UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO CARLOS CENTRO DE CIÊNCIAS EXATAS E DE TECNOLOGIA PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ENGENHARIA DE PRODUÇÃO ELLENISE ELSA EMÍDIO BICALHO ROTINAS DE REVISÃO NO PROCESSO DE GERAÇÃO E ADOÇÃO DE TECNOLOGIAS NA CAFEICULTURA: ESTUDOS DE CASOS SÃO CARLOS 2011 UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO CARLOS CENTRO DE CIÊNCIAS EXATAS E DE TECNOLOGIA PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ENGENHARIA DE PRODUÇÃO ELLENISE ELSA EMÍDIO BICALHO ROTINAS DE REVISÃO NO PROCESSO DE GERAÇÃO E ADOÇÃO DE TECNOLOGIAS NA CAFEICULTURA: ESTUDOS DE CASOS Dissertação apresentada ao Programa de Pós Graduação em Engenharia de Produção da Universidade Federal de São Carlos, como parte dos requisitos para obtenção do título de Mestre em Engenharia de Produção. Orientação: Prof. Dr. José Flavio Diniz Nantes SÃO CARLOS 2011 Ficha catalográfica elaborada pelo DePT da Biblioteca Comunitária da UFSCar B583rr Bicalho, Ellenise Elsa Emídio. Rotinas de revisão no processo de geração e adoção de tecnologias na cafeicultura : estudos de casos / Ellenise Elsa Emídio Bicalho. -- São Carlos : UFSCar, 2011. 134 f. Dissertação (Mestrado) -- Universidade Federal de São Carlos, 2011. 1. Engenharia de produção. 2. Inovação tecnológica. 3. Máquinas agrícolas. 4. Cafeicultura. I. Título. CDD: 658.5 (20a) ::::. ." (f:r}; Ltf\--~~~~ PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇAO EM ENGENHARIA DE PRODUçAo UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO CARLOS DEPARTAMENTO DE ENGENHARIA DE PRODUçAo Rod. Washington Luis, Km. 235 - CEPo 13565-905 - sao Carlos - SP - Brasil FonelFax: {OI6) 3351-823613351-823713351-8238 (ramal: 232) Emai!: ppgep@dep.ufscar.br FOLHA DE APROVAÇÃO Aluno(a): Ellenise Eisa Emídio 8icalho DISSERTAÇÃO DE MESTRADO DEFENDIDA E APROVADA EM 31/08/2011 PELA COMISSÃO JULGADORA: Pro~ sé FlávioDiniz orientad~a) PPGEP/UFS ando de Oriani e Paulillo ---.---- . --~ Prof. Dr. Luís Fernando Soares Zuin FZEAlUSP Prof. Dr. Roberto Anto io Martins Coordenador do PPGEP À minha mãe, que me ensinou ler e escrever. AGRADECIMENTOS Agradeço, primeiramente, ao meu Anjo da Guarda por me guiar nessa jornada. À minha mãe, Maria Helena, por todo incentivo e apoio. Obrigada, mãe! Aos meus irmãos, Éllida e João Antônio, pela união e força. Ao João Vitor, pelo carinho. Ao Professor Dr. José Flávio Diniz Nantes pela orientação, pelo seu apoio e seus ensinamentos, fundamentais para que este trabalho fosse concluído. Muito obrigada! Agradeço aos professores, funcionários e amigos do DEP, em especial aos amigos do GEPAI, que logo me acolheram. Ao Professor Dr. Luiz Fernando Paulillo (DEP/UFSCAR) e ao Prof. Dr. Luis Fernando Soares Zuin (FZEA/USP) pela gentileza de participar da banca de qualificação e defesa deste trabalho. Aos meus professores e amigos de Viçosa, que me incentivaram a encarar mais esse desafio e aos meus amigos „piracicabanos‟, em especial à Dri e ao Sapo. Aos meus amigos ervalenses, que mesmo estando longe, sempre torceram por mim. Aos meus amigos de São Carlos, pelos bons momentos juntos, em especial à Ana Silvia Moccellin, Carlos Eduardo Garcia, Cinthia Brigante, Felipe Honda, Gabriela Wenzel Matins, Gisele Wenzel Martins, Luiza Santos Pêgo, Sabrina Di Salvo Mastrantonio e Rosana Vieira. À Josy, minha amiga baiana, pelos cafés da tarde. Ao meu amigo gaúcho, que sempre me deu conselhos, o Leo. Aos meus vizinhos de vila pela convivência, risadas e conversas. A todos que, direta ou indiretamente, contribuíram para que mais esta etapa da minha vida fosse concluída com êxito, seja com sugestões, conselhos ou críticas. Todos foram essenciais para a formação do meu conhecimento. A CAPES, pelo auxílio financeiro. E, por fim, à UFSCAR, pela gratificante acolhida. MUITO OBRIGADA! Para ser grande, sê inteiro: nada Teu exagera ou exclui. Sê todo em cada coisa. Põe quanto és No mínimo que fazes. Assim em cada lago a lua toda Brilha, porque alta vive. Ricardo Reis – Fernando Pessoa RESUMO O objetivo do trabalho foi identificar como ocorre o processo de geração, difusão e adoção de Máquinas e Equipamentos Agrícolas na cafeicultura. Para atender a esse objetivo optou-se por uma abordagem qualitativa por meio de um estudo de caso. Foram analisadas empresas do setor e representantes de uma cooperativa de café. Os resultados mostraram que o processo de geração de Inovação Tecnológica é realizado basicamente pela própria empresa e por meio de parcerias com fornecedores e clientes. Institutos de pesquisa, concorrentes ou outras instituições não se constituíram parceiros no processo de geração de inovações. O principal motivo para a realização de atividade inovativa pelas empresas estudadas reside no alto nível de concorrência existente no setor. Outro fator considerado importante foi o atendimento às necessidades e desejos dos consumidores. Observou-se que a principal forma de difusão da inovação ocorre pela participação em feiras e eventos. A realização de testes dos produtos na propriedade dos clientes consiste em outro meio utilizado para a difusão da inovação. Do lado dos produtores de café, a difusão de ocorre por meio da troca de informações diretas e pessoais. Entre os produtores estudados a difusão de tecnologias é feita, muitas vezes, pela cooperativa através de palestras aos associados. O processo de adoção encontra diversas barreiras a serem ultrapassadas, mas dois fatores podem ser destacados: o preço da mão-de- obra e o preço de venda do café. Esses dois fatores são decisivos para a tomada de decisão do produtor. Palavras-Chave: Inovação tecnológica. Máquinas e equipamentos agrícolas. Cafeicultura. ABSTRACT The project‟s object was to identify how the generation, diffusion and adoption process of agriculture machinery and equipments occur in the coffee production. In order to achieve this goal, a qualitative approach was chosen through a case study. The sector companies and coffee cooperative members were analyzed. The results showed that the technology innovation and generation process is accomplished, mainly by the company itself and through partnership with suppliers and clients. Research institutes, competitors or other institutions did not participated in the innovation and generation process. The main reason for innovative activity accomplished by the studied companies is the high level of competition in the sector. Another factor considered important was the accomplishment of the consumer‟s necessities and wishes. It was observed that the best way of innovation diffusion take place in the participation of events and fairs. The client‟s properties products testing is another way used in the innovation diffusion. By the farmer‟s side, the diffusion takes place through the direct and personal information trade. Among the coffee growers studied, the technology diffusion takes place, many times, by the cooperative, through conferences offered to them. The adoption process meets several challenges to be overdone, but two factors can be outstanding: The labor cost and sales coffee price. These two factors are crucial for the grower making- decision. Keywords: Technological innovation. Agriculture machinery and equipment. Coffee. LISTA DE FIGURAS FIGURA 1.1 Estrutura da pesquisa ........................................................................... 20 FIGURA 2.1 Unidade de análise da pesquisa ........................................................... 23 FIGURA 3.1 Elementos do elo da corrente ............................................................... 37 FIGURA 3.2 Modelo dos cinco estágios do processo de adoção de inovações ....... 42 FIGURA 3.3 Curva S de adoção de inovação tecnológica ........................................ 44 FIGURA 3.4 Modelo integrado de difusão de inovação organizacional .................... 45 LISTA DE QUADROS QUADRO 3.1 Linhas FINEP de apoio à inovação nas empresas ............................... 61 QUADRO 4.1 Classificação das Máquinas agrícolas de acordo com a ABNT – NB-66 .................................................................................................................................. 78 QUADRO 5.1 Principais características das empresas estudadas ............................. 86 QUADRO 5.2 Atividades inovativas realizadas pelas empresas A e B ...................... 88 QUADRO 5.3 Dificuldades para realizar atividade inovativa pela empresa A e B ..... 93 QUADRO 5.4 Nível de experiência no uso de tecnologias de produto pelos produtores de café .................................................................................................. 103 QUADRO 5.5 Nível de experiência no uso de tecnologias de processo pelos produtores de café .......................................................................................................... 105 QUADRO 5.6 Fatores que influenciam na adoção de tecnologias de processo pelos produtores de café .......................................................................................................... 109 LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS ABIMAQ Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos ABNT Associação Brasileira de Normas Técnicas ANFAVEA Associação Nacional de Fabricantes de Veículos Automotores BNDES Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social CNAE Classificação Nacional de Atividades Econômicas EMATER Empresa Mineira de Assistência Técnica e Rural EMBRAPA Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária FINEP Financiadora de Estudos e Projetos IBGE Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística ICT Instituições Públicas Científicas e Tecnológicas INPI Instituto Nacional de Propriedade Intelectual IRPJ Imposto de Renda de Pessoa Jurídica IT Inovações Tecnológicas MCT Ministério de Ciência e Tecnologia MDA Ministério do Desenvolvimento Agrário MEA Máquinas e Equipamentos Agrícolas MERCOSUL Mercado Comum do Cone Sul MODERFROTA Programa de Modernização da Frota de Tratores Agrícolas Implementos Associados e Colheitadeiras MTE Ministério do Trabalho e Emprego NR Resolução Normativa OCDE Organização para Cooperação Econômica e Desenvolvimento OIC Organização Internacional do Café PINTEC Pesquisa de Inovação Tecnológica PRONAF Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar SEBRAE Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas SENAR Serviço Nacional de Aprendizagem Rural SUMÁRIO 1. INTRODUÇÃO .................................................................................................... 13 1.1. Justificativa .................................................................................................... 16 1.2. Questão de Pesquisa ................................................................................... 18 1.3. Objetivos ....................................................................................................... 18 1.3.1. Objetivo geral ...................................................................................... 18 1.3.2. Objetivos específicos .......................................................................... 19 1.4. Contribuições do trabalho ............................................................................. 19 1.5. Estrutura da pesquisa ................................................................................... 20 2. MÉTODO DE PESQUISA ................................................................................... 21 2.1. Abordagem de pesquisa ................................................................................ 21 2.2. Seleção dos casos: unidade de análise ........................................................ 22 2.3. Coleta dos dados .......................................................................................... 24 2.4. Análise dos resultados .................................................................................. 26 3. INOVAÇÃO TECNOLÓGICA .............................................................................. 