produção de Yusif. A tarefa, como em todas as modalidades de
crowdfunding, é conseguir arrecadar dinheiro. Após essa arrecadação, durante um
período de tempo já determinado é feito o reembolso ao prosumidor, acrescido de
uma pequena taxa de juros, e esse empréstimo é pago com a renda gerada pelo
trabalho de Yusif. Emprestar pequenas quantias de dinheiro para pessoas que não
conseguem outras fontes de financiamento é uma característica dessa modalidade.
O quarto exemplo se refere à modalidade baseada na compra de ações. A
plataforma de crowdfunding EquityNet.com conecta empreendedores interessados
em conseguir dinheiro para seus negócios a prosumidores interessados em investir
em novos negócios. A tarefa também é conseguir dinheiro. Nesse exemplo, a
empresa Linear Labs Inc. conseguiu arrecadar US$ 500.000,00 para pagar suas
dívidas e manter suas atividades, e em troca cedeu aos prosumidores percentuais
de seu futuro lucro durante um período. Eles se endividaram para desenvolver um
projeto de motores elétricos. Os prosumidores que compraram essa dívida em troca
49
de participação nos lucros não são identificados. A característica mais marcante
dessa modalidade de crowdfunding baseada na compra de ações é o prosumidor
ser um investidor que pretende lucrar no futuro, caso o empreendimento em que ele
investe tenha sucesso.
1.5 Origens do crowdfunding
A prática de conseguir pouco dinheiro de muitas pessoas para realizar algo já
existe há muito tempo. Pesquisando a história do crowdfunding, é comum se
deparar com os seguintes exemplos como seus primeiros casos: o financiamento,
feito pela internet em 1997, do filme Foreign correspondents (Mark Tapio Kines,
1999) (KINES, 2015); a banda britânica Marillion, que em 1997 conseguiu recursos
na internet para fazer sua turnê nos EUA (PRESTON, 2014); a plataforma
ArtistShare, pioneira na prática do crowdfunding em 2003, antes do termo ser criado
(ARTISTSHARE, 2015). Vou relatar duas histórias de financiamentos, anteriores à
Revolução Digital, nas quais podemos identificar a prática do crowdfunding.
Em um dos encontros que tive com meu orientador, Professor Doutor Arthur
Autran, foi feita a provocação de que o crowdfunding já recebeu outros nomes em
outras épocas do capitalismo. Um dos exemplos desses nomes é a subscrição. No
livro Film history: theory and practice, de Robert C. Allen e Douglas Gomery, há uma
história de subscrição para o financiamento daquele que seria um dos primeiros
livros sobre cinema feitos nos EUA. Em 1926, o jornalista Terry Ramsay conseguiu
financiar e publicar o livro A million and one nights, uma compilação de seus artigos
sobre cinema, vendendo o mesmo livro por subscrição para conseguir publicá-lo. A
subscrição era o pagamento da cópia de um ou mais exemplares do livro antes de
ele ser publicado. Em troca dessa subscrição, a pessoa teria direito de aparecer no
livro em uma imagem ou como objeto de um artigo. A exposição variava conforme a
quantidade de exemplares comprados. Apesar do livro não ter sido totalmente
financiado por subscrições (ALLEN; GOMERY, 1993, p. 60), podemos dizer que ali já
havia algo próximo ao crowdfunding. Vou aplicar os três elementos nessa história e
verificar se é possível identificar o crowdfunding: os prosumidores, nesse caso, são
as pessoas do meio cinematográfico que compraram o livro por subscrição; essas
pessoas receberam duas recompensas em troca dessa compra antecipada:
50
a) exemplares do livro sobre cinema;
b) exposição de sua imagem e de seus trabalhos em cinema no próprio livro.
O empreendedor é Terry Ramsay, que tem a vontade de escrever o livro e
busca nos prosumidores recursos para conseguir publicar, o prosumidor paga o livro
e recebe em troca recompensas, e a plataforma de crowdfunding é a própria
subscrição, prática antiga que não precisa de internet, pois tem seus próprios
códigos para funcionar. A história do livro A million and one nights pode ser
considerada também como um exemplo de crowdfunding baseado na recompensa.
Outra história que serve como exemplo predecessor do crowdfunding é a
construção do pedestal da Estátua da Liberdade em 1885. Um bom exemplo de
crowdfunding ocorrido antes do advento da internet, no século XIX, a história dessa
estátua é a seguinte: construída pela Gaget, Gauthier e Cia Workshop em Paris, a
estátua foi um presente da França para os EUA. Ela veio de barco da Europa para a
América, no entanto cabia aos EUA a construção do pedestal para sustentá-la. A
prefeitura de Nova Iorque não tinha tal recurso e já havia outras cidades
estadunidenses se oferecendo para pagar o pedestal e receberem a estátua. O
jornalista Joseph Pulitzer, dono do jornal The New York World, começou uma
campanha em que eram aceitas doações em dinheiro para construir a base da
estátua, tendo como recompensa, para quem fizesse uma doação, seu nome
publicado na primeira página do jornal. O valor necessário para construir o pedestal
e erguer a estátua era de US$ 100.000,00 e o jornal conseguiu arrecadar US$
101.091,00 (BBC, 2013) de mais de 120.000 pessoas (EUA, 2015).
O crowdfunder é o jornal The New York World, os prosumidores são os
leitores do jornal que apoiaram e receberam em troca a divulgação de seus nomes
nos jornais, o empreendedor é Joseph Pulitzer, que criou a campanha, e a tarefa
como sempre é conseguir dinheiro para viabilizar algo – no caso, dinheiro para
viabilizar o pedestal da Estátua da Liberdade.
Entre as histórias que apresentei, fico com a construção da Estátua da
Liberdade, em 1885, como o exemplo mais antigo de crowdfunding. Essa história se
adapta muito bem ao paradigma, com o jornal atuando muito próximo do que fazem
as plataformas hoje em dia. Entretanto, crowdfunding, termo cunhado no século XXI,
refere-se às práticas de financiamento que ocorrem na internet, não a outras
práticas de financiamento que já existiram. Suas origens podem ser percebidas em
histórias do passado, mas foi na Revolução Digital que ele foi criado e se espalhou
51
pelo mundo.
1.6 Plataforma
A ArtistShare se autodenomina a primeira plataforma de crowdfunding do
mundo. Vejamos a seguir o primeiro parágrafo do texto disponível na página Sobre
nós:
O que é ArtistShare? ArtistShare, fundado por Brian Camelio, é a plataforma
que conecta artistas criativos com fãs a fim de compartilhar o processo
criativo e financiar a criação de novos trabalhos artísticos. ArtistShare criou
a primeira plataforma de financiamento dos fãs (conhecida hoje como
“crowdfunding”), lançando seu projeto inicial em outubro de 2003.
(ARTISTSHARE, 2015)15
As plataformas de crowdfunding foram criadas para facilitar a conexão entre
os empreendedores e os prosumidores. Após o desenvolvimento das primeiras
plataformas, como a ArtistShare, o modelo do crowdfunding começou a se espalhar
pela internet e, hoje, existem centenas de plataformas ao redor do planeta. Elas são
responsáveis por oferecer um pacote de serviços ao empreendedor que Zuquetto
(2015, p. 16) foi capaz de identificar e reunir em sua pesquisa. Abaixo estão
descritos todos os serviços desse pacote junto às citações de referências com
exemplos dos serviços praticados em plataformas brasileiras. Esses serviços são:
a) atendimento aos empreendedores antes, durante e depois do
financiamento;
b) atendimento aos prosumidores;
c) eventos relacionados ao crowdfunding (PAPP, 2012);
d) manuais de desenvolvimento de projetos (KICKANTE, 2016);
e) página dentro da plataforma para os empreendedores e seu projeto
(BENFEITORIA, 2016);
f) tramitação financeira do dinheiro recebido (VAKINHA, 2016).
Durante a leitura das pesquisas brasileiras sobre o tema, encontrei uma série
de exemplos dessas plataformas, seguindo diferentes modalidades de crowdfunding,
15 Original em inglês: “What is ArtistShare? ArtistShare, founded by Brian Camelio, is a platform that
connects creative artists with fans in order to share the creative process and fund the creation of new
artistic works. ArtistShare created the Internet's first fan funding platform (referred to today as
‘crowdfunding’) launching its initial project in October, 2003.”.
52
com diferentes temáticas e público-alvo de prosumidores e empreendedores.
Existem, por exemplo, plataformas para empreendedores com projetos ambientais,
sociais, culturais, educativos, esportivos, tecnológicos e ligados à saúde (COSTA,
2013, p. 36). Temos na Tabela 5 uma lista de plataformas internacionais de
crowdfunding.
Tabela 5 – Lista de 11 plataformas internacionais de crowdfunding
Site Descrição
Crowdcube www.crowdcube.com Permite as empresas iniciantes levantar fundosatravés da oferta de capital real.
Fundable www.fundable.org Fornece financiamento para todo tipo deatividade.
GoFundMe www.gofundme.com Torna mais fácil para qualquer um para levantar odinheiro para suas ideias pessoais.
Inkubato www.inkubato.com Financiamento de projetos criativos, deinvenções para a literatura.
IndieGoGo www.indiegogo.com É um mercado online sociais para os inventores eoutros tipos criativos.
Kapipal www.kapipal.com
Permite que qualquer um criar um crowdfunding
página com pouca ou nenhuma restrições de
projetos.
Kickstarter www.kickstarter.com Fundos para todos os tipos de projetos criativosatravés de doações.
Peerbackers www.peerbackers.com Voltados especificamente para empresários quequeiram lançar ou expandir seus negócios.
Quirky www.quirky.com
Traz novos produtos ao mercado a cada semana;
as receitas são partilhadas diretamente com
inventores.
CrowdRise www.crowdrise.com Voltada para a captação de recursos paracaridade, eventos e projetos especiais.
RocketHub www.rockethub.com Base para crowdfunding de projetos criativos.
Fonte: Cavalheiro (2012, p. 116).
Além dessas plataformas, temos casos de plataformas de crowdfunding
criadas por empreendedores dedicadas a um único projeto, produto, serviço, causa
ou experiência. Um exemplo disso é a plataforma brasileira Eu Maior16, que utilizou a
prática do crowdfunding, associada à Lei do Audiovisual, para conseguir
financiamento. Essa plataforma é um dos casos que serão explorados no segundo e
no terceiro capítulo desta dissertação.
A publicação Crowdfunding Industry Report 2015 afirma que existem 1.250
plataformas de crowdfunding ativas na internet (HOBEY, 2015). Massolution,
16 Disponível em: .
53
empresa responsável pela pesquisa, afirma ter a lista completa dessas plataformas.
Por ser uma prática em expansão, muitas empresas têm tentando inovar e
desenvolver plataformas de crowdfunding voltadas a um nicho específico. Um
desses casos é o da plataforma brasileira Minimecenas.com.br, que visava
conseguir recursos para viabilizar a carreira de um artista, empreendedor, durante
um ano (CAVALHEIRO, 2012, p. 122). A plataforma, lançada em 2011, não
sobreviveu. O endereço não funciona mais e a última publicação feita na conta de
uma rede social da plataforma foi em 2012.
Minimecenas é apenas um exemplo, entre centenas de plataformas de
crowdfunding criadas e espalhadas ao redor do mundo, tentando desenvolver uma
especificidade própria para um nicho específico, mas que acaba encerrando suas
atividades por falta de interesse dos prosumidores e empreendedores.
Dentre todas as plataformas existentes, a que mais arrecadou até hoje foi a
estadunidense Kickstarter. Ela iniciou as operações em abril de 2009 e até o ano de
2014 já havia financiado 60.025 projetos, que arrecadaram um total de US$ 1,3
bilhão. Somente no ano de 2013, Kickstarter arrecadou US$ 480 milhões
(MONTEIRO, 2014, p. 35). O Kickstarter financia projetos de música, cinema, vídeo,
teatro, games, design, alimentação, quadrinhos, publicações, fotografia, dança e
tecnologia. Entre os filmes financiados no Kickstarter está o curta Inocente (Sean
Fine e Andrea Nix, 2012), vencedor do Oscar na categoria curta-metragem em 2013.
Outros filmes financiados pela plataforma também circulam por festivais do mundo
todo. Alguns filmes financiados pelo Kickstarter conseguiram chegar às salas de
cinema. Em 2012, 63 filmes financiados via plataforma estrearam nos cinemas dos
EUA (VALIATI, 2013, p. 75).
A Kickstarter, assim como a plataforma brasileira Catarse, são exemplos de
plataformas de crowdfunding que se encaixam naquilo que foi chamado de
modalidade baseada na recompensa. Essa modalidade de crowdfunding é a que vai
me interessar de agora em diante pelos seguintes fatores:
a) é a modalidade que dissertações, teses e artigos brasileiros se dedicam a
pesquisar;
b) é a modalidade que mais se desenvolveu no Brasil;
c) é a modalidade que se relaciona diretamente com o mercado
cinematográfico.
Uma característica fundamental da Kickstarter, Catarse e demais plataformas
54
de crowdfunding baseadas na recompensa é que o responsável por fazer o projeto e
entregar a recompensa é o empreendedor, sendo a plataforma apenas uma
facilitadora do processo (COSTA, 2013, p. 66). Por serem facilitadoras, as
plataformas têm uma responsabilidade com prazo bem determinado em relação ao
empreendedor e aos prosumidores.
1.7 Confiança e redes
Bartos Batista Bernardes teve a sensibilidade de apontar uma característica
do crowdfuding até então despercebida por mim: a confiança. É graças à confiança
que os três elementos (empreendedor, plataforma e prosumidores) conseguem
funcionar. A plataforma precisa confiar no potencial do empreendedor, os
prosumidores têm de confiar no funcionamento da plataforma e, ainda, nos
empreendedores, pois querem receber a recompensa, e os empreendedores têm de
confiar em seu projeto. “A confiança é um estado psicológico que envolve a intenção
para aceitar vulnerabilidade, tendo em vista positivas expectativas que são criadas
sobre as intenções e o comportamento do outro” (BERNARDES, 2014, p. 47). O
crowdfunding precisa da confiança para poder funcionar.
Confiança e outros termos serão incorporados a esta dissertação para que
possamos continuar a desvendar a prática do crowdfunding. Manuel Castells, um
dos pesquisadores que viveu a Revolução Digital, escreveu livros que influenciaram
grande parte dos pesquisadores brasileiros de crowdfunding, entre eles o
pesquisador Ricardo Alves Cavalheiro. Cavalheiro utiliza o conceito de rede,
desenvolvido por Castells no livro A sociedade em rede (1999), para contar sua
versão da história do crowdfunding. Entre outros termos desenvolvidos por Castells
e incorporados por Cavalheiro está a ideia de redes de comunicação digital.
As redes de comunicação digital são hoje para a Revolução Digital o que
foram as redes de infraestrutura energéticas para a Revolução Industrial
(CAVALHEIRO, 2012, p. 94). Uma rede de comunicação digital é o que possibilita
que um empreendedor de Porto Alegre seja capaz de divulgar seu projeto para um
prosumidor de São Paulo. A rede de comunicação de um empreendedor pode ser
mensurada pela participação que ele tem nas redes sociais, estas opções de baixo
custo capazes de fazer um texto, um vídeo ou uma música atingir um número muito
55
grande de pessoas. É no Facebook, YouTube, Twitter, Vimeo, Google+, Messenger,
Whatsapp e demais redes sociais que o empreendedor se comunica com seus
prosumidores. É nessas redes que as informações sobre crowdfunding estão
circulando.
1.8 Baseada na recompensa
Como vimos antes no organograma (Figura 8), foram criados quatro modelos
diferentes de crowdsourcing, e um deles é o crowdfunding. Do crowdfunding foram
criadas diversas modalidades, uma delas baseada na recompensa. A modalidade
baseada na recompensa é o foco desta dissertação. A Kickstarter é a plataforma
baseada na recompensa que mais financiou projetos e arrecadou dinheiro no
mundo. Entre as plataformas brasileiras, a Catarse é quem mais financiou projetos e
arrecadou dinheiro, sendo também uma plataforma de crowdfunding baseada na
recompensa.
O empreendedor quer realizar seu projeto em uma plataforma de
crowdfunding. Para isso, ele precisa definir o valor do projeto, criar um vídeo, um
hipertexto, um orçamento e uma lista de recompensas. Os prosumidores são
formados por um grupo de usuários. Cada usuário entra na plataforma, assiste ao
vídeo, lê o hipertexto, decide o quanto quer apoiar em dinheiro e escolhe sua
recompensa, que varia de acordo com o valor apoiado pelo prosumidor. É possível
apoiar de maneira anônima ou tendo seu nome divulgado pela plataforma. Existe
também a possibilidade de apoiar e optar por não receber recompensa, atitude
caracterizada como uma doação.
Cabe à plataforma criar uma página para o projeto, divulgando o valor total
que o empreendedor solicitou, quanto já foi arrecado e quanto está faltando. Essa
página precisa incorporar o vídeo, publicar o hipertexto e o orçamento e apresentar
as recompensas oferecidas pelo empreendedor. Assim, os prosumidores têm
conhecimento sobre o projeto, podem escolher qual recompensa querem e fazer o
pagamento.
Antes de divulgar o projeto, a plataforma e o empreendedor definem o prazo
em que o projeto estará disponível na internet para receber os pagamentos. Esse
prazo, nas plataformas brasileiras, varia entre 30 e 90 dias. O período de tempo em
56
que um projeto está disponível na plataforma para receber os pagamentos se chama
campanha. Campanha é a fase do crowdfunding onde o empreendedor se dedica a
divulgar seu projeto enquanto ele está disponível para ser apoiado na plataforma. A
plataforma é responsável por possibilitar que o prosumidor coloque seu dinheiro no
projeto e que o empreendedor receba esse dinheiro, caso o projeto tenha sucesso.
Sucesso é quando uma campanha de crowdfunding consegue ser financiada.
Se o projeto não tiver sucesso, ou seja, não conseguir atingir o valor estipulado pelo
empreendedor, o dinheiro é devolvido a todos os prosumidores que apoiaram. Se
tiver sucesso, atingindo ou até superando o valor estipulado, o empreendedor
precisa cumprir o que foi prometido, realizando o projeto e distribuindo as
recompensas escolhidas pelos prosumidores.
O sistema de coleta do dinheiro, utilizado nas plataformas brasileiras de
crowdfunding, é realizado por meio de empresas especializadas no ramo. As
plataformas contratam essas empresas para permitir que seus usuários tenham
acesso a ferramentas de pagamento pela internet. Um exemplo dessas empresas
que prestam serviço de pagamento pela internet é o PayPal, que permite que um
usuário faça seu pagamento por cartão de crédito, débito em conta corrente,
depósito ou boleto bancário.
As plataformas brasileiras ganham dinheiro retendo uma porcentagem do
valor arrecadado pelo empreendedor ou solicitando doações dos prosumidores.
Cada plataforma escolhe o percentual que vai recolher, sendo que esses valores
variam entre 5% e 15% de todo o montante de dinheiro arrecadado pelo projeto.
1.9 Sucesso de um projeto
Muitos pesquisadores ao redor do planeta tentam descobrir o que eu chamo
de fórmula do sucesso. As plataformas, em sua maioria, apresentam também
pequenos guias sobre como seu projeto pode ter sucesso com a prática do
crowdfunding. No Brasil, Rovan Dill Zuquetto se lançou no desafio de entender o
sucesso no crowdfunding, trazendo uma série de reflexões importantes sobre o
tema. Uma de suas principais reflexões é de que os fatores culturais e econômicos
locais afetam diretamente o sucesso de um financiamento pela internet.
Pesquisadores de Amsterdã, EUA e China já dedicaram parte de seus trabalhos à
57
procura da fórmula do sucesso em seus países e os resultados encontrados foram
diferentes (ZUQUETTO, 2015, p. 23).
O sucesso, como já dissemos, é alcançado no momento em que um projeto
de crowdfunding consegue captar a meta de dinheiro previamente estabelecida. É
difícil criar um paradigma internacional de sucesso para projetos de crowdfunding,
pois cada região tem seu perfil de usuários e características. No Brasil, por exemplo,
diferentemente dos EUA, existem poucos projetos de tecnologia financiados pelo
crowdfunding. Outro fator que afeta o sucesso do crowdfunding é a legislação de
cada país. As plataformas são obrigadas a se adaptarem às leis locais. Nos EUA,
em 2012 foi sancionada a lei Jumpstart Our Business Startups Act (Jobs Act), que
legalizou e estimulou a prática do Equity-based crowdfunding (VALIATI, 2013, p. 67).
Esse tema tem chamado a atenção de pesquisadores, plataformas e
empreendedores. Em sua dissertação, Zuquetto (2015) lança mais hipóteses do que
respostas sobre o sucesso. Ele reúne uma série de hipóteses de sucesso oriundas
de pesquisas internacionais, depois formula suas próprias hipóteses de sucesso e
utiliza ferramentas da administração para tentar comprová-las.
Vou apresentar uma tabela, criada por Zuquetto (2015), com diversas
hipóteses sobre esse sucesso (Tabela 6). A tabela funciona da seguinte maneira: a
primeira coluna é a variável que influencia o sucesso, a segunda coluna é o efeito
que essa variável causa e a terceira coluna são os autores que formularam as
variáveis e seus efeitos.
Tabela 6 – Resumo das variáveis correlacionadas
com o sucesso em outros estudos
Variável Efeito Autores
Tamanho da rede social do
empreendedor
Foram encontrados resultados
divergentes entre o tamanho da
rede social do empreendedor e
as chances de sucesso do
projeto
Mollick (2013), Moisseyev
(2013), Zheng et al. (2014)
Sinais de qualidade da
campanha na plataforma
Ter um vídeo, texto sem erros
ortográficos e interação
constante na página do projeto
aumentam as chances de
sucesso
Agrawal, Catalini, Goldfarb
(2011), Bayus e Venkat (2013),
Mollick (2013)
Destaque na página inicial da
plataforma
Aparecer na página inicial da
plataforma de financiamento
coletivo aumentam as chances
de sucesso
Mollick (2013)
58
População local mais criativa
Proporção de pessoas
ocupando cargos na área de
artes, designer, entretenimento,
esporte e mídia em relação ao
restante da população tem
relação positiva com o sucesso
dos projetos
Mollick (2013)
Financiamento inicial por parte
de familiares e amigos
Foram encontrados resultados
divergentes com relação ao
apoio inicial ao projeto por parte
de familiares e amigos do
empreendedor e sua relação
com o sucesso do projeto
(Agrawal, Catalini e Goldfarb
(2011), Belleflamme, Lambert e
Schwienbacher (2013)
Valor solicitado
Quanto maior o valor solicitado,
menores são as chances de
sucesso do projeto
Mollick (2013)
Duração do projeto
Foram encontrados resultados
divergentes com relação ao
tempo que o projeto fica aberto
para os apoiadores e as
chances de sucesso
Mollick (2013), (Burtch, Ghose e
Wattal (2013)
Quantidade de projetos
apoiados pelo empreendedor
Quantidade de projetos
apoiados pelo empreendedor
antes do encerramento do seu
projeto
Zheng et al. (2014)
Selos de aprovação
Quantidade de vezes que a
página do projeto foi curtida,
compartilhada ou comentada
nos sites de redes sociais
Moisseyev (2013)
Cultura
Diferenças culturais entre países
ou localidades que podem reger
regras de reciprocidade,
confiança, reputação, entre
outras
Zheng et al. (2014)
Fonte: Zuquetto (2015, p. 24).
A soma da variável com o efeito é o que chamo de hipótese de sucesso. O
que não faltam são boas hipóteses sobre o sucesso. Cabe ao empreendedor e às
plataformas arriscar, seguir as hipóteses e descobrir se elas são verdadeiras ou não.
Em sua dissertação, Monteiro (2014) consegue separar o sucesso em diferentes
elementos. Ela coloca que para muitos pesquisadores é imprescindível que o
empreendedor faça um bom vídeo e atualize constantemente os prosumidores sobre
o andamento de sua campanha de crowdfunding. Outros elementos que a
pesquisadora pontua como importantes em projetos de crowdfunding são uma boa
redação do texto e das atualizações que serão feitas sobre o projeto, além de
conhecer bem o perfil dos prosumidores que se interessam por seu projeto e fazer
bom uso de suas redes sociais durante a campanha de crowdfunding (MONTEIRO,
59
2014, p. 16). Isso significa que Monteiro (2014) chega a hipóteses de sucesso muito
próximas das levantadas por Zuquetto (2015).
1.10 Empreendedor
A energia criativa é o que alimenta o crowdsourcing. Dentro da prática do
crowdfunding, além das plataformas, os empreendedores são os responsáveis por
produzir essa energia criativa. Tais empreendedores são considerados como atores
dentro da economia criativa. A economia criativa
trata dos bens e serviços baseados em textos, símbolos e imagens e refere-
se ao conjunto distinto de atividades assentadas na criatividade, no talento
ou na habilidade individual, cujos produtos incorporam propriedade
intelectual e abarcam do artesanato tradicional às complexas cadeias
produtivas das indústrias culturais. (CAVALHEIRO, 2012, p. 57)
A economia criativa engloba desde “as indústrias culturais, o marketing
cultural, os mercados e os públicos culturais, a convergência sócio-tecnológica que
alinha comunicação, telecomunicações e informática, à emergência dos gigantescos
conglomerados de produção de cultura e a inter-relação crescente entre cultura,
entretenimento e turismo.” (CAVALHEIRO, 2012, p. 57).
Sob a perspectiva da economia criativa, poderia ter utilizado outros termos,
como, por exemplo, autor, criador e artesão, ao me referir aos empreendedores.
Escolhi o termo empreendedor pela ideia do empreendedorismo, que remete à
“disposição ou [à] capacidade de idealizar, coordenar e realizar projetos, serviços,
negócios” (HOUAISS, 2012, p. 289).
O empreendedorismo vem sendo valorizado pelo capitalismo do século XXI. O
“[...] empreendedor é aquele que destrói a ordem econômica existente pela
introdução de novos produtos e serviços, pela criação de novas formas
organizacionais ou pela utilização de novos recursos ou materiais. Tal processo é,
então, denominado destruição criativa.” (CAVALHEIRO, 2012, p. 61).
O empreendedor tem características que o aproximam do produtor cultural
brasileiro. A história dos pontos de cultura que Célio Turino relata no livro Ponto de
Cultura – o Brasil de baixo para cima (2009) é um exemplo que podemos encaixar
nesse conceito de empreendedorismo na área da produção cultural.
60
O empreendedor cultural brasileiro tem de inovar e utilizar toda a sua energia
criativa para conseguir produzir e fazer circular sua cultura, já que a produção
cultural está inserida na economia criativa. Os projetos de música, cinema e vídeo
são responsáveis por movimentar as principais cifras da plataforma de crowdfunding
Catarse. Filmes, vídeos e músicas são exemplos de produtos criativos, e o que
determina um produto como criativo é o fato de ter sido concebido mediante um
processo criativo que resultou num valor econômico (HOWKINS, 2007 apud
BERNARDES, 2014, p. 37).
O empreendedor pode ser pessoa física, jurídica ou um coletivo informal de
pessoas que tem um projeto a ser feito. O empreendedor busca a plataforma mais
adequada para esse projeto e, para desenvolver seu projeto, produz o vídeo,
escreve o hipertexto, descreve o orçamento, cria as recompensas e, caso tenha
sucesso, deve realizar seu projeto com o recurso arrecadado. Em muitos casos, o
empreendedor já possui recursos de outras fontes e utiliza o crowdfunding como um
complemento para financiar seu projeto. Após todo esse esforço, ele finalmente
pode distribuir as recompensas aos prosumidores.
1.11 Prosumidor
Nas plataformas, pesquisas e reportagens sobre crowdfunding, descobri
diferentes palavras para definir os usuários que chamo de prosumidores. No geral,
as palavras mais utilizadas foram doador, investidor, patrocinador, financiador,
apoiador, colaborador e consumidor. Todos esses adjetivos derivam dos verbos
doar, investir, patrocinar, financiar, apoiar, colaborar e consumir. Quando as
plataformas, pesquisas e reportagens denominam os prosumidores com tais
adjetivos, elas estão associando o usuário ao verbo que será utilizado para definir o
ato do pagamento feito em uma plataforma de crowdfunding para financiar um
empreendedor.
Esse verbo pode mudar conforme a intenção de quem coloca o dinheiro
(COSTA; LORENZI; HENNIGEN, 2012, p. 2). O prosumidor pode ser chamado de
doador se doar dinheiro e não pedir nenhuma recompensa. O prosumidor pode ser
chamado de investidor se investir dinheiro em uma plataforma para comprar ações
de uma empresa, esperando ganhar dinheiro em um futuro lucro dessa empresa. O
61
verbo que utilizo nessa pesquisa para definir o ato de colocar dinheiro em um projeto
de crowdfunding é apoiar, pois essa é a forma utilizada por grande parte das
plataformas brasileiras de crowdfunding.
O prosumidor tem a capacidade de participar diretamente daquilo que quer
ver acontecer no mundo. O artigo Crowdfunding: Problematizando Participação
Social, Consumo e Mecanismos de Visibilização, publicado em 2012 nos anais do VI
Encontro Nacional de Estudos de Consumo, já apontava a possibilidade de que os
“doadores de um site de crowdfunding podem ser comparados ao conceito de
‘prosumers’, palavra criada para designar a união entre o produtor (producer) e
consumidor (consumer)” (COSTA; LORENZI; HENNIGEN, 2012, p. 9). Portanto, não
fui eu quem primeiramente associou prosumidor com crowdfunding.
No documentário A Master Class In Crowdfunding & Film Distribution – Full
Interview with Emily Best (SEED&SPARK CEO) (Film Courage, 2015), Emily Best,
estadunidense realizadora de filmes via crowdfunding e CEO da plataforma de
crowdfunding cinematográfico Seed and Spark, discorre ao longo de 1 hora e 14
minutos sobre crowdfunding e cinema. Destaco aqui uma de suas ideias totalmente
oportunas para se entender o papel do prosumidor no crowdfunding:
A palavra crowdfunding é uma palavra composta, existem duas palavras
nessa palavra, e a primeira palavra não está ali por ser mais bonita, está lá
porque é a palavra mais importante. Eu não posso obter financiamento se
eu já não tiver uma multidão […] Crowdfunding é uma fase e não é a
primeira fase da construção de público que você faz para sua carreira.
(BEST, 2015)17
A empreendedora do ramo destaca veementemente nessa fala a importância
de se ter uma multidão e um público para conseguir ter êxito em uma empreitada de
crowdfunding. A multidão e o público de Emily são chamados aqui de prosumidores.
E quem são os prosumidores a que ela se refere? São as pessoas interessadas que
orbitam ao redor do empreendedor, seus familiares, amigos de infância, parceiros de
trabalho e fãs, ou seja, são pessoas que querem ver o trabalho do empreendedor
realizado. Muitos projetos de crowdfunding, para conseguir seu financiamento,
precisam superar o círculo de pessoas próximas do empreendedor e atingir um
grande número de usuários da internet que nem conhecem o empreendedor ou seu
17 Original em inglês: “The word crowdfunding is a compound word, there are two words in that word,
and the first word is not there because is a prettier word, is there because is the more important word.
I cannot get funding if you do not already have the crowd [...] Crowdfunding is a phase and is not the
first phase of audience building you are doing throughout your entire career.”.
62
trabalho. Para entender melhor como isso é possível, voltemos a Emily Best. Ela
destaca também três questões importantes que devem ser levantadas antes de se
começar uma campanha de crowdfunding: por que você quer fazer esse filme? Pra
quem você vai fazer esse filme? O que você realmente precisa para fazer esse
filme?
Entre essas três perguntas, a que nos interessa é a segunda – pra quem você
vai fazer esse filme? Para seus amigos, familiares e parceiros de trabalho? Para
salas de cinema, cineclubes ou mostras? Quem são as pessoas interessadas em
ver o filme? A temática do filme e a equipe envolvida são capazes de atrair outros
usuários para o financiamento? Outros usuários da plataforma de crowdfunding
podem se interessar pelo filme?
Qualquer pessoa interessada em praticar o crowdfunding precisa fazer
perguntas e mais perguntas sobre quem são seus prosumidores, montar uma lista
com todos os prosumidores que conhece e identificar quais nichos seu projeto pode
alcançar.
Vejamos o exemplo do documentário Belo Monte – anúncio de uma guerra
(André D'Elia, 2012), que captou R$ 140.010,00 de 3.399 usuários na plataforma
Catarse. Esse número elevado de prosumidores com certeza é maior do que a rede
de amigos, familiares e colegas de trabalho dos empreendedores que fizeram o
filme. Um dos fatores de sucesso da campanha foi o tema: a construção da usina
hidroelétrica de Belo Monte. Quando foi lançada a campanha de crowdfunding na
plataforma Catarse, a construção da usina de Belo Monte era destaque nos grandes
meios de comunicação de massa, pois um vídeo em que atores e atrizes se
posicionaram contra a construção da usina teve um grande número de visualizações
na internet (VIVO, 2011), jogando os holofotes midiáticos para o tema do
documentário.
Não se trata de oportunismo dos realizadores que pegaram um tema
polêmico da época. Eles já haviam filmado praticamente tudo, já tinham seu público
consciente desse trabalho e motivado a investir no filme (VALIATI, 2013, p. 121). O
que vale ressaltar é a sintonia entre prosumidores da rede de contatos dos
empreendedores, com ativistas ligados ao meio ambiente e fãs de celebridades. A
campanha foi muito bem lançada e divulgada.
No crowdfunding, são os prosumidores que definem o que será financiado ou
não. O empreendedor só consegue viabilizar sua ideia se existir um bom número de
63
prosumidores interessados em fazer com que aquela ideia seja realizada. Os
prosumidores se reúnem em torno de uma campanha de crowdfunding. O
agrupamento de prosumidores em torno de uma campanha de crowdfunding é
voluntário, temporário e tático. Por esse agrupamento ser voluntário, os
prosumidores não permanecem em comunidades que não satisfaçam suas
necessidades emocionais e intelectuais. Por serem temporários, os projetos que não
satisfazem as necessidades dos prosumidores se formam e se dispersam com
relativa flexibilidade. Por ser tático, o agrupamento de prosumidores tende a não
durar além do financiamento do projeto que interessa. A noção de agrupamento
voluntário, temporário ou tático é uma livre adaptação minha das culturas do
conhecimento criadas por Henry Jenkins (JENKINS, 2009, p. 91).
O projeto do documentário Belo Monte – anúncio de uma guerra conseguiu
agrupar prosumidores de diferentes nichos, como fãs de celebridades e ativistas
ambientais. Os prosumidores em projetos de crowdfunding podem surgir de
diferentes nichos, como, por exemplo, no caso do filme financiado por crowdfunding,
através da plataforma Benfeitoria, chamado O renascimento do parto (Eduardo
Chauvet, 2013). Esse filme é um documentário sobre partos humanizados, sua
“campanha arrecadou 217% de sua meta inicial de R$ 65 mil reais, totalizando R$
141.091,00, possibilitados pela contribuição de 1.227 apoiadores de todo o Brasil”
(BENFEITORIA, 2013 apud MONTEIRO, 2014, p. 60). Esses 1.227 apoiadores
foram compostos por diferentes nichos, como ativistas do parto natural, profissionais
da saúde, mulheres e homens que irão ter um filho e querem saber mais sobre o
assunto, pessoas preocupadas em fugir do mercado de cesarianas no Brasil e
amigos, amigas e familiares dos empreendedores.
A partir desses exemplos de prosumidores em projetos de cinema, chego aos
seguintes perfis de prosumidores: amigos, familiares, parceiros de trabalho, fãs,
ativistas e curiosos.
Os amigos e familiares são prosumidores que já conhecem o empreendedor
e têm um vínculo de amizade e afeto com ele. O apoio é feito por conta desse
vínculo, sendo o conteúdo do projeto relegado ao segundo plano.
Os parceiros de trabalho são estimulados a apoiar o projeto pensando nas
trocas profissionais que serão criadas caso o empreendedor tenha sucesso.
Os fãs não têm ligação direta com o empreendedor, mas conhecem sua vida
e obra. São prosumidores capazes de mobilizar outros fãs para conseguir mais
64
recursos, com motivação própria para divulgar, em suas redes sociais, a campanha
de crowdfunding. Os fãs torcem pelo êxito do projeto, pois querem que ele exista. É
muito mais fácil encontrar exemplos de fãs na categoria Música da plataforma
Catarse. Bandas como Raimundos e Dead Fish são exemplos brasileiros de
empreendedores que financiaram seus discos novos em campanhas com grande
arrecadação e quantidade de prosumidores.
Os ativistas, assim como os fãs, não conhecem diretamente o
empreendedor, mas têm domínio sobre o tema pelo qual militam. Se o
empreendedor conseguir estabelecer um diálogo com as questões políticas e sociais
dos ativistas, então existem grandes chances de o projeto se espalhar por essa
comunidade e conseguir ser financiado. O ativista é um embaixador de sua causa
onde quer que vá, seu apoio ajuda qualquer projeto a ganhar visibilidade em sua
rede de ativismo.
Os curiosos, por sua vez, são todos(as) aqueles(as) que escapam ao
alcance dessa dissertação, mas que sei que estão apoiando projetos e não se
identificam com nenhum dos outros perfis.
65
Crowdfunding no Brasil
2.1 Tradução para o português
A tradução literal de crowdfunding para o português seria financiamento da
multidão. No entanto, se acessarmos as plataformas brasileiras Queremos!, Catarse
e Benfeitoria, veremos que o termo foi traduzido de duas formas: financiamento
coletivo e financiamento colaborativo (COSTA, 2013, p. 46). Na língua portuguesa,
coletivo e colaborativo não significam as mesmas coisas e tampouco são sinônimos
de multidão. A dissertação Procuram-se colaboradores, recompensa-se bem: a
trama da colaboração nos sites de crowdfunding é a mais crítica pesquisa brasileira
sobre crowdfunding. Nesse trabalho, a pesquisadora Bruna Gazzi Costa busca
apontar os motivos que levaram as plataformas a escolherem essa tradução:
“Somos loucos por colaboração e temos convicção de que as pessoas,
atuando de forma coletiva, podem mudar o mundo como bem entenderem”
(CATARSE, 2012). Através de frases como essa, analiso que o discurso
relacionado à colaboração não está apenas relacionado ao fato de contribuir
com determinado projeto, de deixar os códigos dos softwares abertos, ou
apenas de compartilhar conhecimento e informação, mas sim está
atravessado por uma subjetivação que entende o sujeito como indivíduo e
assim caracteriza a sua posição política. Por isso, é importante seguir
problematizando como a ideia da colaboração vem sendo proposta, para
que sejam desnaturalizadas algumas relações de poder hegemônicas que
limitam as subjetividades, e assim, para que se continue a buscar e criar
brechas para que novas formas de (r)existência sejam viabilizadas.
(COSTA, 2013, p. 35)
Não pretendo utilizar as expressões financiamento coletivo ou financiamento
colaborativo para falar sobre crowdfunding, tampouco pretendo discutir a fundo os
significados das traduções feitas pelas plataformas e quais motivações as levaram a
tais traduções, mas recomendo aos pesquisadores interessados que conheçam a
profícua discussão sobre essa tradução presente no trabalho de Costa (2013).
Continuar utilizando a palavra anglo-saxônica crowdfunding é importante para
manter o diálogo com outros pesquisadores do tema no Brasil e no mundo. Nas
pesquisas que fiz em bases de dados acadêmicas, consegui encontrar muito mais
66
informação quando procurei pela palavra crowdfunding do que quando procurei por
financiamento coletivo, financiamento colaborativo ou financiamento da multidão.
Mesmo as plataformas brasileiras, apesar de se referirem ao crowdfunding como
financiamento coletivo ou colaborativo, também usam essa palavra em muitos textos
e vídeos que disponibilizam na internet.
A mídia brasileira, por sua vez, utiliza os três termos, crowdfunding,
financiamento coletivo e financiamento colaborativo, como podemos observar nas
seguintes manchetes: Crowdfunding ganha força no Brasil, da revista Exame
(MOREIRA, 2011); Modelo de financiamento pela web, “crowdfunding” avança no
Brasil. Mas há barreiras, do jornal O Globo (SETTI; CRUZ, 2011); e Campanha do
Kickante quebra recorde de financiamento coletivo na América do Sul, do jornal O
Estado de S. Paulo (LINK, 2016). É comum encontrar em plataformas on-line, jornais
e pesquisas acadêmicas os termos financiamento coletivo e financiamento
colaborativo como sinônimos de crowdfunding.
2.2 História brasileira
Existem quatro modalidades de crowdfunding: baseada na doação, baseada
na recompensa, baseada no empréstimo e baseada na compra de ações. No Brasil,
as modalidades baseadas na doação e na recompensa são as mais praticadas. As
outras modalidades, baseados no empréstimo e na compra de ações, sofrem “o
ônus do pioneirismo”. De acordo com o advogado Leonardo Palhares, Coordenador
Jurídico da Câmara do Comércio Eletrônico, em reportagem do jornal O Globo em
2011, “O crowdfunding sofre hoje do mesmo problema que aflige qualquer projeto
inovador. Há ausência de legislação a respeito e dificuldade de enquadramento
jurídico, pois o direito tem outro tempo de reação. A perspectiva de mudança
depende da sedimentação do negócio” (SETTI; CRUZ, 2011).
Ainda de acordo com o jornal, no país empréstimos podem ser feitos apenas
por instituições financeiras, o que problematiza a modalidade de crowdfunding
baseado no empréstimo, assim como as compras de ações devem ser reguralizadas
através de contratos que não passam pela internet, dificultando o desenvolvimento
da modalidade de crowdfunding baseado na compra de ações.
Em sua pesquisa sobre as diferentes modalidade de crowdfunding praticados
67
no país, Monica Monteiro percebeu, assim como outros pesquisadores, que as
plataformas brasileiras trabalham majoritariamente com a modalidade de
crowdfunding baseado na recompensa (MONTEIRO, 2014, p. 39). No entanto, o
ônus do pioneirismo não impediu algumas experiências em plataformas de
crowdfunding com a compra de ações e empréstimos. Os exemplos são as
plataformas Eu Sócio e Broota, que trabalham com compra de ações, e a já
encerrada plataforma Impulso.org, baseada no empréstimo.
Hoje, no Brasil, não existe nenhum órgão ou instituição responsável por
organizar as informações sobre o mercado do crowdfunding. Quantos projetos
existem no país? Quanto dinheiro é movimentado? Quantos prosumidores existem?
Quais plataformas estão ativas ou não? Essas são perguntas que exigem dos
pesquisadores a busca por dados em diferentes fontes. Por conta disso, não consigo
mensurar o tamanho do mercado nacional do crowdfunding, mas consigo mensurar
alguns recortes desse mercado, como farei com a plataforma Catarse. Na realidade
brasileira, são as plataformas de crowdfunding que geram os dados sobre essa
prática, algumas divulgando esses dados gratuitamente na internet, outras não.
Nesse contexto, os pesquisadores brasileiros buscam esse tipo de dado das
plataformas, assim como dados de fontes internacionais, para produzirem artigos,
dissertações e teses. As informações sobre o crowdfunding brasileiro são, em
grande parte, oriundas de dados gerados pelas plataformas, ou seja, a história do
crowdfunding brasileiro é a história dessas plataformas. Na Figura 11, construí uma
linha do tempo em que destaco as primeiras plataformas de crowdfunding do mundo
e do Brasil:
68
Figura 11 – Linha do tempo
Fonte: elaborada pelo autor.
Kiva18 é a mais antiga plataforma de crowdfunding ativa até hoje. Foi criada
antes do termo crowdfunding ser inventado. É uma plataforma que se enquadra na
modalidade de crowdfunding baseado no empréstimo, no qual pequenos
empréstimos de muitas pessoas são destinados à diminuição da pobreza. Esses
pequenos empréstimos são entregues a trabalhadores de classes mais pobres, em
países de terceiro mundo, que têm grande perspectiva de produzir com esse
dinheiro e devolver o valor com juros mais baixos que os cobrados por bancos.
Ao acessar a plataforma Kiva.org e assistir ao vídeo sobre o que é a Kiva, não
vemos nenhuma menção ao termo crowdfunding. Essa plataforma, mesmo sendo
considerada a primeira, não se autodenomina como uma plataforma de
crowdfunding. Se acessarmos a aba Press em Kiva.org, vamos encontrar em Press
center uma série de reportagens sobre a plataforma, as quais, assim como fez Jeff
Howe no livro O poder das multidões, estão se referindo à Kiva como uma
plataforma pioneira de crowdfunding.
A segunda plataforma, Sellaband19, segue a modalidade de crowdfunding
baseado na recompensa, estabelecendo a conexão entre fãs e músicos. Mesmo
tendo sido lançada meses antes do termo crowdfunding ser cunhado, ela se
autodenomina como a primeira plataforma de crowdfunding do mundo.
A terceira plataforma, Kickstarter20, segue a modalidade de crowdfunding
baseado na recompensa. É a maior plataforma de crowdfunding do mundo, em
18 Disponível em: .
19 Disponível em: .
20 Disponível em: .
69
quantidade de dinheiro, projetos e prosumidores. Seu design, sua organização e seu
modelo de negócio influenciaram diretamente muitas plataformas brasileiras, entre
elas a Catarse.
Em janeiro de 2009, foi lançada a primeira plataforma brasileira de
crowdfunding, a Vakinha21, que segue a modalidade de crowdfunding baseado na
doação. Pessoas doam para um projeto e a plataforma retém um percentual desse
valor. Essa plataforma encontrou dificuldades para se equilibrar financeiramente e,
de acordo com seus criadores, “em 2013, o Vakinha atingiu o ponto de equilíbrio,
sem mais necessidade de nenhum aporte dos investidores que sempre estiveram
presentes quando necessário (e não foram poucas vezes!)” (VAKINHA, 2016).
A segunda plataforma brasileira de crowdfunding é a Queremos!22. A bem-
sucedida plataforma, ativa até os dias de hoje, também demonstra em seu histórico
ter conseguido estabelecer seu modelo de negócio apenas alguns anos após o
lançamento. Só a partir de 2011 é possível visualizar na seção Shows passados um
grande aumento na quantidade de shows financiados a cada ano. É uma plataforma
da modalidade baseada na recompensa que sofreu constantes modificações e hoje
funciona do seguinte modo: o empreendedor pede um show para a plataforma e
divulga para os fãs dessa banda, que são os possíveis prosumidores; os fãs apoiam
com dinheiro a realização do show e recebem como recompensa um ingresso;
atingindo um valor expressivo arrecadado por esses fãs, o show praticamente não
apresenta riscos financeiros, atraindo um produtor que tenha interesse em produzir
esse evento já com boa parte dos ingressos vendidos; a plataforma retém uma
porcentagem de cada ingresso adquirido. É possível que um empreendedor de
qualquer cidade solicite o show de qualquer artista, e, ainda, que a Queremos!
produza alguns shows solicitados por fãs. Isso a caracteriza como uma plataforma
de crowdfunding que também funciona como agência e produtora de shows.
A terceira plataforma de crowdfunding brasileira, Eu Maior23, tinha inicialmente
um objetivo bem específico: financiar o documentário Eu maior através da
contribuição de pessoas físicas via Lei do Audiovisual. Eu maior é um documentário
dirigido pelos irmãos Fernando Schultz e Paulo Schultz, lançado em 2013, cuja
história resumida em uma linha é “Um filme sobre autoconhecimento e busca da
felicidade” (EU MAIOR, 2013). O orçamento de sua produção foi aprovado pela
21 Disponível em: .
22 Disponível em: .
23 Disponível em: .
70
Ancine e pôde captar recursos financeiros através da referida lei. Os realizadores do
documentário, percebendo o potencial de captação de recursos de pessoas físicas,
criaram uma plataforma que tornou o processo transparente e simples, facilitando o
aporte de recursos das pessoas interessadas em financiar o filme através da lei de
incentivo. Na Figura 12 temos o frame do vídeo, que tenta explicar como funciona o
patrocínio de pessoa física através de uma lei de incentivo.
Figura 12 – Frame do vídeo
Fonte: Eu maior (2016).
Essa inovadora iniciativa da plataforma Eu Maior associou a Lei do Audiovisual
ao crowdfunding com sucesso. A plataforma é a Eu Maior, o empreendedor são os
produtores e diretores do documentário, o projeto é realizar o documentário Eu
maior, os prosumidores são as pessoas físicas que podem patrocinar o filme através
da Lei do Audiovisual, a recompensa é ter seu nome como patrocinador de pessoa
física nos créditos do filme. Essa foi uma “iniciativa inédita de crowdfunding com
incentivo fiscal, o filme arrecadou R$ 208,6 mil junto a mais de 600 patrocinadores
pessoa física.” (EU MAIOR, 2016, grifo do autor).
71
De acordo com a reportagem Público banca realização de filme, escrita pelo
jornalista Marco Tomazzoni para o Portal IG e publicada no ano de 2010,
Coprodutor de “Eu Maior”, o engenheiro André Melman afirma ter se
inspirado no sistema de doações às campanhas políticas de Barack Obama,
nos Estados Unidos, e Marina Silva, no Brasil. Em meio ao processo de
pesquisa, também descobriu o filme “The Cosmonaut” (o cosmonauta),
coprodução entre Espanha e Rússia que é um dos maiores cases de
sucesso no setor, ao lado do britânico “Just Do It”. (TOMAZZONI, 2010)
A estratégia utilizada foi de organizar cotas de R$ 100,00 para oferecer
recompensas proporcionais a todos os prosumidores, sendo que essa inovação
encontrou desafios, como explica um dos diretores do filme:
Segundo [Fernando] Schultz, uma das principais dificuldades é a
burocracia. “Nossa equipe é pequena, e o incentivo fiscal para pessoa física
dá um trabalho enorme: são centenas de pequenos recibos de captação,
com a mesma burocracia de uma empresa que estivesse investindo R$ 100
mil. Mas vale a pena, estamos aprendendo muito.” (apud TOMAZZONI,
2010)
A campanha bem-sucedida e o êxito do filme fazem com que hoje a plataforma
continue ativa, mesmo não praticando mais o crowdfunding. Atualmente, ela atua
como espaço de divulgação, distribuição gratuita e venda de produtos gerados pelo
projeto Eu Maior. Esse documentário também explorou o crowdfunding
posteriormente de duas maneiras: primeiro através da plataforma Catarse, com
diversas campanhas de crowdfunding em que cada uma tinha como meta financiar o
lançamento do documentário em uma sala diferente do Cinemark, uma arrecadação
via crowdfunding que também teve êxito e será detalhada posteriormente na seção
Projetos de exibição cinematográfica; segundo através da plataforma Kickante24, na
qual foi lançada a campanha de financiamento do livro Eu maior com as entrevistas
gravadas do documentário, transcritas integralmente. Esse projeto arrecadou o valor
de R$ 57.770,00 com 602 apoios, e o livro será lançado em 2016. A equipe de
diretores e produtores do documentário Eu maior é, sem sombra de dúvidas, um dos
mais experientes empreendedores brasileiros na prática do crowdfunding.
Encerrando a linha do tempo, em janeiro de 2011 foi lançada a plataforma
Catarse25, que replicava a interface da plataforma estadunidense Kickstarter. No
24 Disponível em: .
25 Disponível em: .
72
Catarse, é possível praticar duas modalidades de crowdfunding – baseada na
recompensa e baseada na doação. Como essa plataforma é o principal objeto de
estudo desta dissertação, seu funcionamento, sua trajetória e seus projetos serão
apresentados em seções posteriores.
A partir de 2011, o número de plataformas de crowdfunding lançadas no Brasil
aumentou de maneira impressionante (MONTEIRO, 2014, p. 37). Vanessa Valiati
percebeu a importância de mapear todas as plataformas brasileiras de crowdfunding
que existem para saber a dimensão desse mercado e quais as modalidades de
crowdfunding que estão sendo praticados no país. Ela criou a página Mapa do
Crowdfunding (Figura 13), um “mapeamento colaborativo das plataformas de
crowdfunding no Brasil” (CROWDFUNDING, 2016) em que qualquer usuário pode
acessar e divulgar uma plataforma brasileira que tenha sido lançada.
Figura 13 – Página Mapa do Crowdfunding
Fonte: Crowdfunding (2016).
Essa página é organizada da seguinte maneira: em destaque está o nome da
plataforma brasileira de crowdfunding mapeada, em seguida um pequeno texto com
a descrição da plataforma e o link para acessá-la; na parte superior da página, é
possível cadastrar uma nova plataforma de crowdfunding que ainda não tenha sido
mapeada; qualquer usuário pode acessar e contribuir no mapeamento enviando
essas informações. Portanto, esse mapeamento é também uma prática de
73
crowdsourcing, na qual o Mapa do Crowdfunding é o crowdsourcer, a tarefa é
mapear as plataformas brasileiras de crowdfunding e a multidão são os
pesquisadores, os empreendedores, os prosumidores e as plataformas que se
dedicam à prática do crowdfunding, acessam a página para procurar dados e
cadastram novas plataformas.
Esse mapeamento é uma referência utilizada por muitas publicações brasileiras
sobre o crowdfunding, como, por exemplo, a dissertação de Gustavo Ferreira
Santos, na qual o Mapa do Crowdfunding é uma fonte de dados primária utilizada
pelo pesquisador para listar todas as plataformas brasileiras existentes até então
(SANTOS, 2014, p. 71). No ano de 2013, constavam nesse Mapa 42 plataformas
(VALIATI, 2013, p. 20), e em janeiro de 2016 encontrei 57 plataformas brasileiras
nele cadastradas.
Porém, esse mapeamento ainda não é capaz de ser a principal fonte de dados
sobre plataformas de crowdfunding, pois outras plataformas brasileiras podem existir
e não terem nunca sido publicadas ali, assim como o mapeamento não é capaz de
nos informar quais plataformas ainda estão ativas e quais foram desativadas. Foi no
trabalho da pesquisadora Monica Monteiro (2014) que encontrei uma evolução em
relação ao mapeamento feito por Vanessa Valiati (2013). Ela desenvolveu duas
tabelas importantes em sua pesquisa, que serão apresentadas logo abaixo (Tabelas
7 e 8). Na primeira consta uma lista das plataformas de crowdfunding que estavam
ativas no ano de 2014 e na segunda a relação com todas as plataformas de
crowdfunding que foram desativadas até o ano de 2014.
Tabela 7 – Plataformas de crowdfunding no Brasil
Projetos criativos Projetos de shows e eventos
1 Catarse www.catarse.me 23 Embolacha www.embolacha.com.br
2 It's Noon www.itsnoon.net 24 PraRolar www.prarolar.com
3 Variável 5 www.variavel5.com.br 25 Queremos! www.queremos.com.br
4 Sibite www.sibite.com.br 26 Traga Seu Show www.tragaseushow.com.br
5 Guigoo www.guigoo.com.br 27 Eu Patrocino www.eupatrocino.com.br
6 Startando www.startando.com.br 28 Partio partio.com.br
7 Ulule br.ulule.com Projetos em geral
8 Bookstart www.bookstart.com.br 29 Benfeitoria www.benfeitoria.com
9 Bookstorming www.bookstorming.com.br 30 Começa Aki www.comecaki.com.br
Projetos sociais e ambientais 31 Idea.Me Idea.me
74
10 Impulso www.impulso.org.br 32 When you wish www.whenyouwish.com.br
11 Juntos comVocê juntos.com.vc 33 Vakinha www.vakinha.com.br
12 Kolmea.me www.kolmea.me 34 Kickante www.kickante.com.br
13 Doare doare.org 35 O Pote www.opote.com.br
14 CausaColetiva www.causacoletiva.com.br 36 Mobilize www.mobilizefb.com
Projetos de leis de incentivo 37 Arrekade www.arrekade.com.br
15 QueroIncentivar www.queroincentivar.com.br 38 Zarpante zarpante.com
16 IncentivoColetivo www.incentivocoletivo.com.br 39
When You Wish
BRA www.whenyouwish.com.br
Projetos esporte Projetos educação
17 Vasco DívidaZero www.vascodividazero.com.br 40 O Formigueiro oformigueiro.org
18 Pódio Brasil podiobrasil.com.br 41 Ideia de Futuro www.ideiadefuturo.com.br
19 Salve Sport www.salvesport.com Projetos animais
20 Viabilizza www.viabiliza.com.br 42 Bicharia www.bicharia.com.br
Projetos equity 43 Xodó www.xodo..juntos.com.vc
21 Eu sócio www.eusocio.com.br Projetos turismo
22 Broota www.broota.com.br 44 Garupa www.garupa.juntos.com.vc
Fonte: Monteiro (2014, p. 37).
Tabela 8 – Plataformas de crowdfunding
que não existem mais ou estão inativas no Brasil
Desativadas
Adote essa ideia www.adoteessaideia.com.br Produrama www.produrama.com.br
Ativa Ai www.ativaai.com.br Nake it www.nakeit.com
Catapulta Social www.catapultasocial.com.br Vamos trazer www.vamostrazer.com.br
Cultivo CC www.cultivo.cc Apoie.me www.apoie.me
Dekdu www.dekdu.com.br Banco NegóciosInclusivos www.bni.org.br
Empreanjo www.empreanjo.com BePart www.bepart.com.br
Incentivador www.incentivador.com.br Cineasta www.cineasta.cc
KopeR www.koper.com.br Clique Incentivo www.cliqueincentivo.com.br
Make It Open www.makeitopen.com.br Em vista www.emvista.me
Media Found
Market mediafoundmarket.com Eu Amo Missões www.euamomissoes.com.br
Minimecenas www.minimecenas.com.br Muito Nós muitonos.com.br/muitonos
MobSocial www.mobsocial.com.br Nos acuda www.nosacuda.com.br
Mop BR www.mopbr.com Playbook www.playbook.com.br
Motiva.me www.motiva.me Podio Brasil www.podiobrasil.com.br
75
Nexmo www.nexmo.com.br Pontapés www.pontapes.com
Senso Incomum www.sensoincomum.com.br SeloFan www.selofan.com.br
Show Mambembe www.showmambembe.com.br Semear www.semear.me
Showzasso www.showzasso.com Soul Social www.soulsocial.com.br
temideia? www.temideia.com.br Start me up www.startmeup.com.br
Mudanças
Multidão - http://multidao.art.br - Se juntou ao Catarse.me
LETs - www.lets.bt - Se juntou ao Mobilize
Vamos Agir! - www.vamosagir.com - Se juntou ao Mobilize
Movere.me - www.movere.me - Se juntou ao Idea.me
Fonte: Monteiro (2014, p. 119).