27 3.1. Abordagem schumpeteriana e neo-schumepteriana ..................................... 28 3.1.1. Abordagem Evolucionista ..................................................................... 29 3.1.2. Paradigmas e trajetórias tecnológicas .................................................. 31 3.2. Geração, difusão e adoção de tecnologia ..................................................... 32 3.2.1. A geração da tecnologia ....................................................................... 37 3.2.2. Difusão e adoção da tecnologia ........................................................... 39 3.2.3. Determinantes da adoção de tecnologia na agricultura ....................... 46 3.3. Cooperação para inovação............................................................................ 49 3.4. Mecanismos de transferência de tecnologia.................................................. 55 3.5. Políticas de apoio à inovação ........................................................................ 57 3.5.1. Marco legal de incentivo à inovação pelas empresas .......................... 58 3.5.2. Políticas de apoio à aquisição de máquinas e equipamentos .............. 64 4. O SETOR DE MÁQUINAS E EQUIPAMENTOS AGRÍCOLAS ........................... 69 4.1. Descrição do setor ......................................................................................... 69 4.2. Classificação das máquinas e equipamentos agrícolas ................................ 76 4.3. Inovação no setor de MEA ............................................................................ 79 5. RESULTADOS .................................................................................................... 85 5.1. Geração de IT nas empresas de MEA .......................................................... 85 5.1.1. Caracterização das empresas fabricantes de MEA ............................. 85 5.1.2. Atividades inovativas ............................................................................ 88 5.1.3. Cooperação para inovação .................................................................. 90 5.1.4. Dificuldades para inovar ....................................................................... 92 5.2. Difusão de inovação ...................................................................................... 96 5.3. Adoção de IT por produtores rurais de café .................................................. 99 5.3.1. Caracterização dos produtores ............................................................ 99 5.3.2. Tecnologias de produto e processo utilizadas pelos produtores ........ 103 5.3.3. Atitudes dos produtores ..................................................................... 107 5.3.4. Fatores que influenciam na adoção ................................................... 108 6. CONSIDERAÇÕES FINAIS ............................................................................... 113 6.1. Limitações da pesquisa ............................................................................... 116 6.2. Sugestões de trabalhos futuros ................................................................... 116 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ....................................................................... 118 APÊNDICE 1 – ROTEIRO ENTREVISTA COM FABRICANTES DE MEA ............ 125 APÊNDICE 2 – ROTEIRO ENTREVISTA COM PRODUTORES DE CAFÉ .......... 130 13 1. INTRODUÇÃO A atividade cafeeira tem sido extremamente importante para o desenvolvimento econômico brasileiro. De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE (2011), no ano de 2009 a produção brasileira de café foi de 2,4 milhões de toneladas, redução de 12,8% em comparação com o ano anterior, devido à bianualidade existente na cultura. Cabe ressaltar que, em 2009, a região Sudeste foi responsável por 83,2% da produção nacional. A concentração da produção na região Sudeste é preocupante, pois são freqüentes as ocorrências de problemas fitossanitários ou climáticos, que comprometem significativamente a produção e a oferta do produto. Desde a sua introdução no Brasil, o setor cafeeiro passou por diversas mudanças, principalmente em decorrência de alterações na demanda externa e do processo de industrialização da economia brasileira (MOSS, 2006). Até meados da década de 70, o estado do Paraná era o maior produtor nacional de café, seguido por São Paulo, Minas Gerais e Espírito Santo. Após este período, a atividade nos dois maiores estados produtores perdeu lugar para atividades como a laranja e a cana-de-açúcar e o estado de Minas Gerais passou a ser o maior produtor nacional. Minas Gerais é o maior produtor de café do País produzindo basicamente café do tipo arábica. Em 2009, sua produção correspondeu a 49,0% da produção nacional. Em seguida, aparecem o estado do Espírito Santo e São Paulo, participando com 25,4% e 8,1%, respectivamente, em relação ao total nacional. A produção cafeeira na Bahia vem crescendo, ocupando, em 2009, a quarta posição, com 7,2%, do total nacional (IBGE, 2010). À exceção dos produtores de cafés diferenciados, os demais produtores caracterizam-se como tomadores de preço, cuja formação ocorre no mercado externo, por se tratar de uma atividade inserida em um mercado de commodity, voltada para a exportação. Além disso, o período de safra e entressafra influencia na formação do preço do produto. De acordo com Moss (2006), o preço do grão no período de entressafra é maior. Contudo, grande parcela dos produtores vende sua produção no período de safra, devido à falta de recursos para estocagem e para realizar a colheita na entressafra. Essa situação se justifica em razão de parte considerável da 14 produção de café no Brasil, cerca de 60%, ser obtida por meio da produção familiar, com baixa escala de produção e sujeitos ao poder de barganha, seja na hora de comprar insumos ou no momento de comercializar a produção. De fato, a compra de insumos ocorre no varejo, de acordo com as condições financeiras do produtor, enquanto a comercialização do café muitas vezes é feita por meio de intermediário. Tais fatores limitam a rentabilidade do produtor, que não tem condições de negociar melhores preços na compra de insumos, nem na comercialização da produção. Como conseqüência, o produtor perde a capacidade de investir na atividade, acarretando reduções na produtividade e na produção. A sucessão desses eventos acarreta um ciclo vicioso na atividade. Mesmo com essas dificuldades internas, pode-se notar a representatividade do Brasil no contexto internacional. De acordo com dados da Organização Internacional do Café - OIC (2010), o Brasil é o maior produtor mundial de café, cuja produção em 2010 alcançou 48,1 milhões de sacas (60kg), representando 36,1% do total mundial. Além do bom desempenho apresentado pelo setor produtivo, o Brasil é o maior exportador mundial de café em grão. No entanto, outros países vêm aumentando suas participações na produção e nas exportações. Um exemplo é o Vietnã, que atualmente ocupa o segundo lugar entre os maiores produtores e exportadores mundiais. O mercado externo do café é muito competitivo e tem se tornado cada vez mais exigente, buscando produtos com qualidade superior e com maior valor agregado. Com isso, para manter e aumentar a participação no mercado internacional é preciso aumentar a eficiência e eficácia da produção nacional. Uma das formas de aumentar o desempenho no setor produtivo é adotar tecnologias mais avançadas. Esse novo cenário da cafeicultura, somado a queda nos preços ocorrida a partir do ano de 2000, implicou na busca pela diferenciação dos produtos. Oliveira (2007) relata que a qualidade do produto final representa um dos grandes gargalos enfrentados pela atividade no Brasil. A qualidade passou a ser essencial. Alguns esforços têm sido realizados para melhorar a imagem do produto no mercado internacional, com destaque para o uso intensivo de novas tecnologias, uma vez que a qualidade dos grãos não depende somente dos tratos culturais, mas dos cuidados durante a colheita e pós-colheita. Um exemplo do uso 15 de tecnologia na cafeicultura ocorreu no Café do Cerrado, cujas técnicas de produção são mais modernas quando comparadas às tradicionais regiões produtoras de café. Como resultado do uso de tecnologias mais avançadas, a região tem apresentado ganhos de produtividade e reconhecimento pela qualidade do seu produto. Na cafeicultura, a qualidade do produto é fator fundamental para garantir a competitividade. Apesar de ser clara a importância da tecnologia para garantir a competitividade do setor, os produtores de café são conservadores quanto ao modo de produção. Quanto maior a tradição e o tempo na atividade, mais conservadores são os produtores e menor é a disposição em adotar novas tecnologias, o que explica o uso de técnicas ultrapassadas por muitos produtores deste setor. O contexto em que se insere a cafeicultura indica que o uso de novas tecnologias pode tornar o setor mais competitivo, no sentido de atender as demandas do mercado interno e, sobretudo, as exigências do mercado internacional. Dentre as diversas tecnologias possivelmente utilizadas pela cafeicultura, destacamos as máquinas e equipamentos agrícolas (MEAs), que, normalmente, são produtos mais difíceis de serem adotadas, quando comparadas a adubos, fertilizantes, dentre outros desta natureza, devido alto custo de investimento, mas que podem gerar retornos significativos para o produtor. Nesse sentido, entender como são geradas as MEAs é fundamental para obter as razões pelos quais os produtores adotam ou não determinada tecnologia. O setor de máquinas e equipamentos agrícolas inova pouco ainda (LUCENTE e NANTES, 2009). Justifica-se que os principais motivos constituem os altos custos envolvidos na geração e uma inovação tecnológica (IT), o tradicionalismo por parte do produtor quanto aos modos de produção e o alto risco envolvido. No processo de geração de IT não há certeza sobre os resultados, uma vez que, segundo Possas (1988), a racionalidade dos agentes é limitada, o que leva as empresas inovadoras a adotarem medidas de rotinas para a realização de tomadas de decisão e no esforço inovador. Conforme Cário (1995), as rotinas constituem o modo de fazer coisas e de decisão realizado no dia-a-dia com base nas 16 experiências e habilidades adquiridas; são decorrentes do acúmulo de conhecimento adquirido com a prática e que não podem ser transferidas de modo codificado. Assim, neste trabalho serão estudados dois segmentos da cadeia produtiva do café. O setor de insumos, responsável pela geração e difusão das inovações tecnológicas realizadas em máquinas e equipamentos agrícolas e o segmento de produção de café, público alvo dessas empresas, formado por produtores rurais que decidirão sobre a adoção dessas inovações. 1.1. Justificativa O agronegócio brasileiro apresenta grande importância para a economia brasileira, participando significativamente no montante do PIB nacional e no valor total exportado (NOGUEIRA, 2001). Verifica-se, entretanto, que há grande intervenção por parte dos países desenvolvidos a fim de proteger sua produção agrícola e o mercado local. Nesse contexto, para manter a viabilidade da produção brasileira, torna-se necessário aumentar a escala e conseqüentemente reduzir os custos. A incorporação de tecnologia no processo de produção representa uma das formas de se alcançar esse objetivo. SANTINI et al. (2006) destacam a importância da questão tecnológica frente às diversas mudanças, tanto econômica como políticas, que ocorreram no cenário mundial. Tais mudanças levaram a agricultura a adotar novos padrões de desenvolvimento e de progresso técnico. Dentre as diversas maneiras de adoção de tecnologia no setor rural, a mecanização destaca-se como uma das mais importantes. O processo de inovação tecnológica possibilita a inserção das empresas no mercado, bem como a manutenção de suas participações, atendendo as necessidades específicas de cada setor a preços acessíveis aos consumidores (SIMÕES et al., 2006). Quanto mais tecnologias forem incorporadas a um produto, maior é a probabilidade de se obter sucesso quando comparados àqueles produtos com pouca diferenciação ou pouco valor agregado (NANTES e LUCENTE, 2009). 17 Nogueira (2001) ressalta a importância da utilização de máquinas e equipamentos agrícolas como fonte de geração de receitas, ao constatar a existência de uma forte predominância do desenvolvimento econômico como fator associado à mecanização da agricultura. A mecanização de diversas atividades do processo produtivo, desde a fase de preparação do solo até a colheita, exerce papel fundamental no aumento produção agrícola, seja por aumento da área plantada ou da produtividade. As máquinas e equipamentos agrícolas também exercem papel muito importante na pós-colheita do café. Em relação ao setor de máquinas e equipamentos agrícolas, Nantes e Lucente (2009) relatam que apesar da importância da inovação para a manutenção da competitividade das empresas, o setor nacional de MEA inova muito pouco. A justificativa para o baixo nível de inovação por parte dessas firmas está no alto custo de desenvolvimento e na característica conservadora dos produtores rurais em relação à inovação, dificultando a colocação de novos produtos no mercado. Também podem ser citados os elevados riscos associados à economia do País (SIMÕES, et al., 2006). No setor cafeeiro, a situação não é diferente. Santos et al. (2009) destacam a importância do setor de máquinas e equipamentos agrícolas para a cafeicultura, fornecendo insumos específicos para a atividade, como por exemplo, colheitadoras e descascadores do grão. Devido às exigências do mercado consumidor por produtos de qualidade superior, nota-se aumento do uso de máquinas e equipamentos a fim de manter a qualidade e obter um produto padronizado. Desta forma, este trabalho pretende identificar como ocorre o processo de geração, difusão e adoção de tecnologias no segmento de insumos e de produção do café. A partir desse entendimento será possível propor ações que estimulem processos inovativos, possibilitando maior competitividade para a indústria e para os produtores rurais. 18 1.2. Questão de pesquisa Segundo Lakatos e Marconi (1995), o problema de pesquisa tem por finalidade limitar a pesquisa. Problemas muito complexos dificultam o desenvolvimento da pesquisa, enquanto problemas bem delimitados tendem a facilitar a execução da pesquisa. O problema de pesquisa pode ser expresso sob a forma de uma questão (YIN, 2002). A construção do problema deve indicar as variáveis prévias a serem estudadas, especificando-o de modo detalhado, com clareza, concisão e objetividade. Nesse trabalho, o problema de pesquisa pode ser delimitado por duas questões de pesquisa: 1.3. Objetivos De acordo com o problema identificado e com a questão de pesquisa, foram formulados os seguintes objetivos geral e específicos. 1.3.1. Objetivo geral O objetivo geral deste trabalho é identificar como ocorrem os processos de geração, difusão e adoção de IT em MEA na cafeicultura. 1. Como ocorre o processo de geração e difusão da inovação tecnológica em empresas fabricantes de máquinas e equipamentos agrícolas para a produção de café? 2. Quais os determinantes da adoção de inovações tecnológicas em MEA pelos produtores de café? 19 1.3.2. Objetivos específicos O objetivo geral deu origem aos seguintes objetivos específicos:  Identificar como ocorre a geração de Inovação Tecnológica em empresas fabricantes de MEA e as principais dificuldades encontradas;  Verificar como ocorre a difusão da Inovação Tecnológica dos fabricantes de MEA para os produtores de café; e  Identificar as principais barreiras para a adoção de Inovação Tecnológica pelos produtores de café. 1.4. Contribuições da pesquisa Espera-se com este trabalho contribuir para o entendimento de como são geradas as IT em empresas fabricantes de MEA, entender como as tecnologias são difundidas aos produtores rurais pelas empresas fabricantes e identificar as principais barreiras para a adoção das inovações encontradas pelos produtores. O entendimento de tais processos poderá auxiliar na formulação de políticas públicas e privadas de incentivo ao desenvolvimento destas tecnologias pelas empresas fabricantes e à adoção das inovações pelos produtores rurais. Na realidade, os dois segmentos da cadeia produtiva do café, insumos e produção rural, constituem-se em fabricante e usuário de produtos novos ou aperfeiçoados. Por esse motivo, a relação entre ambos deveria ser mais estreita, uma vez que o trabalho do primeiro segmento visa atender diretamente ao segundo. A dissertação pretende contribuir no sentido de gerar informações para que esses segmentos se aproximem, e juntos possam contribuir para o aumento da competitividade da cadeia produtiva do café. 20 1.5. Estrutura da pesquisa A pesquisa está estruturada conforme apresentado na Figura 1.1. Capítulo I: INTRODUÇÃO Justificativa; questão de pesquisa; objetivos geral e específicos; estrutura; e contribuição da pesquisa. Capítulo II: MÉTODO DE PESQUISA Escolha do método; Seleção dos casos; Coleta dos dados e análise dos resultados. Capítulo III: INOVAÇÃO TECNOLÓGICA Abordagem Shumpeteriana e neo-shumpeteriana; Geração, difusão e adoção de IT; Políticas de apoio; Mecanismos de transferência. Capítulo IV: MÁQUINAS E EQUIPAMENTOS AGRÍCOLAS Descrição setor; Classificação das máquinas agrícolas; Inovações no setor. Capítulo V: APRESENTAÇÃO DOS CASOS Geração e difusão das IT em empresas fabricantes de MEA; Difusão da IT e adoção pelos produtores de café. Capítulo VI: CONSIDERAÇÕES FINAIS REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS APÊNDICE 1: Roteiro de entrevista: indústrias de MEA APÊNDICE 2: Roteiro entrevista: produtores rurais FIGURA 1.1 - Estrutura da pesquisa 21 2. MÉTODO DE PESQUISA Este capítulo apresenta o tipo de abordagem de pesquisa escolhida para a dissertação e a justificativa para essa escolha. Também faz parte do capítulo, a seleção dos casos incluindo os segmentos da cadeia produtiva, dos quais fazem parte as organizações que participam da pesquisa. O procedimento de coleta de dados apresentados a seguir indica como a pesquisa obteve as informações necessárias ao atendimento aos objetivos propostos. 2.1. Abordagem de pesquisa De acordo com a questão de pesquisa, pode-se classificar este estudo como sendo de natureza descritiva, pois o objetivo é identificar como ocorre o processo de geração, difusão e adoção de inovações tecnológicas em empresas fabricantes de MEAs, especificamente para a cafeicultura. A pesquisa descritiva busca identificar e descrever a ocorrência de fenômenos em determinada população ou o estabelecimento de relações entre as variáveis, sem nela interferir ou modificá- la. Além disso, não há o compromisso de explicar a ocorrência de fenômenos, embora este tipo de pesquisa sirva como base para tal. As pesquisas podem ter duas abordagens distintas: quantitativa e qualitativa. Nessa pesquisa, a abordagem será qualitativa, pois de acordo com Bryman (1989), a pesquisa qualitativa objetiva mostrar o que é mais importante para o indivíduo e suas interpretações dentro do ambiente no qual está inserido. Ressalta-se que a diferenciação entre as duas abordagens não se restringe ao fato de elas utilizarem métodos de coleta de dados diferentes, mas por utilizarem caminhos diferentes de conhecimento. Dentre os métodos de pesquisa qualitativa, o estudo de caso foi o procedimento escolhido, uma vez que o pesquisador não possui controle sobre os fatos ocorridos. Além disso, o trabalho não tem como objetivo estudar eventos históricos, mas sim contemporâneos (VOSS et al., 2002). Embora o tipo de questão 22 não seja a melhor alternativa para se justificar um método, este trabalho busca estudar questões do tipo “como” e “por que”. O estudo de caso pode ser único ou múltiplo. De acordo com Voss et al. (2002), um número menor de casos permite a realização de uma investigação em maior profundidade. Entretanto, a realização de casos únicos apresenta algumas limitações, como a dificuldade de generalização dos resultados e risco de julgamento errado acerca dos fatos. Assim, optou-se pela realização de múltiplos casos, uma vez que essa questão pode ser minimizada quando há a realização de um número maior de casos, permitindo o cruzamento dos resultados. Cabe considerar que a realização de múltiplos casos reduz a profundidade do estudo quando há restrições de recursos, em contrapartida, aumenta a validade externa e minimiza o viés do entrevistador (VOSS et al., 2002). 2.2. Seleção dos casos: unidade de análise A cafeicultura é uma atividade importante para o agronegócio brasileiro, entretanto, a partir do início da década de 90 ocorreram mudanças significativas na produção nacional como a redução das exportações. Outra mudança é o surgimento de novas regiões produtoras. A migração da produção tem ocorrido em direção a regiões que permitem a mecanização da produção. Nessa pesquisa, foram escolhidos para investigação dois segmentos da cadeia agroindustrial do café: o segmento de insumos e o de produção agrícola (Figura 2.1). A escolha se justifica pelo fato de esses segmentos serem fundamentais para garantir a qualidade do produto no final da cadeia, condição essencial para a permanência dos produtores nos mercados atuais e por possibilitar o ingresso em mercados ainda não explorados. No segmento de insumos para a cafeicultura, optou-se por analisar o setor de máquinas e equipamentos agrícolas, devido a possibilidade de aumentar a competitividade da atividade a partir da mecanização dos processos produtivos e por permitir a economia de fatores de produção, principalmente quando estes são escassos, como é o caso da mão-de-obra. 23 Figura 2.1 - Unidade de análise da pesquisa De acordo com Yin (2005), em pesquisas de estudo de caso não é utilizada a técnica de amostragem para definição dos casos a serem analisados. Com isso, a escolha do número de empresas a serem entrevistadas foi feita de modo intencional. (I) Fabricantes de máquinas e equipamentos agrícolas No segmento de insumos foram selecionadas duas empresas fabricantes de máquinas e equipamentos agrícolas. A escolha destas empresas foi feita com base na atuação de cada uma na cafeicultura. Nesse segmento, as empresas desenvolvem e comercializam produtos destinados a atender diversas atividades produtivas, no entanto, o critério de escolha considerou que a empresa tenha na cafeicultura sua atividade principal. A empresa A se destaca pela fabricação de implementos agrícolas, como roçadeiras e pulverizadores, além da produção de tratores, fabricados especificamente para a atividade cafeeira. A empresa B é referência na fabricação de produtos voltados para a cafeicultura, como colheitadeiras e pulverizadores. 24 (II) Produção rural O segmento de produção de café na realidade representa o consumidor final das inovações produzidas pela indústria de máquinas e equipamentos agrícolas. Na cafeicultura, para garantir que o produto chegue ao consumidor com qualidade, é necessário que toda a cadeia produtiva invista em qualidade. Este procedimento inclui cuidados durante todo o processo produtivo, iniciando-se com os tratos culturais, estendendo-se até a colheita e pós-colheita. Para a realização da pesquisa de campo foi escolhida uma cooperativa de cafeicultores, localizada no interior do Estado de Minas Gerais. A escolha da cooperativa se deu de forma intencional devido à tradição da empresa, sua representatividade no setor e atuação em diferentes regiões produtoras. Atualmente, a cooperativa possui mais de dez mil cooperados e realiza atividades de compra, processamento e armazenamento do café das regiões do Sul e Cerrado do estado de Minas Gerais e região leste do estado de São Paulo. Foram entrevistados os principais representantes da cooperativa, dentre eles, o presidente, o vice-presidente e três superintendentes, responsáveis pela área comercial, desenvolvimento cooperado e pelo setor de finanças. Além desses técnicos, foi também entrevistado um produtor de café líder na região, indicado pela cooperativa. A escolha dos entrevistados foi feita com base na indicação dos representantes da cooperativa, devido ao conhecimento que os mesmos possuem da atividade, no que diz respeito ao processo de difusão e adoção de tecnologias na região. 