O esforço de Monteiro (2014) em organizar plataformas a partir do perfil dos
projetos possibilitou um panorama temático do crowdfunding no Brasil. A grande
quantidade de plataformas que encerraram suas atividades indica que as estruturas
das plataformas de crowdfunding são complexas e dinâmicas, podendo sofrer
constantes atualizações, como mudanças pontuais ou estruturais em sua interface e
seu modelo de negócio, na tentativa de se adaptar às demandas de
empreendedores e prosumidores para se estabelecer no mercado brasileiro. Apesar
disso, outros nichos de usuários da internet podem vir a se tornar prosumidores de
plataformas brasileiras, pois “nem dá pra mensurar o número de nichos que ainda
não desvendaram o crowdfunding”, conforme afirmou Diego Borin Reeberg (2010),
um dos fundadores do Catarse no blog Crowdfunding BR, poucos meses antes do
lançamento da plataforma Catarse.
A pesquisa de Monteiro (2014) indica que até o ano de 2014 foram lançadas
86 plataformas de crowdfunding no Brasil, sendo 44 ativas e 42 inativas. Quase
metade das plataformas não sobreviveu e já encerra suas atividades ou se vinculou
a outras plataformas. Abrir uma plataforma de crowdfunding no Brasil é correr riscos
em um mercado de grande volatilidade. Monteiro (2014) tenta explicar porque é tão
volátil esse mercado por meio da ideia de um círculo vicioso:
Uma explicação para esse fenômeno pode estar na falta de conhecimento
da população brasileira quanto a esse assunto, agravado pela falta de
propaganda e divulgação das plataformas para criação de público
especializado (CATARSE e CHORUS, 2013/2014; FELITTI e CORREA,
2014). Esse problema se apresenta num círculo vicioso, pois a falta de
público torna a plataforma não atrativa para os criadores de projetos, [o] que
por sua vez faz com que a plataforma apresente poucos projetos e, por
76
conseguinte, não [sic] consegue atrair muitos apoiadores. Em [sic] contra
partida, nas plataformas bem-sucedidas, observa-se esse círculo vicioso de
maneira contrária: quanto mais conhecida a plataforma, maior a chance de
projetos relevantes serem apresentados, maior fluxo de apoiadores,
tornando a plataforma mais atrativa para artistas/pessoas conhecidos
lançarem suas campanhas, [o] que leva a plataforma a ser mais conhecida
e por aí em diante. (MONTEIRO, 2014, p. 38)
Esse círculo vicioso também foi identificado no artigo O crowdfunding no
Brasil: configuração de um canal midiático ou uma simples modalidade econômica?,
de Guilherme Felitti e Elizabeth Saad Corrêa. Os pesquisadores tiveram acesso a
informações sobre 30 plataformas brasileiras e estabeleceram um paralelo entre a
história do crowdfunding no Brasil e nos EUA. Um dos destaques do artigo é a
plataforma brasileira Catarse, e um fator apontado como explicativo do sucesso
desta são os projetos inscritos por artistas que já circularam pela grande mídia
brasileira26 e tiveram projetos financiados na plataforma. Para os autores do artigo,
isso possibilitou que ao
tentar viabilizar seus projetos culturais pelo Catarse, eles [artistas]
aumentaram o alcance da plataforma, o que provocou um fenômeno de
retro-alimentação: quanto mais conhecida a plataforma é, maior a chance
de artistas relevantes criarem seus projetos ali e o círculo vicioso continua.
(FELITTI; CORRÊA, 2015, p. 12)
Uma importante constatação que o artigo traz é que, além do crowdfunding,
as plataformas brasileiras que conseguem se estabelecer no mercado brasileiro
replicam plataformas que tiveram sucesso econômico no mercado dos EUA. Após
estudar e sistematizar 30 plataformas brasileiras diferentes, os autores perceberam
o seguinte:
A planilha demonstra a reprodução de um fenômeno tradicionalmente
observado no mercado brasileiro de internet: os primeiros players nacionais
são formados apenas quando há um exemplo de sucesso inegável nos
Estados Unidos. Foi assim com os portais (UOL e Terra surgiram após a
ascensão da America Online), com o acesso dial-up gratuito à internet (o
britânico Freeserve inspirou o iG e o Brasil Online), com o comércio
eletrônico generalista (Submarino e Americanas.com, fundidas
26 A grande mídia brasileira é formada pelos seguintes grupos: a família Marinho (dona da Rede
Globo, de emissoras de rádio, jornais e revistas); o bispo da Igreja Universal do Reino de Deus Edir
Macedo (maior acionista da Rede Record); a família Abravanel (dona do SBT); Roberto Civita, que
controla o Grupo Abril e a família Frias, donos da Folha de S. Paulo; e os Mesquita, de O Estado de
S. Paulo (ambos entre os cinco maiores jornais do país). No Rio Grande do Sul, a família Sirotsky é
dona do grupo RBS, que controla o jornal Zero Hora, além de TVs, rádios e outros diários regionais.
Famílias ligadas a políticos tradicionais estão no comando de grupos de mídia em diferentes regiões,
como os Magalhães, na Bahia, os Sarney, no Maranhão, e os Collor de Mello, em Alagoas.
77
posteriormente, tentaram replicar o sucesso da Amazon) e com lojas onlines
de nicho (o Camiseteria replica o Threadless e a Baby.com.br, a Diapers).
Quando o Kickstarter começou a ganhar projeção nos Estados Unidos, o
primeiro site a adaptar seu modelo para o mercado brasileiro foi o Catarse –
na época, seus fundadores mantinham um blog que acompanhava o
desenrolar do mercado global de crowdfunding. Dois anos e meio depois, é
possível notar que esta vantagem inicial foi fundamental para que o Catarse
dominasse o setor. (FELITTI; CORRÊA, 2015, p. 11)
O blog mencionado é o Crowdfunding BR e será objeto de análise nas
próximas seções. Além do Catarse, destaco outras duas plataformas que possuem
maior tempo de atuação no mercado, projetos com grande repercussão midiática,
maior volume de recursos arrecadados e que já foram previamente apresentadas na
dissertação: Queremos! e Benfeitoria.
A Benfeitoria assemelha-se muito à plataforma Catarse. Sua interface e lógica
são parecidas, como podemos ver no exemplo apresentado na Figura 14, no qual
estão lado a lado dois quadros de resumo de um projeto em fase de financiamento.
Figura 14 – Interface e conteúdo semelhantes
Fonte: elaborada pelo autor.
78
À esquerda, o quadro refere-se a um projeto inscrito na plataforma Catarse. À
direita, o outro quadro refere-se a um projeto da plataforma Benfeitoria. Assim como
o Catarse, a Benfeitoria também tem como destaque o financiamento de projetos
chamados de criativos, como discos, filmes, livros e softwares. A diferença entre
essas plataformas está no modo como elas ganham dinheiro. A Catarse funciona do
seguinte modo: “Ficamos com cerca de 9% [do valor total arrecado para um projeto]
e 4% é repassado ao Pagar.me, meio de pagamento utilizado pelo Catarse”
(CATARSE, 2016). Já a Benfeitoria segue a seguinte lógica: “Projetos bem-
sucedidos pagam apenas as taxas de transação financeira, que giram em torno de
4%. [...] A Benfeitoria não cobra comissão, mas você pode optar por fazer uma
contribuição voluntária para a plataforma quando o seu projeto for bem-sucedido”
(BENFEITORIA, 2016).
A quantidade de projetos de cinema financiados e o volume total de recursos
movimentados pelo Catarse são os maiores entre todas as plataformas de
crowdfunding. Além disso, a quantidade de dados sobre projetos, empreendedores,
prosumidores, reportagens de televisão, revistas e jornais relacionados ao Catarse é
muito mais expressiva do que de outras plataformas, como bem destacou o
pesquisador Bartos Bernardes:
Mas não há dúvidas, a maior plataforma de crowdfunding do Brasil é
mesmo o Catarse (GARCIA, 2014), também considerado o principal site do
ramo em nosso país (EMPREENDEDORES CRIATIVOS, 2014). A revista
Galileu, em sua edição de dezembro de 2013, elegeu o Catarse como um
dos 25 sites mais influentes de toda a Internet no Brasil. (BERNARDES,
2014, p. 21)
A Catarse é uma plataforma que tem como política a transparência, faz parte
do movimento do software livre brasileiro e disponibilizou na internet, no ano de
2011, os códigos do software que a fazem funcionar. Sua interface permite que os
pesquisadores possam acessar dados de todos os projetos que já foram
financiados, ou que não conseguiram financiamento. Ela também atualiza
constantemente o contador de projetos financiados, dinheiro arrecadado e
prosumidores participantes da plataforma, como podemos ver na Figura 15.
79
Figura 15 – Contador atualizado automaticamente
Fonte: adaptada de Catarse (2016).
Esses são os motivos que me levaram a escolher o Catarse como objeto de
análise do segundo capítulo, tendo como principal foco uma das categorias da
plataforma, denominada Cinema e Vídeo.
2.3 Mercado do crowdfunding no Brasil
Em sua dissertação, Monteiro (2014) realizou uma série de entrevistas com
fundadores de plataformas e prosumidores brasileiros, e, a partir das entrevistas,
descreveu um panorama do mercado nacional de crowdfunding. Os entrevistados
são um fundador da plataforma Queremos!, um fundador da plataforma Catarse, um
fundador da plataforma Benfeitoria, um prosumidor heavy user de plataformas
brasileiras de crowdfunding e 11 prosumidores aleatórios. Os nomes das pessoas
entrevistadas não são mencionados pela autora na dissertação.
A expressão heavy user representa “uma pessoa que usa com muita
frequência determinado produto ou serviço” (MONTEIRO, 2014, p. 63). O heavy
user, entre os entrevistados, possui grande destaque, pois não apresenta nenhum
vínculo com os donos das plataformas ou com os empreendedores dos projetos que
apoia. Sobre o prosumidor heavy user, Monteiro (2014) afirma o seguinte:
80
Sua identidade foi descoberta a partir de materiais de pesquisas na internet.
Seu email foi obtido com a plataforma Catarse, em que mais apoiou
projetos. Morador do Rio de Janeiro, tem 35 anos, solteiro, formado em
odontologia, mas hoje em dia trabalha como analista de qualidade da
Inmetro. Já apoiou 145 projetos na plataforma Catarse e outros tantos em
plataformas como Kickante, Sibite, Impulso, entre outras que não são objeto
de estudo desta pesquisa. (MONTEIRO, 2014, p. 67)
Como foi dito, Monteiro (2014) também entrevistou um grupo pequeno de 11
prosumidores (Tabela 9), tendo como perspectiva conseguir, a partir das entrevistas,
respostas para a seguinte questão: o que leva os apoiadores a contribuírem com o
modelo baseado em recompensa de crowdfunding no Brasil?
Tabela 9 – Perfil dos prosumidores entrevistados por Monteiro
Respon-
dente UF Idade Sexo
Estado
civil Formação Cargo atual
Áreas de
interesse
Plataforma
s apoiadas
R01 RJ 32 M Casado Administração Head hunter Filmes Catarse
R02 RJ 32 M Casado Ciência dacomputação Empresário Inovação
Catarse,
Queremos!
R03 RJ 29 F Solteiro Comunicação Design eilustração
Design e
ilustração Benfeitoria
R04 RJ 40 M Solteiro Contabilidade Coordenadorde custos
Quadrinhos,
shows
Catarse,
Queremos!
R05 SP 37 F Solteiro Cinema Assisten dedireção
Filmes,
entretenimento
Catarse,
Benfeitoria
R06 RJ 67 M Casado Medicina Obstetra Comunicade,documentários Benfeitoria
R07 RJ 32 F Solteiro Direito
Advogada de
direito
internacional
Comunidade,
educação Benfeitoria
R08 SP 33 M Solteiro Economia Analistaeconômico
Viagens,
fotografia Catarse
R09 RJ 32 F Solteiro Economia
Analista
fundos de
investimento
Shows,
educação,
comunidade
Queremos!,
Cartarse
R10 RJ 45 M Casado Pedagogia
Professor
ensino
médio
Inovação Catarse,Queremos!
R11 RJ 33 F Solteiro Administração Decoradora Comunidade,educação Benfeitoria
Fonte: Monteiro (2014, p. 68).
As entrevistas de Monteiro (2014) possibilitam uma diversidade de olhares
sobre o mercado contemporâneo do crowdfunding brasileiro. Com base nessas
entrevistas, organizei os resultados encontrados pela pesquisadora em tópicos, de
81
modo a contextualizar esse mercado.
2.3.1 Brasil E EUA
Uma das diferenças entre a prática do crowdfunding no Brasil e nos EUA,
como já dito previamente, está na temática dos projetos. No Brasil encontramos
projetos culturais e sociais, e nos EUA há mais projetos empreendedores e de
tecnologia. Essa é a visão dos fundadores das plataformas, que utilizam
constantemente como contraponto à prática do crowdfunding brasileiro a cultura
estadunidense. Uma das razões para fazerem esse contraponto é o fato de os EUA
possuírem o maior mercado de crowdfunding do mundo. Das comparações entre
Brasil e EUA, destaco os seguintes pontos:
“O americano não só tem um poder aquisitivo maior, como tem uma cultura
de doação muito forte. As pessoas inclusive doam para suas universidades.
E o brasileiro não tem isso.” (Fundadora Benfeitoria)
“[...] essa cultura bem mais americana de apoiar, de acreditar. Isto no Brasil
estamos ainda muito distantes.” (Fundador Queremos!).
Já o fundador do Catarse: “(...) nos Estados Unidos eu acho uma coisa bem
diferente é o hábito de você incentivar o empreendedorismo. Aqui eu acho
que não está nem próximo disso acontecer. Esse tipo de desprendimento e
forma de entender o mercado.” (apud MONTEIRO, 2014, p. 75)
Esse espelho estadunidense, no entanto, parece ter cegado grande parte das
plataformas brasileiras, como coloca a fundadora do Benfeitoria: “em comparação
aos EUA é um outro ritmo. E é por isso que tantas plataformas [brasileiras]
quebraram. Por que as pessoas olhavam para os números de lá e não entendiam os
filtros que tinham que ser feitos para extrapolar aquela realidade para a nossa”
(apud MONTEIRO, 2014, p. 75).
Assim, algumas características indicam um desenvolvimento brasileiro distinto
e inovador em relação ao estadunidense. Destaco duas delas: a primeira é a
remoção do valor de comissão das plataformas e a substituição disso por uma
doação voluntária do prosumidor, como é feito na plataforma brasileira Benfeitoria; a
segunda é a mistura entre produção de eventos, crowdfunding e agenciamento de
artistas, como é feito na plataforma brasileira Queremos!.
2.3.2 Mercado restrito, divulgação e problemas
É de comum acordo entre os fundadores das plataformas entrevistadas que o
cenário do crowdfunding brasileiro é positivo e que o volume arrecadado pelas
82
plataformas está em crescimento (MONTEIRO, 2014, p. 72). Porém, ao acessarmos
as três plataformas analisadas, encontraremos apenas na Catarse dados suficientes
para a organização de gráficos que comprovem esse crescimento de arrecadação
nos últimos anos. Os referidos fundadores também afirmam que cada vez mais as
pessoas estão descobrindo a prática do crowdfunding, sendo essa difusão da prática
responsável por sua constante expansão.
Apesar de afirmarem que a prática do crowdfunding tem crescido e se
espalhado, o mercado de crowdfunding ainda é muito restrito para um país de
dimensões continentais. Na opinião expressa na plataforma Catarse, “Crescer para
fora dos grandes centros urbanos das regiões Sul-Sudeste. Levar o modelo com
força principalmente para o Nordeste” (apud MONTEIRO, 2014, p. 73) é um dos
desafios colocados para expandir esse mercado. Na plataforma Queremos! diz-se
que “Hoje em dia temos quase 500 mil usuários. Mas tem muita gente que hoje em
dia ainda não ouviu falar de Queremos!. Somos o nicho, do nicho, do nicho” (apud
MONTEIRO, 2014, p. 73), visão que também é endossada pela Benfeitoria. A
fundadora desta plataforma afirma que “estamos muito imersos nesse universo, mas
tem muita gente que nunca ouviu falar em crowdfunding. Muita, muita, muita... é a
bolha dos engajados” (apud MONTEIRO, 2014, p. 73).
Entretanto, essa restrição de mercado na internet não é apenas um problema
das plataformas de crowdfunding brasileiras, mas também um problema de restrição
encontrada por todo o setor de e-commerce no país. O e-commerce é a negociação
ou facilitação da negociação de produtos ou serviços que utilizam a internet, e,
assim, as plataformas de crowdfunding enquadram-se nesse perfil. De acordo com
Monteiro (2014):
Apesar desse número ter crescido bastante nos últimos anos, o setor de e-
commerce no Brasil ainda tem pouca participação dos brasileiros. Segundo
pesquisa feita pela Mintel, multinacional fornecedora de inteligência de
mídia e mercado, somente 33% (G1, 2014) da população [brasileira]
compraram algum produto ou serviço via internet no último ano. E destes
33%, 9% (G1, 2014) [sic] adquiriu apenas um produto ou serviço. Ou seja,
ainda há um grande mercado a ser descoberto. (MONTEIRO, 2014, p. 74)
A falta de confiança do usuário na segurança de uma plataforma ao utilizar o
cartão de crédito, fornecer dados pessoais e bancários é uma das possíveis razões
para esse baixo percentual de pessoas que compram algum produto ou serviço pela
internet. A dificuldade em entender as regras da prática do crowdfunding e as taxas
83
que existem também são apontados como entraves encontrados pelas plataformas
para a expansão do mercado.
Mesmo com um bom número de reportagens na televisão, em jornais e
revistas, é na internet que o crowdfunding consegue divulgar a prática para
prosumidores e empreendedores. Tanto os fundadores das plataformas quanto o
heavy user concordam que é pouca a divulgação sobre o crowdfunding na grande
mídia brasileira, sendo essa divulgação feita predominantemente via internet, com
as redes sociais ocupando um papel protagonista.
Entre os 11 prosumidores entrevistados, 10 deles conheceram o
crowdfunding através do Facebook, o que indica que utilizar essa rede social é
fundamental na divulgação e no sucesso de uma campanha de crowdfunding. Os
prosumidores disseram continuar acompanhando nas redes sociais o andamento da
campanha, mesmo após a terem apoiado. Essa possibilidade de acompanhar pela
rede social um projeto que já tenha sido apoiado pemite que, além do apoio, seja
possível ao prosumidor compartilhar, divulgar e criar outros dados sobre o projeto, o
que o torna um multiplicador de conteúdo, fortalecendo a ideia de que, além de
consumir, ele também produz. Esse engajamento dos prosumidores na internet é um
dos fatores de sucesso para uma campanha de crowdfunding no Brasil, pois
possibilita a expansão da rede de contatos do empreendedor, atingindo novos
usuários.
De acordo com o heavy user, um dos principais problemas do crowdfunding
brasileiro é a entrega de recompensas. Ele afirma:
Mais da metade dos projetos que apoiei não cumpriram com a entrega das
recompensas. Demorar, sempre demora. Dá pra contar nos dedos de duas
mãos os que recebi no prazo correto. Mas a maioria não fez nada, nada.
Nem de escrever depois dizendo... Oi... olha, muito obrigado. (apud
MONTEIRO, 2014, p. 78)
O prosumidor, além de apoiar e acreditar no projeto, também quer consumir
um produto ou serviço oferecido como recompensa a esse apoio. Por conta desse
problema com as recompensas, o heavy user começou a apoiar com valores
menores, evitando recompensas altas que poderiam gerar um prejuízo maior, e
também optou por apoiar projetos que tivessem um número alto de prosumidores.
De acordo com Monteiro (2014, p. 79), foi percebido em pesquisas internacionais
que “Um número baixo [de prosumidores] reflete uma futura falta de
84
comprometimento na entrega do prometido”.
2.3.3 Prosumidor nacional
Foi consenso entre os fundadores das plataformas que não existe um perfil
único de prosumidor brasileiro. As faixas etárias e os nichos de prosumidores variam
conforme a temática dos projetos financiados. Outro consenso é que a motivação de
um prosumidor para apoiar um projeto através da prática do crowdfunding passa
pelas relações que ele tem com o projeto, o empreendedor ou a plataforma, sendo
essas relações as mais diversas possíveis, como ser fã de um artista, ser ativista de
uma causa social, gostar de consumir em plataformas de crowdfunding ou a simples
vontade de ajudar um amigo ou familiar por gostar dele, e não necessariamente por
se interessar por seu projeto. A fundadora da plataforma Benfeitoria afirmou o
seguinte a respeito dos prosumidores: “Eles pensam... Não preciso nem ver o vídeo
de apresentação. Até vejo, mas não importa o que você está fazendo, eu vou apoiar
porque eu te amo” (apud MONTEIRO, 2014, p. 76). Essa relação de intimidade é o
que justifica a associação feita entre crowdfunding e o termo popular vaquinha. No
vídeo Você sabe o que é Crowdfunding? (Blubell, 2012), Murilo Farah, indicado
como porta-voz da plataforma Benfeitoria, afirma que:
Crowdfunding nada mais é do que a vaquinha que a gente tá acostumado a
fazer desde o colégio ou com os amigos ou entre a família. A diferença é
que hoje, através da internet e dos meios digitais, isso ganhou uma
proporção para realizar atividades que são muito maiores [do] que [aquilo
que] a vaquinha tradicional possibilita que se faça. (FARAH, 2012)
Apesar de reconhecê-la, discordo da comparação feita com a popularesca
vaquinha. O crowdfunding é o resultado de uma série de fatores decorrentes da
revolução digital. Talvez exista uma semelhança entre essa prática e a vaquinha, por
conta do perfil de um prosumidor familiar ou amigo do empreendedor que não tem
interesse no projeto, na recompensa e na plataforma, mas quer dar dinheiro para o
empreendedor por puro afeto. Porém, não se pode restringir um mercado de
milhares de prosumidores brasileiros a amigos e familiares participantes de uma
vaquinha.
Para os prosumidores entrevistados, apesar de ter sido boa a experiência
com o crowdfunding, eles não tiveram iniciativa própria em apoiar outro projeto além
do que haviam apoiado (MONTEIRO, 2014, p. 81). No Brasil, os prosumidores
85
surgem conforme a demanda do projeto, não sendo um grupo unido e coeso que
estabelece relações dentro das plataformas ou fora delas para se configurar como
uma comunidade participativa.
O pesquisador Santos (2014) também entrou em contato com prosumidores
para elaborar sua dissertação. Ele divulgou um formulário com perguntas através de
redes sociais e e-mails, e teve retorno de 57 prosumidores diferentes que
responderam ao formulário. Os usuários que tiveram acesso a esse formulário foram
apenas pessoas que se enquadravam no recorte da pesquisa. Esse recorte foi de
prosumidores que apoiaram projetos da categoria Música na plataforma Catarse.
Entre os dados expostos a partir das respostas do formulário, destaco a
diversidade de idades encontrada pelo pesquisador. Essa diversidade está em
consonância com a visão dos fundadores das plataformas brasileiras que afirmaram
não existir um padrão entre os prosumidores. Como podemos perceber na Figura
16, há um grande equilíbrio entre diferentes idades dos prosumidores.
Figura 16 – Ano de nascimento dos prosumidores
Fonte: Adaptado de Santos (2014, p. 92).
86
Após receber as respostas dos formulários, Santos (2014) convidou os 57
prosumidores a participarem de uma entrevista pela internet. Apenas 7 prosumidores
de 5 cidades distintas, pertencentes a 4 estados brasileiros, participaram (SANTOS,
2014, p. 95). Essas entrevistas se pautavam em poucas perguntas, pelas quais, a
partir das respostas transcritas pelo pesquisador, foi possível organizar o conteúdo e
buscar uma solução à seguinte pergunta de pesquisa: o que significa apoiar um
projeto de crowdfunding para os prosumidores? As conclusões foram as seguintes:
(a) estar próximo e estabelecer ou fortalecer relações entre envolvidos
com o processo, sejam amigos proponentes, companheiros de mercado
musical, família apoiadora dos objetivos dos artistas ou com o produto
musical e com os artistas com maior proximidade do que uma relação
fã/músico tradicional; (b) incentivar a autonomia e valorizar um senso de
participação, no sentido de enxergar nas propostas de crowdfunding, muito
mais do que uma possibilidade econômica para o meio musical, uma forma
de demonstrar apreço por atitudes independentes e conjuntas que busquem
alcançar objetivos comuns; (c) contribuir com o desenvolvimento de
artistas, nessa lógica da atitude independente, por acreditarem que a busca
por um espaço no ambiente institucionalizado da indústria é incentivar uma
pluralidade maior não acessível pela lógica tradicional e utilizar
tecnologias para ouvir e descobrir discutindo esta mesma lógica industrial
e valorizando formatos musicais que interessam aos participantes
possibilitados por alguma forma de letramento digital que permite a
utilização de conhecimentos construídos em torno de novas formas de
acesso e a consequente discussão acerca dos meios tradicionais.
(SANTOS, 2014, p. 115, grifos do autor)
Santos (2014) e Monteiro (2014) tiveram iniciativas parecidas, procurando
respostas às suas perguntas a partir de entrevistas com prosumidores brasileiros. As
questões levantadas pelos dois pesquisadores são parecidas. Se Santos (2014)
pergunta o que significa apoiar um projeto, Monteiro (2014, p. 72) questiona “O que
leva os apoiadores a contribuírem com o modelo baseado em recompensa de
crowdfunding no Brasil?”.
O que significa e o que leva alguém a algo são duas questões que procuram
entender um campo subjetivo e bem específico das motivações ou da origem de um
ímpeto individual em querer apoiar um projeto através da prática do crowdfunding.
Mesmo entrevistando prosumidores de recortes distintos (Santos (2014) entrevistou
prosumidores ligados à música na plataforma Catarse, enquanto Monteiro (2014)
entrevistou prosumidores de quaisquer tipos de projeto em quaisquer plataformas de
crowdfunding do país), as duas pesquisas procuram entender a atuação dos
prosumidores brasileiros a partir de sua subjetividade.
Monteiro (2014), para entender o que leva os prosumidores a apoiarem um
87
projeto de crowdfunding, utilizou a pesquisa Crowdfunding: motivations and
deterrents for participation, de Gerber e Hui (2014), que já haviam se dedicado a
uma questão semelhante na tentativa de descobrir as motivações dos prosumidores
de plataformas de crowdfunding estadunidenses. As motivações descobertas por
Gerber e Hui (2014) estão na Tabela 10, ordenadas de 1 a 4 por razão de prioridade
– a 1 é a principal motivação encontrada entre os prosumidores, a 2 é a segunda
motivação encontrada, e assim por diante.
Tabela 10 – Motivações dos prosumidores estadunidenses
Quem? Motivações
Prosumidores
1. Receber recompensas
2. Ajudar os outros
3. Fazer parte de uma comunidade
4. Apoiar uma causa
Fonte: adaptada de Monteiro (2014, p. 63).
A partir da transcrição das 11 entrevistas, Monteiro (2014) associou
terminologias utilizadas pelos prosumidores brasileiros às motivações encontradas
por Gerber e Hui (2014) nos prosumidores estadunidenses. O resultado pode ser
verificado na Tabela 11:
Tabela 11 – Terminologias relacionadas a motivações
Motivações Terminologias
Receber uma recompensa presente, prêmio, exclusivo, produto, pacote,oferecer algo em troca, único, ser o primeiro
Ajudar os outros
amigos, família, ajudar pessoas, concretizar
projetos, pessoas conhecidas, filantropia, por ele,
por ela
Fazer parte de uma comunidade
pensam como eu, grupo, mesmos interesses,
pessoas que também contribuíram, acompanhar,
confiança, fazer parte, universo
Apoiar uma causa acredito, causas, crenças, me identifico, fazeruma coisa sair do papel
Fonte: Monteiro (2014, p. 71).