2.3. Coleta dos dados Bryman (1989) relata que em pesquisas que utilizam a abordagem qualitativa existem duas técnicas para realização da coleta de dados: observação participante, na qual o entrevistador participa da organização por um período de tempo considerável; e entrevista semi-estruturada, na qual o roteiro serve para orientar o pesquisador na hora da entrevista, possuindo, portanto, a vantagem de 25 tornar a pesquisa flexível (YIN, 2005). Diante disso, optou-se nessa pesquisa, por realizar entrevistas semi-estruturadas, com o intuito de coletar apenas informações de terceiros. Os dados coletados foram provenientes de fontes primárias e secundárias. As principais fontes secundárias, diretamente relacionadas ao setor de MEA, foram as de instituições como ANFAVEA E ABIMAQ. Também foram consultadas teses, dissertações e periódicos voltados à inovação tecnológica em geral e, especificamente, para as cadeias produtivas agroindustriais. A coleta de dados primários foi feita através da realização de entrevistas semi-estruturadas. Foram realizadas entrevistas com representantes do setor de Desenvolvimento de Inovações Tecnológicas das duas empresas do setor de máquinas e equipamentos e com os representantes de uma cooperativa de produtores de café. Para o segmento industrial foram discutidas questões relacionadas ao processo de geração e difusão de inovações. Para isso, o roteiro de entrevistados foi separado em cinco grupos de questões: (I) caracterização da empresa, (II) atividades inovativas, (III) cooperação para inovação, (IV) dificuldades para realizar atividades inovativas e (V) geração e difusão de inovação tecnológica. Os dados coletados junto aos representantes da cooperativa se relacionam ao processo de difusão e, principalmente, a adoção de inovações tecnológicas para o setor de produção de café, buscando entender como tais processos ocorrem e como proceder para torná-los mais eficientes. As questões dirigidas aos produtores rurais e representantes da cooperativa foram dispostas em seis grupos: (I) caracterização do produtor e propriedade, (II) utilização de tecnologias de produto, (III) utilização de tecnologias de processo, (IV) atitudes dos entrevistados, (V) canais de comunicação e (VI) fatores que influenciam na adoção. As questões dirigidas às empresas fabricantes de MEA e aos representantes da cooperativa fazem parte do roteiro de entrevistas e encontram-se no Apêndice 1 e 2 do trabalho. 26 2.4. Análise dos resultados A análise dos resultados será realizada em duas etapas. Na primeira, cada caso será analisado separadamente, permitindo, dessa forma, que o pesquisador entenda em profundidade a participação da empresa nos processos de inovação tecnológica. Na análise individual dos casos será realizada inicialmente a caracterização das empresas fabricantes de MEA e do segmento de produção de café. Posteriormente, será identificado como ocorre o processo de geração da IT nas empresas fabricantes de MEA e como é realizada a difusão das IT para os produtores de café. O entendimento desse processo será complementado pela posição dos produtores, responsáveis pela adoção de tais inovações. Desta forma, será possível identificar a relação entre as empresas geradoras de tecnologia e os produtores que irão se beneficiar das inovações tecnológicas. Caso essa parceria realmente ocorra, a pesquisa poderá identificar como ela é efetivamente realizada. De posse dessas informações, pretende-se discutir as dificuldades encontradas pelos dois segmentos pesquisados, procurando indicar soluções para que as inovações tecnológicas geradas sejam efetivamente utilizadas pelos produtores. 27 3. INOVAÇÃO TECNOLÓGICA A tecnologia é um importante instrumento na determinação do desempenho econômico e financeiro de qualquer negócio, pois aumenta a produtividade e cria elos a montante e a jusante da agricultura. A definição de tecnologia, entretanto, vai além dos dispositivos físicos e equipamentos, incluindo um conjunto de conhecimentos, que pode ser prático ou teórico, a expertise específica, bem como experiências passadas (DOSI, 2006). Conforme o autor, as fontes de informações, conhecimentos e inovações podem estar situadas não somente dentro da empresa, mas fora dela, o que caracteriza o processo de inovação como um processo interativo. Logo, é válido ressaltar a importância do processo de difusão de informações a respeito das novas tecnologias, de modo a dinamizar o processo inovador. De acordo com Batalha e Silva (2007: 26), “a tecnologia desempenha um papel cada vez mais importante como fator explicativo das estruturas industriais e do comportamento competitivo das firmas”. Pedroso (1999) destaca que o termo tecnologia pode ter significados diferentes, dependendo do contexto que o mesmo é utilizado. Desta forma, o autor considera três situações na qual a tecnologia possui significados diferentes: os componentes da tecnologia, o nível de análise da tecnologia e a classificação da tecnologia. No que diz respeito à classificação, a tecnologia pode ser classificada em cinco categorias e abordam a pesquisa, o desenvolvimento e a introdução das tecnologias em suas respectivas áreas. As cinco categorias são: tecnologia de processo, materiais, produtos e serviços, informação e de gestão. O processo inovativo proposto por Schumpeter é constituído de três elementos, a invenção, a inovação e a difusão (CONCEIÇÃO, 2000). Nelson e Winter (2005) e Santini et al. (2006) fazem uma distinção entre invenção e inovação. Para os autores, a inovação tem como foco a produção de um bem ou serviço por uma firma, a fim de que seja comercializada e utilizada pelos consumidores, sendo que neste caso, tanto o fabricante, quanto o consumidor são inovadores. A invenção, por sua vez, nem sempre é passível de ser produzida e comercializada. 28 Para Conceição (2000), a inovação exerce maior efeito no desenvolvimento econômico frente aos demais elementos, já que ela causa transformações além dos limites da própria tecnologia, sendo de grande importância para o surgimento de novos paradigmas tecno-econômicos. Entretanto, sem que haja difusão, uma tecnologia não terá qualquer impacto no sistema econômico que a mesma esta inserida (OCDE, 2004). 3.1. Abordagem schumpeteriana e neo-schumpeteriana A análise econômica clássica, durante muito tempo, apresentou dificuldades em trabalhar os processos de mudança tecnológica. De acordo com Possas (1988), existem dois principais motivos para tal. Primeiramente, devido ao caráter estático da teoria econômica clássica, na qual era possível realizar apenas estudos comparativos estáticos entre dois períodos ou mais, sendo inadequada para lidar com processos evolutivos, ou seja, de mudanças. E, em segundo lugar, pelo caráter multidisciplinar que a análise do processo de mudança tecnológica exige, tanto para estabelecer os efeitos, como os determinantes da mudança. O novo paradigma, conhecido como neo-schumpeteriano, surgiu a partir de críticas ao modo de análise do processo de mudança tecnológica, enfatizando os limites e a insuficiência teórica da escola neoclássica ao estudar o processo de mudança tecnológica (DOSI, 2006; MACHADO, 2007; POSSAS, 1988). Desta forma, o novo enfoque relacionado à análise econômica deverá levar em consideração mudanças tecnológicas e institucionais, centrando na dinâmica evolutiva, com base na mudança e transformação das estruturas de mercado (CONCEIÇÃO, 2000), cabendo à inovação o papel dinamizador da economia capitalista (POSSAS, 1988). Neste contexto, o enfoque neo-schumpeteriano foi dividido em dois grupos de estudo, ambos seguindo a mesma linha de pensamento. Nelson e Winter (2005) focaram seus estudos na abordagem evolucionista. Outros, como Freeman, Perez, Pavitt e Dosi, trataram de assuntos mais heterogêneos, como os aspectos estruturais do padrão tecnológico, relacionados ao paradigma tecno-econômico (POSSAS, 1988; MACHADO, 2007). 29 Após a definição da trajetória tecnológica, com a abordagem proposta por Dosi, tem-se outro processo de seleção, ex post, para o caso de inovações em produtos. Cabe ressaltar que no processo ex post o “mercado funciona como um dispositivo seletor, geralmente entre um conjunto de produtos já determinados pelos amplos padrões tecnológicos escolhidos no lado da oferta” (DOSI, 2006:50). No processo ex ante, os fatores econômicos têm a função de direcionar as escolhas entre diversas possibilidades tecnológicas. 3.1.1. Abordagem evolucionista A fim de melhor entender esse processo de seleção ex post, realizado pelo mercado, Nelson e Winter (2005) fizeram uma analogia com o processo de seleção ambiental das mutações, relatada na teoria evolucionista. A abordagem evolucionista enfatiza que a mudança econômica, tanto no que diz respeito aos aspectos técnico-produtivos, quanto em relação à estrutura e dinâmica dos mercados, ocorre de forma semelhante à evolução das espécies, levando à seleção natural das mesmas, de forma semelhante à teoria darwinista. Desta forma, a firma busca constantemente introduzir inovações, tanto de processos como de produtos, com o objetivo de se manterem competitivas no mercado que atuam. Posteriormente à busca, ocorre o processo de seleção das inovações pelo mercado, concedendo vantagem competitiva às firmas inovadoras em relação às demais, resultando em mudança econômica (CÁRIO, 1995; POSSAS, 1988). Os autores relatam que a teoria neoclássica parte de dois pressupostos básicos, no qual a interação entre firmas e mercado conduz ao equilíbrio estático; e os agentes individuais agem de modo racional, maximizando as decisões e, por conseqüência, os lucros. Nesse contexto, os pressupostos apresentados são insuficientes para explicar a dinâmica econômica. A abordagem evolucionista neo-schumepteriana constitui uma crítica em relação à abordagem neoclássica, cujo marco diferencial consiste em: 30  Desconsiderar o pressuposto equilíbrio estático em detrimento da ocorrência de desequilíbrio e assimetrias, que geram mudança estrutural; e  Desconsiderar a racionalidade dos agentes, uma vez que há presença de incertezas relacionadas ao processo de tomada de decisões e no esforço em inovar. Para Cário (1995), a justificativa para a existência de desequilíbrios ocorre pelo fato do processo de busca por inovações pelas firmas e de seleção das inovações pelo mercado ser dinâmico, na qual os resultados são obtidos com o tempo, sem nenhuma garantia que o mercado irá “aprovar” as estratégias realizadas pelas firmas relacionadas de forma a atingir o equilíbrio. A presença de incerteza no processo inovador se dá devido ao fato de que não há garantia de resultado positivo decorrente da adoção de uma inovação tecnológica uma vez que há presença de racionalidade limitada. A racionalidade dos agentes não induz à maximização das decisões, de forma clara e evidente, mas à adoção de rotinas nas decisões, a fim de reduzir as incertezas, como resultado, redução nos riscos envolvidos na atividade. As rotinas se subdividem em rotinas do dia-a-dia, que são facilmente previsíveis, e rotinas de revisão, que podem mudar ou transformar o comportamento atual da firma. As rotinas de revisão constituem o processo de busca (de novas oportunidades que são, de modo geral, inovativas) descrito na abordagem evolucionista e que possibilita a firma obter ganhos competitivos. As rotinas de revisão correspondem ao processo de busca a fim de introduzir no mercado inovações tecnológicas. As rotinas de busca são orientadas por critérios, metas estabelecidas visando alcançar um determinado objetivo ligado à inovação. Estes processos são representados pela mudança da rotina de um comportamento. Em função da constante mudança, as rotinas existentes podem não mais servir para resolver novos problemas. Entretanto, nota-se uma crítica à abordagem evolucionista, uma vez que os fatores que não são tecnológicos e determinam o equilíbrio de mercado são negligenciados. Tal fato se justifica pela ênfase na formação dos atores na teoria do comportamento da firma, que foca o processo decisório e deixa de lado fatores condicionantes do mercado. 31 3.1.2. Paradigmas tecnológicos e trajetórias tecnológicas A abordagem proposta por Dosi, para complementar a lacuna existente na abordagem evolucionista de Nelson e Winter (2005), utiliza-se dos padrões de mudanças tecnológicas, dando ênfase às assimetrias tecnológicas e produtivas como fatores determinantes da dinâmica econômica das empresas. As assimetrias são originárias do processo de invenção e difusão de inovações tecnológicas, uma vez que há diferenças no padrão de inovatividade e no processo de difusão, pois o mesmo não ocorre de forma instantânea, gerando vantagens competitivas, fonte do lucro capitalista (KUPFER, 1996). Dosi (2006) faz uma analogia entre a noção de paradigma científico, proposto por Thomas Kuhn, e a tecnologia, originando a noção de paradigma tecnológico, que representa os programas de pesquisa tecnológica, baseados em modelos de solução de problemas selecionados e, de modo geral, predeterminados. Conforme esta abordagem, o paradigma é caracterizado pela evolução do progresso técnico, o que o autor denominou de trajetória tecnológica e “constitui o modo ou o padrão “normal” de realizar a formulação e solução de problemas específicos no interior daquele paradigma tecnológico” (POSSAS, 1988:13). Segundo Dosi (2006), grande esforço na literatura é gasto para identificar, de modo amplo, os fatores determinantes das invenções e inovações. Nota-se, entretanto, a presença de duas vertentes diferentes, denominadas por demand pull e technology push. A primeira defende que as forças de mercado são as principais determinantes da mudança técnica, enquanto a outra considera a tecnologia como um fator autônomo, ou quase autônomo, pelo menos no curto prazo. Todavia, a noção de paradigma e trajetória tecnológica situa-se numa posição diferente (CÁRIO, 1995; DOSI, 2006). A teoria da indução pela demanda apresenta limitações teóricas, podendo destacar três elementos principais: a) a passividade e mecanização do processo de reação das às mudanças técnicas decorrentes das condições do mercado; b) a incapacidade da teoria em definir quando e por que, bem como o timing de determinados desenvolvimentos tecnológicos ocorrem em detrimento de outros; e c) o fato de a teoria desconsiderar as mudanças que ocorrem no decorrer do tempo. 32 Por sua vez, a teoria do impulso pela tecnologia limita-se a considerar a ciência como um fator exógeno e neutro, sem nenhuma interação com a tecnologia e o ambiente econômico. O motivo pelo qual determinada trajetória tecnológica é escolhida em detrimento de outra é freqüentemente questionado. Verifica-se, entretanto, que forças econômicas e aspectos sociais e institucionais funcionam como seletores ex ante do conjunto de possibilidades, estabelecendo a trajetória. A capacidade de redução de custos dos fatores de produção funciona também como critério de seleção da trajetória tecnológica, principalmente em relação àquelas tecnologias que reduzem custos com mão-de-obra. Após a seleção do paradigma, são definidas as direções que os problemas serão solucionados, as chamadas direções do progresso técnico (DOSI, 2006). A direção da mudança tecnológica é definida pela trajetória tecnológica, o que implica na existência de duas heurísticas, uma positiva e outra negativa (CÁRIO, 1995), que correspondem, respectivamente, as direções nas quais se deve tomar ou negligenciar (POSSAS, 1988; DOSI, 2006). Kupfer (1996) destaca que o paradigma tecnológico é específico de cada setor, pois é resultante do conhecimento científico ou tácito e da acumulação de conhecimento com base na experiência prévia dos inovadores, bem como da tecnologia e institucionalidade de cada setor. Tal fato contribui para as diferenças existentes entre setores (CONCEIÇÃO, 2000). 3.2. Geração, difusão e adoção de tecnologia A inovação é de grande importância para a criação de riqueza, a partir da transformação do conhecimento (RIBEIRO, 2001) e ainda contribui para elevar a produtividade e capacidade competitiva das empresas nacionais, principalmente se existir ganho extra, com base na diferenciação de produto (ARRUDA et al., 2006). A inovação tecnológica está relacionada ao processo de geração, difusão e aplicação do conhecimento em qualquer setor da economia, influenciando no progresso econômico (OCDE, 2004). 33 Salermo e De Negri (2005) colocam que a inovação permite a geração de ativos específicos para as empresas brasileiras que, somados a vantagens comparativas de países em desenvolvimento (como dotação de mão-de-obra e recursos naturais) são determinantes para inserção no mercado internacional. De acordo com Conceição (2000), OCDE (2004) e Nelson e Winter (2005), o conceito de inovação utilizado por autores que trabalham com a questão da mudança tecnológica deriva de Schumpeter (1934) e pode ser definida como:  introdução de um novo bem ou mudança qualitativa em um bem existente;  introdução de um novo método de produção que seja novo para a indústria;  a abertura de um novo mercado;  desenvolvimento de uma nova fonte de suprimentos de matéria-prima e/ou outros insumos;  estabelecimento de uma nova forma organizacional industrial. Para Schumpeter (1939), apud Freeman (1984), em uma economia capitalista as inovações tecnológicas constituem a base para o desenvolvimento econômico a partir da geração de oportunidades de investimentos, de crescimento e emprego, com base no lucro por elas gerado. Segundo Machado (2007), a magnitude da mudança na base econômica do setor está atrelada ao tipo de inovação adotada e à extensão da mudança em conseqüência da inovação. Em relação ao tipo, a inovação pode ser nova para o mercado e/ou nova para a empresa (TIRONI, 2005). Ou seja, as empresas possuem dois caminhos alternativos ao processo inovador (SANTINI et al., 2006). São eles:  adoção ou inovação como difusão: aquisição de produtos ou processos tecnologicamente novos de fontes externas à empresa; e  esforço inventivo: atividade criativa da empresa para desenvolver produtos ou processos tecnologicamente novos ou melhorados. A inovação para o mercado consiste na introdução de um produto ou processo tecnologicamente que ainda não existe no mercado, seja a nível local, nacional ou mundial. Quando a inovação é para a empresa, o produto já existe no mercado. Neste caso, a inovação tem caráter de difusão de uma inovação já produzida por outra empresa que já conquistou o mercado (TIRONI, 2005). 34 A realização de esforço inventivo por parte das empresas, ou seja, quando ocorre inovação para o mercado, implica na abertura de novos mercados, possibilitando maiores ganhos para a empresa inovadora uma vez que há monopolização do mercado. Por outro lado, quando a inovação é para a empresa ocorre adoção de produtos ou processos tecnologicamente novos já existentes no mercado. A possibilidade de ganho a partir do monopólio é um grande incentivador das atividades inovativas. Assim, pode-se inferir que a inovação para o mercado gera maior impacto tecnológico e econômico quando comparado à inovação para a empresa (TIRONI, 2005). No que diz respeito a sua extensão, uma inovação pode ser classificada como radical ou incremental. Uma inovação radical é caracterizada pela presença de eventos descontínuos, na qual ocorre uma mudança técnica e organizacional do modo de produção, podendo representar uma ruptura com o padrão tecnológico até então em vigor, dando origem a uma nova indústria e podendo alterar o perfil econômico (MACHADO, 2007; SANTINI et al., 2006). A inovação incremental ocorre de forma mais freqüente quando comparada à radical. Neste tipo de inovação são realizadas apenas melhorias e adaptações em tecnologias existentes, sem alteração na estrutura industrial. De modo geral, no Brasil, as inovações mais freqüentemente realizadas pelas indústrias são do tipo incremental. O setor de máquinas e equipamentos agrícolas não se diferencia do perfil inovativo brasileiro. Outra classificação decorrente do processo inovativo pode ser feita em relação ao seu nível de criatividade e originalidade. De acordo com Santini et al. (2006), a mudança pode ser desde uma imitação duplicativa até uma inovação original. A imitação duplicativa pode ser considerada como uma cópia, entretanto, é realizada adaptações e melhorias nas características e desempenho da tecnologia adotada pela empresa imitadora. A inovação original constitui o desenvolvimento de um novo produto ou processo ainda não existente no mercado mundial. A inovação tecnológica pode ser classificada, ainda, quanto à sua natureza. Ou seja, se a inovação é um produto ou processo tecnologicamente novo ou significativamente aprimorado/melhorado (TIRONI, 2005). 35 De acordo com a OCDE (2004; 21), “uma inovação tecnológica de produto consiste na implantação/comercialização de um produto com características de desempenho aprimoradas de modo a fornecer objetivamente ao consumidor serviços novos ou aprimorados”. Por sua vez, “uma inovação de processo tecnológico e a implantação/adoção de métodos de produção ou comercialização novos ou significativamente aprimorados”. Tironi (2005) coloca que a inovação em produto é mais importante do que a inovação de processo. Segundo o autor, a inovação de processo representa uma ação ofensiva da empresa a partir do aumento da competitividade via aumento da produtividade. Já a inovação de produto representa um comportamento mais pró- ativo, em que a empresa obtém aumento de competitividade através da diferenciação de produtos e abertura de novos mercados. No Brasil, o percentual de empresas de grande porte (acima de 500 funcionários) que inovam em processos e produtos é maior quando comparado com o percentual de empresas que inovam somente em produto ou somente em processo. Isto implica que a empresa que é inovadora em produto, também o é em processo. Ao considerar empresas de pequeno e médio porte (com 499 funcionários ou menos), o percentual de empresas que inovam em processo é maior do que o número de empresa que inova em produtos e em ambos. Isto se deve ao fato de que as empresas nacionais dão grande importância à aquisição de máquinas e equipamentos como atividade inovativa. Em relação às firmas transnacionais que estão inseridas em território brasileiro, Salermo e De Negri (2005) verificaram que 79% destas firmas não inovam e não diferenciam produtos. O que justifica tal fato são as vantagens comparativas que o país possui, tais como mão-de-obra barata e recursos naturais abundantes quando comparado com outros países. Estes fatores acabam atraindo firmas cujos produtos são padronizados e com menor nível tecnológico. O processo inovador em firmas especializadas na produção de produtos padronizados e, portanto, que diferenciam no mercado a partir de preços menores, e em firmas que não diferenciam seus produtos e têm produtividade menor está associado ao processo de difusão de inovações, principalmente as de processos. 