Monteiro (2014) também listou de 1 a 4 as principais motivações dos
prosumidores brasileiros e comparou sua lista com as quatro principais motivações
dos prosumidores estadunidenses. Para chegar a essa listagem, o procedimento foi
o seguinte: quanto mais vezes a terminologia fosse mencionada por um prosumidor
brasileiro diferente, mais a motivação identificada com essa terminologia teria
88
destaque perante as outras. O resultado encontrado foi uma ordem diferente de
motivações entre os prosumidores brasileiros e os estadunidenses, conforme
apresentado na Tabela 12:
Tabela 12 – Motivações estadunidenses e brasileiras
Motivações no estudo Gerber e Hui (2014) Motivações encontradas na presentepesquisa
1. Receber recompensas
2. Ajudar os outros
3. Fazer parte de uma comunidade
4. Apoiar uma causa
1. Ajudar os outros
2. Apoiar uma causa
3. Receber recompensas
4. Fazer parte de uma comunidade
Fonte: Monteiro (2014, p. 85).
Para o prosumidor estadunidense, a primeira motivação é receber as
recompensas, a última é apoiar uma causa. Para o prosumidor brasileiro, a primeira
motivação é ajudar os outros, a última é fazer parte de uma comunidade. A tabela
criada por Monteiro (2014) e as respostas descobertas por Santos (2014) me levam
à conclusão de que não existem regras estanques sobre as motivações dos
prosumidores.
2.4 Comunidade Crowdfunding BR
As próximas páginas são dedicadas a um capítulo histórico da Revolução
Digital no Brasil. A partir dos registros de publicações, comentários e e-mails
trocados, foi reconstruída a trajetória de um grupo de pessoas que se reuniram na
internet com um objetivo bem claro: implantar o crowdfunding no Brasil. Esse grupo
se organizou em uma comunidade on-line chamada Crowdfunding BR (Figura 17).
89
Figura 17 – Logotipo e apresentação da comunidade
Fonte: Crowdfunding BR (2010).
Essa comunidade se comunica de duas maneiras, pelo grupo de e-mails
Crowdfunding Brasil27 e pelo blog Crowdfunding BR28, sendo o blog lançado poucos
dias após as primeiras trocas de e-mails no grupo.
Formada no segundo semestre de 2010, seus primeiros membros foram
pioneiros na prática do crowdsourcing e do crowdfunding no país, sendo usuários
importantes que continuam, em grande parte, atuando em redes sociais e
plataformas brasileiras, como, por exemplo, os fundadores das plataformas Catarse
e Benfeitoria presentes desde os primeiros e-mails trocados no grupo. É possível
acessar gratuitamente todo o conteúdo publicado por essa comunidade. Apesar de
hoje o fluxo de dados ser muito menor do que nos seus primeiros anos, ela ainda
continua ativa na internet. O principal motivo que me fez pesquisá-la foi o
envolvimento e o protagonismo assumido pelos criadores do Catarse, que antes de
lançar a plataforma criaram e fizeram a moderação do blog Crowdfunding BR, além
de serem alguns dos usuários mais ativos da lista de e-mails Crowdfunding Brasil.
27 Disponível em: .
28 Disponível em: .
90
Quero demonstrar como essa iniciativa de criar uma comunidade on-line para
implantar o crowdfunding foi fundamental no posterior advento da plataforma
Catarse e de dezenas de plataformas que foram lançadas em 2011. Essas pequenas
seções são fundamentais para entendermos como o crowdfunding se instalou no
Brasil e como essa comunidade se apropriou de todos os conceitos da Revolução
Digital previamente apresentados – convergência, cultura participativa, comunidades
on-line, inteligência coletiva e copyleft – para transformar ideias, que estavam
apenas nas cabeças de seus integrantes, em plataformas de crowdfunding.
Essa comunidade on-line formada em torno do crowdfunding se configura
como tal pelo fato de existir uma pequena multidão de usuários brasileiros com
repertório suficiente sobre internet, crowdsourcing e seus diferentes modelos. Além
disso, os usuários possuem um problema em comum: implantar o crowdfunding no
Brasil. O trecho a seguir, publicado no blog por Luis Otávio Ribeiro, fundador do
Catarse, é um importante registro sobre a formação dessa comunidade:
Muitas pessoas já tinham entrado em contato com o crowdfunding, mas, até
então, não existia um meio comum para essas pessoas conversarem entre
si, compartilharem conhecimento e discutirem suas ideias. E foi por isso que
esse blog e o grupo foram criados. A ideia inicial era de utilizar o blog para
explicar o conceito, dar dicas sobre crowdfunding, mostrar casos de
sucesso ao redor do mundo e divulgar as primeiras iniciativas de
crowdfunding aqui no Brasil. Desde seu lançamento, no começo de
novembro, acredito que conseguimos atingir com sucesso esse objetivo.
(RIBEIRO, 2010)
As primeiras trocas de mensagens são intensas, com um bom número de
respostas e contribuições dos demais usuários da comunidade. Esse debate
permitiu que alguns usuários, como o empreendedor Rafael Zatti, tivessem a
sensibilidade de perceber o momento histórico que seria vivido pela internet
brasileira:
Acho importante pararmos para refletirmos sobre o destaque que a
colaboração vem ganhando no Brasil, a ponto de ser destaque num evento
de gabarito como foi o TEDxPortoAlegre. Venho acompanhando diariamente
há pelo menos um ano a evolução do crowdsourcing e da inteligência
coletiva e sempre apostei que o "boom" desses conceitos em terras
tupiniquins seria no segundo semestre de 2011 ou até em 2012. Ledo
engano. O "boom" está acontecendo agora! Precisamos nos firmar […]
como referências numa área que tende a crescer exponencialmente logo no
início de 2011. Portanto eu desafios vocês, desafio nós, a darmos um gás
nessa reta final de 2010 porque 2011 vai ser punk para o crowd! (ZATTI,
2010)
91
Essa percepção de Rafael Zatti foi possível graças ao posicionamento
assumido pelos usuários nos e-mails de apresentação individual, pois muitos se
colocaram como pesquisadores, jornalistas e empreendedores com interesse de
tornarem-se futuros criadores de plataformas brasileiras de crowdfunding e
crowdsourcing. Dentre esses usuários, estão os fundadores da plataforma Catarse,
que desde o início já haviam deixado claro para a comunidade o desejo de lançar
uma plataforma de crowdfunding. Os usuários deixaram claros seus interesses e
mesmo percebendo que seriam futuros competidores do mercado brasileiro de
crowdfunding, conseguiram praticar o trabalho coletivo através da comunidade
Crowdfunding BR.
Assim como o Edu Sangion, da Senso Incomum, acredito que 2011 será o
ano do crowdfunding no Brasil. Com o lançamento em beta da plataforma
da Senso Incomum e a estreia do Catarse planejadas para janeiro, o ano já
começa agitado. Contamos com todos vocês para divulgarem, contribuírem
com os projetos e darem seus feedbacks sobre as plataformas. (RIBEIRO,
2010)
É interessante perceber que a divulgação do lançamento do Catarse é
também uma estratégia de marketing, que começou em um e-mail pequeno enviado
para um grupo restrito de usuários que possuem participação ativa na internet e são
capazes de opinar criticamente sobre a plataforma.
Ao mesmo tempo em que o Catarse disponibiliza seus códigos e seu
planejamento na internet, ele utiliza a comunidade como laboratório para o
desenvolvimento da plataforma, cujos fins são comerciais e privados. Essa
dualidade entre o coletivo e o privado caracteriza o desenvolvimento de empresas
que praticam o crowdsourcing e o crowdfunding na internet, e é na mescla de tais
fronteiras que acontece a colaboração na rede.
2.4.1 Primórdios
O volume de dados trocados entre os usuários da comunidade Crowdfunding
BR é expressivo. Na Tabela 13, separei alguns dados referentes ao período do início
da comunidade, em novembro de 2010, até fevereiro de 2016.
Tabela 13 – Volume de dados Crowdfunding BR
Número total de artigos no blog
88 artigos
92
Número total de tópicos no grupo de e-mails
810 tópicos
Número total de e-mails inscritos no grupo de e-
mails
667 e-mails
Fonte: elaborada pelo autor.
A quantidade de comentários feitos em cada artigo do blog e o número de e-
mails enviados como resposta a cada tópico do grupo acabaram não sendo
mensurados nesta pesquisa, pois isso exige um trabalho que não foi possível
realizar devido à restrição de tempo e à grande quantidade de informações para
organizar.
Optei, então, por um recorte temporal para pesquisar a fundo a comunidade
Crowdfunding BR, e escolhi fazer a catalogação das postagens do blog e o
fichamento de todos os e-mails trocados entre a comunidade no período de
novembro de 2010 até fevereiro de 2011, os primeiros meses da comunidade.
Encerro meu recorte temporal em fevereiro de 2011 porque nesse período já é
possível constatar a proliferação de plataformas brasileiras de crowdfunding, sendo
o lançamento da plataforma Catarse o marco inicial dessa expansão.
A catalogação dos artigos do blog foi feita a partir dos seguintes dados: autor,
título, data, resumo da postagem, tarefa solicitada aos usuários, quantidade de
comentários, resumo dos comentários feitos pelos usuários, trechos importantes de
se destacar, links divulgados, tags (palavras-chaves) marcadas e nome dos usuários
que enviaram comentários. O fichamento dos e-mails seguiu um método mais
simples, que se deu pela separação de trechos importantes durante a minha leitura
das mensagens e a seleção dos diferentes usuários que enviaram e-mails.
O nome dos usuários que participaram da comunidade no período estudado e
todas as tags publicadas no blog foram reunidos para consulta no Apêndice B. Na
Tabela 14 estão os dados que utilizei na pesquisa:
Tabela 14 – Dados catalogados
DADOS DE NOVEMBRO/2010 ATÉ FEVEREIRO/2011
Número total de artigos do blog catalogados
49 artigos
93
Número total de comentários dos usuários do blog
226 comentários
Número total de tópicos do grupo de e-mails
93 tópicos
Número total de e-mails enviados no grupo
471 e-mails
Quantidade de usuários participantes do blog
137 usuários
Quantidade de usuários participantes do grupo de e-mails
65 usuários
Fonte: elaborada pelo autor.
A partir do mês de fevereiro de 2011, diversas plataformas foram lançadas no
Brasil. Esse fato ficou registrado na sequência de e-mails intitulada Plataformas
Brasileiras e contando enviada pelo usuário André Gabriel no dia 13 de fevereiro de
2011 ao referido grupo. No primeiro e-mail, ele havia listado 6 plataformas brasileiras
de crowdfunding. Essa lista aumentou por meio da colaboração dos demais usuários
da comunidade, que identificaram 15 plataformas brasileiras apenas três dias após a
primeira contagem, conforme indicado na Figura 18.
Figura 18 – Plataformas brasileiras de crowdfunding mapeadas pela comunidade
Fonte: Gabriel (2011).
Muitos outros debates e publicações poderão ser feitos por pesquisadoras e
pesquisadores interessadas no tema do crowdfunding, tendo como base a
94
comunidade Crowdfunding BR. O volume de dados com que me deparei é enorme e
aponta para diferentes caminhos. Coube a esta dissertação analisar apenas os
primórdios dessa comunidade, destacando seu papel fundamental na criação e no
desenvolvimento da plataforma Catarse.
2.4.2 Organização
Essa comunidade não tem uma liderança clara, mas, sim, diversos
protagonistas. O grupo de e-mails foi o espaço mais democrático, com maior
participação dos usuários, cujas mensagens enviadas se tornavam pautas de debate
entre os demais, resultando em maior diversidade de opiniões e trocas de
conhecimento na comunidade. Nos e-mails analisados, nenhum usuário específico
se destaca como uma figura de moderação ou assume esse papel. As primeiras
mensagens enviadas para a lista são compilações de e-mails trocados sobre
crowdfunding, crowdsourcing e empreendedorismo enviados por Roberto Fermino,
expoente empreendedor brasileiro29. Ele foi fundamental para o início dessa
comunidade, como podemos ver no depoimento de Daniel Weinmann, criador do
Catarse, sobre a importância de Fermino: “Roberto Fermino é o responsável pela
primeira fagulha que deu início ao grupo brasileiro de crowdfunding. Seu entusiasmo
e comprometimento com a nutrição do grupo foi vital para o movimento que
atualmente está crescendo muito todos os dias.” (WEINMANN, 2016).
Todavia, o Crowdfunding BR contou com usuários que assumiram a
responsabilidade de criar o blog e realizar sua moderação durante os primeiros
anos. Os usuários moderadores são Luís Otávio Ribeiro, Diego Borin Reeberg e
Daniel Weinmann, até então sócios de uma futura plataforma brasileira a ser lançada
e ainda sem nome. No trecho abaixo, Diego avisa ao grupo de e-mails Crowdfunding
Brasil sobre a criação do blog Crowdfunding BR:
Junto com o Daniel e o Luís Otávio começamos essa semana o blog
www.crowdfundingbr.com.br. Usem e abusem lá: escrevam posts,
comentem e apresentem o site pra quem ainda tá em dúvida sobre como
funciona esse negócio de crowdfunding. Um dos objetivos do blog é o de
ajudar a espalhar a ideia pelo País. (REEBERG, 2010)
29 “Roberto Fermino foi selecionado pelo Governo Americano para aparecer na revista de circulação
mundial "Empreendedores: A Próxima Geração". Em apenas dois anos, sua empresa foi do zero a
uma negociação com um dos maiores grupos de franquia da Europa. Desenvolveu diversos projetos
para promover o Empreendedorismo no Brasil, como fundar o Núcleo de Empreendedorismo da USP.
Estudou engenharia na USP, mais diversos cursos de inovação e empreendedorismo por Babson
College, Google, Facebook, Sebrae entre outros” (FERMINO, 2016).
95
Outro objetivo do trio era lançar a plataforma Catarse e utilizar o
conhecimento que circulava na comunidade em prol dessa empreitada e do
crowdfunding brasileiro. Um fator importante de ressaltar é que as intenções do trio
em lançar o Catarse e auxiliar no desenvolvimento do crowdfunding no Brasil
sempre foram claras e manifestadas a todos os outros usuários da comunidade,
como no e-mail de Daniel Weinmann enviado para o grupo Crowdfunding Brasil:
Estou adicionando à discussão o Diego Reeberg e o Luis Otávio Ribeiro,
que são meus parceiros no ainda sem nome "Kickstarter brasileiro". Além
disso, adiciono também o pessoal da Quavio, empresa que quer se focar
em um modelo diferente de compra coletiva, mais próximo do crowdfunding.
Sobre os nossos projetos em andamento, temos o plano de lançar 2
projetos até o fim deste ano (são planos ousados, visto que estamos no
início ainda, mas factíveis):
1) Um site, que será muito parecido com o Kickstarter, inclusive no foco dos
projetos. 2) A infraestrutura deste site como um projeto Rails de código
aberto. Ou seja: teremos uma Rack App que fará toda a parte de controle de
pagamentos e devoluções, interface para divulgação dos projetos, com
deadline e mínimo a ser atingido (sendo que este mínimo poderá ser em
montante total ou número de pessoas/preço por pessoa). A ideia que quem
quiser criar um novo site de crowdfunding (ou compra coletiva, vide o
http://crowdfundingbr.com.br/post/1525031543/compra-coletiva-
crowdfunding que publiquei agora) possa fazê-lo prensando somente no
negócio e na interface visual. O resto fica com esta Rack App. (WEINMANN,
2010)
Aproveitando a visibilidade que o crowdfunding havia adquirido, em
reportagens publicadas pela revista Época e o jornal O Estado de S. Paulo, foi
colocada a seguinte questão aos usuários leitores do blog: “já tá mais do que na
hora de surgirem iniciativas assim no Brasil, não?” (REEBERG, 2010). Essas
iniciativas, às quais se refere Reeberg, são plataformas de crowdfunding, A resposta
é a divulgação do lançamento da plataforma open source Catarse (Figura 19):
96
Figura 19 – Divulgação do lançamento do Catarse
Fonte: Reeberg (2010).
Nos primeiros anos da comunidade, foi uma prática comum entre os demais
usuários divulgar suas ideias e plataformas em e-mails, comentários e postagens.
Entre essas divulgações realizadas, destaco a postagem realizada pela usuária e
empreendedora Tati Leite sobre a prática de crowdfunding baseado na recompensa,
que segue o sistema tudo ou nada30. Ao encerrar a postagem, ela acaba revelando,
pela primeira vez, o nome daquela que é hoje uma das principais plataformas
brasileiras de crowdfunding contemporâneas: “Fico feliz de ver a geração G em ação
– G de generosidade e não de Ganância! Vale conferir em
http://trendwatching.com/trends/generationg/. Ah! Nesse mood, decidi que meu site
se chamaria Benfeitoria…. ;) E vamo que vamo!” (LEITE, 2010). Vejamos na Figura
20 alguns exemplos da mobilização de usuários na comunidade:
30 O sistema tudo ou nada é explicado no terceiro capítulo desta dissertação.
97
Figura 20 – Exemplos de usuários sendo inseridos na comunidade
Fonte: adaptada do blog Crowdfunding BR.
Considero como usuários da comunidade aqueles que se manifestam com
comentários feitos nas postagens do blog Crowdfunding BR, como nos dois
exemplos acima, e também aqueles que se inscrevem no grupo de e-mails
Crowdfunding Brasil e participam enviando mensagens. Até hoje é possível entrar na
comunidade e qualquer usuário da internet pode se inscrever na lista de e-mails ou
comentar as postagens do blog. Para isso, é só seguir as recomendações feitas pelo
moderador Diego Borin Reeberg.
Em pouco tempo, a comunidade Crowdfunding BR se tornou referência sobre
crowdfunding na internet brasileira. Os números levantados no blog corroboram essa
afirmação: entre novembro e dezembro de 2010, “o blog já recebeu mais de 2.500
visitas, além de já aparecer no topo da lista de pesquisa do Google” (RIBEIRO,
2010). Aos poucos foi se formando uma pequena multidão. Roberto Fermino, em um
dos primeiros e-mails enviados ao grupo Crowdfunding Brasil, explica quem é essa
pequena multidão:
Caramba, é muito legal saber que uma iniciativa tão simples quanto a
criação deste grupo de email possibilitou reunir pessoas incríveis como
vocês, nesse pequeno grupo de pouco mais de 30 pessoas já temos
estudantes, pesquisadores, professores, empresários, investidores e
gestores. Arrisco que todos são empreendedores inquietos e ávidos por
mudanças, assim peço para que deixem o pré-conceito de lado, vamos
trabalhar juntos na construção de soluções que ajudem a viabilizar novas
empresas. Não adianta só ter boa vontade é preciso agir! Continuem
colaborando, indicando novos membros e construindo um novo cenário de
empreendedorismo no Brasil. (FERMINO, 2010)
98
A convocação feita por Fermino não é exclusiva aos usuários interessados no
crowdfunding, mas é direcionada também aos usuários interessados em startups,
plataformas de crowdsourcing e projetos empreendedores, temas constantemente
levantadas em e-mails do grupo Crowdfunding Brasil. Fermino convoca os usuários
a uma tarefa que ele não é capaz de realizar sozinho. Que tarefa é essa?
2.4.3 Tarefa
Figura 21 – Paradigma da comunidade Crowdfunding BR
Fonte: elaborada pelo autor.
Na Figura 21, apliquei o paradigma do crowdsourcing, que desenvolvi no
primeiro capítulo, para ilustrar como a comunidade on-line Crowdfunding BR utilizou
da prática do crowdsourcing para conseguir um benefício mútuo entre seus usuários.
Como já havia dito, para existir a prática do crowdsourcing é preciso contar
com três elementos: crowdsourcer, multidão e tarefa. São dois crowdsourcers
utilizados por essa comunidade: o blog e o grupo de e-mails. Essas foram as
ferramentas disponíveis gratuitamente na internet que possibilitaram a prática do
crowdsourcing. A multidão são os 137 usuários participantes do blog e os 65
99
usuários participantes do grupo de e-mails, usuários esses interessados em lançar
plataformas, pesquisar, divulgar e empreender. A tarefa principal é implantar o
crowdfunding no Brasil. Foi em torno dessa tarefa que a comunidade on-line
Crowdfunding BR se formou e teve razão de continuar existindo. Para conseguir
cumprir tal tarefa, a multidão, utilizando as possibilidades oferecidas pelo
crowdsourcer, realizou uma série de minitarefas, a saber:
a) participar do debate;
b) produzir conhecimento;
c) disseminar a mensagem;
d) mapear o mercado;
e) procurar parceiros;
f) circular em eventos;
g) resolver problemas;
h) desenvolver tecnologia.
Com todas essas minitarefas realizadas, foi possível para a comunidade
cumprir a tarefa principal, implantar o crowdfunding no Brasil. Cada uma dessas
minitarefas possuía peculiaridades.
PARTICIPAR DO DEBATE foi uma condição da comunidade Crowdfunding
BR. Os usuários que assumiram o papel de protagonistas, postando conteúdos no
blog e criando tópicos no grupo de e-mails, constantemente convocavam os demais
a interagir enviando suas opiniões, perguntando por novas histórias sobre
crowdfunding, pedindo sugestões e fazendo comentários. É comum encontrar
trechos, ao final de e-mails e postagens do período analisado, como “E você, o que
tem a dizer sobre crowdfunding e suas vantagens? Concorda, discorda, adicionaria
alguma coisa? Vamos construir juntos o crowdfunding no Brasil! Critique, comente,
colabore!” (RIBEIRO, 2010). Vejamos na Figura 22 um exemplo de participação de
usuários no debate:
100
Figura 22 – Participação no debate
Fonte: Mariana (2010).
PRODUZIR CONHECIMENTO também foi uma prática na comunidade.
Alguns usuários arriscam-se a desenvolver artigos e dicas capazes de decifrar e
potencializar as diversas possibilidades do crowdfunding. Eles compartilham esse
conteúdo desenvolvido e debatem com os demais usuários se de fato suas ideias se
aplicam. Um primeiro levantamento de publicações foi feito graças ao tópico
referencial teórico sobre Crowdfunding, existe? do grupo de e-mails, no qual o
usuário Narcelio Ferreira convoca a comunidade a responder à seguinte pergunta:
“Existem publicações acadêmicas sobre o fenômeno crowdfunding, o suficiente para
se fazer uma monografia sobre o tema?” (FERREIRA, 2011). Como resultado, a
multidão indicou uma boa quantidade de artigos e um livro, tudo na língua inglesa,
que já forneciam subsídios suficientes para se começar uma pesquisa sobre o tema.
DISSEMINAR A MENSAGEM também se fez necessário.
No início do Blog, o Daniel fez uma chamada a ação para fazer
crowdfunding no Brasil, eu, no começo desse ano, reforço esse pedido, mas
tendo a certeza que os primeiros [passos] já foram dados, agora precisamos
nos unir ainda mais para que mais pessoas conheçam e passem a acreditar
nessa revolução. (RIBEIRO, 2010)
Algumas ações propostas para disseminar a mensagem foram divulgar
mensagens explicando o que significa crowdfunding, compartilhar reportagens,
101
pesquisas, artigos e livros, divulgar novas plataformas internacionais e nacionais,
apresentar os diferentes tipos que existem, contar histórias sobre projetos de
crowdfunding, tendo os moderadores do blog provocando o debate e respondendo à
grande maioria dos comentários. Essa estratégia acabou trazendo visibilidade para a
comunidade, fazendo os jornalistas entrarem na lista de e-mails para conseguir
contato com os usuários e pedir informações sobre a prática do crowdfunding e seu
desenvolvimento no Brasil. Nesse curto tempo analisado, a comunidade foi
acessada por jornalistas do jornal O Globo (CAZES, 2011), da Folha de S. Paulo
(MARINA, 2011) e da revista Galileu, conforme mostra o exemplo da Figura 23:
Figura 23 – E-mail enviado por jornalista para a comunidade
Fonte: Garcia (2010).
MAPEAR O MERCADO, além de ser uma minitarefa, era uma necessidade.
Os constantes esforços de estimular a participação, a produção e a disseminação
voltados para angariar a maior quantidade de usuários para a comunidade
Crowdfunding BR foram ações cuja finalidade era o mapeamento do mercado
brasileiro de crowdfunding e de todos os seus agentes. Consequentemente, isso
colocou em contato os futuros empreendedores de plataformas brasileiras. Em uma
troca de e-mails, o usuário Guilherme Rodrigues questionou a posição da plataforma
Catarse que tentava, através das mensagens de seus sócios, aliviar as tensões de
competição capitalista que começaram a aflorar entre os demais membros da
102
comunidade. A pergunta de Guilherme foi a seguinte: “Como li em outra thread,
surgiu a ideia de se criarem sites complementares e não concorrentes, muito legal,
mas qual a ideia fundamental do Catarse e quais seriam os ‘complementos’ para
ele?” (RODRIGUES, 2011). A resposta de Diego Borin Reeberg foi a seguinte:
No mínimo, há 3 possibilidades complementares: causas sociais,
financiamento de negócios, oferecer retorno financeiro/participação
acionária. Mas as possibilidades vão muito mais longe. Fora do Brasil tem
surgido muitos sites ainda mais específicos, há bons exemplos em: moda,
causa social e educação, música, jornalismo, propaganda. Outro ponto é
que no Catarse a gente tem apenas o papel de intermediário, enquanto em
alguns desses outros sites eles fazem outros tipos de esforços. O
Queremos!, por exemplo, além de captar o dinheiro, atua na produção dos
eventos. (REEBERG, 2011)
PROCURAR PARCEIROS era comum no grupo de e-mails. Muitos usuários
tinham ideias para plataformas de crowdfunding e outros empreendimentos na
internet, mas precisavam de alguém para conseguir transformar essa ideias em
ação, ou seja, os usuários utilizaram a comunidade para procurar parceiros e sócios
para novas empreitadas. A abordagem muitas vezes foi direta, como podemos
perceber na seguinte mensagem: “Estamos incubados na FUMSOFT, e apesar de
eu ser de Goiânia/GO, tenho um sócio em BH, guibarros2008, que é responsável
por nossa empresa aí, e estamos captando parceiros a fim de difundir o modelo na
região.” (PETRELLI, 2011). Mensagens como essa caracterizaram a comunidade
como sendo também um espaço de oferta e procura de trabalho entre os usuários,
além de um balcão de negócios entre empreendedores tentando montar sociedades
para novas empreitadas na internet.
CIRCULAR EM EVENTOS foi uma importante minitarefa no fortalecimento da
comunidade. No período pesquisado, houve alguns encontros presenciais entre
seus usuários, que combinaram encontros e ofereceram hospedagem aos demais
membros oriundos de outras cidades. Um exemplo é o evento Social Media Week,
que aconteceu em fevereiro de 2011 na cidade de São Paulo e reuniu uma parte dos
usuários da comunidade (WEINMANN, 2010). A circulação em eventos relacionados
a internet, empreendedorismo e crowdfunding também foi importante para conseguir
inserir novos usuários na comunidade Crowdfunding BR. Um exemplo disso é o
usuário Luiz Henrique Rauber Rodrigues, que entrou na comunidade após escutar
um de seus membros mais ativos fazendo uma palestra, como ele bem descreve em
103
seu e-mail de apresentação no grupo: “desde o lightingtalk do daniel no agileday
estou neste grupo e é o primeiro tópico que abri :)” (RODRIGUES, 2011).
RESOLVER PROBLEMAS ligados à implantação do crowdfunding no Brasil
foi uma minitarefa presente em e-mails, postagens e comentários feitos pela
comunidade. Os problemas, em geral, são comuns a todos que fazem parte desse
mercado. Durante minha pesquisa, me deparei com debates sobre questões
jurídicas, fraudes e questões administrativas relacionadas à movimentação de
recursos financeiros em empresas que praticam o crowdfunding (REEBERG, 2010).
Dentro desses diferentes problemas, os sócios do Catarse parecem sempre estar
um passo a frente dos demais usuários. A expectativa gerada antes da divulgação
da plataforma Catarse obrigou-os a se movimentar, buscando auxílio fora da
comunidade para solucionar problemas comuns aos demais usuários.
Quando todos estavam com dúvidas sobre como definir os termos de uso
para a prática do crowdfunding, a equipe do Catarse já havia contratado uma
assessoria jurídica para a criação dos termos de uso da plataforma (WEINMANN,
2011) e disponibilizado o resultado para a comunidade.
Entretanto, o maior problema que percebi durante o período analisado não
está relacionado a questões operacionais, facilmente solucionadas pela inteligência
coletiva comunitária, mas à desconfiança e ao tom desestimulante adotado por
alguns usuários, como no exemplo a seguir:
Em um país como o Brasil, onde ainda você vê notícias de pessoas que
compram produtos pela internet e recebem tijolos no lugar da mercadoria,
você acha que a iniciativa dessa mulher daria certo? As pessoas confiariam
seu dinheiro em um investimento desses, mesmo sendo a quantia
pequena? O que eu quero dizer é... você acha que a sociedade brasileira
estaria pronta para aceitar este tipo de prática? Em um futuro próximo, vai
estar? (DANIEL, 2010)
Além da desconfiança no caráter da “sociedade brasileira”, o volume de
recursos necessários para se profissionalizar e conseguir transformar uma empresa
de crowdfunding em uma empresa lucrativa também foi destacado como um
problema pelo usuário Kingstonek7:
Pessoalmente acho que esse tipo de negócio não vinga no Brasil – por
vingar aqui quero dizer remunerar decentemente os que [sic] administrão o
site. Simplesmente não haverá massa suficiente de doadores para financiar
104
projetos relevantes (pelos problemas de confiança, incentivos e legalidade).