36 A análise sobre atividade inovativa ocorridas entre períodos diferentes deve considerar o ambiente econômico no qual as empresas estão inseridas. Fatores como crédito, taxa de juros e inflação exercem influência significativa no processo inovativo das empresas, principalmente devido à existência do fator risco, característica inerente ao processo de inovação (TIRONI, 2005). Estas influências puderam ser observadas nos resultados da Pesquisa de Inovação Tecnológica – PINTEC, realizada no ano de 2005. A presença de um ambiente econômico favorável no ano de realização da pesquisa possibilitou um desempenho mais pró-ativo das empresas industriais brasileiras quando comparadas com o ano de 2003, período em que o país passava por restrições orçamentárias (IBGE, 2005). A pesquisa do IBGE indicou que a taxa de inovação nas empresas industriais apresenta forte correlação com o tamanho da empresa. Este comportamento não é verificado para empresas do setor de serviços. A taxa média de inovação das empresas industriais obtidas pela PINTEC 2005 (33.4%), quando comparada com a PINTEC 2003 (33,3%) permaneceu praticamente constante, conseqüência da redução da taxa de inovação pelas empresas com menos de 50 funcionários. As empresas com mais de 50 pessoas ocupadas tiveram taxas positivas de inovação. O grau de intensidade tecnológica do setor de máquinas e equipamentos, considerado pela OCDE como um setor de média-alta intensidade tecnológica, corresponde a 39,3%, acima da média das indústrias (33,4%). De acordo com Salermo e De Negri (2005), firmas especializadas na produção de produtos padronizados e as firmas que não diferenciam e possuem menor produtividade atribuem maior importância ao processo inovativo para ampliar a capacidade produtiva e obter maior flexibilidade da produção. Em contrapartida, as firmas inovadoras atribuem importância ao processo inovador como forma de se adequar aos novos padrões de mercado externo, ou seja, as firmas realizam a atividade inovativa como instrumento de permanência no mercado. Empresas inovadoras possuem mão-de-obra com salários maiores, pois, demandam mão-de-obra mais qualificada, com nível de escolaridade maior. Este tipo de firma tem condições maiores de diferenciar seus produtos garantir maior qualidade do produto final. O maior nível tecnológico influencia no posicionamento competitivo da empresa. 37 3.2.1. A geração da tecnologia De acordo com Kline e Rosemberg (1986), o processo de desenvolvimento de uma inovação começa a partir da percepção de um problema ou de uma necessidade. A partir disso, atividades de pesquisa e desenvolvimento começam a ser realizadas a fim de se obter uma inovação que resolva o problema ou a necessidade (ROGERS, 2003). Entretanto, em alguns casos, a percepção pode ocorrer em relação a um problema futuro, previamente reconhecido. O processo de geração de inovação tecnológica após a Segunda Guerra Mundial era visto por cientistas como um processo linear e “bem comportado”. Este modelo é constituído de quatro etapas. São elas: pesquisa, desenvolvimento, produção e comercialização. Entretanto, o modelo linear não apresenta feed-back durante o processo de geração da inovação, distorcendo a realidade do mesmo (KLINE E ROSEMBERG, 1986). Segundo Cassiolato et al. (2005), foi a partir da abordagem evolucionária, no qual rejeita a hipótese de que as tomadas de decisões são otimizadoras, que surgiram os modelos de inovação não-lineares, incluindo os aspectos externos às empresas. Neste modelo, a inovação resulta de interações complexas em nível local, nacional e mundial entre indivíduos, empresas e instituições na busca de novos conhecimentos e o processo de inovação deixou de ter como foco apenas a atividade de P&D e passou a se preocupar com fatores complementares, dentre eles, a cooperação entre os agentes (PROCHINIK e ARAÚJO, 2005). O modelo não-linear foi elaborado por Kline e Rosemberg (1986) e é conhecido como “modelo do elo da corrente” (Figura 3.1). Pesquisa Conhecimento Mercado potencial Inventa ou produz projeto analítico Projeto detalhado e ensaio Redesenha e produz Distribui e comercializa FIGURA 3.1 – Elementos do modelo do elo da corrente Fonte: Kline e Rosenberg, 1986. 38 Nesse contexto, insere-se a noção de sistema de inovação, que está atrelada à necessidade da ação conjunta e coordenada entre vários atores do sistema social, cuja finalidade é o desenvolvimento econômico (TATSCH, 2008). De acordo com o modelo do elo da corrente, a inovação reflete a interação entre as oportunidades de mercado e a base de conhecimento e capacidade da empresa (OCDE, 2004). Neste modelo, verifica-se a necessidade de retornar aos estágios anteriores no desenvolvimento da inovação para reparar os problemas e dificuldades encontrados e manter sempre uma comunicação eficiente entre os elos do processo. Neste contexto, Rogers (2003) cita que o processo de geração de inovação corresponde às atividades e seus impactos decorrentes do reconhecimento de uma necessidade ou problema, bem como da atividade de pesquisa, desenvolvimento e comercialização. De acordo com Kline e Rosenberg (1986), não é sempre que a pesquisa precede a inovação. Pode ocorrer de a inovação levar ao desenvolvimento de pesquisa. No modelo da corrente, a pesquisa é utilizada na solução de problemas em qualquer etapa do processo de geração de inovação. Segundo a OCDE (2004), os problemas que surgirem durante o processo de geração de inovação podem ser solucionados pelos conhecimentos prévios que a empresa possui com base em experiências passadas. Em alguns casos, a geração de inovação pode resultar apenas do conhecimento prévio que os funcionários de uma empresa possuem com base em suas experiências ou em informações disponíveis. Para os problemas que não foram solucionados com os conhecimentos disponíveis, a empresa utiliza da pesquisa, o que aumentará seu conhecimento acumulado (KLINE E ROSENBERG, 1986). Nota-se que o processo de geração de inovação é complexo e, desta forma, é importante a existência de feedback entre as etapas do processo, de modo a solucionar as dificuldades e problemas que surgirem no decorrer do desenvolvimento da inovação. Destaca-se, entretanto, que a atividade de pesquisa neste processo não é o ponto de partida para o surgimento de uma inovação, mas constitui uma atividade presente em todas as etapas, conforme a necessidade, haja vista a falta de conhecimento e informações ao alcance dos funcionários responsáveis pela geração de determinada inovação dentro da empresa. 39 Rogers (2003) considera que muitas inovações tecnológicas são criadas através de pesquisas científicas, podendo ser, em alguns casos, resultado da ação entre métodos científicos com problemas práticos. O conhecimento base para a geração de uma nova tecnologia deriva da pesquisa básica e consiste em uma investigação inicial, sem um propósito específico para a solução de um problema prático. Nesse contexto, os principais usuários que utilizam a pesquisa básica são os pesquisadores que realizam a pesquisa aplicada e tem um objetivo específico. Para Rogers (2003) uma inovação pode resultar da seqüência de:  Pesquisa básica, seguida por  Pesquisa aplicada, que leva ao  Desenvolvimento. O autor relata que uma inovação pode ser descoberta ao acaso, seja por pessoas da sociedade, cientistas e inventores podendo ser gerada a partir de três agentes: (I) usuários líderes, que geralmente necessitam de inovações melhores que aquelas já disponíveis, (II) fornecedores de peças e materiais podem desenvolver uma inovação que será fabricada e comercializada por terceiros e (III) pela própria empresa fabricante, que pode perceber a necessidade do mercado ou ser solicitada por seus clientes. De acordo com a OCDE (2004) a existência de políticas que estimulem a geração de inovações tecnológicas só ocorreu a partir do reconhecimento da importância da inovação para os setores econômicos. Até então as políticas tinham como foco a ciência, uma vez que a atividade inovativa tinha início na pesquisa científica, tal como visto no modelo linear de inovação descrito por Kline e Rosenberg (1986). No Brasil, os mecanismos de incentivo à inovação só obtiveram importância a partir do reconhecimento do papel da inovação no mercado internacional. 3.2.2. Difusão e adoção da tecnologia A difusão tecnológica é definida por Rogers (2003: 5) como “o processo em que uma inovação é comunicada através de certos canais, ao longo do tempo, 40 entre os membros de um sistema social” em que são criadas e trocadas informações relacionadas a uma idéia nova, envolvendo certo grau de incerteza. A difusão pode acarretar alterações na estrutura e função do sistema, caracterizando-a como um tipo de mudança social. Segundo a OCDE (2004), o processo de difusão corresponde ao modo como as tecnologias se espalham a partir da primeira implantação no mundo para outras regiões e para outras empresas ou mercados. A difusão pode ocorrer através de canais de mercados ou não. Deve-se evidenciar a importância da difusão de novos conhecimentos por toda a economia. Caso a inovação não seja aplicada fora do seu local de origem o efeito produzido pode ser pequeno. De acordo com Alves (2007), o papel da difusão tecnológica na agricultura é permitir que o produtor rural tenha opção de escolha da tecnologia a ser adotada. Todavia, na prática, essa liberdade é restrita para as tecnologias mais baratas e quando há integração vertical. Cabe ressaltar que, fatores como educação, crédito, individualismo, cultura e restrições de mercado podem restringir o acesso a tecnologias, porém não impedem que elas possam ser difundidas. O processo de difusão de tecnologias entre produtores familiares ocorre, na maioria das vezes, por meio da assistência técnica, que vem acompanhada de algum nível de informação. Outras vezes, a difusão pode ser feita com base no estímulo financeiro. De acordo com Rogers (2003), o processo de difusão é composto por quatro elementos principais: inovação; canais de comunicação; tempo; e sistema social. a) Inovação A inovação, baseada na definição de ROGERS (2003), pode ser uma idéia, uma prática ou um objeto que seja percebido como novo pelo indivíduo ou outras unidades de adoção. A novidade está relacionada ao conhecimento, à persuasão ou à decisão em adotar. Uma característica do processo inovativo consiste na presença de incerteza em relação à nova tecnologia. Assim, de modo a reduzí-las, o usuário deve buscar informações, atentando-se para as vantagens e desvantagens proporcionadas. Uma nova tecnologia possui características específicas, que correspondem aos atributos percebidos da inovação, de fundamental importância no 41 processo de tomada de decisão e, como conseqüência, na determinação do percentual de adotantes da inovação. Estas características são:  Vantagem relativa: o grau em que uma inovação é percebida como melhor que uma idéia anterior;  Compatibilidade: grau em que uma inovação é percebida como sendo consistentes com os valores existentes, experiências passadas e necessidades dos adotantes potenciais;  Complexidade: grau de dificuldade para entender e usar a inovação;  Experimentabilidade: grau em que uma inovação pode ser experimentada em uma base limitada, ou seja, em menor escala e;  Observabilidade: consiste no grau em que o resultado de uma inovação pode ser visualizado por outros. Estes fatores irão influenciar no processo de adoção de inovações tecnológicas, de acordo com a percepção individual de cada usuário. b) Canais de comunicação Para que ocorra a difusão é necessário que haja um meio de comunicação a fim de que a informação possa chegar, de forma correta, até o consumidor final. O canal de comunicação consiste no meio em que uma mensagem é enviada de um indivíduo para outro. O meio mais eficiente e rápido para comunicar aos indivíduos sobre a existência de uma nova tecnologia consiste nos canais de comunicação em massa. Entretanto, canais interpessoais possuem uma capacidade de persuasão maior em relação à adoção de uma idéia nova por um indivíduo. Esse tipo de canal envolve a troca de informações entre dois ou mais indivíduos face a face (ROGERS, 2003). A comunicação humana ocorre mais freqüentemente entre indivíduos com as mesmas características, ou seja, pessoas com atributos semelhantes, tais como crenças, status socioeconômico, educação e gostos. Os resultados da comunicação entre pessoas com atributos semelhantes são mais eficazes, permitindo ganhos maiores em termos de conhecimento, formação e mudança de atitude e mudança comportamental. Entretanto, em se tratando de difusão de tecnologia, a comunicação ocorre, geralmente, entre indivíduos com atributos diferentes. 