Mas vocês só vão saber se tentar. Essa é a "beauty" desses projetos:
podem ser uma grande inovação bastante lucrativa, ou um grande fiasco.
(KINGSTONEK7, 2010)
O contraponto estadunidense, constantemente utilizado para solucionar os
problemas técnicos relacionados ao crowdfunding, foi também utilizado para
responder ao pessimismo e à desconfiança. Luís Otávio Ribeiro afirmou o seguinte:
Engraçado perceber que aqui no Brasil, o crowdfunding passa pelas
mesmas desconfianças que passou durante seu início nos EUA.
Desconfianças geradas por se querer fazer algo novo, diferente,
revolucionário. Mas isso irá impedir o início do crowdfunding no Brasil? De
maneira alguma! (RIBEIRO, 2010)
DESENVOLVER TECNOLOGIA é a minitarefa que deixou o maior legado
dessa comunidade na internet. Desde o começo, Daniel Weinmann deixou claro seu
interesse em desenvolver um software para o funcionamento da plataforma Catarse.
Baseado nos códigos utilizados pela plataforma Kickstarter, esse software seguiria
as premissas do movimento do software livre, tendo seus códigos abertos e
disponíveis gratuitamente na internet para que outros programadores possam, a
partir dele, criar suas próprias plataformas de crowdfunding.
O objetivo deste grupo é acelerar as mudanças necessárias para que o
crowdfunding seja uma realidade no Brasil. Isto inclui o desenvolvimento de
software open source para a criação de sites de crowdfunding, a busca
conjunta de um modelo jurídico para a implantação deste tipo de serviço no
nosso país, e qualquer outra dificuldade comum àqueles que estão neste
mesmo barco. (WEINMANN, 2010)
Antes de lançar o Catarse na internet, foi feito um vídeo tutorial de utilização
da plataforma. Esse vídeo de poucos minutos foi divulgado apenas para a
comunidade Crowdfunding BR através do blog e da lista de e-mails. Muitos usuários
opinaram sobre a plataforma e auxiliaram seus criadores a aperfeiçoar detalhes
antes do lançamento (WEINMANN, 2010). Outros usuários, além dos sócios do
Catarse, também utilizaram a comunidade para identificar problemas e desenvolver
melhorias em suas plataformas. Essa capacidade da comunidade de resolver
problemas e desenvolver tecnologias foi fundamental para o êxito do crowdfunding
no Brasil.
105
Filmes do Catarse
3.1 Catarse
Catarse é uma plataforma brasileira de crowdfunding baseada na recompensa
e na doação. Essa plataforma é uma réplica da plataforma estadunidense Kickstarter
e foi inicialmente desenvolvida por três empreendedores brasileiros: Diego Borin
Reeberg, Luís Otávio Ribeiro e Daniel Weinmann, alguns dos fundadores da
comunidade Crowdfunding BR. Tal comunidade teve papel crucial na criação da
plataforma Catarse, como comentado no capítulo anterior, e seus usuários foram os
primeiros a conhecê-la e participaram de seu desenvolvimento. O Catarse financia
projetos que denomina como criativos, estes organizados em 18 categorias, como
mostrado na Figura 24:
Figura 24 – Categorias do Catarse
Fonte: Catarse (2016).
A plataforma arrecada 9% para si e 4% para a empresa responsável pelos
serviços de pagamento na internet, totalizando uma taxa de 13% em cima de todo o
valor arrecadado por um projeto que consiga ter sucesso. Se o projeto não for bem-
sucedido, todo o dinheiro arrecadado é devolvido aos apoiadores.
Dentre todas as plataformas brasileiras, o Catarse é a que possui maior
destaque nos grandes meios de comunicação, além de possuir a maior quantidade
de projetos financiados, o maior número de usuários cadastrados na plataforma e o
maior montante financeiro arrecadado.
Acredito que um dos principais motivos dessa repercussão em torno da
106
plataforma se deve à política de transparência adotada, pois todos os projetos
financiados estão disponíveis na internet. É possível ver o nome do empreendedor e
dos prosumidores, os valores arrecadados, os textos, os vídeos, as recompensas e
os prazos de cada campanha. Além disso, há outras ações que visam à
transparência, como pesquisas, dados e reportagens sobre crowdfunding publicadas
nas páginas Blog do Catarse, Central de suporte e Retrato Financiamento Coletivo
Brasil 2013/2014. É comum encontrarmos nas pesquisas brasileiras sobre
crowdfunding agradecimentos à equipe do Catarse pelo acesso a informações da
plataforma. Muitos pesquisadores, como eu, acessaram diretamente a equipe do
Catarse, foram bem atendidos e conseguiram uma boa quantidade de dados para
seus trabalhos.
Como muitas outras plataformas de crowdfunding, o Catarse oferece os
seguintes serviços aos seus usuários: uma página dentro da plataforma para o
projeto de um empreendedor, a tramitação financeira do dinheiro recebido, manuais
de desenvolvimento de projetos, eventos relacionados a crowdfunding, atendimento
aos empreendedores antes, durante e depois do financiamento e atendimento aos
prosumidores. Entre os milhares de projetos da plataforma, destaquei dois até
agora: os documentários Belo Monte – anúncio de uma guerra (André D'Elia, 2012)
e Eu maior (Fernando Schultz, Paulo Schultz, 2013).
Para a pesquisa, elaborei um questionário (disponível no Apêndice C) com a
finalidade de descobrir a natureza jurídica do Catarse, entender sua administração,
solicitar planilhas com dados gerais sobre a plataforma e a categoria Cinema e
Vídeo. O questionário foi respondido por Diego Borin Reeberg, sócio-fundador do
Catarse, vice-presidente de comunidade e ativista do crowdfunding no país.
3.2 Equipe
O Catarse é uma sociedade simples limitada, uma empresa que possui sócios
e visa ao lucro. As atividades que essa empresa pode exercer são as seguintes:
a) intermediação de negócios (principal atividade);
b) portais, provedores de conteúdo e outros serviços de informação na
internet;
c) consultoria em tecnologia da informação;
107
d) outras atividades de ensino não especificadas anteriormente.
Como qualquer outra empresa, o Catarse paga impostos, tributos que são
cobrados a partir da receita advinda da taxa que é cobrada pela plataforma sobre os
projetos financiados. Cabe aos empreendedores, de acordo com a sua natureza
jurídica, declarar o valor arrecadado pelo projeto em seu imposto de renda. Na
página Central de suporte, mais especificamente no item FINANCIADO | Tenho de
pagar impostos?, o Catarse, apesar de destacar que o dinheiro arrecadado pode ser
declarado como doação no imposto de renda, traz a seguinte orientação aos
empreendedores: “a gente sugere é que o realizador converse com algum contador
de sua confiança para pensar como é a melhor forma para enquadrar a declaração
dos recursos captados”. Isso porque cada apoio recebido pode ser diferente de
acordo com algumas variáveis, como a natureza jurídica de quem apoiou e a
finalidade do apoio, já que esse apoio pode ser uma doação, uma compra de um
produto ou uma prestação de serviço. “Não há uma legislação específica sobre o
assunto, infelizmente, o que faz com que essas análises dependam da interpretação
e/ou jurisprudência em cada um dos casos” (REEBERG, 2016).
É importante que novas leis sejam propostas para tentar compreender e
estimular a disseminação da internet por todo o território brasileiro, já que a atual lei
de direitos autorais não consegue dialogar com as novas possibilidades oferecidas
pela rede. Dentre essas milhares de possibilidades está o crowdfunding. É preciso
uma grande participação social nesse debate, no qual a opinião de plataformas
como o Catarse é fundamental.
No documento Histórico da criação do Catarse para Sala de imprensa,
disponível na página Sala de imprensa, é contada a história da fundação do Catarse
e de como se constituiu a sociedade da empresa que é responsável pela plataforma.
Como já indicado nesta pesquisa, os precursores do Catarse foram Diego Borin
Reeberg, Luis Otávio Ribeiro e Daniel Weinmann, entretanto, a narrativa exposta
nesse documento inclui dois personagens fundamentais: Rodrigo Maia e Thiago
Maia. Os cinco são indicados como fundadores da plataforma Catarse, e a história
contada é a seguinte:
Juntos [Daniel, Diego e Luis] criaram o blog Crowdfunding Brasil e
começaram [a] discutir abertamente a ideia de criar um site de
financiamento coletivo no país. Logo, chamaram a atenção dos irmãos
Rodrigo e Thiago Maia, um jornalista e um designer do Rio de Janeiro, que
108
se preparavam para lançar a plataforma Multidão. De dezembro a março de
2011 [sic], testaram o mercado de diferentes formas, ainda trabalhando de
forma separada, mas sempre em comunicação e conversando sobre a
junção total dos grupos. Não havia outra maneira que não abraçar um
caminho comum. Por fim, os cinco decidiram se juntar, unir esforços e
recursos para desenvolver uma única plataforma, cujos valores, ideais,
visão de futuro e missão foram inicialmente discutidos e alinhados em uma
ensolarada tarde de conversas na praia de Grumari, no Rio de Janeiro.
(CATARSE, 2016)
Nos dias de hoje, a sociedade da empresa é composta pelos seguintes
indivíduos e suas respectivas funções:
a) Antônio Roberto Silva – Líder de Tecnologia;
b) Beatriz Bouskela – VP de Relacionamento;
c) Diego Reeberg – VP de Comunidade;
d) Diogo Biazus – não trabalha no dia a dia da empresa, mas atua como
conselheiro.
e) Luis Otávio Ribeiro – VP de Produto;
f) Rodrigo Maia – CEO;
g) Thiago Maia – VP de Marketing.
A plataforma conta com uma equipe de “18 pessoas espalhadas por 8 cidades
em 3 países (Afeganistão, Brasil, Canadá)” (CATARSE, 2016). Essa equipe é
organizada da seguinte maneira, conforme o organograma apresentado na Figura
25:
Figura 25 – Organograma da equipe do Catarse
Fonte: Reeberg (2016).
109
As tarefas cotidianas dessa equipe são:
a) suporte a empreendedores e prosumidores;
b) correção de bugs na plataforma (se houver);
c) aprovação de projetos enviados;
d) prospecção e reuniões de formatação de projetos;
e) participação em feiras e eventos;
f) desenvolvimento de conteúdo: guias, cursos, hangouts;
g) atividades operacionais financeiras: emissão de NF, Nota de débito,
controle dos gastos, conciliação bancária.
Para manter o diálogo e a equipe funcionando, o Catarse utiliza uma série de
ferramentas disponíveis na internet para gestão e trabalho on-line. As ferramentas
gratuitas são Slack, Google Hangout e Google Drive, e as ferramentas pagas são
Rebooth e Pivotal Tracker:
a) Google Drive: compartilhamento de dados;
b) Google Hangout: ferramenta de comunicação para reuniões com uso de
imagem e som;
c) Pivotal Tracker: gestor de tarefas para desenvolvedores de softwares;
d) Redbooth: ferramenta de gerenciamento de tarefas;
e) Slack: ferramenta de chat entre dois usuários e um grupo de usuários.
O desafio de trabalhar de modo descentralizado, pela internet, exige um rigor
entre os sócios para manter a equipe funcionando. A estratégia adotada por eles foi
a seguinte: “As equipes têm liberdade pra escolher modelos de gerenciamento
dentro delas, uma das práticas é fazer scrums diários, por chat, onde as pessoas
falam o que fizeram ontem, o que vão fazer hoje e se tem alguma barreira pra isso.”
(REEBERG, 2016).
3.3 Termos de uso
Apesar de já ter sido explicado o funcionamento do crowdfunding, destaco a
seguir trechos da página Termos de uso da plataforma. A partir desses termos é que
são definidas as regras do jogo do Catarse. Antes de apresentarmos os termos de
uso, é preciso comparar algumas palavras presentes na plataforma que são
sinônimos das utilizadas na dissertação. Vejamos a Tabela 15:
110
Tabela 15 – Comparação dos termos
Dissertação Catarse
Sucesso, projeto
financiado
Projeto bem-
sucedido
Empreendedor Criador de projetos,realizador
Prosumidor Apoiador
Fonte: elaborada pelo autor.
Esta versão dos termos de uso foi atualizada em 11 de julho de 2015:
USUÁRIO: é toda e qualquer pessoa física que navegue ou faça uso do site
do CATARSE, incluindo o CRIADOR DE PROJETOS e o APOIADOR DE
PROJETOS.
CRIADOR DE PROJETOS: é o USUÁRIO do CATARSE interessado em
angariar fundos para realização de um projeto criativo.
APOIADOR: é o USUÁRIO do CATARSE interessado em contribuir
financeiramente com os PROJETOS de um ou mais CRIADORES DE
PROJETOS, podendo receber recompensas, de acordo com as regras
estabelecidas em cada projeto.
PROJETO: é um projeto criativo divulgado na plataforma CATARSE pelo
CRIADOR DE PROJETOS com o objetivo de angariar fundos para a sua
concretização. Para cada PROJETO, serão definidas recompensas ou
incentivos aos APOIADORES, de acordo com as regras definidas em cada
PROJETO. Os PROJETOS devem seguir as Diretrizes para criação de
projetos, sendo que qualquer PROJETO que estiver em desacordo com tais
diretrizes, poderá ser removido da plataforma pelo CATARSE.
PROJETO BEM-SUCEDIDO: é o PROJETO que alcança ou supera o valor
pleiteado no prazo determinado pelo CRIADOR DO PROJETO.
REEMBOLSO, devolução dos valores desembolsados pelos APOIADORES,
a título de APOIO, caso o PROJETO não seja bem-sucedido. O
REEMBOLSO será realizado pelo CATARSE, por meio de cartão de crédito
ou transferência bancária, de acordo com a forma como foi realizado o
APOIO. O comprovante de depósito ou a fatura do cartão de crédito,
conforme o caso, equivalerão a um recibo pelo qual o APOIADOR dá plena
geral e irrevogável quitação ao CATARSE, para nada mais reclamar a título
de reembolso. (CATARSE, 2015)
Meu destaque para o trecho acima é referente ao REEMBOLSO. Perguntei a
Reeberg onde o dinheiro arrecadado pelos apoiadores é depositado. Sua resposta
foi: “Em uma conta do Catarse exclusiva para administrar os recursos dos
apoiadores/realizadores. Caso o projeto seja bem-sucedido, a gente repassa o valor
de lá para a conta bancária do realizador.” (REEBERG, 2016). Essa pergunta parece
simples, mas esconde uma questão importante que ainda não consegui entender.
Os projetos que não são bem-sucedidos obrigam a plataforma a devolver o dinheiro
aos prosumidores, entretanto, para cada apoio realizado é cobrada uma
porcentagem. O Catarse pode abrir mão de sua porcentagem, mas e a empresa que
111
faz os serviços de pagamento, Pagar.me31, também abre mão de seus 4%? Ela
também corre riscos com a plataforma? Ou a plataforma assume o pagamento da
empresa? O que consegui levantar é que o valor apoiado é ressarcido integralmente
ao prosumidor, caso o projeto não tenha sucesso.
Continuando a análise dos termos de uso, destaco o trecho denominado O
que é e como funciona o Catarse:
O CATARSE é uma plataforma online que se destina a aproximar
CRIADORES DE PROJETOS e APOIADORES, com o objetivo de
ANGARIAÇÃO COLETIVA DE FUNDOS (“crowdfunding”), para viabilizar
PROJETOS. O CATARSE permite que um CRIADOR DE PROJETOS
apresente uma ideia de PROJETO e angarie fundos de APOIADORES
interessados em contribuir com esse PROJETO. Os CRIADORES DE
PROJETOS também oferecerão aos APOIADORES recompensas, que
serão definidas em cada um desses PROJETOS. O CATARSE reúne os
valores desembolsados pelos APOIADORES destinados a cada um desses
PROJETOS até o prazo final determinado pelos respectivos CRIADORES
DE PROJETOS.
Quando um desses PROJETOS é bem-sucedido, alcançando ou superando
o montante estipulado para sua viabilização, no prazo estipulado no
PROJETO, o valor total angariado dos APOIADORES é repassado ao
CRIADOR DE PROJETO, descontado o percentual devido ao CATARSE.
Em contrapartida, se um PROJETO não é bem-sucedido, deixando de
alcançar o montante solicitado, o CATARSE providenciará o REEMBOLSO
das quantias pagas. Para as quantias pagas por meio de cartão de crédito,
o REEMBOLSO será realizado na próxima fatura ou na fatura subsequente
do cartão de crédito. Se, porém, o pagamento tiver sido feito através de
boleto bancário, o REEMBOLSO será realizado através de depósito na
conta bancária indicada pelo APOIADOR, assim que solicitado pelo
CATARSE. Caso não seja fornecida a conta bancária para REEMBOLSO, o
CATARSE manterá os valores disponíveis para REEMBOLSO pelo prazo
máximo de 12 meses, conforme detalhado no item “Taxas e Pagamentos”
adiante.
O CATARSE tem por objetivo apenas aproximar CRIADORES DE
PROJETOS e APOIADORES, através de sua plataforma online. A utilização
do CATARSE não gera relação de trabalho, vínculo empregatício,
associação nem sociedade entre quaisquer USUÁRIOS (APOIADORES e
CRIADORES) e o CATARSE, nem tampouco representa transação
comercial ou venda de produtos ou serviços.
O CATARSE é responsável pelo bom funcionamento de seu website.
Entretanto, o CATARSE não garante que os PROJETOS serão executados,
nem que os incentivos/recompensas oferecidos pelos CRIADORES DE
PROJETOS serão honrados.
É de responsabilidade única e exclusiva dos CRIADORES DE PROJETOS
o resultado do PROJETO criativo proposto, a entrega das eventuais
recompensas prometidas e o ressarcimento por eventual dano
experimentado pelos APOIADORES, oriundo de ação ou omissão dos
CRIADORES DE PROJETOS. (CATARSE, 2015)
31 A Pagar.me é uma empresa que oferece serviços para receber pagamentos na internet. Possui
segurança ponta a ponta durante o pagamento, todos os dados do cartão de crédito são encriptados
diretamente no browser e levados de forma segura até os servidores. É uma empresa investida pelo
grupo Arpex Capital, que possui grande parte das maiores empresas de E-commerce no Brasil, e Grid
Investiments. Possui certificação PCI, a principal certificação mundial na indústria de pagamentos.
112
Após deixar destacado que sua responsabilidade é manter o bom
funcionamento do website, o Catarse apresenta aos seus usuários o ponto mais
delicado da prática do crowdfunding brasileiro: a não garantia de que o projeto
apoiado será realizado. Como já colocado nesta dissertação, a maioria dos projetos
atrasa o prazo de entrega das recompensas e uma pequena parte deles não entrega
as recompensas ao prosumidor. A prática do crowdfunding, como acontece hoje,
depende apenas da confiança entre prosumidores e empreendedores. Por um lado,
os prosumidores precisam acreditar que estão apoiando um projeto que de fato será
realizado, e, por outro, os empreendedores precisam confiar que sua rede de
prosumidores irá conseguir financiar o projeto. Tudo isso expõe o risco envolvido na
prática do crowdfunding do qual o Catarse acaba se isentando.
A despeito disso, o ônus gerado em caso de um calote do empreendedor
afeta diretamente o mercado do crowdfunding. Prosumidores frustrados a partir do
não recebimento de recompensas ou até da não realização do projeto financiado
tendem a contar isso para os demais usuários, criando uma onda de repercussão
negativa que pode afetar os números do Catarse e das demais plataformas
brasileiras.
A orientação do Catarse aos prosumidores em casos de negligência do
empreendedor é seguir o Código de defesa do consumidor, disponível na página
Central de suporte. O Catarse também se coloca à disposição para auxiliar no
contato direto entre o prosumidor e o empreendedor, atuando também como um
mediador de conflitos.
Após concordar com os termos de uso e a política de privacidade, é possível
criar um projeto. O primeiro passo para isso é criar uma conta de usuário no
Catarse. O segundo passo é criar o rascunho do projeto. Esse rascunho deve conter
nome do projeto, valor que precisa ser arrecadado32, prazo para arrecadação
(campanha), texto de descrição, vídeo, orçamento, imagem de divulgação, sinopse,
minibiografia do empreendedor e recompensas. As recompensas ainda exigem os
seguintes dados: título da recompensa, texto de descrição, valor e limite ou não da
quantidade de recompensas.
Após criar o rascunho, é preciso enviar o projeto, que será avaliado pela
plataforma em até quatro dias úteis. Essa avaliação propõe uma série de alterações
32 Não existe um limite máximo do valor a ser arrecadado para um projeto, mas existe um mínimo de
R$ 10,00 (REEBERG, 2016).
113
visando à adequação do projeto a uma campanha de crowdfunding, a qual é
elaborada pelo empreendedor que, na sequência, envia a nova versão do rascunho
para a plataforma. Depois, a página do projeto é criada no Catarse e tem início a
campanha de crowdfunding na internet. Ao término da campanha, em caso de
sucesso, o dinheiro é depositado em uma conta bancária no nome do empreendedor
em até 10 dias úteis.
As etapas que os prosumidores têm de atravessar para apoiar um projeto são
entrar na página do projeto na plataforma Catarse, clicar em Apoiar este projeto,
cadastrar-se como usuário no Catarse, definir o valor do apoio, escolher ou não uma
recompensa, definir se o apoio será ou não anônimo, confirmar todos os dados,
escolher a forma de pagamento e pagar.
3.4 Dados gerais
Esta seção é dedicada à análise de números importantes sobre os primeiros
anos do Catarse. Primeiro, pretendo analisar a quantidade de projetos inscritos, a
quantidade de projetos que tiveram sucesso e a taxa de sucesso da plataforma entre
os anos de 2011 e 2015, conforme levantamento apresentado na Tabela 16:
Tabela 16 – Dados dos projetos
Ano Projetosinscritos
Projetos-bem
sucedidos
Taxa de
sucesso (%)
2011 270 142 53
2012 540 278 51
2013 747 453 61
2014 1206 635 53
2015 1522 678 45
Dados fornecidos no questionário respondido pelo Catarse.
Fonte: elaborada pelo autor.
Podemos observar que os dois primeiros anos da plataforma tiveram números
mais tímidos em relação à quantidade de projetos inscritos e bem-sucedidos. A partir
de 2013 é que os números se tornam expressivos, principalmente em relação à
quantidade de projetos que tiveram sucesso. O número de projetos enviados para a
plataforma tem tido crescimento, assim como a quantidade de projetos que são
114
bem-sucedidos. Entretanto, a taxa de sucesso após seu auge no ano de 2013,
quando 61% dos projetos conseguiram ser financiados, sofreu redução nos últimos
anos.
Na Tabela 17, é possível conferir em cada ano a quantidade de prosumidores
e o valor total arrecadado:
Tabela 17 – Prosumidores, apoios e arrecadação
Ano Prosumidoresdistintos
Prosumidores
em projetos
bem-
sucedidos
Prosumidores
novos por
ano
Total de
apoios (R$)
Total em
projetos
bem-
sucedidos
(R$)
Apoio
médio em
R$
2011 14494 13023 14494 1524922 1382721 105,21
2012 37268 34011 35176 4005520 3639717 107,48
2013 64165 59629 56277 7606410,89 7120933 118,54
2014 91404 82740 75634 12248595,22 11053577,22 134,01
2015 96315 -- -- 12503337,88 -- --
Dados fornecidos no questionário respondido pelo Catarse.
Fonte: elaborada pelo autor.
Essa planilha apresenta números concretos sobre a multidão de usuários que
faz parte da comunidade do Catarse. O primeiro dado que chama a atenção é como
cresce o número de prosumidores novos por ano. De 2011 até 2014, foram 181.581
prosumidores diferentes, sendo que em 2014 foram 75.634 prosumidores novos e
em 2011, 14.494 prosumidores, ou seja, em quatro anos a plataforma alcançou um
número cinco vezes maior de prosumidores novos, apresentando uma perspectiva
ainda maior de crescimento desse número nos anos porvir. Assim como o número
de usuários, o valor médio de apoio desses prosumidores tem crescido a cada ano.
Outro dado que chama a atenção é a pequena e estável diferença entre o
número de usuários distintos a cada ano e o número de usuários que financiaram
projetos bem-sucedidos. Se subtrairmos o primeiro número do segundo, chegamos
aos resultados apresentados na Tabela 18:
Tabela 18 – Prosumidores sem sucesso
Ano Quantidade de prosumidores emprojetos sem sucesso
% de
prosumidores
sem sucesso
2011 1471 10,14
115
2012 3257 8,37
2013 4536 7,06
2014 8664 9,47
Total de usuários sem
sucesso entre 2011 e
2014
17928
% média de
usuários sem
sucesso entre
2011 e 2014
8,76
Dados fornecidos no questionário respondido pelo Catarse.
Fonte: elaborada pelo autor.
Ao subtrairmos a quantidade de dinheiro que a plataforma recebeu em um
ano pela quantidade de dinheiro utilizada para financiar projetos de sucesso,
chegamos aos números da Tabela 19:
Tabela 19 – Dinheiro sem sucesso
Ano Quantidade de R$ em projetos semsucesso
% do dinheiro em
projetos sem
sucesso
2011 142201 10,14
2012 365803 8,37
2013 48547,89 7,06
2014 1195018 9,47
Total em R$ para
projetos sem sucesso
entre 2011 e 2014
1703022
% média de
dinheiro para
projetos sem
sucesso entre
2011 e 2014
8,76
Dados fornecidos no questionário respondido pelo Catarse.
Fonte: elaborada pelo autor.
Se levarmos em consideração que para cada 100 reais apoiados, 4 reais
ficam com a empresa Pagar.me, o valor dos reembolsos de apoios para projetos
sem sucesso que teve de ser pago pelo Catarse ao Pagar.me foi de R$ 68.120,88
entre 2011 e 2014, um valor pequeno quando comparado ao total efetivamente
arrecadado no mesmo período.
Uma pequena quantidade de prosumidores apoia mais de um projeto na
plataforma. O número de prosumidores novos se mantém sempre próximo ao
número de prosumidores distintos. Isso me leva à conclusão de que ainda não existe
uma comunidade grande de prosumidores que se habituaram a financiar projetos
116
criativos na plataforma Catarse. Estou analisando uma comunidade em constante
expansão e que gradativamente vai gerando uma quantidade maior de prosumidores
que retornam à plataforma querendo apoiar novos projetos. Essa constante
expansão da comunidade e a gradativa formação de prosumidores são
comprovadas na Tabela 20, que demonstra que a cada ano o número de
prosumidores que retornam à plataforma é maior, assim como essa porcentagem de
prosumidores que apoiam mais de um projeto tem crescido desde o início da
plataforma.
Tabela 20 – Comunidade do Catarse
Ano
Prosumidores que
retornaram à plataforma para
apoiar projetos
% de
prosumidores que
retornaram
2011 0 0
2012 2092 5,61
2013 7888 12,29
2014 15770 17,25
Dados fornecidos no questionário respondido pelo Catarse.
Fonte: elaborada pelo autor.
Esse percentual de prosumidores que retornaram à plataforma ainda é
pequeno, e isso se deve ao fato de os usuários da internet estarem interessados
apenas nos projetos apoiados, e não na prática do crowdfunding.
3.5 Páginas da plataforma
Para compreender o funcionamento da plataforma Catarse, realizei o
mapeamento de todas as suas páginas e das páginas conectadas a essas páginas.
Para isso, foi preciso acessá-las, ler seus conteúdos, procurar e clicar em links. Vale
ressaltar que a plataforma oferece aos usuários a opção de ser traduzida para os
idiomas inglês, francês, alemão, italiano e espanhol.
O Catarse desenvolveu uma complexa estrutura na qual um usuário é capaz
de navegar por diferentes páginas através de diferentes links, mas que na maioria
das vezes mantém o usuário em páginas do domínio catarse.me. São poucos os
links que o levam a páginas fora desse domínio, e isso cria um universo de páginas
117
do Catarse no qual a busca por informações mantém a pessoa dentro de um mesmo
espaço dividido e interconectado por centenas de links e páginas com a solução
para quaisquer dúvidas ou problemas.
PÁGINA INICIAL
Figura 26 – Cabeçalho e rodapé
Fonte: Catarse (2016).