42 c) Tempo O terceiro elemento do processo de difusão, o tempo, está condicionado a três perspectivas: processo de adoção; inovatividade e; participação na adoção. (I) A decisão de adoção da inovação O processo de adoção, como pode ser notado na Figura 3.2, é constituído por cinco etapas: conhecimento, persuasão, decisão, implementação e confirmação. Estas etapas envolvem a variável tempo, uma vez que elas ocorrem de forma ordenada no tempo, permitindo reduzir as incertezas sobre a inovação. FIGURA 3.2 - Modelo dos cinco estágios do processo de adoção de inovações. Fonte: Rogers, 2003. A adoção consiste no processo em que um indivíduo, ou uma unidade de tomada de decisão, passa de um primeiro conhecimento de uma inovação para a formação de uma atitude em direção a mesma, para a decisão de adotar ou rejeitar, para implementação e uso de uma nova idéia e para confirmação desta decisão (ROGERS, 2003). A opção pela adoção de determinada tecnologia nem sempre está atrelada ao livre arbítrio. Quando uma tecnologia domina sobre as demais, a 43 sobrevivência da atividade dependerá da sua adoção, sendo imposta ao agricultor a adotá-la (BUAINAIN et al. 2007). A etapa de conhecimento ocorre quando um indivíduo toma conhecimento sobre a existência da tecnologia e obtém algum entendimento de como ela funciona. A persuasão é quando o indivíduo forma uma atitude em relação à inovação, podendo ser favorável ou desfavorável. A etapa da decisão é aquela em que um indivíduo entra na atividade que leva a escolha para adotar ou rejeitar uma inovação. A implantação é a etapa em que a inovação é colocada em uso. E, por fim, a etapa de confirmação que ocorre quando o indivíduo busca reforçar a decisão de inovar. Contudo, o indivíduo pode voltar à decisão prévia caso seja exposto informações inconsistentes sobre a inovação. O processo de decisão leva tanto à adoção quanto à rejeição da inovação, porém, ambos os processos podem ser revertidos posteriormente. Pode ocorrer a descontinuidade da adoção, devido à insatisfação do usuário, ou por substituição em razão de uma melhoria na inovação. Ocorre, também, um indivíduo adotar uma determinada tecnologia, após a prévia decisão de rejeitá-la. (II) Inovatividade A inovatividade é definida como o grau em que um indivíduo ou uma unidade de adoção adota mais rapidamente uma inovação em comparação com os outros membros de um sistema. De acordo com a classificação de Rogers (2003), os membros do sistema podem ser distribuídos em cinco categorias, de acordo com o grau de inovatividade: inovadores, adotantes adiantados, maioria adiantada, maioria atrasada e atrasados. De acordo com Machado (2007), os membros de uma mesma categoria de adotantes possuem características comuns. (III) Participação na adoção da inovação A variável tempo envolve também a mensuração do número de pessoas que adotaram inovações em um determinado período de tempo, ou seja, o tempo gasto para que determinada inovação seja adotada por indivíduos de um sistema social. 44 A participação na adoção pode ser demonstrada através da Curva S, com base na freqüência acumulada do número de indivíduos que adotaram uma nova déia. No início, poucos indivíduos adotam a inovação. Eles são classificados como inovadores. Passada esta etapa, o número de adotantes cresce rapidamente, seguido por uma etapa em que o número de adotantes começa a reduzir. São os adotantes remanescentes, que ainda não haviam adotado. Finalmente, a difusão chega ao final. Todavia, algumas variações podem ocorrer na curva S, devido a características de tecnologias diferentes (Figura 3.3). FIGURA 3.3 – Curva S de adoção de inovação tecnológica Fonte: Rogers, 2003. A variação na curva S mostra que inovações diferentes apresentam níveis de participação da adoção mais rápidos de participação do que outras, sendo que o motivo para tal variação constitui um questionamento freqüentemente realizado em relação ao processo de difusão. A participação na adoção é geralmente avaliada com base no tempo gasto para que determinada percentagem de membros de um sistema social adote uma inovação. Geralmente, essa avaliação é realizada com base na inovação feita pelo sistema, ao invés de indivíduos como unidade de análise. A participação na adoção de uma inovação específica pode ser diferente para diferentes sistemas sociais. 45 d) Sistema social O último elemento do processo de difusão tecnológica corresponde ao sistema social no qual ocorre a difusão. Rogers (2003) define um sistema social como um conjunto de unidades inter-relacionadas engajadas em resolver um problema conjunto para obter um objetivo comum. Os membros de um sistema podem ser indivíduos, grupos informais, organizações e/ou subsistemas. A pesquisa de difusão, de modo geral, tem como foco de estudo o processo de difusão sob a perspectiva do adotante, ignorando a influência do fornecedor. Nesse contexto, Frambach (1993) propôs um novo modelo de difusão de inovação, no qual o foi incorporado fatores do fornecedor para explicar o processo Figura (3.4). Dentre estes fatores, podem ser citados o processo de geração de inovação, a interação entre fornecedor e consumidor e as estratégias de marketing. Sob a perspectiva do consumidor/adotante, o autor manteve os fatores descritos por Rogers (2003). FIGURA 3.4 - Modelo integrado de difusão de inovação organizacional Fonte: Frambach, 1993 46 As variáveis relacionadas ao processo de geração de inovação exercem influência na aceitação de uma inovação após sua introdução no mercado. Isto mostra a importância das atividades pré-difusão e adoção, devendo ser incorporadas no modelo de difusão. O nível de planejamento do processo de desenvolvimento da inovação favorece a adoção pelos consumidores. O processo de geração de inovação requer diversos tipos de conhecimentos. O desempenho do produto no mercado depende do quanto a firma fornecedora consegue satisfazer as necessidades dos consumidores. Para isto, o fornecedor pode estabelecer parcerias com outras partes a fim de obter os conhecimentos necessários para tal. Assim, a adoção de uma inovação tecnológica é favorecida conforme o nível de interação da firma fornecedora com outras partes, principalmente com os potenciais adotantes. As estratégias de mercado das firmas fornecedoras podem exercer influência direta no processo de difusão de inovação. O fornecedor deve escolher quando e como entrar no mercado. A decisão de quando entrar no mercado está relacionada ao risco de entrar prematuramente no mercado ou às oportunidades perdidas, devido ao fato de entrar tardiamente. 3.2.3. Determinantes da adoção de tecnologia na agricultura No Brasil, por muito tempo, o serviço de assistência técnica era voltado para a importância da adoção de tecnologias, cujo objetivo era o aumento da produção e da produtividade, ou seja, o foco consistia no aumento da quantidade produzida. Entretanto, isso não implicou necessariamente em aumento da renda do produtor, levando muitos produtores a criar resistência para a adoção de inovações (FRANCO, 2002). Embora tenha ocorrido no Brasil diversos estímulos ao desenvolvimento da agropecuária a partir dos anos de 1960, o pequeno produtor não foi beneficiado. Tal fato contribuiu para que a agricultura familiar ficasse a margem das políticas de desenvolvimento tecnológico, produzindo com baixa tecnologia, auferindo baixa produtividade. O principal obstáculo ao acesso a esse 47 processo de modernização foi a carência de recursos e a descapitalização dos produtores familiares (BUAINAIN et al. 2007). De acordo com Franco (2002), a etapa de adoção de tecnologias no setor rural brasileiro muitas vezes deixa de ser realizada devido à dificuldade de comprovar, na prática, os resultados esperados da inovação. Ocorre que para acreditar nos resultados que a tecnologia proporcionará, o produtor rural precisa ver previamente a eficiência e eficácia da inovação, principalmente no que diz respeito à produtividade, que quase sempre se dá através de visitas a outras propriedades, pioneiras na utilização de determinadas tecnologias. Na literatura, encontram-se uma série de fatores que podem constituir barreiras ao processo de difusão e adoção de tecnologias na agropecuária brasileira. Buainain et al. (2007) listou alguns desses fatores, agrupando-os de acordo com a natureza das variáveis envolvidas. Os principais são os seguintes:  Característica sócio-econômica do produtor e de sua família: a experiência e o nível educacional das famílias é um dos fatores determinantes no processo de adoção de tecnologia. Quanto menor a escolaridade, maior é a dificuldade em obter informações e decodificá-las, bem como usar técnicas novas e de gerenciá- las.  Grau de organização dos produtores: na agricultura familiar, o tamanho das propriedades e a escala de produção constituem barreiras à adoção de tecnologia. A organização dos produtores em cooperativas, associações e em organizações informais, é uma alternativa a este gargalo.  Disponibilidade e acesso à informação: muitas tecnologias não são adotadas devido à falta de informações do produtor, contudo, esta nem sempre constitui o determinante na adoção de tecnologia, podendo ser de outra natureza como econômica, capital, mão-de-obra, creditícia, etc.  Direitos de propriedade: a questão da propriedade legal das unidades de produção dificulta o acesso às políticas públicas, principalmente de crédito, na qual poucas famílias possuem documentação legal que comprovem a posse das terras pelos produtores. Por conseqüência, a descapitalização dos mesmos restringe o acesso às tecnologias. Rogers (2003) destaca alguns fatores que afetam a difusão e adoção de tecnologias. Dentre estes fatores destacam-se: estrutura social, sistemas de 48 normas, opinião de líderes, tipos de decisão de inovação e conseqüências da inovação.  Estrutura social: pode ser definida como o arranjo desenhado de unidades no sistema a fim de regular e estabilizar o comportamento humano no sistema, permitindo predizer o comportamento com certo grau de precisão, representando um tipo de informação que reduz a incerteza.  Sistemas de normas: representam os modelos de comportamento estabelecidos pelos membros de um sistema social; definem um conjunto de comportamentos toleráveis e servem como guia ou padrão para o comportamento dos membros do sistema, além de servir como barreiras às mudanças.  Líderes de opiniões: os inovadores, em grande parte, são vistos como exceções e possuem baixa credibilidade por vários membros do sistema. Todavia, outros membros do sistema possuem a função de líderes de opinião, fornecendo informações e conselhos sobre inovações para muitos outros membros do sistema.  Tipos de decisão sobre inovação: a decisão de inovação opcional é feita por um indivíduo em adotar ou rejeitar uma inovação independente dos demais membros do sistema. Pode ser influenciada pelas normas do sistema ou pela comunicação através da rede interpessoal, em que o indivíduo é a principal unidade de tomada de decisão, ao invés do sistema social. Na decisão coletiva, as escolhas são realizadas em consenso entre os membros do sistema e todas as unidades pertencentes ao sistema devem concordar com a decisão. A decisão de inovação autoritária na qual as escolhas de adotar ou rejeitar uma inovação são feitas por poucos indivíduos que possuem poder, status ou experiência técnica.  Conseqüências da inovação: são as mudanças que ocorrem para um indivíduo ou para o sistema social, como resultado da adoção ou rejeição da inovação. Existem três tipos de conseqüências: (I) desejáveis ou indesejáveis, ou seja, se os efeitos da inovação no sistema social é funcional ou disfuncional; (II) direta ou indireta, se as mudanças ocorrem como resposta imediata ou como resultado de segunda ordem da conseqüência direta da inovação e; (III) esperada ou não- esperada, caso as mudanças são, ou não, reconhecidas ou pretendidas pelos membros do sistema social. Pode-se notar que existem diferentes barreiras à difusão e adoção de 49 tecnologias. Cada autor, todavia, tem uma abordagem diferente para descrevê-las, focando diferentes aspectos. Outros fatores ainda podem ser listados como determinantes no processo de adoção de tecnologias. Nas regiões mais carentes do país, questões como energia elétrica ainda é um grande problema para a difusão e a adoção de tecnologia. A escolaridade é outro fator que pode ser destacado. O fato é que, para que o produtor possa utilizar adequadamente as tecnologias, é necessário um mínimo de instrução para codificar as informações relacionadas ao novo produto adquirido, a fim de maximizar sua utilização e conferir os ganhos esperados com a adoção (FRANCO, 2002). A assistência técnica possui grande importância nesse processo, principalmente no caso de difusão. Atualmente, a assistência pública é o tipo mais comum de assistência utilizada pelo produtor familiar, apesar de o sistema já não ser suficiente para atender a demanda, limitando o acesso à informação. Todavia, cabe ressaltar a relação direta existente entre a adoção de tecnologia e a assistência técnica, em que é visível a melhoria da produção agropecuária quando o produtor rural é assistido pelos programas de extensão rural. No Brasil, grande parte das informações relacionadas às tecnologias é difundida pelas entidades de assistência técnica, principalmente pelas ATERs. Nas regiões onde esta se faz de modo mais eficiente, há predominantemente o uso de tecnologias no processo produtivo, como é o caso do Sul do País (BUAINAIN et al., 2007). 3.3. Cooperação para inovação A cooperação para a inovação é a participação ativa de atividades conjuntas de P&D e outros projetos de inovação com outras empresas e/ou instituições (IBGE, 2005). A contratação de serviços de outras empresas sem que haja colaboração ativa não significa cooperação. Países em desenvolvimento, como o Brasil, possuem baixo índice de cooperação. Grande parte das inovações nestes países constitui da aquisição de maquinas e equipamentos, necessitando de pouca interação e cooperação com outros agentes (PROCHINIK e ARAÚJO, 2005). 50 De acordo com Salerno e De Negri (2005), os três fatores que dificultam o processo de inovação correlacionam entre si. O risco econômico é diretamente proporcional ao custo da inovação e à possibilidade de se obter, por parte das firmas, financiamentos adequados. Cabe ressaltar que pouco peso é dado à questão da cooperação e parceria como fator restritivo no processo inovativo, devido ao fato de que o esforço inovativo ser realizado, em grande parte, somente pelo quadro de funcionários das empresas. Entretanto, verifica-se tendência para a colaboração e cooperação entre empresas através de redes cooperativas. De acordo com Lemos (1999), a inovação constitui em um processo interativo, dado a atuação de diversos agentes econômicos e sociais no intuito de fornecer diferentes informações e conhecimentos. A capacidade de gerar e absorver novas tecnologias tornou-se fundamental para a competitividade das firmas devido às rápidas mudanças no seu ambiente de atuação. Para conseguir responder prontamente às mudanças a firma necessita adquirir novos conhecimentos, baseado em novos aprendizados. O desenvolvimento de novos produtos tem demandado a integração de tecnologias cada vez mais complexas exigindo conhecimentos científicos de diversas áreas do conhecimento. Conforme Cassiolato et al. (2005), até mesmo as grandes empresas têm dificuldades em aprender a gama de conhecimentos científicos e tecnológicos necessários. O aprendizado interno deve ser complementado e está cada vez mais relacionado ao aprendizado externo. Segundo Tatsch (2008), a necessidade de adquirir conhecimentos externos se justifica pelos seguintes aspectos:  Custos crescentes no desenvolvimento de novas tecnologias;  Pela multidisciplinaridade dos novos conhecimentos; e  A natureza sistêmica e complexa dos novos produtos e processos. Deve-se evidenciar que o conhecimento interno é condição necessária para o conhecimento externo devido à necessidade de absorção, elaboração e assimilação do conhecimento adquirido externamente e que, apesar de o conhecimento externo não poder substituir o conhecimento interno, ele pode aumentar a sua velocidade e/ou mudar sua direção e dimensões (CASSIOLATO et al, 2005). O papel das instituições de ensino e pesquisa que fornecem subsídio científico e tecnológico para a geração de conhecimentos e capacitação de recursos 51 humanos é fundamental, pois, tendo em vista o caráter interativo das inovações, sabe-se que uma empresa não inova sem que haja colaboração de outros agentes. Apesar do rápido desenvolvimento de novas tecnologias de informação e de comunicação ter facilitado o processo de transferência de conhecimentos, é importante destacar que somente o conhecimento codificado e as informações podem ser transferidos. O conhecimento codificado é aquele que pode ser armazenado, memorizado, transacionado e transferido, podendo também ser reproduzido e comercializado a custos baixos (LEMOS, 1999). Conhecimentos tácitos, de caráter local, específico adquiridos pelas firmas a partir de experiências passadas nas práticas de pesquisas não são facilmente transferíveis e exercem papel fundamental no sucesso inovativo das firmas. O conhecimento que não é codificado só é possível ser transferido caso haja interação social. Para a autora, somente as empresas detentoras deste tipo de conhecimento são capazes de responder às mudanças tecnológicas e de mercado. O conhecimento tácito constitui um fator limitante do processo de geração de inovação tecnológica. Cassiolato e Lastres (2001) ressaltam a importância da proximidade geográfica entre as empresas associados a processos de aprendizados específicos e do conhecimento tácito no processo. Os novos conhecimentos adquiridos pelas firmas dependem da capacidade destas em aprender. Por sua vez, a capacidade de aprender depende do aprendizado anterior e da capacidade de esquecer. A busca por aprendizados advindos de diversas áreas do conhecimento, principalmente àqueles que somente são possíveis de serem transferidos através da relação realizada entre indivíduos de um determinado sistema social ou entre organizações localizadas em ambientes com dinâmica específica, tem conduzido a interação entre as firmas permitindo transferência de informações e conhecimentos por meio da criação de redes cooperativas. Deste modo, a capacidade dos agentes em decodificar e utilizar conhecimentos tácitos somente será possível dada a sua participação em redes de interações a fim de participar do processo de aprendizado interativo (LEMOS, 1999). A formação de redes tem constituído o modelo organizacional mais adequado para fomentar a geração de conhecimentos e inovações a partir do aprendizado interativo. 52 De acordo com Brito (2002), existem quatro formas de aprendizado coletivo específicos do ambiente de rede de empresas. São eles:  Criação de conhecimentos intencionalmente desenvolvidos em cooperação: o trabalho é dividido entre os agentes envolvidos nas atividades de P&D;  Circulação de conhecimentos tecnológicos no interior do arranjo: este tipo de aprendizado possui caráter informal, em que a cooperação tecnológica permite a troca de informações interferindo no esforço tecnológico dos agentes;  Incremento coordenado das competências dos agentes participantes da rede: realizado a partir da capacitação e treinamento dos agentes;  Difusão de novas tecnologias: a rede favorece a difusão de novas tecnologias mais rapidamente quando comparados a mercados comuns. As organizações em redes podem apresentar diversos formatos, dadas as diferenças nas características de cada um. Dentre estes formatos podemos citar as aglomerações também conhecidas como clusters e os arranjos produtivos. Formatos organizacionais como, por exemplo, clusters e distritos industriais obtêm ganhos de eficiência dado a aglomeração espacial das atividades. Além disso, possuem algumas especificidades como aprendizado interativo, alta confiança nas relações, proximidades geográficas e aspectos culturais semelhantes. Estas especificidades são fontes importantes de diversidades e vantagens comparativas. A formação de parcerias possibilita a firma a se especializar, permitindo-a o desenvolvimento de competências que serão divididas entre os integrantes da rede (LEMOS,1999). Cassiolato et al. (2005) ressaltam a importância da cooperação informal e da confiança na formação de redes e dependem de fatores culturais, experiência pessoal, lealdade e afinidade entres as partes envolvidas. A realização de práticas cooperativas baseadas na troca de informações tácitas e codificadas possui três impactos básicos: (i) ao mesmo tempo em que a cooperação consiste em um instrumento eficaz de processamento de informações, ela permite a reunião de competências complementares necessárias ao aumento da eficiência produtiva e ao processo inovativo; (ii) permite às firmas melhores condições para enfrentar problemas do sistema em que estão inseridas e facilita a identificação e exploração de oportunidades tecnológicas; e (iii) ressalta a importância da dimensão intertemporal no processo de cooperação, no qual a cooperação ao longo do tempo facilita a comunicação entre os agentes. 53 Prochinik e Araújo (2005) listam três principais benefícios que os agentes envolvidos na atividade inovativa podem obter a partir da cooperação. São eles:  Possibilita a criação de produtos e processos mais significativos quando criados em conjunto do que criado por esforço individual;  Permite a transferência de conhecimentos entre os diversos agentes;  Permite a obtenção de vantagem competitiva, caso a inovação tenha sucesso. Na agropecuária, as parcerias no desenvolvimento de inovações tecnológicas ocorrem de modo geral com universidades e centros de pesquisas e com fornecedores. Estas parcerias podem ser formais ou informais e têm por finalidade o desenvolvimento de novos produtos e/ou processos, além de atividades de capacitação e assistência técnica. A parceria com fornecedores ocorrem principalmente no desenvolvimento e testes de novos equipamentos e embalagens (SANTINI et al., 2005). Entretanto, no setor de MEA o estabelecimento de parcerias entre universidades e empresas para a geração de inovação tecnológica é baixa. De modo geral, a parceria quando ocorre tem como objetivo a aquisição de conhecimentos que a empresa não possui, não sendo vista como uma questão estratégica (NANTES e LUCENTE, 2009). O desenvolvimento de inovações tecnológicas no setor de MEA é de responsabilidade apenas da própria empresa. A presença de cooperação entre a empresa e outras instituições de pesquisas e universidades é quase nula. Uma pequena mudança foi notada durante a realização da PINTEC 2005 (2003-2005). Neste período ocorreu um pequeno aumento na presença de outras empresas ou institutos no desenvolvimento das inovações. Tal fato permite inferir que o setor transfere pouca tecnologia, uma vez que a geração do conhecimento e sua transformação em tecnologia ocorrem dentro da própria empresa fabricante de MEA. No caso das pequenas empresas do setor, verifica-se maior relação de cooperação com outras empresas e organizações a fim de buscarem subsídios e capacitações para implementarem inovações tecnológicas que as mesmas ainda não possuem, de modo a contornar suas limitações de capacidade através de parceiras colaborativas. Nesse sentido, Tatsch (2008:35) coloca que “a trajetória de capacitação produtiva e até inovativa das pequenas empresas fortalece-se, na 54 medida em que se intensificam as relações com as demais empresas e organizações do arranjo”. Na União Européia, a propensão em realizar atividades inovativas em cooperação é influenciada em grande parte pelo porte da empresa. De acordo com Cassilato et al (2005), na Dinamarca a minoria das empresas possuem algum tipo de parceria com universidades. A cooperação com universidades se dá em grande parte por empresas de grande