O mapa começa na Página Inicial, cujos principais destaques, para mim, são
o cabeçalho e o rodapé. Estes possuem links para todas as páginas principais do
universo Catarse e fazem parte do design da plataforma, estando presentes nas
páginas Explore projetos, Comece seu projeto, Nosso time, Termos de uso, Política
de privacidade, Trabalhe conosco, Imprensa e Guia dos realizadores.
Pela Página Inicial é feita a conexão com todo o universo do Catarse. Além do
cabeçalho e do rodapé, é possível ver o anúncio de uma nova modalidade de
crowdfunding chamada catarse flex e cinco imagens aleatórias com título do projeto,
sinopse e link que levam o usuário a páginas desses projetos em fase de campanha
na plataforma. Ao final das cinco imagens, aparece uma chamada convidando o
usuário a iniciar uma “campanha de arrecadação”. Em outra parte, são divulgados
seis quadros com o resumo dos projetos classificados como Populares.
118
Em um banner roxo, é mostrado o nome de um prosumidor, quando e qual
projeto ele apoiou. Os apoios mostrados são recentes. Logo abaixo, em um banner
branco, há um link para o Blog do Catarse, seguido de três manchetes com links
para postagens no blog.
Na Página Inicial também está disponível o botão de ajuda, pelo qual é
possível escrever uma pergunta, ver automaticamente suas respostas e fazer
contato com a plataforma.
EXPLORE PROJETOS ou EXPLORE PROJETOS INCRÍVEIS
Essa página permite ao usuário o acesso à base de dados de todas as
categorias com todos os projetos do Catarse. Em cada categoria selecionada, é
possível acessar os quadros com projetos financiados e não financiados. Cada
quadro leva o usuário à página do projeto. É na página de cada projeto que podem
ser comprovados os dados reunidos pelo Catarse e publicados neste trabalho.
COMECE SEU PROJETO ou TIRE O SEU PROJETO DO PAPEL
Tutorial dividido em oito partes, que apresentam:
a) números da plataforma – usuários, valor total arrecadado e número de
projetos financiados;
b) como ela funciona – apoiadores, recompensas, meta e tempo de campanha;
c) propaganda sobre o Catarse – “atendimento rápido e ágil, painel de controle
completo, blog da campanha, apoio parcelado, repasse facilitado”;
d) vídeo motivacional feito com imagem dos empreendedores comemorando o
sucesso de suas campanhas chamado Obrigado por tirar o seu projeto do
papel! (Catarse, 2016);
e) apresentação das categorias e dos dados gerais sobre elas (Figura 28);
119
Figura 27 – Dados de 25 de abril de 2016
Dados de 25 de abril de 2016.
Fonte: Catarse (2016).
f) fotos e depoimentos de empreendedores que tiveram sucesso na plataforma;
g) seleção das principais dúvidas de quem está começando um projeto – Por
que fazer uma campanha no Catarse?, Dá muito trabalho ter uma campanha
no Catarse?, Como o Catarse seleciona projetos?, Quem pode usar o
Catarse?, Preciso atingir a meta para receber meu dinheiro?, Quais são
nossas taxas?, De onde vem o dinheiro do meu projeto? e Tenho mais dúvidas.
Como faço?;
h) criação de um rascunho para uma campanha de financiamento no Catarse.
As informações que precisam ser preenchidas nesse rascunho são nome da
campanha e categoria.
BLOG ou CATARSE BLOG FINANCIAMENTO COLETIVO PARA TODOS
As postagens do blog são organizadas a partir dos seguintes filtros: Novidades,
Histórias de projetos, Dicas de campanha, Dados e Mundo Crowd. É possível
também pesquisar palavras e frases que foram publicadas no blog. Duas
propagandas ganham destaque no design do blog: Planeje sua campanha de
120
financiamento coletivo em 7 e-mails. Inscreva-se gratuitamente e Infográfico, como
funciona o Catarse. Receba o infográfico.
Cada categoria do blog é organizada cronologicamente, sendo a primeira
postagem a mais recente e a última a mais antiga. As páginas com as postagens
permitem comentários dos usuários. Algumas postagens estão disponíveis em mais
de um filtro. Esse blog representa a continuidade do blog Crowdfunding BR, com
postagens sobre questões atuais do crowdfunding, participação da comunidade on-
line e condução da inteligência coletiva.
CATARSE FLEX
O Catarse Flex é um novo sistema de crowdfunding que o Catarse começou a
oferecer no final do segundo semestre de 2015, ainda que de forma experimental,
aos empreendedores. Ele surge como uma opção para o empreendedor em relação
ao sistema tudo ou nada.
O sistema tudo ou nada era o único utilizado pelas principais plataformas de
crowdfunding até o final de 2015. De acordo com a página Por que é tudo ou nada,
esse sistema recebe tal nome devido aos seguintes fatores:
Projeto Bem-sucedido: se o objetivo for atingido ou superado, o Realizador
do projeto fica com o dinheiro arrecadado, ou seja, tudo.
Projeto Não-financiado: se o objetivo não for atingido, a gente devolve as
contribuições para todos os Apoiadores e o Realizador do projeto não leva
nada. (CATARSE, 2016, grifos do autor)
As principais características do sistema Flex que o diferencia do sistema tudo
ou nada são: não é preciso oferecer recompensas; todos os projetos inscritos
entram no ar sem aprovação da plataforma; não é preciso definir o prazo de
encerramento da campanha, respeitando o limite máximo disponível de 12 meses de
campanha para um projeto; o dinheiro arrecadado pode ser retirado pelo
empreendedor mesmo que seu projeto não tenha sucesso. O debate sobre essa
nova modalidade acontece agora na plataforma. Em 28 de abril de 2016 havia 144
comentários de usuários debatendo o Flex, suas potencialidade, seus problemas e
suas contradições.
NOSSO TIME <3 ou CONHEÇA NOSSO TIME
121
A empresa não possui investidores e toda a tecnologia do Catarse é
desenvolvida em código aberto. Dentro dessa página, existe um quadro indicando
quantos projetos e quanto dinheiro a equipe da empresa já apoiou na plataforma.
Essa informação não me parece muito própria para esse espaço, pois permite
diferentes interpretações. Quando acessei, a página indicava que a equipe toda já
havia apoiado o valor de R$ 69.039 para 718 projetos, ou seja, o dinheiro que a
equipe recebe pelo seu trabalho, por livre e espontânea vontade, é devolvido à
plataforma para ser investido em novos projetos. Isso soa como um imposto ético de
equipe. Entre a equipe, os que mais apoiaram projetos no Catarse foram os atuais
sócios-fundadores. Para um novo funcionário, é uma boa ideia investir parte do
dinheiro de seu primeiro salário em projetos para seguir o exemplo de seus chefes?
Não parece uma certa invasão de privacidade saber o que é feito com o dinheiro de
cada um?
Essa exposição é talvez o início de uma possível rede social de prosumidores
de crowdfunding, na qual será possível ver quanto dinheiro e quais projetos cada
usuário já apoiou em uma plataforma. O acesso a esses dados pode ser importante
para um empreendedor saber quais prosumidores-alvos ele pode tentar sensibilizar
para conseguir financiar seu projeto. Entretanto, isso pode ser uma exposição
desnecessária sobre quanto e com o que cada um gasta seu dinheiro.
FACEBOOK, TWITTER, INSTAGRAM
122
Figura 28 – Descrições do Catarse nas redes sociais
Twitter acima, Instagram à esquerda, Facebook à direita.
Fonte: elaborada pelo autor.
Na Figura 29, temos as três redes sociais utilizadas pela plataforma. No
Facebook, 156.225 usuários curtiram a página do Catarse. No Twitter, já foram
publicados 7.830 tweets pela conta do Catarse, que possui 17.6k de seguidores. No
Instagram os números são menores, foram 331 publicações para 5.048 seguidores.
Os dados apresentados foram recolhidos em 28 de março de 2016.
GITHUB
Diferente das redes sociais mais populares previamente apresentadas, o
GitHub é uma rede social cujos propósitos são distintos e exigem maior destaque.
GitHub é uma comunidade de montadores de softwares, com 14 milhões de
usuários e 35 milhões de projetos desenvolvidos. A plataforma funciona como uma
rede social, baseada nos princípios de Linus Torvalds e de sua GNU (General Public
123
License).
O software responsável pela plataforma Catarse possui uma página dentro do
GitHub. Entre diversas informações, destaco o seguinte indicador: 12,910 commits.
Commit ou revision é uma mudança individual em um arquivo ou um grupo de
arquivos ligados a um software. No caso, foram 12,910 commits na plataforma
Catarse. Toda vez que você salva um arquivo é criado um ID único dessa mudança,
permitindo o registro de onde foram feitas as mudanças, quem as fez e quando
foram feitas. O commit é um dos muitos desdobramentos na prática do Copyleft que
ajudam o desenvolvimento do Catarse.
IMPRENSA ou SALA DE IMPRENSA
Página que reúne as seguintes informações: história da fundação do Catarse;
contador de usuários, dinheiro e projetos da plataforma; link para valor total
arrecadado, usuários e projetos de sucesso da plataforma divididos por categorias;
link para página com manual da logomarca do Catarse e diferentes versões dela
para download; espaço para cadastro na newsletter; e-mail de contato; links para
redes sociais.
CENTRAL DE SUPORTE
Funciona como um manual, no qual sua primeira página é o sumário. Cada
item do sumário é um link que nos leva a uma página diferente da central de
suporte. As páginas oriundas dos itens do sumário se interconectam, visando
completar as informações e esclarecer dúvidas.
A Central de suporte possui informações necessárias para auxílio dos usuários
(empreendedores e prosumidores), as quais estão divididas nos temas O Básico,
Realizadores, Apoiadores e Saiba Mais, estes, por sua vez, divididos nos
respectivos subtemas:
a) O Básico:
- sobre o Catarse;
- Usuários – seu perfil no Catarse.
b) Realizadores:
- Projeto em RASCUNHO ou ANÁLISE;
- Projeto APROVADO ou NO AR;
- Projeto FINANCIADO ou NÃO FINANCIADO.
124
c) Apoiadores:
- Apoiar e escolher uma recompensa;
- Reembolso e créditos;
- Projeto finalizado e entrega de recompensas;
- Dúvidas gerais.
d) Saiba mais:
- Catarse Flex;
- Catarse's open code source.
Cada subtema apresenta uma série de itens redigidos em sua maioria como
perguntas. Esses itens são os links que levam o usuário a todas as páginas da
Central. Todos os itens da Central de suporte constam no Anexo A, ao final da
dissertação.
GUIA DOS REALIZADORES
O Guia dos Realizadores funciona como um breve tutorial para
empreendedores criarem projetos na plataforma. Esse guia é apresentado por meio
de slides e links que permitem ao usuário entender todas as etapas que devem ser
cumpridas para ter sucesso em uma campanha no Catarse. O guia é dividido em
seis etapas: Começando, Sua história, Meta e prazo, Recompensas, Mobilização e
Pós-campanha.
A primeira etapa, Começando, apresenta os seguintes passos para iniciar um
projeto de crowdfunding (Figura 30):
125
Figura 29 – Primeiros passos
Fonte: Catarse (2016).
A segunda etapa, Sua história, traz algumas perguntas importantes que devem
ser respondidas pelo empreendedor que queira contar a história do seu projeto no
Catarse. As perguntas sobre o projeto são: O que é?, Como será realizado?, Como
ele está nesse momento?, Como o dinheiro será gasto?, Por que o financiamento
coletivo faz sentido para ele?, Por que você é capaz de realizá-lo? e Quem está por
trás dele?.
A terceira etapa, Meta e prazo, apresenta possibilidades sobre como o
empreendedor pode mensurar sua rede de prosumidores. Ao descobrir esse
número, ele pode ser aplicado em um gráfico que indica a quantidade média de
prosumidores em diferentes valores arrecadados. Um dado importante é que as
campanhas de arrecadação que têm sucesso ficam disponíveis por, em média, 40
dias na plataforma.
A quarta etapa, Recompensas, apresenta uma série de links para postagens do
blog com dados sobre valores mínimos para recompensas e estratégias inovadoras
de recompensas que já deram certo.
A quinta etapa, Mobilização, apresenta diferentes estratégias de divulgação
126
utilizadas em campanhas de sucesso da plataforma, ressaltando o papel que as
redes sociais possuem nessa mobilização.
A sexta etapa, Pós-campanha, fala sobre as responsabilidades do
empreendedor em executar o projeto e entregar as recompensas, assim como
explica como serão feitos os reembolsos em caso de insucesso do projeto.
RETRATO FINANCIAMENTO COLETIVO BRASIL 2013/2014
Seguindo sua prática de compartilhar dados e códigos livremente, o Catarse
divulgou a pesquisa intitulada Retrato financiamento coletivo Brasil 2013/2014,
realizada pela empresa Chorus. Tal pesquisa tem como objetivos conhecer, analisar,
compreender e apresentar dados oriundos de um questionário on-line com
abordagem quantitativa e qualitativa sobre o crowdfunding. Foram 3.336 usuários da
comunidade do Catarse que responderam ao questionário no período de 29/08/2013
até 17/09/2013 (CATARSE, 2014). Todos os 3.336 formulários respondidos podem
ser baixados integralmente nessa página33. Para facilitar a tradução desse grande
volume de dados, foram criados quatro blocos temáticos: Perfil, Financiamento,
Rede e Realizadores. Selecionei alguns dados importantes presentes em cada um
dos blocos. Os dados apresentados abaixo (Figuras 31 a 34) são referentes ao
bloco Perfil:
Figura 30 – Mapa brasileiro
Fonte: Catarse (2014).
33 Disponível em: .
127
Percebi que a prática do crowdfunding no Brasil ainda é muito ligada às regiões
Sudeste e Sul, sendo o contraste em relação à população brasileira perceptível
quando comparados os percentuais de usuários do Nordeste (9%) com os da
população nordestina no país (28%).
Figura 31 – Idade e escolaridade
Fonte: Catarse (2014).
Os usuários do Catarse são jovens e adultos, sendo majoritariamente pessoas
com Ensino Superior, mesmo que incompleto.
Figura 32 – Renda mensal
Fonte: Catarse (2014).
128
Essa multidão de jovens e adultos de Ensino Superior, entretanto, não
representa a camada mais rica de nossa sociedade, já que a grande maioria dos
usuários ganha no máximo R$ 6.000,00. Isso caracteriza o crowdfunding como uma
prática restrita à classe média brasileira.
Figura 33 – Onde buscam informação?
Fonte: Catarse (2014).
É ótimo constatar que os grandes meios de comunicação hegemônicos do
século XX – jornais, televisão, revistas e rádio – não são os principais meios de
comunicação em que usuários do Catarse buscam informações.
Agora, os dados apresentados (Figuras 35 a 37) são referentes ao bloco
Financiamento:
129
Figura 34 – Projetos com maior interesse
Fonte: Catarse (2014).
Os dados indicam a preferência dos usuários brasileiros por financiar projetos
artísticos e culturais. O termo forma independente refere-se aos projetos que não
conseguem financiamento através dos mecanismos estatais disponíveis ou não são
financiados por multinacionais do entretenimento.
Figura 35 – Fatores para apoiar
Fonte: Catarse (2014).
130
Esses dados são interessantes, pois entram em conflito com os resultados da
pesquisa de Monica Monteiro (2014), que indicavam as seguintes motivações entre
os prosumidores brasileiros: 1º. ajudar os outros, 2º. apoiar uma causa, 3º. receber
recompensas e 4º. fazer parte de uma comunidade. Os resultados de Monteiro
(2014) foram alcançados a partir da pesquisa com prosumidores de diferentes
plataformas de crowdfunding brasileiras, enquanto a pesquisa do Catarse foi feita
apenas com prosumidores da plataforma.
Figura 36 – Onde existe interesse e onde faltam projetos
Fonte: Catarse (2014).
Meu destaque aqui é para a categoria Cinema e Vídeo, que consegue ser a
segunda com o maior interesse em ser financiada, sendo também uma categoria em
que os usuários sentem menos falta de projetos relevantes, ou seja, ela apresenta
uma oferta que está sendo correspondida. Interessante também é perceber que
faltam projetos de educação, apesar de existir vontade por parte dos usuários de
financiá-los. Isso aponta para uma categoria que pode crescer nos próximos anos.
Os próximos dados (Figuras 38 a 41) são referentes ao bloco Rede. Nesse
bloco, foi aplicada a teoria dos três círculos que um projeto de crowdfunding
consegue alcançar. Essa teoria começou no blog Crowdfunding BR quando Luis
Otávio Ribeiro (2010) falava sobre três níveis de confiança que um empreendedor
precisa ter com seus prosumidores, níveis que, agora, tornaram-se círculos.
131
Figura 37 – O primeiro círculo
Fonte: Catarse (2014).
O primeiro círculo é o de amigos e familiares, pessoas que conhecem
diretamente o empreendedor e o apoiam a partir dessa relação direta. Esse primeiro
círculo é fundamental para os projetos que solicitam recursos menores. Tais projetos
acabam confundindo a prática do crowdfunding com a popular vaquinha.
Figura 38 – A presença do primeiro círculo
Fonte: Catarse (2014).
Esse primeiro círculo perde força gradativamente conforme cresce o valor
solicitado por um projeto. Para conseguir arrecadar um montante de recursos maior,
132
é necessário dialogar com o segundo e terceiro círculos, que ultrapassam o círculo
da vida privada.
Figura 39 – O segundo círculo
Fonte: Catarse (2014).
O segundo círculo é formado pelos amigos dos amigos, pessoas que
descobrem o projeto a partir de informações oriundas do primeiro círculo. A rede do
empreendedor precisa ser formada por pessoas da classe média (primeiro círculo),
que se relacionem com outras pessoas da classe média (segundo círculo) que
tenham capital disponível para apoiar projetos a partir desse vínculo intangível de
confiança e amizade.
133
Figura 40 – O terceiro círculo
Fonte: Catarse (2014).
O terceiro e mais distante círculo do centro é que faz o projeto de
crowdfunding arrecadar um volume maior de dinheiro, ganhar grande visibilidade
nas redes sociais e na grande mídia. Ao atingir esse círculo, o número de usuários
ultrapassa as redes do empreendedor e caracteriza seu projeto como algo urgente,
algo que precisa ser feito, algo que possui fãs, composto de um ou mais nichos de
comunidades on-line e indivíduos conectados sensibilizados pela temática e pelo
conteúdo do projeto.
Apesar de concordar com a teoria dos círculos e ter reafirmado ideia
semelhante na seção sobre prosumidores, ainda sinto que é possível investigar mais
quem realmente ocupa o terceiro círculo. Não existe uma fórmula de sucesso para
chegar ao terceiro círculo, pois muitas variáveis se relacionam com ele e ainda
precisam ser descortinadas.
Os dados a seguir (Figuras 42 a 47) são referentes ao bloco Realizadores:
134
Figura 41 – Idade dos empreendedores
Fonte: Catarse (2014).
Assim como os prosumidores, os empreendedores também são jovens e
adultos em sua maioria com maior participação entre 18 e 24 anos do que entre 41 e
60 anos.
Figura 42 – O que fazem os empreendedores
Fonte: Catarse (2014).
O perfil desses empreendedores, como o termo já diz, é de pessoas que se
135
arriscam em seus próprios negócios e que não possuem empregos tradicionais
como funcionários públicos e funcionários de multinacionais. Outro ponto que chama
a atenção é que profissionais da indústria criativa são maioria entre os
empreendedores do Catarse.
Figura 43 – Arrecadação dos empreendedores
Fonte: Catarse (2014).
Uma característica importante é que metade (50%) dos empreendedores que
participaram da pesquisa financiou projetos com orçamentos entre R$ 10.000,00 e
R$ 50.000,00. Projetos de até R$ 10.000,00 representam 38% dos empreendedores
e apenas 11% se arriscaram em projetos de orçamento com valores acima de R$
50.000,00.
136
Figura 44 – Projeto de sucesso
Fonte: Catarse (2014).
A importância atribuída a familiares e amigos para uma campanha de sucesso
acaba sendo a constatação de que esse tipo de financiamento está ligado à vida
íntima dos empreendedores. Outra característica é o fato de que os projetos bem-
sucedidos tiveram boas campanhas de divulgação, uma característica interessante
por estimular empreendedores a saberem se vender, ou melhor, a saberem vender
seus projetos para os prosumidores, mesmo que eles sejam seus amigos e
familiares.
137
Figura 45 – Projeto sem sucesso
Fonte: Catarse (2014).
A incapacidade em saber se divulgar e a inexistência de uma rede de
prosumidores são motivos que levam empreendedores a não atingirem suas metas
de arrecadação e, consequentemente, não terem sucesso em sua campanha de
crowdfunding. A falta de costume de consumir na internet, representada pela falta de
conhecimento sobre crowdfunding, a insegurança em contribuir com um projeto e a
dificuldade em fazer pagamento on-line também têm destaque como fatores
negativos para o sucesso de uma campanha.
Figura 46 – Fatores importantes
Fonte: Catarse (2014).
138
Esses três fatores foram indicados pelos apoiadores como importantes para a
decisão de se financiar um projeto: 72% dos entrevistados falaram que
transparência é fundamental para decidir apoiar um projeto, 66% dos apoiadores
consideram a qualidade do projeto na hora de apoiar e apenas 53% disseram que as
recompensas são importantes para definir o valor de apoio (CATARSE, 2014).
Ao final de cada um dos quatro blocos temáticos da pesquisa, é possível
debater com o Catarse questões sobre o futuro do crowdfunding. Esse debate é feito
a partir de uma pergunta elaborada pelo Catarse, que é respondida através de
comentários feitos pelos usuários. A mesma estratégia adotada no blog
Crowdfunding BR e no Blog do Catarse, que visa angariar o maior número de ideias
da inteligência coletiva para aplicar em melhorias da plataforma. Entre as centenas
de comentários publicados, destaco a resposta dada por uma usuária para a
pergunta O que você sugeriria que fizéssemos para expandir o financiamento
coletivo no Brasil para mais pessoas?:
Acredito que o que falta é uma cultura de doação. O financiamento coletivo
ainda está muito restrito aos amigos e amigos de amigos. Acho que seria
interessante educar desde cedo, de repente fazer projetos com
universidades, onde os jovens já estão começando a pensar no futuro e
começam a trabalhar. (MORAES, 2016)
Ela não foi a única a sugerir ações que visem à formação de público para a
prática do crowdfunding através de instituições de ensino como universidades. É
notória a quantidade de projetos de conclusão de curso que buscam em plataformas
de crowdfunding recursos para serem realizados. Por motivação dos próprios
estudantes, o crowdfunding já vem sendo explorado para finalidades acadêmicas,
mas ainda não encontramos docentes ou disciplinas que o discutam, abordando
questões como sua história, seu funcionamento e demais possibilidades. Esse é o
próximo passo a ser dado para a consolidação dessa prática: além de publicações
sobre o tema, é preciso ter professores que possam debater sobre crowdfunding em
todo o Brasil.
PÁGINAS DE MENOR IMPORTÂNCIA
Restam apenas as páginas: login, em que o usuário acessa seu perfil na
plataforma; newsletter, em que o usuário cadastra seu e-mail para receber notícias
do Catarse; trabalhe conosco, página com oportunidade de emprego na plataforma;
139
contato, em que é possível enviar uma mensagem para a equipe do Catarse; google
form, com o tutorial de utilização da ferramenta de formulários da Google; survey
monkeys, página dedicada à criação de formulários; Código de defesa do
consumidor, página do governo federal com a lei referente ao código; Google groups
Desenvolvedores, grupo de e-mails chamado Catarse Dev de que participam
programadores de softwares; e Política de privacidade, página com informações de
pouca relevância sobre a política da plataforma em relação às questões da
privacidade do usuário.
3.6 Categoria Cinema e Vídeo
Nos primórdios do crowdfunding, no ano de 2008, Jeff Howe vislumbrou um
potencial ainda não explorado completamente ao afirmar que “a internet acelera e
simplifica o processo de encontrar grandes grupos financiadores potenciais que
podem usar o crowdfunding para ingressar nas atividades mais inesperadas de
nossa cultura, como a música e o cinema.” (HOWE, 2009, p. 222).
São justamente essas duas categorias, Música e Cinema e Vídeo, que
possuem os números mais expressivos da plataforma Catarse. Vejamos, por
exemplo, o desempenho das duas categorias em relação às outras a partir dos
números referentes ao período de janeiro de 2011 até 23 de abril de 2016
apresentados na Tabela 21.
Tabela 21 – Números por categoria34
Categoria Valor total(R$)
Valor para
financiados
(R$)
Prosumidores
Apoio
médio
(R$)
Projetos
inscritos
Projetos de
sucesso
Taxa de
sucesso
(%)
Música 9017493 8249476 70188 103 874 498 57
Cinema e
Vídeo 5957563 5332998 51777 94 804 411 51
Quadrinhos 3281327 2902545 29911 55 277 169 61
34 Essa planilha, criada a partir do link para dados completos de todas as categorias, disponível na
página Imprensa do Catarse, é ordenada do maior valor total arrecadado até o menor valor total
arrecadado. Ela apresenta alguns problemas, pois não estão disponíveis os dados da categoria
Pessoais, criada recentemente, em que constam apenas nove projetos em fase de campanha. Outro
problema é que as categorias Carnaval, Circo, Comunidade, Mobilidade e transporte e Negócios
sociais não estão disponíveis ao empreendedor, mas já estiveram disponíveis na plataforma. As
atuais categorias Teatro e dança e Design e moda estão com os dados separados em Teatro, Dança,
Design e Moda.
140
Comunidade 2734812 2304044 20314 109 339 215 63
Teatro 2722467 2396784 18921 118 411 205 50
Arte 2398227 2121389 19107 106 229 104 45
Literatura 2330053 2034284 26252 78 396 167 42
Jogos 2089952 1917174 15486 93 120 41 34
Educação 2084710 1865085 12627 146 172 78 45
Jornalismo 1280911 1155263 12634 84 111 57 51
Fotografia 1119236 967542 9662 98 123 67 54
Eventos 978005 875051 12153 70 170 77 45
Ciência e
Tecnologia 801092 659250 6758 106 109 30 28
Arquitetura e
Urbanismo 752446 706724 5716 115 38 23 61
Design 729401 557609 4017 152 63 20 32
Negócios
Sociais 688569 546766 4704 124 123 56 46
Carnaval 426562 403025 4497 86 60 46 77
Esporte 383392 277294 2729 123 79 27 34
Meio
Ambiente,
atual socio-
ambiental
342700 301840 2914 102 85 59 69
Dança 310779 275508 2584 102 66 40 61
Mobilidade e
Transporte 274816 237874 2584 95 28 14 50
Moda 154103 138511 1201 120 30 12 40
Gastronomia 113237 98910 556 181 12 6 50
Circo 60215 54975 595 95 13 7 54
Fonte: Catarse (2016).
Música e Cinema e Vídeo são as duas principais categorias nos seguintes
números: valor total arrecadado, valor arrecadado para projetos financiados,
quantidade de prosumidores, número de projetos finalizados e quantidade de
projetos de sucesso.
Apenas as colunas referentes ao valor médio apoiado e à taxa de sucesso
apresentam números melhores em relação às duas categorias. Os maiores apoios
em média são para Gastronomia (R$ 181,00), Design (R$ 152,00) e Educação (R$
146,00). As melhores taxas de sucesso pertencem às categorias Carnaval (77%),
Meio ambiente (69%) e Comunidade (63%).
Mas o que surpreende é a categoria Cinema e Vídeo ter tantos indicadores
positivos, pois diferente da música, o cinema brasileiro não consegue se inserir na
programação dos grandes meios de comunicação, e tampouco cineastas brasileiros
são figuras reconhecidas nas ruas, já que nosso cinema não consegue estabelecer
141
números expressivos de espectadores e segue com a produção extremamente
dependente do financiamento estatal direto e indireto. Entretanto, os números da
categoria Cinema e Vídeo confirmam o interesse das pessoas em assistir a filmes
brasileiros e financiá-los.
São números pequenos quando comparados aos montantes dos orçamentos
de filmes financiados por leis de incentivo, ou editais de uma política pública no
campo da cultura, mas apontam para outro mercado do cinema brasileiro que segue
crescendo em quantidade de prosumidores, aumentado a cada ano sua
arrecadação.
Foram contabilizados nas Tabelas de 22 a 26 projetos da categoria Cinema e
Vídeo, do sistema tudo ou nada, de 2011 a 2015.
Tabela 22 – Arrecadação ao longo dos anos
Valores em R$ 2011 2012 2013 2014 2015 2011-2015
Valor total
solicitado por
projetos
financiados
263915 597688 1057973 920615,86 1417441,5 4257633,36
Valor total
arrecadado por
projetos
financiados
297070 677590 1306898 1025778,22 1661162,36 4968498,58
Valor total
solicitado por
projetos não
financiados
456867 1074367 1101010,25 2042668,67 2047042,5 6721955,42
Valor total
arrecadado por
projetos não
financiados
29217 95041 85005 190158 164216,91 563637,91
Dados fornecidos no questionário respondido pelo Catarse.
Fonte: elaborada pelo autor.
Em todos os anos, projetos que não foram financiados solicitaram um valor
superior ao dos projetos financiados.
Tabela 23 – Prosumidores e apoios ao longo dos anos
2011 2012 2013 2014 2015 2011-2015
Total de prosumidores
em projetos financiados 4833 6649 13479 9395 14950 --
Total de apoios em
projetos financiados 4978 7004 14502 9854 15782 52120
142
Total de prosumidores
em projetos não
financiados
349 1071 1159 2400 1703 --
Total de apoios em
projetos não financiados 382 1094 1192 2485 1760 6913
Dados fornecidos no questionário respondido pelo Catarse.
Fonte: elaborada pelo autor.
Todos os anos, em projetos financiados e não financiados, o número de
apoios supera o número de prosumidores. Obviamente o número de apoios seria no
mínimo igual ao número de prosumidores, mas é interessante perceber que mesmo
nos casos de insucesso uma pequena parte dos prosumidores apoia mais de uma
vez o mesmo projeto.
Tabela 24 – Projetos ao longo dos anos
Número de
projetos Financiados Não financiados Total Taxa de sucesso
2011 24 30 54 44,44%
2012 61 62 123 49,59%
2013 111 67 178 62.35%
2014 92 103 195 47,17%
2015 111 113 224 49,55%
2011-2015 399 375 774 51,55%
Dados fornecidos no questionário respondido pelo Catarse.
Fonte: elaborada pelo autor.
A relação custo-benefício entre o número de projetos financiados (399) e o
valor total arrecadado (R$ 4.968.498,58) pelos projetos da categoria Cinema e
Vídeo contrasta com a relação custo-benefício entre a quantidade de filmes
financiados e o valor captado pelas leis de incentivo fiscais federais para longas-
metragens brasileiros. Em um período semelhante de cinco anos, como os
apresentados nas tabelas do Catarse, de 2005 a 2009, foram lançados 357 filmes
que juntos captaram R$ 548,4 milhões através dos mecanismos de incentivo fiscais
federais (IKEDA, 2015, p. 168).
Tabela 25 – Projetos por Estado
Projetos por Estado
Acre 3
Alagoas 3
143
Amapá 1
Amazonas 5
Bahia 17
Ceará 9
Distrito Federal 31
Espírito Santo 8
Goiás 8
Maranhão 2
Mato Grosso 1
Mato Grosso do
Sul 1
Minas Gerais 34
Pará 3
Paraíba 1
Paraná 23
Pernambuco 10
Piauí 2
Rio de Janeiro 113
Rio Grande do
Norte 4
Rio Grande do Sul 26
Rondônia 0
Roraima 1
Santa Catarina 54
São Paulo 414
Sergipe 0
Tocantins 0
Dados fornecidos no questionário respondido pelo Catarse.
Fonte: elaborada pelo autor.
Apenas Rondônia, Sergipe e Tocantins não tiveram nenhum projeto de
crowdfunding. A concentração dos projetos de Cinema e Vídeo está no Estado de
São Paulo, seguido pelos Estados do Rio de Janeiro e Santa Catarina. O Sudeste é
a região com mais projetos, em seguida vem Sul, Nordeste, Centro-Oeste e Norte.
Ainda é muito discrepante a quantidade de projetos em São Paulo (414),
representando 54,48% do total de projetos inscritos na plataforma.
Tabela 26 – Projetos nas cidades
Cidades com mais projetos da categoria
Cinema e Vídeo
São Paulo 316
Rio de Janeiro 97
Florianópolis 40
144
Brasília 31
Belo Horizonte 20
Porto Alegre 18
Curitiba 17
São Carlos-SP 15
Dados fornecidos no questionário respondido pelo Catarse.
Fonte: elaborada pelo autor.
As capitais das unidades federativas com maior número de projetos
encabeçam também a lista das cidades com maiores números de projetos inscritos.
A surpresa é a cidade de São Carlos, localizada no interior de São Paulo, com um
número de projetos superior a cidades importantes do cinema brasileiro, como
Recife, Salvador e Fortaleza. São Carlos aparece com 15 projetos inscritos, sendo
13 bem-sucedidos. Juntos, esses projetos arrecadaram R$ 59.893,00. Dos 15
projetos, 14 são filmes de estudantes do curso de graduação em Imagem e Som da
Universidade Federal de São Carlos, com destaque para o empreendedor Victor
Cazé, com 3 projetos financiados, e o projeto Delírios de um cinemaníaco, com a
maior arrecadação, de R$ 17.070,00.
3.7 Empreendedores da categoria
Na dissertação da pesquisadora Vanessa Valiati (2013), foi traçado o perfil
dos projetos financiados pela categoria Cinema e Vídeo no período de janeiro de
2011 até o final de setembro de 2013 (Figuras 48 e 49). Até aquele período, haviam
sido financiados 139 projetos, sendo 135 deles ligados à realização de filmes. A
pesquisadora seguiu as classificações de gênero e duração definidas pela Ancine,
chegando a diferentes indicadores e reflexões sobre as possibilidades entre o
crowdfunding e o cinema brasileiro.
145
Figura 47 – Quantidade de projetos por gêneros
Fonte: Valiati (2013, p. 102).
No período estudado por Valiati (2013), houve o predomínio de filmes de
ficção. Isso se deve ao fato de esse gênero ter sido a preferência dos filmes de curta
e média metragem de empreendedores universitários. Os universitários
representavam 60% dos empreendedores, de acordo com Valiati (2013, p. 104).
Entretanto, os projetos realizados por universitários não tiveram as maiores
arrecadações. Foram os projetos do gênero documentário que tiveram maior
arrecadação (R$ 1.059.193,00), superando os filmes de ficção (R$ 183.714,00).
Entre os cinco projetos que mais arrecadaram, quatro são documentários de longa-
metragem, realizados por empreendedores sem vínculo com a universidade.
146
Figura 48 – Quantidade de projetos por finalidade de arrecadação
Fonte: Valiati (2013, p. 118).
Até aquele momento, o descompasso entre a quantidade de projetos que
arrecadaram dinheiro para produção, em relação às demais etapas do fazer
audiovisual, indica que os empreendedores enxergaram inicialmente no
crowdfunding um meio para financiar a produção de filmes. Isso é muito semelhante
ao comportamento dos cineastas brasileiros, que enxergam o financiamento estatal
como o principal meio para financiar a produção de filmes. Entretanto, esse estágio
inicial de utilização do crowdfunding começa a ser superado com os projetos de
exibição cinematográfica.
3.8 Projetos de exibição cinematográfica
Vou analisar agora dados sobre os 679 empreendedores que inscreveram os
774 projetos na plataforma entre os anos de 2011 e 2015 (Tabela 27). Entre eles, 33
são empreendedores que já inscreveram mais de um projeto na categoria, sendo
que desses 33, somente três inscreveram mais de cinco projetos para Cinema e
Vídeo.
147
Tabela 27 – Principais empreendedores
Nome do empreendedor Projetosinscritos
Projetos
financiados
Projetos não
financiados
Valor total
arrecadado (R$)
Canal EU MAIOR 33 31 2 149957
A Lei da Água – Novo
Código Florestal 24 13 11 26580
Coletivo Gameleira 7 4 3 44626
Dados fornecidos no questionário respondido pelo Catarse.
Fonte: elaborada pelo autor.
O Canal Eu Maior é o nome da pessoa jurídica inscrita na plataforma
responsável por criar 33 projetos, todos com um objetivo em comum: arrecadar
dinheiro para conseguir exibir o filme Eu maior em uma sala de cinema comercial. As
recompensas oferecidas foram ingressos para as sessões. Cada um dos 33 projetos
é destinado a salas diferentes de diferentes cidades. Apenas as cidades de São
Paulo e Rio de Janeiro tiveram mais de um projeto, sendo quatro deles em São
Paulo e três no Rio. As salas de cinema que receberam sessões do documentário
Eu maior pertencem a um dos maiores grupos exibidores brasileiros, o Cinemark.
Essa foi a primeira experiência de financiamento destinado à exibição de filmes.
As campanhas dos 33 projetos aconteceram entre o fim de 2013 e o começo
de 2014. Juntas, elas totalizaram uma arrecadação recorde de um só empreendedor
na categoria (R$ 149.957,00), sendo esta uma iniciativa que até o momento
ninguém havia feito nessa categoria, com muitos projetos de orçamentos pequenos
que, quando somados, indicam um grande número de prosumidores, apoios e valor
total arrecadado.
O empreendedor A Lei da Água – Novo Código Floresta é a pessoa jurídica
inscrita no Catarse que representa a produção do documentário A lei da água (André
D'Elia, 2015). Esse empreendedor seguiu uma proposta parecida com a do
empreendedor Canal EU MAIOR, pois inscreveu 23 projetos, cada um destinado a
uma cidade diferente, que visaram arrecadar recursos para exibir o documentário
em diversas salas de cinema. Essas exibições não foram vinculadas a nenhuma
empresa específica de exibição cinematográfica, com exibições em salas de
diferentes grupos do mercado exibidor. O 24º projeto inscrito por esse
empreendedor, e que não foi financiado, tinha como finalidade conseguir recursos
para distribuir o filme e realizar debates em outros espaços além das salas de
cinema.
148
As 24 campanhas foram lançadas e finalizadas em 2015. O valor total
arrecadado não é tão expressivo (R$ 26.580,00), mas é uma soma considerável
para um documentário de baixíssimo orçamento. Vale destacar que André D'Elia,
diretor do filme, é também diretor do documentário Belo Monte – anúncio de uma
guerra, um dos principais projetos da categoria.
O empreendedor Coletivo Gameleira é a pessoa jurídica que representa a
produção do documentário Osvaldão (Vandré Fernandes, Ana Petta, Fábio Bardella
e André Michiles, 2015). Assim como o Canal EU MAIOR e A Leia da Água – Novo
Código Florestal, o empreendedor lançou diversos projetos para conseguir exibir seu
filme em salas de cinema de diferentes cidades. A particularidade do Coletivo
Gameleira é que o dinheiro arrecadado foi utilizado para colocar o filme em cartaz
em mais de uma sala de cinema na mesma cidade. É explicado aos prosumidores
no texto de descrição que cada projeto é parte de um projeto maior que visa
arrecadar um montante total de R$ 73.204,00 para conseguir lançar o filme
comercialmente por todo o país. Cada um dos projetos inscritos solicitou o mesmo
valor (R$ 10.458,00).
Os projetos também foram lançados e finalizados em 2015, e o Coletivo
Gameleira conseguiu financiamento para quatro dos sete projetos inscritos,
arrecadando o valor de R$ 44.626,00. Outra diferença entre os projetos do Coletivo
Gameleira em relação aos demais empreendedores são as recompensas. Em todos
os projetos de todos os empreendedores, foram oferecidas como recompensas
diversas cotas de ingressos para assistir ao filme. Além disso, nos projetos do
Coletivo Gameleira foram oferecidas como recompensas camisetas, adesivos,
cartazes, livros, exposição da logomarca do prosumidor nos materiais gráficos e
nome nos créditos do filme.
3.9 Principais projetos de produção
Os projetos de produção de documentários possuem os melhores
desempenhos individuais entre todos os projetos da categoria Cinema e Vídeo
(Tabela 28). Ao todo, são sete projetos que se destacam nas primeiras cinco
posições entre aqueles de maior valor solicitado, maior valor arrecadado, maior
número de prosumidores e maior número de apoios. Entre os sete, seis são
149
documentários e apenas um, o projeto Episódio piloto – As aventuras de Léca e
seus amigos, não pertence ao gênero.
Tabela 28 – Principais projetos
Cinco projetos com maiores valores solicitados
Projeto Empreendedor Cidade UF Prosumidores Apoios Valorsolicitado
Valor
arrecadado
#Eu_Jean
Wyllys
Lente Viva
Filmes São Paulo SP 1480 1515 120000 130335
Episódio piloto
– As Aventuras
de Léca e seus
amigos
Bruno Iyda
Saggese São Paulo SP 1918 1933 120000 148191
Belo Monte –
Anúncio de
uma guerra
CINEDELIA São Paulo SP 3391 3429 114000 140010
Trabalho
decente SINTHORESP São Paulo SP 904 974 109540 110858
Domínio
público
Paêbiru
Realizações
Cultivadas
LTDA EPP
Rio de
Janeiro RJ 1993 2042 90900 106221
Cinco projetos com maiores valores arrecadados
Projeto Empreendedor Cidade UF Prosumidores Apoios Valorsolicitado
Valor
arrecadado
Episódio piloto
– As Aventuras
de Léca e seus
amigos
Bruno Iyda
Saggese São Paulo SP 1918 1933 120000 148191
Belo Monte –
Anúncio de
uma guerra
CINEDELIA São Paulo SP 3391 3429 114000 140010
#Eu_Jean
Wyllys
Lente Viva
Filmes São Paulo SP 1480 1515 120000 130335
Nos passos do
mestre
Fundação
Espírita André
Luiz
Guarulhos SP 888 907 40000 119426
Trabalho
decente SINTHORESP São Paulo SP 904 974 109540 110858
Cinco projetos com maior quantidade de prosumidores
Projeto Empreendedor Cidade UF Prosumidores Apoios Valorsolicitado
Valor
arrecadado
Belo Monte –
Anúncio de
uma guerra
CINEDELIA São Paulo SP 3391 3429 114000 140010
150
Domínio
público
Paêbiru
Realizações
Cultivadas
LTDA EPP
Rio de
Janeiro RJ 1993 2042 90900 106221
Episódio piloto
– As Aventuras
de Léca e seus
amigos
Bruno Iyda
Saggese São Paulo SP 1918 1933 120000 148191
#Eu_Jean
Wyllys
Lente Viva
Filmes São Paulo SP 1480 1515 120000 130335
Documentário
Chega da Fiu
Fiu
Brodagem
Filmes LTDA Itapeva SP 1210 1218 20000 64433
Cinco projetos com maiores números de apoios
Projeto Empreendedor Cidade UF Prosumidores Apoios Valorsolicitado
Valor
arrecadado
Belo Monte –
Anúncio de
uma guerra
CINEDELIA São Paulo SP 3391 3429 114000 140010
Domínio
público
Paêbiru
Realizações
Cultivadas
LTDA EPP
Rio de
Janeiro RJ 1993 2042 90900 106221
Episódio piloto
– As Aventuras
de Léca e seus
amigos
Bruno Iyda
Saggese São Paulo SP 1918 1933 120000 148191
#Eu_Jean
Wyllys
Lente Viva
Filmes São Paulo SP 1480 1515 120000 130335
Documentário
Chega da Fiu
Fiu
Brodagem
Filmes LTDA Itapeva SP 1210 1218 20000 64433
Dados fornecidos no questionário respondido pelo Catarse.
Fonte: elaborada pelo autor.
#Eu_Jean Wyllys
O projeto foi criado e financiado no ano de 2015 pelo empreendedor Lente
Viva Filmes, empresa produtora de documentários localizada na cidade de São
Paulo que produz e distribui seus filmes. Possui, ainda, um currículo pequeno de
filmes, com destaque para o documentário 20 Centavos (Tiago Tambelli, 2014) sobre
as manifestações de junho de 2013 no Brasil.
O filme #Eu_Jean Wyllys (Carlos Juliano Barros, 2017) já contava com dois
anos de produção e captação de imagens antes de lançar a campanha para
arrecadar recursos. O dinheiro arrecadado é destinado a finalizar o documentário,
fazer cópias e distribuí-las. A previsão de lançamento do filme é para 2017. Além da
151
finalização, parte do orçamento será dedicada a viabilizar mais diárias de gravação
do documentário.
O filme é feito para expor a luta pelos direitos civis da comunidade LGBT no
Brasil e acaba por registrar a reação dos políticos conservadores e
fundamentalistas. O protagonista é o deputado federal Jean Wyllys, representante
eleito pela comunidade LGBT pelo partido do PSOL do Rio de Janeiro.
Foram oferecidas 20 recompensas, algumas delas divulgadas apenas durante
a campanha de arrecadação, as quais representam diferentes combinações de
serviços e produtos. Os produtos são poster, camiseta, blu-ray, além obras de arte
visuais e plásticas feitas por artistas ligados ao projeto. Os serviços são link para
assistir o filme, ingresso para a estreia, divulgação do nome dos prosumidores nos
créditos iniciais ou finais do filme, vagas para um curso de documentário e jantar
produzido especialmente para o prosumidor.
O projeto posiciona-se em primeiro lugar na tabela referente ao valor
solicitado, mas não tem bom desempenho nas tabelas seguintes. Conseguiu um alto
valor arrecadado, mas que não ultrapassou muito o valor solicitado e mobilizou um
número inferior de apoios e prosumidores quando comparado a projetos de
orçamentos próximos ao seu.
Episódio piloto – As Aventuras de Léca e seus amigos
O projeto foi criado e financiado em 2013 pelo empreendedor Bruno Iyda
Saggase, ator, cartunista e animador que já trabalhou como arte-educador no Brasil
e estudou Artes nos EUA. Além de Bruno, a jornalista e professora de comunicação
Sonia Avallone é a produtora executiva do desenho animado.
O projeto já possuía storyboard para o episódio piloto, além do roteiro dos 12
episódios da série prontos, tudo criado pelo roteirista e diretor Paulo Henrique
Machado. As histórias dos 12 episódios são inspiradas nas histórias do livro Pulmão
de aço – uma vida no maior hospital do Brasil, escrito por Eliana Zagui. Os dois,
Paulo e Eliana, são companheiros e dividem quarto no Hospital das Clínicas na
cidade de São Paulo. A campanha arrecadou recursos para produção e a finalização
do episódio piloto, que em 2014 foi lançado com o nome de BRINCADEIRANTES –
Episódio piloto (Paulo Henrique Machado, 2014), com duração de 10 minutos.
O projeto é uma homenagem às vidas de Paulo e Eliana, que tiveram
paralisia infantil quando pequenos e vivem desde então no Hospital das Clínicas.
152
Devido às sequelas da paralisia, os dois respiram com a ajuda de aparelhos. A série
é voltada ao público infantil e visa transmitir uma mensagem de inclusão e
valorização das diferenças “sem qualquer contorno de culpa, caridade, ou
vitimização”, como afirma o texto de descrição do projeto na página do Catarse.
Foram oferecidas 10 recompensas, que combinaram produtos e serviços,
sendo DVD e livro autografado os produtos e divulgação do nome do prosumidor
nos créditos, palestra com Paulo e Eliana e link para download do episódio os
serviços.
O projeto era, até o final de 2015, o de maior valor arrecadado pela
plataforma na categoria Cinema e Vídeo. Esse número foi superado apenas em
2016, pelo projeto O menino e o mundo no Oscar 2016, do empreendedor Alê Abreu
– Filmes de papel.
Belo Monte – Anúncio de uma guerra
O projeto foi criado e financiado em 2011 pelo empreendedor Cinedelia uma
produtora de cinema e vídeo focada em projetos socioambientais que também é a
produtora do documentário A lei da água (André D'Elia, 2015).
O longa-metragem documentário Belo Monte – anúncio de uma Guerra
(André D'Elia, 2012) já estava em produção há dois anos quando lançou a
campanha de arrecadação no Catarse. O filme serve como denúncia sobre a
imposição política e a construção da usina hidroelétrica de Belo Monte, suas
consequências diretas para o meio ambiente e a sociedade. Os realizadores
arrecadaram recursos para editar, finalizar e distribuir o filme, que hoje se encontra
disponível integralmente, em alta definição, no YouTube.
O filme é feito para militantes e demais interessados em questões ambientais
e sociais e possui um discurso declaradamente contra a construção da usina de
Belo Monte. A campanha foi lançada enquanto a sociedade debatia a construção da
hidroelétrica através dos grandes meios de comunicação brasileiros.
Foram oferecidas oito recompensas que combinaram o link para assistir ao
filme com os produtos fotos do Xingu, vídeo sobre índios do Xingu, cartaz do filme,
box artesanal do filme, obra de artes plásticas de artistas parceiros do projeto e uma
muda de Buriti (árvore sagrada para os índios do Xingu).
Além de ser o mais antigo projeto financiado, entre todos os destacados,
possui o maior número de prosumidores e apoios. Seus números são muito
153
superiores ao segundo colocado em tais quesitos (o projeto Domínio público). Belo
Monte possibilitou o destaque da plataforma em seu primeiro ano de funcionamento,
angariando um bom número de usuários, repercussão na imprensa e nas redes
sociais.
Trabalho decente
O projeto Trabalho decente foi criado e financiado em 2015 pelo
empreendedor Sinthoresp (Sindicado dos Trabalhadores em Hotéis, Apart-hotéis,
Motéis, Flats, Restaurantes, Bares, Lanchonetes e Similares de São Paulo e
Região). Na descrição sobre o empreendedor no Catarse, o Sinthoresp se coloca
como um representante da AMO MEUS DIREITOS, grupo criado com o objetivo de
interagir com os milhares de jovens brasileiros que trabalham na Rede McDonald’s
para que tomem conhecimento das ações coletivas em andamento na Justiça do
Trabalho e de denúncias feitas pelo Sinthoresp ao MPT (Ministério Público do
Trabalho) em defesa dos direitos e da dignidade dos jovens trabalhadores que vêm
sendo prejudicados por essa rede (SINTHORESP, 2016).
O projeto arrecadou recursos para a produção e a finalização do média-
metragem Justiça, antes tarde do que nunca (SINTHORESP, 2015), um
documentário de denúncia da violação do acordo chamado Trabalho decente, criado
pela OIT (Organização Internacional do Trabalho), no qual o Brasil é signatário. A
violação desse acordo é praticada pela rede de fast food McDonald's, que explora
seus trabalhadores através do assédio moral e sexual, fraude nos salários, acúmulo
de funções, acidentes de trabalho e vencimentos que na maioria dos casos não
chegam a um salário mínimo. O média está disponível em alta definição no
YouTube.
O filme é dedicado aos trabalhadores que têm seus direitos de “trabalho
decente” violados e tem como finalidade ampliar o debate sobre tais direitos e
promover a superação da pobreza, a redução das desigualdades sociais, a garantia
da governabilidade democrática e o desenvolvimento sustentável.
Foram oferecidas nove recompensas que combinaram cartão de
agradecimento personalizado, convite para coquetel de lançamento, caneta,
chaveiro, boné, camiseta, pen-drive com o filme, certificado de colaborador do
projeto, vídeo exclusivo de agradecimento, divulgação do nome do prosumidor nos
créditos e diárias em uma das colônias de férias do sindicato.
154
Trabalho decente aparece na quarta posição entre os projetos com valores
mais altos solicitados e na quinta entre os maiores valores arrecadados. Entretanto,
mesmo com boa arrecadação, não aparece nas tabelas dos projetos com maior
número de prosumidores e apoios, ficando atrás, nesses quesitos, de projetos com
menores valores arrecadados. Contou com apenas 974 prosumidores para
arrecadar R$ 110.858,00. O projeto Domínio público – segundo colocado nos
quesitos prosumidores e apoios – arrecadou R$ 106.221,00 de 1.993 prosumidores,
ou seja, Trabalho decente teve mil prosumidores a menos que um projeto de valor
arrecadado próximo ao seu.
Domínio público
O projeto foi criado e financiado em 2012 pelo empreendedor Paêbiru
Realizações Cultivadas LTDA EPP, empresa produtora audiovisual de perfil
diversificado, com projetos de filmes para diferentes gêneros e durações, que
também promove ações culturais de artes plásticas, fotografia e sessões de cinema
itinerantes gratuitas denominadas Cine Ataque.
O documentário de longa-metragem Domínio público (Fausto Mota, Raoni
Vidal, Henrique Ligeiro, 2014) já possuía um ano de produção quando lançou a
campanha que arrecadou recursos para continuar a produção, fazer a finalização e
distribuição do filme. O documentário foi publicado na internet e exibido em ruas,
praças e comunidades através do Cine Ataque. O filme aborda, em tom de denúncia,
o enriquecimento ilícito de um grupo muito restrito de empreiteiros, políticos, bancos
e empresários envolvidos em dois megaeventos que aconteceram no Brasil, a Copa
do Mundo de 2014 e as Olimpíadas do Rio em 2016. Além disso, a realização
desses megaeventos trouxe ônus para diversas comunidades removidas ilegalmente
das áreas de forte interesse imobiliário, cujos moradores foram enviados para
periferias distantes, sem nenhuma infraestrutura e dominadas por milícias
fortemente armadas e extremamente violentas.
O filme é feito para provocar o debate, sua temática e tom de denúncia
serviram de fagulha para acender a chama de uma grande comunidade formada por
milhares de prosumidores dispostos a financiar o projeto.
Foram oferecidas oito recompensas, que conjugavam os seguintes produtos e
serviços: link para assistir ao filme antes da estréia, download de álbum com
fotografias exclusivas e material gráfico, vídeo exclusivo com extras das entrevistas,
155
camiseta, cartaz, máscara de estêncil feita para o filme, quadros feitos por um artista
parceiro do empreendedor e divulgação do nome do prosumidor nos créditos.
Nos passos do mestre
O projeto foi criado e financiado em 2013 pelo empreendedor Fundação
Espírita André Luiz. Criada em 1990, é uma organização sem fins lucrativos que tem
como objetivo contribuir com a transformação da sociedade por meio do conteúdo
instrutivo acerca da doutrina espírita. Essa organização é também representada pela
Mundo Maior Filmes, produtora audiovisual sediada em São Paulo que trabalha com
conteúdos de caráter educativo e espírita, e que foi responsável pela produção do
filme. O trabalho de maior destaque da produtora é o longa de ficção O filme dos
espíritos (Michel Dubret , André Morouço, 2011), que teve mais de dois milhões de
espectadores em salas brasileiras comerciais de cinema.
O documentário de longa-metragem Nos passos do mestre (André Marouço,
2016) tenta explicar muitas das mensagens contidas nos textos sagrados dos
cristãos que ainda são mal compreendidas. A equipe foi até o Egito e Jerusalém
gravar nos lugares mais significativos da história cristã.
Não é informado na página do Catarse o quanto já havia sido feito em relação
à produção do filme. Entretanto, o texto de descrição do projeto me levou a entender
que algumas cenas já haviam sido gravadas, mas a grande maioria não, sendo o
orçamento solicitado destinado a terminar as gravações, finalizar e distribuir o filme.
Como esse projeto arrecadou um valor muito superior ao que havia solicitado,
os empreendedores aproveitaram o recurso excedente para gravar dramatizações
da vida de Jesus Cristo, fazer legendas em diferentes línguas e ampliar sua
distribuição.
A temática do filme e o histórico da instituição proponente do projeto já
agregam uma grande comunidade de pessoas ligadas à fé e à espiritualidade cristã.
Foi essa comunidade que financiou o documentário. Além disso, a Fundação
Espírita é também a mantenedora da Rede Mundo Maior de TV, Rede Boa Nova de
Rádio, Editora e Distribuidora Mundo Maior e Uniespírito, o que garantiu os meios de
comunicação para divulgar a campanha e dar visibilidade ao projeto.
Foram apenas nove recompensas oferecidas, que combinaram os produtos
foto de um lugar sagrado com assinatura de um notável da comunidade espírita,
carta e livro escritos e assinados pelo mesmo notável e DVD do filme, e os serviços
156
ingresso para sessão, divulgação do nome do prosumidor nos créditos e na página
do filme, agradecimentos em redes sociais, agradecimentos presenciais em sessões
do filme e exibição exclusiva seguida de vivência com os realizadores do
documentário.
Nos passos do mestre é um projeto com pouca quantidade de prosumidores e
apoios que conseguiu arrecadar quase três vezes o valor solicitado. Seu apoio
médio é alto, assim como é o do projeto Trabalho decente. Outro ponto que os dois
têm em comum é o fato de seus empreendedores serem instituições do segundo
setor.
Documentário Chega de Fiu Fiu
O projeto foi criado e financiado entre o final de 2014 e o início de 2015 pela
empreendedora Brodagem Filmes LTDA, uma empresa produtora sediada em São
Paulo, formada por profissionais e amigos em 2011, que trabalha com a realização
de filmes institucionais, videoclipes e documentários. O projeto também foi criado e
mobilizado pela organização não governamental feminista Think Olga, que luta pelo
empoderamento feminino por meio da informação.
O documentário Chega de fiu fiu (Ananda Kamanchek Lemos, Fernanda
Frazão), com previsão de lançamento em 2016, faz parte de uma ação maior
também chamada Chega de Fiu Fiu, que lançou uma página na internet na qual
mulheres denunciaram locais onde que sofreram assédio, gerando um mapa que
orientou as gravações do documentário. Essa ação combate o assédio sexual e o
filme tem como objetivos facilitar a compreensão da população sobre o que é um
assédio, diminuir o número de assédios nos lugares mapeados e promover o diálogo
entre sociedade e poder público, visando facilitar o atendimento de mulheres vítimas
de assédio sexual.
O dinheiro arrecadado foi utilizado para o desenvolvimento do projeto e a
produção do filme, que tem como finalidade ser distribuído na internet e exibido em
escolas municipais, estaduais, nos órgãos públicos e de justiça, visando à formação
das novas gerações sobre essa questão.
O filme é feito e financiado por mulheres, faz parte de uma ação maior que
não tem finalidades comerciais e o projeto é chancelado com o lastro da ONG Think
Olga. Esses são alguns dos fatores que explicam o sucesso da campanha, que
conseguiu arrecadar mais de três vezes o que havia solicitado.
157
O projeto ofereceu 10 recompensas, que conjugavam os seguintes produtos e
serviços: divulgação do nome do prosumidor na página do projeto e nos créditos do
filme, acesso a bate-papo pela internet com convidadas especiais e realizadoras do
filme, link para imprimir cartaz, link para download de filmes, assinatura da
newsletter do projeto, ingresso para exibição do filme seguida de bate-papo com as
realizadoras, ecobag com a marca Chega de Fiu Fiu, fanzine, cordel customizado
sobre o tema do documentário, DVD e vaga em workshop sobre violência contra a
mulher.
O projeto é o de menor valor solicitado e arrecadado entre todos os sete
projetos, entretanto conseguiu três vezes mais do que havia solicitado e possui um
número de prosumidores e apoios maior que projetos de alto orçamento como Nos
passos do mestre e Trabalho decente. Chega de Fiu Fiu conseguiu envolver a quinta
maior comunidade de prosumidores do Catarse e superar suas expectativas de
arrecadação.
3.10 Diversidade
Todos os projetos de exibição e produção mencionados têm em comum o fato
de abordarem questões contemporâneas, presentes nos debates da internet e nos
meios de comunicação hegemônicos. Essas questões exploradas nos projetos são
direitos civis, inclusão social, meio ambiente, condições de trabalho, corrupção,
espiritualidade e violência. A efervescência desses debates, associada à oferta de
produtos audiovisuais que discutam tais questões, criaram o ambiente propício para
transformar um grande número de ativistas, fãs e cristãos em prosumidores
brasileiros.
Isso demonstra que o crowdfunding pode ser explorado por pessoas distintas
com propósitos distintos e por vezes antagônicos. Os exemplos de projetos
apresentados dialogaram com diferentes nichos, como jovens militantes, com visões
consideradas radicais por conservadores, e cristãos brancos da terceira idade, com
acesso a canais de televisão e emissoras de rádio. É graças ao envolvimento de
diferentes nichos e comunidades que o Catarse, mesmo que de forma modesta,
começa escrever suas primeiras linhas nas páginas da história do financiamento do
cinema brasileiro.
158
Conclusão
Entre o final do século XX e o começo do século XXI, a difusão pela internet
dos cinco conceitos da Revolução Digital criou o ambiente favorável para o
desenvolvimento do crowdsourcing. Entre os diferentes modelos de crowdsourcing,
foi o crowdfunding que teve destaque nessa dissertação.
A prática do crowdfunding, cujas características podem ser percebidas em
outras formas de financiamento do passado, é formada por plataformas,
empreendedores e prosumidores que compõem redes de usuários na internet para
financiar algo. Existem diferentes modalidades de crowdfunding, das quais
apresentei detalhadamente a modalidade baseada na recompensa.
Essa modalidade é a mais praticada no Brasil e possui características
particulares que a diferencia do crowdfunding praticado em outros países. O
crowdfunding no país apresenta diversidade de plataformas e projetos, mas
encontra dificuldades para estabelecer seu mercado, com dezenas de plataformas
sendo lançadas e também encerradas logo em seus primeiros meses de existência.
O termo foi traduzido para o português como financiamento coletivo, financiamento
colaborativo e financiamento da multidão.
A experiência brasileira é marcada pela atuação da comunidade on-line
Crowdfunding BR, formada com o intuito de promover e estimular a prática do
crowdfunding no país. Os principais usuários dessa comunidade tornaram-se
figuras-chave do crowdfunding brasileiro, e, entre eles, estavam os criadores da
plataforma Catarse.
O Catarse é a principal plataforma de crowdfunding do Brasil, uma empresa
que expõe os dados de todos os seus projetos e disponibiliza gratuitamente os
códigos do software que fazem a plataforma funcionar. Essa plataforma possui um
mapa complexo com milhares de páginas, links e dados que mantêm o usuário
dentro do domínio catarse.me e servem como um grande tutorial para auxiliar os
empreendedores e prosumidores a praticarem crowdfunding.
Dentre todas as categorias de projetos criativos que existem no Catarse, é a
categoria Cinema e Vídeo que foi analisada no âmbito desta dissertação. Foram
159
acessados dados completos sobre todos os projetos inscritos nela de 2011 a 2015,
possibilitando a produção de uma série de tabelas para mensurar os valores dos
projetos e a quantidade de usuários que circularam durante esse período. Em
seguida, foram destacados os principais empreendedores da categoria, os projetos
de exibição cinematográfica e os principais projetos de produção de filmes.
Os dados apresentados nas tabelas e nas páginas do Catarse levaram-me à
seguinte conclusão: as pessoas e projetos que procuram o crowdfunding têm muitas
vezes propósitos distintos e dessa diversidade de propósitos é que surge
gradativamente uma comunidade de prosumidores e empreendedores interessados
em participar do desenvolvimento do cinema brasileiro através do financiamento de
filmes, exibições e novas ideias que ainda estão porvir e serão financiadas por meio
dessa prática.
Os projetos analisados com números maiores de valor solicitado, valor
arrecadado, prosumidores e apoios possuem uma mesma característica: foram
financiados por prosumidores que extrapolam as redes de familiares, amigos,
amigos de amigos e parceiros de trabalho que o empreendedor possui. Esses
projetos conseguiram atingir redes maiores de fãs, ativistas e curiosos que
financiaram filmes cujos discursos e propostas estéticas foram previamente descritos
através de um vídeo, um texto e uma série de recompensas disponíveis em uma
página da plataforma Catarse. Os prosumidores de redes maiores financiam mais do
que apenas um projeto, pois financiaram suas crenças pessoais, visões de mundo e
militância que conseguem identificar em filmes que pretendem corroborar com elas.
São produtos feitos explicitamente para atender expectativas imateriais de seus
prosumidores.
É preciso realizar mais estudos sobre projetos de Cinema e Vídeo, explicando
o que acontece com eles, com seus empreendedores e prosumidores antes, durante
e depois da campanha de crowdfunding. Considero importante saber qual
desdobramento econômico e social tais projetos geram na sociedade. Cabe às
futuras pesquisas avançar por esse território, no qual não consegui chegar.
Nos próximos cinco anos, acredito que o mercado do crowdfunding irá se
expandir para regiões do mapa brasileiro que ainda não movimentam números
expressivos de projetos e dinheiro arrecadado. Outras plataformas, além do Catarse,
irão se consolidar e ampliar cada vez mais o destaque dessa prática e dos projetos
através de diferentes meios de comunicação. Novas ideias quebrarão paradigmas
160
de financiamento que não consigo prever. O que está claro para mim é que projetos
para financiar a distribuição de filmes ainda não estão sendo feitos, assim como
projetos voltados para a carreira de cineastas e empresas produtoras que queiram
se consolidar no mercado. Percebo que é pouco explorado o poder do financiamento
das multidões que já estão organizadas em partidos políticos, torcidas de futebol,
sindicatos e comunidades. Existem muitas possibilidades a serem exploradas,
cabendo aos usuários do presente construir o crowdfunding brasileiro do futuro.
161
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crowdfunding. Publicado em 2010. Disponível em:
. Acesso em
171
17 de março de 2016.
ZAGUI, Eliana. Pulmão de aço – uma vida no maior hospital do Brasil. Caxias do
Sul/RS: Belas Letras, 2012.
ZATTI, Rafael. TEDxPortoAlegre. Publicado em 14/11/2010. Disponível em:
. Acesso em 17 de
março de 2016.
Referências audiovisuais:
#Eu_Jean Wyllys (Carlos Juliano Barros, 2017)
#Eu_Jean Wyllys – teaser oficial (Lente Viva Filmes, 2015)
20 Centavos (Tiago Tambelli, 2014)
A lei da água (André D'Elia, 2015)
A Master Class In Crowdfunding & Film Distribution - Full Interview with Emily Best
(SEED&SPARK CEO) (Film Courage, 2015)
As aventuras de Léca e seus amigos – Catarse (As aventuras de Léca e seus
amigos, 2013)
Andre Gabriel - O que é Crowdfunding (Diálogo Digital, 2013)
Belo Monte – anúncio de uma guerra (André D'Elia, 2012)
Belo Monte, anúncio de uma guerra (CATARSE) (Cinedelia, 2011)
Brincadeirantes – Episódio piloto (Paulo Henrique Machado, 2014)
Campanha - “A lei da água” nos cinemas (CINEDELIA, 2015)
Catarse – trabalho decente (Programa Fórum Legal, 2015)
Chega de fiu fiu (Ananda Kamanchek Lemos, Fernanda Frazão)
Com vocês, Catarse (Daniel Weinmann, 2010)
Crowdsourcing – Marina Miranda – Mutopo (Carlos Nepomuceno, 2013)
Crowdsourcing and Crowdfunding Explained (Crowdsourcing.org, 2012)
Delírios de um cinemaníaco (Carlos Eduardo Magalhães, Felipe Leal Barquete,
2013)
Dinheiro da Multidão - Infográfico Crowdfunding (Vinicius Maximiliano Carneiro,
2014)
Documentário “Nos passos do mestre” (Nos passos do mestre, 2013)
Domínio público (Fausto Mota, Raoni Vidal, Henrique Ligeiro, 2014)
172
Domínio público – vídeo para o Catarse (Paêbiru Realizações, 2012)
Eu maior (Fernando Schultz e Paulo Schultz, 2013)
EU MAIOR – Patrocine você também! (EU MAIOR, 2010)
Eu maior – trailer (Eu maior, 2013)
Foreign correspondents (Mark Tapio Kines, 1999)
Justiça, antes tarde do que nunca (SINTHORESP, 2015)
Kickante - O que é Crowdfunding? (Kickante, 2014)
Kickstarter CEO Perry Chen’s Founder Advice (Erick Schonfeld, 2011)
Kickstarter CEO Perry Chen on Crowdsourced Funding (Erick Schonfeld, 2011)
Nos passos do mestre (André Marouço, 2016)
O filme dos espíritos (Michel Dubret , André Morouço, 2011)
O que é Crowdfunding? | Papo do Bem: Kolmea Pt.01 (FazINOVA, 2014)
O que é crowdfunding, o financiamento coletivo? (Mike Malakkias Produtora
Multimídia, 2014)
O renascimento do parto (Eduardo Chauvet, 2013)
Obrigado por tirar o seu projeto do papel! (Catarse, 2016)
Osvaldão (Vandré Fernandes, Ana Petta, Fábio Bardella e André Michiles, 2015)
Perry Chen on Getting Successful Projects Going (Erick Schonfeld, 2011)
Profº. Canisso explica o que é o crowd funding (Raimundos, 2013)
Recheio.Doc II - Crowdfunding # Cultura e Coletividade (Pedro Galiza, 2011)
Reclame mostra o que é e como funciona o crowdfunding (Programa Reclame,
2013)
Ricardo Young 23000 | Perguntas | O que é Crowdfunding? (Ricardo Young, 2012)
The cosmonaut (Nicolás Alcalá, 2013)
TPB AFK (Simon Klose, 2013)
The internet own boy: the story of Aaron Swartz (Brian Knappenberger, 2015)
Você sabe o que é Crowdfunding? (Blubell, 2012)
Watch This Before You Launch A Crowdfunding Campaign - A Film Courage
Filmmaking Series (Film Courage, 2013)
What is Crowdfunding? CrowdFunding planning? What, How, Why and when (David
Khorram, 2012)
WikiLeaks revelations only tip of iceberg – Assange (RT, 2011)
173
Apêndices
Apêndice A
Artigos brasileiros sobre crowdfunding
Ano de
publicação Título Autor
2015 Lei Rouanet x crowdfunding: fomentandoos empreendimentos culturais
Clerilei Aparecida Bier; Ricardo Alves
Cavalheiro
2012
Crowdfunding: Problematizando
Participação Social, Consumo e
Mecanismos de Visibilização.
Bruna Gazzi Costa; Fabiane Langon
Lorenzi; Inês Hennigen
Desconhecido
O crowdfunding no Brasil: configuração
de um canal midiático ou uma simples
modalidade econômica?
Guilherme Felitti; Elizabeth Saad Corrêa
2011
Estudo sobre crowdfunding: fenômeno
virtual em que o apoio de uns se torna a
força de muitos
Flávia Medeiros Cocate; Carlos Pernisa
Júnior
2014
O potencial do crowdfunding como
mecanismo de financiamento alternativo
para o cinema brasileiro
Karine Ruy; Vanessa Valiati
2013
Crowdfunding: recompensas são
engrenagens do financiamento
colaborativo?
Natalia Dias
2012 O poder das mídias sociais aplicadas eminiciativas de crowdfunding no Brasil
Fernanda Bruno dos Santos; Ana Carolina
Gama e Silva Assaife; Jonice Oliveira
Desconhecido As formas organizativas no setor cultural:uma análise da plataforma Catarse
Vanessa Faria Silva; Janaína Machado
Simões; Thaylane Rodrigues Ramos;
Rafaela Carvalho Nascimento Silva
2012
Yes, we also can! O desenvolvimento de
iniciativas de consumo colaborativo no
Brasil
Angela Maria Maurer; Paola Schmitt
Figueiró; Simone Alves Pacheco de
Campos; Virginia Sebastião da Silva;
Marcia Dutra de Barcellos
2012 Crowdfunding: estudo sobre o fenômenovirtual
Flávia Mederios Cocate; Carlos Pernisa
Júnior
Desconhecido
Os novos mecenas: um estudo sobre
crowdfunding no Brasil através das
mídias sociais
Fernanda Bruno dos Santos; e Jonice
Oliveira
2012
Cotas, coletivos e crowdfunding:
alternativas para publicação e
estratégias de sobrevivência no mercado
editorial
Pablo Guimarães de Araújo
2013
Inteligência estratégica antecipativa
coletiva e crowdfunding: aplicação do
método L.E.SCAnning em empresa
social de economia peer-to-peer (P2P)
Mery Blanck; Raquel Janissek-Muniz
Desconhecido Crowdfunding no brasil: possibilidades
teóricas para o sucesso do
financiamento coletivo realizado via
Jorge Santiago Carvalho Sequeira
174
redes sociais digitais
2012
A aplicação do crowdfunding e da
aprendizagem baseada em problemas
em projetos acadêmicos colaborativos
Arthur de Moura Del Esposte; André
Barros de Sales; Marcelino Monteiro de
Andrade
2011
O fenômeno do crowdfunding: uma
revolução na forma como viabilizamos
projetos e transformamos a sociedade
Eduardo Sangion; Felipe Matos
2012 Crowdfunding: entre as multidões e ascorporações Erick Felinto
2012
A abordagem sistêmica para o
crowdfunding no brasil: um estudo
exploratório – visão sistêmica dos
negócios
Wellington Santos Silva; Juliana Cristina
de Freitas
2014
A cultura participativa e o crowdfunding:
um estudo sobre a influência dos fãs no
financiamento de projetos
Paula Toledo Palomino
2013
Crowdfunding e indústria cultural: as
novas relações de produção e consumo
baseadas na cultura da participação e no
financiamento coletivo
Vanessa Amália Dalpizol Valiati
2014
“De Westeros no #vemprarua à
shippagem do beijo gay na TV
brasileira”. Ativismo de fãs: conceitos,
resistências e práticas na cultura digital
brasileira
Adriana Amaral; Rosana Vieira de Souza;
Camila Monteiro
2013 Multidão e arte: o financiamento coletivode obras audiovisuais Vanessa Amália Dalpizol Valiati
2014
O crowdfunding e o Estímulo aos
Produtos Culturais Através das Redes
Sociais
Bartos Bernardes; Rafael Lucian
2014
Os públicos fazem o espetáculo:
protagonismo nas práticas de
financiamento coletivo através da
internet
Márcio Simeone Henriques; Leandro
Augusto Borges Lima
2012 Crowdfunding: as possibilidades definanciamento colaborativo da cultura Yuri Almeida
2012
Crowdfunding: O Financiamento Coletivo
como Mecanismo de Fomento à
Produção Audiovisual
Vanessa Amália Dalpizol VALIATI; Roberto
TIETZMANN
Apêndice B
Dados de novembro/2010 até fevereiro/2011
Nome dos usuários participantes do blog
Paulo Surikate, Silvitakey, Galileu Paiva Brasi, Lafaiete, Sérgio, ROMULO,
amarczew, Cris, Selma dos Santos, Malu de Sá, Guina Briotto, "jamaica",
JOSÉ GARCIA, jefognoatto, idpol, Clodoaldo Karninke, Maria Tereza,
Sergio Freire Oliveira, Josmarcosr3, Antonio Marcos Coelho, Wilker
175
Amorim Gomes, forex broker reviews, Luiz Alfredo Momi, Alan, vlacerda,
Maikon Richardson, PID, Jbrebequi, Bernardo Arnaud, Gabriela Carvalho,
Eliandro, Carlos Salles, Troquetoque, Cabralrep, Johnie, XS Cadastro, Alex
Sander, Ljbarrosol, Juniorxow, Rena, Juli Silva, Dito Passos, Pedroaltro,
Paulo J C Pires, Philiamento, Peixadas.com Blumenau, Mariana,
lucascavalcante, Samantha, Diegoborin13, Diego Reeberg, Jaselevi,
Estavao, Daniel, Narcelio Ferreira, tonylampada, Marco Túlio, Jazielciro,
Roberto, Larissa Soares, Edson Fernandes, joelson miranda, Diego Borin
Reeberg (moderador), Caio Franco, Seizo, José de Andrade Freitas,
Rafaelniro, Guilherme, danielwienmann (moderador), Eduardo, Rafael
Queres, Renan Gameiro, Import Coletivo, Felipe Matos, Isac, Diogo Publio,
Thiago Tda, Guilherme Locatelli, Roger Bussolin, Denise Scótolo, Marcio
Freitas Filho, Eric, Tati Leite, André Gabriel, Kingstonek7, Pedro Belleza,
Catarse, Tiago Amaral, Edu Sangion, Ivana Beltrão, Leonardo Guidetti,
Rodrigo_braga, Rafael Zatti, ROSE, Gilberto Rocha da Silva, sofiafilosofica,
Armando_nog, Renato Farias, Otto Heringer, Paulo Portinari, Jucacrvg,
Carlos Bill, Luis Otávio, Lenon, Paolo Petrelli, Rogerio Gomes,
guibarros2007, Gustavo, Cleyton, Erickjung, Finkjr, Benoit Simeray, Patricia
de Vasconcelos Rodrig, andressa, Camel Assumpcao, Kamagra,
Rededobemcomum, Daniel Assumpcao, guimosaner, Fernando Teixeira da
Silva, Deciomac, Thiago Chaer, Fernando, FaMa, Bia Oliveira, Caroline
Pellegrino, MarinaBarros, Marina Barros, Luís Otávio Ribeiro, luisofribeiro
(moderador), "NATO" AZEVEDO, nelio meira, Aline Carvalho, Marco
Amarelo, Anderson, plexo, promove
Nome dos usuários participantes do grupo
Roberto Fermino, Daniel Weinmann, Rafael Zatti, Renan Carvalheira,
Eduardo L'Hotellier, Felipe Matos, Nicholas Romão Kneip, Gian Carlo, Yuri
Gitahy, Diego Reeberg, Rafael Barbolo Lopes, Tomás de Lara | Engage,
Paolo Umberto Petrelli, Edu Sangion, Mateus Pinheiro, Luis Otávio Ribeiro,
Guilherme Augusti Negri, Gustavo Carneiro, Juan Bernabó, Rafael Queres,
Nati, tcha-tcho, Jose Edson, Narcelio Ferreira, Guilherme Rodrigues, André
Gabriel, Luiz Henrique Rauber Rodrigues, Maurilio Alberone, Vinícius
Aragão, Alejandro Olchik, SeiZo, Fernando Doege, marina, Luciano Santa
Brígida, Sílvia Tardin, ferna...@hotmail.com, Mirelle Martins, Leonardo
Cazes, Ibrahim Cesar, Marcio Freitas Filho, Marcus Vinicius Bonfim,
Fernando Andrés Freitas, MD, Joedes, Ricardo Motta, Danillo Nunes,
Eduardo Sangion, Fabrício Ferrari de Campos, tregismoreira, Rede do Bem
comum, Izildo Souza, Luiz Daluz, Microbio GravaSons, Carlos Filho,
SilasRM, Rodrigo Maia, Paulo Marini, Thiago Maia (multidão), Jorge
Quintão Jr, ARTZ, Felipe Bagetti, jreis, Embolacha, rvertulo, Gabriel Folha
176
Dados de novembro/2010 até fevereiro/2011
Tags utilizadas relacionadas aos artigos do blog
Crowdfunding, peer-to-peer lending, social lending, empréstimos,
microfinanças, moda, jornalismo, doação, pesquisa científica, problemas
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Queremos, música, Belle and Sebastian, inovação, inovadores, rede,
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aberto, Catarse, plugin, colaboração
Apêndice C
Questões para o Catarse
1 ) De acordo com a página Termos de uso da plataforma, a natureza jurídica do
Catarse é uma Sociedade Limitada, no entanto existem dois tipos de sociedade
limitada. O Catarse é uma sociedade empresária limitada? Se não for, qual é a
natureza jurídica da entidade?
2 ) Quem são os atuais sócios do catarse e que cargo ocupa cada um?
(ex: sócio-administrador, administrador, presidente, etc)
3 ) Como é organizada a equipe da plataforma? Quais são as tarefas cotidianas da
equipe?
4 ) Existe um organograma que explique como funciona a equipe do Catarse?
177
5 ) Como é feita a gestão da equipe tendo membros que não moram na mesma
cidade? Vocês se falam diariamente? Existe uma lista de email, grupo, ou afim?
6 ) Quais atividades (serviços) o Catarse pode exercer ou prestar?
7 ) Existem tributos, em forma de impostos, sobre o valor pago por um apoiador na
plataforma Catarse?
8 ) Ao pesquisar no blog Crowdfunding BR, descobri que os apoiadores fazem
doações, ao invés de pagar por um serviço ou produto oferecido pelo projeto
apoiado. Qual o motivo dessa escolha? Como funciona esse sistema de doações?
9 ) O dinheiro arrecadado dos apoiadores é depositado onde? Em um fundo? Na
conta do Catarse? Na conta da empresa responsável pelos pagamentos?
10 ) Qual o valor máximo que um criador de projeto pode arrecadar junto a
plataforma Catarse?
11 ) Qual foi o valor total arrecadado por ano, desde a criação da plataforma em 17
de janeiro de 2011?
12 ) Quantos projetos foram inscritos por ano, desde a criação da plataforma até o
final de 2015?
13 ) Quantos projetos inscritos foram financiados por ano desde a criação da
plataforma até o final de 2015?
14 ) Quantos usuários apoiaram os projetos financiados no Catarse por ano, desde a
criação da plataforma até o final de 2015?
15 ) Qual o valor total arrecadado em cada ano, desde a criação da plataforma até o
178
final de 2015, na categoria Cinema e Vídeo?
16 ) Quantos projetos foram inscritos por ano, desde a criação da plataforma até o
final de 2015, na categoria Cinema e Vídeo?
17 ) Quantos projetos foram financiados por ano desde a criação da plataforma até o
final de 2015, na categoria Cinema e Vídeo?
18 ) Quantos usuários por ano apoiaram projetos financiados da categoria Cinema e
Vídeo desde a criação da plataforma até o final de 2015?
19 ) É possível ter acesso a uma planilha com dados dos projetos da categoria
Cinema e Vídeo? (os dados que preciso são os seguintes: nome do PROJETO,
nome do CRIADOR DO PROJETO, prazo de captação - 30 dias, 45 dias, etc - data
que foi financiado o projeto, valor solicitado, valor arrecadado, número de usuários
que apoiaram, número de apoios feitos por esses usuários, cidade do projeto, UF do
projeto, quantidade de recompensas oferecidas pelo projeto, texto de cada
recompensa do projeto, orçamento do projeto)
179
Anexo
Anexo A
Sumário da Central de suporte
Sobre o Catarse
O que é e como funciona o Catarse?
Por que é Tudo ou Nada?
Por que usar o Catarse?
Quanto custa para usar o Catarse?
Quem pode enviar um projeto para o Catarse?
De onde vem o dinheiro que financia os projetos?
Dá muito trabalho captar recursos dessa maneira?
Como fica a questão dos direitos autorais dos projetos?
Posso baixar a logo do Catarse?
Como funciona a modalidade Flex? (em fase de testes)
Como funcional a modalidade Tudo ou Nada?
Problemas de acesso - Limpeza de cookies
Usuários - Seu perfil no Catarse
Posso deletar minha conta?
Não quero receber as Novidades dos projetos
Como eu edito as informações do meu perfil?
Esqueci minha senha. Como faço para atualizá-la?
Como faço para me cadastrar no Catarse?
Projeto em RASCUNHO ou em ANÁLISE
Adicionar imagens e vídeos à descrição do projeto
Como criar / editar / deletar uma recompensa no projeto?
Como deve ser o VÍDEO principal do meu projeto?
180
Como enviar um projeto?
Como escrever a descrição do meu projeto?
Como o Catarse analisa os projetos?
Diretrizes para criação de projetos
Em quanto tempo meu projeto pode ir ao ar?
Enviei o projeto há mais de 4 DIAS ÚTEIS e não me responderam!
Eu posso ter mais de um projeto no ar ao mesmo tempo?
Itens obrigatórios da página de projeto
O que acontece se eu arrecadar mais do que a minha meta?
O que é a aba MINHA CAMPANHA?
O que levar em conta para definir a minha META?
O que pode ser editado no projeto?
O que são as RECOMPENSAS?
Quanto tempo o meu projeto pode ficar no ar?
Projeto aprovado ou no ar:
Como entender o gráfico Origem de Apoios e adicionar refs à sua
comunicação?
Promovendo seu projeto
Como saber se a minha arrecadação está indo bem?
O que pode ser editado no projeto?
Apoios pendentes / pending
O que é a aba RELATÓRIOS DE APOIOS?
O que é a aba NOVIDADES?
Como usar a aba COMENTÁRIOS?
Onde está a página do meu projeto dentro do Catarse?
Como são definidos os destaques no site?
Por que o Catarse não se compromete a divulgar meu projeto?
Posso encerrar a minha arrecadação antes do prazo esgotar?
Posso cancelar minha arrecadação?
A página do meu projeto pode ser deletada do Catarse?
Projeto financiado ou não-financiado:
FINANCIADO | Como será feito o repasse do dinheiro?
FINANCIADO | Tenho que pagar impostos?
FINANCIADO | O Catarse emite Nota Fiscal?
181
FINANCIADO | Prestação de contas
FINANCIADO | Gerenciar a entrega de recompensas
FINANCIADO | Acesso aos dados dos meus apoiadores
NÃO-FINANCIADO | O que acontece agora?
NÃO-FINANCIADO | Segunda chance
Apoiar e escolher uma recompensa
O Teatro Mágico - Principais perguntas e respostas
Problema/erro/bug ao apoiar projeto
Como apoiar um projeto?
Pagamento não concluído // Alterar forma de pagamento
Eu posso mudar a recompensa que escolhi
Quais informações o realizador recebe dos seus apoiadores?
Meu apoio pode ser abatido do Imposto de Renda?
Apoio / pagamento não confirmado pelo Catarse
Aumentar ou diminuir o valor de um apoio
Posso fazer um apoio anônimo?
O valor do meu apoio é público?
Apoiadores internacionais/ International backers
Pessoa jurídica pode apoiar projetos?
Segurança das transações
Posso escolher mais de uma recompensa?
Recompensas esgotadas
Reembolsos e créditos
Regras e funcionamento dos reembolsos / estornos
E seu eu apoiar um projeto e ele não atingir a meta?
Quantos créditos eu tenho?
Como usar meus créditos?
Projeto finalizado e entrega de recompensas:
Alteração de endereço para entrega da recompensa
Como eu sei se o projeto que eu apoiei foi bem-sucedido?
O que fazer quando o projeto que eu apoiei é financiado, mas não é
realizado de acordo com a proposta?
Como vou receber minha recompensa?
Dúvidas:
182
Quais os riscos de apoiar um projeto?
Como tiro dúvidas sobre determinado projeto?
Como posso colaborar com um projeto sem ser financeiramente?
Catarse Flex:
Quais as principais diferenças entre o Tudo ou Nada e o Flex?
Como definir o prazo no Catarse flex?
Regras para a fase de teste do Catase Flex
Catarse flex - Principais perguntas e respostas
Catarse's Open Source Code
Does Catarse have an white label product?
Where can I find Catarse's open source code?